sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Grande desejo

Adélia Prado
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai, quando é bom, fico bruta.
As sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos, claridades atrás do estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.

http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 23/01/2009

Obama: entre a biologia e o destino

Leandro Area*
Entre a biologia e o destino dormem os sonhos que a ambição desperta. Mas o novo presidente dos Estados Unidos é muito mais que isso. Filho de uma nação tão toda-poderosa, etnocêntrica, imatura e errática, na qual se prefere o espetáculo à História ­– uma invenção grega para contar a vida, Obama é o produto mais refinado do ideal americano. Barack Hussein, com cujo nome, cor e histórico familiar ninguém jamais pensou que chegaria onde chegou, é a saída e o resultado que se encontrou nessa sociedade para ter e oferecer um alívio diante da profunda crise econômica e ética que atravessa, e com a qual contamina o resto do mundo. Obama não só é, portanto, propaganda política, produto de uma luta eleitoral, mas também salva-vidas coletivo diante da incalculável polaridade cultural e étnica, às vezes mascarada no estribilho recorrente de uma sociedade inclusiva e multicultural.

Observando as obras do grande pintor novaiorquino, Edward Hopper (1882-1967), podemos ver a realidade social americana refletida ali de maneira arquetípica. Traça a vida americana como tensão entre natureza e cultura, permanência e conjuntura, tempo e distância, próprio e estranho ­ não verdadeiramente próximos.


Mas essa proximidade intelectual seria inconclusa se não acrescentarmos a vontade sustentada pela minoria afrodescendente para alcançar o que conseguiu. Não esqueçamos que de 300 milhões de habitantes que o censo de 2006 registra, 74% são brancos, e 12% (36 milhões) são afroamericanos, o que quer dizer que, não somente negros votaram pelo candidato democrata.



Filho da nação do espetáculo,
novo líder é o produto
mais refinado do
ideal americano


Sangue, suor, lágrimas, destrezas, capacidades, produtividade, elegância e ritmo demonstraram esses descendentes de escravos para ocupar seu lugar numa sociedade que os renegou e os lançou às mãos do Ku Klux Klan, da CIA, da repressão física e psicológica, criando uma sociedade de desigualdades raciais. Há algum tempo, os EUA começaram a desembaraçar a complexa rede de incompreensão e a correr atrás dos prejuízos. E, por que não dizer, a sociedade branca se envolveu numa aparência mais porosa e elástica.


Os hippies, por exemplo, com o seu ideal de paz e amor, criaram uma ilusão que hoje sai pelos poros buscando a luz. Os governos Kennedy, Carter e Clinton, por sua vez, deram passos em direção à abertura, e se Lavoisier tinha razão quando
dizia que nada se perde e sim se transforma – ­ temos de dar crédito a estas decisões tomadas pelo poder e a sociedade branca.


Aretha Franklin, a rainha do soul, nascida nem mais nem menos do que em Memphis, Tennessee, nunca imaginou que cantaria na cerimônia de posse de um presidente dos Estados Unidos da América com o qual compartilharia, entre outras coisas, a cor da pele. Com orgulho, dignidade e vocação democrática, o público, não sei se poderíamos dizer o povo, a escutou num ato em que George Bush também se despediu. Amém.


Agora Obama não é negro nem branco. É o presidente da nação mais poderosa e frágil do planeta e representa uma esperança para os seus e para o resto dos países da Terra, que somos todos.


Façamos votos para que o seu mandato seja de paz, compreensão e resgate da imagem internacional deteriorada de seu país que tanto alimentou a esquerda e o terrorismo internacional. Que seja semeado de princípios democráticos pelos que aqui, na Venezuela, também lutam com garra, agora que isso virou algo tão raro.
Não esqueçamos que
74% da população é de brancos ­
não só negros votaram

*Leandro Area - ANALISTA DO INSTITUTO DE ESTUDOS POLÍTICOS DA UNIVERSIDADE CENTRAL DA VENEZUELA

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

As festas americanas e os nossos deveres Battisti e os cubanos

Mauro Santayana*

As grandes virtudes do povo norte-americano se devem à inteligência e aos sentimentos éticos e religiosos dos fazendeiros e letrados que constituíram a elite da independência. Entre fundar uma monarquia ou correr o risco republicano, e entre resolver os problemas de convivência das antigas colônias mediante a centralização e estabelecer sistema federativo, optaram pela república e pela federação. Retornaram aos historiadores gregos e romanos para nutrir-se dos princípios clássicos da República e se inspiraram nas Províncias Unidas da Holanda para a descentralização do poder. Essas escolhas têm garantido a continuidade constitucional dos Estados Unidos. A federação, ali, é, de acordo com observadores da altura de Lord Acton, a base das liberdades políticas e a efetiva segurança contra as tentações totalitárias internas.

O poder das unidades federadas se exerce a partir do processo eleitoral e flui das bases para o cume, da planície para a montanha, mediante o cáucus e as prévias. Das conversas informais e discussões entre vizinhos e nos comitês partidários, esboçam-se as candidaturas em torno de idéias e de interesses. O passo seguinte é o das prévias, que vão somando os votos no Colégio Eleitoral futuro. Como a federação, ali, é de estrutura radical, os candidatos vencem em cada estado, e o número de votos eleitorais correspondente a cada um deles define os vitoriosos.

Reconhecer as virtudes norte-americanas não significa desconhecer os vícios de sua arrogância. Um deles, que corresponde ao desvio de uma virtude religiosa, é o proclamado espírito de missão. Acreditaram, e ainda acreditam muitos de seus líderes, que os Estados Unidos surgiram para conduzir o mundo de acordo com a sua visão profética da História. Uma dessas crenças é a de que a democracia, tal como a concebem, é valor político absoluto. Consideram qualquer outro sistema como diabólico, quando contraria seus interesses geopolíticos. Não lhes convém indagar se o despotismo, esclarecido ou não, dos sistemas muçulmanos, é aceito pelos seus povos. Para nós, ocidentais, não há dúvida de que, conforme a máxima de Churchill, a democracia é o pior dos sistemas, com a exceção de todos os outros. Mas há outras formas de ver o mundo, que devemos respeitar. O valor maior do homem, dentro da inteligência democrática, é a liberdade. Para outros, pode ser o da obediência a um soberano. Liberdade e obediência, no entanto, têm os seus limites, pela lei ou pela necessidade.

Há muitas lições da experiência norte-americana que, sim, podemos seguir. Uma delas é o da democracia na escolha dos candidatos. A vontade dos cidadãos pode não ser a melhor, e muitas vezes, lá e alhures, não foi. Foi péssima a escolha de Bush, como fora, antes dele, desastrosa a escolha de Collor, no Brasil. A diferença está no processo de escolha. Aqui ela é feita pelo consenso dos dirigentes partidários, como defende o governador José Serra. Lá ela brota do cáucus, e se vai afunilando nas prévias para consagrar-se na convenção nacional. Se não fosse assim, seria quase impossível a eleição de alguns outsiders, entre eles Barack Obama.

A alternância no Poder Executivo é outro bom exemplo norte-americano. Até 1951, a Constituição não proibia as reeleições sucessivas, o que possibilitou a Franklin Roosevelt ser eleito quatro vezes (1932, 1936, 1940 e 1944). A 22ª. Emenda, naquele ano, limitou a dois mandatos (No person shall be elected to the office of president more than twice). Esta é também boa norma para quem sonha, entre nós e nossos vizinhos, com terceiros, quartos e não sabemos quantos mandatos.

Seguir os bons exemplos dos Estados Unidos não significa aceitar sua liderança. Nosso dever é o de encontrar, com as nossas razões, o próprio caminho no mundo.

Leitores protestam por que não citei o caso dos esportistas cubanos. Como deixei claro, não discuto a natureza moral do asilo a Battisti que, de resto, passou 14 anos na França, sem que os franceses fossem tratados com arrogância pela Itália. O que defendo é o direito de o Brasil decidir quem acolhe ou não dentro de suas fronteiras. Convém lembrar que, de acordo com o noticiário da época, os cubanos – diante de um representante do Ministério Público – desistiram de asilar-se no Brasil, preferindo voltar, pelas naturais razões familiares. Se o Brasil os houvesse asilado e o governo cubano agisse como o italiano, minha atitude seria a mesma, a de defesa de nossa soberania.

Há vida lá fora

Astro e diretor falam sobre
ficção científica
e a chance de um dia
encontrarmos
aliens
de verdade

Se aliens como o E.T. [do filme de Steven Spielberg] chegassem à Terra, seria legal." A frase foi dita pelo diretor Scott Derrickson ("O Exorcismo de Emily Rose") na entrevista coletiva que concedeu ao lado do astro Keanu Reeves. Eles falaram sobre seus desafios no remake de "O Dia em que a Terra Parou" e temas como vida fora de nosso planeta e a crise ambiental. (FC)

Galileu - Como o remake de "O Dia em que a Terra Parou" está contextualizado em nosso presente?
Scott Derrickson - O filme original fala sobre a propensão que o homem tem a se autodestruir. Agora não há mais a Guerra Fria. As armas nucleares ainda preocupam, mas existe outra crise mais urgente a ser evitada, a ambiental. O filme nos dá uma boa visão sobre nossa natureza: assim como podemos acabar com nossa espécie, também temos uma tremenda habilidade de sobrevivência. Tentei fazer um filme otimista. Não quis dizer o que devemos fazer ou como pensar, mas apenas mostrar que estamos cometendo danos irreparáveis.
Keanu Reeves - O filme questiona a maneira como vivemos e mostra como ela causa estragos irreversíveis ao meio ambiente. É um filme positivo em relação à natureza humana, que mostra nosso pior lado, mas também que podemos dar o melhor de nós.
Galileu - Como você se preparou para interpretar um alien?
Reeves - Não tive que fazer nenhum trabalho pesado, nenhum tipo de laboratório [risos]. Mas como faço em todos os meus filmes, foquei em meu papel e analisei qual seria a minha responsabilidade ao contar essa história: quem sou eu, o que quero, o que estou fazendo lá. Tentei trazer objetividade ao personagem e à forma como ele observa as coisas ao seu redor. Ele é um alien dentro de um humano. Quando olha para esse corpo, ele está olhando para fora. Tive de usar a imaginação.
Galileu - Por que você não incluiu a frase "Klaatu barada nikto" em seu filme?
Derrickson - Não havia um contexto para repetir a frase clássica de modo a fazê-la ter sentido para o público que não conhece o filme original. Fizemos várias tentativas. Algumas ficaram interessantes, outras, muito bobas, mas ficou claro que não poderíamos repetir a fórmula do passado ou alterá-la de uma maneira respeitosa.

Galileu - Vocês acreditam que possa haver vida fora da Terra? E o que aconteceria se eles chegassem até aqui?
Reeves - Certamente deve haver alguma forma de vida lá fora. E se eles viessem nos visitar, acho que teríamos que controlar nosso medo e ansiedade, já que também haveria muita gente feliz com isso. Tendo a pensar que os receberíamos de braços abertos.
Derrickson - Eu acho que é extremamente possível que sim. Se um dia eles irão nos contactar, eu não sei, mas acho que nossa reação dependeria do tipo dos aliens. Se fossem como o E.T., seria legal.

Galileu - Você é fã de livros e filmes de ficção científica? Quais são os seus favoritos?
Reeves - Sim, bastante. Meus livros favoritos são os de Phillip K. Dick, Julio Verne e William Gibson. Gosto de "1984", de George Orwell, e "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley. Quanto aos filmes, meus preferidos são "2001 - Uma Odisséia no Espaço", "Guerra nas Estrelas", "O Quinto Elemento", "Blade Runner" e… deixa eu pensar… "Matrix" [risos].

Galileu - Você prefere fazer filmes desse gênero?
Reeves - Gosto de trabalhar em filmes de fição científica, mas isso é só mais uma das coisas que eu posso fazer, não a única.

Galileu - Você classifica o seu "O Dia em que a Terra Parou" como um filme de ficção científica ou de ação?
Derrickson - Não acho que seja um filme de ação. É de ficção científica com um pouco de thriller, ação e romance.

Galileu - Você sempre busca passar mensagens com seus filmes?
Derrickson - Sim, pois espera-se que esse tipo de "grande filme de Hollywood" seja visto por pessoas do mundo todo. Também acho que sou responsável pela maneira como as pessoas do resto do planeta vêem minha cultura e meu país.
(Reportagem da Revista GALILEU nº210 - janeiro 2009)

Em Nome da mãe

Arthur Veríssimo
Em sua
despedida,
Arthur narra a emoção
de seu encontro
com Madre Teresa de Calcutá

"A vida é uma oportunidade, aproveite-a.
A vida é beleza, admire-a.
A vida é um desafio, enfrente-o.
A vida é aventura, arrisque-se.
A vida é um mistério, descubra-o."

Contemplava o visual do vale de Katmandu depois de ter passado alguns dias viajando pelo interior do Nepal. Stupas tibetanas (templos budistas), monumentos, palácios, estátuas, templos hindus, casas de chá, peregrinos, vacas, macacos e uma imensidão de riquixás (bicicletas movidas a tração humana) emolduravam o cenário das entranhas das cidades de Patan, Bhaktapur e Pashupatinath. Desde que havia partido do Brasil, uma história se repetia incessantemente nos meus sonhos. Neles, minha mãe, Zezé Tavares, já falecida, manifestava-se e dizia que eu deveria fazer uma visita a Madre Teresa de Calcutá. Tais sonhos praticamente dominavam meu inconsciente. Os pensamentos que abrem este texto são de autoria dessa incansável e maravilhosa criatura. Para situá-lo, essa viagem desenrolou-se no século passado, no ano de 1995. Depois de mais uma noite em que mamãe docilmente pedia que eu fosse à sede da Ordem das Missionárias da Caridade, resolvi partir no dia seguinte para Calcutá.

Imagine desembarcar na caótica capital do estado de West Bengal sem saber se Madre Teresa estava na cidade ou se encontrava-se em peregrinação pelo mundo. Não conhecia nada por lá. Por pura sorte, detectei uma espanhola que fazia trabalhos como voluntária juntamente com duas irmãs da congregação. Suas primeiras palavras foram que Madre Teresa estava na cidade e que a congregação se localizava no número 54 da Acharya Jagadish Chandra Bose Road, na região de Chowringhee. Peguei um táxi e me aventurei rumo a Sudder Street, onde hotéis e pousadas disputam turistas de todas as partes do planeta.

Calcutá é brutalmente diferente do parque de diversões que é Katmandu. A sujeira, a poluição e a miséria das ruas, por incrível que pareça, me conduziram a um oceano de tranquilidade, humildade e compaixão. Estava "imerso no fluxo". Durante cinco dias, precisamente às 4 horas da manhã, participei dos cultos religiosos na sede da célebre congregação cristã. A missa era ministrada por um padre que destilava simpatia por todos os poros. As irmãs da Ordem, vestindo seus belíssimos saris brancos - que destacam a sua pureza - com frisos em azul - a cor da Virgem Maria -, acompanhavam-no, rezando os salmos.

Uma missionária me contou que os objetos pessoais de cada uma das irmãs se resumem a um par de sandálias, um pedaço de sabão, um conjunto de roupas íntimas, um prato esmaltado, um colchão, um travesseiro, um par de lençóis e um balde de metal. Completo desapego aos bens materiais. Atualmente, as Missionárias da Caridade somam 3 mil freiras e 400 irmãs, espalhadas por 87 países e 160 localidades. No Brasil, sua representação está na cidade do Rio de Janeiro.

No último dia em que assisti aos cultos, me dirigi ao padre e perguntei por onde andava Madre Teresa. Com seu imenso sorriso, ele apontou sutilmente para a porta de entrada e uma senhora sentada ao chão. Sim, caríssimo leitor: eu estava diante da presença iluminada de Madre Teresa. Meus lábios emudeceram e gentilmente estendi minha mão. Ela se apoiou, levantou-se suavemente e me abençoou. Perguntou de onde eu vinha e abri meu coração, dizendo que estava ali por admiração a tudo que ela fizera e faria e por uma série de sonhos nos quais minha mãe pedia para que eu fosse a Calcutá. Madre Teresa colocou suas imensas mãos sobre a minha cabeça e algo conectou-se com meu espírito. Na noite seguinte, sonhei novamente com minha mãe, que sorria e brincava em um campo repleto de girassóis.

Madre Teresa nasceu na cidade de Skopje, na República da Macedônia, em 27 de agosto de 1910. A mudança de seu nome para Teresa foi uma homenagem à monja francesa Teresa de Lisieux, mais conhecida como Santa Teresinha. A religiosa morreu no dia 5 de setembro de 1997, aos 87 anos de idade, vitima de uma parada cardíaca. Em 17 de outubro do mesmo ano, foi agraciada com o Nobel da Paz. No dia 19 de outubro de 2003, João Paulo II beatificou-a em um dos processos mais rápidos da história da Igreja.
Esta é minha última coluna para a revista Galileu. Mas, muito provavelmente, voltarei às suas páginas em outras encarnações no futuro. Quem quiser continuar compartilhando minhas peregrinações e experiências pelo mundo pode mandar um email para o endereço arshiva@terra.com.br
Namastê.
(Revista Galileu, nº210, janeiro de 2009, pg.90)
Arthur Veríssimo, repórter e DJ, acumula milhas aéreas e histórias para contar sobre os lugares e as pessoas mais incríveis do mundo

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Cântico dos cânticos


Salomão

A Sulamita

Não sei bem que sonho tive
Esta noite, que acordei
Sobressaltada, e que estive
Ainda, apalpando a cama
À busca de quem me ama
E a quem amo; não achei;
Levantei-me, rodeei
A cidade toda em roda,
Corri a cidade toda,
Busquei tudo, não achei.
Na rua, pergunto à ronda:
— O meu amante que é dele?
Não há ninguém que responda.
Vou andando; a poucos passos
Vi vir um vulto: é aquele!
Chega e digo-lhe depois
De o apertar nos meus braços:
— Quem se ama como nós dois,
Só em mudando de estado
É que vive descansado.
Anda daí, vamos pois.

O POEMA: Cânticos dos cânticos é um poema de amor escrito por Salomão, filho de Davi, reis de Israel. Ao longo dos séculos, se discute se é um poema de amor humano ou de amor religioso. Pouco importa: qualquer que seja o amor, Salomão o havia experimentado na carne. O trecho acima foi retirado da edição de bolso da Ediouro. (Tradução de João de Deus e José Benedito Cohen).
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 20/01/2009

Poemas ao SEM TERRA

Carlos pronzato,
cineasta, argentina


Reforma Agrária
É palavra
Que dói na alma
Que grita na calma
De quem
Não se levanta

Reforma Agrária
É bandeira
Que clama
Revolta
E apenas reclama
"na lei ou na marra"
Com uma palavra:
Terra!


Ao MST – nos seus 25 e 30 anos

Da raiz à luta,
Da flor ao fruto,
Do chão ao pão
No caminho da utopia,
Da noite ao novo dia!

(Recebi por e-mail e não tinha a fonte. Mas os poemas referem-se ao aniversário de 25 anos do MST)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A força curativa da Ecologia Interior

Leonardo Boff*


Em tempos de crise como o nosso, procuramos fontes de inspiração lá onde estiverem. Uma delas é a ecologia interior. Para avaliar sua relevância precisamos nos conscientizar do fato de que nossa relação para com a Terra, pelo menos nos últimos séculos, está baseada em falsas premissas éticas e espirituais: antropocentrismo, negação do valor intrínseco de cada ser, dominação da Terra, depredação de seus recursos. Tais premissas produziram o atual estado doentio da Terra que repercute na psiquê humana.

Assim como existe uma ecologia exterior, existe também ecologia interior feita de solidariedade, sentimento de re-ligação com o todo, cuidado e amorização. Ambas as ecologias estão ligadas umbilicalmente. É o que se chama de psicologia ambiental ou, na expressão de E. Wilson, de biofilia. Sua base não é só antropológica mas também cosmológica. Pois o próprio universo, segundo renomados astrofísicos como Brian Swimme, entre outros, teria uma profundidade espiritual. Ele não é feito do conjunto dos objetos mas da teia de relações entre eles, fazendo-os sujeitos que trocam entre si informações e se enriquecem.

A partir da ecologia interior, a Terra, o sol, a lua, as árvores, as montanhas e os animais não estão apenas aí fora, mas vivem em nós como figuras e símbolos carregados de emoção. As experiências benfazejas ou traumáticas que tivermos feito com estas realidades deixaram marcas profundas na psiquê. Isso explica a aversão a algum ser ou afinidade com outro.

Tais símbolos fundam uma verdadeira arqueologia interior, cujo código de decifração constituiu uma das grandes conquistas intelectuais do século 20 com Freud, Jung, Adler, Lacan, Hillmann e outros. No mais profundo, consoante C.G. Jung, brilha o arquétipo da Imago Dei, do Absoluto. Ninguém melhor que Viktor Frankl trabalhou esta dimensão que ele chama de inconsciente espiritual e os modernos de mystical mind, ou ponto Deus no cérebro. Esse inconsciente espiritual, em último termo, é expressão da própria espiritualidade da Terra e do universo que irrompe através de nós porque somos a parte consciente do universo e da Terra.

É essa profundidade espiritual que nos faz entender, por exemplo, esta exemplar atitude ecológica dos indígenas Sioux dos EUA. Eles se deleitam, em algumas festas rituais, com certo tipo de feijão. Este cresce fundo no solo e é de difícil coleta.
Que fazem os Sioux? Aproveitam-se então dos estoques que uma espécie de rato das pradarias da região faz para seu consumo no inverno. Sem essa reserva correriam sério risco de morrer de fome. Ao tomar seus feijões, os indígenas Sioux têm clara consciência de que estão rompendo a solidariedade com o irmão rato e que o estão roubando. Por isso, fazem comovente oração: "Tu, ratinho, que és sagrado, tenha misericórdia de mim. Tu és, sim, fraco, mas forte suficiente para fazeres o teu trabalho, pois forças sagradas se comunicam contigo. Tu és também sábio, pois a sabedoria das forças sagradas sempre te acompanha. Que eu possa ser também sábio em meu coração para que esta vida sombria e confusa seja transformada em permanente luz". E como sinal de solidariedade, ao retirar o feijão, deixam em seu lugar porções de toucinho e de milho. Os Sioux sentem-se unidos espiritualmente aos ratos e a toda a natureza.

Este espírito de mútua pertença urge ressuscitar porque o perdemos pelo excesso de individualismo e pela falta de conexão com a natureza.

O sistema imperante exaspera o desejo de ter à custa de outro mais fundamental que é o de ser e o de elaborar a nossa própria singularidade. Este demanda capacidade de opôr-se aos valores dominantes e de viver ideais ligados à vida, ao seu cuidado, à amizade e ao amor.

A ecologia interior também chamada de ecologia profunda (deep ecology), procura acordar o xamã que se esconde dentro de cada um de nós. Como todo xamã, podemos entrar em diálogo com as energias que trabalham na construção do universo há 13,7 bilhões de anos. Sem uma revolução espiritual será difícil sairmos da atual crise que exige um novo acordo com a vida e com a Terra. Caso contrário, seguiremos errantes e solitários.


Leonardo Boff
TEÓLOGO
http://ee.jb.com.br/reader/zomm.asp?pg=jornaldobrasil_117651/104813 19/01/2009

domingo, 18 de janeiro de 2009

Inclassificáveis

Mirian Goldemberg*
Simone de Beauvoir escreveu um livro fascinante e cruel sobre o processo de envelhecimento. Em A velhice, publicado na França em 1970, ela refletiu sobre o próprio sofrimento: "É normal, uma vez que em nós o outro que é velho, que a revelação de nossa idade venha dos outros. Eu estremeci, aos 50 anos, quando uma estudante americana me relatou a reação de uma colega: `Mas então, Simone de Beauvoir é uma velha!' Toda uma tradição carregou essa palavra de um sentido pejorativo ­ ela soa como um insulto". No entanto, ela sugeriu a possibilidade de uma "bela velhice": construir um projeto singular que torne cada indivíduo autorizado a decidir sobre os seus comportamentos, não de acordo com determinadas regras, mas segundo sua própria vontade. No caso das mulheres, em particular, "a última idade representa uma liberação: submetidas durante toda a vida ao marido, dedicadas aos filhos, podem enfim preocupar-se consigo mesmas", concluiu a filósofa.

No filme sueco A vida começa aos 40, a filha exige da mãe recém separada que pare de dançar, pois considera esta diversão inadequada para uma mulher de sua idade. Acusa a mãe de ser uma velha ridícula. A mãe reage indignada e diz que vai dançar aos 40, 50, 60, 70 e sempre que quiser, pois paga as suas contas e não deve satisfação a ninguém. Diz que é ela, e não os outros, quem irá decidir o que pode ou o que não pode fazer.

Entrevistando brasileiras de mais de 50 anos, encontrei esta mesma idéia. Casadas ou separadas, com filhos ou netos, com namorados ou sozinhas, trabalhando ou aposentadas, as mulheres com quem tenho conversado dizem categoricamente: "É a primeira vez na vida que me sinto realmente livre. Antes, vivia para o marido, os filhos, a família. Já cumpri todas as minhas obrigações sociais e familiares. Agora, posso cuidar de mim, fazer o que realmente gosto, não dar mais satisfação para ninguém. Posso ser eu mesma pela primeira vez na minha vida".

Pensei nesta liberdade feminina tão tardiamente conquistada ao assistir ao belo show de Ney Matogrosso, Inclassificáveis. Aos 67 anos, Ney esbanja paixão e sensualidade, brincando, provocando e seduzindo os homens e as mulheres da platéia. Ney inventou uma forma de ser no mundo, quebrando todas as convenções que tolhiam o seu corpo, a sua sexualidade, a sua arte. Não pode ser classificado em nenhum rótulo, é inclassificável, com toda a carga de liberdade que existe nessa idéia.

Muitas brasileiras também me disseram que passaram a se sentir invisíveis depois dos 50. Uma revelou: "Eu sempre fui uma mulher muito paquerada, acostumada a levar cantada na rua. Quando fiz 50, parece que me tornei invisível. Ninguém mais diz nada, um elogio, um olhar, nada. É a coisa que me dá a sensação de ter me tornado velha. Hoje, me chamam de senhora, de tia, me tratam como alguém que não tem mais sensualidade, que não desperta mais desejo. É muito difícil aceitar que os homens me tratem como uma velha, e não como mulher. Na verdade, não acho nem que me tratam como velha, simplesmente me ignoram, me tornei invisível".

No entanto, alguns indivíduos nunca permitem que os outros os tornem invisíveis. Muitos artistas, como Ney Matogrosso, nunca serão "um velho", mas homens e mulheres que envelhecem dando continuidade aos seus projetos existenciais. Continuam cantando, dançando, criando, buscando a felicidade e o prazer, transgredindo as normas e os tabus existentes. Mais livres e visíveis do que nunca. Quando penso na "bela velhice", penso na geração que foi jovem nos anos 60 e que está começando a envelhecer. Geração que reinventou a sexualidade, o corpo, as novas formas de conjugalidade, casamento e família. Geração que teve como centro a busca do prazer e da liberdade sexual, a recusa de qualquer forma de controle e de autoridade e a defesa da igualdade entre homens e mulheres. Geração que não aceitará o imperativo: "Seja um velho!" ou qualquer outro tipo de rótulo que sempre rejeitou e contestou. Quando penso em uma forma positiva de envelhecer, penso em Ney Matogrosso e em outros homens e mulheres que nunca foram e nunca serão controlados pelas normas sociais. São estes indivíduos, que se reinventam permanentemente, que podem nos ensinar sobre a "bela velhice". Como diz a música de Arnaldo Antunes, que dá título ao show de Ney Matogrosso, "Que preto, que branco, que índio o quê? Somos o que somos: inclassificáveis". Eu diria ainda: "Que jovem, que adulto, que velho o quê? Somos o que somos: inclassificáveis".

Mirian Goldembeerg é autora de Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade (Ed. Record).
http://ee.jb.com.br/reader/zomm.asp?pg=jornaldobrasil_117650/104757 18/01/2009

Histórias que a Bíblia conta

Rubem Alves


O povo de Israel, depois de amargar quarenta anos andando por um deserto seco, aproximava-se da Terra Prometida, essa mesma que hoje é motivo de matanças que não têm fim. Acabavam de atravessar o rio Jordão... Havia gente que nunca vira um rio, água correndo sem parar...

O exército israelense avançava expulsando os moradores do local sem dó nem piedade e se apossando de suas terras. Não usavam foguetes e aviões, como agora, mas o resultado era o mesmo.

Terras maravilhosas, verdejantes que, segundo o escritor sagrado, manavam leite, mel e cachos de uvas que requeriam dois homens para serem carregados.

Tinham agora um povinho insignificante pela frente que poderia ser derrotado com meio exército. Josué comandava tranquilo. Mas as coisas não aconteceram como esperadas e o povinho fraquinho lhes deu um surra humilhante.

Josué, coronel comandante, foi se queixar diretamente a Iaweh, general supremo.

E Iaweh lhe disse: (naqueles tempos Deus falava diretamente com os homens. Não sei porque isso não acontece mais. Porque, se acontecesse, não haveria dúvidas sobre qual é a vontade de Deus, tal como aconteceu nesse edificante episódio das Escrituras inspiradas, relatado no capítulo 7 do livro de Josué. Quem se comunica diretamente com Deus não tem dúvidas, só certezas).

Iaweh lhe disse: “Vocês foram derrotados porque houve um homem que fez coisa que eu proibira. Enquanto vocês não se purificarem desse homem vocês serão derrotados.”

Josué, sabendo que com Deus não se brinca, acordou de madrugada, reuniu as doze tribos e delas escolheu a tribo de Judá, e da tribo de Judá a clã de Zerah, e da clã de Zerah a família de Zabdi, e da família de Zabdi um homem chamado Acã, que confessou: ele fizera a coisa proibida. Na batalha se apossara de uma capa de veludo, de algumas moedas de prata e uma barra de ouro.


Josué, então, tomou Acã, “a prata, a capa e a barra de ouro, junto com seus filhos e filhas, seus bois, suas mulas, suas ovelhas, sua tenda e tudo quando tinha, e ele e todo o povo de Israel os levaram ao vale de Acor. Josué então lhe disse: “Tu nos trouxeste uma desgraça. Agora o Senhor passará a desgraça para ti...”


Então os Israelitas seus irmãos os apedrejaram até a morte. E as pedras formaram uma pilha que lá está até o dia de hoje. “Assim o Senhor apagou o furor da sua ira.” (Josué 7. 25-26).


Palavra do Senhor. Graças a Deus.


Diante de um inimigo comum os homens se unem. Derrotado o inimigo comum os vitoriosos, que dantes estavam unidos contra aquele inimigo comum, se tornam inimigos uns dos outros: a guerra contra um inimigo externo se transforma em guerra entre os irmãos internos.


Pois é um caso desses que está relatado no livro de Juizes, das Escrituras inspiradas, cap. 12 . Por uma questão qualquer que não vem ao caso os guerreiros da tribo de Gileade brigaram com os guerreiros da tribo de Efraim, todos eles irmãos do povo de Israel.


Derrotados, os efraimitas ficaram com medo de que os guerreiros gileaditas vitoriosos, para se vingar, invadissem seu território e matassem todos os homens. Pensaram então: “O jeito é a gente, durante a noite, passar para os limites da tribo de Gileade. Assim passaremos por gileaditas e eles não nos matarão.


E assim fizeram. Foram para a fronteira onde havia uma guarda.

“Alto lá, identifiquem-se!”, berravam os guardas gileaditas.

Respondiam os efraimitas disfarçados:“Somos gileaditas. Deixem-nos passar...”

Acontecia, entretanto, que os efraimitas tinham um sotaque que os identificava. Sua língua não conseguia pronunciar o som “sh”. Aí o guarda ordenava:

“Fale ‘shiboleth’”.

O efraimita dizia: “Siboleth...”


Diz o texto inspirado que, naquela ocasião, quarenta e dois mil efraimitas foram decapitados pelos seus irmãos gileaditas, seu sangue misturando-se com as águas do rio Jordão... (Juizes 12:5-6).


Palavra do Senhor, graças a Deus...

Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1616021&area=2220&authent=024730113762120265303337401220

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Ele está indo embora. De verdade

Gail Collins
THE NEW YORK TIMES
Na noite de ontem, o presidente George W. Bush deu adeus ao povo americano. A excitação aumenta. Ele tem dito adeus há tanto tempo que lembra uma daquelas bandas de rock que estão fazendo aquela turnê de despedida desde 1982. Tivemos entrevistas a respeito da saída aos montes e uma coletiva de imprensa na segunda-feira na qual ele relembrou sua chegada em 2000. "Parece que foi ontem", disse.

Acho que falo por toda a nação quando digo que a maneira pela qual a esta transição está se arrastando, mesmo ontem não parece ontem. E a última vez em que George Bush não teve uma contribuição em nossas vidas parece ter sido em 1066.

Até agora, as aparições de Bush para dizer adeus não atraíram muitas críticas entusiasmadas (O mais impressionante talvez, tenha sido uma crítica da última coletiva de imprensa feita por Ted Anthony da Associated Press: "Tudo pareceu estranhamente íntimo e, ocasionalmente, desconfortável, como ver um encanador com a calça jeans caindo".)

Uma pesquisa do instituto Gallop descobriu que seu índice de aprovação havia subido ligeiramente desde que eles começaram, mas isso se deu provavelmente devido ao entusiasmo pela sua saída de cena.
– Às vezes vocês me submal-estimavam – disse Bush.

Esta não é a primeira vez que nosso presidente se preocupou com submal-estima, de maneira que é justo considerar isto não como um lapso verbal, mas como algo que o presidente dos EUA acha que é uma palavra. A retórica é a única parte da administração de que vamos sentir falta. Estamos para entrar em um mundo no qual nosso comandante supremo fala usando sentenças completas, e não sei o que vamos fazer para nos divertir em dias de tédio.

Durante as últimas semanas, soubemos que ele pensa que a resposta ao Katrina funcionou bem exceto por uma foto montada, e que ele considera o fato de termos invadido um outro país baseados em informações falsas uma "decepção". Desde que Bush também se referiu às decepções de seu período na Casa Branca como "um irritador menor" talvez seja melhor pensar no fracasso das armas de destruição em massa com uma espinha na pele rosada da administração.

O homem que nos deu a Operation Iraqi Freedom (Operação Liberdade no Iraque), a Freedom Agenda (Agenda da Liberdade), as USA Freedom Corps (Unidades para a Liberdade dos EUA) e a New Freedom Comision on Mental Health (Nova Comissão de Liberdade para a Saúde Mental) degradou um dos mais profundos conceitos no vocabulário nacional fazendo que fique difícil ouvi-lo sendo usado sem lembrar a frase de Janis Joplin sobre como a liberdade é apenas uma outra palavra para nada mais a perder.

Há muitas maneiras de abordar esse negócio de discurso de despedida. Ronald Reagan começou com amigos vencedores, então desviou para uma advertência contra o governo inchado e um pedido para que criassem uma nova geração de patriotas que soubessem "quem Jimmy Doolittle foi". O de Bill Clinton soou muito como uma oferta para um terceiro mandato.

Mas, o que Bush poderia possivelmente ter dito ao país que poderia mudar a opinião de qualquer pessoa sobre os últimos oito anos? "Meus amigos americanos, antes de eu deixá-los na próxima semana quero que saibam que...

A) Embora as coisas tenham dado muito errado, me conforto ao perceber que Dick Cheney esteve realmente no controle desde o começo. Honestamente, eu nunca conheci metade das pessoas no Gabinete.

B) Laura e eu percebemos que no todo, a aposentadoria em uma mansão no Texas é totalmente inapropriada. Então saímos para começar uma nova vida como missionários em uma pequena estação de resgate no deserto de Gobi...

C) Surpresa! Tudo isso foi na verdade um sonho ruim. Na verdade ainda é novembro de 2000 e amanhã Al Gore vai ser eleito presidente.

Do contrário, a melhor abordagem possível para um discurso de adeus poderia ser Bush seguir seu pai e não fazer nenhum.
http://ee.jb.com.br/reader/clipatexto.asp?pg=jornaldobrasil_117648/104547 16/01/2009

Aprender a ser adulto

ANNA VERONICA MAUTNER
[...] A RELAÇÃO ENTRE
TAREFA
E
TEMPO LIVRE
VEM SE
MODIFICANDO

Sinto falta de uma agência encarregada de nos treinar no uso do tempo livre e do lazer. As escolas nos ensinam do "bê-a-bá" a filosofia e cálculos. Com a família, adquirimos os comportamentos apropriados ao convívio interpessoal e intergrupal. Cabe às instituições religiosas cuidar das emoções. Cabe ao Estado supervisionar, validar, julgar e aplicar sanções.
Parece simples, mas as transformações que ocorrem em alta velocidade vêm criando problemas de difícil solução.Desde a Antiguidade, os calendários anuais contam com eventos ritualísticos e esperados. Os cantos e as danças que acompanham as festas sacras ou profanas são aprendidos espontaneamente por observação, imitação e treino. No nosso mundo, temos festas sazonais como Natal, Páscoa e Carnaval, e agências especializadas se encarregam de fazê-las acontecer.
No mundo moderno, a grande intervenção no uso do tempo livre é o Estado legislando sobre o número de horas dedicadas ao trabalho produtivo.
No último século, essas horas vêm diminuindo, e a relação entre tarefa e tempo livre vem se modificando. Mas quem é encarregado de dar forma ao uso do tempo livre?
Há alguns sinais no horizonte, mas não sei decifrá-los. Os folguedos infantis sempre foram a forma descompromissada de adestramento para as tarefas do adulto. Com as novas leis de descanso semanal, férias anuais, com a longevidade, a administração do tempo livre se torna competência de todas as instituições que organizam o comportamento em sociedade.
É no lazer, em sistema de livre escolha, que elaboramos as nossas experiências pessoais e nos tornamos seres pensantes. Nós somos seres vivos que não só pensam mas também se pensam.Veraneando numa pousada de praia, observei que nem as crianças nem os pais sabem o que fazer com o tempo e o espaço à disposição. Tanto que existe uma profissão, a de monitor, à qual cabe inventar jogos para entretê-las.
Para ensinar a brincar, o adulto deve ter uma fantasia a respeito do que acha que a criança deve vir a ser. Porém, sem saber o que esperar, que raciocínios serão necessários e que habilidades usaremos para escolher o brinquedo? Uma certeza temos sobre o mundo do futuro -ele é o da eletrônica; nele se viverá amanhã e dele a maioria dos idosos será excluída por falta de habilidade.
A quem atribuir a responsabilidade sobre as estripulias dos jovens, cujo tempo livre não conseguem usufruir sem transgredir? Quem responsabilizar pela depressão dos idosos, que se sentem sem futuro e, como tal, não sabem se pensar?A questão permanece: qual a agência encarregada de nos ensinar a ser adultos? Falta essa agência de individuação, que talvez passe à margem da psicologia. Tornar-se "si próprio" se origina no pensar sobre si.
O lazer no tempo livre é o caminho real da individuação. E a família, a grande facilitadora.

ANNA VERONICA MAUTNER , psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora) amautner@uol.com.br http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1501200916.htm

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O judaísmo de Jesus



‘O amor aos inimigos
não é uma idéia original
de Jesus’.
Entrevista com Mario Saban
Nascido em Buenos Aires em 1966, descendente dos judeus espanhóis expulsos em 1492, Mario Saban é teólogo, advogado e secretário da Entesa Judeocristiana de Cataluña. Autor de numerosos livros, em sua última e talvez mais polêmica obra, "El judaísmo de Jesús", assegura que o Nazareno “não veio fundar religião alguma”, que era um “fariseu” e que não há nada em sua ética que seja original. Nem sequer o “amor aos inimigos”.
A reportagem é de José Manuel Vidal, publicada no sítio Religión Digital, 23-12-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por que escolheu um tema e um título tão significativo para o seu livro?
Há muitos anos, comecei a estudar as origens judaicas do cristianismo, mas a verdade é que nunca me atrevi com a figura de Jesus. Tinha uma espécie de temor reverencial. Obviamente, lia profundamente o Novo Testamento, mas não me interessava ver o desenvolvimento do cristianismo posterior à desaparição de Jesus. Aí surge minha primeira obra de 1994, "Las raíces judías del cristianismo", em que faço uma análise a partir do desaparecimento de Jesus até o século II. Depois, fiz outra parte da investigação sobre o judaísmo de Paulo e finalmente outra obra sobre o sábado no cristianismo. Por que o cristianismo mudou o sabbat, o dia do descanso sabático, pelo domingo?

E restava o judaísmo de Jesus.
Exatamente. E há três ou quatro anos, tomei o atrevimento de abordar, por fim, Jesus. Sabia que seria difícil, pois é um personagem muito inclassificável do ponto de vista intelectual. Para conseguir, trabalhei o Novo Testamento de duas formas: literalmente, lendo de forma direta, e equilibrando as ideias por meio dos autores e das diversas teologias. Mas não quis entrar no terreno cristológico, com o problema do Messias, pois, sendo judeu, adverti que o que justamente divide os cristãos e os judeus é o problema de se Jesus é ou foi o Messias, se é ou não Deus. Pulei essa problemática para me centrar na ética, se a ética que Jesus postulou era uma originalidade ou se era a mesma que os judeus sustentavam antigamente.

Porque, o que fica claro desde o começo, é que Jesus foi um judeu. Essencialmente, essa era a sua tese, junto com a ética de Jesus? São essas as ideias fundamentais da sua obra?
Sim. Jesus nasceu e viveu como judeu, portanto, alguém poderia erroneamente pensar que ele reformou a religião judaica. Mas, justamente, o que eu defendo em minha obra é que Jesus não veio fundar nenhuma religião, nem pensou que ia originar o cristianismo. Independentemente se tinha ou não autoconsciência messiânica. O Antigo Testamento e a Torá, praticamente, coincidem com todos os ensinamentos de Jesus. A originalidade é que os ensinamentos de 400 rabinos juntos se encontram todos em Jesus. Tinha um conhecimento sensacional e uma memória prodigiosa de todas as escolas judaicas da época. E, de cada uma, tomava o melhor. Por isso, ele se torna inclassificável.

Muitas vezes, dizemos, a partir da vertente teológica católica, que, em Jesus, há especificidades, originalidades concretas. Por exemplo, o amor aos inimigos. Isso era algo habitual na ética comum daquela época?
Sim. O amor aos inimigos está em todos os textos da tradição judaica. Não é uma postura original. Em Jesus, podemos encontrar ensinamentos que chegam a radicalizar a ética da Torá. Sua ética é mais utópica, exige mais. O sinédrio permitia que qualquer rabino radicalizasse a Torá, não rebaixá-la, mesmo que alguns fizessem isso. Pelo qual, os rabinos puderam corrigir, para cima ou para baixo, os textos da Torá.

Jesus, sempre para cima?
Não, às vezes também flexibilizando. A maioria sim, para cima, radicalmente.

No sabbat, por exemplo, ele rebaixa, não é isso?
Sim, e isso permite ver com quais escolas farisaicas Jesus estava conectado. Por exemplo, a escola de Hillel pedia flexibilidade nas instituições, nas cerimônias, na ética... Quando Jesus diz “o homem não foi feito para o sábado, mas o sábado para o homem”, está repetindo as palavras de Hillel no Talmud. Jesus também utilizou um texto de um rabino que viveu 100 anos antes.
Ou seja, não há nada do que conhecemos de Jesus que não tenha sido dito antes pelos rabinos judeus?
Ou os rabinos judeus ou a tradição escrita, e, portanto, Jesus não só foi judeu de nascimento, mas também todas as suas fontes eram puramente judaicas.

Por exemplo?
Por exemplo, o tema do divórcio, Jesus aborda do ponto de vista de outra das escolas farisaicas, a de Shamai, muito dura. E admite, então, o divórcio, só em caso de adultério. Por que a Igreja proíbe, se Jesus permite pelo adultério? Em troca, o judaísmo não herdou a postura de Jesus e da Shamai, mas sim a de Hillel: flexibilidade total. E, de fato, no mundo judeu, o divórcio está instituído religiosamente, e uma pessoa divorciada pode voltar a se casar na sinagoga. Muita católicos não sabem disso, mas é assim desde a época de Moisés.

Mas Jesus diz “Moisés disse, a Torá disse, Eu lhes digo...”. Afirmações que, na teologia católica, são apresentadas como uma superação, como um passo além da ética...
Bom, eu demonstro em uma obra sobre a tradição oral hebraica que há muitos rabinos que dizem “Eu vos digo”. E ninguém mudou, ninguém criou uma nova religião por isso. Todas as desculpas de originalidade que o cristianismo necessitou para a independência da religião mãe, que era a judaica, são analisadas no século II, mas até então os seguidores de Cristo não eram conscientes de estar formando uma nova religião. Seguiam um rabino radical, excelente, que inclusive dá luz à interpretação da Torá dos judeus atuais... mas isso não quer dizer que se formasse uma “lei de Cristo”, independentemente na Lei de Moisés. Só no século II se propuseram: como fazemos para nos independizarmos de Jerusalém?

Quem “inventa” o cristianismo é Paulo?
Não o inventa totalmente, mas permite criar um movimento diferente do mundo judeu. Isto é, não é a sua própria teologia, mas sim as consequências da sua teologia as que dão lugar à desvinculação dos gentios seguidores de Jesus de Jerusalém.

Contrariamente ao que Pedro queria.
Sim, e também seguramente contra do que Jesus queria. Jesus criticou os fariseus que vão buscar um prosélito por mar e terra, e Paulo, que era fariseu, filho de fariseus, fez justamente isso que Jesus criticou: buscar prosélitos por mar e terra.

Que diferenças existem entre a ética de Jesus e a de Paulo?
Acredito que a ética de Jesus é a mesma que a de Paulo. Só que Paulo incorpora diferenças culturais do mundo helênico. Paulo falava grego, estudou, se poderia dizer que tinha ido à universidade... Seu auditório era a elite judaica do Império Romano, não os pobres galileus que andavam por aí. Jesus ia ao povo. Por isso, custa mais a Paulo convencer o auditório de Atenas sobre a ideia da ressurreição. Quando tenta, do Areópago, convencer os gregos disso, tomam-lhe por louco. Quem são, então, os primeiros que entendem? Os judeus que viviam na Grécia. Por isso, são os que dizem “Jesus ressuscitou!”. Porque já existia, no marco da teologia judaica, a ideia da ressurreição. Portanto, se esses judeus puderam convencer os pagãos, foi transladando essa ideia.

Em seu livro, você aborda o tema de Jesus como um simples rabino, não como o Filho de Deus e de Maria, a Virgem.
Eu só trato do tema ético, porque, em questões de fé, cada tem a sua verdade. Não existe uma verdade absoluta científica sobre se ele foi o Messias ou não. Os teólogos alemães estão discutindo se ele teve autoconsciência ou não... Mas meu livro, ao chegar a esse limite, para. Como judeu, eu posso aproximar-me só a que Jesus foi um rabino e um profeta. Também entro nas parábolas do Reino, que são quase messianologia obrigatória. Isto é, como um judeu do século I entendia o que é o Reino de Deus.
E o tema é tão complexo, que nenhum cristão comum, mais ainda, nem da hierarquia, nem tampouco do âmbito da teologia pode decifrar conceitualmente o que é o Reino. Diriam que é um reino espiritual, para se lavarem as mãos do problema sobre se os primeiros seguidores viram Jesus como um Messias nacional. Mas, nesse caso, se deveria formular o grupo de Jesus com tendência políticas. De fato, a única pergunta que fazem a Jesus depois de ressuscitado, nos Atos dos Apóstolos, é: “Quando restaurarás o reino de Israel?”. Isto é, seus primeiros seguidores não lhe dizem “Quando vais criar um mundo de paz e amor?”. E aos ouvidos de Roma, “Quando restaurarás o reino de Israel?” é uma rebelião político-militar contra o império.

Um Messias revolucionário.
Para o mundo judeu do século I, Messias é revolução. Daí se pode entender por que o matam na cruz. Em troca, para Paulo, ele se sacrifica pelos pecados do mundo. Mas isso é uma concepção pós-pascal, pós-Jesus. Por isso, ninguém define o Reino do ponto de vista material, só do espiritual. Temos um problema na teologia judaica como na cristã que é saber a que Jesus se referia ao falar do Reino.

Quem matou Jesus?
Os romanos, com a aliança da elite judaico-saducéia do templo de Jerusalém. Com os colaboradores de Roma. Judeus corruptos.

Sei que no seu livro você não entra em questões históricas, mas não resisto a lhe perguntar. Jesus realmente existiu? Há provas de sua existência real?
Eu te diria que sim. Estou convencido 100%, depois de ter estudado tanto Jesus. Porque, se sua ética já preexistia, é óbvio que Jesus conhecia as tradições anteriores. Se se chamava assim ou de outra maneira, é secundário. Mas o que sim é certo é que seus ensinamentos são claramente de um rabino do século I. E é por aí onde se pode ver sua historicidade, a partir de suas discussões, próprias de um rabino que conhecia a teologia da época. Dizer que Jesus não existiu é ridículo. Um rabino como ele teve que existir, chamasse-se como se chamasse. Porque todos os seus ensinamentos estão relacionados com a época.

Historiograficamente não existe nada?
Se pensamos a historicidade de Jesus, entramos em um problema maior: o da historicidade da Bíblia inteira. Que provas temos de que Moisés, Davi ou Paulo existiram? Nenhuma. Precisamos de fontes paralelas para saber que a Bíblia é real? Nesse caso, temos os rolos do Mar Morto, que nos dão uma perspectiva de uma historicidade manifesta de certos personagens.

Está provado que Jesus esteve conectado com o mundo essênio?
Estou convencido de que ele teve que ter contato. Por seus ensinamentos, que se conectam diretamente com os essênios. Por exemplo, no encontro com o jovem rico que quer ser perfeito, ao qual diz que entregue todos seus bens aos pobres. Isso era o que os essênios pediam. Os fariseus só exigiam o dízimo, que os judeus seguem exigindo hoje, que passou para a Igreja e também para o mundo protestante. Além disso, os essênios era apocalípticos iminentes, diziam “a redenção vem”. E Jesus disse que o Reino estava cada vez mais próximo. Os fariseus não tinham essa idéia de que o Reino estava tão presente.
E a terceira prova que o conecta com os essênios é João Batista, seu próprio primo. E ele, indubitavelmente, era essênio, pois existe um paralelismo entre os alimentos que o Novo Testamento diz que João Batista comia e os alimentos que os rolos do Mar Morto dizem que os essênios comiam.
Portanto, há conexão entre Jesus e os movimentos essênios. Ainda que ele não os siga, por exemplo, na postura de se colocar em uma caverna para rezar a Deus, mas, pelo contrário, ele sai ao campo político para pregar. E não no Mar Morto, mas a Galiléia. Por isso, a área de ação de João e dos essênios é diferente da de Jesus.

Como você definiria Jesus, então?
Se tivesse que defini-lo, diria que Jesus é um fariseu, pois o chamam de “rabi”, como chamavam os mestres fariseus, e além disso acredita na ressurreição.

E por que discute tanto com os fariseus?
Porque, em geral, se discute sempre com a família, com os mais próximos. Entre os fariseus, o grande debate era como interpretar melhor a Torá. Queriam chegar ao núcleo e que, quanto mais discutissem, mais se aproximariam. Em troca, a cristologia do século II desmonta toda a história para o debate do livre pensamento judeu do século I, e diz-se que os fariseus foram os inimigos de Jesus, que praticamente o levaram à morte. Mas isso não tem sentido, porque os fariseus não tinham podem em Roma nem no sinédrio. Está claro que Jesus estava fundando uma escola farisaica diferente das demais, mas muitos fariseus o apoiavam.

Como você vê, neste momento, a relação do Vaticano, Bento XVI, com o rabino Neusner? O que você opina sobre a eventual beatificação de Pio XII?
Em primeiro lugar, o eixo central é João XXIII. Com ele se produz na Igreja uma mudança radical com respeito ao tema judeu. Mesmo que o que ele tenha aprovado no Concílio Vaticano II ainda não tenha chegado à Espanha. Pelo contrário, em Roma há sim um espírito muito mais aberto ao diálogo, mais liberal. João Paulo II também deu, sem dúvida, muitíssima força ao diálogo.

Sua visita a Israel, sua oração no Muro...
E o reconhecimento do holocausto judeu na Europa. Sim, João Paulo II avançou muito nesse sentido, mesmo que eu entenda que, para muitos católicos, fosse um Papa conservador internamente. Mas, no diálogo inter-religioso, ele avançou muitíssimo. Como você diz, inclusive pediu perdão no Muro das Lamentações pelos erros da Igreja: Inquisição, Cruzadas... Isso foi uma aproximação muito grande.
Do lado judeu, a aproximação se complica, dado que não temos hierarquias. Mas há, sim, cada vez mais autores judeus, como eu, que se aproximam da figura de Jesus e do cristianismo primitivo. E essa aproximação intelectual é também abertura ao diálogo.

Como um sefardita [1] se sente na Espanha? A Espanha é antissemita?
Existem problemas, ressentimentos, muitos séculos de incompreensão. Isso não acaba de um dia para o outro. A imagem na Espanha do judeu usurário, do judeu que tem dois chifres e um rabo, que só continua na Espanha, por outro lado. E essa imagem, que não existe, por exemplo, na Itália, deve ser combatida. É uma especificidade antijudaica da Espanha, que, muitas vezes, é feita por inércia, sem intenção.

É um palavrão, um lugar comum?
Sim, por exemplo, muitas pessoas dizem “judiada” em seu vocabulário. E certamente não o fazem de propósito, porque há séculos por trás desse clichê. A isso se acrescenta a falta de existência física dos judeus na Espanha, pois, após a expulsão de 1492 e até o século XX, os judeus não voltaram a se mostrar livremente na Espanha. A França, a Alemanha, até a própria Roma, com seu papado, teve judeus durante toda a sua história. Não foi assim na Espanha.
A beatificação de Pio XII pode ser um obstáculo à aproximação?
Eu acho que sim, porque não fica clara qual foi a sua posição.

Você interpreta que, pelo menos, foi o Papa que guardou silêncio?
A problemática é se ele poderia ter feito mais ou não. Se os nazistas o tivessem matado. Se ele não falou para sobreviver como instituição, ou sim, como diz a Igreja, fez muito, mas por debaixo da mesa.

Em Roma, dizem que não fez mais porque podia ter represálias mais fortes por parte do Terceiro Reich contra os judeus.
Mais do que aconteceu já era praticamente imaginável. Além disso, não me é clara a posição que ele tinha dentro da Igreja. A Igreja é uma instituição e, muitas vezes, não se sabe muito bem até onde chega a autonomia do Papa. E, na Segunda Guerra Mundial, ainda há uma Igreja antissemita dentro da Europa. Deve-se ver Pio XII a partir da Igreja dos anos 30, onde permaneciam restos do antijudaísmo medieval, onde ainda não existia diálogo.

Após analisar em profundidade Jesus como um rabino, a sua figura lhe atrai?
Sim, Yoshua me atrai muito. Como judeu do século I, eu o teria seguido. A um cristianismo do século II, paganizado, eu não teria entrado, pois meu judaísmo o impediria, mas, como judeu do século I, fica claro que esse nível de oratória, de entrar na ética de forma direta, teria me seduzido. Claro que sim.
Notas:
1. Sefarditas (em hebraico, sefard; no plural, sefardim) é o termo usado para referir aos descendentes de judeus originários de Portugal, Espanha, etc. A palavra tem origem na denominação hebraica para designar a Península Ibérica (Sefarad). Os sefarditas fugiram das perseguições que lhes foram movidas na Península Ibérica na inquisição espanhola (1478 -1834), onde eram perseguidos pela Igreja Católica, dirigindo-se a vários outros territórios. Uma grande parte fugiu para o norte de África, onde viveram durante séculos. Milhares se refugiaram no Novo Mundo, principalmente Brasil e México. Já os judeus norte-africanos e dos países árabes são chamados mizrachim (de Mizrach, o Oriente), ou seja, orientais.
(Entrevista feita pelo site IHU/UNISINOS, 13/01/2009)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Jesus de Gaza

Aurélio Wander Bastos*

Os primogênitos de Gaza
voltarão sempre para
defender aquilo que
é seu espaço
A história nem sempre se repete, mas os fatos históricos podem entre si ter sensíveis semelhanças, guardadas as diferenças de espaço e tempo. Todavia, muitas vezes, o espaço é o mesmo, embora os tempos mudem, principalmente na região em que viveu Jesus, no passado recente conhecida como Palestina, ao tempo do Império Romano, também, como reinos de Israel e Judéia, e, nos nossos dias, por Israel, Cisjordânia e Gaza, numa dimensão histórica mais extensiva, Egito. No Egito viveram os cristãos coptas, à margem do Rio Nilo, que guardavam profundas convicções místicas e até recentemente conviveram com sucessivas crenças que influenciaram o catolicismo.
Na verdade, deveu-se aos cristãos coptas a sobrevivência de muitas das crenças que influenciaram o Novo Testamento, dentre elas a fuga de José, Maria e Jesus para o Egito, na busca de proteção da abençoada criança contra as ordens de Herodes. Por esta razão, os egípcios (não apenas coptas) apreciam o Evangelho de Mateus, que descreve a ordem de Herodes, governador da Palestina, que representava o Império Romano nos seus primeiros anos de consolidação, com os césares Otávio Augusto e Tibério. O censo na verdade era uma dissimulada forma de identificar os primogênitos com a reconhecível intenção de eliminar o que se pressupunha um menino salvador.

José, presumindo que o objetivo do censo seria infligir o caos, desorientando as famílias para provocar a morte do recém-nascido Jesus, levou o Messias com Maria, sua mãe, em modesto burrico, no desespero da preocupação, intimidados por Herodes, que comandava os soldados a serviço do Império Romano, levando-o para o Egito, exatamente através de Gaza, por suas trilhas pedregosas, suas cavernas soturnas e seus caminhos escuros e obscuros. Em nossos tempos, as crianças morrem nas ruas ou escolas de Gaza ou marcham em fuga levados pelos pais, desesperadamente, pelas mesmas trilhas e caminhos, na contramão dos túneis construídos no deserto para o transporte de armas, repetindo o fenômeno em tempos históricos diferentes, buscando o delta do Nilo, de tantas águas, onde Jesus sobreviveu à fúria do Império.

Embora os textos mais conhecidos não especifiquem o caminho seguido por José, Maria e Jesus, vários livros coptas belíssimos foram publicados ilustrando esta difícil rota da luta pela sobrevivência, nas noite do deserto do Sinai-Gaza, para alcançar o Vale do Nilo, até Alexandria. Esta jornada, de grande inspiração humana, transformou-se, no tempo histórico, em infernal campo de guerra, território místico das crianças da nova Palestina do islã, que não conseguem atravessar os túneis do Sinai e sucumbem nos monturos dos foguetes.

Jesus sobreviveu e retornou seis meses depois a Belém, da mesma forma que os primogênitos de Gaza voltarão sempre para buscar construir, não a Igreja cristã, que evoluiu do ventre do povo de Israel, mas para fazer a guerra santa na defesa do espaço que serviu para o filho do povo judaico buscar o abrigo que o protegeu contra a agressividade do Império Romano. Estas luzes estelares do rastro dos mísseis, que iluminam a morte das crianças, não é uma ironia da História, mas sobreviverá na história das ironias.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Quem determina o fato histórico?

Jaime Pinsky*
Embora não se possa confundir pesquisa com docência, é muito bom quando o pesquisador tenha preocupações didáticos e o professor se aprofunde na investigação. Ocorre, então, retroalimentaçao salutar entre a sistematização e o aprofundamento — uma, fundamental nas aulas; o outro, imprescindível na pesquisa. Ambos úteis nos dois casos.
Há perfis que não se amoldam a uma ou outra das tarefas: o investigador competente porém “travado” ou o mestre brilhante mas incapaz de aventuras de espírito mais profundas, por exemplo. Há, contudo, certo esnobismo por parte de uma série de pesquisadores que acham que sua fala deve, necessariamente, ser inacessível ao comum dos mortais.
Convencer esses espécimes a praticar a modéstia da clareza é tarefa inglória. Pior ainda são os medíocres, por sinal a imensa maioria dos acadêmicos, a descer dos saltos e escrever, ou falar de modo a serem compreendidos. Nesse caso há um medo compreensível: se seu discurso for entendido, a pobreza dele ficará mais à mostra. Ele é o especialista em relatórios, o campeão da burocracia. Não é intelectual, senão o burocrata do conhecimento.
Há poucos anos um grupo de historiadores de talento, preocupados com o divórcio então (e ainda) existente entre a universidade e o ensino de história escreveu um pequeno livro que já teve numerosas edições e tem influenciado gerações de professores e estudantes. O ensino de História e a criação do fato (o nome do livro) não questionava apenas o modo pelo qual alguns fatos são considerados “históricos” e outros não, ou quem determina a historicidade dos fatos, mas ia fundo na discussão sobre que história interessa ensinar num país como o nosso.
Vinte anos após a primeira edição do livro, os autores decidiram atualizar formalmente os textos, mantendo, contudo, o conteúdo. Sua atualidade (mais triste do que animadora em alguns casos) poderá nos ajudar a compreender melhor a história. Não resisti e extraí da obra frases reveladoras que transcrevo abaixo para (espero) o prazer intelectual dos meus supostos leitores, aos quais, evidentemente, desejo um ano de paz e alegria.
“Da maneira como a maioria dos manuais insiste em nos apresentar a História, esta parece ser, efetivamente, a ‘a ciência do passado’.”
“A transmissão da ideia de um passado separado de viver social articula-se com o sentido de um tempo imutável, dogmático.”
“Cada nação conta uma história diferente. O que é guerra de libertação para uma é de opressão para outra.”
“Outro valor que aparece em nossos livros de história é a ideia de um Brasil sem preconceito racial, onde cada um colabora com aquilo que tem para a felicidade geral. O negro com a pimenta, o carnaval e o futebol; o imigrante com sua tenacidade; o índio com sua valentia. Negando o preconceito, guarda-se o fantasma no armário ao invés de lutar contra ele.”
“Esmagado duplamente, de um lado pelo herói, de outro pelo ‘processo’ do qual era vítima passiva, o homem começa ser descoberto como agente real da história, como aquele que atua para que ela possa ocorrer.”
“Fazer história pode começar pelo que seria a inversão de um quebra-cabeças: o acontecimento pronto e acabado, que sempre compõe uma imagem que ambiciona abranger a totalidade, deve ser decomposto para denunciar aos espectadores o arbítrio de sua construção, como se alguém mostrasse à plateia os fios invisíveis que sustentam os truques do ilusionista – tão sobrenatural quanto qualquer um de nós.”
“A tarefa da escola pública torna-se mais complexa ao se ver obrigada a introduzir, para alunos provenientes de diferentes setores sociais, formas de socialização comuns a todos.”
“Repensar na história como disciplina escolar requer dos professores um momento de reflexão que envolve considerações que vão além dos conteúdos, metodologias de ensino e recursos didáticos. Trata-se de refletir sobre o sentido político e social da disciplina histórica.”
“A heroização do povo pode ser consoladora, mas não ajuda a compreender a realidade e, portanto, a transformá-la num sentido favorável às classes populares. Ao contrário, pode ser tão mitificadora quanto a história tradicional, que enaltecia os ‘grandes homens’ das camadas dirigentes.”
*Jaime Pinsky. Historiador, professor titular da Unicamp, é diretor da Editora Contexto.
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 11/01/2009

Decálogo do perfeiro contista

Horacio Quiroga

I - Crê em um mestre - Poe, Maupassant, Kipling, Tchecov - como em Deus.

II - Crê que tua arte é um cume inacessível. Não sonhes alcançá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem ao menos perceber.

III - Resiste o quando puderes à imitação, mas imite se a demanda for demasiado forte. Mais que nenhuma outra coisa, o desenvolvimento da personalidade requer muita paciência.

IV - Tem fé cega não em tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como à tua namorada, de todo o coração.

V - Não comeces a escrever sem saber desde a primeira linha aonde queres chegar. Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.

VI - Se quiseres expressar com exatidão esta circunstância: "Desde o rio soprava o vento frio", não há na língua humana mais palavras que as apontadas para expressá-la. Uma vez dono de tuas palavras, não te preocupes em observar se apresentam consonância ou dissonância entre si.

VII - Não adjetives sem necessidade. Inúteis serão quantos apêndices coloridos aderires a um substantivo fraco. Se encontrares o perfeito, somente ele terá uma cor incomparável. Mas é preciso encontrá-lo.

VIII - Pega teus personagens pela mão e conduza-os firmemente até o fim, sem ver nada além do caminho que traçastes para eles. Não te distraias vendo o que a eles não importa ver. Não abuses do leitor. Um conto é um romance do qual se retirou as aparas. Tenha isso como uma verdade absoluta, ainda que não o seja.

IX - Não escrevas sob domínio da emoção. Deixe-a morrer e evoque-a em seguida. Se fores então capaz de revivê-la tal qual a sentiu, terás alcançado na arte a metade do caminho.

X - Não penses em teus amigos ao escrever, nem na impressão que causará tua história. Escreva como se teu relato não interessasse a mais ninguém senão ao pequeno mundo de teus personagens, dos quais poderias ter sido um. Não há outro modo de dar vida ao conto.

posted by Luiz Fernando Riesemberg at 5:13 PM

A era do triunfo da imagem

Por Olga de Mello,
para o Valor, de São Paulo
09/01/2009


Apresentação ou representação? Desde a consolidação da sociedade do espetáculo nos últimos anos, essa pergunta chama a atenção de intelectuais no mundo todo. No Brasil, com a estréia de mais uma temporada da febre "Big Brother", na terça-feira, o debate ganha interesse renovado. Em seu livro "O Show do Eu - A Intimidade como Espetáculo", recentemente lançado pela Nova Fronteira, a antropóloga Paula Sibilia analisa a questão ao abordar vários aspectos da valorização de comportamentos e atitudes pela proliferação de "reality shows" expondo a vida dos anônimos.

Bolha de vidro do novo "Big Brother":
reconhecer-se a partir
do olhar do outro
é característica humana,
diz o psicanalista
Benílton Bezerra Jr.

"Cada vez mais é preciso aparecer para ser. A espetacularização tornou-se um modo de vida, esvaziando o interesse do público pela criação ficcional", afirma a antropóloga. "A ficção, que preenchia a vida e era capaz de refletir sobre a existência com profundidade, perdeu para uma teatralização da existência, que, por sua vez, encobre a crise do real", prossegue.

Esse fenômeno não é exatamente novo. Escândalos e idiossincrasias sempre atiçaram a curiosidade pública, consagrando personagens admirados ou detestados por multidões ávidas por conhecer a intimidade de aristocratas, políticos e artistas. Em 1885, o cortejo fúnebre do escritor francês Victor Hugo, por exemplo, atraiu às ruas de Paris 2 milhões de pessoas.

Mas os tempos são outros: sem uma obra tão consistente quanto a de Hugo, o jornalista Jean Willys, conhecido por participar do programa "Big Brother Brasil", foi o escritor mais assediado na Bienal do Livro do Rio, há dois anos. Na mesma época, o blog da garota de programas Bruna Surfistinha gerou um dos principais sucessos do mercado editorial brasileiro, chegando a vender mais de 200 mil livros.

Casos semelhantes aos de Willys e de Bruna, que ingressaram no grupo cada vez mais numeroso de celebridades notabilizadas ao mostrarem seu cotidiano na mídia, surgem diariamente. Em 2001, a internet contabilizava cerca de 3 milhões de blogs. Hoje, eles chegam a 100 milhões, mais do que o dobro que abrigava há um ano. Se a princípio os blogs atendem ao interesse pela intimidade alheia, eles estariam servindo mais para a divulgação de pessoas do que para revelar aspectos inusitados do cotidiano.

"O blog está distante dos diários íntimos da sociedade do século XIX, em que os cadernos continham segredos confiados apenas ao confessor dos autores. A busca pelo relato genuíno leva ao sucesso de blogs e 'reality shows', porém dificilmente encontraremos autenticidade no espaço virtual ou na televisão", afirma Paula. "Vivemos a era do triunfo da imagem, obedecendo a padrões estéticos que utilizam o photoshop para retirar rugas e imperfeições que os corpos não conseguem esconder."

Autora de "Segredos Íntimos", Luíza Lobo, professora de literatura da UFRJ, estuda a progressão dos relatos de diários confessionais a blogs. Para ela, há uma distinção nítida entre registros que servem à reflexão de seu autor e o que se veicula pela internet. "O blogueiro, aparentemente, promove a união entre o público e o privado, sem deixar de fixar limites, protegendo-se sob pseudônimos. O blog é como um grafite. Mais que um desabafo, é uma expressão direcionada a outros", diz Luíza.

Paula vê nos blogs o reflexo da mudança da textura do real, que exige personalidades maiores do que suas realizações. Para a antropóloga, o esvaziamento da interioridade seguiria a revolução tecnológica iniciada na segunda metade do século XX, que privilegia a interação a distância, sem, no entanto, revelar pessoas reais. O mundo virtual estimularia a criação de aparências sem conteúdo próprio.

"O blog passou a ser instrumento para o fortalecimento daquela grife que hoje representa a pessoa. Atualmente, todos precisamos da imagem, mesmo os anônimos. Isso já ocorria entre artistas, como Salvador Dali e Andy Wahrol, que criaram personagens tão marcantes quanto seus trabalhos. Agora, essas figuras se sobrepuseram aos criadores", comenta Paula. "Todo mundo sabe quem é Madonna, mas poucos conhecem suas músicas. Ela é uma marca, não apenas uma artista, que provoca mais interesse pela personagem do que por sua obra. Hoje, qualquer um quer mostrar sua marca, mesmo que sem uma obra a apresentar."

A antropóloga vê ainda um novo produto cultural criado a partir do anseio pela autenticidade da vida real: compositores, escritores e artistas não apenas ganham biografias (autorizadas ou não), mas são transformados em personagens de relatos ficcionais, como Virgínia Woolf em "As Horas", livro de Michael Cunnningham. No cinema, Jane Austen vira a protagonista de um romance bastante semelhante às tramas que imaginou no filme "Amor e Inocência", enquanto o processo de criação de Shakespeare se mistura à paixão ficcional por uma personagem que jamais existiu na realidade, em "Shakespare Apaixonado".

Reconhecer-se a partir do olhar do outro é uma característica humana, percebida em qualquer cultura, lembra o psicanalista Benílton Bezerra Jr. A possibilidade de ter um blog lido em qualquer parte do planeta expandiu um espaço social que, há 50 anos, se restringia a círculos restritos, obrigando cada um a mostrar seu valor individual, diz Benílton.

Para ele, é importante destacar os pontos positivos dessa exposição do íntimo. "Estamos observando um fenômeno complexo. Existe uma certa preocupação com os que preferem o mundo virtual a interagir pessoalmente com seus interlocutores. No entanto, ninguém mais precisa permanecer em total isolamento. Até os mais tímidos podem encontrar seus semelhantes na internet."

http://www.valoronline.com.br/ValorImpresso/MateriaImpresso.aspx?tit=A%20era%20do%20triunfo%20da%20imagem&dtMateria=09/01/2009&codMateria=5356401&codCategoria=92

A máscara secular

"Nossa sociedade é mais preocupada com as vítimas do que qualquer outra. Mesmo quando insincero, quando não passa de um grande espetáculo, o fenômeno não tem precedentes. Nenhum período histórico, nenhuma sociedade que conhecemos, jamais falou sobre as vítimas do modo como falamos. Podemos detetar no passado recente as primeiras manifestações desta atitude contemporânea, mas a cada dia novos recordes são quebrados.



Examine fontes antigas, pergunte em qualquer lugar, vasculhe os cantos do planeta e não irá encontrar em lugar algum coisa alguma que lembre mesmo que remotamente nossa preocupação contemporânea pelas vítimas. A China dos mandarins, o Japão dos samurais, os hindus, as sociedades pré-colombianas, Atenas, Roma republicana ou imperial – nenhuma dessas sociedades demonstrava qualquer preocupação por suas vítimas, que sacrificavam sem número aos seus deuses, à honra da pátria, à ambição dos conquistadores, grandes ou pequenos.



Nossa sociedade aboliu a escravidão e a servidão. Mais tarde vieram a proteção às crianças, às mulheres, aos idosos, aos estrangeiros de fora e de dentro. Há ainda a batalha contra a pobreza e o subdesenvolvimento. Mais recentemente tornamos universal a assistência médica e a proteção aos deficientes.



A cada dia cruzamos novos limiares. Quando uma catástrofe ocorre em algum lugar do globo, as nações mais priviliegiadas sentem-se obrigadas a enviar auxílio ou participar nas operações de resgate. Alguém pode afirmar que esses são gestos mais simbólicos do que reais, e refletem apenas uma preocupação com prestígio. Sem dúvida, mas em qual período antes da nosso e debaixo de qual céu a assistência mútua internacional representou uma fonte de prestígio para as nações?



Uma única rubrica engloba tudo que estou sumarizando agora em nenhuma ordem particular e sem nenhuma intenção de ser completo: a preocupação com as vítimas. Essa preocupação é às vezes exagerada e tão caricata que presta-se ao riso, mas deveríamos nos guardar contra a tentação de vê-la como mais um item, como nada além de tagarelice ineficaz. Trata-se mais do que uma comédia de hipocrisia. Ela criou ao longo dos séculos uma sociedade como nenhuma outra, e está unificando o mundo pela primeira vez na história.



A porção essencial do que circula agora como direitos humanos está no reconhecimento indireto do fato de que cada indivíduo ou cada grupo de indivíduos pode tornar-se “bode expiatório” dentro de sua própria comunidade. Enfatizar os direitos humanos equivale a uma tentativa (anteriormente impensável) de controlar o incontrolável processo de contágio mimético/imitativo violento.



O que temos é o reconhecimento vago da possibilidade de que qualquer comunidade pode acabar perseguindo seus próprios membros. Isso acontece sempre que uma multidão se mobiliza de repente contra qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer tempo, em qualquer modo, qualquer que seja o pretexto. Também acontece, mais frequentemente, quando uma sociedade torna-se permanentemente organizada na base dos privilégios de poucos às custas de muitos, quando formas de injustiça social perpetuam-se por séculos, às vezes por milênios. A preocupação com as vítimas busca proteger-nos contra as incontáveis variedades do mecanismo de vitimização.



Ninguém teve sucesso em tornar a preocupação pelas vítimas algo “ultrapassado”, e isso porque ela é a única coisa no nosso mundo que não é resultado de uma moda recente (embora muitas modas surjam a partir dela). A ascensão do “poder das vítimas” coincide, e não por acidente, com a chegada da primeira cultura planetária. Os antigos absolutos ruíram – humanismo, racionalismo, revolução, até mesmo a ciência. Ainda assim não vivemos num vácuo niilista, porque resta a preocupação com as vítimas, e é esse valor que domina a cultura planetária em que vivemos. Ela é nosso absoluto.



A preocupação com as vítimas leva-nos a opinar que nosso progresso rumo ao humanitarismo tem sido demasiado lento, e que não devemos de forma alguma glorificá-lo, a fim de não torná-lo mais lento ainda. A preocupação moderna com as vítimas obriga-nos a nos condenarmos perpetuamente. Característicamente, nossa preocupação com as vítimas nunca se mostra satisfeita com sucessos passados. Ela jamais louva a si mesma, nem tolera seu próprio louvor. Tenta desviar continuamente a atenção de si mesma, porque devemos estar atentos apenas para as vítimas. Nossa preocupação denuncia sua própria negligência, seu próprio farisaísmo. Nossa preocupação com as vítimas é a máscara secular do amor cristão.



Em resumo, o que nos impede de examinar nossa preocupação pelas vítimas é essa própria preocupação. Quer seja fingida, quer seja sincera, ela é compulsória em nosso mundo, e sem qualquer dúvida originou-se no cristianismo. A preocupação pelas vítimas não opera na base das estatísticas; opera segundo o princípio dos evangelhos, da ovelha perdida pela qual o pastor, se necessário, abandonará o rebanho inteiro". (René Girard, I See Satan Fall Like Lightning)
Publicado no blog Bacia das Almas -bounce-5996379@emailenfuego.net em 11/01/2009

Meu presente...

Rubem Alves
Murilo Mendes, escritor que amo, escreveu isso:“Quando eu não era antropófago quando eu não devorava livros pois os livros não são feitos com a carne e o sangue dos que os escrevem?”
Quem escreve um livro está transformando sua carne e o seu sangue em palavras, e quem lê o livro está comendo a carne e bebendo o sangue do escritor. Como na última ceia.
Eu queria dar para os meus amigos um presente que fosse minha carne e o meu sangue. Livro? Não. Já escrevi muitos. Meus amigos já me devoraram sob a forma de palavras.
Veio-me então a ideia: eu, sob a forma de música. Porque a música, para mim, é carne e sangue. Faz-me rir e chorar.
Resolvi montar um CD com algumas das músicas que amo. Músicas simples e curtas, que seriam amadas mesmo por aqueles que não entendem de música. Não entendem mas sentem.
A gente ama a música por duas razões diferentes. Primeiro, pela própria música: é bela, é fascinante. Elas são como o rio da aldeia do Alberto Caeiro: ao ouvi-las a gente só ouve-as, não pensa em nada.
Segundo, a gente ama as músicas que nos fazem lembrar ou imaginar algo. Uma passagem da Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Gottschalk, me faz lembrar soldados marchando.
Fiz um CD com músicas que me fazem lembrar...
Comecei com a dança do Zorba. Quem ouve a dança do Zorba quer dançar, quer virar Zorba. Eu gostaria de ser Zorba, pelo menos um pouquinho. Zorba, quando percebeu que ia morrer, levantou-se da cama, segurou firme na janela, contemplou as montanhas ao longe e disse: “Um homem como eu deveria viver mil anos...” Pos-se então a relinchar como um cavalo e caiu morto.
Depois Green Leaves, melodia renascentista tocada pelo conjunto Musikantiga, a flauta doce fazendo a linha melódica. Eu me vejo ouvindo-a numa praça tocada por um grupo de jovens. Mas não sei em que país é essa praça.
You are my sunshine” — você é o meu sol, da trilha sonora do filme O Brother... Música country norte-americana, aquele sotaque de caipira. É uma estória de amor que não deu certo.
Serra da Boa Esperança, porque eu nasci em Boa Esperança e já subi na serra. Letra e música de Lamartine Babo que foi a Boa Esperança para se encontrar com a Nair, que lhe enviava cartas apaixonadas, só pra descobrir que a dita Nair era um homem. Para não perder a viagem ele se apaixonou pela serra que transformou, pela magia da poesia, numa canção...
Ah! As mulheres negras norte-americanas têm voz de veludo. Acariciam quando cantam. Ouvir a Roberta Flack é uma experiência que mexe com o corpo e com a alma. Ela canta Like a bridge over troubled Waters — como uma ponte sobre águas revoltas — e Will you love me tomorrow? – você me amará amanhã?
A Valsinha, do Chico. Essa música, sozinha, justificaria a vida do Chico. Ao ouvi-la é impossível não ver e não sentir o vestido decotado cheirando a guardado... Quem diria que coisas guardadas cheiram diferente. Depois da dança do amor antigo tudo fica em paz.
Depois é o Because dos Beatles. Eu o escolhi porque o céu azul me faz chorar. Mas o que há de misterioso no céu azul que me provoca o choro? Por que choro?
Puro dilaceramento num momento de fragilidade, a voz de Ray Charles, trêmula e rouca. Sai das suas entranhas. “Yesterday all my troubles seemed so far away... Suddenly I’m not half the man I used to be...” Quem é mesmo que está cantando? Ray Charles ou eu?
O som de uma solitária gaita de foles escocesa. Ela toca um nostálgico hino protestante, Amazing Grace. Me contaram que o autor o escreveu na dor da morte de sua esposa.Nelson Freire ao piano. Delicadeza e transparência de cristal. Peça curta mas nos seus curtos minutos ela diz tudo o que era pra ser dito: Melodia de Gluck/Sgambati.
Oblivion de Piazzola. Era a favorita do Guido, meu querido irmão que se mudou para o mundo encantado. Tão linda quanto a Melodia de Gluck. É para se ouvir, ficar triste e chorar. Mas por que ouvir se faz chorar? Por causa da beleza. Beleza e tristeza são irmãs que andam sempre juntas. Com Arthur Moreira Lima ao piano.
Ravel, segundo movimento do concerto para piano e orquestra em sol maior. Primeiro, só o piano, vagarosamente, meditativamente, simplesmente, como um lamento. A flauta, ouvindo o lamento do piano, entra em cena para consolá-lo. Perto do final, a orquestra toda.
Cantado e tocado em estilo gregoriano, The sound of silence e Don’t give up. Lembro-me da primeira vez que ouvi Don’t give up — não desista! Eu guiava pesado ao crepúsculo na direção de Bauru. Peguei uma cassete qualquer. Algum filho meu a deixara no porta-luvas do carro. Eu nunca a havia ouvido. Aí a melodia e a letra foram apaziguando a minha alma. Fiquei leve. Todo o peso se dissolveu na brisa.
Para terminar, uma cantata da missa segundo São Mateus de Bach, ao som de percussão africana, assombrosa, por vezes sinistra, homenagem a Albert Schweitzer, intérprete de Bach, que deu cerca de 70 anos de sua vida aos doentes abandonados no coração da África, atendendo ao preceito evangélico “àqueles a quem muito se lhes deu muito se lhes pedirá.” Já escrevi sobre ele. Está no livro O amor que acende a lua.
Foi isso que dei aos meus amigos. Pedaços de mim transformados em música.