Com o novo "A Espada e a Azagaia" nas livrarias, Mia Couto, com
pouca ambição para prémios, diz-nos que "ninguém sabe como está
Moçambique" e que os livros podem fazer a mudança.
Mia Couto é, a par de Lobo Antunes, um dos escritores da língua
portuguesa mais vezes apontados como possível vencedor do Nobel da
Literatura. O moçambicano tem levado as vozes africanas para o mundo.
Traduzido em várias línguas, já venceu o Camões, o Neustad e foi
finalista do Booker. Autor de obras como Jesusalém, Terra Sonâmbula e A Confissão da Leoa,
é um dos escritores mais acarinhados em Portugal, com extensas filas de
leitores à espera de um autógrafo de cada vez que marca presença na
Feira do Livro.
Apresentou A Espada e a Azagaia na semana passada em Lisboa. É o segundo livro da trilogia “As Areias do Imperador” (no ano passado publicou Mulheres de Cinza)
sobre os últimos dias do Estado de Gaza, o império africano dirigido
por Gungunhana no Sul de Moçambique, antes deste ser capturado pelos
portugueses, liderados por Mouzinho de Albuquerque, e deportado para os
Açores, no final do séc. XIX.
Protagonizado pela jovem Imani, menina africana de 15 anos, o
livro, diz o autor, propõe-se desconstruir uma versão única do passado,
mostrando os vários lados da história, não só a dos vencedores mas
também a dos vencidos. Esta não é, porém, uma história de guerra, antes
uma história de amor: a da paixão de Imani e Germano de Melo, sargento
português republicano, esquecido no interior de Moçambique. O cenário? A
resistência à ocupação colonial.
Com a guerra ao fundo, Imani, o
seu pai, o seu irmão e a italiana Bianca transportam Germano de Melo rio
acima. O sargento foi atingido por um disparo, ficou com as mãos
desfeitas. O grupo dirige-se ao hospital mais próximo. Mas o próximo
faz-se longe, o destino é difícil de alcançar no meio de uma nação em
guerra. Acabam por se deter numa igreja na margem do rio, onde encontram
um padre português e uma velha negra feiticeira. É ali que vão ficar
longos dias, enquanto ao fundo se decide o destino de uma nação.
“A Espada e a Azagaia”, de Mia Couto (Caminho)
O Nobel da Literatura está prestes a ser anunciado. O seu
nome figura na lista de apostas da Ladbrokes, já venceu o Neustad, para
muitos é um forte candidato. Pensa nisso?
Não. A sério que não. Acho que é tão inverosímil e fora do
contexto… Aliás, nem nesse, nem em nenhum. Podia pensar noutros mais
pequenos mais à disposição da minha ambição. Mas, honestamente, não. Não
espero nada.
Acaba de lançar A Espada e a Azagaia,
segundo livro da trilogia “As Areias do Imperador” que, à semelhança do
primeiro, é narrado a várias vozes: a da jovem Imani, a do sargento
Germano de Melo e a do Tenente Ayres de Ornelas, uma africana, um
republicano português desterrado e um militar português convicto.
Porquê?
Faço normalmente esse jogo da narração distribuída por
entidades diversas. Não sei se é porque não sei fazer de outra maneira
ou porque quero que estas histórias sejam contadas a várias vozes,
porque elas só ganham verdade se essas vozes se exprimirem como que
dizendo “eu também sou dono da história”. A posição de narrador é
fundamental para sugerir ao leitor que há alguém que vai conduzir aquilo
que é chamado o caminho para a verdade. Aqui, logo à partida, se
percebe que há verdades diferentes, de acordo com a perspetiva.
Sendo
que a voz mais forte é a de Imani. A História costuma ser escrita por
homens. Aqui é contada por uma mulher negra de 15 anos. Porque quis esse
feminino?
Eu escuto essas vozes. Elas têm que acontecer dentro de mim. E essas
vozes têm mais poder de sedução, têm mais verdade, se forem vozes
femininas. É uma coisa ligada à minha própria história, à minha
infância. O narrador será muito mais convincente, muito mais verosímil,
se eu deixar essas vozes que me ocupam passarem para a página. Esta
menina é muito pouco provável. No séc. XIX, uma menina negra, numa zona
rural, que sabe ler e escrever, com a facilidade de viver na fronteira
entre o mundo dos brancos e o mundo dos negros, era muito pouco
provável. Pareceu-me que já que essa mulher tinha atravessado esta zona,
podia fazer esta transumância, esse contrabando entre dois mundos, era
ela que podia contar melhor aquela história.
Diz que as
vozes que escuta têm mais verdade se forem femininas por motivos ligados
à sua infância. Porquê? Eram as mulheres que lhe contavam as histórias?
São as suas vozes que ouve? Mãe, tia, avó?
Avó não. Nunca conheci uma avó, um avô. Sou filho de gente que
saiu daqui por razões políticas, não podiam regressar, não havia
contacto nenhum. Mas a minha mãe era uma grande contadora de histórias.
Eu era posto a fazer os deveres de casa na cozinha, onde costumava estar
também uma tia, gémea dela, e as vizinhas, que se juntavam e contavam
os casos dos vizinhos. E tudo era passado num murmúrio, num sussurro,
como se fosse um canto, uma música permanente, contínua. Eu ficava
encantado. A capacidade daquelas mulheres se desdobrarem em vozes era
como se essa fosse uma função vital, tão vital como cozinhar. Elas
cozinhavam, essa função quase telúrica, contando histórias. Contar
histórias faz parte da nossa própria construção humana.
"Como se pode perceber que um partido político com
assento na Assembleia da República possa fazer emboscadas com armas?
Como é que um partido político tem armas? E como é que isto é aceitável
durante todo este tempo? Há 20 anos que estamos em paz."
Se no primeiro volume as mulheres eram feitas de cinza, agora são feitas de água…
Quando avanço para um livro não sei o que ele vai ser. Mas tinha uma
ideia de que o primeiro livro era terra, o segundo os rios, o terceiro
será o mar. O primeiro livro representa um pouco o quadro daquilo que
são as pessoas, os lugares, é uma coisa material. Neste segundo a viagem
habita as personagens, que são arrancadas, desenraizadas, são postos em
viagem. Aliás, estas pessoas não só estão em viagem como são a viagem,
existem porque estão em trânsito.
Seguindo o curso do rio…
Sim. O livro termina no estuário do rio, já chegando ao livro último, o livro do mar.
O mar que estava sempre presente, ao longe, no primeiro volume.
Sempre como cenário do limite. O rio implica a ideia de que há uma outra
margem logo ali. No mar não se vislumbra o outro lado. Tiro vantagem
desta representação simbólica que os Ngunis, de que este imperador faz
parte, têm do mar: o mar é um lugar nenhum, é um abismo, um vazio. Nem
há palavra para nomear o mar naquelas línguas. É o lugar infinito, lugar
grande. O resto dos povos originários de Moçambique têm uma relação com
o mar mais tranquila, são pescadores. Estes não pescam, aliás, não
comem peixe, há uma interdição religiosa. Isto para um imperador tem uma
dimensão adicional: é o lugar que ele não pode governar. Nesse limiar
da praia ele perde o poder.
Voltando às mulheres. Elas
ocupam um lugar central neste livro, de Imani a Bibliana, à própria mãe
do imperador, passando pela mãe de Imani. Nos seus outros livros as
mulheres também assumem uma presença muito forte. Por escutar essas
vozes de que falava ou por algo mais?
Por essa razão primeira, porque são as vozes mais próximas, mas também
porque na sociedade rural em Moçambique as mulheres têm esse lugar
central. São elas que contam histórias, que são responsáveis pela vida. É
uma coisa que faço em consciência, com intenção. Tendo elas esse lugar
central são esquecidas, são muito oprimidas. Não é uma militância
feminista que faço mas é impossível ficar indiferente à injustiça deste
patriarcado que domina Moçambique. Aliás, não só Moçambique, países que
eu pensava que já estavam libertos desse poder.
No livro
compara o número de baixas de soldados ao número de mulheres que sofre
também a guerra, mortas, violadas, torturadas. Número que, diz, é maior
que o de soldados mortos. Há uma tendência para o esquecer.
Verdade. É o lado silenciado, invisível.
Que guerra é esta que retrata? Estando sempre presente, parece estar sempre ao largo.
Essa guerra foi muito particular. Portugal percebeu que tinha que
enfrentar um inimigo que era muito mais forte do que pensava. E, como se
percebe nas cartas do primeiro e deste segundo livro, havia uma grande
hesitação em fazer uma guerra clássica contra esta gente porque, como o
Gungunhana aí diz: “Andam à procura dos meus quartéis mas o meu quartel é
tudo isto, as pessoas, a terra”. Portugal é empurrado para uma situação
limite desesperada: ou derrotava o Estado de Gaza ou perdia aquela
colónia, porque os ingleses pediam provas a Portugal de que havia uma
ocupação efetiva deste território, sob pena de Moçambique passar para
posse dos ingleses. Foi uma guerra muito pontual. Portugal escolheu
batalhas e em poucos momentos houve confrontos. Aliás, a operação de
captura do Gungunhana foi contra a estratégia pensada pela hierarquia
militar, Mouzinho faz isso em contramão.
"Há um processo violento de constituição de um estado
central que quer ignorar que existem várias nações em Moçambique. É
preciso fazer delas uma única nação. Mas como se faz isto sem
esquecimento, sem violência, sem anular a identidade de alguns mais
pequenos? A ideia é mostrar que a literatura pode ajudar este processo
de construção de uma nação
moderna no tempo de hoje."
Mais do que um romance de guerra, este é um romance de amor.
Espero que sim. As situações de violência extrema, que correm o
risco de desumanizar uma sociedade, pedem essa resposta. Eu vi, durante
o tempo de guerra em Moçambique – que, infelizmente, estamos agora a
reviver, não é apenas um tempo do passado – como se construíram
respostas de afeto, redes de solidariedade, que acho que em nenhum
momento de normalidade se poderiam ter construído. Gente que num momento
limite, em que poderíamos morrer todos numa emboscada, se revela gente
cheia de coragem, cheia de nobreza, entregando-se a salvar os outros de
uma maneira que eu nunca poderia suspeitar que fosse possível. Estas
situações extremas pedem esta resposta. Estou a chamar amor a tudo isto,
não apenas aos casos de paixão romântica. É uma necessidade profunda.
Como está Moçambique hoje?
Não sei. Acho que ninguém sabe. Essa é a grande tristeza. Há situações
que ultrapassam aquilo que é um entendimento racional. Como se pode
perceber que um partido político com assento na Assembleia da República
possa fazer emboscadas com armas? Como é que um partido político tem
armas? E como é que isto é aceitável durante todo este tempo? Há 20 anos
que estamos em paz.
Este romance pode ser lido à luz do presente?
Acho que pode, aqui também há situações que ultrapassam aquilo
que a gente pode entender. Todas as guerras têm esse lado. A guerra
precisa de desqualificar o outro, de desumanizar o outro. Só assim é que
eu estou autorizado a matar. Só assim é que eu me posso despir da minha
própria humanidade. A situação é idêntica porque hoje a sociedade
moçambicana está absolutamente polarizada, extremada. É como num
exército. Não há perguntas a fazer, não há que procurar razões no outro.
Acha que se pode viver uma nova guerra civil?
Tenho dúvidas. É sempre possível. Quando a gente pensa que já
bateu no fundo, ainda há caminho para mais fundo. Mas acho que não há
disponibilidade das pessoas. Quem passou 16 anos de Guerra Civil como
aquela não quer passar mais. E não sei se haverá interesses estratégicos
que conduzam a apoiar um conflito militar hoje.
Para escrever Mulheres de Cinza esteve dois meses num castelo em Itália. Agora esteve nos Açores.
Estive na Terceira três semanas. Uma grande parte da escrita foi feita
lá. Sair de Moçambique é importante. O que se está a passar é tão
apelativo, tão dramático, que é impossível que a nossa alma não seja
tomada. Vou escrever mas, de repente, sei de uma notícia gravíssima. E
as notícias graves lá põem em causa todo o futuro. Não vivemos uma
situação como a dos países europeus, em que pode mudar o Governo ou o
Primeiro-Ministro e a vida continua, ninguém fica aflito. Ali, uma
mudança dessas pode mudar tudo.
Precisa de se isolar desse tumulto para a escrita?
Sim, aquilo toma-nos muito.
E agora, para o terceiro volume, já tem um destino?
Não sei. Quando recebi a oferta para trabalhar nos Açores tive que negar
uma outra, da editora italiana, que tem base na Sicília. Apetecia-me
muito esse lugar, talvez por uma ideia romântica que tenho dele. Se a
oferta estiver de pé não vou resistir. No Sul da Itália há uma forte
presença da oralidade, as pessoas contam histórias, saem para a rua
dizendo intimidades. A fronteira entre o público e privado não está bem
clara. E isso é uma coisa muito africana. Aqui em Portugal também se
nota. Esse é o melhor alimento que posso ter. Não poderia escrever no
maior sossego de uma floresta na Noruega ou na Suécia. Preciso desse
rumor, desse cruzamento de vozes.
"Persiste a ideia de que os africanos têm que ser
marionetas de alguém, que sozinhos não se explicam a si mesmos. Ainda há
gente a pensar que os africanos são sempre objeto e não sujeito da sua
própria história."
São elas que depois penetram nos livros?
São elas que se convertem nas vozes femininas.
Ainda está com vontade de escrever o terceiro volume? Ou já se arrependeu deste projeto?
Arrependi-me. Mas ao mesmo tempo há um desafio: também quero saber o fim
da história. Acho que ainda tenho alma e ânimo para escrever. Mas
apetece-me sacudir este tom e não ficar obediente a um único estilo.
Mesmo que isso não seja previsível.
Como nasceu o projeto desta trilogia sobre Gungunhana e os últimos dias do Estado de Gaza?
Quis reconstituir ao passado que nos é negado em Moçambique a
possibilidade de ele existir da única maneira que nos pode salvar do
presente: ser dito no plural. Pode-me perguntar: mas alguém escreve um
romance por causa disso? Tem que ver com a situação de guerra de
Moçambique. Moçambique não está em guerra apenas por uma suscetibilidade
temporária, por um confronto de poder. Há qualquer coisa que não foi
superada no passado recente. Há um processo violento de constituição de
um estado central que quer ignorar que existem várias nações em
Moçambique. É preciso fazer delas uma única nação. Mas como se faz isto
sem esquecimento, sem violência, sem anular a identidade de alguns mais
pequenos? A ideia é mostrar que a literatura pode ajudar este processo
de construção de uma nação moderna no tempo de hoje. A literatura pode
dar acesso a esta pluralidade de identidades dizendo: olha, elas podem
falar umas com as outras contando histórias e dando espaço a que essa
grande história possa contar essas versões.
Porque usa Gungunhana para desconstruir essa versão única do passado?
Porque ele é o exemplo mais recente de uma construção feita
pós-independência para eleger um herói nacional. Escolheu-se mal. É um
homem que não tinha nenhuma intenção ligada a esta nação moçambicana:
pensava uma outra nação, com outro desenho, outra configuração. Há uma
contestação silenciosa de gente que se sentiu mal com essa escolha, com o
facto de uma vez mais se repetir aquilo que a história colonial já
havia revelado: que havia os esquecidos, que havia os que estavam
distantes do poder central. Há sempre uma região do país que pergunta: e
os nossos heróis, onde estão?
Se no primeiro livro Gungunhana era uma figura distante, quase um deus, ele agora corporiza-se e torna-se muito humano. Porquê?
Sempre pensei que era preciso humanizá-lo, colocá-lo na
dimensão de alguém que tem dúvidas, que é atravessado por medos. Como
qualquer imperador, como qualquer pessoa. E vou ter que continuar esse
caminho de procurar entendê-lo, perceber porque é que teve um
comportamento cheio de ambivalências, ambiguidades.
Em tempos de guerra, faz alianças com todos.
Num debate na Figueira da Foz, uma pessoa disse: o Gungunhana
não poderia pensar assim sozinho, eram os ingleses que estavam por trás
dele. Persiste a ideia de que os africanos têm que ser marionetas de
alguém, que sozinhos não se explicam a si mesmos. Ainda há gente a
pensar que os africanos são sempre objeto e não sujeito da sua própria
história. Neste caso aquilo que parece uma grande inconstância, com ele a
procurar alianças com os portugueses, com os missionários suíços, com
os ingleses… Ele entendia de maneira muito inteligente essas divisões e
tirava partido delas. Era um homem com poder mas cheio de dúvidas, cheio
de temores. E há aqui uma história de amor, muito reveladora da sua
fragilidade. A única mulher que ele realmente amava das suas trezentas
esposas era a que lhe estava interditada, que a corte matou. Uma
história parecida com a de Pedro e Inês. Era um homem aprisionado,
infeliz.
Há uma história trágica para todos nós, até para os grande mitos?
Sem dúvida. Também têm grandes tristezas e grandes desilusões.
Há um momento que me marcou muito. No quarto congresso da FRELIMO,
Samora Machel trazia, à maneira de Fidel Castro, o relatório do Comité
Central, umas 60 folhas para ler. Começou a ler mas pôs de lado as
folhas e disse: “Eu acordei hoje num palácio, rodeado de mordomias, e
descobri-me um prisioneiro. Acho que nós, camponeses pobres de origem,
não vamos resistir a estas balas doces. Resistimos às outras balas mas a
estas não vamos resistir”. Era a perceção de que o poder o começava a
cercar e a transformar. E era uma confissão tão espontânea, tão
verdadeira que eu – que era jornalista, responsável da informação –
recebi um papel a dizer para cortar a transmissão para a televisão e
rádio. Porque aquilo não podia ser dito.
Cortou?
Não.
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Reportagem por Rita Silva Freire
Imagem da Internet
Fonte: http://observador.pt/especiais/ganhar-o-nobel-e-inverosimil-e-fora-do-contexto/11/10/2016