quinta-feira, 19 de março de 2009

Coisa de homens

CONTARDO CALLIGARIS*
Os atiradores parecem agir
na tentativa desesperada
de se levarem
a sério

DUAS notícias na Folha de quinta passada. Em Wendlingen, Alemanha, Tim Kretschmer, 17, saiu de casa com uma Beretta 9 mm e 200 cartuchos. O pai do jovem colecionava armas, todas legais e bem guardadas, salvo a fatídica pistola, que estava na gaveta de um cria- do mudo.
Kretschmer matou 15 pessoas, no colégio do qual ele tinha sido aluno, ao longo da estrada e numa revenda de carros, onde ele, enfim, suicidou-se. Em sua grandíssima maioria, os alvos eram femininos. Kretschmer não tinha um rancor especial pela escola onde se formara e, campeão de tênis de mesa, não era marginalizado socialmente.
Em Kinston, Alabama, EUA, Michael McLendon, 28, matou dez pessoas, começando pela mãe. McLendon (com dois fuzis, uma pistola e uma espingarda) eliminou uma lista de parentes que, aparentemente, ele detestava. As autoridades declararam: "Ele não tinha sido demitido, não houve rompimento amoroso. Ele não tinha ficha criminal nem história de distúrbios mentais". Os assassinatos em massa já são uma tradição nos EUA (desde o massacre de Columbine, em 1999) e na Alemanha (desde o massacre de Erfurt, em 2002). Mas a epidemia começou na Escócia, em 1996, com a morte de 16 crianças e um professor (mais o assassino, suicida).
E houve duas manifestações na Finlândia (nove mortos em 2007 e 11 em 2008). Isso sem contar o Iêmen, em 1997, com a morte de seis crianças e dois adultos. Claro, a mídia facilita a identificação por contaminação: de país em país, o comportamento extremo de alguém se torna "exemplar" para outros. Mas isso não nos diz a razão da série, apenas explica sua possibilidade.
A cada vez, a gente se pergunta o que pode levar alguém a sair matando. Uma patologia? Um evento inadmissível? A sensação de uma exclusão irremediável? A história de cada atirador é diferente.
Alguns eram de classe média, outros de classes menos favorecidas. Alguns pareciam ter um brilhante futuro, outros acabavam convencidos de que o mundo não era lugar para eles. Entre esses, havia os que execravam sua exclusão e os que a curtiam como se fosse um privilégio. Alguns sofriam de depressões ou transtornos mais graves, mas não todos.
Será, então, que a série de horrores corresponde a um traço cultural? E lá vamos nós, reinventando banalidades sobre o "horror" moderno. Seja como for, diante dos massacres, é difícil não procurar denominadores comuns. Por exemplo, esses gestos homicidas e suicidas são propositalmente públicos. Não se trata de alvejar os passantes a partir de uma janela escondida: a matança é teatral.
Como se, para os atiradores, encarnar o anjo da morte (dos outros e deles mesmos) fosse uma demonstração, uma prova, que deve valer aos olhos de todos. Uma prova de quê? Pois é, os atiradores são sempre homens. O que eles querem provar? A identidade da gente é um tecido de imagens incertas; nesse jogo de espelhos, há poucos atos "reais", que possam dizer a que viemos sem que seu sentido dependa do olhar dos outros.
Como dizia um psicanalista famoso, é possível que haja só dois atos dessa qualidade: dar à luz e morrer. Claro, para os "meninos" só sobraria morrer. Mas acrescento: morrer e, talvez, matar. Atrás da singularidade de suas razões, os atiradores parecem agir numa tentativa desesperada de se levarem a sério e de serem, enfim, levados a sério. Algo assim: "O mundo me desprezará, mas, diante de meu ato, não poderá negar que sou um "macho de respeito'".
Faz décadas que a masculinidade está doente: sofre de uma incerteza aguda sobre o que a demonstraria de maneira irrefutável. As máscaras masculinas herdadas do século 19 (do provedor de paletó ao garimpeiro) não bastam mais. Qual é a nova fronteira que é preciso desbravar para "ser" homem? Na aurora da modernidade, Hegel escrevia que o desprendimento em encarar a morte era a marca do mestre. Depois de dois séculos higienistas, que fizeram a apologia da sobrevivência a qualquer custo, nestas décadas em que arriscar a vida num esporte extremo é apenas um entretenimento televisivo, talvez, aos olhos de alguns, a verdadeira marca do mestre pareça ser o desprendimento em matar.
Num dos romances de Jean-Patrick Manchette (não lembro mais qual), um jovem circula de carro pelo bulevar periférico de Paris. Ele carrega uma pistola e, enquanto dirige, sussurra: "Eu vou lhes mostrar que sou gente grande".
ccalligari@uol.com.br
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1903200924.htm -19/03/2009

terça-feira, 17 de março de 2009

"...nunca houve tanta riqueza e tantos pobres como agora".

François Houtart
Foro Diamantino*

O sociólogo belga François Houtart (Bruxelas, 1925), uma das vozes mais radicais do movimento antiglobalização cristão, inaugurou o curso do Centro Mediterrâneo da Universidade de Granada ‘O caminho que estamos vivendo’, no qual participam destacados intelectuais, como Federico Mayor Zaragoza, Carlos Tablada, Joaquín Estefanía, José Vidal-Beneyto e Riccardo Petrella. Houtart, delegado especial do presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas para a Reforma do sistema Financeiro e Monetário, fundador do Centro Tricontinental da Universidade Católica de Lovaina.
- Como vê a crise atual?
- Fala-se muito de crise financeira; porém, ela é um epifenômeno de um problema muito mais grave que é a lógica da organização econômica mundial. Há uma convergência de diversas crises: alimentar, energética, climática, social, humanitária, ecológica...

- Como será essa ‘sociedade do futuro’ da qual o senhor fala no curso?
- A sociedade do futuro tem que ser pós-capitalista e somente pode ser construída sobre quatro grandes eixos. Primeiro, uma relação de respeito e não de exploração com a natureza. Na prática, significa declarar a água e as sementes patrimônio universal e não permitir sua privatização. O segundo eixo é privilegiar o valor de uso sobre o valor de troca, o que significa que os produtos e os serviços teriam que ser desenvolvidos em função das necessidades e não do usufruto. Estamos em uma situação absurda: nunca houve tanta riqueza e tantos pobres. Para a acumulação do capital é mais interessante desenvolver de maneira espetacular 20% da população mundial do que produzir bens e serviços para os demais 80% que não têm poder de compra. O terceiro eixo é a democratização da sociedade, não somente no campo político, mas em todas as relações sociais coletivas: na economia, nas instituições da saúde, da educação, no esporte e na religião, entre homens e mulheres... E o quarto eixo é a multiculturalidade: a possibilidade de que todos os saberes, filosofias e religiões contribuam para a construção social coletiva. Até agora, identificamos desenvolvimento com ocidentalização e os saberes tradicionais têm sido marginalizados.

- Como acredita que será a transição de um sistema para outro?
- São necessários atores que construam uma nova relação de força -o qual não significa necessariamente violência-, porque o sistema não vai mudar por si mesmo. No século XIX e XX o ator que se opunha ao capitalismo era a classe operária; porém, hoje, com as mudanças no trabalho, com a debilidade das organizações operárias e com a globalização, os atores são todos os grupos sociais subalternos atingidos pela lei do capital: os camponeses sem terra, os indígenas, as mulheres, os estudantes... O novo ator histórico é global. Somente a convergência dessas lutas pode transformar as coisas. O problema é que são resistências um tanto isoladas. Para ter uma força real necessitam da dimensão política, e isso é ainda muito solto. Só na América Latina se vê os primeiros passos de alternativas que vão contra a lógica do sistema dominante: na Venezuela, na Bolívia, no Paraguai, no Equador... Por exemplo, foi a convergência de ONGs, movimentos sociais, igrejas e alguns governos que impediu o tratado de livre comércio entre EUA, Canadá e América Latina, e está tentando outro tipo de integração latinoamericana através da ALBA.

- O senhor afirma que é necessário construir o socialismo. Porém, que socialismo: o de Zapatero ou o de Fidel?
- O pós-capitalismo pode chamar-se socialismo; porém, deve ser definido por seu conteúdo. Do contrário, é uma palavra ambígua: pode ser Pol Pot, Stalín, Tony Blair... Para mim, o socialismo se define em função dos quatro eixos que citei anteriormente.

- Crê que Cuba é um bom exemplo de construção socialista?
- Cuba é um ensaio que tem tido êxitos -especialmente no plano da saúde, da educação, do esporte e da cultura-; porém, também teve o obstáculo da dominação da URSS durante vinte anos, que reorientou o modelo original e do qual Cuba está tentando sair desde o fim dos anos oitenta. Em Cuba, como nos demais países, a construção do socialismo teve que ser feita nas piores condições, guerras, embargos, a queda da URSS...

- O socialismo é incompatível com a democracia?
- Não, de nenhuma maneira. Porém, não podemos dizer que não existe democracia em Cuba. Esse é o argumento habitual dos ataques a Cuba. Há um desejo de mais democracia, mais agilidade, menos rigidez no sistema burocrático e político, mais participação, apesar de que lá existe muito mais democracia do que em qualquer outro país da América Latina... A forte reação do mundo capitalista teve como consequência em Cuba a rigidez do sistema, a militarização, para defender-se. Porém, não são as pressões do exterior que vão conseguir maior democratização em Cuba; ao contrário: quanto mais pressões, mais resistência.

- Crê que o triunfo de Barack Obama é um motivo para a esperança?
- Foi um sinal de esperança porque é a primeira vez que um negro ou um ‘quase negro’ chega ao poder em um país como os Estados Unidos. Isso, simbolicamente, é muito importante e assim foi sentido na África, na América Latina e nos EUA. Porém, daí a pensar que Obama não será o presidente de um império é outra coisa. Não somente pela força das estruturas, mas também porque ele é um homem do ‘stabilishment’. Tem posições mais abertas em relação a Kyoto e temos que aplaudi-lo; porém, no fundo, a lógica não mudou. Como dizem os cubanos: têm que acostumar-se a ter um imperador negro.

- A autoridade de Roma, o que resta da Teologia da Libertação depois de tantos anos de conservadorismo do vaticano?
- A Teologia da Libertação não está morta; porém, sim, sofreu um enorme golpe porque a instituição eclesiástica católica cortou todos os canais de difusão: seus teólogos foram eliminados de todas as faculdades e centros de pastoral controlados pela Santa Sé. Ao mesmo tempo, conheceu uma certa extensão temática nos últimos vinte anos: feminista, ecológica, dos povos indígenas... E, além disso, desenvolveu-se nas universidades leigas e nas comunidades de base (CEBs). Devemos confessar, no entanto, que sim, a política de restauração da autoridade de Roma tem sido muito negativa para esse projeto de pensamento e de ação.

- A sociedade espanhola é cada vez menos católica; porém, os bispos estão sempre em primeiro plano falando do aborto, da eutanásia, da investigação científica... Por quê?
- A cultura e a ética estão em plena evolução sobre esses e outros temas. O fato de que a hierarquia eclesiástica tenha tomado posições extremamente conservadoras e reacionárias frente a essa evolução choca com coisas que são consideradas de sentido comum, como a dignidade da vida, a dignidade da morte, o problema da limitação de nascimentos, etc... E essa imposição é notícia. A razão dessa atitude me parece muito ligada à concepção da autoridade eclesiástica, mais do que a uma questão de doutrina: quem sabe o façam com boa intenção; porém, é uma concepção totalmente equivocada do ser humano, um reducionismo aos fatores puramente biológicos, uma concepção puramente materialista que não considera a cultura, o que deveria ser o papel de uma instância religiosa.

- O senhor é sacerdote. Algum dia pensou em realizar seu trabalho intelectual fora da Igreja Católica?
- Praticamente é o que estou fazendo! Não estou fora do Evangelho, nem fora da igreja como Povo de Deus; porém, não estou em convergência com a instituição central, isso está claro.

* Um grupo de reflexão vinculado a CORRIENTE SOMOS IGLESIA
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=37794 - 17/03/2009

Para seu criador, Bric pode ser ampliado

Iván Rothkegel,
The Wall Street Journal,
de Nova York17/03/2009


Nos últimos anos, Bric tornou-se uma das palavras da moda do mundo financeiro. A sigla para Brasil, Rússia, Índia e China passou a representar o ápice do reequilíbrio de forças econômicas da globalização. Nos próximos 50 anos, esses países iriam se tornar grandes potências mundiais e a economia global não seria dominada apenas por Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão.
A pior crise que o mundo presenciou desde a Grande Depressão, contudo, está batendo pesado nos Brics e o "Wall Street Journal Americas" considerou que seria o momento oportuno para revisitar o conceito. O Bric ainda é válido ou, assim como a previsão de que o barril de petróleo chegaria a US$ 250, é outro símbolo dos excessos do mundo dos investimentos antes do colapso do Lehman Brothers?
Para obter as respostas, conversamos com Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o homem que cunhou o termo. Sua resposta: o conceito é tão válido como nunca, embora possa ser expandido para incluir países como o México ou Indonésia ou excluir outros, como a Rússia. A seguir, trechos editados da entrevista, feita em 26 de fevereiro:

WSJ:Como o sr. chegou ao conceito?

O´Neill: Até 2001, eu era um dos diretores de pesquisa econômica da Goldman Sachs mundialmente. E minha maior especialidade era como economista-chefe de câmbio. No fim dos anos 90, passei a ficar mais interessado na China e na questão cambial chinesa. Então esse é o primeiro aspecto. Mas muito mais importante nesse contexto (foi que) por volta de 11 de setembro (de 2001) me tornei o único diretor de pesquisa econômica mundial para a Goldman Sachs. Então eu precisava buscar aquilo que seria a minha marca. O cara que dividia o posto comigo antes, Gavin Davis, era um pensador econômico excepcionalmente poderoso e estava no cargo antes de eu chegar. Ele liderou a análise cíclica do G7 nos anos 80 e isso é um dos motivos por que a Goldman se tornou tão bem conhecida. E então eu estava pensando: 'Como posso fazer algo que tenha o mesmo impacto para nossa firma e nossos clientes?' Isso era o que estava na minha cabeça. Tudo aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo, quando houve o 11 de setembro, e eu acho que a verdadeira lição do 11/9 para mim, além do horror, foi uma mensagem de que a globalização tinha de ser diferente. Se eu combinasse aquilo com meu fascínio já forte pela China, foi isso que me levou a sonhar com a expressão Bric.

WSJ: Por que Bric?

O´Neill: Escrevi um artigo em novembro de 2001 chamado 'O mundo precisa de melhores Brics (soa como a palavra 'tijolo', em inglês) econômicos'. É porque três desses países, menos o Brasil, tinham algo fundamentalmente bem diferente começando a acontecer nos anos 90 e potencialmente no futuro. No caso da Rússia era o fim da União Soviética. No da China era a adoção da economia de mercado. No da Índia era o boom mundial de tecnologia. E então, com grandes populações nesses três lugares-chave, minha visão era que com a globalização esses três países iam ser participantes importantes. A grande coisa que coincidiu com isso foi o aparecimento de Lula na cena (internacionalmente). E se você lembrar em 2000, 2001 as pessoas achavam que depois da desvalorização na Argentina o Brasil ia ser um desastre sob Lula. A coisa que chamou minha atenção no Brasil, e foi completamente subestimada por todo mundo, foi a introdução das metas de inflação (em 1999). Quando vi isso, pensei 'pera aí, não são apenas esses três países que serão muito diferentes, se o Brasil for tratar a meta de inflação de maneira séria, o Brasil será diferente'. E pensei, sabe, que o Brasil deveria estar lá também. É um país de 160 milhões de pessoas, talvez chegando a 200 milhões. O Brasil, se mantiver a inflação sob controle, vai ser uma das maiores economias do mundo.

WSJ: Por que Bric e não MRIC, com o México em vez do Brasil?

O´Neill: Em retrospecto, a coisa que realmente deu um grande impulso ao Bric foi, dois anos depois, quando fizemos nossa primeira análise de 2050 e mostramos que os quatro países juntos poderiam ser maiores que o G7 em 2036. Então, depois de dois anos em que (o Bric) se tornou algo enorme, e com muitas pessoas perguntando por que não México, por que não Turquia, escrevemos um grande estudo dizendo como os Brics são sólidos e analisamos por que os próximos 11 países em população não estavam lá. Dos 11, para ser honesto, um deles, o México, tem provavelmente justificativas para ser incluído. Por isso muitas vezes brinco com as pessoas que talvez eu devesse ter chamado BRICM, com um M de México.

WSJ: O conceito pode ser expandido?

O´Neill: Conceitualmente, acho que sim. Digo, por volta de 2005, quando escrevemos um estudo sobre como os Brics eram sólidos, sugeri que o que realmente constitui um Bric (...) é o seguinte: um país do mundo emergente que tenha o potencial de ter pelo menos 3% do PIB mundial. Isso significa que, se algum dos atuais quatro Brics não puder realizar seu potencial, talvez ele não devesse (estar lá). Mas também significa que o México tem definitivamente esse potencial e levanta a possibilidade de que países com grandes populações, como a Indonésia, também possam.

WSJ: O sr. acha que, ao longo do tempo, as pessoas começaram a usar o conceito de uma maneira diferente da que o sr. pretendia?

O´Neill: Às vezes. Em 2007 em particular eu estava preocupado que toda a coisa do Bric estava virando uma febre insustentável no mundo do investimento. Muitas pessoas estavam elaborando fundos Bric. Um banco criou um Brict com um T de Turquia no fim etc. etc. E as pessoas estavam colocando dinheiro em fundos Bric em 2007, embora a relação entre preço e estimativa de lucro por ação da China e da Índia fossem mais que o dobro da dos EUA. E isso era claramente, como dissemos na época, insensato.

WSJ: O sr. acha que os Brics, como estão, formam um conceito sustentável?

O´Neill: Decididamente. Muita gente tola colocou dinheiro em fundos Bric em 2007 e 2008 e perdeu dinheiro. As pessoas não deveriam se esquecer que, desde que introduzimos a sigla, o índice Bric MSCI ainda está em alta de algo como 120%, enquanto o S&P 500 está em baixa de uns 20%. Ou seja, são apenas as pessoas que compraram essas coisas quando elas estavam extremamente caras que perderam dinheiro. Nunca presumimos que nos próximos 30 anos, mais ou menos, esses países sustentariam taxas de crescimento próximas das que vinham crescendo, com a exceção do Brasil. Nossa premissa para o crescimento chinês é de 5,8%. Nos primeiros sete anos da sigla Bric, a China cresceu quase ao dobro do que presumimos. Por isso, a grande desaceleração da China não ameaça nem um pouco sua parte no sonho do Bric.

WSJ:E suponho que ao fim do período o sr. leva em conta um crescimento muito mais lento para a China.

O´Neill: Entre 2011 e 2050, ou seja, descartando esta década, temos o seguinte: 4,3% para o Brasil, 5,2% para a China, 6,3% para a Índia e 2,8% para a Rússia. A China vai crescer mais que isso este ano! Quando você olha para o pensamento da moda atual, as pessoas acham que o descasamento não aconteceu. Se você olha para o consumo interno, há evidências bem claras de que, embora tenha desacelerado um pouco, o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA, e o tem feito há três anos, para o crescimento global. Por isso, não acho que, até agora, esta crise tenha ameaçado nem um pouco o conceito do Bric. Deixe-me acrescentar um ponto controverso. Acho que o fato de os Brics serem sólidos vai ajudar a tirar os EUA desta bagunça porque vai permitir que as exportações americanas se recuperem e sejam uma parte importante do futuro da economia americana.

WSJ: O fenômeno Bric foi associado com um boom em commodities liderado pela China e pela Índia. Agora, quando a poeira assentar, o que vai acontecer com esse boom de commodities? Como os Brics vão lidar com isso?

O´Neill: De certa maneira, a Índia tem lidado com ela particularmente bem porque a alta dos preços das commodities não era boa para o país. Você está certo, especialmente no caso do Brasil, claro, que as pessoas associam o Bric com commodities. Rússia e Brasil são ambos grandes produtores de commodities e China e Índia são ambos grandes importadores de commodities. A grande alta dos preços de commodities, que se pode argumentar ter sido causada pela China crescendo 12% durante uns três anos, foi realmente boa para Rússia e Brasil, mas na verdade bastante ruim para a Índia, e eu diria que uma possível surpresa este ano, caso consigamos parar a deterioração da crise de crédito, é que a Índia pode se sair muito melhor mais cedo do que as pessoas pensam. O declínio nos preços das commodities é um grande fator positivo para a Índia.

WSJ: Mas é um grande fator negativo para Rússia e Brasil.

O´Neill: Argumentei durante três anos que não seria possível realmente dizer se Rússia e Brasil justificariam seu status de Bric até que passassem por um períodos de preços de commodities fracos.

WSJ: Então este é um teste maior para Brasil e Rússia do que para Índia e China?

O´Neill: Este não é nenhum teste para China e Índia. É decididamente um teste para Rússia e Brasil. E é um bom teste.

WSJ: Eles passarão?

O´Neill: Acho que a evidência no Brasil já é sim. A estrutura macroeconômica de melhores práticas que Lula adotou sete anos atrás está (...) demonstrando que o Brasil pode lidar com essa crise. O Brasil dos anos 70 aos 90 estaria tão ruim quanto a Rússia. Não estou certo de que a Rússia possa enfrentá-la e temo que não possa. Até agora, esta crise está demonstrando que a Rússia é dependente demais de commodities.

WSJ: Quando o sr. fala sobre o Brasil conseguindo enfrentar, o que quer dizer?

O´Neill: A moeda enfraqueceu, o mercado acionário enfraqueceu, mas diferentemente de crises brasileiras passadas eles não tiveram de aumentar as taxas de juros para conter a saída de capital, o que é um sinal muito poderoso.

WSJ: Já vimos a China tirar proveito de algumas oportunidades de compra para conseguir acesso a alguns recursos nacionais. O sr. acha que as empresas brasileiras podem ir ao ataque também?

O´Neill: Em minha experiência nos mercados financeiros, e esta é provavelmente a sexta crise que enfrento, o que define a longevidade e o sucesso das pessoas e empresas é como elas transformam uma crise numa oportunidade. É uma coisa muito difícil de fazer. Não dá para ignorar ou minimizar os problemas desta crise, mas ao mesmo tempo o melhor momento para expandir é perto do fim de uma crise.

WSJ: O sr. acha que estamos perto do fim da crise?

O´Neill: Desenvolvemos um indicador da crise em outubro, depois que o Lehman quebrou, que consiste numa série de diferentes variáveis do mercado monetário. Este indicador está agora (26 de fevereiro) de volta ao nível de quando o Bear Stearns quebrou. Isso me sugere que, embora estejamos obviamente numa recessão mundial muito severa, a crise financeira está mais perto do fim que do começo.

WSJ:No Brasil, por exemplo, há números contraditórios. Algumas pessoas estão assustadas com os números da produção industrial, mas houve listas de espera para a compra de alguns carros depois que o governo ofereceu alguns incentivos.

O´Neill: A psicologia dos mercados financeiros será sempre a mesma. De algumas maneiras a comunidade de investimento financeiro é realmente estúpida. As pessoas estão sempre assustadas quando não deviam e estão sempre empolgadas quando deviam estar assustadas. Por que as pessoas estavam comprando fundos de ações do Bric no começo de 2008, quando a valoração das empresas chinesas era o dobro das americanas? Em segundo lugar, a produção industrial estava realmente fraca no Brasil? É a mesma coisa em qualquer país do mundo. Mas todos esses dados não deveriam surpreender as pessoas, porque refletem o fato de que o sistema financeiro mundial parou em outubro. Por isso o que você tem de olhar realmente é para o consumidor. Se as pessoas estão começando a gastar um pouco mais em lugares como o Brasil, e ouvi a mesma coisa na China, isso é realmente importante.

WSJ: Mas as coisas ainda parecem bem feias. A produção está caindo em todas as partes, os EUA não fecharam ainda um plano coerente para lidar com os bancos...

O´Neill: Não digo que a crise econômica tenha acabado, o que estou dizendo é que a intensidade da crise financeira está mais próxima do fim.

WSJ: E o mercado financeiro antecipa a economia real.

O´Neill: Sim. Isso sugere para mim que em seis meses os números de produção industrial serão melhores. Não no mês que vem, em seis meses. A chave para isso tudo é a China. Se a China for melhor no segundo semestre deste ano, o que eu fortemente acho que acontecerá, então todo o caso do Bric vai voltar a ficar muito popular bem rapidamente.

Em defesa do arcebispo

RUBEM ALVES*
Mas isso, condenar uma pessoa
eternamente
a um Inferno de Fogo,
não será mais cruel que
um aborto?

DIRIJO-ME A V. REVMA. , dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, para, "in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti", louvar o seu destemor e coerência ao proclamar a verdade revelada e guardada através dos séculos pela Igreja Católica Romana.
Em oposição àqueles que não foram iluminados pela revelação divina e que se apressaram a atacá-lo com argumentos da efêmera sabedoria humana, V. Revma. pensou e agiu de forma milenar, com base na rocha imutável sobre a qual a igreja foi construída.
Nessa circunstância, o senhor aparece como o legítimo representante da igreja e as suas palavras soam como um coral gregoriano, eternas e sempre as mesmas, à semelhança da monotonia da música das esferas celestes. Não são palavras de um indivíduo. É a igreja que fala por meio da sua boca. E esta é a razão por que o Vaticano confirmou os seus atos.
O que aconteceu? Uma menina de nove anos vinha sendo abusada sexualmente pelo seu padrasto desde os seis anos de idade. Ficou grávida de gêmeos. Levada aos médicos, eles concluíram que um aborto se fazia necessário porque a vida da menina estava em jogo. Assim afirma a ética médica: estando em jogo a vida de um feto e a vida da futura mãe, a vida da mãe tem a prioridade. É preciso que a vida da mãe seja salva.
Informado do acontecido. V. Revma. tomou as providências exigidas pelas leis da igreja -que afirmam o contrário: a vida do feto, por diminuto e ínfimo que seja, tem sempre prioridade sobre a vida da mãe, por mais filhos que ficariam órfãos no caso da sua morte.
Assim, V. Revma foi fiel à igreja: excomungou a mãe da menina por ter permitido e a equipe médica por haver realizado o aborto.
Aqueles que não conhecem a verdade revelada se espantaram com fato de que o estuprador padrasto tenha ficado fora da maldição da excomunhão. Mas V. Revma. explicou que o estupro não é punido com a excomunhão porque, por violento e cruel que possa ser, ele não tira uma vida. Pode mesmo acontecer que do estupro até surja uma nova vida...
Os médicos se surpreenderam com a excomunhão lembrando que as leis do país foram obedecidas. V.Revma. refutou: "A lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Quando uma lei humana (...) é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor".
Em outras palavras: as leis do Estado só devem ser obedecidas quando concordam com as leis da igreja.
Em outros tempos o senhor poderia ser acusado de estar incitando à desobediência civil, à subversão, porque a ética que se encontra por detrás dos atos subversivos vem da crença na ilegalidade e, portanto, na ilegitimidade do Estado.
O senhor concordará que há um conflito entre a pretensão da igreja de ter o monopólio total da verdade e a democracia? Pois na democracia são os homens e não Deus que estabelecem as leis.
O sonho político da igreja não é uma teocracia em que as leis são estabelecidas por ela e o Estado secular leigo é abolido? A igreja não sonha com a sua volta ao poder e a abolição da democracia?Tremo pensando no futuro eterno que aguarda os excomungados. A eles está proibida a participação na eucaristia, veículo da graça. Estão, assim, condenados ao Inferno eternamente.
Mas isso, condenar uma pessoa eternamente a um Inferno de Fogo, não será mais cruel que um aborto?Mas sinto que sua consciência está em paz. Não foi o senhor que excomungou. Foi a igreja.
*Escritor, teólogo, colunista quinzenal da Folha de São Paulo.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1703200903.htm 17/03/2009

A escola: território conflagrado

Moacyr Scliar*

Não é de admirar que dois recentes sucessos cinematográficos, Quem Quer Ser um Milionário? e Entre os Muros da Escola tenham em comum o fato de que os protagonistas são jovens pobres enfrentando difíceis problemas. Aliás, se acrescentarmos aos dois o brasileiro Cidade de Deus, estaremos caracterizando uma verdadeira vertente no cinema da atualidade. É o cinema de uma época de crise: a crise econômica, que está nas manchetes dos jornais, a crise étnica, a crise cultural, a crise religiosa, a crise nos relacionamentos.
O filme de Laurent Cantet passa-se numa escola pública de Paris. Os alunos, adolescentes, retratam o que é a Europa de hoje, um “melting pot”, um cadinho em que se misturam as mais variadas nacionalidades. Ali temos jovens antilhanos, africanos, chineses, os filhos de imigrantes que continuam migrando para o Ocidente em busca de uma vida melhor. O que lhes custa muito trabalho, muito sacrifício e muita coragem para enfrentar os movimentos racistas estimulados por um Le Pen e outros da mesma laia. São famílias que vivem uma permanente crise, e esta acaba repercutindo na escola, caixa de ressonância da problemática social. Cantet não foi, claro, o primeiro a percebê-lo. Isto já estava presente em Sementes da Violência (Blackboard Jungle, 1955), dirigido por Richard Brooks, no qual um jovem professor tem de enfrentar a hostilidade de seus estudantes. O filme fez história, inclusive porque a trilha sonora apresentava um novo gênero musical que teria sucesso duradouro: o rock’n’roll.
Os dois filmes têm um grande mérito: mostram a figura do professor em sua dimensão humana. No caso de Entre os Muros da Escola, este aspecto é extraordinariamente ajudado pelo desempenho de François Begaudeau. Não por acaso, ele foi professor e escritor antes de se tornar ator (aliás, o diretor Cantet é filho de professores). O que temos no filme é um educador democrático, que interage com os alunos, que os estimula a expressar seus conflitos e suas aspirações. Não é um mártir, não é um apóstolo: é um ser humano como qualquer outro, que comete erros, que tem acessos de raiva. E os jovens atores são tão espontâneos, que temos a impressão de estar vendo um documentário filmado em sala de aula. Não é Hollywood, portanto, não é A Sociedade dos Poetas Mortos, aquele filme que tinha Robin Williams no papel principal. É diferente e, em muitos sentidos, melhor, mais autêntico. Isto explica que tenha sido o primeiro filme francês a receber a Palma de Ouro em Cannes em 21 anos.
O filme aborda problemas cruciais de nosso mundo e faz uma homenagem mais do que merecida aos professores. E agora vejam a coincidência: neste último domingo figurava, na Folha de S. Paulo (página de Mônica Bergamo), uma reportagem com o significativo título de “Aula de coragem”. Nela, professores falam sobre as sombrias experiências que passam nas salas de aula. Viviane Grace Costa, do Rio, conta que uma de suas alunas, grávida, veio procurá-la, apavorada: o namorado tinha invadido a escola e queria bater nela. Viviane enfrentou o agressor, apesar deter sido ameaçada de morte por este, e conseguiu proteger a moça.
Seguramente qualquer professor do Rio Grande do Sul poderia narrar histórias semelhantes. Qualquer um deles poderia estrear o belo fime de Cantet. O Dia do Professor ainda está longe, mas isto não impede que a gente faça esta homenagem. No território conflagrado que hoje é a escola, os professores são os guardiães de nossa esperança.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A felicidade desesperadamente: uma sabedoria do desepero, da felicidade e do amor

" O que sabemos é que a felicidade é desesperadora. Freud escreve em algum lugar, retomando uma fórmula de Goethe acho, que não há nada mais dificil a suportar de que uma sucessão ininterrupta de três lindos dias... Talvez para todos os que só sabem viver de esperança: tres lindos dias que se seguem é difícil porque não deixam mais grande coisa a esperar... É o estresse do nomalien, no ano que segue o exame de ingresso no magistério. O estudo é demorado, difícil, o estudante se dizia anos a fio: "Como serei feliz no dia em que tudo isso acabar, quando eu passar no exame!" E de repente você é professor e lhe oferecem mais um ano na École Normale, para você aproveitar a vida ou começar uma tese... O que mais esperar ou que de melhor esperar? Nada. É o momento mais fácil da vida, o mais feliz, ou que deveria sê-lo... Mas a realidade é bem diferente: é o momento em que o normalien fica deprimido e se pergunta se já não é tempo de filosofar de verdade... Alguns deles, em todo caso. (...) Então, o que sabemos é que a felicidade é desesperante; o que tento pensar é que o desespero pode ser alegre: que a felicidade seja desesperadora e o desespero, feliz! Isso quero dizer que o desespero, no sentido em que eu o tomo, não é o extremo da infelicidade ou acabrunhamento depressivo do suicida. É antes o contrário: emprego a palavra num sentido literal, queas etimológico, para designar o grau zero da esperança, a pura e simples ausência de esperança. Também podiamos chamá-lo de inesperança." (André Comte-Sponville - A felicidade, desesperadamente, Martins Fontes, 2005, pp.64-66)

Outono

LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL*


Olhe em volta, vá à janela. Deixe o jornal por um momento. Observe a luz, mais quebrada, mais doce, mais próxima, mais íntima. Veja as paineiras das ruas e praças. Já estão floridas. Veja os maricás, rentes à estrada.
Veja como as pessoas estão mais lentas e como, nos rostos, ilumina-se um novo olhar. Até falam mais baixo.
Nossa sombra, projetada no chão, é cada dia mais alongada e, por vezes, confunde-se com o horizonte, dando-nos a certeza de que somos eternos.
Se for noite, olhe para cima, para o céu. No céu aparecem novas estrelas. O Cruzeiro começa a ficar alçado no horizonte. A Via-Láctea torna-se mais visível. O ar é nítido. As noites já são mais amenas, concedendo-nos o repouso de um sono que o verão nos nega. Os cães ladram menos, os gatos recolhem-se às suas casas. Tudo se cala, tudo é mais suave.
Os pássaros piam em surdina, e tornam-se douradas as folhas das videiras, saciadas do estio, quando nos deram os frutos com que fazemos o vinho. É menos difícil galgar as escadas. É o outono que lentamente se instala no Sul.

***

A existência do outono, ao Sul, é a garantia de que ainda somos humanos.

***

Até mesmo as artes mudam, no outono: há mais delicadeza na curva sinuosa que faz o braço da bailarina; o cantor tem a voz mais cálida; a pintora, ante a tela, descobre novas soluções para o seu trabalho; os poetas percebem, surpresos, que as palavras são mais capazes de escrever o poema. O clarinetista encontrará um instrumento mais apto a executar o concerto de Mozart.
Mas atenção: isso só acontece aqui, neste Sul. Não procure em outro lugar, porque o outono ao Sul é criação nossa e habita o domínio sobrenatural de nossas lendas e, como toda lenda, é profundamente real.
Em nosso outono, ao contrário do que acontece no mundo inteiro, as coisas não morrem.

domingo, 15 de março de 2009

Pensamento da noite

A Tagarelice
"É delicado e difícil para a fiolosofia empreender
a cura da tagarelice.
Pois seu remédio,
a palavra,
é feito para aqueles que ouvem,
e os tagarelas não ouvem ninguém,
já que estão sempre falando.
eis o primeiro mal contido
na incapacidade
de ouvir"
( Plutarco - Sobre a Tagarelice - Ed. Landy)

Disciplina Antiga

Cesare Pavese*


Os que bebem não sabem falar às mulheres,
se perderam de tudo, e ninguém os aceita.
Andam lentos na rua, e as ruas e postes
não têm fim.
Alguns deles dão giros mais longos,
mas não há o que temer: amanhã eles voltam pra casa.
O que bebe imagina que está com mulheres
- como os postes à noite são sempre os mesmos, assimas mulheres são sempre as mesmas -; nenhuma o escuta.
Mas o bêbado tenta, e as mulheres não o querem.
As mulheres, que riem, conhecem de cor suas palavras.
Por que riem assim as mulheres ou gritam, se choram?
O homem bêbado quer e deseja uma bêbada
que o ouvisse calada. Mas elas o atiçam:
"Para ter esse filho, é preciso contar com a gente."
O homem bêbado abraça-se ao bêbado amigo
que esta noite é seu filho, nascido sem elas.
Como pode uma zinha que chora e que grita
dar-lhe um filho amigo? Se aquele é um bêbado,
não recorda as mulheres no andar inseguro,
e esses dois perambulam em paz. O filhinho que conta
não nasceu de mulher - pois seria mulher
também ele. Caminha com o pai e conversa:
toda a noite iluminam-lhe os passos os postes.

* Um dos principais poetas italianos.Poema cortado pelo autor na edição final -Do Estadão, 15/03/2009.

Mulher de Fé

ENTREVISTA
Mariza Gomes da Silva,
mulher do vice-presidente José Alencar,
acredita que a luta do marido
contra o câncer
tem encorajado as pessoas


Quando perguntam a Mariza Campos Gomes da Silva qual é a sua postura como mulher do vice-presidente José Alencar, ela responde:
– Estou pronta quando solicitada.
A máxima é comprovada dia a dia, como companheira inseparável do marido em sua luta contra o câncer. Natural de Caratinga, Minas Gerais, mãe de três filhos e avó de cinco netos, ela conta nesta entrevista de onde sai tanta força para enfrentar as adversidades dos últimos anos. E confessa: “Gostaria de ser um pouco mais vaidosa”.
Pergunta – De onde a senhora tira sua fé?
Mariza da Silva – Da educação e formação religiosa que recebi de meus pais. Ao longo da vida, senti em vários momentos a presença da Virgem Maria ao meu lado.
Pergunta – A senhora e o vice-presidente recebem muitas mensagens de apoio?
Mariza – As mensagens são as mais emocionantes possíveis, de amigos e de desconhecidos que têm nos acompanhado nessa luta pela saúde. Há pacientes em tratamento que se espelham no José, adquirem força para continuar, se esquecem de si mesmos e passam a rezar por nós.
Pergunta – Qual é a sua postura em relação à atividade política?
Mariza – José e eu sempre estivemos ligados à política, de classe empresarial e social. Quanto a engajamento em partido, prefiro não me manifestar. Sou solidária às decisões dele.
Pergunta – Quais são suas principais lembranças da infância?
Mariza – Tive uma infância tranquila, participava das brincadeiras da época em frente de nossa casa ou no coreto. Eram típicos costumes do interior, como brincar de roda, amarelinha, queimada, pique. Participava no colégio em peças de teatro ou declamações, estudava piano, violão, aprendi tricô e costura.
Pergunta – A senhora tem algum hobby?Mariza – Meu hobby principal é cinema. Sou cinéfila desde criança. Gosto de ler e gostaria de ter tempo para o esporte. Quanto à culinária, sou boa em alguns pratos, mas só quando necessário.
Pergunta – A senhora é vaidosa?
Mariza – Eu me cuido visando à saúde. Há muito não tenho tido tempo para mim. Gostaria de ser um pouco mais vaidosa.

Cântico dos Cânticos

Eu te darei o meu amor

Teu talhe é de palmeira;
teus peitos, dois cachos.
Eu pensei: subirei à palmeira
para recolher suas tâmaras:
teus peitos são para mim
como cachos de uvas;
teu hálito, como aroma de maçãs.
Ai! tua boca é um vinho generoso
que flui acariciando
e me molha os lábios e os dentes!
Eu sou do meu amado
e ele me busca cheio de paixão.
(Ct 7, 8-11 - Bíblia do Peregrino)

Fritjof CAPRA e Oscar MATOMURA


No diálogo, dois pensadores – um austríaco radicado nos Estados Unidos, o outro paulistano – refletem sobre o que significam os sinais emitidos pela crise mundial e como os executivos devem reagir a eles. Fritjof Capra, 70 anos, físico teórico, escritor e palestrante, é autor de best-sellers como O Tao da Física e O Ponto de Mutação. Neles, traça paralelismo entre a física moderna e as filosofias e os pensamentos orientais tradicionais. Capra mantém há 15 anos um relacionamento próximo com Motomura, 65 anos, fundador da Amana-Key, em busca de respostas heterodoxas para os dilemas corporativos. Capra, que vive com a família em Oakland, nos arredores da Universidade de Berkeley, é uma das vozes mais eloquentes do pensamento sistêmico, assim chamado por propor uma visão da sociedade global como um organismo interconectado. “Ele é o tipo de pessoa de mente aberta, como se estivesse o tempo todo em busca de novos conhecimentos”, diz Motomura, que recebeu seu amigo para uma conversa, a pedido de Época NEGÓCIOS (onde mantém uma coluna), na sede da instituição que preside nos arredores de São Paulo – um centro de pesquisas de inovações radicais em gestão, por onde já passaram centenas de executivos brasileiros da primeira liga.

Oscar MotomuraComo um pensador sistêmico explica a crise financeira internacional?Fritjof Capra – O princípio fundamental da organização do mercado é a ideia de que ganhar dinheiro está sempre acima de qualquer valor humano, seja a proteção do ambiente, dos direitos humanos, da saúde ou da democracia. Quando a questão está entre ganhar mais dinheiro ou proteger esses outros valores, o dinheiro sempre prevalece. Pensadores como Manuel Castells, Hazel Henderson, Vandana Shiva e eu fazemos essa crítica à economia global há 15 anos, mas o que mais me surpreendeu nesta crise é que até a simples ética comercial, do negócio honesto, foi sucateada. Tendemos a pensar que as pessoas de negócios diriam que a confiança mútua nas transações empresariais é essencial. Mas isso foi deixado de lado em episódios como o escândalo da Enron e outros similares, nos quais os CEOs chegaram até a falsificar o quadro financeiro de suas empresas, não disseram a verdade sobre a saúde financeira de suas corporações e sacaram enormes gratificações enquanto suas empresas iam à bancarrota. Quando a crise se intensificou, chegamos a uma situação em que, de uma hora para outra, até os bancos perderam a confiança uns nos outros. A confiança se deteriorou completamente e o pânico se instalou. Do ponto de vista dos negócios simplesmente, resgatar a ética nos mercados é essencial. Sem isso, esta crise não poderá ser resolvida pela base. E outras poderão surgir.
Motomura No momento em que a maximização dos ganhos passa a ser o objetivo principal, isso, na verdade, representa uma total inversão de valores. Em tese, o objetivo de toda ação humana, de todo empreendimento deveria ser o bem-estar de todos. O dinheiro deveria ser algo que intermedeia as relações. Quando ele se torna o resultado final a atingir, todo o jogo muda. Ele se transforma no jogo da ganância e todo tipo de distorção passa a ocorrer. Um processo perverso que acaba até envolvendo empresas que deveriam estar fiscalizando o processo para que eventuais manipulações não viessem a ocorrer. É doença em cima de doença. E o que parece mais grave nesse processo é que fazemos de conta que essas coisas não existem, que todas as formas de corrupção podem ser controladas. É uma grande ilusão, um jogo de autoenganos...
Capra – Curiosamente, um impacto psicológico positivo é que as pessoas não vão mais acreditar nas autoridades financeiras. Quando uma empresa de investimento de Wall Street disser ‘confie em nós’, as pessoas vão pensar duas vezes... Elas sabem, agora, como o sistema funciona e como não funciona. As ‘autoridades’ já não têm mais a confiança do público. As pessoas perderam a crença nesse mercado livre e sem regras, o que, segundo Milton Friedman e a Escola de Chicago, é a melhor forma de regular as coisas. Isso simplesmente não faz mais sentido. As pessoas não acreditam mais nisso. Outro desdobramento positivo é a constatação de que os problemas do mundo estão interconectados. Não é coincidência que a crise financeira esteja acontecendo ao mesmo tempo em que a mudança climática mundial também chega a um ponto crítico. Todo o sistema econômico, político e cultural ignorou essas conexões por muito tempo. A fragmentação em nosso mundo acadêmico, na política e nas instituições sociais talvez seja a causa raiz da crise que vivenciamos agora. Portanto, esta é uma crise provocada pela fragmentação e por um jeito de pensar mais mecanicista, que vê as coisas de forma isolada.
MotomuraDe quem seria a responsabilidade de liderar a criação dessas soluções?
Capra – Independentemente da profissão, uma coisa que podemos dizer com absoluta certeza é que precisamos de pensadores sistêmicos. Alguém que não pense de forma sistêmica não chegará a nenhum tipo de solução que efetivamente resolva os problemas que vivemos hoje. Quando você pensa sistemicamente, pode se surpreender descobrindo que há caminhos muito diferentes do tradicional. Um exemplo: podemos dizer que, se conseguirmos mudar nossa principal fonte de energia, do petróleo para fontes renováveis, e formos capazes de nos libertar do petróleo do Oriente Médio, poderemos então questionar as centenas de bases militares. Por que temos bases no Cazaquistão e na Geórgia? Bem, oleodutos passam por lá. Por que três bases no Afeganistão? Elas estão posicionadas ao longo dos dutos de petróleo. No Iraque? Se não precisarmos do petróleo dessas regiões, não precisaremos dessas bases. De uma hora para outra, bilhões de dólares serão liberados.

Motomura
“Quando o dinheiro se torna o resultado final a atingir,
todo o jogo muda.
Transforma-se no jogo da ganância”
Capra
“Curiosamente, um impacto psicológico positivo é
que as pessoas não vão mais acreditar nas autoridades financeiras.
Perderam a confiança nesse mercado livre
e sem regras que, segundo Friedman,
é a melhor maneira de regular”


Motomura As mudanças exigidas envolvem reinvenção na área de design. O design é algo que ainda não é muito bem entendido como algo essencial a todas as áreas da atividade humana. O design está presente em tudo. Está inclusive presente no sistema político, econômico e social que prevalece no país. A crise atual é consequência de um design inadequado dos sistemas econômico-financeiros. Essas falhas permitem a ocorrência de irregularidades sem que nada aconteça... A solução da crise pressupõe genialidade em design. E design, por outro lado, pressupõe genialidade em pensamento sistêmico.
Capra – São os Da Vinci de hoje. Em minha opinião, Leonardo da Vinci foi o primeiro e mais brilhante designer de que temos notícia. Ele possuía todas essas qualidades. Uma outra qualidade é a habilidade de organizar esses padrões visualmente e desenhá-los. Leonardo era um solucionador de problemas, um inventor, um pensador sistêmico e um brilhante desenhista. Ele tinha todas as qualidades de um bom designer. Hoje temos um campo muito amplo de design ecológico, que é o da arquitetura verde, da agricultura sistêmica, do design industrial – não focado em produtos, mas em processos –, no qual a matéria flui de forma cíclica. Assim, uma revolução em design está acontecendo: práticas revolucionárias, que incorporam princípios da ecologia; de fato, práticas que se baseiam no aprendizado inspirado na natureza – o conceito de biomimetismo.
Motomura E quem são os Da Vinci de hoje? Temos muitos deles... Mas, onde estão e o que eles e elas estão fazendo? Estão trabalhando. Muitos têm bons empregos. Não são mais os mecenas que os patrocinam. São empresas. São órgãos do governo. E fazem o quê? Criam novas tecnologias, criam ‘internets’, satélites artificiais, novas armas nucleares, sistemas de inteligência complexos, capazes de monitorar a vida de cada cidadão. São os gênios de hoje.
Capra – Uma coisa que aprendemos sobre sistemas não-lineares – por meio das teorias dos sistemas e pela complexidade dos novos estilos de gestão – é que não podemos estabelecer uma cadeia de causa e efeito. Você não pode dizer: ‘Sou o CEO aqui, vou tomar determinada diretriz e mais tarde obterei este resultado’, porque o sistema possui muitos elos de feedback, ele é muito complexo. O que você pode fazer é proporcionar um ambiente em que energia e criatividade sejam liberadas, e então algo acontecerá. No entanto, durante uma crise, as empresas tendem a agir de forma mais conservadora, ficam mais temerosas. Em geral, essa é a tendência, mas não é isso que vai acontecer. As empresas não podem chegar aos analistas do mercado de ações e dizer que vão atuar de modo conservador daqui para a frente. Ser conservador hoje em dia significa desastre. Vai ser preciso agir, seguir em frente... Mas, é claro, com cautela.
MotomuraE como um CEO pode se tornar um pensador sistêmico na vida diária?
Capra – Quero reforçar esse ponto com a minha experiência conduzindo seminários em empresas. Em geral, peço às pessoas para, na primeira sessão, apenas ouvirem e não pensarem em aplicar nada, pois, em geral, elas têm essa tendência de saltar imediatamente para a aplicação. Assim, elas ficam preocupadas primeiro em entender. Mas, com certeza, após a primeira metade do dia, na hora do almoço, você vai ouvi-las falando sobre o que podem fazer na empresa em que atuam e qual seria o próximo passo. Os executivos são bons nisso. Não precisamos ensinar a eles como aplicar o novo em suas organizações. Podemos apenas abrir-lhes algumas portas.

FRITJOF CAPRA, 70 anos, austríaco nascido em Viena e radicado na California, Estados Unidos, é físico teórico, escritor e palestrante. OSCAR MOTOMURA, 64 anos, é educador e especialista em estratégia. Fundador da Amana-Key, é também colunista de Época NEGÓCIOS.
http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI62819-16380,00.html -Reportagem da revista ÉPOCA NEGÓCIOS, Edição Especial de Aniversário, março de 2009 Nº 25.

É preciso mudar o Homem

Georges Bourdoukan

Dez mil anos já se passaram desde que o primeiro homem aproveitou-se do trabalho do vizinho para lucrar. E até agora nada mudou. Civilizações surgiram e desapareceram. Impérios soçobraram. Guerras, fome e miséria acompanham a humanidade desde então. E nada. Absolutamente nada mudou.
Culpar a quem, senão ao próprio homem?
Propostas surgiram, avançaram, mas jamais alcançaram o bem-estar.
O homem continua só e solitário. A batalha do dia-a-dia não lhe permite raciocinar.
E o que é a batalha do dia-a-dia senão guerra de outro tipo?
E o que é a exploração do homem pelo homem que não escravidão disfarçada?
O que fazer?
Essa pergunta já foi feita e deu no que deu.
Outra pergunta: É possível mudar o sistema sem mudar o homem?
É a História quem responde: nada feito.
Mudar o homem.
Eis a solução.
Mas de que forma?
Alguém tem alguma idéia?
Diógenes percebeu isso há 2.500 anos. Quando lhe perguntaram a razão de andar com uma lanterna acessa durante o dia, respondia: procuro o homem.
Platão fez algumas sugestões, Aristóteles também tentou. Que o digam Santo Tomás de Aquino e Santo Agostinho.
Os utopistas cansaram de oferecer alternativas.
Thomas Morus dirá que o decapitaram e depois o santificaram.
Tudo por obra do animal homem.
Até Marx foi enganado.
Porque acreditava no homem generoso e no homem solidário.
O resultado todos conhecem.
Então não haverá solução?
Claro que há.
Ela começa por você!

http://carosamigos.terra.com.br/ - Edição 144 da revista CAROS AMIGOS.

A hora da poesia

Rubem Alves*
Há pessoas que já nascem na poesia. Assim foi com Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Adélia Prado, Emily Dickinson. Comigo não foi assim. Se a poesia já estava em mim ela estava dormindo, como a Bela Adormecida. Eu não sabia que ela estava lá. Foi preciso que um poema a acordasse.
Não estou bem certo. Mas a minha memória diz que foi um poema de Robert Frost, aquele que tem o título de Parando pelos Bosques numa Noite de Neve. É assim que ele termina:
“Os bosques são belos, escuros, fundos.
Mas tenho promessas a guardar
e muitas milhas a andar
antes de poder dormir.
Sim, antes de poder dormir.”
Eu lia esse poema para os meus alunos — o que fazia por puro prazer porque nunca tive competência para ser professor de literatura. A beleza pede para ser repetida. Ler uma vez, outra vez, bem devagar...
Há de se saber o tempo do poema. Poemas são como a música. Os compositores colocam no alto da primeira página a indicação do tempo, adágio, allegro, presto.
A beleza segue um ritmo certo. Talvez os poetas devessem fazer com seus poemas o que fazem os compositores com suas músicas.
Li num tempo vagaroso, duas vezes, voz baixa...
Foi quando ouvi um soluço no fundo da sala. Alguém chorava. Uma aluna. Perguntei a razão do choro. Ela me disse: “Esse poema, esse poema...” “Mas o que no poema a faz chorar?”, perguntei. Ela respondeu: “Não sei, não sei, só sei que ele me fez chorar”.
E aí fiquei pensando na presença que se escondia no bosque belo, escuro, fundo... A presença não dita que se esconde no bosque é a morte.
Note o “mas” que separa o primeiro verso do resto do poema. Por que o “mas”? Parece não haver razão. A menos que o poeta, ao olhar para a beleza escura que morava na fundura do bosque tenha ouvido uma voz a chamá-lo, a voz de uma presença invisível no meio das árvores.
Esse “mas” é um declinar do convite. “Não, agora não...” É certo que chegará um momento em que o convite não poderá ser recusado — mas agora não, ainda tenho promessas a cumprir e milhas a andar...
Não, poesia não é uma coisa, um texto, um poema impresso ou recitado. Muitos ouviram esse mesmo poema e nada lhes aconteceu. Corpo e alma ficaram inertes. Não tremeram.
Esse tremor pode ser tristeza, riso, beleza, silêncio. Emily Dickinson, a solitária poeta norte-americana, escrevendo a um amigo, revelou-lhe o que era, para ela, a marca da poesia. “Quando leio um texto e me sinto tão fria que nenhum fogo pode me aquecer, sei que aquilo é poesia. Se leio um texto e sinto como se o topo da minha cabeça me tivesse sido arrancado, sei que aquilo é poesia.” Ela não mencionou nenhuma propriedade formal como ritmo ou rima como o essencial da poesia. Ele mencionou algo que acontece com o corpo quando tocado pela palavra poética.
Poesia é música. Por isso é preciso lê-la em voz alta. Ouve-se sempre uma música nos interstícios das palavras do poeta. “... e a melodia que não havia se bem me lembro faz-me chorar”. Era assim que Fernando Pessoa sentia.
A poesia tem sua hora, como os pássaros. Os tempos do dia são vários. Num momento de vagabundagem em que seus olhos brincavam com os pássaros que voavam Albert Camus notou que pela manhã eles se parecem com crianças que brincam, voam em todas as direções. Mas ao pôr-do-sol eles se tornam graves e voam numa única direção. O pôr-de-sol é hora de voltar para casa.
Fantasio o rosto grave do poeta, atento às palavras que lhe vêem, ele não sabe de onde. Imaginei que era o crepúsculo. O dia havia chegado ao fim, hora quando não há nada mais a ser feito porque a noite vai logo cobrir o mundo com o seu veludo e o poeta, à semelhança do casal que Millet colocou na tela “Ângelus”, para e medita.
Medita sobre o quê? Medita sobre a vida. Medita sobre a morte.
Ao ler pela primeira vez o poema O Haver, do Vinícius, senti-me numa luz crepuscular. Mas logo me dei conta de que o “crepúsculo” seria a minha hora, a hora da minha vida e da minha morte. Eu sou um ser crepuscular. É ao pôr-do-sol que a poesia me toca mais fundo.
Mas o Vinícius não era um poeta do crepúsculo. Era um poeta da noite. Há as noites das noitadas, dos amigos, do uísque, do violão. E há a noite quando todos se foram, o silêncio. Noite madrugada. Noite solidão. Noite oração. Apenas o som de passos de alguém que caminha na rua. Era nas madrugadas que a poesia lhe vinha mais funda, metafísica.
Sob a luz do crepúsculo eu medito. Releio o poema de Frost:
“Os bosques são belos, escuros, fundos.
Mas tenho promessas a guardar
e muitas milhas a
andar antes de poder dormir.
Sim, antes de poder dormir.”
Vejo o bosque escuro. Ouço uma sedutora voz que me chama, convidando-me ao cobertor aconchegante da noite. Aí eu digo “Não”! Tenho ainda promessas a cumprir — promessas que fiz a mim mesmo, livros a escrever, que é o jeito que tenho de espalhar-me por muitos para não desaparecer... E muitas milhas a andar porque há muitas coisas a amar...
Aí eu sinto a mesma coisa que sentiu a minha aluna na sala de aula. Tenho vontade de chorar...

A Saia Almarrotada

O monçambicano MIA COUTO com o livro
O Fio das Missangas* (Companhia das Letras)
traz 29 narrativas curta sobre mulheres:

Trecho
Na minha vila, a única vila do mundo, as mulheres sonhavam com vestidos novos para saírem. Para serem abraçadas pela felicidade. A mim, quando me deram a saia de rodar, eu me tranquei em casa. Mais que fechada, me apurei invisível, eternamente noturna. Nasci para cozinha, pano e pranto. Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer, que acabei sentindo prazer em ter vergonha.
Belezas eram para mulheres de fora. Elas desencobriam as pernas para maravilhações. Eu tinha joelhos era para descansar as mãos. Por isso, perante a oferta do vestido, fiquei dentro, no meu ninho ensombrado. Estava tão habituada a não ter motivo, que me enrolei no velho sofá. Olhei a janela e esperei que, como uma doença, a noite passasse. No dia seguinte, as outras chegariam e falariam do baile, das lembranças cheias de riso matreiro. E nem inveja sentiria. Mais que o dia seguinte, eu esperava pela vida seguinte.
Minha mãe nunca soletrou meu nome. Ela se calou no meu primeiro choro, tragada pelo silêncio. Única menina entre a filharada, fui cuidada por meu pai e meu tio. Eles me quiseram casta e guardada. Para tratar deles, segundo a inclinação das suas idades.
E assim se fez: desde a nascença, o pudor adiou meu amor. Quando me deram uma vaidade, eu fui ao fundo. (A Saia Almarrotada)

*Miçangas - Ele prefere grafar a palavra com dois esses.
Reportagem de Ubiratan Brasil no Estadão impresso, 15 de março de 2009.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Direito ao aborto

Frei Betto*
Embora contrário ao aborto, admito sua descriminalização em certos casos, como o de estupro, e não apoio a postura do arcebispo de Olinda e Recife ao exigir de uma criança de 9 anos assumir uma gravidez indesejada sob grave risco à sua sobrevivência física (pois a psíquica está lesada) e ainda excomungar os que a ajudaram a interrompê-la.
Ao longo da história, a Igreja Católica nunca chegou a uma posição unânime e definitiva quanto ao aborto. Oscilou entre condená-lo radicalmente ou admiti-lo em certas fases da gravidez. Atrás dessa diferença de opiniões situa-se a discussão sobre qual o momento em que o feto pode ser considerado ser humano. Até hoje, nem a ciência nem a teologia têm a resposta exata. A questão permanece em aberto.
Santo Agostinho (séc. 4) admite que só a partir de 40 dias após a fecundação se pode falar em pessoa. Santo Tomás de Aquino (séc. 13) reafirma não reconhecer como humano o embrião que ainda não completou 40 dias, quando então lhe é infundida a “alma racional”.
Essa posição virou doutrina oficial da Igreja a partir do Concílio de Trento (séc. 16). Mas foi contestada por teólogos que, baseados na autoridade de Tertuliano (séc. 3) e de santo Alberto Magno (séc. 13), defendem a hominização imediata, ou seja, desde a fecundação trata-se de um ser humano em processo. Essa tese foi incorporada pela encíclica Apostolica Sedis (1869), na qual o papa Pio IX condena toda e qualquer interrupção voluntária da gravidez.
No século 20, introduz-se a discussão entre aborto direto e indireto. Roma passa a admitir o aborto indireto em caso de gravidez tubária ou câncer no útero. Mas não admite o aborto direto nem mesmo em caso de estupro.
Bernhard Haering, renomado moralista católico, admite o aborto quando se trata de preservar o útero para futuras gestações, ou se o dano moral e psicológico causado pelo estupro impossibilita aceitar a gravidez. É o que a teologia moral denomina ignorância invencível. A Igreja não tem o direito de exigir de seus fiéis atitudes heroicas.
Roma é contra o aborto por considerá-lo supressão voluntária de uma vida humana. Princípio que nem sempre a Igreja aplicou com igual rigor a outras esferas, pois defende o direito de países adotarem a pena de morte, a legitimidade da “guerra justa” e a revolução popular em caso de tirania prolongada e inamovível por outros meios (Populorum Progresio).
Embora a Igreja defenda a sacralidade da vida do embrião em potência, a partir da fecundação, ela jamais comparou o aborto ao crime de infanticídio nem prescreve rituais fúnebres ou batismo in extremis para os fetos abortados. Para a genética, o feto é humano a partir da segmentação. Para a ginecologia-obstetrícia, desde a nidação. Para a neurofisiologia, só quando se forma o cérebro. E, para a psicossociologia, quando há relacionamento personalizado. Em suma, carece a ciência de consenso quanto ao início da vida humana.
Partilho a opinião de que desde a fecundação já há vida com destino humano e, portanto, histórico. Sob a ótica cristã, a dignidade de um ser não deriva daquilo que ele é, mas do que pode vir a ser. Por isso, o cristianismo defende os direitos inalienáveis dos que se situam no último degrau da escala humana e social.
O debate sobre se o ser embrionário merece ou não reconhecimento de sua dignidade não deve induzir ao moralismo intolerante, que ignora o drama de mulheres que optam pelo aborto por motivos que não são de mero egoísmo ou conveniência social, como é o caso da menina do Recife. Se os moralistas fossem sinceramente contra o aborto, lutariam para que não se tornasse necessário e todos pudessem nascer em condições sociais seguras. Ora, o mais cômodo é exigir que se mantenha a penalização do aborto. Mas como fica a penalização do latifúndio improdutivo e de tantas causas que, no Brasil, levam à morte, por ano, de cerca de 21 entre cada 1.000 crianças que ainda não completaram 12 meses de vida?
“No plano dos princípios” — declarou o bispo Duchène, então presidente da Comissão Espiscopal Francesa para a Família — “lembro que todo aborto é a supressão de um ser humano. Não podemos esquecê-lo. Não quero, porém, substituir-me aos médicos que refletiram demoradamente no assunto em sua alma e consciência e que, confrontados com uma desgraça aparentemente sem remédio, tentam aliviá-la da melhor maneira, com o risco de se enganar”. (La Croix, 31/3/79)
O caso do Recife exige profunda análise quanto aos direitos do embrião e da gestante, a severa punição de estupros e violência sexual no seio da família, e dos casos de pedofilia no interior da Igreja. E, sobretudo, como prescrever medidas concretas que socialmente venham a tornar o aborto desnecessário.
* Escritor, autor em parceria com L. F. Verissimo e outros, de o desafio ético (Garamond), entre outros livros.
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 13/03/2009

Professor do século 21

Danilo Gandin*

Imagine um grupo de jovens entrando na universidade. Querem ser professoras e professores do ensino básico. Como vamos prepará-los?
Teremos bastante tempo: são quatro anos com umas 800 aulas por ano. Não aceite menos, mas também não exija mais. A formação de um professor requer um amadurecimento durante toda a vida; ele vai crescer enquanto for professor. E, se forem aproveitadas, 3,2 mil aulas são suficientes para um excelente começo de preparação.
Antes de tudo, vamos debater com eles como deve ser uma pessoa “culta” no século 21. Pensaremos conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias e, a partir disto, prepararemos um currículo para estes universitários e para um futuro grupo de alunos do ensino básico. Queremos que um professor do ensino básico seja um cidadão completo naquilo que é necessário nos dias de hoje. Obviamente este “completo” estará no esforço para sê-lo. De ninguém se exige a perfeição, mas o caminhar sempre em sua direção.
Insistiremos: não queremos um currículo de disciplinas; queremos um conjunto de temas, de ações, de regras, de atitudes que nossos futuros professores e nossos futuros alunos do ensino básico terão que debater e vivenciar para poderem participar na sociedade em todos os seus aspectos. Será necessário, por exemplo, conhecer a natureza, o próprio ser humano e a sociedade da qual farão parte e, além disto, definir procedimentos éticos e desenvolver habilidades necessárias para agora. Haverá nisto, também, um grau de liberdade porque nem todos terão os mesmos conhecimentos, as mesmas habilidades e os mesmos valores.
Nada, pois, de limitar o ensino à matemática, à geografia, à história, à química etc. O mundo se abriu, o conhecimento se expandiu. A pergunta mais importante é: quais os conhecimentos, as habilidades, os valores mais importantes no mundo de hoje para que uma pessoa seja um cidadão eficaz em nossa sociedade. Isto não pode ser tratado com a escolha de um conjunto de disciplinas; não será possível porque deveriam ser tantas, que inviabilizariam as escolas. De qualquer modo, disciplinas são para preparar especialistas e este não é o caso aqui. Em vez delas, teremos um professor único por turma de alunos (pelo menos no Ensino Fundamental), ajudando-os a se constituírem como cidadãos.
Depois, melhor, ao mesmo tempo, estudaremos o ser humano, como ele é, como ele evolui e, sobretudo, como ele aprende e como incorpora valores.
Para a formação do professor, haverá outro ponto fundamental: o domínio de processos, técnicas e instrumentos didáticos. A intervenção do professor para o crescimento dos alunos não é apenas necessária, é imprescindível.
*Professor, escritor e conferencista
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2436730.xml&template=3898.dwt&edition=11891&section=1012 - 13/03/2009

segunda-feira, 9 de março de 2009

O século das mulheres

Mauro Santayana
Meses antes de sua morte, em 1982, conversei com Alceu Amoroso Lima, em uma entrevista para a Folha de S. Paulo. Ele havia perdido, pouco antes, a sua mulher, e a lembrança de Maria Tereza intervinha, sempre, enquanto ele tratava das ideias de seu tempo e das previsões sobre o século que viria. Busquei, de sua inteligência do mundo, o que era possível no diálogo de um dia inteiro. Ele recordou sua vida e, nela, o surgimento das ideias, dos compromissos, das revisões ideológicas e políticas, das influências poderosas, como as de Jackson de Figueiredo, da admiração pelo sogro, Alberto de Faria, e pelo cunhado, o romancista Otávio de Faria. Quando chegamos à atualidade em que estávamos, e entramos no terreno das perspectivas, Alceu me disse que o século 21 seria o das mulheres e dos negros.

Lembrei-me disso, ontem, Dia Internacional da Mulher. Alceu via essa ascensão como resultado das lutas históricas. Era inadmissível, na sua visão dos 88 anos (quando conversamos), que a minoria de homens brancos mantivesse o poder sobre essas duas parcelas da humanidade. Alceu não era marxista. Não me ocorreu perguntar sobre as lutas das mulheres, nos últimos dois séculos. Ontem, é claro, foi o dia de Clara Zetkin, a brava militante comunista que, no Congresso Internacional das Mulheres (Copenhague, 1910) propôs que a data de 8 março fosse um dia de luta internacional das mulheres por seus direitos à igualdade, em homenagem a tecelãs de Nova York. Em greve, elas foram massacradas pela polícia em 8 de março de 1857.

Nesse mesmo ano, Clara Zetkin nascia na Alemanha, e os Estados Unidos eram governados pelo pior presidente de sua história, antes de Bush – of course – James Buchanan. A partir de então intensificou-se, nos Estados Unidos e na Europa, a luta das mulheres trabalhadoras. Em 25 de março de 1911, um ano depois do Congresso de Copenhague, um incêndio, talvez criminoso, em uma confecção de roupas femininas, também em Nova York, a Triangle Shirtwaist Factory, daria mais significação ao Dia Internacional da Mulher. Por muito tempo se discutiu a origem do fogo, que matou 148 mulheres, em sua maioria imigrantes europeias, algumas delas ainda meninas de 12 anos, que trabalhavam 15 horas por dia e recebiam a metade do salário de um homem. O fato revelou o regime de trabalho semiescravo das mulheres e estimulou sua organização política e sindical.

Clara Zetkin se uniu aos espartaquistas alemães logo depois da guerra e se elegeu deputada, em 1920, ao Bundestag, onde, durante os 12 anos que se seguiram, dedicou-se à luta contra a ascensão dos nazistas. Na abertura do Parlamento, em 1932, fez violento discurso contra a chegada de Hitler à Chancelaria, e foi das primeiras expurgadas do Bundestag pelo Führer. Exilada, morreu em Moscou, no ano seguinte. As mulheres brasileiras não estiveram ausentes do movimento feminino. No mesmo ano de 1910, Deolinda Daltro fundava o Partido Feminino Republicano e reivindicava o direito de voto para as mulheres. Em 1917, elas conseguiriam o direito de trabalhar no serviço público. Em seguida, Bertha Lutz se destacaria na reivindicação do direito à igualdade intelectual com os homens e ao voto.

A astúcia do capitalismo se apoderou da data de 8 de março, convertendo-a em oportunidade comercial. É o dia de trocar presentes, de homenagens às mulheres, apenas por serem mulheres, e não pela bela e forte história de sua resistência contra a opressão. A data é de luta.

Alceu não deu muita importância à eleição de Mme Thatcher para a chefia do governo britânico: a Inglaterra estava em seu ocaso. Para ele, mais importante era a presença de Indira Gandhi na liderança da Índia. Posso imaginar o sorriso franco de Alceu, se ainda estivesse vivo, com a eleição de Barack Obama para a Casa Branca e, antes disso, com a presença do africano Koffi Annan na Secretaria Geral da ONU. E, é claro, com tantas mulheres ocupando o poder, no Brasil e em outros lugares, a ponto de já se elegeram para a chefia de estados modernos, Michelle Bachelet, Cristina Kirchner, Angela Merkel, e as candidatas Segolène Royal, Hillary Clinton e Heloisa Helena (derrotadas por Sarkozy, Obama e Lula). Agora surge o nome de Dilma Roussef.
Alceu acreditava que os negros e mulheres governariam melhor, porque conhecem mais de perto a opressão.

Justiça social, desenvolvimento e trabalho

José Carlos Ferreira*
Celebrou-se no último dia 20 de fevereiro, pela primeira vez, o Dia Mundial da Justiça Social, aprovado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, um convite à retomada dos objetivos e metas propostos na Conferência Mundial para o Desenvolvimento Social. No Brasil, não houve nenhuma referência à campanha.
Os representantes dos países presentes à Conferência concordaram em que o desenvolvimento deve ter por meta o atendimento das necessidades do homem, traduzidas na defesa de seus direitos como cidadão, no acesso ao emprego, à Justiça, à integração social e ao meio ambiente equilibrado.
Posteriormente aos resultados da Conferência, se somaram os Objetivos do Milênio, fortalecendo ainda mais o papel reservado à luta pela redução da pobreza no mundo como meio para se alcançar a justiça social. Tem-se, portanto, claramente, proposta universal de agenda para o desenvolvimento social. Resta decidir sobre a melhor estratégia a ser formulada e implementada em cada país.
Ao se formular estratégia de desenvolvimento social tem-se que definir, simultaneamente, a forma pela qual a complementaridade das ações dos diversos atores sociais se processará. Posteriormente, a estratégia deveria ser posta para discussão junto aos representantes da sociedade com vistas a buscar a sua compreensão e comprometimento nos esforços projetados. Esse papel estaria reservado ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.
Não se pode pensar numa estratégia desenvolvimentista sem que estejam envolvidos e compromissados os governos municipais e, nesse nível, as lideranças locais, sua vocação econômica e sua interação com os municípios vizinhos. Consequentemente, não se pode pensar numa estratégia de desenvolvimento local sem levar em consideração as cadeias produtivas existentes ou a serem criadas.
Não se pode pensar em desenvolvimento sem levar em consideração as grandes diferenças e desequilíbrios regionais, suas vocações produtivas, suas vantagens comparativas e o grau de desenvolvimento social já alcançado.
Não se pode pensar em desenvolvimento sem que haja integração entre os ministérios, avaliando os requisitos e os impactos setoriais e regionais antes mesmo da alocação dos recursos financeiros requeridos. Não se pode pensar numa estratégia de desenvolvimento sem que o desenvolvimento alcançado seja autossustentável, para o qual é fundamental a geração de mais e melhores empregos. Gerar mais empregos é consequência dos investimentos públicos e privados. Gerar melhores empregos significa formular políticas de proteção ao trabalhador, formal e informal, de erradicação do trabalho infantil e das condições de trabalho análogas às do trabalho escravo. Significa gerar políticas de inserção social, tendo por foco os grupos sociais mais desprotegidos, como os jovens e as mulheres negras e pobres.
Por melhores e mais abrangentes que sejam as políticas acima mencionadas, a falta de conscientização nacional quanto à sua observação certamente enfraquecerá seu alcance. Veja-se, por exemplo, a situação das empregadas domésticas, cujos dados indicam que a maioria ainda não dispõe de qualquer proteção social.
Por outro lado, quantas e quantas famílias ainda se apoiam no emprego de meninas menores de 16 anos, por receberem menor salário, fazendo o trabalho de um adulto, sacrificando a formação escolar e comprometendo sua qualidade de vida quando adulta. Em condições semelhantes sobrevivem os trabalhadores informais, principalmente os que prestam serviços em empresas não legalmente constituídas, sem direito a nenhum dos benefícios aplicáveis ao trabalhador com carteira assinada.
Promover a justiça social pressupõe somar esforços para alcançar maior inclusão social, promovendo o pleno emprego e o trabalho decente mediante o desenvolvimento social sustentável. Definir estratégia de desenvolvimento não é tarefa fácil, e essa tarefa se torna ainda mais difícil quando se pensa num país do tamanho do Brasil, com a cara do Brasil e com o jeito do Brasil.
*Técnico de planejamento e pesquisa do Ipea
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 09/03/2009

domingo, 8 de março de 2009

Apóstolo do mercado

Guy Sorman
Entrevista
O polêmico Guy Sorman não se abalou com a hipótese da inevitável e cada vez maior participação do Estado na economia depois da crise. Liberal convicto, o filósofo e economista francês foi professor do Instituto de Ciências Políticas de Paris e atualmente trabalha como conselheiro econômico do governo de vários países como Coréia do Sul, Polônia, Argentina, Turquia, Irã, além da própria França. Nesta entrevista concedida à CULT, de Paris, Sorman fala sobre o capítulo dedicado ao Brasil em seu último livro, A economia não mente (editora É Realizações, 2008). Segundo a hipótese nada evidente do autor, o avanço das igrejas pentecostais no país teria facilitado a difusão da crença interna no mercado. Sorman também fala sobre a crise, que deveria ter sido um golpe duro à mentalidade liberal. O escritor, no entanto, contemporiza: "A intervenção do Estado na economia não é uma questão teológica, mas uma questão prática".

Reprodução

CULT - Por que você acredita que o futuro já chegou ao Brasil?
Guy Sorman - Os brasileiros constataram que a aliança entre democracia e economia de mercado produz resultados positivos. O progresso para o maior número de pessoas resulta dessa visão pragmática da história.

CULT - Quais as vantagens ou os inconvenientes que o Brasil tem, na sua opinião, em relação aos demais países do BRIC (grupo de países emergentes que inclui Brasil, Rússia, Índia e China)?
A noção de BRIC não faz sentido: comparam-se civilizações distintas e modelos econômicos diferentes.

CULT - Em seu último livro A economia não mente (publicado no Brasil em 2008), você questiona a validade do determinismo religioso ou cultural no desenvolvimento econômico. Mas no capítulo dedicado ao Brasil você diz que as igrejas neopetencostais ajudam os brasileiros a compreender melhor o espírito capitalista.
Rejeito todo tipo de determinismo. Não existe uma religião em si, mas fenômenos religiosos que evoluem. Assim, o islã pode ser tanto favorável ao desenvolvimento (como na Turquia) quanto em contradição com ele (Magreb). No Brasil, como em vários países da AL, a igreja católica frequentemente esteve contra a economia; isso foi superado pelos movimentos evangélicos que acompanham e favorecem o crescimento.

CULT - Existiria, para você, uma América Latina moderna e outra arcaica?
Há duas AL's, aquela que sonha com a revolução e aquela que está mais engajada com o mundo real. Se bem que alguns movimentos revolucionários, como o da Bolívia, são mais étnicos do que ideológicos.

CULT - Como interpreta a crise atual? Há paralelos com 1929?
A crise é mundial porque a economia é mundial. Em 1929, a crise foi provocada por uma bolha especulativa nos EUA. A diferença em relação a 1929 não tem a ver com as causas da crise, mas com o fato de que sabemos administrá-la. Aquela de 1929 foi longa porque os governos fecharam as fronteiras. Desta vez, as fronteiras estão abertas: a crise deverá ser mais rápida.

CULT - Como avalia a reabilitação do keynesianismo e a nova onda de intervenção dos governos sobre a economia? Essa intervenção pode contornar a crise ou será ineficaz?
A intervenção do Estado na economia não é uma questão teológica. É uma questão prática. Existem intervenções justificadas como a emissão de moeda pelos bancos centrais para que o crédito continue. Mas intervenções podem ser prejudiciais se acarretarem em inflação ou se impedirem a criação de novas atividades. O mais eficaz em tempos de crise é favorecer a inovação, com Estado ou sem Estado. Keynes não tinha compreendido, em sua época, que o motor do crescimento era a criação destruidora; foi Schumpeter quem compreendeu isso.

CULT - Qual sua posição em relação às hipóteses de que a crise atual romperá com a hegemonia americana na economia?
Os EUA conservarão a vantagem graças às suas universidades e ao seu exército. Um terço dos diplomas no mundo, em 2008, veio dos EUA, seguido de Japão, Europa e Coréia: é como uma projeção da economia de amanhã. E o exército americano é naturalmente o único a preservar a ordem mundial; sem ele, o comércio internacional seria interrompido. Não há candidato alternativo para assumir esse posto de polícia mundial.

CULT - Você acredita que essa crise pode ajudar a construção, a longo prazo, de um governo mundial?
Um governo mundial não me parece algo desejável, pois não seria democrático; certamente seria despótico.

CULT - A França foi duramente afetada pela crise. O contexto econômico dará ocasião para a liberalização da economia francesa ou haverá uma recrudescência do papel do Estado?
O governo francês deveria logicamente utilizar a crise para liberalizar nossa economia, que é bastante burocrática. Mas, na realidade, o reflexo bonapartista decidiu pelo contrário. Por sorte, somos impedidos por algumas regras europeias de cometer erros irreparáveis.

CULT - Seu último livro, publicado antes da crise, possui um tom otimista. Você continua otimista com o destino do liberalismo e do mercado capitalista?
Os liberais não são otimistas, mas realistas. Dizemos que o caminho do desenvolvimento existe, em todas as civilizações. Este caminho é caótico como são as sociedades humanas: a economia não é melhor do que o homem. Além disso, as crises são inerentes ao crescimento porque este se fundamenta na inovação: a inovação não aparece todo dia. A crise atual não questiona, portanto, o realismo liberal. Os idealistas, por sua vez, procuram um sistema perfeito. Eles têm o direito a isso, mas eu desconfio.

CULT - Como avalia o início do governo Obama?
Obama é um presidente centrista e laico: isso é novo nos EUA. Sua política externa será a mesma de seus predecessores: um imperialismo benevolente. Sua política econômica está petrificada de contradições, ao mesmo tempo pró-capitalistas e estadistas. Mas o governo americano pode se permitir a erros, pois o mundo inteiro compra bônus do tesouro em dólares. A poupança chinesa pagará pelas falhas da gestão nos EUA.
Reportagem de Gunter Axt - 06/03/2009 - Revista Cult on-line