terça-feira, 19 de maio de 2009

De Belém a Davos

Antonio Delfim Netto*

A organização do sistema econômico na maioria das atuais sociedades não caiu do céu. Nem foi obra de um projeto cerebrino. Ela é produto de uma evolução histórica. Um processo seletivo de formas alternativas, que foram bem descritas por muitos autores e, de uma forma insuperável, por Karl Marx. Aliás, as últimas alternativas de substituí-la (o bárbaro stalinismo e o maoísmo que se mostraram inviáveis por seu custo material e humano) foram, originalmente, inspiradas pela traição do seu pensamento. Felizmente, a "esquerda" brasileira sempre foi muito diversificada (leninistas, stalinistas, trotskystas, luxemburguistas etc.) e a melhor parte dela sempre combateu a ditadura soviética. Uma das cenas cômicas da política brasileira atual é ver alguns dos mais "fiéis stalinistas" proclamarem-se agora ferozes ético-democratas...

O que a história parece mostrar é que, sem o mercado, isto é, sem um mecanismo em que os preços se formem revelando as preferências dos consumidores e a escassez relativa dos fatores produtivos, é difícil encontrar a eficiência produtiva. Parece, também, que os mercados só se organizam eficientemente quando se apoiam na propriedade privada e são bem regulados pelo Estado na sociedade em que estão imersos.

Há, por outro lado, razoáveis evidências que novas formas de organização produtiva e o progresso tecnológico, que controlam o desenvolvimento, só surgem quando o Estado garante e estimula que os resultados dessas novas iniciativas sejam apropriados pelos seus autores. Foi nessa linha que a seleção "quase natural" dos sistemas econômicos foi evoluindo para chegar à situação atual: razoável eficiência produtiva, ampla liberdade individual e apropriação dos seus resultados pelos agentes mais ativos e competitivos. É a isso que se chama "capitalismo". O grave problema com ele é que não reduz, por si mesmo, a desigualdade entre os indivíduos. Este inconveniente se agrava porque o sistema é instável, revelando flutuações endógenas (na forma de ciclos econômicos), causando variações no nível de emprego, no nível de riqueza e no nível de pobreza, acentuando a desigualdade entre os cidadãos, que deve ser amenizada pela ação inteligente do Estado.

Quando se ensinava economia política na FEA/USP, na segunda metade dos anos 40, o professor . Paul Hugon (um institucionalista) insistia nos três "pecados capitais do capitalismo":
1) eficiente, mas incapaz de acabar com a pobreza;
2) compatível com a liberdade individual, mas incapaz de reduzir o nível de desigualdade; e
3) progride por ciclos dolorosos, impondo enormes custos aos trabalhadores.

Como corrigi-los? Hugon acreditava que a pobreza e a desigualdade podiam ser aliviadas ao longo do tempo pelo progresso da economia política e sufrágio universal, isto é, pela urna, desde que esta não eliminasse a base do desenvolvimento, que é a apropriação pelos indivíduos dos benefícios resultantes de suas iniciativas.

Aos futuros economistas, acreditava o velho mestre, "está reservada a sublime tarefa de resolver o problema das flutuações indesejadas do sistema capitalista e as desigualdades que ele cria". Nem a urna nem os economistas cumpriram até agora essa profecia. Hoje, com a distância de meio século, podemos ver que as coisas ainda não se moveram naquela direção. Entretanto, a globalização, a livre movimentação dos capitais e a sucessão de crises que se abateram sobre as economias gestaram uma "consciência social", que começa a expressar-se mais claramente nos resultados eleitorais. Por outro lado, os avanços da teoria econômica nem reduziram a pobreza, nem a amplitude dos ciclos econômicos.

Nos últimos 50 anos, o mundo cresceu mais e com menores (mas ainda graves) flutuações do que em qualquer outro meio século de que se tem registro histórico. Infelizmente, o avanço em termos de superação da pobreza e desigualdade foi pequeno. A prova disso são o Fórum Social Mundial itinerante e o Fórum Econômico Mundial de Davos: FSM e FEM. As letras do meio, "s" (social) e "e" (econômico) estão a mostrar que os "três pecados capitais do capitalismo" ainda não foram corrigidos.

Em Belém, no FSM, a média de idade dos participantes não devia chegar aos 30 anos. Era a vida querendo ser nietzschianamente vivida, folcloricamente representada na saudade de Woodstock por um jovem guitarrista e sua "mina" ao lado de sua barraca de lona, na improvisada rua Karl Marx! Seu grito de guerra era contra o "capitalismo" e a sua angústia produzida pela fúria competitiva do mundo moderno. Em Davos, a média de vida era maior do que 60. Era a vida vivida, continuando a lamentar... e a aproveitar as flutuações do capitalismo.

*Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras
E-mail contatodelfimnetto@terra.com.br
http://www.valoronline.com.br/ValorImpresso/MateriaImpresso.aspx?dtMateria=19/5/2009%200:00:00&codMateria=5572622&codCategoria=89 19/05/2009

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Sobre a escolha do anel de pureza


VOCÊ SABIA que o anel de pureza que os garotos dos Jonas Brothers usam como uma espécie de compromisso para se manterem virgens e "puros" até o casamento é um comportamento adotado por muitos jovens mundo afora?O trio, que é filho de um ex-pastor protestante, costuma dizer, em entrevistas, que a decisão partiu deles mesmos e que o anel simboliza esse compromisso com Deus. E não é que outros jovens astros americanos também têm usado o anel de pureza?
Mas, afinal de contas, esse tipo de comportamento não vai justamente na contramão de tudo o que a gente tem visto sobre a sexualidade dos jovens? Aqui no Brasil, segundo dados de 2006 do Ministério da Saúde, cerca de 50% dos garotos e um terço das garotas já haviam feito sexo antes dos 15 anos. É bem comum ver hoje, por aqui, jovens que têm um ou dois parceiros sexuais antes de estabelecerem um namoro mais estável.
Além disso, nos EUA, nos últimos dois governos do presidente Bush (mais conservador) foi investida uma soma considerável de dinheiro em projetos que trabalhavam a questão da abstinência sexual entre os jovens, em detrimento de projetos que abordavam a prevenção e o uso de camisinha. Você imagina o que aconteceu?
Os estudos avaliaram que essa política pública de investimento em abstinência não funcionou e que quase 90% dos jovens que se comprometiam a não fazer sexo não conseguiam manter sua promessa ao longo de um ano. E daí? Como não haviam sido expostos a informação sobre DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) e prevenção de gravidez, eles acabavam tendo problemas nessas duas áreas.Por outro lado, é fundamental a gente lembrar que toda vez que se fala em comportamento humano, ainda mais no campo da sexualidade, sempre existe um mosaico de possibilidades. Não existe um modelo único!
Um exemplo: na minha mais recente experiência universitária -este colunista acabou de ser aprovado em um novo vestibular e agora é calouro de biologia da Universidade Federal de Santa Catarina- me surpreendi com pelo menos dois jovens colegas que só pretendem fazer sexo depois do casamento, por decisão pessoal, compromissos com a família ou questões religiosas.
Ou seja, se há muita gente precoce no sexo, há outros tantos que preferem adiar o início da vida sexual e até ficar sem sexo até o casamento. O importante é que essa diversidade de opções seja respeitada e que se tenha consciência de que uma promessa, às vezes, é muito difícil de ser cumprida a longo prazo e que, eventualmente, pode ser mudada! Ainda mais quando se é jovem! Afinal, quem nunca mudou de decisão na vida, não é?
Reportagem Folha de São Paulo na secção SExo x Saúde de Jairo Bouer, 17/05/2009
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm1805200903.htm

Estrategista do perdão

Carlos Alberto Di Franco*

A cobertura da imprensa da recente visita do papa à Terra Santa foi bastante razoável. Algumas matérias, ancoradas em informações de agências internacionais, deram, talvez, excessivo destaque aos destemperos isolados de alguns radicais e alimentaram polêmicas vazias que não se sustentam em pé. É preciso reconhecer, no entanto, que alguns equívocos cresceram à sombra do surpreendente despreparo do porta-voz do Vaticano.
"O papa nunca fez parte da Juventude Hitlerista", afirmou monsenhor Federico Lombardi, acrescentando que Bento XVI foi convocado apenas para servir numa unidade antiaérea das tropas alemãs. Horas depois, voltou atrás na afirmação e divulgou um comunicado reconhecendo o que o papa, um homem reconhecidamente transparente, jamais negou: teve uma breve e compulsória participação na Juventude Hitlerista. Foi, como milhares de crianças alemãs, privado de sua liberdade e vitimado pelos abusos criminosos do governo de Hitler.
Comprova-se, mais uma vez, que os injustos ataques à imagem de Bento XVI não se originam apenas nas fileiras hostis ao Vaticano. São reforçados pela crescente ação do fogo amigo. E não estou pensando somente nas escorregadas do porta-voz. Os equívocos não se limitam à Sala de Imprensa. As puxadas de tapete, por sua magnitude e ousadia, nascem, estou certo, em ambientes curiais que deveriam primar pela lealdade ao papa.
Mas voltemos, caro leitor, ao tema deste artigo. Durante toda a viagem o papa repetiu duas mensagens: a de que cristãos, judeus e muçulmanos dividem as mesmas raízes e a importância da presença cristã no Oriente Médio. Ao visitar a Cidade Velha de Jerusalém, Bento XVI foi à Esplanada das Mesquitas (conhecida como Monte do Templo pelos judeus), o terceiro lugar mais sagrado para o Islã, e entrou descalço no Domo da Rocha, de onde o Profeta Maomé teria subido aos céus. Em outro momento comovente, o papa depositou um bilhete entre as pedras do Muro das Lamentações, local sagrado para o judaísmo. No bilhete, pediu ao "Deus de Abraão, Isaac e Jacó que leve sua paz à Terra Santa, ao Oriente Médio e a toda a família humana".
Seu apelo ao convívio pacífico, apoiado na força de sua autoridade moral, foi a tônica dessa viagem. "Apelo a todos para que explorem todas as possibilidades na busca de uma solução justa, apesar das consideráveis dificuldades, para que ambos os povos possam viver em paz em sua própria terra, com segurança e fronteiras internacionalmente reconhecidas. A esperança de inúmeros homens, mulheres e crianças de um futuro seguro e estável depende do resultado de negociações de paz entre israelenses e palestinos."
Mas Bento XVI sabe que a paz no Oriente Médio não depende de acordos meramente políticos, mas de algo muito mais profundo: a estratégia do perdão. Acima dos ódios milenares que dilaceram aqueles povos, o papa pediu a Deus que ajude os povos do Oriente Médio a derrubar os muros da hostilidade e da divisão. Pediu a judeus, muçulmanos e cristãos que "promovam uma cultura de reconciliação e paz, mesmo que esse processo seja dolorosamente lento e seja qual for o peso das memórias do passado".
"Não deve haver lugar nessas muralhas para estreiteza, discriminação, violência e injustiça", disse o papa.
A estratégia do perdão está no cerne da diplomacia papal. Ela deu um salto gigantesco no governo de seu antecessor. Como principal assessor de João Paulo II, o então cardeal Ratzinger, brilhante intelectual e teólogo renomado, teve papel decisivo na redação de um documento carregado de significado, a bula Incarnationis Mysterium, que instituiu o jubileu do ano 2000. Bento XVI, à semelhança de seu antecessor, aposta na força purificadora e libertadora da verdade. Movido pelo espírito de reconciliação, o papa pediu perdão pelos erros cometidos pelos fiéis e pelos representantes da Igreja Católica ao longo dos 2 mil anos de vida da instituição.
Esse gesto sem precedentes na História provocou interesse das outras religiões, mas foi recebido com reservas por alguns integrantes da própria Igreja Católica. Questionou-se a iniciativa do papa, porque se considerou que era unilateral, e se pediu um passo semelhante das outras igrejas. João Paulo II então e Bento XVI agora, numa atitude de grandeza moral, não calcularam contrapartidas. O perdão genuíno, a reconciliação que tanta falta faz no Oriente Médio, é sempre uma abertura desarmada e generosa.
O perdão desinteressado é a verdadeira e única alavanca da paz. É, no fundo, a linha fundamental de toda a estratégia da Igreja. O papa falou reiteradamente de paz, justiça e unidade como "presentes de Deus", tocando no ponto nevrálgico que fez de suas intervenções um acontecimento de enorme conteúdo político, embora reitere o caráter religioso da sua mensagem. A coragem para enfrentar temas espinhosos, apoiada no alicerce de uma incontestável força moral, faz com que a voz de Bento XVI ainda possa ser ouvida num território minado por séculos de ódios, de intolerância e de incompreensões.
Reconciliação e unidade estiveram no centro dos objetivos papais. A viagem ao Oriente Médio, onde os filhos de Abraão, cristãos, judeus e muçulmanos, vivem num conflito permanente, não foi apenas a realização de um sonho do pontífice. Foi, na verdade, o corolário de uma vida dedicada à paz. A realização do sonho de Bento XVI não será fácil, mas sua agenda da reconciliação proposta no coração de uma região corroída pelas divisões e pelo ódio, se bem acolhida, pode indicar que algo de novo e surpreendente está despontando no horizonte da terra onde nasceu o Príncipe da Paz.

*Carlos Alberto Di Franco, doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, professor de Ética, é diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br) e da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com)E-mail: difranco@iics.org.br
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090518/not_imp372504,0.php

Trabalho e castigo: algo comum

Deonísio da Silva *

Trabalho veio do latim tripalium (tri, três; palus, pau), instrumento de tortura composto de três estacas. Esta é também a origem do espanhol trabajo. O condenado era amarrado, quando não empalado numa delas e ficava ali até morrer. O étimo serviu de base à vinculação de trabalho e sofrimento, coerente com a condenação dos três personagens envolvidos no pecado original, cometido no Éden: a serpente, Eva e Adão.

Como se sabe, os três transgressores receberam penas diferenciadas: a serpente (leia-se Satanás) foi condenada a rastejar sobre a terra durante toda a sua existência. A mulher recebeu o castigo de se sentir atraída pelo marido (sim, isso foi dado como castigo), ser dominada por ele e sofrer nos partos. O homem foi punido de outro modo: ganhar o pão com o suor do rosto até que voltasse à terra de onde tinha sido tirado.

Como se vê, Jeová foi mesmo durão. Nada de férias, licença-prêmio, auxílio-maternidade, bolsa-família, vale-lenha, vale-transporte, aposentadoria! E muito menos possibilidade de recurso a outros tribunais. Se a condenação tivesse sido feita no Brasil, estaria no Supremo Tribunal Federal (STF), à espera de ser apreciado o recurso, mesmo não sendo matéria constitucional, pois a autoridade coatora tem foro privilegiado e somente ali pode ser julgada. A menos que seja um banqueiro, como sabemos, que daí, caso seja preso, será solto rapidinho.

A ideia do trabalho como sofrimento, porém, não estava presente na etimologia latina, vez que o verbo trabalhar era laborare; e trabalho, labor. Outro dia, um conhecido escritor me perguntou qual era a tradução latina de um lema que ele criou para si mesmo: “Rezo e faço o meu serviço”. Desconfio que, versado em latim, o romancista queria apenas uma certificação. Dei-lhe duas opções. A literal: Oro et laborem meum ago. E uma síntese: Oro et laboro. E lembrei-lhe que a regra de São Bento, homenageado no nome do papa atual, é ora et labora (reza e trabalha). Não fosse a consolidação da recomendação beneditina, não haveria a Europa, pois o Velho Continente adotou o binômio de rezar e trabalhar como filosofia de vida para todos, sem pensar em bolsa de nada para ninguém! Muito mais tarde é que surgiram as ordens mendicantes.

No italiano predominou a outra vertente latina, de que são amostras as palavras lavorare (trabalhar) e lavoro (trabalho). No francês travail, ao contrário, a vertente é a mesma do português. Mas para trabalhador a língua francesa preferiu ouvrier, do étimo latino operarius, do verbo operare, formado a partir de operis, genitivo de opus, obra, cujo plural é opera.

Em inglês, trabalho é work, e no alemão, werk, procedendo ambos do grego érgon, ação, presente no português em outras palavras, como em ergonomia e ergoterapia.

O Dia do Trabalho é comemorado em 1º de maio em quase todos os países industrializados. A data remonta a um episódio trágico, ocorrido em Chicago (EUA), entre os dias 1º e 4 de maio de 1866, quando a polícia matou diversos operários que protestavam por melhores condições de trabalho. Oito anarquistas foram presos e condenados à morte, um dos quais se suicidou e quatro foram enforcados. Três, porém, foram absolvidos.

A consciência americana e a opinião pública não suportariam celebrar o trabalho em data tão sinistra. Nos EUA, o Dia do Trabalho é comemorado, desde 1894, na primeira segunda-feira de setembro.

* doutor em letras pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Estácio de Sá. Seu livro mais recente é o romance 'Goethe e Barrabás' (Editora Novo Século)
21:10 - 17/05/2009 - Jornal do Brasil
http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/05/17/e17057042.asp

Geração Y: por que as empresas temem?

Professor Ricardo Carvalho,
da Fundação Dom Cabral (FDC),
aborda o assunto
e diz que essas pessoas
têm potencial
a ser aproveitado

A geração Y desperta a curiosidade de muitas pessoas, mas tem causado preocupação para as empresas, segundo apontou o especialista e professor da Fundação Dom Cabral (FDC) Ricardo Carvalho em entrevista para o IT Web TV. "É uma geração que chega com novos valores, novas formas de ser e as empresas não estavam preparadas para isso", constata.

Os indivíduos que compõem esse grupo nasceram na década de 80 e trazem uma nova ideia de mundo, como ressaltou Carvalho. O trabalho, para esta geração, já não vem em primeiro lugar. Eles pensam em qualidade de vida e também no networking. Além disso, são pessoas desenvolvidas com base tecnológica. "Isso pode levar a um tipo de pensamento que não tem muito caráter sistêmico. Essas pessoas perderam a dimensão do relacionamento face a face, que é o que traz comprometimento", alertou.

Carvalho reconhece, no entanto, que características como a agilidade podem ser melhor aproveitada e essa questão da falta da conversa real, da negociação pode ser treinada e melhorada. "Algumas escolas estão trabalhando com isso", pontuou. O fato, é que a geração Y é ávida por tecnologia, está por dentro de tudo o que acontece na web e quer essa liberdade no mundo corporativo. Por outro lado, como também afirmou o especialista da FDC, são pessoas muito ansiosas e que perderam o hábito da leitura, extremamente importante.
Reportagem de Vitor Cavalcanti (15/05/2009)
http://www.itweb.com.br/noticias/index.asp?cod=57432&utm_source=newsletter_20090518&utm_medium=email&utm_content=ticker_Geração Y: por que as empresas temem?&utm_campaign=ITWebDirect

domingo, 17 de maio de 2009

Enviem Aristóteles

Umberto Eco*

Uma pesquisa da McAfee, da qual todos os jornais estão falando, chegou à conclusão de que o fenômeno do spam, ou seja, daquelas mensagens indesejadas que nos enviam por e-mail, resulta num enorme consumo de energia. Uma única mensagem gera 0,3 gramas de dióxido de carbono, o que equivale às emissões de um carro que percorre um metro na estrada.
Ao que parece, todo o spam em circulação consome 33 bilhões de kilowatts-hora de energia por ano, o que equivaleria ao consumo de três milhões de carros ou dois milhões e meio de casas. Isso gera um efeito estufa de 17 milhões de toneladas de gás carbônico. Pulo outros detalhes técnicos e me limito a observar que o spam, portanto, não é apenas um incômodo e uma forma frequente de nos roubarem informações, ele também tem uma influência negativa sobre nossa saúde.
Pelo visto, nenhuma autoridade do mundo é capaz de reduzir o spam, nem os filtros que costumamos ativar servem para muita coisa: muitas mensagens não desejadas acabam passando e parece que o maior desperdício de energia consiste exatamente em abrir essas mensagens ou eliminá-las manualmente.
É inevitável ficar com raiva disso tudo, e comecei a pensar no que podemos fazer para nos defendermos. Na falta de uma alternativa melhor, fiquei com vontade de me vingar. Foi então que tive uma ideia, e naturalmente espero que centenas de especialistas me respondam para demonstrar que ela é inviável ou prejudicial, mas já aviso que jogarei esses e-mails no lixo (considerando-os spam), uma vez que só pretendo lançar uma provocação.
Bem, vamos dividir os autores de mensagens não desejadas em dois grupos: os chatos industriais, ou profissionais, e os chatos artesanais, ou amadores.
Imagino que os chatos industriais tenham muitos meios para neutralizar meu protesto, mas há milhares de chatos artesanais, como aqueles que, num português duvidoso, informam que ganhamos um prêmio e pedem nossos dados, ou aquele malaio que diz ter recebido uma herança enorme que por algum motivo não conseguiu sacar e nos oferece 50% de participação para ajudarmos a recuperá-la, depois, é claro, de enviarmos algum dinheiro como garantia, etc, etc.
Os chatos amadores talvez nem tenham banda larga. Se já aconteceu de você receber um livro inteiro de 600 páginas, cheio de fotos coloridas, enquanto não estava em casa, mas numa pousada ou numa casa de campo sem banda larga, deve saber que, para descarregar tamanho lixo, o computador fica bloqueado por pelo menos uma hora.
Agora, para esse tipo de chatos, poderíamos responder enviando a Bíblia de Jerusalém. Ela pode ser encontrada em italiano no site http://www.liberliber.it/biblioteca/b/bibbia/index.htm, e do jeito que está lá tem 1.226 páginas e pesa 11.574 KB. Mas, se em dois segundos mudarmos o formato para espaço duplo e corpo 20, ela fica com 6.556 páginas e mais de 14.000 KB. Não é nada mal: se você tem banda larga, pode enviá-la em poucos minutos, do contrário, pode fazer com que o computador trabalhe de noite. Se quem recebe não tiver banda larga, terá alguma dificuldade. E se eu não fosse o único a enviar, mas centenas de usuários fizessem a mesma coisa, o desgraçado ficaria praticamente imobilizado.
Sei que fazer isso contribuiria para aumentar a poluição. Claro que, se por acaso, depois de algumas semanas, esta resposta convencesse uma certa quantidade de chatos a desistirem, sairíamos no lucro, e o preço energético pago seria menor do que o ganho final. E além disso, pereat mundus [faça-se a justiça ainda que o mundo pereça], o prazer da vingança é maior do que esses cálculos mesquinhos.
Naturalmente, sem muito esforço, o plano ainda pode melhorar. A cópia em PDF da edição de 1551 da "Retórica" e da "Poética" de Aristóteles tem mais de 37 mil KB, as mesmas dimensões da "Summa Theologica" em edição bilíngue. A "Anatomy of Melancholy" de Burton em PDF chega a 32 mil KB, e só "Os mistérios de Paris" de Sue, na edição francesa, tem 76.871 KB, quase seis vezes o tamanho da Bíblia. Se, além disso, você tiver um computador eficiente e colocá-lo para trabalhar à noite, pode mandar todos os textos que eu citei, de uma vez.
Por fim, depois de receber alguns milhares de Bíblias ou de Mistérios de Paris, até mesmo uma organização profissional pararia para pensar duas vezes. Devo dizer que, para ver quanto tempo o computador levava para baixar o arquivo, mandei a primeira Bíblia para o meu próprio e-mail. Não consegui encontrá-la na caixa de entrada, e me dei conta de que algum sistema de filtros a havia enviado automaticamente para os "itens eliminados". Mas acho que o tempo para baixar é o mesmo, e portanto, o inconveniente para o destinatário é tão grande quanto.
*Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. Entre seus principais livros estão "O Nome da Rosa" e o "Pêndulo de Foucault".
Tradução: Eloise De Vylder

A capacidade de encontrar a beleza de viver

Jaqueline Zoehler Azzi*
Normalmente colocamos no outro, namorado, marido, instituições, pais, destino etc. a responsabilidade por nossa felicidade. Esperamos que, através da relação com o outro, ou ainda da forma como o outro se relaciona comigo me faz, me diz, me propõe, enfim, reage e responde como o fator que impulsiona a minha felicidade ou infelicidade. Quando fazemos isso, também estamos depositando no outro a nossa força, o nosso poder de escolha, a nossa energia de vida. Fazemos isso de uma forma inconsciente. Então, é algo que devemos parar e pensar. "Como me comporto em relação às minhas alegrias, felicidades, tristezas e decepções? Como eu tenho contribuído para que elas aconteçam?"
Quando eu acredito que é o outro que me deixa feliz ou infeliz, eu transfiro a ele a força e a responsabilidade, que não lhe pertencem. Somente nós podemos construir algo em nossa vida e a isso chamamos de autorresponsabilidade. Esse poder e essa força é que nos fazem construir tudo que vivemos, as coisas lindas e as coisas ruins também. E essa é a verdadeira liberdade. Para isso é necessário um trabalho de autoconhecimento, onde, através de uma grande jornada, você empreende a exploração interior, vai ao encontro de seu eu mais profundo e descobre, então, que dentro de você vivem vários eus e que todos eles criam em sua vida, em sua realidade diária. Através desse autoconhecimento podemos expandir nossa consciência, podendo entender melhor nossas escolhas, reconhecer nossos verdadeiros anseios, para criarmos em nossa vida aquilo que realmente nos traga felicidade e nos possibilite maior qualidade em nossas relações e em nossa vida como um todo. O encontro profundo com nosso eu é o que realmente pode nos trazer o verdadeiro encontro com a beleza da vida.
*Psicóloga e facilitadora de Grupos de Pathwork - jaquezazzi@hotmail.com
http://jcrs.uol.com.br/noticias.aspx?pCodigoArea=32 17/05/2009

A fé e o conhecimento estão unidos

Por que as pessoas mais improváveis de repente estão falando sobre Deus?
Em seu mais recente livro, Reason, Faith and Revolution (Razão, Fé e Revolução), o crítico inglês Terry Eagleton pergunta: "Por que as pessoas mais improváveis, incluindo eu mesmo, de repente estão falando sobre Deus?" Sua resposta, em prosa ao mesmo tempo mordaz, áspera e brava, é que os outros candidatos a guia – ciência, razão, liberalismo, capitalismo – simplesmente não oferecem o que é realmente necessário. "Qual outra forma simbólica conseguiu forjar ligações tão diretas entre as verdades mais universais e absolutas e as práticas cotidianas de inúmeros milhões de homens e mulheres?"

Muitas coisas terríveis foram feitas em nome da religião, mas ao menos ela tenta algo além da satisfação local, já que seu tema é a natureza e o destino da própria humanidade. Os outros projetos, diz Eagleton, apresentam diversos confortos e prazeres, mas são superficiais e tendem a perpetuar o status quo. O fato de que ciência, racionalismo liberal e cálculo econômico não conseguem perguntar – muito menos responder – questões como "o que veio primeiro?" não pode ser usado contra eles, porque não é para isso que servem. De outro lado, o fato de que religião e teologia não conseguem criar uma tecnologia para explicar como o mundo material funciona não pode ser usado contra elas, porque não é o que fazem.

A fé e o conhecimento, conclui Eagleton, não são antíteses estão entrelaçadas. Não é possível ter uma sem a outra.

Christopher Hitchens afirma que, desde o surgimento do telescópio e do microscópio, a religião não oferece mais explicação para nada importante. Eagleton retruca: "O Cristianismo nunca tencionou explicar nada. É como dizer que graças à torradeira elétrica podemos esquecer Tchekhov".

Stanley Fish,do blog Think Again,The New York Timeshttp://revistadasemana.abril.com.br/edicoes/87/ideias/materia_ideias_469753.shtml- 11/05/2009

sábado, 16 de maio de 2009

"O Brasil é um grande crematório de cérebros e florestas"

Cristovam Buarque
Idealizador da Vigília pela Amazônia, realizada no Senado na última quarta-feira, o senador Cristovam Buarque (PDT/DF) concedeu uma entrevista exclusiva ao Amazonia.org.br, em que fala sobre a necessidade da implantação no Brasil de uma educação que conscientize as pessoas sobre a importância de se manter a floresta em pé.
Também ex-ministro da Educação, durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Buarque falou sobre o problema do analfabetismo no país, de suas propostas para a valorização da cultura indígena e a melhoria do sistema educacional, com respeito à diversidade e inclusão de noções sobre meio ambiente.


No seu modo de ver, a educação na Amazônia representa um contexto peculiar?
Cristovam Buarque - A Amazônia é um caso especifico do ponto de vista do conteúdo, do estilo, do comportamento, da arquitetura, dos prédios. Nesse sentido, cada lugar tem uma situação específica. Agora, o que não é específico, e sim universal é: toda criança na escola e todo professor bem preparado. Você pode diferenciar em que área ele é preparado, mas não pode abrir mão de que ele seja preparado.
Todo professor deve ser bem remunerado e dedicado, os equipamentos disponíveis devem ser iguais, seja na Amazônia, em São Paulo, nos Estados Unidos, na Europa, ou na Coréia. Os equipamentos pedagógicos têm que ser do mesmo tipo. Há alguns anos era lousa e papel, agora é computador e televisão. Temos que federalizar a educação de maneira que aquilo que deva ser igual para todos seja igual, respeitando-se a liberdade pedagógica.

Diante da diversidade de povos presentes na Amazônia, o senhor acredita serem necessários métodos de educação específicos para cada uma dessas populações?
CB - No que se refere à língua sim. A educação tem que ser na língua nativa do aluno. No que se refere à Geografia, por exemplo, todos têm que ter a Geografia do mundo igualmente. Mas, o estudante da Amazônia tem que aprender a Geografia local, que é diferente da Geografia do Centro-oeste. A Matemática ensinada deve ser a mesma, a Física também.
Não é porque um aluno é do campo que não deve estudar História do mundo, Filosofia, Sociologia, Biologia. Agora, além disso, tem o seu contexto local que deve combinar, por exemplo, o aprendizado do campo. A escola do campo deve ensinar agricultura, enquanto não é preciso se ensinar isso ao aluno da cidade. Mas, não pode a qualidade de ensino ser menor e deixar de ensinar aquilo que for fundamental e universal.

Como ex-ministro da Educação, que ações o senhor julga serem necessárias à melhoria da educação indígena no Brasil?
CB - Primeiro, acho necessário o ensino da língua indígena. O aluno tem que aprender na sua língua. Também, além de estudar a Historia universal, o aluno deve estudar a Historia do seu povo. Deve-se ensinar na escola desse aluno, também, a arte do seu povo. E não só isso. É preciso dar a cultura universal e a local. Isso vale para o indígena e também ao morador de São Paulo.

Que projetos para a educação indígena são hoje discutidos pelo Senado?
CB - Eu tenho um projeto de lei que não é voltado especificamente para a educação indígena, mas para a cultura indígena. O projeto obriga o ensino da língua indígena no Brasil inteiro para todos que quiserem aprendê-la, sem, porém, que isso seja obrigatório. Quem quiser, deve poder aprender a língua indígena. É, inclusive, uma maneira de manter as línguas indígenas vivas. Se não elas irão morrer.
Estou, além disso, constituindo para a criação de uma frente parlamentar de apoio aos povos indígenas para defender os interesses dos povos indígenas. Por exemplo, durante a disputa com os arrozeiros- o senador se refere ao conflito entre indígenas e plantadores de arroz pela posse da terra indígena de Raposa Serra do Sol (RR)-, não havia uma bancada indígena no Senado e na Câmara. Havia apenas as bancadas da educação, da saúde, dos evangélicos, dos católicos. Mas, não havia uma bancada dos povos indígenas.

O senhor tem algum projeto para a preservação da Amazônia, aliando educação e meio ambiente?
CB - Tenho a ideia da criação do Dia Nacional das Florestas Brasileiras, que será o dia em que todas as escolas refletiriam sobre a importância das florestas. Basta aprovar essa lei para que as escolas passem a fazer debates, exposições e passem filmes, que despertem a reflexão sobre esse assunto.
Não há outra saída para a redução do desmatamento de forma definitiva que não seja a educação, a não ser que as pessoas comecem a sentir que as árvores são entes vivos. E isso é a educação que pode fazer, ou a religião. Não tem outro jeito. Não adianta só uma lei proibindo, tem que haver uma mudança de mentalidade. E quem muda a mentalidade é a escola.

Como o senhor vê a situação do analfabetismo na Amazônia hoje?
CB - O analfabetismo na região é equivalente ao do Nordeste, o que é uma tragédia. O número de analfabetos na Amazônia e no Nordeste está equivalente ao de muitos países da África, alguns dos piores do continente. E isso é uma vergonha nacional.
Duas vergonhas são: as queimadas da Amazônia e as queimadas de cérebros. O Brasil é um grande crematório de cérebros e florestas. É um desperdício de inteligência, sendo que inteligência não é uma coisa espontânea. As crianças nascem com os cérebros iguais uns aos das outras. O cérebro biologicamente é espontâneo, mas do ponto de vista do seu potencial não é espontâneo, ele é fruto da educação. Nós jogamos fora os recursos brasileiros abandonando a escola. A cada minuto são seis campos de futebol queimados na Amazônia. E a cada minuto são 60 crianças jogadas fora da escola.
A minha proposta é erradicar o analfabetismo pagando por alfabetizado. Então, quem tem mais analfabetos vai receber mais dinheiro. Mas, vai receber mais dinheiro quando erradicar o analfabetismo. Eu sou contra dar dinheiro para programas de alfabetização. Sou a favor de dar dinheiro para erradicar o analfabetismo. E isso é pagar por resultado.

O que senhor pensa sobre o resultado da Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios (PNAD), de 2007, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aponta para a recente queda do ritmo de redução do analfabetismo no Brasil?
CB - Penso que, nesse ritmo, iremos levar uns 80 ou 90 anos para erradicar o analfabetismo no país. Porque nós não fechamos a torneirinha que produz analfabetos, que é a escola primária. Além disso, alfabetizamos numa velocidade muito lenta. O governo Lula não tem a preocupação de erradicar o analfabetismo, mas apenas de ir alfabetizando, sem urgência, nem prazos para resolver. Desse jeito, não vai conseguir erradicar o analfabetismo, a não ser em muitos anos. Só conseguiremos fazer isso depois do Paraguai, da Bolívia, da Colômbia e do Peru.
*Cristovam Buarque - Senador (PDT/DF) Educador, ex- ministro da Educação
Entrevista é de Fabíola Munhoz e publicada por Amazonia.org.br, 15/05/2009.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A cor ocre da pobreza

Mauro Santayana

Não é de meu hábito, mas inicio estas reflexões com reminiscências pessoais. No início dos anos 40, em instituição do Estado para meninos sem lar, convivi, diariamente, durante quase três anos, com mais de 200 companheiros, brancos, negros, mulatos, cafuzos. De vez em quando, recordo-me de um deles, e tenho dificuldade em lembrar exatamente a cor de sua pele. Em minha memória, só de alguns as características físicas, por inusitadas, se destacam. De modo geral deles me lembro com uma só cor, a cor da pobreza, algumas vezes tingida pela esperança, e, outras vezes, pálidas de permanente tristeza, que a solidariedade do grupo, discreta, quase muda, aliviava. Naquele pequeno mundo, em que tínhamos o mínimo – e nesse mínimo, a que não faltava a palmatória, não se incluíam sapatos, nem escovas para os dentes – o nosso consolo era o sonho comum de liberdade.

Penso muito nisso, quando, em nome da igualdade, pretendem instituir no Brasil uma noção que a ciência rejeita, a de etnias humanas. Fico imaginando se, naquela comunidade a que pertenci, houvesse cotas cromáticas, a fim de que alguns dispusessem de atendimento especial pelos professores, tivessem um prato mais cheio, ou recebessem enxadas mais leves para o trabalho na lavoura. Se assim fosse, a nossa miséria seria insuportável. Os guardas, homens igualmente pobres, eram também negros, brancos, mestiços, e atuavam de acordo com sua personalidade, dois ou três com simpatia para com o nosso sofrimento, alguns com indiferença, outros com crueldade.

Sabemos que há também no Brasil o preconceito de cor, contra o qual há leis, e é necessário combater esta e todas as outras formas de discriminação. Em razão disso, é inadmissível o reconhecimento pelo Estado da diferença, mediante o proposto Estatuto da Igualdade Racial, que é claramente inconstitucional. O artigo V da Constituição, cláusula pétrea da Carta, não deixa dúvida: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade...". É natural e humano que os negros, submetidos secularmente à opressão, anseiem pelo ressarcimento histórico. Não se duvida da boa intenção do autor do projeto, que se destaca em sua atuação no Senado. Muitas vezes, a ânsia de justiça leva à ingenuidade. Se o Estatuto for aprovado, a harmonia entre os brasileiros estará ameaçada. Muitos negros não defendem a legislação proposta, porque acreditam que ela provocará desentendimentos entre os pobres, e se baseiam na experiência comum de que os que se diferenciam se excluem. Disso sabem, com sua penosa história, alguns povos antigos.

Só há duas raças humanas, e são raças sociais, não biológicas: a raça dos oprimidos e a raça dos opressores. Durante a escravidão, os brancos pobres dispunham de liberdade formal, estavam livres do tronco e das marcas a ferro, mas eram também oprimidos. Alguns serviam como feitores de escravos, mas os feitores mais cruéis, de acordo com depoimentos antigos, eram os próprios negros. E os negros comprados nas costas africanas eram capturados e vendidos por outros negros. A cor da pele não torna os homens melhores ou piores. Não os faz mais inteligentes ou menos inteligentes, mais honrados ou menos honrados.

É razoável que haja cotas para os pobres, negros e brancos, egressos das escolas públicas. O sistema atual de vestibular privilegia os que foram adestrados para responder aos questionários, mas não identifica os mais aptos. A experiência vem demonstrando que, nos cursos universitários, os bolsistas do Prouni, negros e brancos, se distinguem por sua aplicação e inteligência. Sabem que ali está a sua oportunidade e procuram não desperdiçá-la. A democracia, até onde podemos entendê-la, se baseia na oportunidade igual e no mérito. A qualificação das pessoas se faz na base de sua capacidade. As leis de Nurenberg classificavam os homens pela cor da pele, medidas do crânio e textura dos cabelos – e exigiam a identidade "racial" nos documentos. Mas foram revogadas em 1945.

O que existe, sim, é intolerável injustiça social que, em alguns casos, o preconceito exacerba e a lei coíbe, quando é aplicada. Que todos tenham o mesmo direito, homens e mulheres, negros e brancos, mestiços ou albinos. Eles constituem a única raça, a raça dos homens.
Jornal do Brasil - Sexta-feira, 15 de Maio de 2009
http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/05/15/temadodia/coisas_da_politica_a_cor_ocre_da_pobreza.asp

Esperar em tempo de crise

Angelo Scola*
"O homem descobre a si mesmo
por meio da sua experiência,
mas esta não é capaz de oferecer
a resposta ao enigma que ele é em si mesmo [...].
Só no anúncio da Revelação [...]
a interrogação sobre o homem encontra
a sua resposta".

"Partimos da observação de que, na crise de velhas ordens e seguranças, a atitude de fundo dos monges era o 'quaerere Deum' – colocar-se em busca de Deus (...)".

"Quaerere Deum" e anúncio; encontro entre a liberdade infinita de Deus e a liberdade finita do homem: apesar de ter feito referência à vida monacal, o discurso de Bento XVI localiza os dois pólos ao redor dos quais se desenvolve o dinamismo de toda a vida racionalmente entendida. Isso se refere à capacidade constitutiva do homem de se colocar em busca do significado da existência e, ao mesmo tempo, afirma que as graves perguntas antropológicas, sociais e cosmológicas que são colocadas hoje de forma inédita encontram no "Deus que fala" o "caminho" para uma fecunda busca de resposta.

Para Bento XVI, a necessidade de repropor o tema da busca de Deus não nasce somente do dever da fé de dar razão de si mesma (1Pe 3, 15), mas se impõe também por causa da poderosa irrupção do conúbio ciência-tecnologia na cena pública, que, diferentemente do que ocorria nos séculos XIX e XX, não oblitera mais as perguntas fundamentais da e sobre a vida, mas se candidata a lhes fornecer uma resposta como única instância legítima para fazer isso.
Assistimos assim à formação de um novo sujeito coletivo e tecnocrático que, subrrepticiamente, se substitui ao sujeito humano, deixando-lhe, ao mesmo tempo, a impressão de poder resolver o enigma representado por ele mesmo. Diante dos incríveis resultados da tecnociência que parecem oferecer a possibilidade de responder a toda a extensão do desejo do homem e da sua inexaurível demanda de verdade, ainda é possível reafirmar o valor e a dignidade da pessoa? Ou devemos nos resignar a definir o homem como puro "experimento de si mesmo", segundo a definição de Jongen*?

"A atual ausência de Deus é silenciosamente abordada pela pergunta relativa a Ele": a afirmação do Papa constitui uma primeira resposta à urgente interrogação. Apesar de sepultadas sob a espessa capa dos vetos impostos pelo sujeito tecnocrático, as perguntas que, desde sempre, movem o coração do homem acabam sempre florescendo novamente. No impacto com a realidade e pelo fato de agir nela, a pessoa é incessantemente provocada a descobrir os seus traços constitutivos. Essa experiência implica sempre o reconhecimento da insuperável polaridade da estrutura originária da pessoa, que não pode prescindir da relação constitutiva entre o eu e o real: mesmo na angústia da cultura contemporânea, não existe, no fundo, possibilidade de separar a inevitável comparação entre o eu e o real, real que permanentemente oferece ao eu a sua presença evasiva para que a hospede na mente e no coração.

Essa constatação simples fica evidente já a partir da modalidade com a qual a criança é "jogada no mundo". Ela se encontra, de fato, independentemente da sua vontade, inserida em uma trama de relações (com os pais, os irmãos, os avós) que a constituem. Para aprender a dizer "Eu", a criança sempre deverá aprender a dizer "mamãe". O caráter da unidade-dual é inseparável da estrutura originária da pessoa e se expressa por meio daquelas que Balthasar definiu como as polaridades constitutivas da antropologia: alma-corpo, homem-mulher e pessoa-comunidade / indivíduo-sociedade.

Essa dimensão irredutível da natureza humana tem, pois, um conteúdo universal que, além das especificidades das diversas culturas, civilizações e religiões, tece a trama da vida de todo homem ao articular incessantemente afetos, trabalho e repouso. Por meio dessas três dimensões da sua existência, o homem inevitavelmente age e entra em relação com a realidade. Mas, ao mesmo tempo, nenhuma delas exaure a sua experiência.

A densa rede de circunstâncias e relações, nas quais todo homem está inserido, é um indicador que sempre reenvia a outro. Isso significa que o homem descobre a si mesmo por meio da sua experiência, mas esta não é capaz de oferecer a resposta ao enigma que ele é em si mesmo. O seu desejo é infinito, mas a sua capacidade de responder-lhe é finita. Eis porque só no anúncio da Revelação, que torna sempre aceitável o "quaerere Deum" – do qual partiu, no rastro do discurso de Bento XVI, a nossa reflexão – a interrogação sobre o homem encontra a sua resposta.
*Marc Jongen, filósofo alemão, professor de Filosofia na Staatliche Hochschule für Gestaltung, em Karlsruhe, na Alemanha
*Angelo Scola, cardeal italiano, patriarca de Veneza, em artigo para o jornal La Repubblica, 14-05-2009, reflete sobre o "quaerere Deum", o gesto de se colocar em busca de Deus, A tradução é de Moisés Sbardelotto para o IHU/unisinos em 15/05/2009

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Política Religiosa

Carlos Alberto Rabaça*

Em sua visita a Israel, em meio a polêmicas, o papa Bento XVI não deixou a política de lado. Defendeu a negociação com os palestinos e apoiou a coexistência de duas pátrias com fronteiras internacionalmente reconhecidas, endossando a solução de dois Estados, encampada pela ONU.
As religiões, com frequência, não fazem distinção entre os planos ético, político e religioso. Nos mandamentos que Moisés deu aos judeus havia os que tratavam de religião – "não terás outros deuses diante de mim" – e os relativos à ética – "não matarás". No Corão, de Maomé, incluem-se nos cinco pilares dos muçulmanos tanto o orar a Deus como o dar esmolas aos pobres, não havendo distinção entre política e religião. A noção de ser humano como uma criação divina implica que ele é responsável perante Deus por tudo que faz, moral, social e politicamente. Os profetas do antigo Israel atacavam os ricos e poderosos que observavam fielmente os rituais, mas pisoteavam os pobres. O ponto de vista moral desses profetas tinha, porém, uma justificativa religiosa.

As sociedades precisam ter suas linhas mestras éticas e algumas delas são preservadas nas leis, elaboradas por iniciativas políticas. Os romanos foram os primeiros a tentar criar um arcabouço legal que pudesse ser usado por todos os povos, independentemente de religião. O direito romano se tornou a base para todos os sistemas legais subsequentes nos Estados seculares modernos. Em alguns países muçulmanos há dois sistemas agindo em paralelo: um baseado no Corão, outro no direito romano. Hoje muitos países aceitam a Declaração dos Direitos Humanos, proclamada pelas Nações Unidas, como uma afirmação ética comum, seja qual for a religião ou a perspectiva geral do país.

Sociedades onde existem várias religiões e vários pontos de vista consideram muito difícil vincular a ética exclusivamente à religião. Por isso, devemos saudar o tom político, imprimido pelo papa em sua passagem por Israel, verbalizando a reivindicação de uma "solução justa" e "terra" para os palestinos. A esperança de um futuro seguro e estável para inúmeros homens, mulheres e crianças depende do resultado de negociações de paz entre israelenses e palestinos. Só assim reinará a concórdia almejada por todos os homens de bem, religiosos ou não.
*Sociólogo

"Estamos vivendo uma crise civilizacional"

Susan Andrews*
Entrevista

Instituto Ethos: Como você está vendo o comportamento das organizações e das pessoas nesse processo de crise em que o mundo entrou?
Susan Andrews: Acho que mesmo antes de a crise estourar já havia uma crise emocional em gestação. Em toda parte as pessoas têm se tornado mais e mais deprimidas, ansiosas, irritadiças, gananciosas, e alienadas. Estamos atravessando uma crise civilizacional, e não apenas uma crise social, ou econômica, ou ambiental. O crescente caos externo é apenas um reflexo do nosso desequilíbrio interno.

IE: Quais são as ações mais urgentes para resolver as múltiplas crises que estamos vivendo e proteger a vida na Terra?
SA: Já conhecemos todas as soluções. Existem milhares de livros nas prateleiras, e inúmeros artigos fluindo na internet, com brilhantes e práticas soluções para todas essas nossas crises. O que está faltando é a vontade política dos nossos líderes para aplicá-las numa escala mais ampla, e a determinação coletiva das pessoas para aplicá-las em escala local. Mas, para que isso aconteça, primeiro precisamos mudar o nosso modo de pensar. Como diz aquela célebre frase de Einstein, “Não podemos resolver os nossos problemas com a mesma e antiga consciência que os criou”.

IE: Você declarou que houve uma época em que o caminho espiritual consistia em esforços individuais, baseados em mestres ou escolas a ser seguidas, mas que agora o caminho é o do serviço. Poderia explicar isso melhor?
SA: Citei um mestre indiano que descreveu os vários estágios da evolução espiritual coletiva neste planeta. Por milhares de anos, o principal caminho para a realização espiritual era retirar-se da sociedade para ficar no isolamento das montanhas e dos monastérios, buscando sua própria iluminação por meio de uma rigorosa disciplina ascética. Mas hoje em dia o caminho deve ser diferente. Nossos “demônios” não são apenas os monstros internos, as nossas emoções negativas, mas também as forças externas degradantes da violência, da exploração e da indiferença. O desafio atual não é apenas entregar o nosso ego individual ao Divino, ou a um Mestre Perfeito, mas também o de unir os nossos egos numa harmonia coletiva em prol do bem-estar de toda a criação. Nossa prática espiritual começa não nos retirando do mundo material, mas abrindo os nossos corações, por meio da compaixão pelo mundo, com todas as suas imperfeições, para favorecer a evolução de todos os seres.
*Coordenadora do Instituto Visão Futuro, é também consultora de grandes empresas para a melhoria de clima organizacional e autora do livro O Stress a Seu Favor. A norte-americana Susan Andrews vive no Brasil há 16 anos e mora numa ecovila, em um ambiente que emana sustentabilidade. Recentemente passou a colaborar com um blog sobre o índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), um modelo de medição de riqueza diferente do Produto Interno Bruto (PIB).
Reportagem de Neuza Árbocz, da Envolverde - especial para o Instituto Ethos. 14/05/2009
(Envolverde/Instituto Ethos)
http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/estamos-vivendo-uma-crise-civilizacional/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=mercado-etico-hoje

Ausência

Carlos Drummond de Andrade

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.
(com o pensamento em Ana Cristina Cesar)
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 14/05/2009

Anjos e demônios demonstra interesse pela Igreja

Pe. John Wauck*
Nesta entrevista concedida a Zenit,
ele constata
um dado irrefutável
sobre este interesse
pela Igreja:
nunca houve tantos peregrinos em Roma
como nos últimos anos.


- Você acha que Dan Brown tem alguma espécie de fixação com a Igreja?
- Pe. Wauck: Às vezes eu me pergunto o que faria Dan Brown sem a Igreja Católica. Quase tudo o que existe de interesse em suas novelas tem relação com o catolicismo. Certamente, não são os seus personagens fictícios nem os diálogos ortopédicos que atraem as pessoas. Isso explica que o principal efeito do “Código Da Vinci” não tenha sido uma diminuição da prática ou das crenças religiosas, e sim um claro aumento do turismo a Roma... e ao Louvre.
A fórmula de Dan Brown para vender livros é oferecer um coquetel de história, arte, religião e mistério; e parece que há um único lugar no mundo atual onde é capaz de encontrar todas essas coisas juntas: em Roma, na Igreja Católica.
Se a história, a beleza e os mistérios sagrados o atraem, também deve atraí-lo a Igreja. Se você se coloca na Praça de São Pedro, em Roma, a poucos metros verá uma necrópole romana, um obelisco egípcio trazido a Roma por Calígula, o túmulo de São Pedro, o lugar do atentado ao seu sucessor João Paulo II, a abóbada da Capela Sistina e a Pietà de Miguelangelo, as Estâncias de Rafael, o baldaquino de Bernini, a maior basílica do mundo e peregrinos procedentes do mundo inteiro. E não se trata de um museu; é uma realidade viva que nos coloca em contato direto com 20séculos de história, desde a antiguidade até nossos dias. Que mais pode pedir um novelista como Dan Brown? Certamente, é difícil encontrar algo semelhante na América suburbana, onde a maioria dos seus leitores mora.
Isto é, se Dan Brown parece fascinado pela Igreja, é preciso reconhecer que não é o único: em Roma existe agora mais peregrinos que nunca. Eles vêm para ver a cidade e para ouvir Bento XVI. E seu interesse não é mera coincidência. Este ano, na Páscoa, 150 mil adultos foram recebidos na Igreja Católica no meu país, Estados Unidos.

- Você acha que a decisão do Vaticano de não permitir filmagens nas igrejas de Roma representa um trato desfavorável com relação aos produtores?
- Pe. Wauck: Moro em Roma desde os 14 anos e nunca vi uma equipe de filmagens de Hollywood em uma igreja. Como regra geral, não se fazem filmes comerciais, sejam ou não piedosos, nas igrejas de Roma. Não se poderia filmar nem sequer “Os 10 mandamentos”. Naturalmente, não haveria por que fazer uma exceção com “Anjos e Demônios”. O trato que este filme recebeu foi o mesmo que se dá a qualquer outro. O resto são historietas do departamento de marketing do filme.

- “Anjos e demônios” pressupõe uma hostilidade natural entre a fé cristã e a ciência moderna. O que você opina sobre isso?
- Pe. Wauck: É relativamente fácil advertir que grande parte da melhor arte do mundo ocidental – música, pintura, literatura, arquitetura –é produto de uma cultura cristã: foi inspirada frequentemente pela fé, quando não diretamente solicitada pela Igreja. Isso parece óbvio. Pois bem, algo similar acontece com a ciência, só que é mais difícil perceber isso.
Pense, por exemplo, nas universidades, que são uma invenção da Igreja. Pense em Copérnico, que era um clérigo católico e que dedicou seu livro sobre o heliocentrismo ao Papa. O calendário que usamos é chamado de calendário gregoriano, pois foi promulgado por um Papa, Gregório XIII, que fez os astrônomos e matemáticos mais destacados da sua época trabalharem nisso. O próprio Galileu sempre foi um católico devoto e suas duas filhas foram freiras. Um dos maiores astrônomos italianos do século XIX foi um sacerdote jesuíta, Ângelo Secchi. O pai da genética moderna, Gregor Mendel, era um monge católico. O autor da teoria do “Big Bang” foi um sacerdote belga, Georges Lemaitre.
Em definitivo, a ideia de que há certa tensão natural entre a ciência e a Igreja,entre a razão e a fé, não tem sentido. Hoje, as pessoas, quando ouvem falar de “ciência” e “Igreja”, pensam imediatamente no processo de Galileu no século XVII. Mas uma percepção mais ampla das coisas obriga a ver este caso tão complicado – frequentemente distorcido por certa propaganda anticatólica – como uma manifesta exceção. Se os críticos da Igreja sempre o trazem à tona, é por um motivo: porque é a única coisa à qual podem se referir. Ou seja, quando ouvimos falar de “ciência” e “Igreja”, deveríamos pensar em Copérnico, Secchi, Mendel e Lemaitre: são estes os casos representativos. Não o é, no entanto, o processo de Galileu.

- Há algum aspecto do livro que tenha lhe parecido interessante?
- Pe. Wauck: Sim. Há uma passagem da novela na qual o heroi, o professor Langdon, da Universidade de Harvard, encontra-se na frente da basílica de São Pedro e os pensamentos que povoam sua mente neste momento – na novela, ele é a voz da autoridade científica – parecem realmente o comercial do catolicismo.
Dá a impressão de que estamos lendo o Catecismo da Igreja Católica, ao invés da novela de Dan Brown. A passagem é esta: “Pedro é a pedra. A fé de Pedro em Deus foi tão firme, que Jesus o chamou de ‘a pedra’, o discípulo incomovível sobre cujos ombros Jesus construiria sua Igreja. Neste lugar, pensou Langdon, na colina do Vaticano, Pedro havia sido crucificado e enterrado. Os primeiros cristãos construíram um pequeno santuário sobre o seu túmulo. À medida que o cristianismo se estendeu, o santuário cresceu, passo a passo, até converter-se nesta basílica colossal. Toda a fé católica havia sido levantada, literalmente, sobre São Pedro. A pedra” (“Anjos e demônios”, cap. 118).
Não daria para fazer um anúncio publicitário gigante no Times Square, mas não está mal.

- Você não acha que com esta entrevista estamos promovendo gratuitamente o filme?
- Pe. Wauck: Quem está promovendo quem? Esta é a questão. Possivelmente, há publicidade nas duas direções, mas se consideramos o tempo, as energias e os milhões de dólares empregados na produção e promoção deste filme, eu diria que nós estamos levando a melhor parte. Isto é, que talvez Deus esteja se servindo de Hollywood para atrair a atenção de alguns sobre as riquezas da fé e da cultura católicas.
Dito isso, devo acrescentar que não tenho a intenção de gastar meu tempo e meu dinheiro vendo este filme, As resenhas do filme “O Código Da Vinci”, feito pela mesma equipe, foram suficientemente sarcásticas como para podermos economizar a visão deste.
*Pe. John Wauck, da prelazia pessoal do Opus Dei, nascido em Chicago, professor de literatura e comunicação da fé na Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, estudou história da literatura na Universidade de Harvard. Reportagem de Jesús Colina, publicada no site do ZENIT.org, 14/05/2009

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Só um Deus relativista pode nos salvar.

Gianni Vattimo*
Transformar a afirmação de Heidegger na entrevista ao Spiegel fazendo-o dizer que "só um Deus (relativista) pode nos salvar agora" não é só um provocador jogo de palavras. Heidegger mesmo, se tivesse podido fazer a experiência das ruínas que o fundamentalismo religioso – verdadeiro ou pretensioso que seja – está produzindo no nosso mundo, talvez estaria de acordo. Para mitigar o caráter escandaloso da afirmação, podemos transformar o "relativista" em "quenótico" (que se abaixa e se humilha por amor a nós): um Deus mais explicitamente conforme a imagem que podemos ter dele, hoje, como cristãos.

Também o "agora" na afirmação de Heidegger nos parece essencial. Um Deus relativista, ou quenótico, é aquele que "se dá" a nós, hoje, neste ponto da história da salvação e, por isso, também neste ponto da história da Igreja, da católica e das cristãs, no mundo da globalização realizada. Devemos destacar a ligação com o hoje porque, tanto para nós quanto para Heidegger, o Deus que pode nos salvar não é uma entidade metafísica dada objetivamente como sempre igual, que só devemos "redescobrir", em uma espécie de meditação cartesiana que deveria nos mostrar a sua indubitável "existência".

Hoje, podemos nos colocar o problema de Deus só neste momento específico da história da salvação, isto é, em relação a como a Igreja e o cristianismo se dão na nossa experiência cotidiana. Ora, a experiência cotidiana que fazemos da história da salvação tem a ver com o fundamentalismo. Não apenas com o dos chamados terroristas islâmicos, mas sobretudo com o fundamentalismo que, também como reação à luta de libertação dos povos ex-coloniais, se afirma sempre mais na mesma religião ocidental. Frente à afirmação crescente de fenômenos de secularização, a Igreja, não só na Itália, avança em pretensões de reconhecimento da própria autoridade sempre mais urgentes, e isso em nome do fato de que teria sido confiado a ela, pela mesma revelação cristã, a tarefa de defender a autêntica "natureza" do homem e das instituições civis.

Não é exagerado dizer – independentemente de quantas "atualizações" houve sobre esse tema – que a Igreja ainda está presa ao processo de Galileu. É verdade que não busca mais ler na Bíblia a descrição do cosmos e as leis do movimentos dos astros, mas ela ainda fala atualmente de uma "antropologia bíblica", à qual as leis civis deveriam se conformar para não trair a "natureza" do homem. Aqui surgem as lutas contra o divórcio, o aborto, as uniões homossexuais, e depois a desconfiança com relação a toda manipulação genética, mesmo que só com objetivo terapêutico. E hoje as razões de quem abandona o cristianismo estão sempre mais ligadas à pretensão eclesiástica de conhecer a "verdadeira" natureza do mundo, do homem, da sociedade.

A essa pretensão, liga-se o sempre renovado debate sobre criacionismo e anticriacionismo, que é um tema análogo ao do processo contra Galileu, já que se trata sempre da vontade de afirmar que o Deus de Jesus é o autor do mundo material e, portanto, a fonte das leis que o regulam, uma espécie de supremo relojoeiro que, entre outras coisas, sempre necessita de uma teodiceia, porque não apenas não deveria poder fazer milagres, mas sobretudo deveria nos explicar por que permite tantos males no mundo.

Desse ponto de vista, as reflexões da teologia judaica depois de Auschwitz deveriam ensinar alguma coisa aos teólogos cristãos: não só que Deus não pode ser onipotente e bom ao mesmo tempo, mas também e sobretudo que talvez não podemos pensá-lo como o demiurgo platônico, como o produtor do mundo material e, por isso, responsável supremo do seu (às vezes péssimo) funcionamento.

Falar de um Deus "quenótico", ou "relativista", significa se dar conta de que a época da Bíblia como depósito de "saber" verdadeiro porque garantido pela autoridade divina é totalmente passada. E que isso não é um mal ao qual é preciso adaptar-se à espera de poder combatê-lo mais decisivamente, mas faz parte da própria história da salvação. É a encarnação entendida como quenose, que se realiza hoje de modo mais pleno, enquanto a doutrina perde tantos elementos de superstição que a caracterizaram no passado, distante e recente. E a superstição mais grave e perigosa consiste em crer que a fé é "conhecimento" objetivo, sobretudo de Deus, e depois das leis do "criado", do qual devem derivar todas as normas da vida individual e coletiva.
Vista sob essa luz, a quenose, que é o próprio sentido do cristianismo, significa que a salvação consiste sobretudo em romper a identidade entre Deus e a ordem do mundo real.
Definitivamente, em distinguir Deus do ser (o da metafísica grega), entendido como objetividade, racionalidade necessária, fundamento. Um Deus "diferente" do ser metafísico não pode mais ser o Deus da verdade definitiva e absoluta que não admite nenhuma diversidade doutrinal.

Por isso, podemos chamá-lo de um Deus "relativista". Um Deus "fraco", se quisermos, que não revela a nossa fraqueza para se afirmar (contra as expectativas racionais, com o mistério a que devemos nos submeter, com a disciplina eclesiástica que devemos aceitar), por sua vez, como luminoso, onipotente, soberano, tremendo, segundo os traços próprios do personagem (ameaçador e consolador) da religiosidade natural-metafísica.

É à experiência de um Deus diferente desse que os cristãos são chamados, no mundo da explícita multiplicidade das culturas, ao qual não se pode mais contrapor, violando o preceito da caridade, a pretensão de pensar o divino como absoluto e como "verdade".
*Vattimo, filósofo, professor da Universidade de Turim e conhecido como o mentor do "pensamento fraco"
*Texto postado no IHU/Unisinos, 13/05/2009.
O artigo foi publicado no jornal LA STAMPA, 11-05/2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto

A arte de recusar um

MARTHA MEDEIROS*

Não há como negar que um livro com este título, A Arte de Recusar um Original, chama a atenção. Ainda mais se você faz parte do meio literário e conhece bem o monstro chamado “Não” que acompanha o início de carreira de todo escritor.
O livro traz um apanhado de cartas fictícias escritas por editores que fecham as portas para um estreante. Cada editor com seu estilo: tem o agressivo, o conciso, o paranoico, o maternal, o sarcástico, o psicanalítico... O problema do livro é que ele começa engraçado, mas a piada logo se esgota e a leitura fica enfadonha, até porque algumas cartas são constrangedoramente simplórias. De qualquer forma, é uma boa ideia editorial e o autor, Camilien Roy, não é estreante, então não deve ter tido dificuldade em publicar essa obra.
Eu já tive a fantasia de trabalhar em uma editora para promover a carreira de talentos desconhecidos, mas, hoje, nem que me pagassem. Mesmo não sendo uma profissional desse ramo, recebo uma quantidade considerável de textos para avaliar, e é um transtorno. Claro que fico honrada por me julgarem capaz de dar um empurrãozinho, mas é um transtorno, e explico por quê:
1) eu não posso fazer nada pelos textos bons que chegam, a não ser incentivar a pessoa a continuar escrevendo;
2) eu não tenho coragem de dizer “desista” para a maioria de textos ruins que recebo, e acabo enrolando;
3) eu posso muito bem estar enganada quando penso que um texto é ruim – não esqueçamos que Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, foi recusado várias vezes, só para dar um exemplo entre tantos talentos que não foram inicialmente reconhecidos;
4) eu já escrevi textos fracos e estou aqui, não estou?
Meu editor não vai me perdoar, mas vou entregá-lo assim mesmo: meus primeiros poemas, lá nos distantes anos 80, coloquei à disposição da gaúcha L&PM. Os versos ficaram mofando numa gaveta por mais de um ano, até que me foram devolvidos – o que já é uma vitória, poderiam ter sido incinerados. Aí resolvi mostrá-los para uma editora de São Paulo, a maior do país na época, e acabei sendo lançada pela mesma coleção que publicava Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar, Chacal, Cacaso e Caio Fernando Abreu. Foi só então que a L&PM me piscou o olho, estendeu a mão e hoje temos uma parceria de mais de 20 anos, com 11 livros meus no seu catálogo. Mas, no início, o monstro do “não” fez as honras da casa. Normal.
Hoje, além dos blogs que servem como meio de divulgação, existe uma coisa bacanésima chamada oficinas de literatura, onde o candidato a escritor exercita seu dom (caso o tenha) e recebe dicas preciosas de autores como Assis Brasil, Charles Kiefer, Cintia Moscovich e Fabricio Carpinejar, entre outros. É um início muito mais seguro do que ficar enviando original para editoras que talvez nem tenham tempo para ler seu trabalho ou então para colunistas que não entendem nada de nada, e podem acabar cometendo o deslize de não reconhecer que você, vá saber, pode vir a ser um Proust.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Pensamento da noite...

Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.
(Angelus Silésius, místico medieval)

É o amor que eterniza o saber...

A única coisa que realmente temos são os nossos pensamentos e não os pensamentos dos outros.
A memória não se realiza no "tomar notas" num cadernos. Seu lugar é outro. Quem disse uma teoria da memória da forma mais curta é a minha querida Adélia Prado: " Aquilo que a memória ama fica eterno".
É o amor que eterniza o saber.
Estava errado o magnífico Leonardo Da Vinci que disse que só podemos amar o que conhecemos. Dentre todos os milhões de objetos de conhecimento que me cercam, como escolher aquele que vou conhecer para depois amar? A busca seria infinita. A verdade é o oposto. Quando um objeto me fascina - e é isso que caracteriza uma relação amorosa, o fascínio - então eu me debruço sobre ele para conhecê-lo. Não é por acidente que os escritores sagrados tenham usado o verbo "conhecer" para se referir ao que acontece entre os amantes
O mestre não é aquele que anuncia saberes. é aquele que seduz os seus aprendizes para o fascínio do mundo.
Aprendemos porque queremos "fazer amor" com um objeto. Um pianista aprende as dificuldades da técnica para fazer amor com o piano. Um enxadrista aprende as imensas estratégias e variações do jogo para fazer amor com o tabuleiro e as peças."

Rubem Alves
Quarto de Badulaques LXXXI
Correio Popular
27/11/05

Liberal ou social?

Antônio Delfim Netto

Separação entre "liberal" e "social"

"LIBERAL"
1)O Desempregado deve aceitar qualquer emprego ou perder o emprego e o seguro-desemprego.
2) A competição é saudável. Ela obriga as pessoas a trabalharem e a aproveitarem as oportunidades.
3) O Estado deveria conferir plena liberdade às empresas.

"SOCIAL"
1) O desempregado deve ter o direito de escolher o que mais lhe convém.
2) A competição é perigosa. Ela desenvolve o que há de pior na natureza humana.
3) O Estado deve controlar mais as empresas.

Este quadro aparece no texto: Liberal ou social? no jornal Valor Econômico (12/05/2009) do professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento - Antonio Delfim Netto.