segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Nas redes sociais, certos homens, certas verdades

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 Jovens estão expostos ao conteúdo de influenciadores masculinistas, que divulgam visões retrógradas e potencialmente nocivas sobre masculinidade e relacionamentos (Foto: Pixabay)

É uma nebulosa. Influenciadores e produtores de vídeo engajados na defesa de uma identidade masculina que consideram ameaçada. Frequentemente ligados à extrema direita, suas principais figuras vêm em socorro do patriarcado, soldados valorosos de uma guerra feroz, às vezes cínica, inteiramente dedicada à causa dos homens


Ao saber do apoio de Éric Ciotti1 ao partido francês de extrema direita Reunião Nacional (RN), Julien Rochedy não escondeu a alegria: “Meu sonho político há mais de dez anos”, exultou em sua conta no X (137 mil seguidores). O dinâmico trintão, diretor da juventude da então Frente Nacional (atual RN) no início dos anos 2010, deixou o partido de extrema direita em 2014, principalmente para protestar contra a presença de “garotos ao redor de Florian Philippot”,2 “pessoas que não são homens segundo [seu] coração”. Desde então, Rochedy tentou criar uma escola de masculinidade e sedução (a escola Major), um projeto que não teve sucesso, apesar de sua receita original (“coragem”, “espírito de conquista”, “vontade de potência”). Atualmente, ele segue uma carreira de videomaker na internet e publica livros pela Éditions Hétairie: L’Amour et la guerre. Répondre aux féministes [O amor e a guerra. Responder às feministas], de 2021; Veni vidi vici. Menaces sur les gauchistes [Veni vidi vici. Ameaças aos esquerdistas], também de 2021, com o blogueiro e influenciador Papacito; Surhommes et sous-hommes. Valeur et destin de l’homme [Super-homens e sub-homens. Valor e destino do homem], de 2023… Fica evidente que o ensaísta tem suas obsessões: ele quer restaurar o “ideal de uma virilidade saudável e aristocrática para a masculinidade, aquela do ‘homem total’ europeu, do grego ao cavaleiro medieval”.

Com os também influenciadores Papacito, Baptiste Marchais, Valek e Stéphane Edouard, Julien Rochedy representa a fina flor da esfera masculinista francesa (a “manosfera”), que fantasia um mundo regido por mulheres no qual a masculinidade estaria ameaçada, em um discurso que mistura homofobia, misoginia e frequentemente xenofobia e desejo de autoritarismo. Ideias cada vez mais compartilhadas, observa a antropóloga Mélanie Gourarier, que investigou durante vários anos grupos de sedutores. “Esse discurso se desenvolve há três décadas na França e mais amplamente na Europa e na América do Norte, em torno da defesa dos pais, dos homens e do masculino de forma geral. Aparentemente sem relação entre si, esses relatos vitimistas procedem da mesma ideologia masculinista, baseada na apologia da ‘causa dos homens’.” Uma reação “às lutas feministas” e a “várias décadas de opressão misândrica”.3

Alguns deles, os pick-up artists [artistas da sedução], viram aí uma oportunidade. Mediante pagamento, eles treinam seus pares, paralisados pelas novas regras do mercado sexual. Ao mesmo tempo estetas e caçadores, sua habilidade em “capturar” indivíduos femininos impressiona. Não hesitam em usar qualquer manipulação para “fisgar” mulheres e colocá-las em suas camas, trocando truques para vencer “a resistência de última hora”, aquela que poderia fazer sua presa fugir.

Os incels,4 por sua vez, resignam-se ao celibato e odeiam as mulheres que os privam das relações sexuais a que acham que têm direito. Em seus fóruns na internet, alimentam ideias sombrias. Como Elliot Rodgers (seis vítimas em 2014) e Scott Beierle (duas em 2018), nos Estados Unidos, e Jake Davison (cinco vítimas em 2021), no Reino Unido, os mais radicais cometem atentados e depois se suicidam. Nos tempos atuais, consideram que manter relações com mulheres constitui um perigo. Quantas carreiras destruídas após uma “feminazi” reclamar de um comportamento inapropriado? A justiça, totalmente misândrica, decidiria sistematicamente em favor das mães em caso de divórcio, privando os homens de seus filhos, enquanto os condena a pagar pensões alimentícias arruinadoras.

Na época de 1968, seguindo o modelo dos grupos de conscientização feministas, homens se reuniam para discutir o patriarcado e seus males. No entanto, “a iniciativa de se reunir entre homens”, explica Francis Dupuis-Déri, “abriu caminho para o desenvolvimento da ideologia masculinista e de uma onda antifeminista. Deve-se dizer que a não mistura para os grupos dominantes não tem o mesmo significado político nem o mesmo efeito que para os subordinados”.5 Observando a recorrência de “crises da masculinidade” em épocas e sociedades tão distantes quanto a Roma antiga, a Alemanha nazista e a Índia contemporânea, o cientista político zomba: “Os homens não estão em crise, eles fazem as crises”.

“A recorrência histórica do tema da ‘crise’ ou do ‘mal-estar’ da masculinidade destaca de fato o papel dessa motivação como um instrumento de resistência em relação à evolução das relações de gênero”, escreve Mélanie Gourarier. Essa retórica alarmista é um marcador e uma bandeira, a causa comum de um movimento social contrário que é encarnado, por causa da internet e das redes sociais, pelas figuras da “manosfera”.

Na França, o masculinismo on-line contribui para a batalha cultural da extrema direita. Veteranos eminentes abriram caminho para a jovem guarda. Antes de reeditar La France juive [A França judia], de Édouard Drumont, Alain Soral se alarmava com o destino dos homens em seus livros6 e filmava Confession d’un dragueur [Confissão de um paquerador] em 2001. Na época, os críticos da revista Les Cahiers du cinéma não odiaram a produção. Por sua vez, Éric Zemmour, candidato a presidente da França em 2022 pelo partido Reconquista, também de extrema direita, vinculava precocemente o destino do país à defesa da virilidade. Em seu livro Le Premier sexe [O primeiro sexo] (Denoël, 2006), aprendíamos que “tudo aconteceu como se os homens franceses e europeus, tendo colocado seu falo no chão, não podendo ou não querendo mais fecundar mulheres que se tornaram rebeldes, tivessem chamado para socorrê-los seus antigos ‘servos’, os quais haviam emancipado”. O L’Express (23 fev. 2006) observava então que, “no conformismo reinante, um pouco de insolência não faz mal”.

Entre os influenciadores masculinistas franceses, Anne-Thaïs du Tertre d’Escoeuffant, mais conhecida pelo pseudônimo de Thaïs d’Escufon, se destaca. Membro efêmera do Action Française e porta-voz da Génération Identitaire, movimentos da extrema direita francesa, ela agora luta na internet contra “a sociedade moderna, que tornou o homem miserável e a mulher sem princípios”.7 A crítica, novíssima especialista em relações homem-mulher, corre em socorro da masculinidade branca e, no processo, quadruplica seu número de seguidores.

Convencida de que “as feministas destruíram tudo”, Thaïs d’Escufon não negligencia nenhum canal. No X, no YouTube, no TikTok e no Telegram, ela ataca as mulheres “desvairadas” e avisa: “Um homem com um futuro brilhante merece uma mulher com um passado puro”. Os “homens médios” são zelosos e aprendem por conta própria a evitar as armadilhas das tchoins – o equivalente a “garota fácil” no dialeto marfinense… – para encontrar uma “mulher de alto valor” com quem construir uma família. Assim, ela exorta seus 64.900 seguidores no X: “Se uma mulher realmente te ama e você a trata corretamente, ela vai: cozinhar para você, dormir com você, apoiar seus projetos, te dar filhos, limpar a casa, te obedecer, te respeitar. É o mínimo. Caso contrário, vá embora”.

O algoritmo do TikTok não se preocupa com sutilezas: o modelo econômico da rede social preferida dos jovens de 15 a 24 anos incentiva a disseminação de conteúdos escandalosos. O último relatório do Alto Conselho para a Igualdade entre Mulheres e Homens sobre o estado do sexismo na França não convida ao otimismo. “Os reflexos masculinistas e os comportamentos machistas se enraízam, particularmente entre os jovens homens adultos, enquanto a atribuição das mulheres à esfera doméstica e ao papel materno ganha terreno.”8 No entanto, não é certo que o mérito seja apenas de Thaïs d’Escufon.

Em 26 de maio de 2024, Thibaud Delapart, também conhecido como Tibo InShape (20 milhões de seguidores), tornou-se o maior youtuber francês. Entre duas sessões de abdominais, ele participa da promoção do Serviço Nacional Universal (SNU, um programa oficial com atividades cívicas e educativas voltado para a juventude) em um vídeo patrocinado pelo governo, grava um vlog com a polícia e se emociona com a insegurança pública. Se encarna certa virilidade, o videomaker fitness também sente emoções como qualquer outra pessoa. Em junho de 2017, Delapart organizou o concurso Miss InShape para encontrar uma companheira: “Você é uma garota e tem pelo menos 18 anos? Faça um vídeo se apresentando e explicando por que você deve ser a nova senhora InShape, e os assinantes votarão para eleger a melhor candidata!”. Recentemente, ele compartilhou suas “questões íntimas” com a sexóloga Thérèse Hargot. “Como durar mais tempo na cama?”, perguntou. Sexo “é um trabalho em equipe”, ela responde. “As mulheres são responsáveis por sua sexualidade. […] Não é porque recebemos que devemos ser passivas. É como quando você recebe alguém em casa […], você decide o que serve de aperitivo e quando traz a sobremesa.”

Entre dominação e desconstrução, o patriarcado se reinventa

Banalizados pelos influenciadores, os conteúdos masculinistas proliferam agora na internet, especialmente em fóruns como Reddit ou jeuxvideo.com, favorecidos pelo uso de codinomes. “As redes sociais de grande público, como Twitter, Facebook, Instagram, TikTok e Snapchat, tornaram-se plataformas de promoção dessas ideias masculinistas”, observa um relatório do Instituto do Gênero em Geopolítica (IGG). “Uma situação ainda mais preocupante, pois a maioria dos usuários é jovem e as redes sociais são parte integrante de sua construção social.”9

Raewyn Connell, socióloga australiana, já observava em 1995 como a dominação masculina lida com a contestação de sua legitimidade. Segundo ela, “a masculinidade hegemônica encarna uma estratégia ‘aceita em um dado momento’. Quando as condições de defesa do patriarcado mudam, os fundamentos da dominação de uma masculinidade particular erodem”.10

Essa masculinidade hegemônica, constantemente renegociada, permite que a dominação masculina se reinvente e, ao mesmo tempo, se mantenha. Mélanie Gourarier aponta como “a nova injunção à afirmação de uma sensibilidade e emotividade propriamente masculinas não deve ser pensada como um enfraquecimento do masculino”. Pelo contrário, isso contribuiria para “a elaboração de uma nova normatividade masculina, em detrimento dos homens que não são capazes de apropriar-se dela por falta das disposições necessárias. Não basta ser homem para usufruir do poder que esse status proporciona, é preciso ser ‘corretamente’ homem”.

Ora, o espírito do tempo é de questionamento das violências sexistas e sexuais e das atribuições de gênero. Os empreendedores da web não podem ignorar isso. A comunidade de Benjamin Névert, “um cara ‘desconstruído’, um verdadeiro”, certifica o Le Monde (10 out. 2021), conta com mais de 560 mil pessoas no YouTube. O autor de Je ne suis pas viril [Não sou viril] (First, 2021) relata regularmente as dificuldades dos homens e as injunções que pesam sobre eles. Em seu programa Entre mecs [Entre os caras], seus convidados podem compartilhar suas dificuldades em dizer “eu te amo” e discutir temas variados, como paquera, sexo e separação amorosa. Ou falar do pênis.

“Hoje sou claramente um homem feminista”, argumenta “Ben” Névert. Prova disso é o filme de “realismo sensível, humano e comovente” que ele dirigiu em 2022 para a Dorcel. A líder francesa da indústria pornográfica, cujos colaboradores são acusados de estupro, proxenetismo agravado e tráfico agravado de seres humanos, pôde então adicionar ao seu catálogo a obra do influenciador: Vrai couple, vraie baise [Casal verdadeiro, foda verdadeira]. O patriarcado sofreu um grande golpe.

*Anne Jourdain é professora.

 

1 Presidente do partido da direita tradicional Os Republicanos (LR), expulso “por unanimidade” da agremiação em 12 de junho após declarar apoio ao Reunião Nacional nas eleições de 7 de julho.

2 Liderança do Frente Nacional especialmente nos primeiros anos da década de 2010, quando desempenhou papel importante na estratégia de campanha de Marine Le Pen na eleição presidencial de 2012. Em 12 de dezembro de 2014, a revista Closer revelou que Philippot é homossexual, publicando fotografias em que ele aparece ao lado de um homem com o rosto desfocado, apresentado como seu companheiro. Dois dias depois, Philippot confirmou sua homossexualidade. Em setembro de 2017, ele deixou o Frente Nacional por causa de divergências internas e fundou seu próprio movimento político, Os Patriotas.

3 Mélanie Gourarier, Alpha Mâle. Séduire les femmes pour s’apprécier entre hommes [Macho alfa. Seduzir as mulheres para se apreciar entre homens], Seuil, Paris, 2017.

4 Contração de involuntary celibate [celibatário involuntário].

5 Francis Dupuis-Déri, La crise de la masculinité. Autopsie d’un mythe tenace [A crise da masculinidade. Autópsia de um mito tenaz], Éditions du Remue-Ménage, Montreal, 2018.

6 Como Alain Soral, Sociologie du dragueur [Sociologia do paquerador], Éditions Blanche, Paris, 1996; e Vers la féminisation? Démontage d’un complot antidémocratique [Rumo à feminização? Desmontagem de um complô antidemocrático], Éditions Blanche, 1999.

7 “Les femmes modernes ont tout détruit!” [As mulheres modernas destruíram tudo!], entrevista concedida ao Livre Noir em 12 de novembro de 2023, www.droite.tv.

8 “Rapport annuel 2024 sur l’état des lieux du sexisme en France. S’attaquer aux racines du sexisme” [Relatório anual de 2024 sobre o estado do sexismo na França. Atacar as raízes do sexismo], n.2024-01-22-STER-61, 22 jan. 2024, www.haut-conseil-egalite.gouv.fr.

9 “Contrer les discours masculinistes en ligne” [Contrariar os discursos masculinistas on-line], Institut du Genre en Géopolitique, 16 out. 2023, https://igg-geo.org.

10 Raewyn Connell (org.), “Masculinités. Enjeux sociaux de l’hégémonie” [Masculinidades. Desafios sociais da hegemonia], Éditions Amsterdam, Paris, 2022.

Fonte:  https://diplomatique.org.br/nas-redes-sociais-certos-homens-certas-verdades/

Hayek foi um inimigo da liberdade

POR Ingar Solty

Tradução
Everton Lourenço
 
 
 O economista e filósofo político áustro-britânico Friedrich von Hayek, em torno de 1940. (Apic / Getty Images)

O economista austríaco Friedrich August von Hayek teorizava sobre a necessidade de manter as massas afastadas das alavancas do poder estatal — e ainda fazia isso em nome da defesa da "liberdade".

De todos os inimigos da democracia e da liberdade, Friedrich August von Hayek foi provavelmente o mais inteligente. No mínimo, ele foi o mais influente: as estruturas da economia global de hoje – a União Econômica e Monetária Europeia, os bancos centrais, as “emendas orçamentárias de equilíbrio fiscal” inseridas nas constituições nacionais e os acordos de “livre” comércio que garantem os lucros futuros para o capital – baseiam-se essencialmente nas suas idéias e nas de seus alunos.

Dizem que Margaret Thatcher certa vez tirou da bolsa o livro de Hayek A Constituição da Liberdade, durante uma reunião política do Partido Conservador e proclamou: “É nisso que acreditamos!” Mesmo depois de cinquenta anos de devastação neoliberal, ainda existem aqueles que mantêm uma fé verdadeira. Um deles é Javier Milei. Quando o filho de um empresário de capital em ascensão foi eleito presidente da Argentina, a Sociedade Hayek, com sede em Berlim, lhe concedeu o seu maior prêmio: a Medalha Hayek. A sociedade, que tem sido criticada pela sua proximidade com o partido de extrema-direita Alternativa Para a Alemanha, saudou a “visão clara do poder de uma economia de mercado” de Milei, capaz de “uma vez mais estabelecer as bases para a liberdade, a prosperidade e a paz social”, na tradição de “Ludwig Erhard, Ronald Reagan e Margaret Thatcher”.

Gerd Habermann, membro do conselho executivo da Sociedade Hayek e professor honorário de economia na Universidade de Potsdam, escreveu na ocasião do centésimo dia de Milei no cargo que ele buscava a abolição do “Estado de Bem-Estar Social igualitário (não apenas sua reforma) e do ‘destrucionismo’ sócio-político (‘generismo’ e tudo o que está relacionado com isso)”. De fato, Milei acionou sua “motosserra” apenas dez dias após o início do seu mandato, ao apresentar um decreto de emergência: em nome da liberdade total para o capital, ele aboliu ou alterou os direitos dos trabalhadores à sindicalização; leis para proteção contra demissões e no local de trabalho; controle dos preços de eletricidade, saúde e transporte público; proteção dos inquilinos contra as corporações imobiliárias; e proteção do consumidor contra práticas abusivas de empresas farmacêuticas, bancárias e de cartão de crédito. Todos os gastos do governo foram congelados, com exceção dos militares. Além disso, Milei busca a privatização total de todas as empresas estatais. Para implementar estas políticas sem oposição, o decreto incluiu uma “lei de habilitação” que pretendia conceder a Milei poderes quase ditatoriais em áreas políticas fundamentais. Hayek certamente teria gostado muito de tudo isso. Escrevendo no diário de negócios Handelsblatt, o presidente da Sociedade Hayek, Stefan Kooths, descreveu Milei como um “golpe de sorte para o liberalismo” – e esperava que ele representasse o prenúncio de uma nova onda de fundamentalismo de mercado.

O primeiro objetivo de Hayek era sistematicamente manter o povo – “o grande grosseirão” (nas palavras de Heinrich Heine) – à ​​distância de todas as decisões sociais e econômicas que afetam suas próprias vidas. Seu segundo objetivo principal era entregar a classe trabalhadora completamente indefesa para o capital.

Ele e seus seguidores sempre fizeram isso em nome da “liberdade”. Essa palavra corre por toda a obra de Hayek, que seu aluno Milton Friedman chamou de “a batalha pela liberdade”. O significado dessa palavra, no entanto, é a libertação irrestrita do capital, cujo outro lado é a escravidão assalariada. Hayek queria a exploração sem limites. Foi por isso que ele recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1974 — numa época em que os lucros do capital estavam sendo espremidos — o que, de acordo com a revista conservadora National Interest, fez dele uma “figura cult da direita radical”. Naquele momento, Hayek ainda teve que dividir o prêmio com o economista keynesiano de esquerda Gunnar Myrdal — um sinal de que a crise do fordismo era um processo aberto, com múltiplas saídas possíveis. O prêmio recebido por Friedman em 1976 sinalizou um pouco mais tarde o ponto de virada neoliberal, bem antes de Thatcher e Reagan serem eleitos, com políticas radicalizadas já sendo estabelecidas por seus predecessores.

Hayek odiava a igualdade. Ele só aceitava igualdade perante a lei — uma piada de mal gosto quando o cidadão comum é forçado a processar uma indústria automobilística oligopolista, farmacêutica ou uma corporação hospitalar. Hayek justificava as dramáticas desigualdades econômicas inerentes ao desenvolvimento capitalista — ou seja, o fato descrito por Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman de que, sem redistribuição massiva, a renda do capital engole a renda do trabalho — com referência a diferenças “hereditárias”. Esse argumento ressoa com a premissa de que as fortunas de Elon Musk, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e os Quandts e Klattens seriam o resultado de conquistas e méritos pessoais.

O radicalismo de mercado encurralado

Na década de 1930, como resultado da crise capitalista, de greves em massa e do medo do comunismo pela burguesia, houve uma tentativa nos Estados Unidos de lidar com a gritante desigualdade e tornar mais igualitária a distribuição de riqueza e renda novamente, fortalecendo os direitos sindicais, introduzindo e expandindo e a tributação progressiva da renda e da riqueza, além de expandir o setor público da economia. O presidente Franklin Delano Roosevelt foi confrontado com o fracasso da política liberal de austeridade de seu antecessor Herbert Hoover, que tinha feito o desemprego em massa aumentar para 25%. Naquele momento, de maneira radical, ele passou a taxar toda renda anual acima de US$ 1 milhão em 75%, uma porcentagem que mais tarde chegaria a 91%.

Esse dinheiro foi investido com sucesso em programas de emprego público (Works Progress Administration e Civilian Conservation Corps), na expansão de infraestrutura (eletrificação, rodovias, pontes, metrôs, represas e sistemas de irrigação, etc.), na conservação da natureza (estabelecimento e expansão de parques nacionais), no desenvolvimento de estruturas do Estado de Bem-Estar Social e também na promoção da vida cultural. Se ele tivesse conseguido o que queria, a taxa de imposto nessa faixa de renda teria sido de 100%. Em 1936, o economista John Maynard Keynes, em sua principal obra A teoria geral do emprego, do juro e da moeda — na qual em essência se basearam as políticas econômicas orientadas à demanda do capitalismo fordista (1933–75) —, antecipou a “eutanásia do rentista”, que vive exclusivamente da renda de capital sem qualquer mérito.

Entretanto, o paradigma keynesiano foi substituído pelas ideias neoliberais de Hayek durante a crise do fordismo na década de 1970. O fato de que o próprio Keynes tinha ajudado Hayek a obter uma posição na King’s College em Londres pode ser considerado uma piada de puxada de tapete histórica. Desde então, não faltaram motivos para os rentistas comemorar. De acordo com o Escritório Federal de Estatística, 1% da população alemã hoje vive exclusivamente da renda do capital, ou seja, do trabalho (excedente) de outras pessoas, cujo valor eles se apropriam por meio de lucros e dividendos de ações em empresas listadas na bolsa de valores. Alguns sociólogos já chegaram a acusar a distinção feita pelo Movimento Occupy entre os 99% mais pobres e o 1% mais rico da sociedade como sendo uma simplificação do conceito de classe. Não obstante, na realidade essa distinção estava muito próxima das verdadeiras relações de classe.

De qualquer maneira, foi assim que as gigantescas fortunas bilionárias de hoje foram criadas, o que contrasta com a pobreza relativa e cada vez mais absoluta da população e com o colapso da infraestrutura pública, como escolas, pontes e transporte público. Como Piketty demonstrou, em 2007 a desigualdade atingiu novamente o pico de 1929, na véspera da crise financeira global. Isso não foi coincidência: o capitalismo do mercado financeiro constantemente leva a crises financeiras porque as gigantescas pilhas de capital em busca de oportunidades de investimento lucrativas produzem constantemente novas bolhas especulativas. Além disso, elas também causam crises sociais, onde as políticas públicas criarem novos investimentos por meio da privatização de serviços públicos de moradia, saúde, sistemas de aposentadoria, educação, etc.

Hayek já havia aprendido a odiar políticas como as de Roosevelt na “Viena Vermelha” social-democrata, até seus primeiros anos de universidade na década de 1920. Em 1921, um de seus professores o conectou ao economista austríaco Ludwig von Mises, autor de uma refutação radical ao socialismo chamada Die Gemeinwirtschaft (1922), que então se tornou seu mentor. Em sua obra de 1944 O caminho da servidão, dirigida a um público anglo-americano em meio à Segunda Guerra Mundial, Hayek colocou Roosevelt em estreita proximidade com Hitler: era preciso “declarar a verdade desagradável de que é a Alemanha cujo destino corremos algum risco de repetir”. Certamente “as condições na Inglaterra e nos Estados Unidos” eram diferentes, admitia. Talvez ele quisesse evitar o ceticismo sobre se a extensão do direito de greve para trabalhadores dos EUA era realmente tão semelhante à aniquilação do movimento trabalhista alemão nos campos de concentração nazistas, ou se os programas de emprego público para trabalhadores de todas as etnias eram um Auschwitz americano mas, de acordo com Hayek, essas diferenças não deveriam obscurecer a percepção de “que estamos caminhando na mesma direção”.

Com razão, Hayek via o radicalismo de mercado na defensiva na década de 1940. Embora grandes empresas nos EUA tenham financiado a distribuição em massa de O caminho da servidão, havia uma tendência na direção de uma maior regulamentação do capitalismo e mais planejamento econômico. O capitalismo liberal havia levado à Grande Depressão; a Depressão ao fascismo; e o fascismo à Guerra Mundial. Somente a União Soviética havia se saído bem da crise graças ao planejamento econômico e, embora tivesse emergido a partir de um país em desenvolvimento dependente e atrasado, estava agora no processo de libertar a Europa do fascismo alemão quase que sozinha. Nos Estados Unidos, Roosevelt teve sucesso na implantação de políticas de esquerda. Após a guerra, o socialismo de estilo soviético foi estendido à Europa Oriental, enquanto um governo trabalhista bem à esquerda chegou ao poder na Grã-Bretanha, e os comunistas ganharam força de massas na França e na Itália. Também na Alemanha, imediatamente após 1945, milhões de pessoas em todas as zonas de ocupação convergiram para o movimento trabalhista e até mesmo apoiaram a socialização da indústria de larga escala em um referendo em Hesse, que as forças de ocupação dos EUA impediram. Até mesmo a União Democrata Cristã (CDU) reconheceu em seu Programa de Ahlen que o “sistema econômico capitalista não serviu aos […] interesses do povo alemão”, razão pela qual era necessária uma “ordem econômica socialista”, para além da “busca capitalista de lucro e poder”.

Contrarrevolucionário

Naquele momento, Hayek via a si mesmo como um contrarrevolucionário. Sua utopia estava no passado: o “capitalismo manchesteriano”, com trabalho infantil e jornadas de trabalho de dezesseis horas era seu “Paraíso Perdido”. Reagan disse certa vez que, se tivesse a chance, ele faria a roda da história retornar ao século XIX; e quando ele disse essas palavras, Hayek estava discursando. No entanto, o paraíso estava perdido porque, como o oponente teórico de Hayek, Karl Polanyi, descreveu em seu livro A grande transformação, também publicado em 1944, a imposição de uma ordem de mercado liberal força a sociedade a se defender contra o mercado, diante da exploração da natureza e da “mercadoria fictícia” do trabalho. De acordo com Polanyi, tal ordem “não poderia existir por longos períodos de tempo sem aniquilar a substância humana e natural da sociedade”.

Hayek observou a “Grande Transformação” que ocorreu depois de 1870. Seu reflexo ideológico foi a migração da hegemonia do pensamento do mundo anglo-saxão para o mundo de língua alemã, que ele observou e lamentou: para longe de John Locke e Adam Smith e na direção a Karl Marx e Max Weber. Hayek buscava uma nova “Grande Transformação” de volta ao futuro. Sua obra é uma declaração de guerra contra o socialismo. Para ele, porém, o socialismo já começa com o liberalismo corporativo, que, por medo do movimento dos trabalhadores, tentou conter pelo menos os excessos mais flagrantes do capitalismo com medidas como inspeções de fábrica e a jornada máxima de trabalho estabelecida em lei. Em O caminho da servidão, Hayek chamou isso de “ladeira escorregadia” para o socialismo. Ele dedicou seu livro “aos socialistas de todos os partidos”.

Ainda assim, apesar de toda a sua nostalgia, Hayek também via a necessidade de modernizar o liberalismo clássico. Ele queria um retorno à uma “economia livre”, como ele a chamava, por meio de um sistema político no qual, de acordo com seu biógrafo Bruce Caldwell, “qualquer legislação que tenha como meta uma redistribuição específica de renda seria proibida”. Ele foi confrontado com um problema básico: como impedir que as massas usassem o sufrágio universal que haviam conquistado para reivindicar pelo menos parte do valor excedente desviado pelo capital — ou até mesmo para abolir a propriedade privada capitalista dos meios de produção, na qual o poder do capital se baseia.

Hayek usou um truque de ilusionismo para isso. Ele negava a existência de classes e concebia um indivíduo abstrato, cuja liberdade — exclusivamente negativa — estaria baseada no fato dele não ser controlado pelo Estado. Dessa maneira, ele definia toda política tributária como uma privação de liberdade. Para algumas pessoas — pois ainda há bezerros que escolhem seus próprios açougueiros — esse conceito negativo de liberdade ainda ressoa hoje.Essa ideia mira no adulto que permaneceu uma criança, que reclama contra as expectativas dos pais de que ele lave as mãos antes de comer para não ficar doente, ou de ajudar a arrumar seu próprio quarto para não afundar no caos. Ao mesmo tempo, essa abordagem infantil se conecta com a alienação daqueles isolados na competição capitalista e a transfere para a atitude social-darwinista do “cada um por si”. Os “libertários” (de direita) são, de acordo com um tuíte que se tornou viral em 2023, “como gatos domésticos: absolutamente convencidos de sua feroz independência, ao mesmo tempo em que são totalmente dependentes de um sistema que não apreciam e nem entendem”.

Uma ordem natural?

Em A constituição da liberdade, Hayek propagou o “governo da lei”. Ao contrário de Marx, ele não enxerga o capital nascendo “pingando da cabeça aos pés, de cada poro, com sangue e sujeira”. Para ele, o capitalismo não faz parte de um processo gradual geral de relações de produção criadas e transformadas de maneira revolucionária, uma sociedade de transição que cria as condições para uma sociedade socialista desenvolvida. Em vez disso, ele considera o capitalismo como sendo uma economia de mercado “natural”. Basicamente, a disputa entre marxistas e Polanyi, de um lado, e neoliberais como Hayek, de outro, também tem a ver com qual ordem seria realmente “antinatural”: o socialismo ou o “livre mercado”. Frequentemente, Hayek e seus discípulos se contradizem quando às vezes, como faz Friedman na introdução à nova edição em inglês de O caminho da servidão, descrevem o mercado como sendo o “senso comum” e, em outras vezes, o socialismo como sendo a reação emocional natural ao capitalismo e o radicalismo de mercado como um raciocínio altamente intelectual.

Segundo Hayek, a civilização (de mercado) surgiu de “hábitos inconscientes” que foram transformados em “declarações explícitas e articuladas” e que, portanto, tornaram-se cada vez mais “abstratas e gerais”. Referindo-se à tese de Smith sobre a “mão invisível”, ele escreve que “os esforços espontâneos e descontrolados dos indivíduos foram capazes de produzir uma ordem complexa de atividades econômicas”. Uma constituição deveria limitar o Estado a supervisionar as regras do mercado e proteger a propriedade privada capitalista. A democracia e as decisões por maiorias são intrinsecamente disruptivas neste sistema. Como o mercado tenderia a um equilíbrio estável — a alocação ótima de recursos e a autorregulação da economia — não haveria falhas no mercado. Em vez disso, o Estado seria a causa de todo e qualquer problema.

Hayek rebateu o argumento de que a utopia dos neoliberais havia sido refutada pela distopia do capitalismo de Manchester com o argumento de que na verdade a penúria do século XIX não seria uma consequência das políticas econômicas liberais – e que ela nem mesmo seria uma miséria genuína. Em vez disso, o aumento da “riqueza das nações” provocado pelo mercado teria apenas aumentado as expectativas de prosperidade dos “grandes grosseirões” e levado à descoberta de “pontos bastante sombrios na sociedade”. Na realidade, porém, não haveria “nenhuma classe que não tenha se beneficiado substancialmente do avanço geral”. Ele explicou a contradição de um forte movimento trabalhista emergindo em reação às imposições do capitalismo liberal dizendo que a implementação do “livre mercado” não teria sido radical o suficiente e que seu avanço fora “lento” demais.

A argumentação dele é fundamentalmente antidemocrática. Basicamente, as sociedades lhe parecem — não por coincidência — crianças ingratas que exigem cada vez mais. Na sua opinião, foi a “ambição sem limites” delas que, “aparentemente justificada pelas melhorias materiais já alcançadas” causou uma mudança onde “se aproximando da virada do século, a crença nos princípios básicos do liberalismo foi sendo cada vez mais renunciada”. Além disso, o socialismo também seria culpa de intelectuais que seduzem os trabalhadores para algo que seria estranho à sua natureza — o coletivismo, ao invés do individualismo. O socialismo e tudo o que há de “comunística” (Michael Brie), que teriam suas raízes no cristianismo e em todas as religiões do mundo que tem dado forma à história humana, seriam na verdade uma rejeição das “tradições morais geradas espontaneamente e subjacentes à ordem competitiva do mercado”, escreve Hayek em Arrogância fatal (1988). O socialismo seria “um sistema moral projetado racionalmente […] cuja atração depende do apelo instintivo de suas consequências prometidas”. Além disso, ele reclamava que “quanto mais subimos na escada da inteligência, quanto mais conversamos com intelectuais, é mais provável que encontremos convicções socialistas”.

Em última análise, o radicalismo de mercado deve sua sobrevivência ao fato de que, por mais destrutivo que seja, ele inevitavelmente provoca um contramovimento que re-regula o capitalismo. Isso significa que os neoliberais conseguem manter e se apegar à sua visão do efeito de “melhoria da humanidade” de mercados “livres”. Eles sempre podem alegar que sua utopia ainda não foi totalmente realizada em lugar nenhum.

Mas voltando à “constituição da liberdade”: as regras a serem monitoradas por ela devem ser apenas “abstratas, gerais e impessoais”. Para Hayek, o “governo da lei” (ou “estado de direito”) é fundamentalmente incompatível com políticas de redistribuição em favor da “justiça social”. Políticas fiscais e regulamentações já aparecem em O caminho da servidão como regras arbitrárias, e o Estado de Bem-Estar Social como totalitarismo. A tentativa histórica contrafactual de Hayek de retratar o fascismo e o comunismo não como inimigos mortais mútuos, mas como irmãos no interior de uma mesma família de “coletivismo”, também se baseia nisso. Sempre que libertários de direita hoje enfatizam que Adolf Hitler era, no fim das contas, um “‘nacional’-socialista”, estamos lidando com um bingo de besteiras inspirado em Hayek.

Liberalismo autoritário

Como um liberal clássico, Hayek seguia a teoria de Locke, que defendia os interesses das classes proprietárias com o argumento de que cada pessoa deveria ter permissão para tomar posse de toda a riqueza do ambiente natural de que fosse capaz de se apropriar. Já  Pierre-Joseph Proudhon, um dos primeiros teóricos socialistas, afirmou certa vez que “A propriedade é um roubo”. Hayek argumenta contra ele: não só a socialização, mas até mesmo a tributação seria um roubo.

O capitalismo realmente existente seguiu sendo o calcanhar de Aquiles de Hayek. A desigualdade que ele precisa justificar não é só o resultado do desempenho. Ele reconhecia “acidentes do ambiente” – que significam que qualquer pessoa que herde milhões ou até bilhões quando criança e que “faça com que esse dinheiro ‘trabalhe’ por eles” não precise ser nenhum novo Einstein. Só que “talento natural e habilidades inatas” também são “vantagens injustas”. O “desejo de eliminar os efeitos do acidente, que está na raiz da exigência de ‘justiça social’, pode ser satisfeito […] apenas eliminando todas aquelas possibilidades que não estão sujeitas ao controle deliberado. Mas o crescimento da civilização depende em grande parte de que os indivíduos façam o melhor uso possível de quaisquer acidentes que encontrem.” Hayek chama isso de “liberdade perante a lei”, que ele chama de sua “preocupação central”. Qualquer igualdade que não seja a “igualdade das regras gerais de direito e conduta” seria equivalente a “destruir a liberdade”.

Preservar a “ordem” (do capitalismo) e suas “regras” (de mercado) era uma coisa sacrossanta para Hayek, não importa o que o “demos” possa desejar. Pelo contrário, para Hayek os esforços do povo para determinar seu próprio destino seriam mera tirania. Hayek, seu professor Ludwig von Mises e seus alunos como Friedman e James Buchanan — em suma, as mentes do neoliberalismo — enfrentavam o mesmo problema que Carl Schmitt e o fascismo. O fato deles terem observado uma conexão histórica entre o crescimento da democracia de massas e a superação do liberalismo econômico significou que o legado antidemocrático do liberalismo clássico foi continuado em seu pensamento — e que a história real do neoliberalismo também está intimamente vinculada com o autoritarismo.

O neoliberalismo e o fascismo são formas de pensamento burguês em reação à democracia de massas e ao socialismo. Ambos são maneiras de enfrentar o mesmo problema: sob as condições do sufrágio universal, como evitar que as massas possam repentinamente imaginar a ideia de combater a escassez de casas e a loucura dos aluguéis com moradias sociais; de fornecer alimentos, saúde, educação e transportes básicos como bens públicos gratuitos ou subsidiados, correspondendo a direitos humanos básicos ao invés de tratá-los como mercadorias; ou mesmo a ideia de transformar a propriedade privada capitalista da terra, indústria e bancos em seu próprio interesse, para que uma economia socializada possa servir ao povo e não o contrário. Pensadores fascistas como Schmitt buscavam abolir o sufrágio universal em favor de uma ditadura (presidencial) completa. Hayek, escrevendo para a burguesia anglo-americana da coalizão anti-Hitler, sabia muito bem que essa batalha já estava perdida. Em vez disso, ele se concentrou na neutralização do processo democrático. Hayek é o principal teórico da “pós-democracia” (no adequado termo de Colin Crouch). Seu trabalho teórico pode ser resumido à busca por meios para estabelecer a ditadura do capital sem uma ditadura política permanente. Portanto, ele se concentra em restringir de maneira fundamental o escopo para os governos eleitos. Sua teoria remove sistematicamente a soberania deles sobre a política financeira e econômica. Comparado a Schmitt, isso, em última análise, torna Hayek o contrarrevolucionário burguês mais inteligente. Ainda assim, ele também permanecia aberto à ditadura total a fim de vencer a guerra contra a democracia, as massas e as instituições de Bem-Estar Social.

Hayek descobriu aquilo que procurava na tradição teórica liberal — Montesquieu, Benjamin Constant e Locke — e na história dos EUA. Na Constituição dos EUA de 1776, ele encontrou a solução definitiva para o problema da burguesia, mesmo sendo uma minoria social, conseguir determinar a política do Estado. Como os historiadores demonstraram Charles Beard e Terry Bouton, a Constituição dos EUA surgiu no mesmo espírito, como um produto da contrarrevolução contra o “momento democrático” da guerra revolucionária anticolonial da época, que tornou o sufrágio universal incontestável.

Um dos primeiros observadores de como as constituições podem corroer a democracia foi Polanyi, quando escreveu que os Estados Unidos “isolaram por completo a esfera econômica da jurisdição da Constituição, colocando assim a propriedade privada sob a maior proteção concebível e criando a única sociedade de mercado [capitalista] legalmente estabelecida no mundo. Apesar do sufrágio universal, os eleitores americanos eram impotentes contra as classes proprietárias.” Já em 1939, Hayek havia argumentado em A liberdade e o sistema econômico que “podemos ‘planejar’ um sistema de regras gerais que se apliquem igualmente a todos e que sejam projetadas para permanecer permanentes.” O que já devia se aplicar aos indivíduos passava agora também a ser vinculativo para as democracias parlamentares.

Constituição econômica 

Hayek e seus alunos usaram dois mecanismos para estabelecer o desenvolvimento social orientado ao mercado: primeiro, por meio de constituições (econômicas) juridicamente vinculativas e, segundo, o enfraquecimento sistemático das competências de política econômica e financeira do Estado-nação por meio de uma política de federalização. Tanto a centralização quanto a descentralização, portanto, tinham um papel a desempenhar: por um lado, a centralização dos poderes de tomada de decisão em órgãos antidemocráticos como os bancos centrais, que foram declarados “independentes”, – ou seja, deixaram de prestar contas, responder a demandas e de serem controlados democraticamente – e em tratados internacionais por um status constitucional que seja juridicamente vinculativo sobre os Estados; e, por outro, a descentralização em favor de aparatos estatais locais com poucos poderes fiscais (e etc) de direção e controle.

Historicamente, a “internacionalização do Estado” (Robert W. Cox) se tornaria a ferramenta essencial do “novo constitucionalismo” (Stephen Gill) baseado em Hayek. Isso equivalia à restrição de estados-nação por meio de constituições juridicamente vinculativas em nome do capitalismo mundial, como o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), acordos de proteção de investimentos, a constituição econômica da UE com seus critérios de convergência neoliberal (“emendas constitucionais de equilíbrio orçamentário”, etc.) e órgãos que estão além da influência dos parlamentos nacionais, como o G7 e a Comissão Europeia.

O novo constitucionalismo, portanto, fortaleceu o poder estrutural do capital – ou seja, sua mobilidade -, o que serve para forçar subsídios de Estados e concessões de política salarial dos sindicatos em um ciclo perpétuo, e para permitir a fuga de capital e, como resultado, a queda de governos se eles planejarem redistribuição ou socialização. Também fortaleceu os ministérios (especialmente os de finanças) mais próximos desse sistema, às custas de portfólios econômicos, trabalhistas e sociais.

Hayek assentou, assim, os alicerces essenciais para um sistema de mercado sem alternativas, com regras que os governos nunca deveriam questionar, sob o risco de ter de enfrentar a própria queda. Foi seguindo o espírito de Hayek que foram criadas as regras da OMC sobre o tratamento igualitário do capital nacional e internacional, tornando impossível para os Estados dependentes lutarem pela independência. Ele criou a base para o Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPS) sobre a proteção dos “direitos de propriedade intelectual”, permitindo que as empresas farmacêuticas monopolizassem até mesmo plantas e sementes, não importa quantas centenas de milhares de agricultores indianos cometam suicídio como resultado. Hayek pode, em última análise, ser creditado por acordos de proteção de investimentos, como o Acordo Integral de Economia e Comércio (CETA) e a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), com base nos quais as corporações transnacionais podem processar os Estados em busca do pagamentos de indenizações horrorosas por perdas futuras de lucros de capital se eles tomarem decisões democráticas, como a proibição do cigarro ou a eliminação gradual da energia nuclear.

Além dessa desdemocratização, Hayek também desenvolveu outro meio de tornar completa a ditadura do capital, a federalização. Com base na premissa de que “a criação de um Estado mundial [democrático] provavelmente representa um perigo maior para o futuro da civilização do que a guerra”, Hayek e, em seu rastro, Buchanan buscaram a descentralização sistemática das funções governamentais, uma “economia política de federalismo aberto” (Adam Harmes) e a “competição entre governos locais”. Hayek escreve:

Temos ainda que aprender como limitar de forma eficaz os poderes de todo governo e como dividir esses poderes entre os níveis de autoridade […] A criação de um Estado mundial provavelmente representa um perigo maior para o futuro da civilização do que até mesmo a guerra […] Embora tenha sempre sido característico daqueles que preferem um aumento nos poderes governamentais apoiar a concentração máxima desses poderes, aqueles principalmente preocupados com a liberdade individual geralmente defendem a descentralização.

Hayek reconhecia o potencial para a disciplina orçamentária dos governos locais quando eles competem entre si por capital e pelos seus investimentos diretos, que não são mais restritos por controles de capitais.

O mesmo princípio de descentralização também se mostrou útil em termos de fazer secar o odiado Estado de Bem-Estar Social, porque as autoridades locais geralmente são incapazes de satisfazer a pressão da sociedade por moradia social, melhores escolas, lares para pessoas com direito a asilo, etc. — fazendo com que, em resposta, eles pudessem simplesmente apontar para suas mãos atadas pela política fiscal. Durante a crise financeira global, os estados individuais dos EUA foram forçados por freios de dívida regionais a escolher entre aumentos de impostos ou cortes sociais. Os cortes sociais são, portanto, estruturalmente incorporados nas constituições.

A liberdade para poucos

Hayek provou ser, portanto, a arma mais afiada da hostilidade burguesa à democracia. A “democracia compatível com o mercado” exigida pela chanceler alemã Angela Merkel na esteira da crise da zona do euro, que se submete aos mercados financeiros internacionais, é baseada no seu pensamento.

Teorizar a ditadura do capital em um sistema de sufrágio universal e, assim, encontrar uma audiência entre a burguesia durante a crise do fordismo dos anos 1970 foi o triunfo histórico de Hayek — o tornando o mais poderoso propagandista da liberdade para poucos às custas da falta de liberdade para muitos. Hoje, o liberalismo reivindica para si o conceito de liberdade, mas Hayek ainda estava ciente de sua natureza controversa. Não há “nenhuma dúvida de que a promessa de maior liberdade se tornou uma das armas mais eficazes da propaganda socialista”. Essa liberdade mais ampla de fato só pode acontecer por meio do socialismo: como liberdade em relação à exploração e ao tempo não-livre, que é o pré-requisito para uma vida autodeterminada para todos aqueles que têm que viver do seu trabalho assalariado.

A hostilidade elitista de Hayek à democracia sugere que o radicalismo de mercado não pode ser do interesse da maioria da classe assalariada. Mesmo que ele não tenha chegado a conclusões fascistas — Mises em 1927 ainda havia dado as boas vindas ao fascismo como a “salvação da civilização europeia” — ele, não obstante, assumiu que a contrarrevolução contra o Estado de Bem-Estar Social provavelmente teria que ser ditatorial porque, de acordo com sua teoria da “sobrecarga” junto de Buchanan , as massas nunca votariam contra o assistencialismo. Hayek, assim, exigia na década de 1970 que os “destinatários líquidos de transferência” – ou seja, todos os funcionários do setor público, todos os aposentados e todos os trabalhadores desempregados – fossem privados do direito de votar.

Os neoliberais, por conseguinte, também apoiaram diretamente o golpe contra o socialismo democrático no Chile em 1973 e a ditadura militar de Augusto Pinochet. Somente Thatcher e seu “populismo autoritário”, que combinava o desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social com apelos nacionalistas e com a guerra – e, portanto, basicamente combinava Hayek com Schmitt – viria a demonstrar, seis anos mais tarde, que o neoliberalismo era possível mesmo se o sufrágio universal fosse mantido. Porém, ainda em 1981 Hayek declarou em uma entrevista que sempre preferiria uma ditadura de mercado a uma democracia de Estado de Bem-Estar Social. “A concorrência”, disse Hayek, “ ao fim e ao cabo, é sempre um processo no qual um pequeno número de pessoas torna necessário que números maiores façam o que não gostariam de faze, seja trabalhar mais, mudar hábitos ou dedicar um grau de atenção, aplicação contínua ou regularidade ao seu trabalho que sem a concorrência não seria necessário.”

Hayek duvidava que “um mercado funcional já tenha surgido sob uma democracia ilimitada”. A esse respeito, ele certamente tinha razão.

Sobre os autores

Ingar Solty é pesquisadora no Instituto de Análise Social Crítica da Fundação Rosa Luxemburgo, em Berlim.
Fonte:  https://jacobin.com.br/2024/09/hayek-foi-um-inimigo-da-liberdade/

Quem precisa do X?

por

Quem precisa do X?  
Decisão de Moraes bloqueou o X no Brasil 
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Xandão bancou mais uma. Derrubou O X do bad boy de extrema direta Elon Musk. Tem uma comunidade de órfãos chorando nos cantos das redes sociais. Eu era do Twitter, virei parte do X. Graças ao pontapé de Alexandre de Moraes no traseiro do golpista internacional falastrão, tirando do ar a sua rede cada vez mais conservadora, em nome da soberania nacional e do cumprimento de ordens judiciais do STF, descobri que há vida fora do X. O Bluesky, criado por Jack Dorsey, o pai do Twitter, oferece tudo o que X possibilitava com uma grande vantagem: sem Elon Musk.

Abre-se uma conta no Bluesky em um minuto. O logo é uma borboletinha azul. A lógica do passarinho está de volta. X é prosa. Borboleta é poesia. O desenho da plataforma é prático e funcional. Está todo mundo migrando para lá. Mais de um milhão de brasileiros fez isso em um dia. Fui junto. Felipe Neto mudou-se e levou junto seus adoradores. Em 24 horas atraiu cem mil seguidores. Nesse ritmo, a clientela brasileira do X vai se instalar de mala e cuia no Bluesky. Se voltar, o X talvez só tenha a audiência do seu público de extrema direita. Vai virar uma rede de nicho. Já tem gente acenando e dizendo “tchau, querido”. Como somos seres de hábitos, ainda abro o X sem querer, mesmo sabendo que está bloqueado. Vai passar logo.

O problema, claro, são os seguidores acumulados no X. Eu nunca tive muitos. Mesmo assim, eram 71 mil. Será que migram? Alguns estavam lá há anos e talvez nem se lembrem disso. Ficarão pelo caminho. Quem sabem aparecem novos? Parte da grande mídia brasileira está, mais uma vez, pagando mico defendendo Elon Musk. A grande mídia do Brasil tem uma tradição de apoio a causas erradas: deu sustentação ao golpe de 1964, puxou o saco da ditadura até ser censurada e mesmo assim continuou gostando do seu modelo econômico, até que a inflação rebentou tudo. Eis o X da questão.

Tecnicamente ninguém precisa do X para se comunicar em rede. Além do Bluesky existem outras plataformas à disposição. A permanência no X era mais inercial do que tecnologicamente necessária. Já encontrei o Xico Sá no Bluesky. A conversa lá está naquela fase de chegada no bar. Todo mundo conhecendo a casa nova. É confortável e arejada. Esse êxodo para o Bluesky talvez apresse Elon Musk a mudar de ideia sobre indicar um representante legal no Brasil mais do que as pressões do STF. Se voltar só com a extrema direita, o X poderá mudar de letra no Brasil e se chamar B de Bolsonarão. Nunca se viu a direita raiz brasileira tão preocupada com liberdade de expressão. Um pedido: não deem o endereço do Bluesky para o Pablo Marçal. Merda, ele já está lá. Bem, o Bluesky é uma rede aberta a todos.

Casa nova, vida nova. No X, Elon Musk era um anfitrião mala. Ficava enfiando suas postagens na timeline de cada um. Quem, de fato, queria ouvi-lo? Ele só falava ali por ser o dono da bola. Ainda não vi postagem do Jack Dorsey no Bluesky. Musk comprou e matou o Twitter. Será que se matou com o X? É possível que muita gente abandone o Bluesky se o X voltar. Afinal, mudança implica recomeço, fazer novas amizades, sair da zona de conforto. Em todo caso, o essencial está visto: não é preciso ficar refém de Musk.

*Jornalista. Escritor. Prof. Universitário.

 Fonte: https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/quem-precisa-do-x/

Réquiem verde para a democracia

 Luiz Felipe Pondé*

A ilustração colorida de Ricardo Cammarota foi executada em técnica digital, vetor, em cores chapadas. Na horizontal, proporção 13,9cm x 9,1cm, a ilustração apresenta um ícone de lupa cor verde azulado, mostrando ao centro da lente, um ícone de pino de xadrez, em cor roxa, e o corpo deste pino tem o formato de uma coluna grega. O fundo da ilustração é laranja e a área da lente da lupa está em amarelo.

 Ilustração de Ricardo Cammarota para a coluna do Pondé do dia 2 de setembro de 2024 
 - Ricardo Cammarota/Folhapress


O clima pode esperar o tempo político das democracias? 
Suspeito que não

Uma das grandes mentiras do nosso debate público em política hoje é o confesso amor à democracia. Só prezamos a democracia quando o povo vota em quem votamos. Se não, há uma crise grave na democracia.

Derrubar o X no Brasil é a prova de que, às vezes, quem fala que defende a democracia, na verdade, só quer a transformar no seu clubinho de fãs. O fim da picada. Uma humilhação: um juiz faz o que quer e não há ninguém de bem no poder que possa detê-lo.

Tenho certeza de que em alguns séculos nossos descendentes se perguntarão: afinal qual seria a razão de tanto discurso meloso acerca desse falso amor quando obviamente ele não existe? Ou melhor, esse amor, aliás, como todo amor, é condicionado por premissas prévias.

As acusações à direita de que os conservadores são antidemocráticos são largamente conhecidas. Muitos deles cristãos reacionários, ou seculares mal resolvidos.

Mas, se faz necessário trazer à luz, também, as insatisfações da esquerda com relação à democracia liberal. Vale a pena lembrar que, já desde o século 19, figuras como Marx, e mesmo Lênin, já no século 20, consideravam a democracia um regime a serviço dos interesses da burguesia: o Estado liberal democrático nada mais seria do que um comitê executivo a serviço dos interesses da classe dominante.

A conversão da esquerda à democracia é posterior, e sempre um tanto incerta. Não entro aqui em questões outras tais como se funcionaria bem uma democracia liberal num país como o Brasil em que as instituições são em grande medida corruptas nalgum momento da sua história ou nalgum elo da sua cadeia operacional.

Minha questão é mais estrutural. Vamos trabalhar com um exemplo bem didático: a questão do clima e a legitimidade institucional dos seus órgãos decisórios e acordos multilaterais —suas "COP’s bizantinas". Na verdade, essa legitimidade passa pelo Estado nacional e sua soberania popular limitada.

É aqui que a porca torce o rabo.

Deixo para os especialistas a discussão do clima. Conheço epistemologia —teoria da ciência— o bastante para saber que aspectos fora do cinturão racional, como dizia Imre Lakatos no século 20, se misturam aos aspectos racionais ou determinados pelo método científico enquanto tal. Basta ver a contaminação do tema pela polarização para ver esses aspectos fora do cinturão racional em operação.

A questão do clima não é apenas científica, ela é política, ideológica e de mercado: profissionais do debate público apostam na questão do clima como seu nicho no comércio das ideias, como se dizia no século 19, diríamos, como "sua fatia de mercado". Opções de carreira, de sociabilidade entre pares, de pertencimento a instituições que atribuem credibilidade a estes profissionais estão em toda parte, para o olhar treinado em sociologia do mercado intelectual.

É fácil se perceber o conflito entre o investimento político e de carreira na questão do clima, e no seu aparato institucional multilateral internacional de soberania incerta, e o confesso amor à democracia liberal limitada à soberania nacional. E o conflito é estrutural.

Esse descompasso trai, se o profissional do mercado das ideias em questão for de esquerda, o conflito de tornar as "políticas do clima" legítimas sob o modo de operação da soberania na democracia liberal. E é este descompasso que traz à luz os limites do amor da esquerda contemporânea à democracia, e, com isso, ela retorna ao berço da esquerda histórica, ao duvidar do valor político das democracias liberais.

Nas democracias liberais há que se dar atenção a opinião popular na competição por votos —as eleições—, e, nesse sentido, os políticos estão preocupados em agradar ao povo que pode está longe de "crer" na questão do clima.

As "políticas do clima" pensam o tempo numa escala muito mais longa do que os mandatos na democracia liberal. A pergunta que surge no coração da esquerda verde é: o clima pode esperar o tempo político das democracias? Suspeito que não.

O problema é que os defensores da agenda do clima não podem se deixar confundir com golpistas, e, portanto, são obrigados a mentir sobre o que pensam: a democracia liberal nacional deve ceder sua soberania a alguma forma de governo global de tecnocratas do clima. E daí tocam, em segredo, seu réquiem para democracia. Você consegue ouvir a música? Não?

*Escritor e ensaísta, autor de "Notas sobre a Esperança e o Desespero" e “A Era do Niilismo”. É doutor em filosofia pela USP. 

Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2024/09/requiem-verde-para-a-democracia.shtml

Mudanças na Igreja Católica do século XXI e o impacto na sociedade brasileira.

Entrevista especial com Brenda Carranza

Teóloga e cientista social analisa como – e a partir de quais pautas – a direita brasileira está se alinhando à Igreja Católica 

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Arte: Mateus Dias

Por: Edição: André Cardoso | 02 Setembro 2024

O século XXI traz consigo a ideia de mudança. O surgimento das redes sociais e a inserção cada vez maior das tecnologias na sociedade mudam a configuração na vida humana. As instituições, a partir desse cenário, também buscam se adaptar e a Igreja Católica não é diferente. É a partir desta proposição que a teóloga e cientista social Brenda Carranza discute as mudanças no catolicismo neste século e como isso afeta a sociedade brasileira.

Na videoconferência intitulada “Incidências ou não da Igreja Católica na sociedade brasileira no século XXI”, promovida pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, Brenda Carranza afirma que há uma união entre parte da Igreja Católica e a ultradireita no Brasil nos últimos anos. “O que sustento é que estamos diante de um catolicismo com uma inflexão ao lado do conservador e de direita diante de uma nova conjuntura social, novos pressupostos de estrutura de Estado e sociedade democrática, e que se pauta por um projeto político que visa ter como voz ordenadora o autoritarismo”, pontua.

Segundo ela, há pautas que unem a velha e a nova direita cristã. “O fio condutor que une a pauta conservadora agora são as campanhas antigênero. Essa direita cristã traz velhas reivindicações: guerra cultural, comunismo, armamentismo. E uma nova direita cristã traz também a demonização da agenda pró-direitos, direitos reprodutivos, agenda LGBT, as alianças no Congresso e na formulação de políticas públicas”, diz.

A atividade integra o III Congresso Brasileiro de Teologia Pastoral: A pastoral da Igreja do Brasil no século XXI: balanço, incidências, perspectivas, iniciativa do Grupo de Pesquisa Teologia Pastoral da FAJE, em parceria com outras instituições de ensino de Teologia.

A seguir, publicamos a conferência de Brenda Carranza no formato de entrevista.

Brenda Carranza | Foto: Arquivo Pessoal

Brenda Carranza é graduada em Teologia pela Universidade Francisco Marroquim – UFM, na Guatemala, bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, e bacharel em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas/Pontifício Ateneo Santo Anselmo. É mestra em Sociologia pela Unicamp e doutora em Ciências Sociais pela mesma instituição. Possui pós-doutorado no PPG em Ciências Sociais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ.

Confira a entrevista.

O que você considera como as mudanças mais significativas do fim do século XX e início do século XXI no cenário brasileiro da Igreja Católica?

Brenda Carranza – O catolicismo midiático, a Renovação Carismática Católica e a pentecostalização brasileira. Esses são os pressupostos de uma mudança no fim do século XX. Qual seria o pressuposto do século XXI? Sabemos que tínhamos ferramentas analíticas para imaginar o que foi uma das inflexões fundamentais do século XX: o Vaticano II com sua teologia latino-americana. Aquelas ferramentas trabalhavam, a partir das Ciências Sociais, as concepções sobre sociedade, injustiça e desigualdade.

A partir da fala do professor Jessé de Souza sobre a questão escravocrata como princípio fundamental de interpretação da sociedade, sabemos que nossa sociedade começa assim e segue, até hoje, com um nível gigantesco de desigualdade mesmo depois de tanto tempo. A desigualdade está pautada no Vaticano II e nas conferências episcopais da teologia latino-americana.

Outro pressuposto é imaginar que existiu uma leitura da Renovação Carismática Católica na sua pentecostalização do catolicismo, e a Teologia da Libertação com sua defesa por um catolicismo engajado com o povo nas questões sociais. É uma leitura muito simplista, tanto de agentes pastorais como da mídia religiosa. A mídia colocava a renovação carismática como a renovação de tudo, que poderia significar uma renovação espiritual, performática e litúrgica.

A Teologia da Libertação representava, para a Igreja Católica, seu compromisso social e era política enquanto não era espiritual. Há anos eu refuto essas teses. A renovação carismática, a pentecostalização, a direita cristã e a direita católica têm um projeto político e se expressam politicamente em todas as instâncias, assim como a Teologia da Libertação tinha um projeto político e se expressava em todas as instâncias, principalmente em coletivos sociais e em bases pastorais.

Essa visão do fim do século XX seria uma maneira de abordar o que seriam as mudanças dentro da Igreja Católica? Diria que a presença da Igreja Católica na esfera pública e política ressignifica o compromisso social e altera a exposição midiática da Igreja. No início do século XXI, pode-se dizer que algo se desviou dentro do catolicismo. Há um deslocamento interno no catolicismo institucional que passa de uma postura de reivindicação de hegemonia societária (ela é a voz da sociedade mundial do cristianismo) para uma aliança estratégica no campo religioso evangélico, tendo a pauta reprodutiva, os direitos e a ideologia de gênero como alvo de perseguição.

Há também uma agenda moral comum por toda América Latina, alinhada a diretrizes do Vaticano e estratégias que alavancam a visibilidade midiática e política no Brasil. O catolicismo e sua leitura do final do século XX e da segunda década do século XXI não nos ajudam a entender as mudanças internas do catolicismo. Elas passam por setores católicos que se alinham com uma pauta moral. Essas alianças com setores conservadores evangélicos, que trabalham uma pauta de moralidade que reverbera na mídia religiosa, levam para a frente pressupostos de moralidades públicas, religiosas, éticas e sociais do cristianismo como sendo pressupostos sociais e éticos da sociedade brasileira. Um Brasil cristão, por ser de maioria cristã, impõe a todos a sua moralidade. O ultraconservadorismo, dentro do catolicismo, trabalha com a visão de que o mundo está em decomposição moral, uma visão totalizante do mundo necessária para manter um status quo e defender a tradição e a moralidade de um tipo de família. Vai haver uma mudança litúrgica e, diante disso, há uma defesa da liturgia tradicional e do clericalismo.

Falo de neoconservadorismo a partir de afrontas à democracia, às pautas de direitos e da interseccionalidade social e dos marcadores sociais. Não se pode falar de religião se não se fala de sexo, sexualidade, raça, gênero, etnia, desigualdade social. Wendy Brown, uma filósofa política, trabalha o conceito de neoconservadorismo na linha de, quando as instituições democráticas são atacadas, elas precisam de uma contrarreação.

Você fala em uma “ultradireita católica, do papel das mídias sociais católicas e do fortalecimento da ala conservadora”. O que isto significa?

Brenda Carranza – Há afinidades ideológicas com uma projeção midiática desta tendência ultraconservadora. Um dos grandes parâmetros dessa inflexão contextual é o governo Bolsonaro. Poderíamos tecer os personagens católicos que apoiaram a representação de um governo de ultradireita. Essa teologia política traz a defesa da moralidade cristã e da visão de mundo nos moldes da corrupção porque é uma moralidade política sobre os problemas da desigualdade social.

Essa inflexão tem uma grande reverberação popular. Li um texto que traz os influenciadores digitais católicos, seus efeitos e as perspectivas teológicas e pastorais. Entre os influenciadores estão o padre Paulo Ricardo, o padre Fábio de Melo e outros. É muito interessante por mostrar o impacto desses influenciadores na sociedade e na inserção popular através de um clique no celular.
São também youtubers católicos na linha deste conservadorismo, que questionam a autoridade e trazem suas afinidades ideológicas com a ultradireita. Há uma moralidade sexual e na corrupção, que veem como fonte dos problemas sociais a corrupção e não a desigualdade. Temos uma agência social que se torna porta-voz de um tipo de catolicismo.

Se avançarmos na recomposição do catolicismo em uma imagem interna, teremos muitos elementos que nos levam à conclusão de que estamos em um novo momento do catolicismo. A primeira coisa, a partir de uma pesquisa que fiz com Agenor Brighenti e outros pesquisadores sobre o novo clero brasileiro, é entender como funciona este clero e o que ele traz como visão de mundo e de Igreja.

Achei interessante um texto de Romero Venâncio onde ele coloca em discussão, a partir de uma pesquisa realizada na França, como o clero pode estar malformado de um abandono da esquerda na formação das bases religiosas do catolicismo e como as redes sociais preencheram essas lacunas. Quais são as fontes de formação do novo clero brasileiro? Nas aulas do padre Paulo Ricardo e nos textos de Bernardo Küster. Essas bases sociais precisam ser retomadas.

Figuras influentes e significativas do novo catolicismo

O padre Lancelotti é uma figura de incidência social, política e midiática no estado de São Paulo, mas com projeção nacional a partir de sua proposta de leitura das necessidades sociais. É um projeto de sociedade, uma visão de mundo e uma proposta de interpretação do catolicismo a partir da chave social. Podemos dizer que o padre Lancelotti representa um catolicismo progressista, de Teologia da Libertação, que interage com diferentes esferas sociais a partir de uma realidade concreta: os moradores de rua.

A segunda figura é o deputado federal Eros Biondini. É um católico carismático, ascende como cantor gospel, vira deputado, participa intensamente do Congresso Nacional e agora está com sua filha, candidata a vereadora em Minas Gerais e possivelmente seguirá uma saga familiar política. Ela também seria representante de um novo tipo de interpretação sobre o papel da mulher em um grupo ligado a uma visão antifeminista. Podemos localizar Biondini dentro de uma política institucional católica que adere a projetos que a Conferência Nacional dos Bispos do BrasilCNBB tem posto em discussão.

A terceira figura é Christine Nogueira dos Reis Tonietto. Em 2018, Chris Tonietto foi a congressista parlamentar mais jovem e mais bem votada do Brasil. Foi candidata em nome da religião cristã, da sua fé e do seu engajamento católico. Ela também é fundadora do grupo ultraconservador do Rio de Janeiro, Centro Cultural Dom Bosco. No Congresso Nacional, ela aderiu à pauta sobre as questões da reprodução humana junto à Angela Gandra.

Por último, temos Bernardo Küster, um youtuber nordestino com alta incidência na sociedade católica, sobretudo nas redes sociais. Ele tem afinidades ideológicas com Olavo de Carvalho e com o padre Paulo Ricardo: os três direcionaram seu olhar para uma perspectiva no espectro político à ultradireita.

Por que cito essas quatro figuras? Para mostrar que temos tendências que colocam o catolicismo do século XXI com outra performance e outro tipo de incidência social. Com essas figuras há visões de sociedade em disputa: a visão progressista da Teologia da Libertação, do catolicismo social; e uma visão de mundo conservadora como estratégia de posicionamento no espectro social e que atravessa toda a alteridade relativa. Isso significa que nós temos o conservadorismo como uma estratégia que reativa relações com o outro. Observa como o outro se posiciona e isso tem a ver com a defesa de um tipo de moralidade, família, nação. Essa visão precisa, para se defender, sempre apontar inimigos. Isso é fundamental: sempre ter inimigos.

Quais pautas unem o catolicismo brasileiro e o ultraconservadorismo?

Brenda Carranza – O catolicismo à direita está flertando com esse ultraconservadorismo que se nega a reconhecer o caráter ecumênico das iniciativas da Igreja Católica. Lembro da Campanha da Fraternidade de 2021, em que tivemos sérios problemas e fortes ataques à instituição CNBB, entidade que teve seu caráter católico posto em dúvida. Foi um problema com o Centro Dom Bosco.

É importante considerar como foi trabalhada essa campanha. Havia acusações de infiltrado da esquerda revolucionária como imposição de ideologia de gênero e a desqualificação do ecumenismo através da perseguição das organizadoras da campanha. Coloco esse fato para mostrar o ataque institucional deste Centro à instituição de caráter religioso e colegiado. Isso foi uma performance militante disruptiva que trazia consigo um modo de romper e comunicar-se com o uso das redes sociais em memes e vídeos, mas, sobretudo, aliando-se com a comunidade bolsonarista. Detectamos onde estava esse alinhamento e o perigo de performances baseadas em ódio, em discursos autoritários e que traziam uma constelação de uma teologia do poder.

O fio condutor que une a pauta conservadora agora são as campanhas antigênero. Essa direita cristã traz velhas reivindicações: guerra cultural, comunismo, armamentismo. E uma nova direita cristã traz também a demonização da agenda pró-direitos, direitos reprodutivos, agenda LGBT, as alianças no Congresso e a formulação de políticas públicas. Por isso digo que não podemos falar que alguns cuidam da espiritualidade e outros da política. Toda teologia traz seu próprio projeto político e, neste caso, o ultraconservadorismo traz um projeto político de sociedade de formulação de políticas públicas, Estado e governo.

Há uma afinidade ideológica com uma projeção midiática desta tendência ultraconservadora. Um dos grandes parâmetros dessa inflexão contextual é o governo Bolsonaro. Nós poderíamos tecer os personagens católicos que apoiaram a representação de um governo de ultradireita. Essa teologia política traz a defesa da moralidade cristã e da visão de mundo nos moldes da corrupção porque é uma moralidade política sobre os problemas da desigualdade social.

Abusos sexuais e discursos

Outro ponto importante neste contexto da inflexão do catolicismo brasileiro são os abusos sexuais na América Latina. O que está em xeque e a visão de qual Igreja está em crise com o impacto destes abusos sexuais? Uma coisa fundamental é que a imagem da Igreja Católica institucional não necessariamente é arranhada. A pergunta é onde falhamos para que a pedofilia seja um tema tão central nas redes sociais para uma crítica deste catolicismo institucional, mas, no fundo, a grande questão é: esse catolicismo se confronta com o poder? Porque todo esse escândalo de abuso, que não é só sexual, mas também espiritual, profético, aponta para uma crise institucional mais profunda. Abuso é abuso de poder e o poder como estrutura é questionado. Isso reverbera nas mídias sociais quando se pergunta qual o papel da Igreja diante destes grandes escândalos.

Outra questão fundamental é que a Igreja Católica é uma maioria geográfica, mas muitas vezes ela se comporta como minoria discursiva, submetendo-se à lógica da atuação política dos evangélicos. Isso vem sendo muito discutido: como a Igreja Católica abdica de seu poder hegemônico e renuncia a seu legado ético para se submeter a tipos de modelo corporativo de participação política. Será que a sobrevivência de um catolicismo de direita é possível somente com o apoio dos evangélicos?

Como a crise do catolicismo no século XXI é vista na atualidade?

Brenda Carranza – Uma coisa discutida é a metamorfose católica como sendo cultural e histórica. O catolicismo sempre muda para continuar sendo o mesmo. Porque ele tem, na sua estrutura, um segredo da teologia política que é: não expulsar ninguém e sempre tentar a conciliação e, caso não consiga incorporar o antagônico, ela o domestica através da canonização como dispositivo sociológico. O dispositivo sociológico que permite a Igreja Católica negociar internamente suas diferenças está na canonização e na heresia.

Uma socióloga francesa dizia que a grandeza do catolicismo é a metamorfose de continuar seu legado de poder e se manter ela mesma ao interagir com a sociedade em mudança. Essas inflexões nos ajudam a compreender as mudanças internas no catolicismo atual e como elas vão dialogar com as diferentes instâncias da sociedade.

Como fazer a leitura sociológica, epistemológica, antropológica desse catolicismo? Nos anos 70, 80 e 90, Flávio Pierucci trabalhava com a ideia de uma sociologia da religião que estava em declínio. Isso fazia com que o catolicismo entrasse em constrangimento pelo avanço estatístico do pentecostalismo. Ele falava de um tipo de catolicismo institucional atrelado às esferas políticas. Outra leitura, a partir dos sociólogos e antropólogos Flávio Munhoz Sofiati e Alberto Moreira, é que, nos anos 90/2000, há uma perda da hegemonia política da Igreja Católica pelo modelo corporativista do evangelismo. A análise ainda se fragmenta nos impactos que esse modelo traz dentro da leitura da Igreja Católica institucional, do catolicismo progressista, do catolicismo pastoral. Como esses diferentes catolicismos assimilam esta maneira fragmentada da Igreja nesta crise interna? Eles vão trabalhar com os especialistas midiáticos sobre o que seriam as verdades no catolicismo, a ética, a palavra do magistério. Pelas mídias sociais e pelos influenciadores, a verdade é interpretada a partir de uma hermenêutica de um grupo tradicionalista neoconservador que se abdica de uma forma de leitura do magistério e assume um tipo de papa e rejeita outros, entre eles o Papa Francisco.

Tudo isso tem a ver com uma imagem social enfraquecida, em um campo político confessional, mas alinhado com as questões evangélicas. O antropólogo Carlos Steil trabalha o catolicismo popular e vem observando que o catolicismo vivido está em outra rota. O catolicismo está na rota de compreender o papel das mídias sociais nessa experiência religiosa que, até agora, se dava em caravanas, em romarias e procissões.

O que sustento é que estamos diante de um catolicismo com uma inflexão do lado do conservador de direita, diante de uma nova conjuntura social, novos pressupostos de estrutura de Estado e sociedade democrática, e que se pauta por um projeto político que visa ter como voz ordenadora o autoritarismo. Se isso não é a Igreja Católica, e ela não é a maioria, podemos dizer que são grupos alinhados a outros que pensam um Brasil diferente. Isto segue a linha da ultradireita que percebe as mudanças culturais como guerras culturais e criminaliza movimentos discordantes. A criminalização de igrejas e pastorais inclusivas faz parte desse contingente de um catolicismo diferente que tenta incorporar demandas sociais do século XXI.

Há um movimento progressista se recompondo com uma nova linguagem, novos quadros, mas que não tem a mesma performance do catolicismo institucional progressista dos anos 90. Há uma mudança interna que precisa ser acompanhada.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/643058-mudancas-na-igreja-catolica-do-seculo-xxi-e-o-impacto-na-sociedade-brasileira-entrevista-especial-com-brenda-carranza