sábado, 8 de outubro de 2016

UMA DAS FONTES DO CONSERVADORISMO

Onda conservadora
Silvio Caccia Bava
Diretor e editor-chefe
Como se forma o pensamento conservador?
Como ele ganha mais adeptos na sociedade?
Como ele pode vir a conformar maiorias?
Essa discussão remete à questão da imposição de uma visão de mundo que é de uma parte da sociedade como sendo a visão de toda a sociedade. Estamos no campo da produção da ideologia e da disputa pela hegemonia. Não é pela força, mas pelo convencimento que a maioria da sociedade adota uma visão de mundo, valores, um projeto de sociedade, uma forma determinada de convivência social.
Se a mobilização social pela redemocratização do país trouxe com a Constituição de 1988 um paradigma democrático e de respeito aos direitos humanos, a onda conservadora que se formou nos últimos anos traz a proposta de uma sociedade em que predomina:
* o interesse das grandes empresas sobre o dos cidadãos,
* do privado sobre o público,
* do individualismo sobre os interesses coletivos,
* da competição sobre a solidariedade,
* da intolerância sobre a valorização da diversidade,
* da busca pela eliminação do adversário transformando-o em inimigo.
Assistimos ainda surpresos a manifestações cada vez mais frequentes de intolerância com aqueles que pensam de modo diverso ou têm outros valores. São expressão de uma direita que se viu estimulada por uma campanha sistemática feita pela mídia, especialmente pela televisão aberta, e por organizações da sociedade civil, como a Fiesp, e “saiu do armário”. Essas manifestações passam a hostilizar aqueles identificados como seus inimigos, sejam eles um partido político, uma religião afro, homossexuais, jovens negros da periferia ou meninos de rua. Guido Mantega, Chico Buarque, Leticia Sabatella, entre muitos outros, recentemente sofreram agressões gratuitas que expressam essa polarização social e política em nossa sociedade.
Certamente a mídia teve um papel muito importante nesse processo, mas seria ingenuidade supor que ela seja a única responsável por essa maré conservadora. A construção da hegemonia se dá no âmbito da sociedade civil, e é aí que devemos procurar suas raízes.
Culto em um templo da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd)
Não é de repente que boa parte da população se convence e assume uma narrativa em que se posiciona:
* contra o aborto,
* pela redução da maioridade penal,
* criminaliza o consumo de drogas,
* reafirma as discriminações contra a mulher, os homossexuais, os negros,
* dá seu consentimento silencioso ao extermínio da juventude negra da periferia dos grandes centros urbanos.
Entre os fatores importantes que precisam ser levados em conta para compreender a formação desse pensamento conservador está o crescimento das Igrejas evangélicas, que nos anos 1970 atraíam 5,2% da população brasileira e, pelo Censo de 2010, passaram a reunir 22,2%. Esse crescimento se deveu principalmente às Igrejas neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus (Igreja Universal do Reino de Deus), fundada em 1977. Hoje os evangélicos são mais de 42 milhões de brasileiros e brasileiras, e as projeções indicam que em 2030 eles serão tantos quanto os católicos.
Numa sociedade marcada por profundas e históricas desigualdades, que se urbanizou muito rapidamente e hoje concentra mais de 85% de sua população nas cidades, sobretudo em grandes centros urbanos, as Igrejas pentecostais focaram sua atenção no que a imprensa convencionou chamar de “nova classe média”, ou seja, em 54% da população, um segmento que compreende as famílias com renda entre R$ 1.200 e R$ 5.174.
A vida dessas famílias está marcada pelos problemas de moradia inadequada, precariedade dos serviços públicos, violência cotidiana e desagregação dos laços familiares. É nas periferias das grandes cidades que essa população vive, e é aí que se concentra o crescimento do neopentecostalismo. O perfil de seus fiéis mostra que na verdade não se trata de uma classe média:
* 63,7% não ganham mais que um salário mínimo;
* 8,6% são analfabetos;
* 42,3% têm ensino fundamental incompleto. [1]
É na igreja que essas pessoas vão encontrar apoio, proteção, um espaço de convívio e de pertencimento. Os pastores evangélicos procuram enfrentar os problemas concretos de seus fiéis com propostas de solução imediatas, e sua Teologia da Prosperidade afirma que a superação das dificuldades é a comprovação da fé em Deus. Não é casual que seu crescimento recente coincida com a fase de aumento de renda desse segmento social nos últimos anos.
EDIR MACEDO
Fundador e chefe da Igreja Universal do Reino de Deus é um dos homens mais ricos e poderosos do Brasil!
Entre os novos fiéis estão milhares de jovens convertidos que se afastam do narcotráfico e passam a frequentar o culto, deixam de beber e se drogar, resgatam sua dignidade, assumem um novo papel de trabalhador honesto, encontram aí um espaço de valorização pessoal, de convivência, de celebração. Nesse sentido, encontram na igreja uma alternativa, um novo projeto de vida.
E é nesses templos que acolhem seus fiéis que os pastores fazem sua pregação de valores e, mais recentemente, também sua pregação política. É aí que recolhem o dízimo e amealham fortunas, como Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e presente na lista dos bilionários publicada pela revista internacional Forbes.
SILAS MALAFAIA
Famoso pastor não teve dúvidas em apoiar abertamente candidatos a Deputado Estadual e Federal
nas últimas eleições no Rio de Janeiro
O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, prega contra os candidatos que defendem princípios “não cristãos”:
* como liberalização do aborto,
* casamento entre homossexuais,
* descriminalização das drogas etc., e
* combate abertamente candidatos do Psol e do PT. [2]
A teoria pentecostal diz que cabe à Igreja salvar as pessoas do mal e se pôr em luta contra Satanás e o pecado. Se nos anos 1950-1970 essas Igrejas evangélicas procuravam a cura divina, a partir dos anos 1980 o que predomina nesses cultos são os rituais de exorcismo. É uma guerra contra o mal e contra o diabo, na qual os fiéis são soldados. A intolerância manifesta para com as religiões afro-brasileiras bebe dessa ideologia, pois identifica nelas Satanás e o pecado.
Segundo o reverendo Carlos Eduardo Calvani, da Igreja Anglicana no Brasil, o movimento evangélico é um dos maiores perigos para a sociedade brasileira. Seu fundamentalismo elabora discursos para enganar analfabetos funcionais e levá-los a cometer barbaridades em nome da fé. Calvani acredita que os evangélicos têm um projeto de tomada de poder na sociedade brasileira. [3]
O crescimento dessas Igrejas neopentecostais as coloca como uma das mais importantes instituições que tratam do cotidiano dos moradores das periferias. Na década passada, os evangélicos, especialmente as Igrejas neopentecostais, conquistaram 16 milhões de novos fiéis:
* A Assembleia de Deus é a maior, com 12,3 milhões de fiéis.
* A Congregação Cristã do Brasil é a segunda, com 2,2 milhões de fiéis.
* A Igreja Universal do Reino de Deus é a terceira, com 1,9 milhão de fiéis.
REV. CARLOS EDUARDO CALVANI
Da Igreja Anglicana no Rio de Janeiro, não tem dúvidas de que os neopentecostais possuem um projeto
para a conquista de sempre mais poder e influência política no Brasil
Esse crescimento se explica pela retração da Igreja Católica, que nos anos 1970 e 1980 organizava a sociedade em comunidades eclesiais de base [CEBs], mas também pela impotência da sociedade em resolver seus problemas pela via social, política e econômica. Apela-se ao sobrenatural para a solução dos problemas da vida. [4]
A ideia de que os evangélicos pentecostais têm um projeto de poder não é descabida. A disputa por corações e mentes na sociedade para converter a população para suas crenças e valores e afirmar sua hegemonia na sociedade parece nortear sua atuação no plano da comunicação e junto às instituições políticas.
As Igrejas evangélicas controlam 25% das rádios FM. Todo pastor importante tem um templo, uma rádio, um canal de TV. Algumas Igrejas têm editoras, produtoras de discos, agências de viagem. É cada vez maior o número de horas compradas por essas Igrejas na TV aberta.
Se tomarmos como referência a Igreja Universal, podemos observar que ela é uma potência em comunicação:
* Distribui gratuitamente nas ruas um semanário com 1,8 milhão de exemplares;
* comprou em 1989 a TV Record, a segunda maior rede de televisão do país;
* controla mais de vinte emissoras de TV;
* transmite seus programas através de mais de quarenta estações de rádio.
Esse investimento em comunicação parece sincronizado com seu crescente envolvimento na política. Foi no começo da década de 1990 que a Universal assumiu um protagonismo na política. A cúpula da Igreja indica candidatos com base em critérios como o número de eleitores de uma igreja ou distrito. Cada templo tem um candidato para deputado federal e um para estadual. Esses candidatos são líderes religiosos carismáticos, com habilidades de comunicação, e estavam distribuídos por vários partidos antes de a Universal ter seu próprio partido, o PRB, que conta hoje com dez deputados federais e 21 estaduais.
CELSO RUSSOMANNO & MARCELO CRIVELLA
Ambos do PRB, partido da Igreja Universal do Reino de Deus, disputaram a Prefeitura de São Paulo e Rio de Janeiro.
Das duas maiores cidades do Brasil, o Rio de Janeiro corre o risco de vir a ser governada por um bispo da
Universal licenciado e sobrinho de Edir Macedo.
O crescimento constante dos parlamentares da Universal tornou-a um modelo para outras Igrejas, como a Assembleia de Deus, e deu ensejo à criação da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil, em 2009. Esta organização, de caráter nacional, visa consolidar a força política dos evangélicos, principalmente os pentecostais e neopentecostais, dando suporte a candidaturas de prefeitos e vereadores este ano. Das 52 candidaturas a prefeito acompanhadas por esse conselho nas eleições deste ano, 43 são do PRB. A mais importante delas neste momento é a do sobrinho de Edir Macedo, o senador Marcelo Crivella, que tem boas chances de se tornar prefeito do Rio de Janeiro. Crivella foi bispo da Igreja Universal do Reino de Deus antes de se tornar senador. Outro candidato do PRB foi Celso Russomanno, que permaneceu em primeiro lugar nas pesquisas em São Paulo durante quase toda campanha eleitoral.
O projeto da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil é que a partir de 2017 os políticos evangélicos passem a trabalhar de maneira mais articulada, com as mesmas pautas, independentemente dos partidos em que estejam. [5]
O Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política contabiliza cerca de 10 mil “vereadores de Deus”, algo como um quinto do total; no plano estadual já existem frentes parlamentares evangélicas em quinze estados; a bancada evangélica na Câmara dos Deputados é de 73 parlamentares e no Senado conta com três senadores. [6]
No Congresso, os parlamentares evangélicos se reúnem toda quarta pela manhã para o culto, depois discutem projetos de lei e a pauta. O acompanhamento legislativo é feito por assessores, muitos deles indicados pela Igreja Universal do Reino de Deus, que orientam a ação dos parlamentares.
Os parlamentares evangélicos formam uma presença importante em Comissões do Congresso, como Seguridade Social, Direitos Humanos, Constituição, Justiça e Cidadania. Têm aí uma postura ideológica e se posicionam contra todos os projetos que, em seu entender, ferem seus valores. É o que vimos com o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), pastor da Catedral do Avivamento, uma Igreja neopentecostal ligada à Assembleia de Deus, e que esteve na presidência da Comissão de Direitos Humanos. Aí eles utilizam a Bíblia para propor ou alterar leis e atacar cláusulas pétreas de nossa Constituição. Se fazem presentes também na Comissão de Tecnologia e Comunicação, com catorze dos 42 assentos, para impedir qualquer iniciativa que venha a limitar seu poder midiático.
Segundo Silas Malafaia, existem centenas de projetos de lei no Congresso Nacional para detonar a família e os bons costumes, como os direitos LGBT, e cabe à bancada evangélica combater esses projetos. Mas seus interesses vão além disso, eles buscam:
* isenções fiscais,
* a cessão de terrenos públicos para seus templos,
* alvarás de funcionamento das igrejas,
* o reconhecimento da cultura evangélica e seu financiamento com recursos públicos,
* a manutenção das leis de radiodifusão,
* a concessão de canais de rádio e TV.
GLADIADORES DO ALTAR
Grupo de jovens bem treinado e preparado pela Igreja Universal do Reino de Deus,
com possibilidade de tornarem-se futuros pastores
Com uma atuação significativa no Congresso, os evangélicos, no entanto, não descuidam da importância de seu trabalho no seio da sociedade. Em janeiro de 2015, a Universal criou os Gladiadores do Altar, um grupo selecionado entre os integrantes da Força Jovem Universal. A Igreja Universal do Reino de Deus declara que eles já são 4.300 e compõem-se de homens de até 26 anos, que marcham fardados, batem continência para um líder, juram dar a vida pelo altar, valorizam a disciplina e a hierarquia. São reuniões semanais que ensinam na teoria e na prática a importância da Obra de Deus.
Marcio Alexandre, coordenador do Coletivo de Entidades Negras, alerta que no âmago da teoria pentecostal está presente a ideia de uma guerra contra o mal e que cabe às Igrejas salvar as pessoas desse mal. “Se a linguagem deles é de guerra, a prática também pode ser.” [7]
N O T A S

[ 1 ] – Adriano Senkevics, “A ‘nova classe média’ e o crescimento das Igrejas evangélicas”, 24 out. 2013. Disponível em: .

[ 2 ] – “Pastor grava vídeos para explicar em quem ‘cristãos não devem votar’”, Folha de S. Paulo, caderno Eleições, p. 4, 21 set. 2016.

[ 3 ] – Dan Martins, “Pastor compara políticos cristãos a fundamentalistas islâmicos, e afirma que ‘evangélicos têm um projeto de tomada de poder na sociedade brasileira’”, 1º set. 2013. Disponível em: .

[ 4 ] – Lamia Oualalu, “El poder evangélico en Brasil”, Nueva Sociedad, Buenos Aires, n. 260, nov.-dez. 2015.

[ 5 ] – Thais Arbex, “Evangélicos buscam atuação política mais coesa com campanha”, Folha de S. Paulo, caderno Eleições, p. 6, 19 set. 2016.

[ 6 ] – Piero Locatelli e Rodrigo Martins, “O poder dos evangélicos na política”, Carta Capital, 12 ago. 2014. Disponível em: .

[ 7 ] – “‘Exército’ da Universal preocupa religiões afro-brasileiras”, Carta Capital, 5 abr. 2015. Disponível em: .
Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil – Editorial – Ano 10 – Número 111 – Outubro 2016 – Págs. 3 e 4 – Internet: clique aqui.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A riqueza como meta

Eliane Tavares*


Joãozinho Trinta, um dos mais importantes carnavalescos do Brasil, foi muito criticado quando disse a frase que ficou célebre: "O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual". Naqueles dias, ao defender o luxo nas escolas de samba, ele já intuía que numa sociedade capitalista, que trabalha sistematicamente com a pedagogia da sedução, a qual define como bom o que é branco, magro, culto e rico, a única meta possível para a maioria das gentes fosse justamente tornar-se o que insufla a propaganda.  

O pensador Ludovico Silva, no seu livro “A mais-valia ideológica” mostra com maestria como se forma o consenso sobre as coisas do mundo a partir da televisão. Sentada, diante da tela, a pessoa consome uma proposta de mundo que está visceralmente ligada ao modo de produção hegemônico, o capitalista. Assim, nas propagandas, nos programas de entretenimento, nas novelas, nos jornais, o que se apreende é que só se dá bem na vida quem é rico e “bonito”, dentro dos padrões estabelecidos pelo próprio sistema. 

Esse é um elemento que talvez explique o profundo fascínio que as pessoas têm pelos ricos, que, afinal, não passam de 1% da humanidade. Como entender que uma revista como a CARAS, que tem como objetivo mostrar as pessoas ricas se divertindo à larga, seja um fenômeno de vendas? O que leva alguém a pagar para ver como os milionários passam as férias? E como explicar o sucesso de programas televisivos como os que mostram a vida de festas e viagens das Kardashians ou dos jovens ricos de Beverly Hills? A usina de ideologia fumegante que é a televisão não pode ser descartada como importante elemento de sedução. 

Isso também talvez possa explicar por que mais da metade das grandes cidades brasileiras definiram, em primeiro turno, por candidatos a prefeito que estão no patamar de “milionários”.  Segundo informações da mídia comercial (G1), dos 37 prefeitos eleitos em cidades com mais de 200 mil eleitores, 23 deles declararam patrimônio maior do que o de um milhão de reais. João Dória, que venceu em São Paulo, é um exemplo. Declarou uma fortuna de quase 200 milhões de reais. E Vottorio Medioli, de Betim, declarou um patrimônio de mais de 300 milhões. Outro milionário que se deu bem junto aos eleitores foi o neto de ACM, na Bahia. E por aí vai. São figuras que representam bem o padrão “bem sucedido”.

Aloísio Silva, que trabalha numa empresa de limpeza, defende o voto nos ricos. “Eles já tem bastante dinheiro, aí não vão roubar da cidade e sobra pra investir na educação, na saúde”. Raciocínio lógico perfeito. Para uma população que foi bombardeada com a formulação do consenso de que o político é corrupto por natureza, os candidatos que aparecerem descolados da política tradicional acabaram aparecendo como as melhores opções. 

Fato muito parecido acontece nos Estados Unidos, onde o candidato ultra milionário, racista e misógino, Donald Trump, aparece como favorito para as eleições presidenciais. Nas fotos divulgadas pela mídia, vê-se o candidato com a família na sua mansão, que mais parece um cenário de cinema. Na sala, o filho pequeno montado num leão. Eu disse: um leão. Empalhado, mas um leão. Coisas que o dinheiro pode comprar. E isso é visto como o suprassumo da chiqueza. Suas piadas racistas e a depreciação das mulheres são vistas como “gracejos sem maldade”, afinal, ele é um homem da alta sociedade.

Claro que essas figuras bizarras não estão descoladas da política, mas a usina ideológica, a fábrica de propaganda, assim os mostra. O que não mostra é que justamente por estarem colocadas no topo da pirâmide social, essas pessoas defenderão com unhas e dentes os interesses do 1% que lhe é próximo. Aos 99% restantes serão jogadas as migalhas, como sempre foi na casa-grande.  

Ainda há uma longa estrada para percorrer no processo de desvelamento da realidade. Sem meios de comunicação massivos e sem um trabalho de base sistemático - que nos falta há tempos  - fica muito difícil enfrentar a pedagogia da sedução capitalista. A proposta de um mundo de riquezas repartidas não encontra eco e aparece como muito chinfrim no imaginário popular. As pessoas querem ter a vida do Dória ou do Trump. Sem essa de repartir. Claro, ninguém nasce assim, egoísta e desprovido de altruísmo. 

Esse é um consenso construído que precisa ser derrubado. Coisa difícil. Quando os programas mais vistos na televisão são os shows de realidade nos quais as pessoas são levadas a “eliminar” os concorrentes, e os que assistem também participam “eliminando” o outro, isso significa que a fábrica ideológica está a todo vapor. 

Ainda assim, seguimos, apostando na vida comunitária e na construção de outra sociedade, na qual não existam classes e todos desfrutem das belezas da vida. 
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* Jornalista.
Fonte: http://eteia.blogspot.com.br/2016/10/a-riqueza-como-meta.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed:+blogspot/LceKx+(Elaine+Tavares+-+Palavras+Insurgentes)

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Frase 'Viagra fez mais pelos humanos que o marxismo' ressoa entre 'haters'

Luiz Felipe Pondé*

Viagra X200 anos de marxismo

Há alguns anos, na primeira vez que fui entrevistado no "Roda Viva" da TV Cultura (2011), disse uma frase que até hoje ressoa: "O Viagra fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo".
Legiões de "haters", essa nova atividade nascida com as redes sociais, abominam essa afirmação e a tomam como "alienada". O "hater" é o irmão gêmeo do "loser" –a diferença é que o "loser" não é histérico.

De fato, pode parecer uma comparação absurda, mas ela é, na verdade, bastante séria em termos filosóficos, sociológicos e psicológicos.

Mas, antes, deixemos claro que o contexto era de crítica ao marxismo, óbvio. Mas não ao marxismo como método materialista enquanto tal. Considero o método materialista uma ferramenta, entre outras, bastante eficaz na análise da história e da sociedade.

O que considero delirante é sua dialética metafísica envergonhada em nome do "bem político": a história não está caminhando para lugar nenhum, e a violência entre as "classes" é parte da violência generalizada do mundo, sem foco, sem destino, seu causa "racional", e quem se diz a favor do "bem político" é só gente autoritária e mentirosa.

Os marxistas estão errados em sua análise histórica metafísica. O marxismo se tornou (não era) um cabide de emprego para professores e intelectuais medíocres em geral.

Prefiro métodos mais modestos, como o do filósofo Isaiah Berlin (século 20). O autor inglês dizia que você pode ser um porco-espinho ou uma raposa em matéria de método de estudo ou pensamento.
Porcos-espinhos, como Marx e Freud, pensam que uma ferramenta grandiosa, à qual dedicam suas vidas inteiras, pode iluminar o mundo todo, ou quase todo ele.

Raposas, como o próprio Berlin, são intelectuais "vadios" e "volúveis", como raposas que cheiram tudo e usam tudo que lhe é útil sem "fidelidades conceituais quaisquer" ou respeito pela "totalidade" de conceito algum.

Para uma raposa nunca se está chegando perto de alguma "verdade definitiva", nem em termos de método, nem em termos de objeto.

Considero-me mais uma raposa do que um porco-espinho, por isso considero o materialismo histórico essencial como análise de mundo, mas o "resto" profético marxista (o que de fato é pregado pelos seus apóstolos) em nome do "bem social dos mais fracos", parece-me um delírio metafísico infantil ou perverso.

E o Viagra com isso? Filosoficamente, diríamos que ele faz parte do espectro materialista bioquímico, "apenas". Trata-se de uma molécula, "apenas". Fruto da pesquisa farmacêutica.

Quando afirmo que ele fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo, quero dizer que uma "mísera" molécula faz mais pela humanidade do que um monte de gente "bem-intencionada" masturbando-se intelectualmente a fim de atingir seu próprio gozo moral de "gente legal" com o mundo.

Cientistas trabalhando em troca de salários ajudaram muito mais a humanidade com sua "mísera molécula" do que os revolucionários da igualdade.

Sociologicamente falando, uma medicação é fruto do interesse em lucro da indústria farmacêutica, normalmente vista pelos bonitinhos como malvada e porca capitalista, enquanto o marxismo é um grupo de pessoas pensando para o "bem" da humanidade. E aí vem o susto!

Os porcos capitalistas e seus alienados cientistas fizeram mais pela humanidade do que 200 anos de gente bonitinha junta "rezando".

Psicologicamente falando, o Viagra é a prova de que o materialismo bioquímico pode causar transformações psíquicas e psicossociais, às vezes, mais determinantes do que teorias mirabolantes sobre o que fazer para as pessoas superarem um dia a dia esmagador e sem sentido.

Com isso, não quero negar o valor da psicanálise nem certos efeitos nefastos de alguns psicofármacos, apenas dizer que, às vezes, a simples recuperação de funções fisiológicas essenciais leva a vida "para o lugar certo" rapidamente, sem discursos sofisticados sobre o que vem a ser a vida psicológica sã.

Esse é um caso semelhante ao da pílula anticoncepcional e o feminismo. Sem a pílula, o feminismo seria uma mera seita, como o marxismo se tornou.
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* Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
Foto:  Ricardo Cammarota
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/10/1819151-frase-viagra-fez-mais-pelos-humanos-que-o-marxismo-ressoa-entre-haters.shtml

A literatura pode sobreviver sem crítica?


José Eduardo Agualusa*
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A crítica literária está sendo vítima da crise global do jornalismo em papel 

O colapso da crítica literária serviu de mote para um dos mais animados debates da segunda edição do Festival Literário Internacional de Óbidos (Folio), que se encerrou ontem, domingo. O escritor e crítico literário paranaense Miguel Sanches Neto dividiu a mesa com dois críticos literários portugueses muito conhecidos e muito distintos um do outro: Pedro Mexia e João Pedro George. Mexia, também poeta, é o intelectual de direita que a esquerda ama e cultua. Homem afável, inteligentíssimo, está tão à vontade a discutir literatura quanto cinema. Já João Pedro George, se fosse diretor de cinema, seria Tarantino. George pratica uma crítica-espetáculo, com muito sangue, veneno, explosões e adjetivos cheios de dentes. Ao longo dos anos tem-se esforçado por assassinar, embora sem grande sucesso, desde escritores respeitados, como Gonçalo M. Tavares, a expoentes da chamada literatura light, como Margarida Rebelo Pinto.

Logo nos primeiros minutos, Miguel Sanches Neto chamou a atenção para um curioso paradoxo: ao mesmo tempo que o espaço para a crítica literária diminui, o interesse pelo livro vem aumentando — graças sobretudo à multiplicação de festivais literários.

A crítica literária está sendo vítima da crise global do jornalismo em papel. Os jornais não têm dinheiro para pagar aos críticos. Além disso, a atividade é ingrata. “Exige uma vocação para ser odiado”, como explicou Miguel Sanches Neto. Os escritores odeiam os críticos que destroem os seus livros; odeiam inclusive os que lhes fazem elogios, porque “não eram aqueles elogios que eles esperavam ouvir”.

Pedro Mexia recordou Eduardo Prado Coelho, o último dos grandes críticos literários portugueses, segundo o qual “a crítica é um tribunal sem lei”. O crítico produz veredictos guiado, em último caso, pelo coração. Não há nada mais subjetivo do que uma opinião sobre uma obra de arte. Por isso mesmo, é um ofício que implica responsabilidade. Nos nossos dias assistimos a uma irresponsabilização da crítica: “É compreensível que muitos críticos jovens, sendo tão mal pagos, nem sequer leiam os livros que criticam”, assegurou George, que no entanto se recusou a classificar a situação como de colapso: “A critica passou para a internet.”

Sim e não. Como Pedro Mexia rebateu, são muito raros os blogs literários, quer no Brasil quer em Portugal, que publicam crítica literária de forma regular e com alguma qualidade. O leitor vulgar, de resto, não lê blogs literários.

Resumindo: a crítica literária está de fato a desaparecer. Os leitores não. Portanto, a pergunta que importa fazer é: podemos viver sem crítica literária?

Para mim, enquanto leitor, a crítica literária sempre teve um papel fundamental, desde logo, ao chamar a atenção para este ou aquele livro. Todos os dias chegam às livrarias títulos novos. Entrar numa livraria sem uma mão que nos guie pode ser uma aventura cruel. Claro que quando acertamos numa escolha a alegria é maior — porque se soma à alegria da descoberta. O problema é que as possibilidades de errar são imensas. Com o colapso da crítica literária a minha biblioteca vem-se enchendo de livros de que me desinteressei após ler as primeiras páginas.

“O grande papel da crítica é apontar caminhos”, disse ainda Miguel Sanches Neto. Ao que João Pedro George, na sua função discordante, naturalmente discordou, dizendo que a crítica não deve ser pedagógica. Deve, claro. Nos jornais ingleses e americanos, nos quais a crítica literária continua a ter bastante espaço, isso sempre foi algo claro. A crítica tem como objetivo iluminar a leitura, ajudar os leitores a fruir os livros.

Para um escritor, talvez seja ainda mais importante. A ideia de que um escritor não deve preocupar-se com a forma como a sua obra é recebida sempre me pareceu arrogante e absurda. Se um escritor publica é porque pretende ser lido; se quer ser lido, deve saber escutar quem o lê.

Festivais literários permitem que os escritores se confrontem com os leitores. A opinião dos leitores ajuda os escritores a buscarem caminhos para a própria obra. Tais eventos, porém, não substituem o espaço crítico. O colapso deste pode, sim, vir a empobrecer e degradar a própria literatura.

Não sei se a internet conseguirá algum dia substituir-se aos jornais em papel como novo veículo para a crítica literária e o debate sobre livros. Não vejo, contudo, outro caminho. Há alguns meses noticiei nesta mesma coluna o surgimento na Espanha de um portal literário chamado “Zenda”. Na altura recebi algumas mensagens de escritores brasileiros e portugueses interessados em replicar a iniciativa para o nosso universo. Espero que aconteça.
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* Colunista do Jornal O Globo.
  Fonte http://oglobo.globo.com/cultura/a-literatura-pode-sobreviver-sem-critica-20222639#ixzz4M1WqK3zo

Imagem da Internet 

domingo, 2 de outubro de 2016

“O mais importante na vida de uma criança é ter com quem brincar”

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Luciano Lutereau psicanalista, pesquisador e professor da Universidade de Buenos Aires

Doutor em Filosofia e Psicologia, o psicanalista argentino Luciano Lutereau, pesquisador e professor da Universidade de Buenos Aires, afirma que a melancolia sempre esteve associada à infância, mas reconhece que hoje essa condição se faz mais presente. O autor do livro O idioma das crianças lamenta que a brincadeira perca espaço para passatempos que são simples entretenimento, como videogames e outros atrativos tecnológicos, o que acarreta um prejuízo à capacidade de elaborar conflitos.

– As crianças estão mais expostas à melancolia já que não têm como reparar aquilo que as faz sofrer – explica Lutereau.

Os adultos têm enfrentado dificuldades para lidar com alguns sentimentos das crianças, como a tristeza, a raiva, a frustração?

Sem dúvida. Hoje nos encontramos com uma particular intolerância a respeito das emoções das crianças. Uma ideia própria da psicanálise, a de que a criança cresce através dos conflitos, é abandonada diante da expectativa de que ela sempre deve estar alegre. O imperativo do bem-estar, estendido à infância, leva o adulto a se assustar e a não saber como agir em situações normais, como as que demonstram a presença, na criança, de um sentimento de culpa inconsciente: por exemplo, as crianças são tachadas de instáveis ou impulsivas, quando esses estados expõem um traço particular do desejo infantil, o desejo de ser castigado. Um grande problema do nosso tempo é a intensa vigilância da infância em função de padrões adaptativos, como rendimento escolar, hábitos de higiene e costumes, e não baseada em seus próprios critérios de crescimento.

Em um artigo sobre a melancolia infantil, você escreveu que “começamos a temer o tédio como o mais urgente de todos os males e, no caso das crianças, nos preocupa muito mais que tenham algo para fazer do que pensar na plenitude do que fazem”. Pode falar um pouco mais sobre isso?

Hoje em dia, parece muito mais importante ter uma vida exitosa do que uma vida autêntica. Dito de outra maneira, a sociedade contemporânea se baseia no efeito e não tanto no sentido. Desde muito cedo, as crianças são incluídas em práticas que ocupam o seu tempo, sem que isso implique uma “temporalização”. Quando o tempo não está “ocupado”, elas se sentem vazias e se aborrecem. Pedem para ser estimuladas. Inclusive os pais planejam suas viagens de férias considerando lugares que tenham recreação para seus filhos. Na tradição ocidental, o tédio e o aborrecimento não representaram apenas um tempo perdido, mas também uma passagem para a lucidez e a criação. A sociedade contemporânea, baseada na agilidade, esquece que o homem é a projeção no mundo da sua capacidade de invenção, e isso se reflete na infância como uma perda crescente da experiência lúdica. A brincadeira, antes de ser uma atividade, é uma ação que a criança inventa repetidas vezes. A brincadeira é o modo como a criança se inclui em um tempo próprio, e não uma temporalidade objetiva que prejudica o seu desenvolvimento.

Que tipo de mensagem o intenso consumismo de nossa época pode estar transmitindo às crianças?

O consumismo não tem mensagem, é uma ordem vazia de acumulação, de posse e descarte. O principal problema da atitude consumista é quando não se vincula apenas a objetos, mas também a pessoas. Desde pequena, a criança pode se acostumar a tratar os outros como descartáveis e as relações humanas como recicláveis e sem profundidade. O capitalismo atual é muito diferente daquele que se seguiu à Revolução Industrial. A sociedade pós-moderna não é utilitária, mas cínica, e este cinismo pode atingir as crianças se não levarmos em conta o importante papel da educação. Por exemplo, alguém poderia dizer a uma criança que ela não deve roubar porque pode ser presa, e isso não é mais do que um conselho prático. Na realidade, o fundamental é ensinar que ela não deve roubar porque assim prejudicará alguém. À moral de conveniência de nosso tempo, é preciso voltar a se opor uma ética da lei.

Por que a tristeza da criança é diferente da tristeza do adulto?

Porque nas crianças a possibilidade de perda é muito mais angustiante. Um adulto já está preparado para fazer uma relação entre o que se perde e o que permanece, através do luto, mas a criança costuma dramatizar essas perdas como absolutas. Além disso, a perda na infância pode acarretar um intenso sentimento de culpa – a criança acredita que fez algo errado ou foi má. A maneira como os adultos devem lidar com a tristeza das crianças é no sentido de reduzir o sentimento de culpa, permitindo que a brincadeira seja uma via de exploração das fantasias que as afligem. Esse território intermediário oferecido pela ficção, entre o interno e o objetivo, permite que a criança veja que seus temores não são tão intensos e que, além disso, são passageiros. E também que ela pode compartilhá-los com o outro sem ter medo de represálias. O mais importante na vida de uma criança é ter com quem brincar.
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Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7619363.xml&template=3898.dwt&edition=29813&section=4572 - 01 e 02 de outubro de 2016.

Precisamos falar sobre o outro?

 Paulo Gleich*
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Recentemente, a escritora Lionel Shriver, conhecida pelo best-seller Precisamos falar sobre o Kevin, causou polêmica ao defender a prerrogativa dos escritores de falar através dos personagens que queiram, mesmo que sejam muito diferentes do autor na vida real. Em outras palavras, reivindicava o direito de dar voz a pessoas de outras etnias, gêneros, épocas, classes sociais. Sua fala foi muito criticada, e ela, acusada de minimizar os efeitos da apropriação cultural – um conceito que questiona o uso de símbolos e experiências de grupos identitários minoritários por outro dominante.

Interrogar a apropriação cultural e as várias formas de colonização é pertinente, pois expõe relações de poder tão estabelecidas que parecem naturais. São discussões necessárias, que permitem a muitas pessoas e grupos encontrarem outras narrativas sobre sua condição, produzindo importantes deslocamentos que viemos acompanhando em vários âmbitos da sociedade. Dar voz a quem não tinha possibilidade de ser escutado no espaço público enriquece o debate, desestabiliza e reestrutura os jogos de força que configuram o tecido social.

Esse debate, porém, às vezes acaba indo a um extremo, para o qual Shriver alerta: o de que apenas quem pertence a determinado grupo identitário seja autorizado a falar de sua condição. Um efeito disso é a restrição da liberdade de expressão – paradoxalmente, muitas vezes por parte de quem se diz defensor das liberdades. Mas há outro perigo: a impossibilidade do diálogo, com o consequente empobrecimento da experiência de si mesmo. Se apenas minha versão sobre mim é válida, sem confronto com outras, não há por que dialogar. A psicanálise, aliás, só funciona porque os pacientes se permitem interrogar suas narrativas sobre si mesmos, que sempre têm pontos cegos e bretes.

Bons escritores têm essa capacidade de enunciar, através de pessoas inventadas, algo que os toca e que faz eco na experiência de outras pessoas. Ficou famosa a afirmação de Flaubert “Madame Bovary sou eu”, mas em alguma medida todos os personagens de um escritor carregam algo dele próprio, mesmo que seja muito distante de sua experiência pessoal. Muitos escritores deram voz a sujeitos, mas também a sentimentos marginalizados, com isso enriquecendo a compreensão do mundo e da condição humana. Outros criaram caricaturas cheias de preconceitos, mas isso é parte da liberdade para criar – e até pode enriquecer o campo do debate e da crítica, como acontece amiúde nas redes sociais.

Cercear as possibilidades de expressão na literatura e nas artes em prol de uma retidão discursiva traz o perigo de restringir a extensão da experiência humana, para a qual os escritores em muito contribuem. Ao buscar restringir a priori a liberdade criativa, em vez de se valer de seus frutos para alimentar o debate e o pensamento, corre-se o risco de impor, em nome de um suposto bem, uma ditadura do pensamento. O cuidado com a palavra e com o lugar do outro são efeitos interessantes de nossos tempos, mas podem ter, levados ao extremo, esse efeito danoso. Em última instância, a exigência de silenciar em relação à condição do diferente é desumana: impede a tentativa, sempre insuficiente – mas necessária –, de estender pontes para o outro.
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*PSICANALISTA E JORNALISTA.ESCREVE MENSALMENTE
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7619386.xml&template=3898.dwt&edition=29813&section=4572
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“A história é o choque de sistemas imunológicos”

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Um dos mais contundentes filósofos contemporâneos, o alemão Peter Sloterdijk estará em Porto Alegre na segunda-feira, dia 3, como convidado do Fronteiras do Pensamento. Autor de Crítica da Razão Cínica, best-seller na Europa na década de 1980 que faz alusão ao clássico kantiano Crítica da Razão Pura, ele sustenta que a marca do nosso tempo é a racionalidade cínica. Um tempo de inocências perdidas e “consciências infelizes”, em que nos tornaríamos “cúmplices” de desorientação, como ele descreve nesta entrevista, concedida por e-mail.

Atualmente reitor da Escola Superior de Design, em Karlsruhe, é um pensador que transita entre o erudito e o popular. Até 2012, ao lado do colega Rüdiger Safranski (biógrafo de Nietzche e Kant), Sloterdijk apresentou o programa de TV O quarteto filosófico, analisando temas atuais. Sua mais recente publicação no Brasil é Esferas I: Bolhas, primeiro volume da trilogia que é considerada sua obra-prima e que ganha edição no Brasil pela Estação Liberdade.

Qual deve ser o assunto de sua conferência em Porto Alegre?

O discurso que vou fazer em Porto Alegre vai lidar com a impossibilidade de paz em uma realidade global marcada pela colisão de sistemas imunológicos incompatíveis. Aqui entendo o termo “sistema imunológico” não em seu significado biológico ou médico, mas em um sentido muito amplo que abarca todas as instituições, rituais, leis e hábitos mentais baseados na experiência de que existem coisas nocivas acontecendo no mundo – coisas que preferiríamos evitar. O confronto das nossas medidas de prevenção produz rivalidade, guerra, e a tendência a minimizar as chances de sobrevivência das culturas concorrentes. Cada cultura na Terra desenvolveu um conjunto diferente de medidas de proteção, a fim de garantir sua própria continuidade. Daí a nova definição: toda história é a história do choque entre sistemas imunológicos. O que costumamos chamar de “ética” é o esforço para superar as forças destrutivas encarnadas em sistemas concorrentes de autopreservação.

Enquanto Marx denunciava uma “consciência falsa” que precisaria ser esclarecida, o senhor diz que a marca da sociedade contemporânea é a “falsa consciência esclarecida”, caracterizada pelo cinismo. Qual seria o mais icônico exemplo dessa razão cínica nos dias de hoje?

Marx estava errado quando pretendia que toda crítica devia começar com a crítica da “religião”. A verdadeira crítica tem de começar pelos falsos conceitos. A ideia de que Deus queria destruir a humanidade no Dilúvio é uma expressão pesada de como as pessoas podem se sentir culpadas, mas é um conceito falso. A ideia de que as viúvas devem ser queimadas com seus maridos também é um falso conceito. Para colocar a questão paradoxalmente como ela é: religião não tem nada a ver com religião. Na verdade, é tudo sobre a imunidade. Marx entendia “religiões” como invenções errôneas, em sua maioria ingênuas, que ajudaram os seres humanos a sobreviver aos sofrimentos de suas condições normais de vida. Deste ponto de vista, Marx permaneceu um Feuerbachiano medíocre: Deus é a projeção da humanidade no céu. Antes de realmente compreendermos a diferença entre a ilusão ingênua e a “falsa consciência esclarecida” – a definição de cinismo –, temos de deixar claro que as assim chamadas religiões são parte desses sistemas imunológicos abrangentes que chamamos de culturas. O cinismo surge quando a revolta e o “progresso” parecem tornar-se ideias vazias. Os cínicos clássicos do século 19 eram aristocratas decepcionados, às vezes os derrotados pela política bombástica de Napoleão. Não por acaso, essas pessoas preferiram a vida noturna, como vampiros e poetas malditos. No século 20, as enormes decepções provocadas pelos fracassados movimentos socialistas também deram origem a um rico espectro de fenômenos cínicos. O pior caso hoje, porém, é o movimento de massa dos irados perdedores do sonho americano.

Com a crise de 2008, muitos se apressaram em declarar o fim do capitalismo financeiro. Mas dados recentes mostram que as grandes fortunas especulativas só aumentaram. Por que o senhor acha que isso aconteceu?

A suposição de que a crise provocada pelo Lehman Brothers poderia ser o anúncio do fim do capitalismo financeiro foi um revival de nostalgias do socialismo tardio. Ela continha uma boa dose de esperanças de desastre suspeitas – o que significa que o fenômeno do cinismo não tem necessariamente afinidade com um determinado campo político.


De um ponto de vista antropológico, os seres 
humanos comuns preferem estar entre os bons. 
Se isso não é mais plausível, uma certa tristeza 
moral vai recair sobre nossas vidas. 
Temo dizer que a palavra-chave para as 
 “consciências infelizes” 
do nosso tempo é “cumplicidade”

Ainda sobre a crise: ela levou pessoas às ruas para manifestações contra a falta de regulamentação do capital. Na época, muitos tiveram a esperança de que se abririam a partir dali alternativas ao atual modelo. Por que, em sua opinião, essas alternativas não parecem ter florescido, e, pelo contrário, assistimos a um avanço global da direita conservadora?

Em nossos dias, a síndrome do cinismo como uma revolta agressiva contra a ideia de justiça, progresso e boa vontade está novamente alterando o campo partidário. Vejo muito poucos elementos “conservadores” nos novos movimentos de direita em todo o mundo, se por conservadorismo entendermos o justo sentimento pelos valores do passado. Percebo, em vez disso, muita raiva contra a civilização como tal e um ódio profundo contra as “elites” – sintomas que conhecemos muito bem das tentações totalitárias do século 20. Entre os intelectuais franceses tem havido, nos últimos meses, um debate significativo sobre a nova “desmoralização”.

O senhor também afirma que esse cinismo social é portador de um “quantum de infelicidade”, que deixa os cínicos vulneráveis, como num luto por uma “inocência perdida”. Isso explicaria o avanço da depressão como doença marcante de nosso século?

De um ponto de vista antropológico, os seres humanos comuns preferem estar entre os bons. Se isso não é mais plausível, uma certa tristeza moral vai recair sobre nossas vidas. Temo dizer que a palavra-chave para as “consciências infelizes” do nosso tempo é “cumplicidade”. Isso significa que a possibilidade de inocência, como tal, está desaparecendo. Como é triste não sermos capazes de ser melhores do que somos. Isso não significa que todos nós somos parceiros no crime, mas parceiros na desorientação.

Em seus escritos, o senhor também tem alertado que a globalização capitalista não representa apenas abertura, mas também uma certa redoma que separa os “de dentro” dos “de fora”. Em que medida o fenômeno da migração de refugiados para a Europa é uma expressão disso? Que desdobramentos o senhor imagina que esse afluxo trará para os próximos anos?

A diferença entre os “de dentro” e os “de fora” é essencial para um entendimento profundo de nossos tempos. Envolve o problema fundamental do mundo moderno: sua principal característica é a irresistível tempestade de urbanização. A migração contém apenas uma forma de expressão dessa “mudança climática” da vida rural para a existência na cidade grande. A propósito, os maiores fluxos migratórios têm ocorrido no interior da China e da Índia, a maioria deles completamente ignorados pelo resto do mundo. Em comparação com desafios daquelas dimensões, as preocupações de americanos e europeus de que muitos “deles” poderiam tentar cruzar as fronteiras são episódios de menor importância.

O senhor defende que uma das maneiras de ultrapassar o cinismo seria pelo resgate de virtudes originais do cinismo da antiguidade, o “kinismo”, o que incluiria o riso e a insolência. Qual seria o primeiro passo para essa virada?

Eu não repetiria essas frases hoje. Elas foram escritas em um espírito de frivolidade juvenil. Parece-me agora que há riso e insolência o suficiente no mundo. Lembre-se de como Breivik gargalhava quando matou aqueles jovens na ilha (o terrorista norueguês de extrema-direita Anders Behring Breivik matou a tiros 76 jovens integrantes do Partido Trabalhista, 68 deles caçados a tiros em um acampamento de verão na ilha de Utoya). E não vejo falta de insolência, em nenhum campo. É muito melhor meditar sobre a palavra grega brotói. Significa “os mortais”. Originalmente, designava o sangue que pinga de um ferimento. Portanto, estamos sangrando, e temos que estar preparados para morrer. Que conceito simples e profundo! Se os seres humanos são mortais e se ser mortal significa depender de sistemas imunes em geral – em todos os níveis, simbólico, jurídico, econômico –, então um primeiro passo de uma ética não idiota para seres mortais deveria consistir em uma Grande Declaração Geral de Dependência.
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leticia.duarte@zerohora.com.br
CARLOS ANDRÉ MOREIRA CARLOS.MOREIRA@ZEROHORA.COM.BR LETÍCIA DUARTE
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7619375.xml&template=3898.dwt&edition=29813&section=4572

Eterno tema

Lya Luft* 
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Sim, em algumas coisas sou repetitiva: quando me empolgam ou causam ansiedade. Educação é um desses meus temas. Sou de uma família de professores: meu pai, diretor de uma Faculdade de Direito, onde foi professor. O pai de meus filhos, grande mestre. Por breves anos, lecionei linguística num curso de Letras. Meu filho mais moço é professor de filosofia na PUC. E todos os meus sete netos estudam, nos mais variados níveis. Educação me interessa muito – e me assusta.

Será ela o primeiro assunto em qualquer governo, ou será segurança? – indagamos nessas conversas de temas hipotéticos. Quando não andamos seguros nem até a esquina, certamente segurança é primordial, para que pais, alunos e professores ao menos possam ir às escolas. Mas, fora dessa circunstância tão anormal em que vivemos, ponho acima de tudo a educação, que nos ajudará a termos saúde, segurança, trabalho e o resto. Educação: informação, para não sermos ignorantes, e valores para a nossa moralidade (não moralismo, cuidado!). Nossa educação anda pertinho do fundo do poço. Até na faculdade recebemos alunos que não conseguem escrever pois não sabem coordenar pensamentos, não aprenderam a observar, a argumentar, coisa que implicaria até filosofia na escola, sim: não é preciso ensinar Platão a meninos de 10 anos, mas fazê-los usarem sua inteligência.

Autoridade faz parte de educar, conceito que tem sido rejeitado, ridicularizado. Certa vez, numa conversa com jornalistas antes de iniciar uma palestra, perguntaram o título da minha fala, e respondi: “Educação e autoridade”. Um dos rapazes arregalou os olhos: “Autoridade?”. Pois é: aquilo que ensina que algumas coisas pode, outras não pode; que existem o sim e o não, e consequências dos nossos atos. Autoridade (começando em casa) não é chicote, puxão de orelhas, castigo no quarto escuro, mas orientação sem forçamento de barra ou de emoções, dando alguma forma ao mundo – que para crianças ainda é uma massa informe, confusa, às vezes bonita, outras assustadora. A vida com algum rumo não fica sem graça: é menos angustiante.

Rigor no ensino é outro fantasma detestado. “Rigor” não quer dizer campo de concentração, mas exigências segundo a possibilidade de cada um. Quando lecionava, e não fui boa nisso, muitas vezes disse sinceramente a meus alunos: “Vocês são muito melhores e mais inteligentes do que a universidade, a sociedade, a família e vocês mesmos pensam ser”. Isto é, mais capazes de esforço, aprendizado, crescimento pessoal. Podia soar estranho num ensino no qual é preciso caprichar para ser reprovado, e a mera ideia de reprovação causa horror.

“Respeito” começa por respeito a si mesmo: falta de educação não ajuda, bater grandes papos, usar celular para falar ou jogar em aula, ironizar ou insultar um professor (ou bater nele...) – são mau gosto e vulgaridade. Uma certa harmonia e respeito mútuo seriam grandes vantagens para os alunos, mas isso vem de casa.

Os currículos devem ser mudados? Sim!!!! Desde que não seja para tornar tudo ainda mais superficial ou fácil. Mas acabou o espaço desta coluna: que alívio. O assunto me dá calafrios.
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* Escritora.
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7625107.xml&template=3916.dwt&edition=29813&section=70
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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Nasceu o primeiro bebé com o ADN de três pessoas diferentes

John Zhang segura o bebé com o ADN de 3 pessoas diferentes ao colo
New Scientist
O primeiro bebé com código genético de 3 pessoas diferentes nasceu há cinco meses no México. A técnica permite a casais com doenças genéticas terem filhos saudáveis. Estamos a fazer bebés-Lego?

Tem cinco meses, é um menino e é o primeiro bebé do mundo a nascer com o código genético de três pessoas diferentes. Abrahim Hassan foi concebido através de uma “técnica revolucionária” de reprodução medicamente assistida que, confirma-se agora, permite a um casal com mutações genéticas raras terem um filho completamente saudável. As práticas já foram aprovadas legalmente pelo Reino Unido, o único país até ao momento a permitir este tipo de técnica de reprodução. A notícia está a ser avançada pela New Scientist.

Os nomes dos pais ainda não são conhecidos. Sabe-se que são naturais da Jordânia e que foram acompanhados por uma equipa médica norte-americana no México. Acontece que a mãe desta criança tinha genes responsáveis pela síndrome de Leigh, uma doença que afeta o sistema nervoso central. Os 37 genes que expressam esta síndrome estão presentes nas mitocôndrias (e não nos núcleos das células, como na restante cadeia de ADN), que são responsáveis por produzir a energia dos organismos e que, no momento da procriação, são fornecidos pela mãe (e apenas pela mãe) ao novo bebé.

Todas as células do corpo humano têm mitocôndrias. Mas no caso dos espermatozoides, as mitocôndrias estão presentes depois da cabeça, numa parte que por norma não fecunda o óvulo, sendo por isso desprezadas. É por isso que todas as mitocôndrias de qualquer ser humano são-nos dadas pela mãe.

Ora, esta mãe não tinha síndrome de Leigh. Para que alguém sofra de uma determinada doença não basta que tenha a informação genética referente à doença: o organismo tem de “ler” esses genes. Mas embora a mãe fosse saudável, ela já tinha passado os genes dessa mutação para os dois primeiros filhos do casal, que morreram ainda pequenos com síndrome de Leigh (porque, neles sim, os genes da mutação tinham sido “lidos” pelo organismo). Cansados, procuraram a ajuda de John Zhang, médico do Centro de Fertilidade “New Hope” em Nova Iorque, Estados Unidos, para gerar um filho saudável. E ele arranjou uma solução.

Em 2005, este casal deu à luz uma menina. Ao contrário da mãe, os genes da síndrome de Leigh da menina estavam ativos. A criança começou a ter problemas cerebrais, musculares e nervosos. Morreu aos seis anos. O segundo filho do casal também nasceu doente e sobreviveu apenas durante 8 meses.
A técnica chama-se “transferência pró-nuclear”, envolve a utilização dos óvulos de duas mulheres diferentes e o esperma de um homem. Os dois óvulos – da mãe e da dadora – são fertilizados pelos espermatozoides do pai. Antes ainda de se começarem a dividir em várias células no estágio inicial para formar um embrião, o núcleo dos dois ovos fertilizados foram retirados. O núcleo do óvulo fecundado materno foi então transferido para o óvulo fecundado da dadora – que tinha mitocôndrias com informação genética saudável. O bebé começou a desenvolver-se com o código genético do pai, da mãe e com a informação genética mitocondrial da dadora, que era saudável e não continha mutações.

Como o casal é muçulmano, John Zhang teve de mudar ligeiramente o procedimento. Usou uma “transferência nuclear de fuso”. Primeiro removeu os núcleos do óvulos maternos e colocou-os nos óvulos da dadora (já sem os seus núcleos originais). Os óvulos resultantes ficaram então com o ADN nuclear da mãe e com o ADN mitocondrial da dadora, tendo a seguir sido fertilizados com o esperma do pai. Dos cinco embriões que se começaram a desenvolver, apenas um se comprovou completamente saudável. Foi esse o escolhido para ser implantado na barriga da mãe. Nove meses depois, a 6 de abril de 2016, nasceu Abrahim Hassan.

Nos Estados Unidos, o procedimento de John Zhang é proibido porque experiências semelhantes feitas nos anos 90 deram origem a bebés com doenças genéticas. Foi por isso que a família e a equipa médica rumaram para o México onde “não há regras”, explicou Zhang à New Scientist. Lá estudaram as questões éticas ligadas ao assunto e chegaram a uma conclusão: esta criança tinha mesmo de ser um menino. Porquê? Porque como só as mulheres passam as mitocôndrias para os filhos, o facto de o bebé ser um homem significa que nunca passará qualquer parte de código genético para os seus descendentes. Desta vez a “receita” resultou porque, ao invés de se limitarem a injetar mitocôndrias saudáveis nos óvulos da mãe, os médicos isolaram o código genético danificado.

Nos anos 90, o médico Jack Cohen tentou um método semelhante. Ele expirou o citoplasma de um óvulo saudável de uma jovem, injetou-o num óvulo de uma mulher mais velha e depois fertilizou este último com o esperma masculino. O procedimento de “rejuvenescimento celular” resultou: há entre 30 e 50 pessoas que nasceram através deste método. Mas a prática foi proibida logo a seguir pelos Estados Unidos.

Apenas 1% do ADN mitocondrial de Abrahim Hassan tem informação genética da síndrome de Leigh: para se expressar, a mutação tem de estar presente em 18% dos genes do indivíduo, o que torna altamente improvável que o bebé venha a desenvolver a doença que bloqueia a habilidade motora e leva, em última instância, à morte.

Um bebé feito de Legos?

Ainda este ano, a cientista francesa Emmanuelle Charpentier veio revelar uma descoberta capaz de mudar o mundo. Especialista em microbiologia, genética e bioquímica, a investigadora confirmou a existência de uma “receita científica” para editar o material genético humano (inserindo novas portas, removendo-as ou substituíndo-as) através de “tesouras” chamadas nucleases, modificadas em laboratório. A vantagem de uma técnica como esta é que pode evitar a transmissão de doenças de geração em geração. Mas também significa outra coisa: podemos escolher as características das nossas crianças, desde aspetos físicos (cor de olhos, tom do cabelo, cor da pele) até a aspetos mentais, nomeadamente a inteligência.

Este não vai ser o caso de Abrahim Hassan, explica Teresa Almeida Santos, presidente da Sociedade Portuguesa das Ciências da Reprodução, ao Observador. A molécula de ADN presente nas mitocôndrias herdadas pelo bebé é mais simples e mais pequena do que a cadeia genética presente no núcleo das células e serve para sintetizar algumas proteínas necessárias à respiração celular, responsável por transformar as ligações químicas em energia. Em suma, o ADN mitocondrial não tem qualquer informação sobre as características físicas e psicológicas do indivíduo: essas são dadas exclusivamente pela informação genética guardada nos núcleos do pai e da mãe, portanto não haverá qualquer características da doadora das mitocôndrias em Abrahim Hassan: ela apenas doou a “central de energia” do organismo do bebé.

Procedimentos “não são complicados” e podem ocorrer em Portugal. No entanto, levantam sempre questões éticas. “Não é consensual porque não temos muita noção do que isto significa para a criança. Pode haver proteínas específicas do indivíduo que fiquem de alguma forma prejudicadas com este tipo de práticas”, conta-nos Teresa Almeida Santos. Mas estes foram receios que surgiram nos anos 90 e “já se passaram mais de vinte anos”. É preciso evoluir.
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Texto em português de Portugal.
Reportagem por  Marta Leite Ferreira
Fonte:  http://observador.pt/2016/09/27/nasceu-o-primeiro-bebe-com-o-adn-de-tres-pessoas/

80 anos

Martha Medeiros•

Certas idades cintilam mais do que outras. Os 15 marcam o fim da infância, os 30 não teriam tanta relevância não fosse Balzac e os irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle, já os 40 nunca precisaram de livros e canções: eram donos absolutos do título "metade da vida", o momento de decidir se as escolhas feitas na juventude tinham fôlego para manter-se ou se era hora de mudar de rota. Isso antes de vivermos tanto. Hoje em dia, metade são os 50, numa existência (otimista) de 1 a 100. Todos acusam o golpe: fez 50, passou para o outro lado. 

Os 60 e 70 são marcantes também, por mais que esses números causem rebuliços na vaidade: como eu, me sentindo tão jovem, seja considerado de terceira idade? Como eu, com a cabeça tão boa, tenha os joelhos fracos e os olhos embaçados? Como eu, logo eu, tenha chegado até aqui sendo chamado de tio e tia se até ontem era um playboy, uma gatinha, um ser ainda valioso no mercado erótico? É quando começa o curto-circuito entre a jovialidade do espírito e a decadência do corpo, entre a jovialidade da mente e a decadência da vontade; aprendemos forçosamente a nos equilibrar entre o mais e o menos, entre o novo e o velho. Há que se ter maturidade para equalizar e extrair dessa passagem do tempo um diagnóstico positivo da experiência.

Até que se chega aos 80. É a idade (com margem de erro de dois pontos para mais e para menos) dos pais dos meus amigos, dos meus próprios pais e de inúmeras pessoas que admiro. E o que tenho visto é só celebração. Os 80 são motivo de festa, de orgulho e de uma espécie refinada de liberdade. Já não há mais tanta preocupação com o que os outros pensam, assume-se um pódio de chegada onde o troféu é olhar para trás e ser grato pela estrada percorrida, pelas conquistas profissionais, pela família constituída e pelos amores que nos tiraram o sono — para o bem e para o mal. Quem é que chega aos 80 sem nada para contar? Não há como não se ter uma biografia aos 80. Você pode se sentir vencido, mas venceu também. Foi além da expectativa do IBGE. E o prêmio é não precisar mais atender às demandas do mercado. 

Não tenho pressa nenhuma de atingir essa meta, sei que tem o lado perturbador, mas, sendo inevitável (aquela alternativa? não, obrigada), melhor render-se e desfrutá-la. Esta crônica é dedicada ao genial Luis Fernando Verissimo, um dos poucos ídolos que tenho — o outro é Woody Allen, rumo aos 81. Grandes homens que souberam honrar os anos vividos, que compartilharam conosco sua inteligência, humor e cultura, e que nos fazem perder o medo de chegar lá: onde tantos temem a aridez e a improdutividade, ainda há terreno fértil, esperança e futuro.
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* Jornalista. Escritora.
Fonte:  http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/colunistas/martha-medeiros/noticia/2016/09/80-anos-7594657.html#
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