segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Muniz Sodré, o intelectual tropical

Juremir Machado da Silva*

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Romancista, jornalista e ensaísta, membro do Conselho Deliberativo do CNPq, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), docente associado da Universidade de Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e ex-presidente da Biblioteca Nacional, considerado um dos mais importantes teóricos da comunicação e da mídia no Brasil, tendo publicado livros de referência como Antropológicas do espelho – uma teoria da comunicação linear e em rede, A máquina de Narciso, Sociedade, Mídia e Violência, A Comunicação do Grotesco: introdução à Cultura de Massa no Brasil, O Monopólio da Fala e A narração do fato: notas para uma teoria do acontecimento, natural de Feira de Santana, Muniz Sodré de Araújo Cabral, 74 anos, amigo de Gilberto Gil e de outros velhos novos baianos, transita por muitos mundos intelectuais. Ele veio a Porto Alegre palestrar, na última segunda-feira, em homenagem aos 50 anos da Famecos, a faculdade de comunicação da PUCRS. Nesta entrevista para o Caderno de Sábado, ele disseca o Brasil e fala do seu último livro de ficção, o romance Bagulho.

Caderno de Sábado – Como é ser intelectual no Brasil de hoje para um baiano e negro que escalou todos os degraus? Houve preconceito?
Muniz Sodré – Não. Diretamente, na universidade, não. Eu mostro a radicalidade do meu pertencimento, da minha ancestralidade e da minha negritude. Quando sofri preconceito, foi em redação de jornal. Por exemplo, na editora Bloch. É difícil dizer isso, pois fui chefe de reportagem e redator da revista Manchete. Mas foi um percurso. Em me lembro de um cara negro, negro, negro, Tales Batista, que já morreu, sendo rejeitado por ser preto demais. Era mais sentido do que explicitado, mais em cima da minha baianidade e da nordestinidade do que da cor. O baiano gosta de fazer discurso, fala “que dia plúmbeo”. Entrei no Jornal do Brasil pelas mãos do Alberto Dines. Queriam para a pesquisa alguém que traduzisse do inglês e do francês para o lugar do Fernando Gabeira. Falei que eu traduzia também do alemão e do russo. Eles me testaram. Eu era muito melhor em línguas do que hoje.

CS – Quantas línguas?
Muniz Sodré – Eu falo sete línguas: francês, inglês, alemão, italiano, espanhol, russo e sou iniciado em árabe. Mas também conheço latim e falo o crioulo de Cabo Verde e o iorubá. Dá umas dez. Mas eu reduzo, quando me perguntam, para não parecer algo espantoso. Comecei aprendendo alemão com os franciscanos no pelourinho, em Salvador.

CS – Uma pesquisadora estrangeira disse recentemente que o Brasil é o país mais racista do mundo. Faz sentido essa afirmação categórica?
Muniz Sodré – O mais racista, não sei, mas é muito racista. Trata-se de um racismo diferente, na origem, dos racismo sul-africano e americano, que eram de segregação e separação de lugares. O racismo brasileiro foi de segregação durante o período escravista. Depois, passou a ser um racismo de dominação. Os lugares são sociais, não físicos. A última demonstração desse racismo foram as manifestações, nos jornais, entre os quais os do Rio de Janeiro, contra as cotas. Mexeu muito com a cabeça das pessoas até nas universidades. Jornalistas brancos rejeitaram as cotas por racismo. As cotas são o tal mal necessário. O lugar social é estabelecido pela cor da pele. As cotas colorizaram os espaços colonizados. Até na Bahia, que tem uma população negra enorme, e talvez seja mais racista que o Rio Grande do Sul. Quando menino, fui contínuo de banco na Bahia. O diretor da agência não deixava que negro tocasse no seu aparelho de telefone. Tinha nojo. Limpava com álcool. Conheci gente em Salvador que fervia fruta tocada por negro. Esse preconceito a elite baiana ainda tem. Ela se orgulha de acarajé como elemento de turismo. Precisamos aprender mesmo a respeitar e a conviver com diferenças.

CS – O Brasil está polarizado em questões de gênero e de racismo?
Muniz Sodré – Quando Benedita da Silva se tornou governadora do Rio de Janeiro e formou uma equipe com negros, o jornal O Globo me pediu para fazer um artigo. Queriam que eu dissesse que era racismo aquilo. Eu disse que aceitava, mas que perguntaria: por que quando só tem branco não dizem que é racismo? Desistiram do texto. Existem posições quase automáticas. Nos governos de Lula se intensificaram as políticas de afirmação social. Eu fui, durante cinco anos, presidente da Biblioteca Nacional. Gustavo Capanema, no período Vargas, construiu 700 bibliotecas municipais no país. Eu, a pedido de Lula e acompanhado de perto por ele, fiz 1800. Não saiu uma só nota na mídia. Pena que a Biblioteca Nacional perdeu agora parte das suas atribuições. Passou a ser apenas uma instituição de guarda de livros. Mas a fala foi liberada. Abriu-se a fala da diversidade de gênero e de cor. Pode ter recuos. Acho que vai ter. Mas não acaba mais.

CS – Isso aumenta a decepção com a corrupção que atingiu o PT?
Muniz Sodré – Certamente. O maior problema é que tudo foi feito sem um projeto de nação. O último que tivemos, com viés na educação, foi de Vargas. Depois disso, Juscelino e os militares esboçaram algo. A educação é o ponto crucial, mas continua fossilizada. Os economistas tornaram-se os nossos pedagogos. São ignorantes. Só sabem de verbas. Aí vem essas reformas, como essa proposta de cima para baixo por Michel Temer. É ridícula. Uma coisa de técnicos. Os alunos não vão escolher. Não há avanço. A escola ainda é a do século XIX, reguladora e prisão. Esse modelo permanece apesar do computador. Haverá uma escola dos que serão dirigentes e outra dos que serão dirigidos.

CS – Há essa vertente que prega uma “escola sem partido”…
Muniz Sodré – É mais um sintoma da direita emergente. Esses aí querem uma escola sem partido de esquerda. A escola é sempre ideológica. A ideologia não está nos conteúdos, mas na forma. Dizer que os operários devem tomar o poder é considerado ideológico. O contrário, não. A escola não é lugar de litígio, como a fábrica, mas de disputa. Há espaço para a fala do outro desde que ela nada possa mudar. Classifica por classe, cor, gênero e origem. Talvez as novas tecnologias possam ajudar a transformar isso. As redes sociais estão subutilizadas. Só servem para fofocas. Precisam mobilizar e incluir.

CS – O livro digital também está subutilizado no Brasil?
Muniz Sodré – O preço do livro é dado pela escala de produção. Lula baixou impostos para o setor livreiro, mas o preço não caiu. As tiragens são mínimas. Ninguém quer perder. Editar livro é uma coisa de coragem. Os e-books seguem a mesma linha. A situação do livro no Brasil é trágica. Os autores precisam sair do caminho institucional.

CS – Como fazer isso?
Muniz Sodré ­– O jornal O Globo deu um grande espaço para meu romance Bagulho. É um livro que tem um policial negro. Desestabiliza muito. Eu tenho outro romance, O bicho chegou à Feira, de 1990. Publiquei pela Francisco Alves. É a história de um capelão que chega a Feira de Santana em 1964. Alemão, passa a dominar a cidade. Cortava cabelo de hippie e perseguia os comunistas. Ensinou até como carregar galinha, com a cabeça para cima. Mobilizei o mito da cidade de que um dia o bicho chegaria. Fiz o golpe militar chegar a Feira de Santana enquanto eles esperavam o bicho. Ninguém deu muita bola. Mas virou o romance da cidade, tem duas teses sobre ele e vai virar história em quadrinhos. O livro precisa de outro percurso não institucional.

CS – Qual a transformação maior da comunicação nos últimos 50 anos?
Muniz Sodré – A ideia da comunicação se difratou de tal maneira que do ponto de vista acadêmico se perdeu um pouco o sentido do conceito. Comunicação tomou o sentido de jornalismo a partir da escola americana. É um sentido religioso, de communicatio. Em latim, communicatio era outra maneira de dizer societas, que é a sociedade dos homens. Já aquela é articulação do humano com o divino. A internet leva a refletir sobre o fim da societas e sobre o começo de uma communicatio. Ainda está no caos, na transição, mas é promissor. Walter Benjamin fala, em Rua de mão única, numa tecnologia que não seja apenas destrutiva da natureza. Talvez tenhamos isso agora.
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* Jornalista. Escritor. 
Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2016/10/9170/muniz-sodre-o-intelectual-tropical/

domingo, 16 de outubro de 2016

BRICS EM GOA

Paulo Nogueira Batista Jr.* 
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Escrevo desta vez de Goa, na Índia, onde ocorrerá neste fim de semana a cúpula dos Brics de 2016. O processo de coordenação entre os Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – completa agora oito anos. Antes de 2008, Brics não passava de um acrônimo criado por Jim O´Neill, um economista do Goldman Sachs. Mas naquele ano formou-se uma aliança que tem tido considerável influência nas discussões econômico-financeiras internacionais.

Tenho orgulho de dizer, leitor, que sou um dos poucos que acompanham desde 2008 o processo Brics – primeiro como diretor-executivo no FMI e delegado brasileiro nas reuniões do G-20 e dos Brics, agora como vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) estabelecido pelos Brics em Xangai.

O que alcançamos nesses oito anos? Em certo sentido, menos do que esperávamos. Os Brics se coordenaram para fazer avançar a reforma do Banco Mundial e do FMI, mas não conseguimos mudanças realmente fundamentais nessas instituições. Alguns fatos recentes confirmam a percepção de que europeus e norte-americanos não querem realmente transformar as entidades sediadas em Washington e adaptá-las ao século 21. A sucessão no comando do FMI e do banco, em que Christine Lagarde e Jim Kim foram reeleitos sem oposição, confirma uma vez mais a anacrônica regra não escrita que reserva a posição de presidente do banco a um americano e a de diretor- gerente do fundo a um europeu. Além disso, na recém-ocorrida reunião anual do FMI, decidiu- se pelo adiamento para 2019 da próxima reforma de quotas e votos, cujo cronograma já estava de todo modo muito atrasado.

Quando vejo isso acontecer em Washington, penso: “Os Brics fizeram bem em criar seu próprio banco de desenvolvimento e seu próprio fundo monetário”. Foi justamente aí que a atuação conjunta dos Brics gerou mais frutos. Por volta de 2011 ou 2012, ficou claro que a reforma das instituições de Washington não avançaria tanto quanto desejávamos. Os Brics decidiram então começar a discutir a criação de mecanismos próprios. Na cúpula dos Brics de Fortaleza em 2014, depois de dois anos de negociação, foram assinados os tratados que criaram o Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo Contingente de Reservas. Um ano depois, em 2015, a ratificação dos dois tratados foi concluída e os novos mecanismos começaram a ser operacionalizados.

Aqui em Goa, o presidente do NBD, K.V. Kamath, fará uma apresentação aos líderes dos Brics sobre o primeiro ano do banco. Assinaremos também um acordo de cooperação do NBD com os cinco bancos de desenvolvimento dos Brics.

É natural que o NBD tenha destaque na cúpula dos Brics. Afinal, trata-se da principal realização do grupo. E muito se fez neste primeiro ano do NBD. As principais políticas operacionais foram aprovadas. O capital começou a ser integralizado pelos fundadores – com três dos cinco sócios acelerando o pagamento em relação ao previsto no tratado. Os primeiros cinco projetos foram aprovados – um em cada um dos cinco Brics. E o primeiro bônus foi emitido, em moeda chinesa.

O NBD é por enquanto um banco 100% verde. Todos os nossos primeiros projetos são na área de energia renovável. E o nosso primeiro bônus é um bônus verde, isto é, emitido com a obrigação, sujeita a verificação independente, de que todos os recursos captados serão utilizados em projetos classificados como verdes segundo princípios internacionalmente reconhecidos.

Estamos construindo um banco do século 21.
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 *Economista. paulonbjr@hotmail.com
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7789838.xml&template=3898.dwt&edition=29900&section=70
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A criança que nos habita

 Lya Luft*
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 Lya Luft
 
Muitos leitores dizem que, lendo meus romances, acham que eu devo ter sido uma criança infeliz: “Que tragédia de então alimentou sua fantasia atual?”.

Divertida ou um pouco irritada, mil vezes expliquei: nem sempre o escritor fala de si mesmo. Nada das famílias que inventei é a minha família, nem a da infância, muito menos a de agora. São invenção, são ficção: ficção vem do latim fictio, aliás ligado a fingere, fingir. Portanto, a maior parte das histórias de ficção é fingimento, tão bem fingido, que às vezes até na hora de escrever nos parece verdade. Por isso digo que minhas histórias são “a verdade da minha mentira”... Quando criei minha primeira personagem anã, Sibila, a Bila das Parceiras, por exemplo, houve quem se dispusesse a pesquisar minha família para descobrir o anão, ou os anões. Sinto muito, a minha gente sempre foi mais pra gigante. Mas que a pobre Bilinha me parecia real, parecia.

É verdade também que seguidamente o que escrevemos reflete coisas, fatos, pessoas, emoções – que foram reais mas ali aparecem transfigurados. Então a infância não é, afinal, o nascedouro dos nossos medos ou alegrias, como tanto falei e escrevi? Penso que sim, e não é simples explicar essa contradição, pois minha infância, numa cidade pequena, numa casa grande com belo jardim, pais cuidadosos, avós, tios, primas, primos e um irmãozinho menor, foi tudo menos trágica. Verdade que, tendo morrido antes de eu nascer um primeiro filhinho, acho que fui cercada de excessivos cuidados, do tipo “não anda na chuva, bota o casaco, não senta na pedra fria, olha o vento encanado”, mais algumas crenças de então, que hoje nos fazem rir, como “se comer fruta sem lavar, vai ter vermes na barriga, se engolir semente de laranja, vai nascer uma laranjeira na barriga, se sentar na areia sem a toalha, vão entrar bichinhos na sua... e se comer melancia e beber leite, cai morta”.

O que me afligia e ainda me acompanha não eram as circunstâncias nem as pessoas, mas a minha desvairada imaginação, que ainda me faz rir quando ninguém acha graça, me faz sofrer quando todos julgam alguma coisa muito banal. Eu detestava o Gordo e o Magro, chorava na matinê de pena deles: várias vezes minha mãe teve de me tirar do cinema, pois eu começava a perturbar as outras crianças.

Mas tenho certeza, sim, de que na infância a vida traça o perfil que procuraremos preencher pelo resto do tempo. Clima amoroso, alegre, seguro apesar das normais brigas ou discussões? Vamos tropeçar menos nesse caminho firme. Ambiente frio ou violento, desinteresse, rancor ou permissividade demais? Possivelmente vamos cair mais vezes, quebrar a cara e a alma. Há muitas maneiras de, simplificando os enigmas e labirintos da nossa psique, explicar por que na adultez somos de certo jeito. Mas, junto com a criança que fomos, temos sempre, como fiel e severa companhia, a contrapartida de tudo isso: a capacidade de escolha. Não somos totalmente determinados. O fantasminha infantil em nós pode chorar sozinho no escuro, rir sem motivo além de se sentir feliz – mas adolescentes, adultos, velhos, temos o ônus de optar nas encruzilhadas.

A criança que nos habita não desculpa tudo.
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* Escritora.
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7789834.xml&template=3916.dwt&edition=29900&section=70
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sábado, 15 de outubro de 2016

A desordem mundial: o espectro da total dominação

 Leonardo Boff*

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O título é do último livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira (Civilização Brasileira, 2016), o nosso mais respeitado analista de política internacional. O autor teve acesso às mais seguras  fontes de informação, a múltiplos arquivos, aliando  tudo a um vasto conhecimento histórico. São 643 páginas densas, mas escritas com tal fluidez e elegância que parece estarmos lendo um romance histórico.

Moniz Bandeira é antes de mais nada, um minucioso pesquisador e, ao mesmo tempo, um militante contra o imperialismo estadunidense, cujas entranhas corta com um bisturi  de cirurgião. Não sem razão, foi preso entre 1969 e 1970 e novamente em 1973 pelo temível Centro de Informações da Marinha (Cenimar), pois se opunha criticamente, no contexto da guerra-fria, ao principal suporte da ditadura:  os Estados Unidos.

Os materiais de que dispõe, lhe permitem denunciar a lógica imperial presente no sub-título:”guerras por procuração, terror, caos e catástrofes humanitárias”. Quem ainda nutre admiração pela democracia  norte-americana e procura se alinhar aos desígnios imperiais (como fazem neo-liberais brasileiros), encontrará aqui vasto material para reflexão  crítica e dados para uma  leitura do mundo mais diferenciada.

Dois motes orientam o centro do poder do estado norte-americano com seus inumeráveis órgaõs de segurança interna e externa:”um mundo e um só império” ou”um só projeto e o espectro da total dominação (full-spectrum dominance/superiority)”. Quer dizer, a política externa norte-americana se inspira no (ilusório) “excepcionalismo”, do velho “destino manifesto”, uma variante “do povo eleito por Deus, raça superior”, chamada a difundir no mundo todo a democracia, a liberdade e os direitos (sempre na interpretação imperial que emprestam a estes termos) e se considerar (pretensamente) “a nação indispensável e necessária”, ”âncora da segurança global” ou o “único poder”(lonely power).

Já no século XVIII Edmund Burke (1729-1797) e no século XIX o francês  Alexis Tocqueville (1805-1859), pressentiram que o presidente norte-americano detinha mais poderes que um monarca absolutista. Isso degeneraria numa “military democracy”(p. 55). Efetivamente, sob George W.Bush por ocasião dos atentados às Torres Gêmeas”, se instaurou a verdadeira democracia militar, com a declaração do “war on terror” e a publicação do “patriotic act” que suspendeu os direitos civis básicos até o habeas corpus e a permissão de torturas. Na verdade isso configura um estado terrorista.

Como vários cientistas norte-americanos, citados por Moniz Bandeira (p.470), afirmaram: “não há mais uma democracia mas uma “economic élite domination” à qual se deve submeter o presidente. As decisões são tomadas pelo complexo industrial-militar (a máquina de guerra), por Wall Street (as finanças),  por ponderosas organizações de negócios e por um pequeno número de norte-americanos muito influentes. Para garantir o “espectro da total dominação” são mantidas 800 instalações militares pelo mundo afora, a maioria com ogivas nucleares e 16 agências de segurança com 107.035 civis e militares. Como afirmou H. Kissinger:”a missão da América é levar a democracia, se necessário, pelo uso da força”(p.443). Neste lógica, de 1776-2015, portanto, em 239 anos de existência dos EUA, 218 foram anos de guerra, apenas 21 de paz (p. 472).

Esperava-se que Barack Obama desse outro rumo a esta história violenta. Ilusão. Trocou apenas os nomes, mas manteve todo o espírito excepcionalista e as torturas em Guantánamo e em outros lugares fora dos EUA como no tempo de Bush. À “perpetual war” deu o nome de “Oversee Contingency Operation”. Por decisão pessoal (criminosa), autorizou centenas de ataques com drones e com aviões não pilotados, vitimando as principais lideranças árabes (p. 476).

Com certa decepção, constatou  Bill Clinton, “desde 1945 os Estados Unidos não venceram nenhuma Guerra” (p.312). Do Iraque fugiram em sigilo e na calada da noite (p.508).

O livro de Moniz Bandeira entra em detalhes mínimos sobre a Guerra na Ucrânia, na Criméia e no Estado Islâmico na Síria, com os nomes dos principais atores e datas.

A conclusão é avassaladora:”Onde quer que os Estados Unidos intervieram, como o “specific goal of bringing democracy”, a democracia constitui-se de bombardeios, destruição, terror, massacres, caos e catástrofes humanitárias…entraram para defender suas necessidades e interesses econômicos e geopolíticos, seus interesses imperiais”(p.513).

A mole de informações arroladas sustentam esta afirmação, não obstante as limitações que sempre poderão ser apontadas.

* Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu Ethos Mundial: um consenso mínimo entre os humanos, Record 2009.
Fonte:  https://leonardoboff.wordpress.com/2016/10/15/a-desordem-mundial-o-espectro-da-total-dominacao/
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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Em defesa de Bob Dylan

Manuel S. Fonseca*

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Não tinham o direito de se servir de Bob Dylan para fazer o que fizeram. É só o que o jovem de calções que eu era e que admirou, bebeu, cheirou, dançou e inalou Bob Dylan tem a dizer. Querem fazer-me do grande Bob Dylan um pequeno e obscuro escritor.

Bob Dylan é grande por ter sido transgressor, profeta assimétrico, rebelde contra os conservadores, rebelde outra vez contra os iconoclastas de feira, mas sobretudo por ter marcado a música popular do século XX. Usou para isso palavras e escreveu-as, à mão, à máquina, para aí num Remington de escritor. Ultimamente num laptop, quem sabe. Mas as grandes e maravilhosas palavras que escreveu, escreveu-as para uma arquitectura que envolve sons, para uma construção a que chamamos música.  Soprou palavras e as palavras mudaram um tempo. Em cima de um palco incendiou um tempo. Não dentro de um livro.

Eu bem sei que, hoje, a um homem já não se chama um homem, a uma mulher já não se chama uma mulher, a nada se chama nada, porque a tudo se chama tudo. Confundem-se as estradas. Mas Bob Dylan caminhou tanto na mesma estrada que merece que dela se diga o nome. A enigmática estrada da Literatura não foi a estrada de Dylan. Porque há uma estrada da Literatura: faz-se escrevendo para o papel, para a publicação em páginas, para a emergência das palavras numa folha de papel, criando tessituras dramáticas que só existem nessa forma autónoma e só nessa forma específica, de papel e letras, geram o mistério de um inexplicável tumulto emocional. Alfabeto e lábios imóveis, um par de nervosos olhos que lê, são essas as loucas ferramentas dessa nação. A Literatura é uma imensa montanha com 25 séculos e tem uma tradição – ó raio de palavra que me saíste descomandada e ainda me vais perder!

A arte de Dylan é feita de som, com fúria ou sem fúria. A arte pela qual lhe deram, hoje, o Nobel é feita do silêncio íntimo de uma página de papel. Mesmo os silêncios da música de Dylan, na tradição de todos os silêncios da música, são distintos do silêncio da palavra cativa do papel. E é essa diferença entre os silêncios que faz a grandiosidade da tradição de tantas artes. São diferentes, mas se as chamarmos pelo nome, elas vêm. Procuram o mesmo instante, têm a mesma aspiração de sublime ou de caos, uma danada vontade de beleza, destruição e eternidade, mas são diferentes: uma, a Música; outra, a Literatura; outra, a Pintura. Cada uma com o seu silêncio, nem o silêncio da Arquitetura rima com os silêncios das outras.

Dylan escreveu. Escreveu contra a morte, contra o esquecimento, como todos os escritores, Mas escreveu numa barca de Caronte de cordas e percussão, de graves e agudos. A épica montanha que se chama Literatura, do alto dos seus 25 séculos, dispersa em epopeias ou elegias, lendas e narrativas, romances e haikus, odes ou epigramas, tem outra identidade. E não me venham com a conversa de que eu estou a levantar barreiras ou compartimentos estanques. Não é dizendo que a Literatura é o que não é, que se lhe renova a grandeza. Ou, nome que parece que foi usado, a universalidade.

Talvez um dia o mar desfaça e arraste essa montanha a que um dia chamámos Literatura – how many years can a mountain exist / Before it is washed to the sea? Não devia é o Prémio Nobel da Literatura ter atirado, como uma pequena vaga, Bob Dylan contra a montanha. Ele não se chama, nunca se chamará, Nob Dylan.
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* Escritor português.
Fonte: Site português:  http://www.escreveretriste.com/2016/10/em-defesa-de-bob-dylan/13/10/2016

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

MIA COUTO: “Ganhar o Nobel é inverosímil e fora do contexto"

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Com o novo "A Espada e a Azagaia" nas livrarias, Mia Couto, com pouca ambição para prémios, diz-nos que "ninguém sabe como está Moçambique" e que os livros podem fazer a mudança.
Mia Couto é, a par de Lobo Antunes, um dos escritores da língua portuguesa mais vezes apontados como possível vencedor do Nobel da Literatura. O moçambicano tem levado as vozes africanas para o mundo. Traduzido em várias línguas, já venceu o Camões, o Neustad e foi finalista do Booker. Autor de obras como Jesusalém, Terra Sonâmbula e A Confissão da Leoa, é um dos escritores mais acarinhados em Portugal, com extensas filas de leitores à espera de um autógrafo de cada vez que marca presença na Feira do Livro.

Apresentou A Espada e a Azagaia na semana passada em Lisboa. É o segundo livro da trilogia “As Areias do Imperador” (no ano passado publicou Mulheres de Cinza) sobre os últimos dias do Estado de Gaza, o império africano dirigido por Gungunhana no Sul de Moçambique, antes deste ser capturado pelos portugueses, liderados por Mouzinho de Albuquerque, e deportado para os Açores, no final do séc. XIX.

Protagonizado pela jovem Imani, menina africana de 15 anos, o livro, diz o autor, propõe-se desconstruir uma versão única do passado, mostrando os vários lados da história, não só a dos vencedores mas também a dos vencidos. Esta não é, porém, uma história de guerra, antes uma história de amor: a da paixão de Imani e Germano de Melo, sargento português republicano, esquecido no interior de Moçambique. O cenário? A resistência à ocupação colonial.

Com a guerra ao fundo, Imani, o seu pai, o seu irmão e a italiana Bianca transportam Germano de Melo rio acima. O sargento foi atingido por um disparo, ficou com as mãos desfeitas. O grupo dirige-se ao hospital mais próximo. Mas o próximo faz-se longe, o destino é difícil de alcançar no meio de uma nação em guerra. Acabam por se deter numa igreja na margem do rio, onde encontram um padre português e uma velha negra feiticeira. É ali que vão ficar longos dias, enquanto ao fundo se decide o destino de uma nação.
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“A Espada e a Azagaia”, de Mia Couto (Caminho)

O Nobel da Literatura está prestes a ser anunciado. O seu nome figura na lista de apostas da Ladbrokes, já venceu o Neustad, para muitos é um forte candidato. Pensa nisso?
Não. A sério que não. Acho que é tão inverosímil e fora do contexto… Aliás, nem nesse, nem em nenhum. Podia pensar noutros mais pequenos mais à disposição da minha ambição. Mas, honestamente, não. Não espero nada.

Acaba de lançar A Espada e a Azagaia, segundo livro da trilogia “As Areias do Imperador” que, à semelhança do primeiro, é narrado a várias vozes: a da jovem Imani, a do sargento Germano de Melo e a do Tenente Ayres de Ornelas, uma africana, um republicano português desterrado e um militar português convicto. Porquê?
Faço normalmente esse jogo da narração distribuída por entidades diversas. Não sei se é porque não sei fazer de outra maneira ou porque quero que estas histórias sejam contadas a várias vozes, porque elas só ganham verdade se essas vozes se exprimirem como que dizendo “eu também sou dono da história”. A posição de narrador é fundamental para sugerir ao leitor que há alguém que vai conduzir aquilo que é chamado o caminho para a verdade. Aqui, logo à partida, se percebe que há verdades diferentes, de acordo com a perspetiva.

Sendo que a voz mais forte é a de Imani. A História costuma ser escrita por homens. Aqui é contada por uma mulher negra de 15 anos. Porque quis esse feminino?
Eu escuto essas vozes. Elas têm que acontecer dentro de mim. E essas vozes têm mais poder de sedução, têm mais verdade, se forem vozes femininas. É uma coisa ligada à minha própria história, à minha infância. O narrador será muito mais convincente, muito mais verosímil, se eu deixar essas vozes que me ocupam passarem para a página. Esta menina é muito pouco provável. No séc. XIX, uma menina negra, numa zona rural, que sabe ler e escrever, com a facilidade de viver na fronteira entre o mundo dos brancos e o mundo dos negros, era muito pouco provável. Pareceu-me que já que essa mulher tinha atravessado esta zona, podia fazer esta transumância, esse contrabando entre dois mundos, era ela que podia contar melhor aquela história.

Diz que as vozes que escuta têm mais verdade se forem femininas por motivos ligados à sua infância. Porquê? Eram as mulheres que lhe contavam as histórias? São as suas vozes que ouve? Mãe, tia, avó?
Avó não. Nunca conheci uma avó, um avô. Sou filho de gente que saiu daqui por razões políticas, não podiam regressar, não havia contacto nenhum. Mas a minha mãe era uma grande contadora de histórias. Eu era posto a fazer os deveres de casa na cozinha, onde costumava estar também uma tia, gémea dela, e as vizinhas, que se juntavam e contavam os casos dos vizinhos. E tudo era passado num murmúrio, num sussurro, como se fosse um canto, uma música permanente, contínua. Eu ficava encantado. A capacidade daquelas mulheres se desdobrarem em vozes era como se essa fosse uma função vital, tão vital como cozinhar. Elas cozinhavam, essa função quase telúrica, contando histórias. Contar histórias faz parte da nossa própria construção humana.

"Como se pode perceber que um partido político com assento na Assembleia da República possa fazer emboscadas com armas? Como é que um partido político tem armas? E como é que isto é aceitável durante todo este tempo? Há 20 anos que estamos em paz." 
 
Se no primeiro volume as mulheres eram feitas de cinza, agora são feitas de água…
Quando avanço para um livro não sei o que ele vai ser. Mas tinha uma ideia de que o primeiro livro era terra, o segundo os rios, o terceiro será o mar. O primeiro livro representa um pouco o quadro daquilo que são as pessoas, os lugares, é uma coisa material. Neste segundo a viagem habita as personagens, que são arrancadas, desenraizadas, são postos em viagem. Aliás, estas pessoas não só estão em viagem como são a viagem, existem porque estão em trânsito.

Seguindo o curso do rio…
Sim. O livro termina no estuário do rio, já chegando ao livro último, o livro do mar.

O mar que estava sempre presente, ao longe, no primeiro volume.
Sempre como cenário do limite. O rio implica a ideia de que há uma outra margem logo ali. No mar não se vislumbra o outro lado. Tiro vantagem desta representação simbólica que os Ngunis, de que este imperador faz parte, têm do mar: o mar é um lugar nenhum, é um abismo, um vazio. Nem há palavra para nomear o mar naquelas línguas. É o lugar infinito, lugar grande. O resto dos povos originários de Moçambique têm uma relação com o mar mais tranquila, são pescadores. Estes não pescam, aliás, não comem peixe, há uma interdição religiosa. Isto para um imperador tem uma dimensão adicional: é o lugar que ele não pode governar. Nesse limiar da praia ele perde o poder.

Voltando às mulheres. Elas ocupam um lugar central neste livro, de Imani a Bibliana, à própria mãe do imperador, passando pela mãe de Imani. Nos seus outros livros as mulheres também assumem uma presença muito forte. Por escutar essas vozes de que falava ou por algo mais?
Por essa razão primeira, porque são as vozes mais próximas, mas também porque na sociedade rural em Moçambique as mulheres têm esse lugar central. São elas que contam histórias, que são responsáveis pela vida. É uma coisa que faço em consciência, com intenção. Tendo elas esse lugar central são esquecidas, são muito oprimidas. Não é uma militância feminista que faço mas é impossível ficar indiferente à injustiça deste patriarcado que domina Moçambique. Aliás, não só Moçambique, países que eu pensava que já estavam libertos desse poder.

No livro compara o número de baixas de soldados ao número de mulheres que sofre também a guerra, mortas, violadas, torturadas. Número que, diz, é maior que o de soldados mortos. Há uma tendência para o esquecer.
Verdade. É o lado silenciado, invisível.

Que guerra é esta que retrata? Estando sempre presente, parece estar sempre ao largo.
Essa guerra foi muito particular. Portugal percebeu que tinha que enfrentar um inimigo que era muito mais forte do que pensava. E, como se percebe nas cartas do primeiro e deste segundo livro, havia uma grande hesitação em fazer uma guerra clássica contra esta gente porque, como o Gungunhana aí diz: “Andam à procura dos meus quartéis mas o meu quartel é tudo isto, as pessoas, a terra”. Portugal é empurrado para uma situação limite desesperada: ou derrotava o Estado de Gaza ou perdia aquela colónia, porque os ingleses pediam provas a Portugal de que havia uma ocupação efetiva deste território, sob pena de Moçambique passar para posse dos ingleses. Foi uma guerra muito pontual. Portugal escolheu batalhas e em poucos momentos houve confrontos. Aliás, a operação de captura do Gungunhana foi contra a estratégia pensada pela hierarquia militar, Mouzinho faz isso em contramão.

"Há um processo violento de constituição de um estado central que quer ignorar que existem várias nações em Moçambique. É preciso fazer delas uma única nação. Mas como se faz isto sem esquecimento, sem violência, sem anular a identidade de alguns mais pequenos? A ideia é mostrar que a literatura pode ajudar este processo de construção de uma nação 
moderna no tempo de hoje." 
 
Mais do que um romance de guerra, este é um romance de amor.
Espero que sim. As situações de violência extrema, que correm o risco de desumanizar uma sociedade, pedem essa resposta. Eu vi, durante o tempo de guerra em Moçambique – que, infelizmente, estamos agora a reviver, não é apenas um tempo do passado – como se construíram respostas de afeto, redes de solidariedade, que acho que em nenhum momento de normalidade se poderiam ter construído. Gente que num momento limite, em que poderíamos morrer todos numa emboscada, se revela gente cheia de coragem, cheia de nobreza, entregando-se a salvar os outros de uma maneira que eu nunca poderia suspeitar que fosse possível. Estas situações extremas pedem esta resposta. Estou a chamar amor a tudo isto, não apenas aos casos de paixão romântica. É uma necessidade profunda.

Como está Moçambique hoje?
Não sei. Acho que ninguém sabe. Essa é a grande tristeza. Há situações que ultrapassam aquilo que é um entendimento racional. Como se pode perceber que um partido político com assento na Assembleia da República possa fazer emboscadas com armas? Como é que um partido político tem armas? E como é que isto é aceitável durante todo este tempo? Há 20 anos que estamos em paz.

Este romance pode ser lido à luz do presente?
Acho que pode, aqui também há situações que ultrapassam aquilo que a gente pode entender. Todas as guerras têm esse lado. A guerra precisa de desqualificar o outro, de desumanizar o outro. Só assim é que eu estou autorizado a matar. Só assim é que eu me posso despir da minha própria humanidade. A situação é idêntica porque hoje a sociedade moçambicana está absolutamente polarizada, extremada. É como num exército. Não há perguntas a fazer, não há que procurar razões no outro.

Acha que se pode viver uma nova guerra civil?
Tenho dúvidas. É sempre possível. Quando a gente pensa que já bateu no fundo, ainda há caminho para mais fundo. Mas acho que não há disponibilidade das pessoas. Quem passou 16 anos de Guerra Civil como aquela não quer passar mais. E não sei se haverá interesses estratégicos que conduzam a apoiar um conflito militar hoje.

Para escrever Mulheres de Cinza esteve dois meses num castelo em Itália. Agora esteve nos Açores.
Estive na Terceira três semanas. Uma grande parte da escrita foi feita lá. Sair de Moçambique é importante. O que se está a passar é tão apelativo, tão dramático, que é impossível que a nossa alma não seja tomada. Vou escrever mas, de repente, sei de uma notícia gravíssima. E as notícias graves lá põem em causa todo o futuro. Não vivemos uma situação como a dos países europeus, em que pode mudar o Governo ou o Primeiro-Ministro e a vida continua, ninguém fica aflito. Ali, uma mudança dessas pode mudar tudo.

Precisa de se isolar desse tumulto para a escrita?
Sim, aquilo toma-nos muito.

E agora, para o terceiro volume, já tem um destino?
Não sei. Quando recebi a oferta para trabalhar nos Açores tive que negar uma outra, da editora italiana, que tem base na Sicília. Apetecia-me muito esse lugar, talvez por uma ideia romântica que tenho dele. Se a oferta estiver de pé não vou resistir. No Sul da Itália há uma forte presença da oralidade, as pessoas contam histórias, saem para a rua dizendo intimidades. A fronteira entre o público e privado não está bem clara. E isso é uma coisa muito africana. Aqui em Portugal também se nota. Esse é o melhor alimento que posso ter. Não poderia escrever no maior sossego de uma floresta na Noruega ou na Suécia. Preciso desse rumor, desse cruzamento de vozes.

"Persiste a ideia de que os africanos têm que ser marionetas de alguém, que sozinhos não se explicam a si mesmos. Ainda há gente a pensar que os africanos são sempre objeto e não sujeito da sua própria história." 
 
São elas que depois penetram nos livros?
São elas que se convertem nas vozes femininas.

Ainda está com vontade de escrever o terceiro volume? Ou já se arrependeu deste projeto?
Arrependi-me. Mas ao mesmo tempo há um desafio: também quero saber o fim da história. Acho que ainda tenho alma e ânimo para escrever. Mas apetece-me sacudir este tom e não ficar obediente a um único estilo. Mesmo que isso não seja previsível.

Como nasceu o projeto desta trilogia sobre Gungunhana e os últimos dias do Estado de Gaza?
Quis reconstituir ao passado que nos é negado em Moçambique a possibilidade de ele existir da única maneira que nos pode salvar do presente: ser dito no plural. Pode-me perguntar: mas alguém escreve um romance por causa disso? Tem que ver com a situação de guerra de Moçambique. Moçambique não está em guerra apenas por uma suscetibilidade temporária, por um confronto de poder. Há qualquer coisa que não foi superada no passado recente. Há um processo violento de constituição de um estado central que quer ignorar que existem várias nações em Moçambique. É preciso fazer delas uma única nação. Mas como se faz isto sem esquecimento, sem violência, sem anular a identidade de alguns mais pequenos? A ideia é mostrar que a literatura pode ajudar este processo de construção de uma nação moderna no tempo de hoje. A literatura pode dar acesso a esta pluralidade de identidades dizendo: olha, elas podem falar umas com as outras contando histórias e dando espaço a que essa grande história possa contar essas versões.

Porque usa Gungunhana para desconstruir essa versão única do passado?
Porque ele é o exemplo mais recente de uma construção feita pós-independência para eleger um herói nacional. Escolheu-se mal. É um homem que não tinha nenhuma intenção ligada a esta nação moçambicana: pensava uma outra nação, com outro desenho, outra configuração. Há uma contestação silenciosa de gente que se sentiu mal com essa escolha, com o facto de uma vez mais se repetir aquilo que a história colonial já havia revelado: que havia os esquecidos, que havia os que estavam distantes do poder central. Há sempre uma região do país que pergunta: e os nossos heróis, onde estão?

Se no primeiro livro Gungunhana era uma figura distante, quase um deus, ele agora corporiza-se e torna-se muito humano. Porquê?
Sempre pensei que era preciso humanizá-lo, colocá-lo na dimensão de alguém que tem dúvidas, que é atravessado por medos. Como qualquer imperador, como qualquer pessoa. E vou ter que continuar esse caminho de procurar entendê-lo, perceber porque é que teve um comportamento cheio de ambivalências, ambiguidades.

Em tempos de guerra, faz alianças com todos.
Num debate na Figueira da Foz, uma pessoa disse: o Gungunhana não poderia pensar assim sozinho, eram os ingleses que estavam por trás dele. Persiste a ideia de que os africanos têm que ser marionetas de alguém, que sozinhos não se explicam a si mesmos. Ainda há gente a pensar que os africanos são sempre objeto e não sujeito da sua própria história. Neste caso aquilo que parece uma grande inconstância, com ele a procurar alianças com os portugueses, com os missionários suíços, com os ingleses… Ele entendia de maneira muito inteligente essas divisões e tirava partido delas. Era um homem com poder mas cheio de dúvidas, cheio de temores. E há aqui uma história de amor, muito reveladora da sua fragilidade. A única mulher que ele realmente amava das suas trezentas esposas era a que lhe estava interditada, que a corte matou. Uma história parecida com a de Pedro e Inês. Era um homem aprisionado, infeliz.

Há uma história trágica para todos nós, até para os grande mitos?
Sem dúvida. Também têm grandes tristezas e grandes desilusões. Há um momento que me marcou muito. No quarto congresso da FRELIMO, Samora Machel trazia, à maneira de Fidel Castro, o relatório do Comité Central, umas 60 folhas para ler. Começou a ler mas pôs de lado as folhas e disse: “Eu acordei hoje num palácio, rodeado de mordomias, e descobri-me um prisioneiro. Acho que nós, camponeses pobres de origem, não vamos resistir a estas balas doces. Resistimos às outras balas mas a estas não vamos resistir”. Era a perceção de que o poder o começava a cercar e a transformar. E era uma confissão tão espontânea, tão verdadeira que eu – que era jornalista, responsável da informação – recebi um papel a dizer para cortar a transmissão para a televisão e rádio. Porque aquilo não podia ser dito.

Cortou?
Não.
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Reportagem por  Rita Silva Freire
Imagem da Internet
Fonte:  http://observador.pt/especiais/ganhar-o-nobel-e-inverosimil-e-fora-do-contexto/11/10/2016

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O que a Filosofia (ainda) pode nos dizer?

 Gabriel Ferreira*

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 O filósofo americano Richard Rorty: qual o futuro da filosofia?
Um espectro ronda as Humanidades – o espectro da sua inadequação. Em um mundo de iPhones, sondas intergalácticas e de ressonância magnética, parece não haver espaço para uma abordagem, seja da experiência humana no mundo, seja daquilo a que, grosso modo, nos acostumamos a chamar de realidade, que não seja gestada e desenvolvida no seio daquelas áreas abarcadas pela sigla STEM, em inglês (Ciências, Tecnologia, Engenharias e Matemáticas).

Se é assim para o senso comum, nas universidades pelo mundo a situação não é muito melhor.  Em setembro do ano passado, Hakubun Shimomura, ministro da educação japonês, enviou um memorando às universidades do país solicitando que convertessem seus departamentos de humanidades – que incluem cursos como filosofia, sociologia, antropologia, mas, por lá, também direito – em organismos que “sirvam melhor às necessidades da nação”. E os exemplos se multiplicam nos EUA e na Europa. Algumas universidades, como a de Pittsburgh, suspenderam a admissão de novos estudantes para cursos de Letras e Ciências da Religião. A de Middlesex, em Londres, fechou o seu curso de Filosofia. Por aqui, a recente discussão acerca das mudanças no ensino médio – já tratada por Andrea Faggion neste mesmo Estado da Arte – também deu ao tema cores mais vivas para nós, brasileiros. O fato é que, embora pulsante e atual e com desdobramentos visíveis, a discussão não apenas vai além da reforma de currículos ou do fechamento de departamentos universitários, como remonta a um quadro que não é particularmente novo.

Para entender o que se passa com mais propriedade, pode ser útil ver o processo que se iniciou já no século XIX e que pode ser muito bem caracterizado pela expressão, utilizada por historiadores da filosofia como Léo Freuler e Frederick Beiser, “crise de identidade da filosofia”. Com pequenas exceções, ao menos de Aristóteles (séc. IV a. C.) a Hegel (falecido em 1831), a filosofia não apenas era vista como o centro gravitacional daquilo que viríamos a chamar de Ciências Humanas ou Humanidades, mas era tida como fundamento praticamente inamovível e condição de possibilidade para todas as ciências. A partir de meados do século XIX, isso alterou-se radicalmente. Com o desenvolvimento crescente dos diversos ramos das ciências naturais, bem como da psicologia, fisiologia e mesmo da história, o papel da filosofia como mãe e guardiã das ciências específicas simplesmente ficou desacreditado. Em 1870, o filósofo Jürgen Bona Meyer resumiu bem a situação: “As filhas agora demandam independência de sua mãe comum, e elas não mais sofrem caladas quando são supervisionadas ou corrigidas; preferem que sua velha e morosa mãe deixe-se repousar em seu túmulo”. Não apenas a filosofia e seus métodos mostravam-se insuficientes para a gloriosa tarefa de fundar e assegurar a certeza das ciências, como emerge, de uma vez por todas, a questão fundamental: frente a todo o desenvolvimento e independência das ciências específicas, há ainda lugar para a filosofia na explicação do mundo e da experiência humana do mundo? Que o escopo de tal pergunta inconveniente se espalhe para as demais áreas das famigeradas Humanidades é, com perdão do trocadilho, mais do que natural.

O que apontei até aqui, ainda que de maneira esquemática, é uma introdução suficiente para nos trazer àquilo que é o ponto nevrálgico deste e do meu próximo texto no Estado da Arte e, por que não, de todos os meus textos possíveis por aqui. Se é duvidoso que haja, portanto, espaço para alguma contribuição da filosofia para como vemos o mundo, há espaço, igualmente, para a filosofia no debate público? Dito de outro modo, se não há lugar para uma explicação, descrição ou compreensão filosófica daquilo que chamamos mundo, qual lugar haveria para a filosofia, agora não apenas nas universidades e nas escolas, mas nos jornais, blogs, portais e redes sociais? É essa questão que está por trás de um recente artigo de Patrick Baert, chefe do departamento de Ciências Sociais de Cambridge, que escreveu um capítulo especificamente sobre a participação dos filósofos, em um livro sobre a presença dos assim chamados intelectuais na esfera pública (Public Intellectuals in the Global Arena: Professors or Pundits?,  University of Notre Dame Press) que está prestes a sair.

Embora de caráter evidentemente sociológico, o artigo de Baert fornece algumas boas pistas. Segundo Baert, o século XX conheceu três espécies de participação de filósofos na esfera pública, a saber, o autoritativo, o especialista e o dialógico. O autoritativo garantia sua penetração no debate devido ao reconhecimento geral de sua autoridade intelectual e moral que se impunha como justificativa da relevância de sua participação. Os exemplos paradigmáticos desse tipo são, justamente, dois dos mais influentes filósofos do século passado, a saber, o francês Jean-Paul Sartre e o britânico Bertrand Russell; se tal influência foi ou não benéfica é outra história. Thomas Sowell, em seu excelente Intelectuais e sociedade, fornece um bom arrazoado sobre os dois. O fato é que, cada um a seu modo e com seu escopo de ação, ambos foram exemplos de um tipo de filosofia pública que, como o próprio Baert reconhece, embora tenha sido muito influente, simplesmente não tem mais espaço. Pelas razões apontadas acima, o filósofo não goza mais da credibilidade e do prestígio que lhe podiam ser atribuídos por olhar o mundo e a sociedade “de cima”. Assim, o artigo apresenta então o segundo tipo, o especialista, que deriva sua credibilidade na arena pública precisamente por ser reconhecidamente um especialista em sua área. Foucault, em suas manifestações a favor de reformas do sistema penitenciário a partir de suas reflexões consignadas em Vigiar e punir, é um dos principais exemplos arrolados por Baert. No entanto, pelas mesmas razões que enfraqueceram a postura autoritativa, o especialista filósofo é um especialista suspeito; é um especialista de armchair. Por fim, do crepúsculo dessas duas figuras, surge o tipo dialógico. Ao contrário dos dois anteriores, o tipo dialógico não se apresenta a partir de uma posição superior em relação ao seu público, mas coloca-se em pé de igualdade discutindo e debatendo as questões simplesmente como um interlocutor a mais. Para Baert, as incursões públicas do filósofo americano Richard Rorty seriam exemplos dessa postura.

Com poucas adições, o quadro que emerge do capítulo de Patrick Baert sobre o papel do filósofo na esfera pública parece apontar então para que sua participação, para além de sua mais evidente contribuição nas aulas e universidades, dá-se por excelência naquilo que podemos chamar de tomada de posição. Em geral, ao escrever ou falar, o filósofo deve, sobretudo, posicionar-se sobre um problema, tema ou questão e argumentar, defender ou criticar este ou aquele lado. De fato, nomes atuais como Alan Badiou ou Slavoj Žižek são bons exemplos de dialogadores-posicionadores.

Todo esse quadro final mostra contudo outro aspecto extremamente importante. Atualmente, o campo que por excelência se abre a esse tipo de participação baseado primordialmente na tomada de posição é o da política. Como se pode facilmente ver, no entanto, o filósofo perde então seu espaço próprio ou, ainda, em nada se difere do cientista político ou social e, portanto, nada teria de particularmente novo a acrescentar ao debate público, sendo apenas mais um interlocutor a manifestar sua tomada de posição. Seria esse, por fim, o lugar – que é, praticamente, um não-lugar – destinado àquele acostumado a pensar grandes questões sub specie æterni? Ou ainda, haverá ainda alguma função e utilidade pública para alguém treinado ou versado em fazer filosofia? Continuaremos a explorar esse problema no próximo artigo.
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* Gabriel Ferreira é doutor em Filosofia e professor da Unisinos. Sua tese de doutorado acaba de receber o prêmio CAPES “menção honrosa” na área de Filosofia de 2015.
Fonte: http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/o-que-a-filosofia-ainda-pode-nos-dizer/

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Totalitário é o governo que quer cuidar cada vez mais dos súditos

 Luiz Felipe Pondé*
 Ilustração da coluna de Luiz Felipe Pondé - Ilustrada de 10/10/2016
A vocação totalitária em política não é algo fácil de se entender. O primeiro erro é achar que o governo totalitário o é porque deseja o mal para seus súditos. Não: o que caracteriza um governo totalitário é querer cuidar cada vez mais da vida de seus súditos. 

Se você perguntar para um prefeito totalitário a razão de ele querer mandar em sua vida, ele dirá apenas que você não o entende e que ele quer apenas o seu bem. O totalitarismo moderno é o pecado dos governantes que têm grandes projetos para sua vida. E isso é muito difícil de entender, porque quase todo mundo hoje pensa que governantes com projetos de mundo ou sociedade são bons. 

O filósofo britânico Michael Oakeshott (século 20), um desconhecido entre nós, costumava dizer que se mede a qualidade positiva de um governante pela ausência de teorias de mundo em sua mente. 

A rigor, um governante "ideal" seria alguém que não tem qualquer projeto para a sociedade que governa a não ser manter a ordem, a infraestrutura, a garantia de que a economia seja livre (sem protecionismos ou assistencialismos). Enfim, o "ideal" seria garantir que ele atrapalhará a vida das pessoas o mínimo possível. 

Nesse sentido, a pior coisa do mundo seria um governante que tem uma "visão de cidade", uma "visão de sociedade" ou uma "visão de educação" para seus súditos. O totalitarismo é fruto de um projeto de bem social e político. A primeira marca de um totalitário é ele ter certeza que representa o bem para todos. 

O filósofo romeno Emil Cioran (século 20) costumava dizer que vizinhos muito preocupados com o prédio se tornam facilmente vizinhos autoritários. Basta alguém achar que sabe como você deveria viver para essa pessoa ou governo se tornar totalitário. 

O que ninguém quer entender é que o fascismo sempre se viu como um projeto para o bem do mundo. Enquanto o "amor" que o fascismo nutria pelo mundo não for reconhecido plenamente, o risco da "bondade do bons" jamais será plenamente identificado. É necessário vermos o prefeito fascista com os olhos que ele (e seu seguidores) o veem: com os olhos do "amor" que ele nutre em ensinar a você como você deve viver. 

Vejamos um exemplo dramático disso. A cidade de Roterdã, na Holanda, tem um novo projeto de lei proposto por um dos tipos mais totalitários do mundo moderno: o "educador". Segundo esse projeto, mulheres "incapazes para a maternidade" serão obrigadas a tomar contraceptivos. Essas mulheres são mulheres que usam drogas, que não têm domicílio fixo, portadoras de alguma doença importante diagnosticada ou prostitutas. Os "inteligentinhos", na pobreza de espírito que os caracteriza, não percebem aqui o totalitarismo porque na Holanda se anda de bike. 

Essas mulheres seriam "acompanhadas" por psicólogos e assistentes sociais a fim de determinar a capacidade delas em exercer uma possível maternidade. 

Os proponentes da lei entendem que há um risco totalitário na ideia, porém "escolhem respeitar o direito das crianças" em detrimento do direito das mulheres de serem mães. Você pode, talvez, se perguntar onde estariam essas crianças cujo direito deveria ser respeitado. Você pergunta isso porque não entendeu (e a culpa não é sua, é duro mesmo perceber quais crianças são essas a serem respeitadas) que o direito aqui em jogo é "o direito de uma criança não nascer". 

Evidente que estamos aqui muito além do aborto. Estamos aqui diante de uma lei que decide quem deve ou não nascer em nome de um estatuto que diz cuidar dos direitos das crianças. 

A intenção por trás desse blá-blá-blá é limpar a cidade de crianças que poderão custar caro para o Estado. Mas, de novo, os "inteligentinhos" ficam confusos porque na Holanda se anda de bike e, quando se anda de bike, creem eles, sempre se carrega o bem no coração. 

A mentira é que não se trata de "direito" de criança nenhuma, mas, sim, de um forma de higienizar o mundo. O "amor" pelo mundo melhor é uma das maiores misérias modernas. Não confio em gente que "ama" o mundo. Uma obsessão que custará a passar, mas passará, como tudo mais. 
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* Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/10/1821444-totalitario-e-o-governo-que-quer-cuidar-cada-vez-mais-dos-suditos.shtml

A frouxa humanidade

Oscar Bessi*
 Resultado de imagem para escola
Esta semana estive batendo papo com estudantes de três escolas diferentes: Colégio Santa Inês, em Porto Alegre, Adelaide Sá Brito, em Montenegro, e Visconde do Rio Branco, em Santo Antônio da Patrulha. Gosto da linguagem dos adolescentes, da curiosidade que trazem consigo e da inquietude barulhenta. A gente ri muito, junto. E se fala muito sério. Quando falamos sério, seja sobre os motivos que me levaram a escrever este ou aquele livro, ou sobre a realidade do submundo das drogas e da violência, ouço o silêncio pasmo das descobertas. O espanto que arregala os olhos. A indignação perante verdades ocultas que são mais banais do que se possa imaginar. Mas tento fazê-los jamais esquecer que tudo começa e termina numa palavra simples: respeito. Por si e pelos outros. Presente nas mínimas atitudes e opções, nos jeitos de enfrentar as adversidades, nas possibilidades de encarar o que surge com cara de impossível ou imutável. Porque eles, jovens, são as vítimas e os alvos preferenciais do que há de mais inescrupuloso ao nosso redor. Basta espiar os noticiários.

“Pensamos em bater nela. Que ela iria correr e nós íamos enterrá-la. Só que aí não deu certo porque somos frouxas”. Essas frases, ditas por uma menina de 14 anos ao confessar que, junto com amigas, espancou, torturou e esfaqueou uma colega adolescente, com intenção de matá-la, me provocaram náuseas. Li a matéria no Correio do Povo de quinta e me pus a pesquisar mais sobre o caso de Goiás. Tudo nasceu de ciúmes do ex-namorado de uma das garotas, que estava ajudando a vítima a organizar sua festa de 15 anos. Um motivo bobo, fútil, um nada que quase destruiu uma família. Havia cova pronta no pátio da casa para enterrar o cadáver. Nenhuma delas se mostrou arrependida do que fez. Era ódio, ódio puro, ódio sem qualquer explicação, apenas ódio. E uma das meninas solta essa: não mataram porque foram “frouxas”.

Se a gente sabe tudo o que compõe da vida desses jovens, das inquietações aos apelos de consumo, aos apelos sexuais, aos apelos de comportamento, e se a gente sabe o quanto eles estão abertos às influências, por que os braços se cruzam há tanto tempo? Sim, porque a violência como grife não nasceu hoje. É resultado de muitos anos de descaso e inversão de valores básicos, como o respeito ao outro e à vida. É o resultado da falência educacional total deste país. Quando não matar é ser frouxo, e isso é dito por uma quase criança, por favor! Que reforma educacional precisamos, mesmo? E não, não é um caso isolado. A violência brasileira é cultural e extermina centenas de jovens, todos os dias, igual a qualquer guerra dessas que geram protestos mundo afora. Dá para deixar assim?
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* Jornalista. Cronista do Correio do Povo 
Fonte: http://www.correiodopovo.com.br/Blogs/oscarbessi/2016/10/1845/a-frouxa-humanidade/
Imagem da Internet

domingo, 9 de outubro de 2016

trilogia sobre a memória

Mia Couto
 Foto: Gabriela Biló/Estadão
O escritor. Primeiro livro da trilogia vendeu mais de 20 mil exemplares
 Escritor comprova que o passado 
é quase sempre inventado
 
Borboletas brilhantes tingiam de luz o rio durante a noite escura. “São as sombras da água”, diz um personagem do segundo livro da trilogia As Areias do Imperador, chamado justamente de Sombras da Água, em que o escritor moçambicano Mia Couto retoma a história de amor entre a jovem africana Imani e o sargento português Germano de Melo. A história se passa no fim do século 19, quando Moçambique está em guerra e o sul do país era governado por Ngungunyane, último líder do Estado de Gaza, o segundo maior império da África dirigido por um africano. Sobre a obra, Couto respondeu por e-mail às seguintes questões.

Sua escrita sempre é marcada pela poesia na prosa. Como funciona o efeito poético em uma obra polifônica como essa?
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A poesia é um modo de abrir portas a essa multidão que foi sendo silenciada dentro de cada um de nós. Fomos perdendo o acesso a essa alteridade, mas a vida insiste em construir em cada um de nós uma identidade múltipla. O que quer dizer que o trabalho do escritor se cruza em duas direções aparentemente contraditórias: por um lado, é imperioso que ele encontre a sua própria voz (que deve ser única e singular). Por outro lado, essa voz deve dar vazão à multitude de vozes que moram dentro de nós. No meu caso, tenho o privilégio de ter nascido e viver em um país que é uma nação onde vivem muitas nações. Todas elas pedem para ser faladas, lembradas e cantadas. Em qualquer lugar do mundo, a obra de arte é sempre polifônica. Mas, no caso de Moçambique, essa pluralidade é uma marca claramente vincada. 

O colonizador português é mostrado de formas diferentes neste segundo volume, com Germano e Ayres de Ornelas. Por quê?
Pareceu-me que era preciso sublinhar que não existiu uma categoria chamada “o colonizador” ou “os portugueses”. Neste segundo volume, criei um diálogo entre dois militares para mostrar que, do lado do colonizador, ocorriam visões díspares e em conflito. E não apenas distintas visões, mas olhares particulares. Por razões da sua paixão por uma mulher negra e africana, o personagem do sargento vai-se afirmando como uma figura singular e em confronto com o seu mandato de militar europeu. 

A captura de Ngungunyane significa a fragilidade de um povo?
Foi uma vitória colonial e uma derrota para a soberania dos africanos. Mas, uma vez mais, esse imperador africano que tanto perturbava o domínio português era um peso fatal para algumas das etnias que ele subjugava. Existiam diversas fragilidades que aqui se conjugam: a de diferentes Áfricas, mas também ironicamente a dos próprios portugueses que derrotaram militarmente esse poderia militar que lhe fazia frente no sul de Moçambique. Mas eram vencedores com vitória hipotecada. Porque era uma vitória apressada, sujeita a uma enorme encenação midiática, para que os ingleses vissem que Portugal merecia um fatia desse apetitoso bolo que era o território africano. 

A trilogia trata de uma figura que foi mitificada tanto pelos portugueses como pelos africanos. Como descrever essa figura sem privilegiar um dos lados?
Tive que contrariar a facilidade de ir buscar inspiração apenas nos documentos escritos, que foram todos eles deixados pelos portugueses. Visitei profusamente os territórios de Inhambane e Gaza, no sul de Moçambique, para recolher depoimentos orais que preservam a lembrança desse conturbado período. No ano passado, passei três semanas na ilha dos Açores, lugar onde foi exilado e acabou por morrer o imperador e três dignitários da sua corte. Ali, nessas terras lusas, esses quatro africanos penaram, mas também amaram e fizeram filhos. Hoje, há descendentes desses africanos em território português, gente mestiça, mas de nacionalidade portuguesa. 

Nós somos muito aquilo que já fomos, você disse certa vez. Como saber disso a partir de versões provavelmente distorcidas?
As versões do passado não têm sempre que ser interrogadas do ponto de vista da veracidade. Quase sempre elas são reinventadas. Sucede o mesmo quando revisitamos um sonho. O seu relato nunca é fiel. Porque o relato de um sonho pedia um idioma inventado. A única solução é aceitarmos que cada um de nós somos muitos. E somos assim múltiplos no presente porque, no passado, fomos sempre vários. O poeta moçambicano dizia: eu não sou dividido; sou repartido.

SOMBRAS DA ÁGUA
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras (392 págs.,R$ 44,90 papel, R$ 30,90 e-book)
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Reportagem por  Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo 
Fonte:  http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,em-novo-livro-mia-couto-retoma-sua-trilogia-sobre-a-memoria,10000080933

Como uma cigarra

 Luis Fernando Veríssimo*
 Resultado de imagem para sepultura é de Vincent Van Gogh, a outra do seu irmão mais moço, Theo.
 
No cemitério da pequena cidade de Auvers-sur-Oise, a poucos quilômetros de Paris, há duas sepulturas iguais, dentro de um cercado baixo. Uma sepultura é de Vincent Van Gogh, a outra do seu irmão mais moço, Theo. Surpreende a simplicidade das duas lápides. E emociona a colocação dos dois lado a lado, o pintor e Theo, que o sustentou durante toda a vida e parece continuar a zelar pelo irmão depois da morte. Theo morreu poucos meses depois do suicídio de Van Gogh.

Numa carta para o irmão, pouco depois de chegar a Arles, no sul da França, e começar a fase mais produtiva da sua vida, Vincent escreveu:

“Minha saúde está melhor aqui do que era no Norte – até trabalho num trigal no meio do dia, sob o calor mais intenso do sol, sem qualquer sombra por perto, e me delicio como uma cigarra. Meu Deus, se apenas eu tivesse conhecido esta região aos 25 anos, em vez de chegar aqui aos 35. Naquela época, eu me entusiasmava pelo cinzento, ou pela ausência de cores”.

Em Arles, Van Gogh se embriagou com as cores e se deliciou – na sua pintura, se não na sua atormentada vida privada – como uma cigarra ao sol. Imagem perfeita.

Van Gogh talvez seja o pintor mais identificável pelo grande público, pelo menos desde o Expressionismo, do qual ele foi o pioneiro. Picasso seria o seu único rival em popularidade, hoje. Dos mais antigos, quem nunca perdeu o fascínio foi o holandês Vermeer e seus interiores realistas. Entre os vienenses, competem Gustav Klimt e Egon Schiele. Klimt é o que tem mais nome, mas Schiele é o que entraria na minha coleção hipotética.

Minhas chances de ganhar a Mega Sena são mínimas, inclusive porque nunca jogo, mas se ganhasse já teria pronta a lista dos artistas que iriam para minhas paredes, além do Schiele. Francis Bacon, sem dúvida. Gravuras selecionadas do Picasso, para o banheiro. Dois ou três quadros de um abstracionista italiano chamado Alberto Burri. Vários Edward Hopper, por certo.

E todos os Van Gogh possíveis. Estes seriam os mais inacessíveis, mesmo com a disposição de gastar toda a minha fortuna num pequeno esboço que fosse. Por uma triste ironia, o autor de quadros que hoje valem milhões só vendeu um quadro em vida, em Bruxelas, para um colecionador que provavelmente nunca se deu conta do que tinha em mãos. Em Auvers-sur-Oise, nos últimos 70 dias da sua existência, Van Gogh produziu 75 quadros e 50 desenhos. Era como se estivesse apressando seu legado artístico final, ou registrando sua desesperança de ser reconhecido pela posteridade, antes de virar um revólver contra o próprio peito e se matar.
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* Jornalista. Escritor. Cronista
 Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7703160.xml&template=3916.dwt&edition=29855&section=4572
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IMPACIÊNCIA (Parte 1)

 Antonio Prata*
 Resultado de imagem para criança no utero
Ao sair do útero, é normal que você se impaciente. Lá dentro estava morninho, comida, bebida e oxigênio chegavam diretamente no umbigo via USB, aí te tiram da bolha, te cegam com a luz, você sente fome, sente frio, sente raiva, só quer que aquilo acabe logo.

Com um ano, é normal que você se impaciente. Já percebeu que a sua espécie é bípede e falante, mas você ainda é um quadrúpede balbuciante. Você quer explicar que a etiqueta está pinicando a bunda, que o bolo em cima da geladeira é muito mais apetitoso do que a sopa na tigela, quer voltar praquela praia em que tinha siri e quer ver o que acontece dentro da privada depois que dão a descarga, mas só consegue dizer “babadamdambléblé”.

Com cinco anos, é normal que você se impaciente. Já percebeu que o mundo é por escrito, do menu do Netflix ao pacote de polvilho, tudo se comunica através daqueles rabisquinhos, mas você ainda está preso às figuras, como um bebê que só consegue fazer “babadamdambléblé”.

Com 10 anos, é normal que você se impaciente. Já percebeu que esse negócio de criança é meio infantil, que o legal é ter bigode ou peitos, que muito mais emocionante do que balançar bem alto e gritar “Eeeeee!” é ficar parado na porta da escola com cara de enfado mascando chiclete, mas você ainda arrasta a mesma lancheira de quando nem sabia ler.

Com 15 anos, caramba, com 15 anos é obrigatório que você se impaciente. Os adultos dizem que essa é a melhor fase da vida, você já tem bigode ou peitos (talvez já tenha bigode & peitos), o mundo dos outros parece uma propaganda de Campari, mas o seu tá mais pra um filme da Sessão da Tarde: previsível, repetitivo e sem sexo, como quando ainda brincava no balanço da escola.

Com 20 anos, é normal que você se impaciente. Se acha mais inteligente do que todo mundo, mas por alguma razão não te contrataram como CEO do planeta Terra e sim como estagiário, você ganha algo entre nada e coisa nenhuma, ainda mora com os seus pais e vive sob as leis impostas por esses cretinos – os adultos. Quantos anos acham que você tem? Quinze?!

Com 30 anos, é normal que você se impaciente. Está correndo pra fechar urgentemente algum trabalho que tem que ser entregue até quinta às 18h39min ou a abóbada celeste sem dúvida desabará sobre nossas cabeças, a sua mãe te deixou 11 recados avisando que é aniversário da tia Eunice, tem 132 e-mails não respondidos na sua caixa postal, você precisa passar no jantar do Pedro e no lançamento da Lia e além de tudo arrumar tempo pra fazer exercício – afinal, você não tem mais 20 anos e uma barriga ridícula resolveu se aboletar dentro da sua camiseta.

Com 40 anos, é normal que você se impaciente. Você precisa trabalhar e cuidar das crianças, mas as crianças te impedem de trabalhar e o trabalho te impede de cuidar das crianças, faz seis meses que você não vê o Pedro, dois anos que não vê a Lia, aquela barriga não te abandona desde os 30, o fim da crônica chega quando ainda falta descrever umas quatro décadas de impaciência e seu filho de um ano chora pela casa, então você decide adiar a segunda metade do texto para a próxima semana e vai até a cozinha, onde encontra o menino empurrando a sopa de ervilhas e apontando para o bolo no alto da geladeira. Calma, Daniel! Calma!!! Calmaaaa!!!!!!!

(To be continued).

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* Escritor. Roteirista. Cronista.
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7705895.xml&template=3916.dwt&edition=29855&section=70
 

Ser quem somos

 Lya Luft*
 Resultado de imagem para Jennifer Finney Boylan She’s not there

Acabo de ler um livro muito interessante, ainda não traduzido aqui, She’s not there (Ela não está lá), da Random House, da professora universitária, autora de várias obras, inclusive ficção, colaboradora de jornais importantes dos Estados Unidos Jennifer Finney Boylan. Ela também é transgênero: nasceu menino, sempre se sentindo menina. (Transgêneros nos Estados Unidos começam a se revelar mais, embora ainda com problemas – preconceito é o principal.)

Numa entrevista dela numa TV americana, anos atrás, eu soube que aquela Jennifer discreta e tranquila antes fora James – casado com uma mulher com quem teve dois filhos, numa parceria amorosa, até que James começou a lhe revelar seu tormento: tinha nascido no corpo errado. Agora queria levar isso adiante, mudando de gênero: médicos, hormônios, cirurgias, psiquiatras, terapia individual e de casal.

Graves crises, angústia das duas partes, mas não queriam se separar. Depois de dois anos, James já se chamava Jennifer, agora com documentação correta, até certidão de nascimento. A esposa lhe deu um incrível apoio apesar das incertezas, pois dizia: “Eu ainda amo a pessoa que agora é Jenny, pelas suas grandes qualidades humanas. Não saberia viver sem ela”. Os dois filhos pequenos não tiveram nenhuma crise séria e até inventaram um nome para Jenny: “maddie”, mistura de mamma e daddy. Bem orientados, amados, acompanhados, hoje são universitários bem-sucedidos.

James havia tirado um ano sabático na faculdade onde, professor prestigiado, lecionava há muitos anos; depois, já como Jenny, escreveu uma carta aos colegas e à direção, expondo sua realidade e dispondo-se a aceitar a demissão. Para surpresa sua, foi recebida com respeito: nessa mesma faculdade, havia três professoras transgêneras, fato de que nem ela sabia.

Eventualmente troco e-mails com a professora Boylan, pois quero traduzir o livro acima mencionado mas ainda não encontrei editora. Acompanho (no YouTube) algumas das suas palestras em universidades e me impressionam a seriedade, sabedoria e leveza com que fala e age. Alta e magra, cabelo claro comprido e liso, sem maquiagem, tranquila e bem-humorada, essa mulher, com sua bravura e o apoio de pessoas amadas, venceu a luta essencial: saber quem somos, quem queremos ser – e realizar isso, não necessariamente em questão de gênero, mas escolhas diversas, trabalho, parceria, vida.

Esta coluna nasce da tristeza que me causa qualquer preconceito, mistura de desinformação, arrogância e medo, com que tão prontamente rotulamos as coisas humanas: sexo, política, jeitos de ser. Somos pouco solidários com o outro, sobretudo se não combina com nossos conceitos. Quantas amizades se desfizeram nestes tempos por razões políticas? Quanto sofrimento, no mundo inteiro, de pessoas que não cabem em padrões (quem os inventou?): altos, baixos ou gordos, intelectualizados ou simples, extrovertidos, quietos, nervosos, masculinizados, efeminados, e sabe lá o que mais.

Um pouco de respeito ao diferente não nos faria mal. Todos temos a nossa dor. Todos queremos compreensão, oportunidade, esperança – e, com sorte, afeto. E em geral merecemos isso.
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* Escritora. Tradutora.
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7706444.xml&template=3916.dwt&edition=29855&section=70
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Estudo estabelece 115 anos como idade limite da longevidade humana

Estudo estabelece 115 anos como idade limite da longevidade humana
Publicação foi recebida com opiniões divergentes pela comunidade científica (Foto: Pixabay)
Estudo publicado esta semana na revista Nature determinou os 115 anos como limite da longevidade humana
Um estudo publicado esta semana na revista Nature determinou os 115 anos como limite da longevidade humana. O estudo é a mais recente contribuição para um debate antigo entre cientistas sobre a possibilidade de haver ou não um limite natural para a vida humana.

“Parece muito provável que tenhamos atingido o teto da velhice. De agora em diante, humanos não ficarão mais velho do que isso”, disse o Jan Vijg, líder do estudo e especialista em envelhecimento na Albert Einstein College of Medicine, Nova York.

No estudo, os cientistas fizeram um gráfico de pessoas de diferentes idades vivas em um determinado ano. Depois, compararam os números de ano em ano, para calcular a taxa de crescimento populacional anual. A porção da sociedade que mais apresentou crescimento foi a dos idosos. Na França, na década de 1920, por exemplo, o grupo de mulheres que mais crescia era o de mulheres na faixa dos 85 anos. Nos anos 1990, o grupo de mulheres francesas que mais crescia era o de senhoras de 102 anos. Se esta tendência tivesse continuado, o maior grupo hoje poderia ser o de senhoras de 110 anos.

Ao invés disso, o aumento no limite de idade diminuiu e parece ter parado. Quando Vijg e seus alunos analisaram dados de 40 países, encontraram, de forma geral, a mesma tendência: na década de 1980, o crescimento da expectativa de vida começou a diminuir e, há uma década atrás, parou. Isso pode ter acontecido por que os humanos finalmente atingiram o seu limite máximo de longevidade.

Para confirmar essa possibilidade, os pesquisadores analisaram o Banco de Dados Internacional de Longevidade, concebido por James W.Vaupel, diretor do Centro Max-Planck Odense de Biodemografia da Idade, e seus colegas, que contém dados de 534 pessoas que viveram até extrema velhice. O time de Vijg encontrou a informação de que em 1968, a idade mais alta atingida foi 111. Nos anos 1990, o número passou para 115. Depois, a tendência estagnou. Com raras exceções, 115 anos era a idade máxima atingida.

Figuras importantes no debate receberam o estudo com opiniões fortes e opostas. “[O estudo] conta uma histórica convincente de que há uma espécie de limite”, disse S. Jay Olshansky, um professor de saúde pública na Universidade de Illinois em Chicago, que defende um argumento semelhante há mais de 25 anos.

James W. Vaupel, no entanto, há muito tempo rejeita a sugestão de que humanos estão se aproximando de um limite de idade. Ele disse que o estudo é uma tragédia. “É desanimador quantas vezes o mesmo erro pode ser cometido e publicado em revistas respeitadas”.
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Fonte: http://opiniaoenoticia.com.br/internacional/estudo-estabelece-115-anos-como-idade-limite-da-longevidade-humana/ 09/10/2016