sábado, 14 de fevereiro de 2009

Para onde caminha a juventude?

Silvia Pontes*

De quem é o punhal da violência
quando nossas digitais
também estão na faca?



As mais recentes notícias sobre o envolvimento de jovens da classe média com o tráfico de drogas e armamentos apontam para uma questão crucial que afeta toda a sociedade e vem se ampliando: o valor da própria vida.
É fácil condenarmos a violência que ameaça a segurança da sociedade da qual fazemos parte em relação a um determinado grupo. Mas de quem é o punhal da violência contra a sociedade quando nossas impressões digitais também estão na faca?
O problema das drogas ignora fronteiras de classes. Essas fronteiras são construídas pelo medo, pela indiferença, pela arrogância e pela insegurança que fazem as pessoas se separarem umas das outras. Numa sociedade em que o ser humano perde a confiança no próximo a violência prospera, assim como prosperam todos os mecanismos que contribuem para que a segurança e o poder sejam garantidos com mais armas, mais medo, mais violência.

Se aquilo do qual mais fugimos na vida costuma vir ao nosso encontro, exigindo a nossa presença, é cada vez mais imprescindível haver um enfrentamento sério e destemido da situação. Nesse enfrentamento percebemos que há mais coisas em comum entre os jovens da classe média alta e aqueles que circulam pelo tráfico nos redutos das favelas, também portando drogas e armas.
Vamos evoluir ao ponto de também atingirmos o nível de facções de classe média alta como acontece no narcotráfico da coca? Ainda não chegamos a esse ponto. Ainda... é bom lembrar. Mas parece haver um caminho aberto e em expansão para esta possibilidade.

Existe, por outro lado, um caminho pelo qual podemos (e precisamos) compreender o lugar que a droga ocupa na vida do ser humano, especialmente na vida dos jovens de todas as classes. A curiosidade, o exemplo e o desafio costumam inspirar os jovens a buscarem drogas e situações de risco. A necessidade de sentir-se visível em seu grupo de convivência, no qual descobre seu valor, pode levar o jovem a buscar isso fora de casa, sobretudo quando sua família é uma familha, onde as pessoas mal se conhecem, não dialogam, não se tocam. A ausência e/ou falência das figuras parentais, responsáveis pela presença da lei, aqueles princípios básicos que permitem dar ao indivíduo limites e compreensão de sua importância no mundo e para o mundo podem ser fatores significativos na busca dos jovens por uma visibilidade junto ao poder fornecido pelo tráfico.

Os jovens carecem de líderes que os orientem, de espelhos parentais nos quais possam começar a perceber a importância do valor da própria vida, para conseguirem fazer escolhas com consciência. O que espelhamos para os nossos filhos, por meio de palavras e, sobretudo, atitudes no dia a dia?
Lembrando Virginia Satir:
"Quero te amar sem sufocar.
Juntar-me a ti sem invadir.
Estimar-te sem julgar.
Convidar-te sem insistir.
Criticar-te sem te acusar.
Ajudar-te sem te afrontar.
Deixar-te sem culpas.
Se eu puder ter o mesmo de ti,
juntos podemos nos integrar".

*Silvia Pontes é coordenadora especial de Prevenção à Dependência Química da prefeitura do Rio de Janeiro. Bióloga.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Os homens ocos

T.S. Eliot


Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada



Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;



Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados
(...)

(Editado pelo Jornal Correio Braziliense, 13/02/2009 - Tradução: Ivan Junqueira)
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/

Novos valores para nova civilização

Frei Betto*

No Fórum Social Mundial de Belém se concluiu que as alternativas ao neoliberalismo e à construção do ecossocialismo não se engendram na cabeça de intelectuais ou de programas partidários, e sim na prática social, através de lutas populares, movimentos sindicais, camponeses, indígenas, étnicos, ambientais e comunidades de base.
Para gestar tais alternativas exigem-se pelo menos quatro atitudes.
A primeira, visão crítica do neoliberalismo. Este aprofunda as contradições do capitalismo, na medida em que a expansão globalizada do mercado acirra a competição comercial entre as grandes potências; desloca a produção para áreas onde se possa pagar salários irrisórios; estimula o êxodo das nações pobres rumo às ricas; introduz tecnologia de ponta que reduz os postos de trabalho; torna as nações dependentes do capital especulativo; e intensifica o processo de destruição do equilíbrio ambiental do planeta.
A segunda atitude — organizar a esperança. Encontrar alternativas é um trabalho coletivo. Elas não surgem da cabeça de intelectuais iluminados ou de gurus ideológicos. Daí a importância de se dar consistência organizativa a todos os setores da sociedade que esperam outra coisa diferente do que se vê na realidade atual: desde agricultores que sonham lavrar a própria terra a jovens interessados na preservação do meio ambiente.
Terceira atitude — resgatar a utopia. O neoliberalismo não visa a destruir apenas as instâncias comunitárias criadas pela modernidade, como família, sindicato, movimentos sociais e Estado Democrático. Seu projeto de atomização da sociedade reduz a pessoa à condição de indivíduo desconectado da conjuntura social, política e econômica na qual se insere, e o considera mero consumidor. Estende-se, portanto, também à esfera cultural. Como diria Emmanuel Mounier, o individualismo é oposto ao personalismo. Pascal foi enfático: “O eu é odioso”.
No seu apogeu, o capitalismo mercantiliza tudo: a biodiversidade, o meio ambiente, a responsabilidade social das empresas, o genoma, os órgãos arrancados de crianças etc, e até mesmo o nosso imaginário. Um exemplo trivial é o que se gasta com a compra de água potável engarrafada em indústria, dispensando o velho e bom filtro de cerâmica ou mesmo a coleta da limpíssima água da chuva após um minuto de precipitação.
Sem utopias não há mobilizações motivadas pela esperança. Nem possibilidade de visualizar um mundo diferente, novo e melhor.
Quarta atitude — elaborar um projeto alternativo. A esperança favorece a emergência de novas utopias, que devem ser traduzidas em projetos políticos e culturais que sinalizem as bases de uma nova sociedade. Isso implica o resgate dos valores éticos, do senso de justiça, das práticas de solidariedade e partilha, e do respeito à natureza. Em suma, trata-se de um desafio também de ordem espiritual, na linha do que apregoava o professor Milton Santos, de que devemos priorizar os bens infinitos e não os bens finitos.
O projeto de uma sociedade ecossocialista alternativa ao neoliberalismo exige revisar, a partir da queda do Muro de Berlim, os aspectos teóricos e práticos do socialismo real, em particular do ponto de vista da democracia participativa e da preservação ambiental. O ecossocialismo se caracterizaria pela capacidade de incorporar conceito e práticas de igualdade social e desenvolvimento sustentável a partir de experiências dos movimentos sociais e ecológicos, assim como da Revolução Cubana, do levante zapatista do Chiapas, dos assentamentos do MST etc.
É vital incluir no projeto e no programa os paradigmas ora emergentes, como ecologia, indigenismo, ética comunitária, economia solidária, espiritualidade, feminismo e holística. Esse sonho, essa utopia, essa esperança que chamamos de ecossocialismo, não é se não a continuação das esperanças daqueles que lutaram pela defesa da vida, como Chico Mendes e Dorothy Stang, dois lutadores cristãos que deram suas vidas pela causa dos pobres, dos explorados, dos indígenas, dos trabalhadores da terra e dos povos da floresta.
*Escritor, autor de Cartas da prisão (Agir) entre outros. http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 13/02/2009

A juventude e a ilusão da vida fácil

MANCHETES COMO A DESTACADA ONTEM na primeira página do JB, sobre a prisão de jovens de classe média envolvidos no tráfico de drogas, vêm se tornando cada vez mais frequentes. Ainda assim, mexem com o cidadão comum, que se pergunta o porquê da opção errada conscientemente escolhida por rapazes (e moças) bem-nascidos e educados nos melhores colégios da cidade. Diante da vida profissional quase garantida somada a um futuro promissor, preferem estes jovens o descaminho das drogas ­ não o do consumo puro e simples (que já seria tortuoso), mas o da traficância e do ganho de dinheiro fácil. O fim da história, conforme se percebe na leitura do noticiário, é a perda da liberdade (quando não, a da própria vida).
Na mais recente operação da Polícia Federal, deflagrada quarta-feira, 300 homens da instituição cumpriram 53 mandados de prisão por todo o país. Só no Rio, foram utilizados 22 agentes e presas 44 pessoas. Além dos números envolvidas ­ ao longo dos 10 meses de investigação, foram apreendidos 112.010 comprimidos de ecstasy, 115.399 micropontos de LSD, 7,2 quilos de cocaína, 22,7 quilos de haxixe e 2.962 frascos de lança-perfume ­ o que mais impressiona é o perfil da quadrilha: jovens de classe média alta, moradores da Zona Sul carioca, com idade média de 26 anos. Agora detidos, terão de responder judicialmente por tráfico de drogas, associação para o tráfico e tráfico internacional, cujas penas, somadas, chegam a 30 anos.
Um triste fim para um grupo de adultos recém-formados que, diante de uma série de possibilidades que a vida lhes descortinava, optou pelo crime como método mais rápido para realizar os sonhos de consumo. Em conversa telefônica gravada pelos investigadores, com autorização judicial, um dos criminosos define a filosofia que norteava a gangue: "Para manter a vida que eu gosto de ter, eu preciso fazer isso". Não precisava. Mas assim o quis.
Já é incômoda a adesão, ao tráfico, de crianças e adolescentes que vivem em morros dominados por quadrilhas. Credita-se esse envolvimento, em grande parte, à mão pesada dos bandidos sobre os jovens das favelas e à ausência de perspectivas. São muitos os casos, portanto, em que não há saída. Não há opção. O mesmo não se pode dizer dos jovens de classe média flagrados esta semana. Se a ganância desmedida e a certeza do lucro fácil falaram mais alto, a ilusão da impunidade gritou ainda mais forte na tomada de decisão de cada integrante da quadrilha. Com milhares de crimes sem castigo prosperando no país, o bando supunha que jamais seria alcançado pela Justiça. Pagou caro pela aposta errada, e, caso a lei seja cumprida à risca, os condenados passarão quase tantos anos na cadeia quanto os que já viveram em liberdade.
Antes do momento crítico, a família deveria ter sido mais presente. Parece cômodo para os pais deixar os filhos saírem quando querem, a hora que querem, com quem querem. Mas o relaxamento dos responsáveis tem um preço. Está sendo criada uma geração que não aceita o "não" como resposta, que não enxerga limites, que não respeita leis, deveres ou mesmo outras pessoas. Há de se quebrar este ciclo, o quanto antes. E a educação doméstica pode ser um bom começo quando se pretende restaurar valores e lições imortais. Trata-se de um motivo adicional para estimular ações complementares em casa, em cada família. Os pais devem acompanhar a conduta dos filhos. O diálogo franco e firme ainda é o melhor antídoto contra a imersão em terrenos indesejáveis.

Darwin: paradigma e alicerce para o futuro

Anjali Goswani
Acadêmica do departamento de Ciências da Terra da Universidade de Cambridge, Anjali Goswani é uma apaixonada pela teoria de Charles Darwin e acredita que estamos longe de ver paradigmas tão importantes na ciência como os trazidos pela teoria da evolução. Participante do especial Mês de Darwin no National Geographic Channel, com o documentário Ursos, a cientista lembra, em entrevista ao JB, que o darwinismo será, com o avanço do efeito estufa, tão importante para o futuro como foi até o presente.

Conte um pouco sobre o documentário e quais evidências darwinistas são mostradas.
O documentário é interessante no sentido de mostrar a evolução e a forma como se deu diferentemente entre as espécies. A principal evidência é observar que existe uma transição intermediária entre ancestrais. Dos ursos grandes aos muito pequenos, como se deu esta evolução e como ele está hábil hoje para se adaptar a muitos nichos diferentes do meio ambiente? Pode parecer difícil para alguns entenderem a ligação entre ursos polares e pandas, e esse material nos ajuda a compreender, dos dinossauros até hoje.

Como você avalia a aplicação e as interpretações da teoria?
As interpretações e perspectivas podem trazer algumas evidências que são, aparentemente, contraditórias. Mas valem para fundamentos que vão da medicina à agricultura, em que vemos como a evolução é clara e ocorreu em terreno amplo. Vivenciamos um período em que já passamos por problemas de escassez de alimentos, e entender tais condições podem ajudar.
Por que Darwin ainda continua tão influente nos dias de hoje?
Muitos creem em sua ciência como a principal alternativa à explicação de tudo além da Bíblia, ainda mais por termos evidências de que a vida existia muito antes de qualquer explicação. Esta é a principal razão. Em termos científicos, há evidências biológicas cada vez mais fortes.

Outros paradigmas estão por vir nas próximas décadas?
Acho que em termos de evolução sim. Mas a idéia básica foi testada tantas vezes, em tempos e maneira tão diferentes, com populações naturais distintas, que a mudança será sutil e lenta. A teoria darwinista é bem amparada, e com o advento do aquecimento global, temos a chance de acompanhar de perto a nova evolução ditada pelo fenômeno.
(Entrevista feita por Marsíle Gombata, JB, 13/02/2009)
http://ee.jb.com.br/reader/clipatexto.asp?pg=jornaldobrasil_117676/106509 13/02/2009

Dez coisas que eu sei

L.F. VERISSIMO

1. A preguiça é a mãe de todos os males que não requerem muito esforço.
2. O preço da liberdade é a eterna vigilância, mais a taxa de embarque.
3. Só Deus é onipresente e onipotente, não importa o que digam do juro bancário.
4. O chato desses planos macroeconômicos e dessas políticas a longo prazo é que a gente tem que viver no detalhe.
5. Se todos os banqueiros do mundo fossem colocados lado a lado na linha do Equador – sabe que poderia ser uma solução?
6. A morte é a última coisa que eu quero que me aconteça.
7. Tudo passa. Até esta angústia com a transitoriedade de tudo.
8. Deveriam ter aproveitado a reforma ortográfica para substituir o chapeuzinho por algo mais moderno.
9. Pessimista mesmo não é o cara que não vê luz no fim do túnel, é o que nem tem certeza de que isto seja um túnel.10. Existe um ser superior que dirige os nossos destinos, só não se sabe como ele conseguiu passar no teste psicotécnico.
(Crônica da Zero Hora, 12/02/2009)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Por que não se cria mais hoje?

Rose Muraro*

Onde está o Beethoven do século 21? E o Freud? E o Marx? E o Picasso? E assim todos os campos do conhecimento e da arte humana? Confesso que não sei. Em termos menos ambiciosos, quem substituirá Chico Buarque, Caetano Veloso ou Tom Jobim, ou Guimarães Rosa, ou Carlos Drummond de Andrade? Idem.
Por uma estranha coincidência, até meados do século 20 ainda existiam artistas de peso mundial (Matisse, Picasso, Prokofief, Shostakovich, Fernando Pessoa, Clarice Lispector e outros), mas este século nos parece deserto. Na segunda metade do século 20, ainda havia grandes nomes na ciência como Richard Feynman, o idealizador da nanotecnologia, Illya Prigogine (Teoria da Complexidade) e uns poucos grandes físicos quânticos, porque os maiores (Niels Bohr, Max Planck, Werner Heisemberg, Erwin Schrödinger e outros bem como Einstein) morreram na primeira metade do século 20. O que pode explicar esse deserto de padronização de corações e mentes em que vivemos?
Muito simples. Civilização de consumo, internet e videogames. Em 1978 fui dar aulas na Suécia e vi as casas cheias de samambaias choronas. No ano seguinte, fui a Teresina e lá vi a mesma coisa. Há três décadas já estava instalada a civilização de consumo e o American Way of Life. Mais tarde vi que não eram só as samambaias choronas, mas as cabeças que estavam homogeneizadas. Para criar realmente, principalmente novos paradigmas nas culturas e nos saberes humanos, é preciso que estejamos sintonizados com o nosso ser mais profundo e, portanto, com a profundidade de nosso tempo. Isso só acontece quando não temos elementos externos que nos chamem continuamente para fora de nós mesmos desde o dia do nascimento.
Da segunda metade do século 20 em diante, estamos cercados de uma noosfera imbecil, niveladora por baixo, que faz que os grandes gênios que certamente existem não possam acontecer. Seja pela pobreza material, seja pela pobreza emocional e espiritual. Os grandes criadores sempre foram seres essencialmente solitários e em comunicação profunda com os próprios selves. O self, segundo Jung, é o centro vital de cada ser humano de que podemos nos aproximar sempre, mas não atingimos nunca porque ele vai se aprofundando cada vez mais.
Os grandes pensadores e os grandes criadores sempre souberam disso, mas só que hoje tudo nos impede de chegar à nossa profundidade. Rádio, televisão, videogames, a primazia do consumo sobre a qualidade de vida, tudo isso é ambiente nefasto para o caminhar da espécie humana que está nos fazendo chafurdar nesta realidade rasa e pantanosa, verdadeiro canto da sereia que nos chama para prazeres fáceis em detrimento dos êxtases mais profundos.
Acho quase impossível podermos sair dela. O dinheiro que nada cria, tudo determina, hoje mais do que nunca e de maneira macro e micro ao mesmo tempo. Desde a forma dos nossos edifícios e das nossas megalópoles até a maneira de falarmos. Por isso sinto-me estruturalmente desesperançada. Aí estão problemas a serem resolvidos de tal magnitude como a destruição da espécie pelo excesso de consumo, mas todas as mídias agem como um ópio sobre cada um de nós. É como se o nosso trem estivesse correndo a uma velocidade cada vez mais acelerada para o precipício e nós, que estamos dentro dele, estamos dançando alegremente ao som de sambas, funks, hip-hops, tomando as nossas cervejinhas e “ficando” com cada um ou uma que encontramos e que é perfeitamente descartável.
Aliás, todos somos descartáveis. Perdemos o valor único que nos distinguia dos outros seres humanos e distinguia cada ser humano de outro. Somos realmente massas manipuláveis por um grande irmão onisciente e onipresente que está pouco se importando conosco a não ser com a nossa capacidade de produzir e de consumir. O grande irmão não é ninguém, o grande irmão está em tudo. Por isso nem precisa ser. É uma bela moeda de dólar reluzente como uma bola de futebol muito acima de nossas cabeças. Mas, apesar de tudo, acho que, ao escrever este artigo, estou fazendo a minha parte. Se todos fizerem a sua, tudo poderá ser mudado. Com certeza!
*Rose Muraro, escritora. http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 12/02/2209

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A bomba populacional: somos gente demais?

Blog de Andrea Wialli
30.01.2009

Em 1968, Paul Ehrlich, biólogo da universidade de Stanford, nos Estados Unidos, publicou com grande celeuma seu livro 'The Population Bomb', onde defende que os países adotem um controle populacional rígido, de modo a evitar uma escassez de alimentos e outros recursos naturais.
Na época, ele próprio foi bombardeado por gente da esquerda e da direita. Os detratores da esquerda diziam que ele tinha inspirações nazistas em defender o controle populacional. Os da direita diziam que suas idéias eram uma afronta aos direitos individuais.
Ehrlich tinha 36 anos quando publicou o livro. Ele errou ao prever que, nas décadas de 1970 e 1980, milhões de pessoas morreriam de fome por causa da escassez de comida. Mas hoje, aos 76 anos, Ehrlich volta a ser comentado. Suas idéias caíram no gosto dos estudiosos e ativistas da sustentabilidade. Ele manteve sua idéia original - de que o crescimento sem limites da população e o hiperconsumo não são compatíveis com a finitude dos recursos naturais.
E mais: junto com sua esposa, Anne Ehrlich, o cientista criou uma fórmula matemática para calcular a pressão dos humanos sobre a Terra: I=PAT. Na equação, I é o impacto ambiental, medido pela multiplicação de P (o tamanho da população de uma área), A (média do consumo individual, medido pelo PIB per capita) e T (tecnologias empregadas e seu impacto em termos de emissões de gases de efeito estufa).O debate neomalthusiano voltou a ganhar espaço face a questões como segurança alimentar, pobreza, suprimento de energia e mudança climática.
A população do mundo atualmente está em 6,8 bilhões de pessoas - quatro vezes o tamanho da população há um século atrás - e, embora as taxas médias de fecundidade estejam em queda (2,8 filhos por mulher nas nações mais pobres e 1,6 nas mais ricas), anualmente em torno de 75 milhões de habitantes são acrescentados ao planeta.
Há quem diga que o problema não é a quantidade de pessoas no planeta, e sim seu padrão de consumo e também o desperdício de recursos como água e comida. Nesse time, está a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em seu relatório “Perspectivas do Meio Ambiente para 2030”, o grupo prevê que só o “stress hídrico” atingirá 3 bilhões de pessoas. “A população não representa um problema em si. As pressões exercidas sobre os recursos naturais não vem do número de habitantes, mas de seus hábitos de consumo.” Nunca é demais lembrar que a OCDE reúne os países mais ricos do mundo, justamente aqueles que tem o padrão de consumo mais elevado.
http://blog.estadao.com.br/blog/vialli/?title=a_bomba_populacional_somos_gente_demais&more=1&c=1&tb=1&pb=1 11/02/2009

As cores do ódio

Roberto Romano
Algumas técnicas permitem dirigir multidões. Goebbels usou de modo inventivo a manipulação dos jornais, rádio e cinema para assassinar milhões. Voltemos ao pensamento platônico para entender a eficácia da ideologia. Na República (Livro 4) Platão mostra a forma de impor atitudes mentais aos protetores da cidade. A obediência será infalível se eles tiverem nas almas “a opinião garantida pela educação relativa às coisas que devem ser temidas”. Sócrates adianta uma figura que explica o seu dito. Os tintureiros, diz ele, se querem aplicar a cor púrpura em tecidos, escolhem o branco e o preparam para receber aquele matiz. O tecido é testado com detergentes, para ver se perde a cor. Caso seja usada uma lã não branca e a tinta não receba tratamento correto, a púrpura se gasta num ridículo descolorido.
Para formar os soldados, finaliza Sócrates, devemos fazer como o tintureiro que aplica a cor indelével. O tecido, agora, é o da alma. Esta última deve ser dócil e receber a opinião da lei, relativa ao que deve ser temido. Se a técnica é falha, a opinião perde força. Magnífica análise, a platônica, dos processos autoritários usados na era antiga e moderna. Doutrinas ideológicas aplicadas com perícia técnica na alma das massas, são indeléveis e se tornam “preconceito” ou “ética”. “Ética” se enuncia de muitos modos. Ela pode ser correta e saudável, ou mortal. Existe a ética médica para garantir vidas e, de outro lado, a exercida na máfia, agrupamentos políticos, etc. Ética é o conjunto de atitudes corporais ou anímicas aprendidas em determinado tempo que, de tanto repetidas, operam automaticamente. Elas podem se desbotar um pouco. Mas são passíveis de reavivamento, de modo a gerar certezas nos adoecidos de ideologia ou pior, nos educados apenas para seguir ideologia.
O antisemitismo é ideologia arraigada na mente de povos antigos e modernos. São inúmeras as tinturarias da alma que funcionaram em ritmo industrial na história do Ocidente, para aplicar nas almas o ódio contra os judeus. A Idade Média imprimiu ódio contra os judeus com a desculpa do deicídio. Entre os protestantes Lutero exagerou em textos como Os judeus e suas mentiras (1543). A atitude genocida encontra-se em outros textos do Reformador, por exemplo no terrível As últimas palavras de Davi. Quem deseja mais dados, leia o escrito de H. Oberman: The roots of anti semitism (Philadelphia, Fortress Press, 1984). Não por acaso aqueles textos de Lutero receberam enorme publicidade na Alemanha, entre 1933 e 1945. A receita de Lutero foi seguida pelos genocidas: queimar sinagogas, arrasar moradias, destruir livros de oração, expulsar os judeus do país.
O caso é estudado por analistas de hoje, recomenda-se aos honestos intelectualmente a leitura de M. U. Edwards Jr.: Luther’s Last Battles: Politics and Polemics, 1531–46 (Ithaca, Cornell Univ. Press, 1983). O antisemitismo do século 20 não foi monopólio dos cristãos. Os supostos ateus da URSS e países auxiliares nutriram ódio contra os judeus, encetaram pogroms e perseguições. A tinturaria das almas tem filiais espalhadas pelo mundo e forma o que M. Ponty denominou, ao falar de Maquiavel, “a comunhão negra dos santos”.
Na semana passada o mundo constatou, sem muita perplexidade dada a eficácia da propaganda contra os judeus, atos gravíssimos. Em primeiro lugar vem a notícia de que o pretenso bombardeio de uma escola da ONU não ocorreu. A mentira foi divulgada pelos jornais importantes com direito a fotos. A verdade aparece, tímida, oculta pelos mesmos periódicos. O governo de Chávez patrocina a destruição de uma sinagoga. No Rio Grande do Sul, outro local de culto judeu foi profanado com símbolos nazistas.
A tinturaria mentirosa opera rápido. Ela apenas revigora os desbotados matizes do ódio que, na vida democrática, pareciam perdidos. Apelo aos honestos: aceitar o antisemitismo de esquerda ou direita é seguir o rumo da barbárie. Esta não salva ninguém da morte coletiva, em especial os árabes que hoje espalham doutrinas racistas. Eles também serão vítimas do que hoje pregam de maneira automática.

*Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia Política na Unicamp
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1619738&area=2190&authent=2C56191066733214C421825EE10A86

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

De volta para o futuro

Bruno Latour
Entrevista


Para o antropólogo francês
Bruno Latour,
os brasileiros são os mais preparados
para a criação de
novas disciplinas e
novas coletividades
Marcelo Fiorin
Com a publicação de sua obra Jamais Fomos Modernos em 1994, Bruno Latour tornou-se célebre em muitos países do mundo quase que instantaneamente. Mas não na França, onde seu pensamento demorou para ser aceito e só começou a ganhar espaço graças ao impacto e à acolhida que seus livros tiveram entre a antropologia da atualidade. Nesse livro, Latour retraça a história ideológica do desenvolvimento da "razão ocidental" e a crítica como uma ilusão que jamais chegou a penetrar mesmo nas práticas mais centrais ou nos espaços mais conceituados da cultura euro-americana. Para Latour, esse desenvolvimento da "razão ocidental" leva à depuração da cultura a que chamamos de modernidade. Novo iconoclasta do pensamento na França, híbrido de sociólogo, filósofo e antropólogo, inovador polêmico, educador transdisciplinar, ao se conversar com Latour fica-nos a nítida impressão de que estamos diante de um pensador que representa hoje uma grande corrente filosófica do futuro, que estará em voga talvez daqui a 20 ou 30 anos.

Mas Latour nos mostra também que esse futuro já estava lá em nosso passado. Um dos aspectos mais surpreendentes de seu pensamento é de fato sua maneira de abordar o passado e a chamada "periferia" da denominada civilização "ocidental", que ele considera uma aberração. Latour mostra como os "centros" de propagação dessa cultura, que são representados pelos laboratórios de ciências hoje em dia, são semelhantes ao que a própria ciência considera periférico e exótico. Para Latour, são os que se consideram modernos que são exóticos, e o Brasil nunca foi realmente moderno, pois nosso país (felizmente) pulou esse retrocesso, cuja expressão maior hoje em dia são os fundamentalismos orientais e ocidentais, espelhos monstruosos de si mesmos. Questionando persuasões filosóficas inteiras de Descartes à sociologia moderna, passando por Émile Durkheim, Karl Marx ou a filosofia analítica, impugnando divisões artificiais que, segundo ele, levaram à separação entre a natureza e a cultura, do inato e do aprendido, além da distinção entre as coisas e os objetos, Latour estende suas análises prático-teóricas à filosofia, à economia, à ecologia, à política. Para Latour, o que é importante nas ciências sociais agora é se interessar pela questão da produção das instituições que permitem a criação das coletividades e das associações que se desenvolvem no mundo de hoje, que não mais tem relação com a que antes chamamos de natureza e sociedade.
Como passamos a maior parte do tempo na história da filosofia, da sociologia, da antropologia, ou mesmo em todas as ciências sociais, a traduzir o que encontramos nos termos de uma ideologia que nada veio nos explicar, um paradigma assimétrico que apenas traduz os termos de uma cultura nos termos de outra, Latour acredita que o campo das investigações hoje em dia começa a abrir para pesquisas mais híbridas que irão realmente transformar as nossas persuasões e disciplinas. Esse processo, para Latour, já está acontecendo, é preciso apenas tirar nossas "lentes de contato" para vê-lo. É preciso também que reconheçamos os meios para refazer um mundo no qual possamos coabitar com outros seres, o que, segundo Latour, os brasileiros estão mais preparados para fazer do que os franceses.

Leia trechos da entrevista:

CULT - Um de seus trabalhos mais conhecidos no Brasil é o livro Jamais fomos modernos. Qual é a relação desse livro com a antropologia ?
Bruno Latour - Em primeiro lugar, a tese desse livro não faz muito sentido ao se falar no Brasil, porque os brasileiros nunca foram modernos. Foram sempre, de uma certa forma, pós-modernos. Este livro foi traduzido em 25 línguas e teve um impacto bastante diverso nos países em que foi publicado. Na França, por exemplo, seu impacto não foi muito grande. O que quis fazer foi uma antropologia daqueles que são chamados "modernos". A distância que tomamos normalmente na antropologia quando nós nos afastamos de nossa cultura para estudar uma outra, por exemplo, para conviver com pessoas com quem não convivemos geralmente, é equivalente neste livro a uma tomada de distância interior, um distanciamento diante da história do chamado "mundo ocidental" nos últimos 300 anos, para mostrar como algo se passou durante este período, algo ligado à atividade científica e técnica, mas que não tem nada a ver com o que se diz ter acontecido.

CULT - O modernismo seria então uma invenção exótica?
BL - Eu diria que esse livro procurou lutar contra o equivalente do exotismo nas sociedades que se denominam modernas, o que se pode chamar de "ocidentalismo". Assim como há um orientalismo para o Oriente, como definiu-o Edward Said, há um exotismo de nós mesmos, quero dizer, da Europa ou da Euro-América. É isso que está ligado à ideia de uma antropologia. Fazíamos a antropologia dos outros, mas não a antropologia de nós mesmos, com exceção das margens, dos aspectos marginais de nossa sociedade, do que sobreviveu: da magia, das festas, da sociabilidade. Mas jamais fazíamos a antropologia do centro que constitui nossas atividades. Eu mesmo aprendi antropologia com excelentes antropólogos na África negra, e quando retornei à Europa, fiquei surpreso com essa assimetria. Quando nós fazemos antropologia (no exterior de nossa cultura), estudamos coisas que nos parecem realmente centrais para as comunidades nas quais passamos a viver. Mas, quando retornamos aos europeus ou aos euro-americanos, pensamos que a antropologia se refere somente à parte marginal. Tudo isso mudou muito. Esse livro foi escrito há 20 anos. Hoje em dia, muitas vezes os antropólogos não mais podem fazer uma pesquisa de campo em outra sociedade, em outros países, pois o acesso a essas áreas tem sido progressivamente restrito ou fechado (é o caso praticamente de toda a África e do Meio Oriente; o que nos resta de fato é apenas a América Latina e talvez uma parte da Ásia). Isso tem redefinido a antropologia como uma reflexão também sobre o centro da sociedade dita moderna, de forma que hoje em dia, essa ideia já se tornou banal, ao passo que na época que escrevi meu livro não era bem assim.

CULT - Qual é a tese desse livro e por que que ele é sub-intitulado como "ensaio de antropologia simétrica"? Isso foi uma ideia original, ou algo desenvolvido a partir do trabalho de outros autores?
BL - Há a controvérsia entre a tese que considera que nós fomos modernos e a tese que não, e tudo repousa sobre uma teoria da ciência. Esse era o problema da área de estudo na qual eu continuo a trabalhar: a science studies, que faz uma antropologia das ciências. É a ideia também do meu livro. Jamais fomos modernos fez talvez, e estranhamente, muito sucesso mesmo se sua tese não foi ainda muito testada empiricamente. Quanto ao termo "simétrico" provavelmente já existia. De toda forma, ele é bastante comum, poderia se dizer também, no lugar de "antropologia simétrica", antropologia "equilibrada" ou mesmo "equitável". Eu escolhi "simétrica" por causa da conotação desse termo na área de estudos das ciências (science studies). Ele implica também uma simetria entre a ciência e a não ciência, ou a ciência ligada ao problema da história das ciências. Mas abandonei o termo "simétrica", pois ele tem o inconveniente de supor que, quando fazemos essa simetria, guardamos os dois elementos que opomos, por exemplo, a natureza e a cultura.

[...]
CULT - Seu trabalho trocou os livros pelas exposições, e trata de arte, ciência, religião e do respeito pela mediação como uma forma de chegar à civilidade, como resposta ao modernismo e ao pós-modernismo. Essa também é a proposta de sua exposição Iconoclash?
BL - Esse é um empreendimento que me interessou muito, em primeiro lugar, porque eu mudei de mídia, e passei do livro à exposição, também ao catálogo também, e assim modifiquei tanto o impacto como a forma da atividade. Assim, creio que é possível mudar de modernidade, ao reencontrar a noção da mediação, o respeito por atividades diferentes: a arte contemporânea, a atividade científica, a atividade religiosa, o sentido da civilização, talvez até o da civilidade, possam ser recobrados através dessas atividades que passam a ser organizadas de forma bastante diferente do que se tem feito. Por sinal, o iconoclasmo é parte da história intelectual crítica do Brasil. Ele faz parte das reflexões da teoria e de todas as religiões que herdamos. Podemos ver que a história do iconoclasmo não é fácil de se ignorar. Ela se aprofunda para além das raízes do modernismo, além do construtivismo. Portanto, reencontrar o sentido da mediação é restabelecer o fio da experiência para as pessoas e inventar assim um empirismo mais realista em relação ao primeiro empirismo que tivemos.

CULT - Mas qual é essa tradição iconoclástica que o senhor menciona em relação ao Brasil?
BL - Fazer proliferar os ídolos, tanto uns como os outros, com toda a liberdade possível. No Brasil, não se imagina de imediato que os ídolos estão lá para serem destruídos. Há uma grande compatibilidade de cultos. Veja, por exemplo, a história das religiões. Ela é interessante. O que chamamos de sincretismo, de amálgama, tudo isso teve um início: foi a maneira como foi vista a história europeia no Brasil. Mas tudo isso se passou de forma diferente. O iconoclasmo emerge na tradição antropofágica, por exemplo. E o iconoclasmo é importante para os euro-americanos, pois enquanto não fizermos o luto desse iconoclasmo, não compreenderemos nada do que é a noção de construtivismo, não respeitaremos jamais as mediações, e portanto cairemos no fundamentalismo. O fundamentalismo é uma espécie de modernismo monstruoso. Não quero dizer que o modernismo foi sempre um fundamentalismo, mas a partir do momento em que ele retira todas as mediações, ele o é.
Depois da passagem do pós-modernismo, que é um momento de liberação e divertimento, ele ainda se quer ater à verdade, sem se ater aos meios. Caímos então no fundamentalismo, é a única solução. Os modernistas e os pós-modernistas que assim o fizeram deixaram como herança apenas o fundamentalismo àqueles que ainda buscam as verdades, e esses ainda são os que poderíamos considerar "os do bem", os que procuram a verdade. Se nós privarmos os que buscam a verdade dos meios, não há outra forma de alcançá-lo senão através do fundamentalismo, seja através do texto, dos livros sagrados (no caso da religião), ou em outros casos. Hoje, podemos ser fundamentalistas nas ciências, na política etc. Pois não há mais os intermediários, as mediações. O respeito pelos meios, pelas mediações, é algo que os brasileiros sabem fazer muito melhor do que os franceses. Nós, euro-americanos, esvaziamos inteiramente os meios para se buscar a verdade. E aqui novamente a teoria da ciência tem uma participação, pois para respeitar as ciências, temos que respeitar os meios que fazem a ciência. Isso parece de uma banalidade imensa, mas o fato é que isso resta sendo um assunto sobre o qual há ainda muita controvérsia, pois existem ainda pessoas que querem a ciência sem respeitar os meios. Os "modernos" são realmente bizarros!
(Reportagem de Marcelo Fiorini, in revista CULT, nº132 - fevereiro/2009. pp.14/20)

Darwin, 200

ENTRE OS pensadores mais influentes dos séculos 19 e 20, só Charles Darwin sobreviveu incólume ao teste do tempo. Os 200 anos de seu nascimento, comemorados nesta semana, encontram sua reputação em excelente forma. Com efeito, nunca foi tão válida a afirmação do grande evolucionista Theodosius Dobzhansky (1900-1975): "Nada em biologia faz sentido a não ser sob a luz da evolução".
A teoria darwiniana sofreu aperfeiçoamentos, mas seu cerne, a seleção natural, permanece intacto. O mecanismo foi exposto em obra clássica, "Origem das Espécies", que também faz aniversário (150 anos): a diversidade observável nos organismos é fruto da acumulação de incontáveis e discretas características hereditárias que tenham contribuído para a sobrevivência e a reprodução de seus portadores.
Outro pilar da teoria darwiniana: os milhões de espécies de plantas, animais e micro-organismos que vivem e já viveram sobre a Terra descendem todos de um ancestral comum, que surgiu há mais de 3 bilhões de anos. Durante um século e meio reuniram-se inúmeras comprovações empíricas desses princípios. A universalidade do DNA, a substância presente no núcleo das células portadora de hereditariedade, é só uma delas.
É uma ideia poderosa, em sua simplicidade. Os organismos não são como são em obediência a um desígnio superior. Ao contrário, sua diversificação resulta do entrechoque de eventos inteiramente naturais -sobretudo mutações genéticas e modificações no ambiente- ao longo de um tempo muito profundo.
Compreende-se que esse modo de encarar a biosfera torne problemáticas outras explicações para a miríade de formas que povoam o mundo, como as inspiradas na literalidade de textos religiosos. Apesar disso, é possível conciliar o mecanismo da seleção natural com a noção de um Deus que o tenha criado.
O próprio Darwin, ateu ou agnóstico, jamais fez de sua teoria uma arma antirreligião. Essa é a caricatura que dele se construiu nos últimos 150 anos. Deixar-se arrastar por ela não faz jus à grandiosidade de sua visão da vida, que está na raiz do enorme avanço da biologia nas últimas décadas e que tanto fez para dissipar ilusões sobre o lugar da espécie humana no universo.

Editorial, Folha de São Paulo, 10/02/2009 - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1002200902.htm

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

"Me recuso a culpar as novas gerações"

Julio Groppa Aquino*


Professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, em São Paulo, Julio Groppa Aquino, 45 anos, desde o ano passado se incumbe de uma pesquisa monumental com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq): compilar e analisar toda a produção acadêmica brasileira sobre disciplina escolar surgida desde os anos 80. Com dois livros já publicados sobre o assunto, o especialista se considera uma voz dissonante em relação ao coro de educadores que vê nos alunos a origem dos conflitos em sala de aula.
Para Aquino, é preciso abandonar os “jargões educacionais” a fim de compreender mais corretamente os fenômenos que afetam as escolas brasileiras há pelo menos duas décadas – e critica duramente quem considera as novas gerações um entrave ao ensino.
Confira um resumo da entrevista concedida a ZH ontem, por telefone:
Zero Hora – Professores, famílias e diretores reclamam da dificuldade em manter a disciplina em sala de aula. O que está acontecendo?
Julio Groppa Aquino – Em primeiro lugar, observa que há um conluio muito bem-sucedido. Se todos reclamam da mesma coisa, há um óbvio ululante e perigoso. É uma verdade sem contradição nenhuma, pela qual parece que o problema da escola são os alunos. É um equívoco histórico.
ZH – Não há um agravamento da indisciplina nos últimos anos?
Aquino – A crise disciplinar começa nos anos 80. Isso tem a ver com a entrada na escola de personagens que durante 500 anos ficaram longe dela. Com isso, há uma descaracterização das práticas escolares, que até hoje se ressentem com esses alunos pobres. É uma espécie de indigestão da democratização escolar que ainda não foi equacionada.
ZH – Mas existem problemas concretos na sala de aula, não?
Aquino – Sim, gerenciados pela mentalidade de quem se defronta com eles. Hoje, temos problemas que não são diferentes de problemas que havia nos anos 50, mas naquela época se podia bater, excluir. Agora, esses conflitos têm uma escala diferente, outra dimensão, justamente porque aumentou assombrosamente o número de matrículas. Mas há um clima de pânico que revela um desconforto em atender os alunos.
ZH – As queixas incluem as escolas particulares...
Aquino – Nas particulares, você recusa matrícula, o que é uma contravenção, segue a lógica elitista pré-democratização. Na rede pública, tenta se lidar com o problema transferindo o aluno, fazendo uma dança das cadeiras. Na verdade, o que ocorre em todas as escolas é uma espécie de desincumbência do problema.
ZH – Por que isso ocorre?
Aquino – Você quer que eu diga o que todo mundo diz? Que as novas gerações são influenciadas pela internet, pelas novas tecnologias, que são diferentes? Todo mundo diz isso. A educação brasileira está coalhada de jargões. Um deles é o de que as crianças não têm jeito. Isso é a mesma coisa que dizer que o jornalismo impresso está mal porque não há leitores. Uma das tarefas do jornalismo é justamente formar os leitores. Óbvio que existem problemas disciplinares, mas eles são retroalimentados pela gestão escolar.
ZH – Como resolvê-los?
Aquino – Precisam ser resolvidos criativamente. Eu não tenho uma fórmula pronta para isso. É como querer resolver um problema conjugal. O que eu posso fazer é discutir o princípio, o princípio democrático das escolas. Quando educadores, em quase sua totalidade, dizem que não estamos sabendo lidar com as crianças, isso não é estranho? Não podemos dizer que elas não têm jeito. Há um subtexto conspiratório contra a criança e a juventude de parte dos educadores e repetido pela mídia.
ZH – Quais as consequências?
Aquino – Dizem que precisamos excluir crianças, mandar para conselho tutelar, mandar para a polícia. Isso é a morte da educação. Todos dizem que educar virou uma missão impossível. Então, fecha a bodega. Há um ninho de preconceitos e jargões nessa discussão. Liga para uma psicopedagoga e ela vai te dizer: “a criança padece de falta de limites”. Não podemos acusar a criança pelo que não sabemos fazer. Nós somos os educadores, caramba.
ZH – É necessária uma mudança de mentalidade?
Aquino – Tem um bando de educadores dizendo que não consegue educar. É a mesma coisa que você me dizer que não dá para ser jornalista no mundo de hoje. A educação é o setor mais em frangalhos no país, mas todo mundo acha que já fez a sua parte. Esse estado de calamidade interpessoal nas escolas não tem nada de trágico, nós é que provocamos. A educação que temos é a que nós fizemos. A mudança de mentalidade só se faz com choque de ideias. Não vou compactuar com o discurso de que as novas gerações são doentes. Então vamos parar de ter filhos. Ou só o filho dos outros que é doente? Me recuso a culpar as novas gerações.
*Julio Groppa Aquino, especialista em psicologia escolar da Universidade de Sao Paul (USP)
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2398403.xml&template=3898.dwt&edition=11676&section=1015 - 09/02/2009

Metamorfose

LUIZ FELIPE PONDÉ
Por que os clássicos são pessimistas?
Seria o trágico uma moda?
Três mil anos de moda?
AO SER indagado se não tinha esperanças, Kafka disse, "esperanças há muitas, mas não para nós". Janouch narra um dia em que ele, com 20 anos, disse a Kafka, então com 40, "hoje não estou entendendo nada do que você diz". Kafka respondeu "deve ser a misericórdia de Deus, porque sendo você jovem, e estando eu hoje pessimista, se você me entendesse, você ficaria mal". Confessa: "o pessimismo é meu pecado".
Por que os clássicos são tão pessimistas? Seria o trágico uma moda? Três mil anos de moda? Improvável. Na sua coluna de 21 de janeiro, meu colega ilustrado (velha piada entre nós) Marcelo Coelho critica "meu" pessimismo. Colunistas que "matam a esperança" são supérfluos. O bom jornalismo opinativo é pautado pelo conflito de ideias, por isso, agradeço suas críticas. Ele acha que ao duvidar do Iluminismo reforço forças regressivas na experiência humana. Eu penso que o Iluminismo é que é regressivo porque caminha sobre fantasias enquanto os homens caminham sobre tumbas. Nós modernos somos a raça mais covarde que caminhou sobre a Terra. Não escrevo para tornar a vida do meu leitor melhor. Escrevo e leio para não me sentir só. Quando olho os "avanços" da nossa minúscula história, penso: como nos verão em mil anos? Como a decadência do século 17? Rirão de nós porque demos direitos aos ratos, enquanto fizemos dos bebês lixo reciclável pelo direito de gozar mais? Respondo a pergunta "o que eu acho da Revolução Francesa?" com "ainda é cedo pra dizer qualquer coisa".
Imaginem dois africanos no século 19. Um vende o outro como escravo (negros vendiam negros). O escravo é levado para os Estados Unidos e lá sofre todo tipo de horror da escravidão. O outro fica livre e feliz na África. Adiantem o filme. O bisneto do escravo mora nos EUA, casa na praia, filhos na faculdade, e a esposa, bisneta de outro escravo, médica de sucesso. Voltem pra África. Muitos bisnetos do que ficou lá continuam a viver em seus buracos, matando-se do mesmo jeito (como acabou a escravidão, perderam a chance de vender seus "irmãos"). Famílias afundam na miséria. Qual é a moral desta história? Que a escravidão foi uma bênção para os afro-americanos porque os levou para os EUA? E a liberdade do outro, a maldição de seus bisnetos? Os afro-americanos, que hoje celebram a vitória do Obama, depois de muito sofrimento, diriam "ainda bem que nossos bisavós foram escravos"? Não! A escravidão é um horror. A questão é outra: qual o sentido da história humana? Nenhum. A história não é a luta entre a luz e as trevas. Não porque elas não existam, mas porque não sabemos identificar, com o microscópio das ideias claras e distintas de que dispomos, a trama infinita de suas relações. Um homem faz o que pode em meio a opacidade do mundo. Meu pecado é não fazer o marketing da democracia de massa. Falsos sentimentos são comuns nos homens, logo, quanto mais homens, maior a chance de mentira, por isso desconfio de bons sentimentos em grandes quantidades.
Mais? Os índios não vivem em comunhão com a natureza, apenas ficaram na idade da pedra em técnicas de domínio da natureza, como muitos africanos que ficaram na África. A ciência e a política tampouco fazem os homens melhores. O mundo não é dividido entre elite má e pobre bom. Se a elite é cruel, o povo é violento e interesseiro. Os homens não são iguais, alguns são melhores. A igualdade ama o medíocre. É mentira que todo mundo possa julgar as coisas por si só. A propaganda desta mentira gera uma horda de invejosos que sonham em destruir quem eles julgam livres. Supérfluo? Mentira. Num mundo parasitado pelo marketing como forma de vida, ser pessimista é um método. Não se trata de dizer morbidamente "o mundo é mau", mas reconhecer que no humano a verdade é uma ferida incurável. A esperança que conta é a do animal ferido.
Nada disso implica concordar com crianças mortas. O debate ao redor da esperança não é um problema do quão otimista somos, mas o que em nós nos faria colaborar com nazistas na França ocupada, além do medo. Manter o emprego? A chance de destruir alguém melhor do que eu? Tomar a mulher de alguém? Promoção pessoal? Nada mais banal, nada mais humano. Na "Metamorfose", Gregor Samsa, agora uma barata, vê a delícia que é caminhar de cabeça pra baixo com suas perninhas coladas ao teto. Sente-se finalmente feliz. A barata é a otimista em Kafka.
luiz.ponde@grupofolha.com.br
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0902200918.htm

A fé e a política, de Vieira a dom Helder

Mauro Santayana
As homenagens que se prestam à memória de dom Helder Câmara permitem algumas reflexões sobre a Igreja e o Estado, a fé e a política. Em um de seus grandes sermões, o da última sexta-feira da Quaresma, em 1662, na capela real de Lisboa, o padre Antonio Vieira vai ao Evangelho de João, para lembrar o Conselho formado dos principais sacerdotes e fariseus, contra Jesus. Era um tempo de passagem em Portugal, depois da morte de dom João IV, que se encontrava sob a regência da rainha Leonor, durante a menoridade de Afonso VI – mais tarde rei, depois incapacitado para o trono, por demência, e confinado nos Açores.

Afirmou Vieira que aquele Conselho servia de exemplo, pelo que havia tido de político e pelo que deveria ter tido de cristão: era necessário fazer alguma coisa contra Jesus, cujos sinais inquietavam. Se não o matassem, viriam os romanos e lhes tomariam toda a nação. Ponderaram ser melhor que um só morresse, do que todos estivessem perdidos. "Dos erros e acertos daquele conselho, diz o orador, determino formar hoje um espelho à nossa corte. Será este espelho de tal maneira político para os cristãos, e de tal modo cristão para os políticos, que se possa ver nele um conselho, e um conselheiro, e também um aconselhado". E fecha o exórdio, ao anunciar que seria bastante claro e rigoroso em seu sermão: "Se for muito liso, e muito claro, isso é ser espelho". O pregador se arriscava, ao afirmar que, naquele episódio bíblico, como políticos, os sacerdotes e fariseus não haviam errado de todo. Três anos mais tarde, ele seria preso pela Inquisição.
Dom Helder Câmara foi sacerdote e político, como fora Vieira, mas provavelmente mais cristão do que o grande pregador, que parecia mais português do que cristão. Relembro encontro que tivemos em Bonn, quando o Brasil se encontrava no pior momento do governo militar. Contou-me que, jovem padre, fora chamado, no mesmo dia, para celebrar a extrema-unção a dois paroquianos agonizantes: um morria de inanição crônica, o outro, de apoplexia, depois de um almoço farto e regado a álcool. "Naquele dia, tomei meu partido". Inúmeros outros sacerdotes, seguindo a Teologia da Libertação, tiveram a mesma posição, no Brasil e em outros países, nas horas em que ser cristão na América Latina era tão perigoso como ser cristão na Palestina sob Tibério, e em Roma sob Nero, ou ser palestino hoje. Lembrar o nome de todos é impossível, tantos foram e tantos continuam lutando contra a injustiça – e este é o caso de dom Arns e dom Pedro Casaldáliga. Alguns chegaram ao martírio na América Latina, e um deles, dom Oscar Romero, marcou o início do reinado de João Paulo II, que – preocupado em derrubar o regime polonês, limitou-se a uma simples mensagem de condolências. Não podia ir além – já estava associado aos norte-americanos.
A Igreja sempre foi política, desde Constantino, mas há épocas em que nela prevalecem sentimentos cristãos, como ocorreu durante o reinado de Roncalli. Sem embargo disso, o atual papa, Bento XVI, está transformando seu predecessor, o cardeal Wojtyla, em homem moderado. Wojtyla não se arriscara a santificar o fundador da Opus dei, não fizera de 400 franquistas beatos, e tomara a decisão de excomungar os seguidores de Lefebvre, em 1988.
De um lado, parece correta a sua posição contra a eutanásia, no caso da jovem italiana. Como político e como cristão, ele está certo em condenar os massacres contra os palestinos. Como cristão e político, tem o dever de voltar atrás de sua decisão, e manter a excomunhão de Richard Williams, que nega o Holocausto. O nazismo atingiu os judeus, mas vitimou também cristãos e comunistas, ciganos e eslavos. Ao negá-lo, suaviza o crime diante da História. O bispo inglês se recusa a admitir seu erro, e diz que vai "pensar no assunto", em entrevista que concedeu a Der Spiegel, e foi conhecida sábado.
Podemos ser cristãos e exercer a política, como têm feito tantos sacerdotes e tantos leigos. Mas, nesse caso, é preciso que o ato político do cristão esteja de acordo com os mandamentos de Cristo, e não conforme as conveniências temporais das igrejas, seja a católica, sejam as outras confissões. O Estado brasileiro é laico. Sendo assim, o ensino de História Natural deve ter como base a ciência, e não a fé, como pretendem alguns. A fé se transmite nos templos, o conhecimento, nas escolas.
http://ee.jb.com.br/reader/clipatexto.asp?pg=jornaldobrasil_117672/106297 09/02/2009

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Badulaque 134

Rubem Alves


Ideias Fortes: Nos tempos em que eu praticava a feitiçaria chamada psicanálise estava atendendo uma paciente e ela disse:“
— É, eu tenho ideia fraca...”
Num tom de brincadeira interferi:“
— Alto lá! Nessa sala somente eu tenho ideias fracas...”
Ela ficou espantada e não entendeu.
Aí eu expliquei: “Eu penso as mesmas loucuras que você pensa...”
Levantei-me e a chamei para ir ver o quadro de Hyerônimus Bosch Jardim das Delícias. É uma loucura completa. De onde Bosch tirou aquelas coisas medonhas? De dentro de sua própria cabeça. Quer dizer: a cabeça de Bosch era morada de loucuras, um hospício. Mas ele não era louco. Era um artista, pintor. Ele não era louco porque suas idéias eram “fracas”. Ele sabia que não eram verdades. Só existiam na sua cabeça. Agora, se ele pensasse que suas idéias eram realidade, ele gritaria de horror.
“Eu penso as mesmas coisas estranhas que você”, continuei. Mas sei que são só pensamentos, nuvens brancas levadas por uma brisa. Sou dono deles. E com eles eu faço literatura. Mas os seus pensamentos são fortes. As nuvens brancas se transformam em nuvens negras, e chove, com trovões e relâmpagos, e você fica toda molhada. Você não é dona deles. Eles são mais fortes que você... Você fica “possuída”, por eles...”
Minha música
Dizem que a razão por que se embalam as criancinhas em ritmo binário é porque durante nove meses ouvimos a pulsação binária do coração da nossa mãe. O ritmo binário do coração da mãe se inscreve no corpo da criancinha como uma memória tranqüilizadora. Se isso é verdade tem de ser verdade também que a música ouvida em tempos anteriores à memória consciente, no sono fetal, torna-se parte na nossa carne. Comecei a ouvir música antes de nascer. Minha mãe era pianista e tocava. A música clássica é parte da minha carne.
Não é meu costume ouvir música enquanto escrevo. Fico possuído pela música, numa espécie de êxtase, e isso faz parar meus pensamentos. Contrariando o meu hábito coloquei no aparelho de CD uma peça que nunca ouvira, sonata para violino e piano de César Frank, autor de Panis Angelicus. Minutos depois eu estava chorando. Aí interrompi o choro e fiz um exercício filosófico. Perguntei-me: “Por que é que você está chorando?” A resposta veio fácil: “É por causa da beleza...” Continuei: “Mas o que é a experiência da beleza?” Sem uma resposta pronta veio-me algo que aprendi com Platão. Platão, quando não conseguia dar respostas racionais, inventava mitos. Ele contou que, antes de nascer, a alma contempla todas as coisas belas do universo. Essa experiência é tão forte que todas as infinitas formas de beleza do universo ficam eternamente gravadas na alma. Ao nascer nos esquecemos delas. Mas não as perdemos. A beleza fica em nós, adormecida como um feto. Todos estamos grávidos de beleza, beleza que quer nascer para o mundo qual uma criança. Quando a beleza nasce reencontramo-nos com nós mesmos e experimentamos a alegria.
Agora vem a minha contribuição. Continuo o mito. Há seres privilegiados — eles bem que poderiam ser chamados de anjos — aos quais é dado acesso a esse mundo espiritual de beleza. Eles vêem e ouvem aquilo que nós nem vemos e nem ouvimos. E eles transformam então o que viram e ouviram em objetos belos que o corpo pode ver e ouvir. É assim que nasce a arte. Ao ouvir uma música que me comove por sua beleza eu me reencontro com a mesma beleza que estava adormecida dentro de mim.
“Quando te vi amei-te já muito antes. Tornei a encontrar-te quando te achei.” Essa é a mais bela declaração de amor que conheço, escrita pelo anjo Fernando Pessoa. Tu já estavas dentro de mim antes que te encontrasse. O nosso encontro não foi encontro; foi reencontro... Isso que o poeta diz para um homem ou uma mulher pode ser dito também para uma música: “Quando te ouvi, ouvi-te já muito antes. Tornei a ouvir-te quando te ouvi...”
O que me comoveu, então, não foi a música de César Frank. Foi a sonata que estava adormecida dentro de mim e que a sonata de César Frank fez acordar. Ao me comover com a beleza da música eu me reencontro com a minha própria beleza. Por isso a música me traz felicidade...
*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador. Correio Popular,Campinas,SP, 08/02/2009
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1619150&area=2220&authent=74DEA99ED6730274FCA9BCD6510256

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O protetor

Os homens, quando superam suas desconfianças naturais, procuram organizar-se (induzidos pelo instinto e pela razão), de forma a que cada um possa realizar livremente suas potencialidades, cooperando para que todos possam fazer o mesmo sob a proteção do conforto e da segurança que a organização lhes dá. Mas eles têm de resolver um problema não trivial: como, coletivamente, prover a subsistência material?
O longo processo de seleção produzido pela interação da diversidade genética e a capacidade de adaptação às variações da natureza foram, paulatinamente, transformando o animal-homem, reduzindo a sua animalidade e ampliando a sua humanidade. Foi assim que o animal-homem chegou, em 200 mil anos, ao homem-animal de hoje. Nessa dramática construção, ele experimentou tudo e descobriu algumas coisas fundamentais:
1. O cimento que torna possível a sociedade é a confiança depositada por seus membros entre si. Ela é reforçada por instituições adequadas, garantidas por um Estado (consentido) necessário, que precede a organização social.
2. A confiança é a base para a divisão do trabalho, que amplia dramaticamente a produtividade de cada um pela sua especialização.
3. Como cada um produz para satisfazer as necessidades dos outros, isso exige a organização de mecanismos de troca dos produtos do trabalho. Ou seja, o estabelecimento de equivalência entre eles (preços) e a criação de uma unidade universal de medida (a moeda) e seu prolongamento fundamental (o crédito). Esses, por sua vez, dependem essencialmente da confiança que lhes imprime o Estado.
4. Se o Estado garantir que cada um pode apropriar-se livremente dos benefícios de sua iniciativa, os produtores (também consumidores) tendem a se autoorganizar naturalmente em mercados. Daí a oferta de cada produtor (resultado do seu trabalho) e a demanda de cada consumidor (dos múltiplos trabalhos dos outros) acabam estabelecendo (surpreendentemente) um sistema de equivalência (de preços) que as acomoda.
5. A proteção pelo Estado dos benefícios derivados da liberdade de iniciativa e da capacidade inventiva e inovadora de alguns homens (os empresários) incorpora novas tecnologias e avanços da ciência no processo produtivo que substituem o esforço físico (o trabalho manual do homem) pelo consumo da energia.
6. Essa organização, protegida por instituições sustentadas por um Estado constitucionalmente forte, permite ao homem usufruir da liberdade individual e diminuir o tempo necessário à sobrevivência material.
7. A combinação da liberdade com a eficiência produtiva por meio dos mercados apresenta dois problemas: o nível da atividade produtiva tende a flutuar insitamente e, sendo altamente competitiva, ela tende a ampliar as diferenças de renda entre as pessoas, cuja solução exige a intervenção corretiva da própria sociedade representada no Estado.
Essa história mostra que o Estado precede e sustenta a confiança, condição básica para o bom funcionamento do circuito econômico (em que o dispêndio de um é a renda do outro). Quando, por qualquer motivo, ela é destruída, como na crise que estamos vivendo, sua reconstrução exige a mais radical intervenção temporária do Estado na economia. Quando ele é controlado por uma Constituição que garante a propriedade privada e a liberdade individual, isso não coloca em risco as virtudes do sistema (liberdade individual mais eficiência produtiva).
Talvez a solução da atual crise da confiança no sistema financeiro exija uma solução cirúrgica: nacionalização dos bancos sem indenização aos acionistas, responsabilização dos administradores, segregação do resíduo podre numa agência especial e imediato leilão da parte hígida para novos controladores. Nos países civilizados e com democracias consolidadas, não há risco para o sistema. Naqueles, entretanto, em que tal condição não se verifica, a solução apresenta graves riscos para as liberdades individuais: o monopólio do crédito nas mãos do Estado é uma tentação insuperável para obter o monopólio do poder.
A economia de mercado, cujo codinome é capitalismo, é um corpo vivo que se adapta e regenera. Combinando a liberdade individual com a eficiência produtiva revolucionou o bem-estar do mundo nos últimos 250 anos, depois de milhares de anos de estagnação. O capitalismo precisa e merece aperfeiçoamentos. É muita ignorância histórica propor que podemos substituí-lo, com uma mudança radical e sem o risco de perder, primeiro, a eficiência e, logo depois, a liberdade.
*Delfim Netto, economista e colunista da Revista Carta Capital.
http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=3327 - o6/02/2009

Parece, mas não é

CLÁUDIA LAITANO

Crianças de hoje em dia dizem palavras difíceis com a tranquilidade de quem masca chiclete (“inconstitucionalissimamente” já não quebra a língua de ninguém, façam o teste...), começam a ler em inglês sem que ninguém ensine e aprendem a mexer no computador muito antes de tirar as fraldas. São seres complexos esses meninos e meninas deste começo de século. Informação em excesso, rapidez de raciocínio, um mundo de ideias alheias ao alcance de um Google, tudo isso acompanhado de uma certa arrogância – que é o efeito colateral da inteligência quando falta a sabedoria. Invencíveis no videogame e hábeis em tarefas que ainda parecem complicadas para a maioria dos adultos, como montar em cinco minutos um powerpoint cheio de efeitos mirabolantes, as crianças parecem sempre prontas a jogar na cara dos pais a constatação de que são elas que dominam as regras do jogo – pelo menos no que diz respeito ao onipresente universo da tecnologia.
Para os adultos, é fácil confundir os garotos espertos de 10 anos com um adolescente de 15. Eles às vezes ouvem as mesmas músicas, jogam os mesmos jogos, até leem os mesmos livros – caso de séries como Harry Potter e Crepúsculo. Tudo que uma criança quer, aos 10 anos, é ser tão bacana quanto o primo de 15 – enquanto o pessoal de 15, 20, 25 não parece com pressa nenhuma de sair do ninho. É como se existisse de repente uma superlotação de gente na adolescência: as crianças que estão acelerando a saída da infância, os adolescentes que adiam ao máximo as responsabilidades da vida adulta e ainda os adultos que se esforçam para voltar no tempo. Mas a fantasia peter-pânica de ter eternamente 15 anos é apenas isso: um sonho, uma fachada. Se uma bela e jovial senhora de 40 anos tatuar um dragão nas costas, usar uma minissaia de ursinhos e um par de passadores da Hello Kitty no cabelo nem assim será confundida com uma adolescente. Algumas marcas do tempo nem o Pitanguy apaga.
Com as crianças é mais ou menos a mesma coisa. Por mais descolados, espertos ou sexualmente precoces, não deixam de ser o que são: pessoas em idade de desenvolvimento, afetivamente imaturas e incapazes de tomar decisões que podem ter um impacto em suas vidas que elas ainda não têm condições de dimensionar. E crianças devem ser protegidas de tudo aquilo que ainda são incapazes de resolver sozinhas – pelos pais, pela escola e, em última instância, pela lei e pelo Estado. Por esse motivo, há leis que obrigam que frequentem a escola, que não trabalhem, que no caso de um crime não sejam tratadas como adultos.
Para o desembargador Mario Rocha Lopes Filho, relator do processo que considerou que a relação sexual consentida entre uma adolescente de 12 anos e um homem de 20 não é estupro presumido, a norma em vigor está desafasada e precisa ser relativizada. Ele argumenta que, em alguns casos, meninas com menos de 14 anos de hoje em dia já têm capacidade de decidir sobre sua vida sexual – partindo desse ponto de vista, meninas de 12 anos deveriam poder decidir também se estudam ou não e se trabalham ou não, suponho.
Em um país em que a gravidez precoce é endêmica, essa decisão pode ser considerada um enorme desserviço em termos de saúde pública. Mas o que se percebe nessa leitura das meninas de “hoje em dia” não é apenas um equívoco social, mas psicológico. Há uma brutal confusão entre forma e conteúdo, entre essência e aparência. Adulto não é quem parece adulto, fala como adulto e diz que é adulto. Maturidade, inclusive para cuidar do próprio corpo e lidar com as consequências de uma gravidez, é outra coisa. Algumas meninas têm a sorte de contar com a orientação dos pais e da escola. Outras não – e essas, infelizmente, às vezes não podem contar nem com a proteção da lei.

Novas páginas a escrever na história dos e-books

MARK COKER

Especialista americano diz
que crise
fará autores assumirem
a edição

Cláudio Soares*

De segunda-feira a sábado, tem lugar em Nova York a terceira Tools of Change for Publishing Conference, encontro em que são debatidas as ferramentas tecnológicas que estão mudando o setor editorial americano ­ e, é claro, do mundo. Mark Coker, fundador de uma das principais empresas de autopublicação de escritores independentes do Vale do Silício, a Smashwords, é uma das estrelas do evento, no qual coordenará o painel "The Rise of E-books". Nesta entrevista, ele fala sobre a mudança de postura que o crescimento dos livros eletrônicos, comprovado por pesquisas recentes nos Estados Unidos, deve provocar em editoras e escritores.

De acordo com pesquisa publicada pela American Association of Publishers [AAP], os e-books ascenderam novamente, gerando crescimento anual nas vendas de 55% entre 2002 e 2007, versus o anêmico crescimento no comércio global de livros, de apenas 2,5%. Segundo o International Digital Publishing Forum [IDPF], a venda de e-books nos Estados Unidos cresceu 108% em novembro, enquanto as vendas globais da indústria diminuíram. O que representa esse aumento de interesse nos e-books, e como eles cabem nas estratégias para edição digital? ­
Dez anos atrás, havia uma grande agitação a respeito de como e-books mudariam o mundo. Mas eles falharam no cumprimento de tais expectativas e foram considerados um fracasso. Falharam por diversas razões: primeiro, foram penalizados por usarem esquemas de Digital Rights Management [DRM, ou Gerenciamento de Direitos Digitais] para evitar cópia ilegal. Clientes odeiam o DRM, por tratá-los como criminosos e limitarem a sua capacidade para usufruir dos livros. Em segundo lugar, a tecnologia das telas ainda não estava suficientemente avançada para oferecer uma experiência agradável de leitura. Além disso, os preços eram demasiado elevados. Os editores tentavam cobrar por um livro digital o mesmo preço de livros impressos de capa dura. Por último, havia disponibilidade limitada de conteúdo. Hoje, começamos a ver esses problemas resolvidos ou melhorados. Editores que pensam à frente começam a dispensar o DRM, mas ainda temos um longo caminho pela frente. A tecnologia das telas melhorou drasticamente em todos os dispositivos, incluindo os leitores dedicados aos e-books, como Kindle e Sony Reader, os telefones inteligentes, como o iPhone, e os computadores pessoais de baixo custo. Os preços caíram, mas ainda precisamos de mais progressos. Por isso, é claro, a quantidade de conteúdos disponíveis no em e-books está explodindo.
Em seu artigo `A ascenção dos e-books', publicado no final de janeiro no Teleread.org [blog dedicado aos e-books, bibliotecas digitais e tópicos relacionados], o senhor afirmou que os autores precisam começar a expor os seus livros nos domínios digitais. Por que isso é tão importante? ­
A indústria editorial passa por uma dramática mudança, especialmente nos EUA. A desaceleração econômica mundial tem exacerbado os problemas estruturais fundamentais que já existem há muitos anos. Como resultado, do lado dos editores, provavelmente veremos uma maior fusão entre as empresas (haverá poucas grandes), menos editores se expondo a grandes riscos com autores desconhecidos, e primeiras tiragens menores. Do lado da distribuição e vendas, veremos uma consolidação maior entre as livrarias, o que nos Estados Unidos significará menos lojas e menos prateleiras exibindo livros impressos. À medida que os e-books começarem a representar um aumento percentual nas vendas, é possível que isso aconteça à custa da venda de livros impressos. Mesmo se um, dois ou três pontos percentuais de vendas de impressos passem para os livros eletrônicos, as livrarias sentirão um impacto muito grande sobre os seus negócios, porque muitas lojas já estão lutando para manter o lucro. Entretanto, ainda não entendemos bem o impacto que os livros eletrônicos terão sobre os impressos. Se por um lado é possível que os e-books canibalizem as vendas dos impressos, também é possível que o efeito líquido seja que as vendas dos e-books ajudem a impulsionar as vendas de livros impressos, à medida que os leitores desejem adicionar edições impressas às suas bibliotecas. Tais mudanças terão um impacto dramático sobre os autores. Estamos prestes a ver muitos escritores talentosos ficarem órfãos de editores. Veremos também ser negada a estreantes talentosos a oportunidade de publicar em formato impresso nas principais editoras. Os blogs oferecem um roteiro útil para o que poderá acontecer com a autoria de livros digitais. Muitos dos primeiros blogueiros de cinco a dez anos atrás agora estão entre os mais populares da internet. O mesmo acontecerá com os autores.

Como é que os e-books socialmente publicados resolvem o problema dos custos dos livros? ­
Livros impressos são um luxo caro, menos para os habitantes literatos mais ricos do mundo. Quando você olha a tradicional cadeia de abastecimento para um livro impresso, vários intermediários adicionam custos para o livro à medida que este faz o seu caminho do autor ao leitor. Muitos livros seguem o fluxo autor-agente-editora-gráfica-distribuidor-li vreiro-cliente e, em seguida, há o custo do transporte de todos esses livros-feitos-de-árvores-mortas para frente e para trás. Quando um autor autopublica seu livro em formato digital, gera um colapso dramático na tradicional cadeia de abastecimento. Em muitos casos, a nova cadeia torna-se autor-cliente ou autor-livraria on-line-cliente ou, ainda, autor-distribuidora on-line-livraria on-line-cliente e, desde que bits e bytes digitais custam praticamente nada para serem enviados pela internet, grande parte do custo do livro é eliminado. Isso significa que autores de e-books autopublicados podem oferecer seus livros a um custo drasticamente menor por cópia, enquanto fazem um lucro maior por unidade. E quando o preço de qualquer coisa diminui, significa que o produto é comprável por um leque maior de clientes.

Que novas práticas comerciais os editores tradicionais deveriam adotar? ­
Os editores precisam digitalizar rapidamente os seus catálogos, derrubar o DRM e adotar estruturas de preços mais razoáveis para seus livros digitais. Devem experimentar diferentes metodologias de venda digital. Podem considerar a oferta de assinaturas de seus catálogos, ou subgrupos de catálogos, ou ofertas de pacotes, ou combinar seus livros impressos com e-books. Há todo um número de permutações possíveis. É importante que os editores comecem a experimentar agora a ver o que funciona melhor para os seus negócios, seus autores e clientes.

Na indústria da música, temos visto um grande movimento em direção aos artistas indie que alavancam a democratizar a produção, comercialização e venda de música na internet. Isso começa a aparecer no mercado de livros. O que essa tendência pode significar para as editoras tradicionais? ­
A maioria dos autores foi treinada para acreditar que o melhor método de publicação é com uma editora tradicional. Admiro o inestimável papel dos editores de encontrar os melhores autores, cuidar deles e viabilizar sua distribuição. No entanto, com os novos desafios, elas estão sendo menos capazes de investir neste serviço. Isso significa que alguns autores talentosos serão marginalizados. Um número crescente de autores percebe que o ônus da publicidade do livro está caindo sobre seus ombros. À medida que as editoras passem essa responsabilidade para os autores, estes vão começar a perceber que podem se tornar seus próprios editores.

Kevin P . Casey/The New Y o rk Times
*Escritor, analista de TI e editor do Pontolit (www.pontolit.com.br)
Íntegra no blog do Ideias (www.jblog. com.br/ideias.php)
http://ee.jb.com.br/reader/zomm.asp?pg=jornaldobrasil_117670/106195 07/02/2009

Amores e Cifras

JOAQUIM ZAILTON BUENO MOTTA
A bonita esposa nem percebia o real motivo daquele comportamento, mas vivia se escondendo em um aposento dos fundos, evitando os cômodos bem decorados da sua elegante casa. Na planta original, seria dependência para uma funcionária doméstica, mas agora ela o transformara em um quarto de costura, ali permanecendo por várias horas, todos os dias.
Quando o casal recebia parentes ou visitas, ela servia um café e logo se retirava, anunciando que agora era dona-de-casa e tinha que “cuidar dos cortes”. O marido notou a tendência e, inicialmente, provocou-a com brincadeiras, dizendo nunca ter imaginado casar-se com uma costureira... Depois, começou a se preocupar, pois ela tinha escolaridade de pós-graduada e nunca antes prezara essas funções. Ele insistiu em que ela procurasse ajuda.
Na terapia, a moça disse que conhecera o marido na empresa onde trabalhou até o casamento, que ele era um dos sócios e que ela havia se casado por interesse. E ainda expressava que o único lugar daquela casa que lhe cabia era o “quarto de empregada”.
Ao longo do decurso psicoterapêutico, ela conseguiu dimensionar a extrema idealização que fazia do amor. Na sua perspectiva, se amasse o marido, não poderia se entusiasmar por nenhuma sofisticação ou luxo que ele proporcionasse.
Um livro publicado recentemente nos EUA, The Secret Currency of Love (A Moeda Secreta do Amor), compilado pela jornalista e escritora Hilary Black, realça o confronto entre amor e dinheiro, mostrando a dificuldade dos pares (especialmente das mulheres) conversarem sobre a vida financeira.
Idealizar o afeto pode prejudicá-lo significativamente. Imaginando amar de modo imperfeito (o que é normal e óbvio para nós, seres humanos), a pessoa pode desistir de uma relação que contém o mínimo afetivo necessário para se viabilizar. E o pior: jamais conseguirá aprimorar esse nível.
Os interesses materiais embutidos nos vínculos são os referenciais que determinam as falhas afetivas, dentro dos paradigmas da cultura ocidental baseados na moral judaico-cristã e inspirados na moção romântica.
Oscar Wilde, dramaturgo, escritor e poeta irlandês, expoente da literatura inglesa durante o período vitoriano, enfrentou a intolerância e o puritanismo da época. Uma de suas mais interessantes sentenças ilustra bem o maniqueísmo dos indivíduos que oscilam entre o dinheiro e o sentimento: “De um lado, os cínicos, que conhecem o preço de tudo, mas não sabem o valor de nada; de outro, os sentimentais, que vislumbram um valor incomensurável em tudo, mas não sabem o preço de nada”.
As idealizações do amor apontado como perfeito à medida que seja isento de interesse material são focos de muitas novelas em que os protagonistas abrem mão de riqueza financeira, cargos, cetros. Quase sempre, porém, o final feliz inclui a reconquista do trono, uma herança inesperada, induzindo à conclusão de que esses ideais estarão contemplados exatamente pelo que devem desvalorizar...
Os enredos da realidade também se sujeitam a esses estigmas. Nos eventos do GEA (Grupo de Estudos sobre o Amor) — interaja no site www.blove.med.br —, solicitamos uma colaboração voluntária para ajudar nas despesas. Esse pedido já foi criticado como antagonismo ao afeto!
O ex-reitor da Unicamp, José A. Pinotti, em artigo recente no Correio, comenta: “Talvez a síntese — como diria Hegel na sua teoria dialética historicista da tese antítese e síntese — é o que deveria acontecer agora, ou seja, aproveitar a crise para sairmos dela com algo diferente: mais valor ao trabalho e ao conteúdo das pessoas menos ao capital; educação e saúde como direito e não como mercadoria; vida digna a todos, mais cidadania e menos ditadura apócrifa do capital.”.
O amor se aperfeiçoa à medida que reconhecemos nossa capacidade limitada e imperfeita de amar.

*Joaquim Zailton Bueno Motta é médico psicoterapeuta e sexólogo.
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1619060&area=2190&authent=7E743BBFEEFBB246E6032DD6698AD4

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Do território aos tempos líquidos

Osvino Toillier*
Quando se tem um problema, corre-se o risco de escolher um boneco e bater nele. Para evitar isso, creio que se precise analisar o cenário e avaliar a repercussão das mudanças em todos os níveis da sociedade, evitando simplesmente encontrar culpados.
Subliminarmente, transcende das declarações de entrevistados e articulistas certa saudade da boa escola tradicional, com horário ampliado, respeito ao professor e disciplina clara, conteúdo forte, exigência de estudo, enfim, era o tempo das certezas. Ia-se à escola para aprender, e o professor desdobrava a aula com competência e sabedoria. Sou fruto desse paradigma, muito grato por tudo que me ensinaram e, de certa forma, trabalhei com esse modelo, introduzindo inovações que as transformações sinalizavam, levando à sala de aula novos procedimentos, sem nunca esquecer as antigas e boas práticas.
Queiramos ou não, estamos há muito vivendo transformações profundas e mudanças radicais. É preciso dar-se conta de que temos novo aluno na sala de aula, turbinado por estímulos, que o fazem estar plugado em diversas coisas ao mesmo tempo, não mais disposto a apenas ouvir o professor e prestar atenção nas explicações. Possivelmente tenha consigo celular, verdadeira central de multimídia.
Algumas inovações, como micro-ondas, computador, celular, mudaram a cara do mundo, e não dá para desconhecer essa realidade na análise do comportamento de crianças e jovens em sala de aula. Eles são fruto de novo tempo, e cada geração imprime novas formas de ser ao universo de suas vidas.
A travessia do território das certezas para os tempos líquidos – em que tudo se torna volátil e relativo – é de penosas indefinições. No dizer, Sygmunt Bauman, “o novo padrão de vida líquido-moderno, permanentemente transitório, está sendo testado e pesquisado”. E nessa passagem se decompõem e dissolvem mais rapidamente valores consagrados do que se leva para construir referenciais para novo tempo, o que necessariamente não precisa significar que as verdades de outrora precisam ser jogadas fora do barco.
Temos de retomar, urgentemente, algumas questões fundamentais: a sala de aula deve ser o reator da usina nuclear chamada escola; o professor deve voltar a ser autoridade prestigiada por todos e ter consciência de que se impõe novo jeito de dar aula; aluno não é cliente, é educando e como tal precisa ser tratado; avaliação externa é importante, mas não pode ser o único parâmetro, há coisas que não se medem com régua e compasso na educação; sem corpo docente motivado e valorizado, não existe projeto de educação que dê certo; tornamo-nos aprendizes para o resto de nossas vidas, e isto implica atualização permanente.
Educação é projeto de Estado e não de governo, e precisa desplugar-se de viés ideológico-partidário e corporativo e, sobretudo, tornar-se projeto de sociedade, incluindo as diversas vertentes da livre- iniciativa.
*Presidente do Sinepe/RS
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2395258.xml&template=3898.dwt&edition=11650&section=1012 -06/02/2009