terça-feira, 23 de junho de 2009

A violência deve ser tratada em sua complexidade

Edgar Morin
Se violência gera violência, submeter um jovem infrator ao cárcere só fortalece seu lado agressivo. Esta é uma das várias declarações humanistas do filósofo francês Edgar Morin, que está no Brasil para uma série de palestras e seminários. Enquanto o mundo se preocupa com os conflitos entre iranianos, é o pobre e esquecido povo do Sri Lanka que ele lembra em primeiro lugar quando perguntado sobre formas de violência que mais o preocupam.
Quanto aos conflitos no Irã ele afirma que as informações vindas de lá devem ser sempre analisadas em seu contexto histórico, político e social.

Prestes a completar 88 anos, Morin se empenha em popularizar os conceitos de Política da Civilização e Política de Humanidade. Admirador do Brasil, o professor concedeu a entrevista em português. Recém-chegado da França, ainda não tinha “tomado um banho de português” necessário para deixar suas frases mais “belas”. A mistura, porém, não tirou o caráter inovador de suas ideias.
TV Brasil - O assunto que o traz a Brasília são os direitos humanos e, em especial, as formas de violência. Nesse tema, que tipo de violência mais o preocupa?
Edgar Morin - A mais preocupante é a violência que vem com as guerras, as perseguições, como é a violência que chegou ao Sri Lanka há poucas semanas. A população, aos milhões, está em situação de horror, de matança. Isso é o mais grave. Mas também são as violências urbanas, cotidianas, matrimoniais, muitos homens que golpeiam as mulheres, os pequenos, uma situação muito impressionante. Mas a coisa mais importante é quando se diz, vamos fazer violência para acabar com violência. Em condições gerais, violência, gera outra violência. É um ciclo que não se interrompe. A questão fundamental é como parar a violência. Fazer com que em um momento não exista mais violência. E há vários caminhos: são os caminhos da compreensão. Por exemplo: a violência juvenil. Ser jovem é um momento de transição. Se essa violência é respondida com a violência do cárcere, vai se produzir delinquentes mais fortes. Outra política de compreensão para a pessoa fazer sua transformação é um momento de magnanimidade, de perdoar a pessoa e interromper o ciclo de violência. Existem exemplos, limitados, como de Gandhi, que sem violência teve sucesso contra o império inglês. Há vários tipos de meios. Hoje podemos pensar em lutar contra todas as formas de violência, com os modos apropriados para cada forma de violência.

TV Brasil - O senhor é conhecido no mundo inteiro, e muito estudado, também no Brasil, pela Teoria da Complexidade. Como se poderia resumi-la?
Morin - Falamos primeiro de violência. Na complexidade, não podemos reduzir uma pessoa a seu ato mais negativo. O filósofo Hegel disse: se uma pessoa é um criminoso, reduzir todas as demais características de sua personalidade ao crime é fácil. Entender, não reduzir a uma característica má uma pessoa que tem outras característica, isso é a complexidade. Uma pessoa humana tem várias características, é boa, má e muito mais. Devemos entender que a palavra latina complexus significa tecido. Em geral, o nosso modo de conhecer que vem da escola nos ensina a separar as coisas, e não religá-las. A complexidade significa religar. Por exemplo: um evento, um acontecimento, uma informação. Quando chega uma informação sobre o que ocorre no Irã, por exemplo, devemos entender o contexto político, histórico, social. A complexidade busca favorecer uma compreensão maior que a compreensão que vem de se isolar a coisas, colocar o contexto, todos os contextos em uma situação.

TV Brasil - Em “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, o senhor fala da importância do erro. A humanidade já compreende e já aceita melhor o erro?
Morin - É uma coisa que disse Descartes, o problema de errar é não saber que se erra. Eu penso que é muito inteligente quando se sabe que se comete um erro e se esquece do erro. Penso que é muito importante conhecer as fontes do erro. De onde vem o erro.

TV Brasil - Mas a humanidade vê melhor o erro do que há dez, vinte ano atrás?
Morin - Penso que não há progresso, o sistema de educação não mudou, é cada vez mais negativo. Os problemas globais fundamentais são cada vez mais fortes. Por isso penso que há a necessidade de reformar a educação. Com uma idéia melhor de como se faz o conhecimento e também compreensão humana dos outros. Penso que minha proposta será muito útil para o desenvolvimento nosso futuro.

TV Brasil - Para aceitarmos a complexidade, é preciso uma reforma do pensamento e enxergar o mundo de outra maneira. O senhor acha que os meios de comunicação tradicionais essa reforma do pensamento ou é uma tarefa para a internet?
Morin - A internet hoje dá uma possibilidade de multiplicação de informação e comentários, que é muito útil, por que a vida de uma democracia é a pluralidade das opiniões, visões, sem a homogeneidade da imprensa. Não há muitas diferenças na grande imprensa. É muito útil a internet, o que não significa que não há coisas falsas que venham dessas redes. Mas é a educação que dá à pessoa condição de ver e confrontar o que vê na internet e na televisão. Penso que hoje a internet dá uma possibilidade de mudança muito grande, por exemplo, pela complexidade. No México, há um curso de complexidade da educação virtual, com 25 países.

TV Brasil - O senhor tem se dedicado muito a pensar a política e tem feito a separação da política da civilização e da política da humanidade. Qual a diferença?
Morin - A política de civilização luta contra todos os efeitos negativos da civilização ocidental. É para restabelecer a solidariedade, humanizar a cidades, revitalizar os campos. Cada civilização tem suas virtudes, qualidades, suas diferenças, isso é verdade também para a civilização ocidental. Também para as civilizações de pequenos povoados, como índios da Amazônia, conhecimentos de plantas, animais, arte de viver, novos curativos, como os xamãs. A política de humanidade é combinar o melhor de cada civilização, fazer um simbiose no nível do planeta onde o melhor do mundo ocidental, que são os direitos humanos, direitos da mulher, a possibilidade do individualismo - mas não do egocentrismo - que combine outras civilizações, onde há mais solidariedade. A questão é lutar contra os defeitos das civilizações e pegar o que há de melhor. Porque nas civilizações tradicionais não há só coisas boas como solidariedade. Há também dogmatismo, autoridade demasiada dos mais velhos, do homem sobre a mulher. A ideia é tirar o melhor de cada, não idealizar a civilização tradicional ou a ocidental.
*Em entrevista exclusiva concedida à TV Brasil, ele explica sua Teoria da Complexidade. Autor de 30 livros, entre eles a trilogia O Método e Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, Morin avalia que o mundo ainda não compreendeu a importância do erro - um desses sete saberes - e revela que a educação mudou pouco nos últimos anos, pois permanece ainda muito negativa.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O mal da globalização*

Luiz Carlos Susin*
"Os povos, não necessariamente as elites econômicas e intelectuais, continuam no entanto a ser religiosos e, em sua maioria, cristãos. Por isso os males e a desumanização têm nomes religiosos, e são interpretados com a linguagem religiosa. A América Latina se recobriu, ultimamente, de demônios, não só os antigos, mas também novos. À velha pergunta "Unde Malum"? - de onde provém o mal - não são suficientes nem a resposta agostiniana de que todo mal é pecado ou consequência de pecado, nem a resposta de Leibniz de que estamos no melhor dos mundos possíveis, onde o mal inevitável da condição criatural seria superado num futuro absoluto e metafísico. Há, de fato, alog de pecado no mal, e há algo de metafísico porque escapa às análises e às medidas e esforços humanos. Esta conjunção de mal, produzido pela malícia humana e mal metafísico que escapa a qualquer explicação, tem seu ponto de partida, no entanto, na crise de trabalho, no desemprego e na desumanização dos que sofrem as suas consequências na vida pessoal e familiar. O medo do desemprego, da falta de trabalho e de recurso para comer, vestir, morar, cuidar da saúde, assumem proporções maiores do que o medo do juízo e do inferno. Em sequência, há o medo da violência disseminada por toda a parte, medo do assalto eventualmente homicida, este símbolo completo da violência disseminada. Isso obriga os que têm mais poder a se protegerem por tras de grades e barreiras eletrônicas. Tornou-se o medo cotidiano que desumaniza as relações nas cidades de médio e grande porte. É evidente que a criminalidade disseminada tem sua relação direta com uma desigualdade crescente num mercado que obriga à concorrência, disputas com poucos ganhadores e muitos perdedores. Mas a ordem inverte os papéis e transforma o sintoma em causa, o que justifica a ação polícial quase indiscriminada sobre os mais fracos. (... ) O Demônio é, aos olhos de uma análise crítica, a mais geniosa promoção do mercado: nada melhor que a proliferação da sensação de estar possuido por um poder maligno espiritual e metafísico, não somente para fazer prosperar o mercado de igrejas exorcistas, mas antes disso, para distrair e imobilizar em meio à apropriação dos grandes investimentos e lucros do mercado nada espiritual e nada metafísico. (...) O mal que desumaniza é esta experiência de inferno, de possessão, de indignidade, de violência e solidão que atravessa o continente. Mas a esperança é o céu na palavra de Jesus, que também habita o continente".
*SUSIN, professor de Teologia Sistemática na PUC/RS.
*Título meu.
(Excerto do artigo de Luiz Carlos Susin: Males, demônios e desumanização num mundo globalizado - Uma visão desde a América Latina.Revista Concilium, 2009/1, pg.19-22)

O outro, o ódio, a linguagem e a violência.

Jean-Pierre Lebrun*
“Que futuro há para os ódios,
se os mecanismos
pelos quais nós os constrangemos a
se transformarem em outra coisa
que não seja a destruição,
se encontram em dificuldade?",
pergunta o psiquiatra belga,
membro da Associação Lacaniana Internacional.
Segundo ele,
"a resposta é simples
– ainda mais violência!"
IHU On-Line - Em que sentido o encontro com o Outro é sempre violento?
Jean-Pierre Lebrun - O encontro com o Outro da linguagem é sempre “traumático”, já que ele constrange a passar da continuidade sensível à descontinuidade significante. Exige, portanto, uma perda, implica uma impossibilidade de dizer, adequadamente e totalmente, condições que só podem ser percebidas como constrangimentos violentos. Mas trata-se de uma violência salutar, de um traumatismo não traumatizante, simplesmente porque o ganho que será obtido – o uso da palavra – é bem superior à perda exigida.

IHU On-Line - Por que o ódio é mais originário que o amor?
Jean-Pierre Lebrun - Porque o ódio está primeiramente lá, já que ele é engendrado por esta perda que impõe a linguagem. É este corte que está em nossa origem de humanos.

IHU On-Line - Como podemos compreender a relação linguagem-ódio?
Jean-Pierre Lebrun - A relação linguagem-ódio se baseia simplesmente no fato de que este constrangimento [ou coação] do nosso linguajar, traz espontaneamente à tona o ódio, a cólera de dever assumir esta condição.

IHU On-Line - Quais são as principais expressões do ódio na pós-modernidade?
Jean-Pierre Lebrun - Na pós-modernidade, a simbolização está em dificuldade, já que o esteio que ela encontrava no apoio na figura do pai é abandonado. Aliás, não é certo que o processo de simbolização possa ser mantido pela mãe até seu termo, pois esta (mãe) não pode cumprir simultaneamente a tarefa de ser o primeiro Outro e o alheio deste Outro (seu outro Outro). Isto não impede que se tenha que estudar mais detidamente o modo pelo qual os mecanismos que a mãe põe em ação contribuem, e mesmo em que medida eles estão em condições de suprir a deficiência gerada pelo fim do apoio paternal.

IHU On-Line - Como o declínio da autoridade, seja ele paternal, político ou divino, se conecta com a irrupção da violência? O ódio é seu sustentáculo?
Jean-Pierre Lebrun - O declínio da autoridade traz consigo não se ter mais uma instância simbólica à qual dirigir seu ódio – aliás, irredutível – e, por conseguinte, de não ter mais um objetivo no qual o indivíduo encontre a necessidade de transformar seu ódio em outra coisa que não seja a destruição. Para dizê-lo de um modo rápido, isso lhe barra a via da sublimação. Quando, mais tarde, o indivíduo se encontrar face à irrupção de sua violência, ele não terá outra saída a não ser a de pô-la em ação.

IHU On-Line - Qual é o futuro de nossos ódios?
Jean-Pierre Lebrun - Esta é precisamente a questão: que futuro há para os ódios, se os mecanismos pelos quais nós os constrangemos a se transformarem em outra coisa que não seja a destruição, se encontram em dificuldade. A resposta é simples – ainda mais violência!

IHU On-Line - Por que o evitar o ódio se deu em nossos dias pela forclusão do encontro?
Jean-Pierre Lebrun - Para que haja encontro, se faz necessária a confrontação com a alteridade. Em francês, alteridade ressoa como “alterar”, o que quer dizer abismar. O encontro com a alteridade jamais deixa indene. Haverá vestígios do impacto, cicatrizes do choque. E, progressivamente, este encontro tornará menos violento um novo encontro: a alteridade terá sido tornada presente de tal maneira que o indivíduo não será mais abalado completamente pelo choque do desconhecido, do radicalmente outro. E, então, não deverá mais se deixar ir retrucando através do ódio, para lhe dar curso por sua violência, pois ele terá, pouco a pouco, tolerado que o outro o perturbe, o embarace. É o que podemos esperar de melhor.

IHU On-Line - Quais seriam as diferenças que apontaria entre o ódio e gozo do ódio?
Jean-Pierre Lebrun - O ódio é em si inerente à psique! Mas o gozo do ódio é da responsabilidade do indivíduo! Odiar é um fato, mas desfrutar seu ódio é, por exemplo, encontrar uma satisfação no fato de entretê-lo e sustentá-lo, o que não é a mesma coisa!
*Médico, psicanalista e psiquiatra, nasceu na Bélgica. Membro da Associação Freudiana da Bélgica e a Associação Lacaiana Internacional. Autor de Um mundo sem limites (RJ: Cia de Freud, 2004) Entrevista no site IHU/Unisinos, 22/06/2009

E a poesia? Onde está?

Arita Damasceno Pettená*
Como um número a mais na multidão, seguimos o ritual de cada dia. E dependendo do espaço que ocupamos, no universo imenso de um mundo sempre em convulsão, vamos redefinindo o calendário, de acordo com as exigências do momento. Sobretudo quando se entra nos “enta” da vida e o tempo já não obriga a enfrentar horários rígidos de trabalho, ou de se ocupar, quase que por inteiro, com a educação dos filhos.Assim é a vida.
Assim somos nós. Se nos couber a graça de sermos cristãos — e acredito que todos nós o somos — há que se fazer primeiro a entrega de cada dia a esse Deus, que é a única verdade que fica. Depois, como alguém que se ama, há que se pensar em si mesmo, com todos os direitos que a existência nos reserva: de amar... de viver... e de sonhar...
Os jornais nos sobrecarregam, quase que diariamente, com notícias quase sempre voltadas para o crime. São os bárbaros assassinatos. É a corrupção campeando na “Casa”, paradoxalmente chamada do “Povo”. É a violência fazendo-se senhora das horas tenebrosas de nebulosas madrugadas, indiferente à lua que, cheia ou pela metade, tem sido o acalanto mais cantado em prosa e verso por poetas e seresteiros.
A imprensa já não mais se preocupa, como antigamente, em dar destaque ao mundo das letras. Deus é o grande aposentado. E o racional está sempre à frente das coisas que nos falam ao coração. Folheamos páginas e páginas e poucas são as matérias que nos trazem algo de substancial ao espírito, algo que venha ao nosso encontro, à vontade indômita de ser feliz, ainda que contrariando muitas vezes as leis formuladas pelo homem.
Trabalhos, muitos vezes áridos, técnicos demais para um povo que está entre os primeiros classificados no mundo, em matéria de analfabetismo, deixam de fora textos em crônica de rara beleza, poemas enfeixando o belo em cada verso, já que para os órgãos de comunicação o que vale é o anúncio que dá dinheiro, é o crime explorado até a última gota de sangue, são pernas correndo atrás da bola. É claro que há exceções.
A hora, mais que nunca, se faz necessária para fazer mudanças em nossos veículos de comunicação. Afinal há gosto para tudo. E o leitor merece respeito. O que nunca podemos esquecer é que, em qualquer vestibular — e isto já vem desde os tempos de nossos avós —, há que se estudar poesia. Camões, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Cruz e Souza e tantos outros que o digam.
E a poesia? Onde está? Morreu de vez, nos matutinos que nos chegam pela madrugada. Nos suplementos literários de nossos jornais. Mais dorido, ainda, morreu nas escolas onde a criança aprende mais fácil a sua língua, ouvindo rimas que falam de amor e de saudade. E para atestar o quanto a poesia nos empolga, deixamos aqui registrado um poema de nossa autoria:
Deitada na areia,
um nome escrevi.
Uma onda travessa,
brincando comigo,
meu nome levou
pro fundo do mar.
E na praia deserta,
sem nome, sem nada,
às águas pedi,
com ódio da onda,
meu nome trouxessem
do fundo do mar.
E o mar respondeu
que meu nome enterrou
para não mais voltar.
Porque esse nome...
Porque esse nome...
meu Deus, eu não posso falar.

*Arita Damasceno Pettená é membro da Academia Campinense de Letras e da Academia Campineira de Letras e Artes
Correio Popular, 22/06/2009

Novas respostas para velhas perguntas

Alfredo Ruy Barbosa*

O mundo moderno ainda espera respostas para muitas dúvidas que jamais foram esclarecidas. Registro aqui apenas as minhas sugestões para algumas dessas indagações. Por exemplo, por que uma passagem da oração ao Pai Nosso foi alterada de "perdoai as nossas dívidas..." para "perdoai as nossas ofensas..."? Resposta: foi uma exigência dos banqueiros e dos empresários. O que são, atualmente, as "boas ações"? Não são gestos nobres do ser humano, mas os papéis mais valorizados na Bolsa, onde hoje ocorrem as reais "crises de valores".

Inspirado num texto do grande escritor uruguaio Eduardo Galeano, registro outras respostas para algumas indagações. O que significa Comunidade Internacional? É o código secreto das grandes potências nas suas invasões militares, ou seja, na sua "luta pela democracia". Os civis de outros países que foram "democratizados" são aqueles que morreram nessas guerras. Por que o pretexto usado pelos britânicos para invadir o Sudão, no século passado, deveria ter sido alterado? Porque diziam, naquela época: "Estamos civilizando a África através do comércio", quando, na realidade, deveriam dizer "estamos comercializando a África através da civilização".

O que são as pessoas de carne osso? Para os economistas, números. Para os banqueiros, devedores. Para os tecnocratas, incômodos. Para os políticos, votos. O que é, atualmente, a democracia no Brasil? Apenas a obrigação de votar a cada quatro anos. O governo pede permissão, faz os seus deveres e presta contas? Sim, mas não diante dos cidadãos que votam, mas dos banqueiros e empresários que vetam. Uma pergunta para os governos das grandes potências: por que vocês proíbem que as pessoas fumem? Resposta: porque só as fábricas e os automóveis podem fumar livremente. O que é a Copa Mundial nos Estados Unidos? É o campeonato nacional de beisebol. E nesse mesmo país, que jamais foi invadido por algum inimigo, por que o Ministério da Guerra se chama Secretaria de Defesa? Porque eles não fazem guerras, mas, sim, missões para instaurar a sua "democracia".

Nas invasões americanas do Iraque, do Afeganistão e de muitos outros países, no passado, o que são, para os comandantes militares, os "danos colaterais"? São os milhões de civis mortos nessas "missões de defesa". E como são chamados aqueles que bombardeiam e aqueles que são bombardeados? Os primeiros, de "aliados" ou de "coalizão"; e os segundos, de "terroristas ou fanáticos". Quando a "coalizão" diz para os outros "a comunidade internacional exige", o que significa essa frase? Resposta: "A ditadura comercial e financeira impõe".

Qual é política do atual governo brasileiro? Resposta: para assegurar o poder e uma boa reputação, o governo alega, publicamente, que dá algo para a maioria, mas desvia verbas públicas, em segredo. O nosso Millôr indaga e ele mesmo responde: "Temos um Congresso eficiente? Sim! Ele mesmo rouba, ele mesmo investiga e ele mesmo absolve". Atualmente, o que é abuso de poder? Uma área de ação onde não faltam "autoridades" nesse assunto.

Caro leitor, se algum político lhe perguntar: "Você acredita em mim?", responda: "Acredito em você, Pinóquio!". Possivelmente, ele vai lhe devolver: "Olha, tenho aqui ao meu lado um colega que não me deixa mentir". Então, responda: "Entendi! Pelo menos, ele não vai lhe deixar mentir sozinho"

E se alguém lhe perguntar quais são os poderes que governam o Brasil, responda: "São quatro: o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e o Aquisitivo".
* Advogado, professor e escritor.

Jornal do Brasil - Segunda-feira, 22 de Junho de 2009 - 00:00
http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/06/22/sociedadeaberta/novas_respostas_para_velhas_perguntas.asp

Reciprocidade ou morte

Leonardo Boff

Desde que os seres humanos decidiram viver juntos, estabeleceram um contrato social não escrito pelo qual formularam normas, proibições e propósitos comuns que permitissem uma convivência minimamente pacífica.

Depois surgiram os pensadores que lhe deram um estatuto formal como Locke, Kant e Rousseau. Todos esses contratos históricos têm um defeito: supõem indivíduos nus e acósmicos, sem qualquer ligação com a natureza e a Terra. Os contratos sociais ignoram e silenciam totalmente o contrato natural. Mais ainda, a partir dos pais fundadores da modernidade, Descartes e Bacon, implantou-se a ilusão de que o ser humano está acima e fora da natureza com o propósito de domínio e posse da Terra. Este projeto continua a se realizar mediante a guerra de conquista seguida pela apropriação de todos os recursos e serviços naturais. Atrás sempre fica um rastro de devastação da natureza e de desumanização brutal. Antes se fazia guerra e apropriação de regiões ou povos. Hoje conquistaram-se todos os espaços e se conduz uma guerra total e sem tréguas contra a Terra, seus bens e serviços, explorando-os até a sua exaustão. Ela não tem mais descanso, refúgio ou espaço de recuo.

A agressão é global e a reação da Terra-Gaia está sendo também global. A resposta são as muitas crises, enfaixadas no devastador aquecimento global. É a vingança de Gaia.

Não temos outra saída senão reintroduzir consciente e rapidamente o que havíamos deixado para trás: o contrato natural articulado com o contrato social. Trata-se de superar nosso arrogante antropocentrismo e colocar todas as coisas em seu lugar e nós junto delas como parte de um todo.

Que é o contrato natural? É o reconhecimento do ser humano de que ele está inserido na natureza, de quem tudo recebe, que deve comportar-se como filho e filha da Mãe Terra, restituindo-lhe cuidado e proteção para que ela continue a fazer o que desde sempre faz: dar-nos vida e os meios da vida. O contrato natural, como todos os contratos, supõe a reciprocidade. A natureza nos dá tudo o que precisamos e nós, em contrapartida, a respeitamos e reconhecemos seu direito de existir e lhe preservamos a integridade e a vitalidade.

Ao contrato exclusivamente social, devemos agregar agora o contrato natural de reciprocidade e simbiose. Renunciamos a dominar e a possuir e nos irmanamos com todas as coisas. Não as usamos simplesmente, mas, ao usá-las quando precisamos, as contemplamos, admiramos sua beleza e organicidade e cuidamos delas. A natureza é o nosso hospedeiro generoso e nós seus hóspedes agradecidos. Ao invés de uma trégua nesta guerra sem fim, estabelecemos uma paz perene com a natureza e a Terra.

A crise econômica de 1929 sequer punha em questão a natureza e a Terra. O pressuposto ilusório era de que elas estão sempre aí, disponíveis e com recursos infinitos. Hoje a situação mudou. Já não podemos dar por descontada a Terra com seus bens e serviços. Estes mostraram-se finitos e a capacidade de sua reposição já foi ultrapassada em 40%.

Quando esse fator é trazido ao debate na busca de soluções para a crise atual? Somos dominados por economistas, em sua grande maioria, verdadeiros idiotas especializados – Fachidioten – que não veem senão números, mercados e moedas esquecendo que comem, bebem, respiram e pisam solos contaminados. Quer dizer, que só podem fazer o que fazem porque estão assentados na natureza que lhes possibilita fazer tudo o que fazem, especialmente, dar razões ao egoísmo e às barbaridades que a atual economia faz que prejudica milhões e milhões de pessoas e que vai minando a base que a sustenta.

Ou restabelecemos a reciprocidade entre natureza e ser humano e rearticulamos o contrato social com o natural ou então aceitamos o risco de sermos expulsos e eliminados por Gaia. Confio no aprendizado a partir do sofrimento e do uso do pouco bom senso que ainda nos resta.
*Teólogo
Jornal do Brasi, Segunda-feira, 22 de Junho de 2009 - 00:00
http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/06/22/sociedadeaberta/reciprocidade_ou_morte.asp

Rovílio

LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL*

Era frade. Um homem grande, tímido em certas circunstâncias, atencioso. O talhe, perfeito; o olhar azul, expressivo e inquieto. A modéstia lhe caía bem, por verdadeira. Suas mãos, enormes, faziam grandes voos quando falava. Todos o escutavam. Devido ao nascimento e vivência entre os oriundi da serra, a escansão de suas frases dava à língua portuguesa uma sonoridade surpreendente e bela, toda nova. Nunca repetia as histórias – porque as tinha muitas, sempre engraçadas e com certa perspectiva moral, ainda que não fossem moralistas. Interessava-se pelos humildes por decisão ética, discorrendo sobre a vida de um colono italiano como se falasse de um papa, de um rei, de um transformador social. Respondia com bom humor às perguntas de seus amigos, mesmo às brejeiras, que diziam respeito a sua condição voluntária de homem celibatário, religioso e bonito, cujo encanto pessoal abalava os corações.
Falava de Deus com tal naturalidade que, mesmo temporariamente, convertia qualquer agnóstico. Uma de suas grandes virtudes era considerar o pensamento alheio. Um dia, em plena Feira do Livro, ele conversava com um senhor judeu. Punha-lhe a mão no ombro, falava-lhe alguma coisa. Apertaram-se as mãos, despediram-se. Ao primeiro interlocutor que encontrou, disse: “Como temos a aprender com o Antigo Testamento! Talvez nosso cristianismo fosse muito melhor”.
Vivia cercado de gatos. Entendia-lhes as manhas, a linguagem corporal e poética. Falava-lhes. Amparava-os nas queixas, dava-lhes comida. Respeitava-os em suas qualidades auto-suficientes e felinas.
O capítulo dos livros, em se tratando de Rovílio, é o mais movimentado de sua biografia. Falando neles, em especial dos livros que editou, transfigurava-se. Foram centenas, milhares. Era complacente na hora de fazer escolhas, pois confiava no juízo da posteridade. Teve ações quixotescas, como a de editar a Suma Teológica e suas milhentas páginas.
Será difícil, na próxima Feira, ir à praça e não encontrar o Frei Rovílio em pessoa. Porque, bem o sabemos, ele lá estará, circulando entre as barracas, sobraçando um livro. Talvez traga algum outro habitante do Paraíso, a quem ele irá contar suas inesgotáveis histórias.
*Escritor gaúcho.
-Texto publicado na ZH, Segundo Caderno, pg.6 - 22/06/2009 -

domingo, 21 de junho de 2009

Desejo e felicidade

IHU On-Line - Em que medida o desejo e a felicidade como imperativos fundamentam a violência na pós-modernidade?
Mario Fleig - A felicidade sempre foi e continua sendo a aspiração que determina a existência do homem ocidental, e talvez de qualquer ser humano, independente de sua cultura. Contudo, o ideal de felicidade se formula de maneiras muitos diversas, e isso depende de cada cultura e seu sistema de crenças e representações. Temos indicações de que a modernidade, e sua radicalização no que se passou a denominar de pós-modernidade, se caracteriza pela implementação de mudanças radicais nos ordenadores sociais precedentes que definiam o que se denomina de modo genérico de modelo tradicional. Ora, sabemos que os ideais que predominam em uma cultura determinam os valores prevalentes, tendo efeitos na organização da cultura e na estruturação das subjetividades. Assim, podemos supor que a modernidade e a pós-modernidade se caracterizam por mudanças radicais nos ideais partilhados, que por sua vez têm efeitos sociais e subjetivos marcantes.
Ora, o projeto de fazer uma sociedade orientada pela razão é o que caracteriza a modernidade. A razão se coloca em exercício essencialmente pelo caminho da crítica, de modo que os três grandes princípios ordenadores das sociedades não-modernas - hierarquia, tradição e holismo - foram postos abaixo. A difusão dos ideais da modernidade, firmando-se progressivamente pela crítica aos segmentos da sociedade tradicional, somando-se aos avanços das ciências modernas e os inventos tecnológicos decorrentes, faz com que aumentem as fileiras de adeptos, cujo entusiasmo pelos novos ideais conflui na irrupção das diversas revoluções sociais que se dão até nossos dias, somadas às incessantes revoluções científicas e tecnológicas. Dentro da diversidade que caracteriza cada uma das revoluções sociais, poderíamos considerar que o lema central da Revolução Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade, indica a crítica radical ao modelo ancorado na verticalidade, ou seja, na autoridade alocada na divindade, no rei, no chefe, no pai. Assim, na pós-modernidade podemos ver os limites extremos da crise legitimidade de qualquer instância que queira fazer o exercício de autoridade. A crise de legitimidade da autoridade tem como efeito a evaporação dos lugares que têm como função demarcar as obrigações e os limites para cada sujeito. Isso significa uma desagregação da lei simbólica, ou seja, os neo-sujeitos que se constituem na nova economia psíquica correlata da economia neoliberal se supõem desobrigados de qualquer limite e aspirados pelo ideal de gozar de tudo e a qualquer preço, sem limite. Ser educado e subjetivado evitando qualquer interdição tende a produzir sujeitos incapazes de dialetizar o ódio que a introdução da cria humana na linguagem produz. Ao ser introduzido na fala, o sujeito é confrontado com a falta que a interação com o outro lhe apresenta, resultando no surgimento do ódio contra aquele que lhe impõe a falta e o limite. Falta que se apresenta na alteridade do semelhante e falta estruturalmente presente na própria linguagem. Ser introduzido no campo da linguagem e na função fala produz no cerne do faltante uma ferida incurável. Esta ferida é denominada por Freud de desejo.
*Mario Fleig, filósofo e psicanalista.
- Entrevista site IHU/unisinos em 21/06/2009 com o título: O direito ao gozo e a violência.

"Nunca fui um bom camarada"

Hans Magnus Enzensberger*

Veja: Por que o senhor tem chamado os terroristas islâmicos de "perdedores radicais"?
H. M. Enzensberger: Perdedor radical é aquele tipo inconformado e violento que, por exemplo, parte para uma matança desenfreada no escritório do qual foi demitido. Quase sempre um solitário, ele nutre uma ilusão de superioridade quando encontra abrigo numa ideologia coletiva. O islamismo – a versão ideologizada da religião – enquadra-se nisso. Alimenta o ressentimento pelo declínio da civilização árabe, sempre atribuído a um culpado externo. E tem um forte caráter autodestrutivo.

Veja: O ano que o senhor passou em Cuba foi decisivo para o rompimento com o comunismo?
HME: Mesmo no auge de 1968, nunca fui um camarada ideal. Cresci sob a ditadura nazista, e isso me tornou um cético. Mas Cuba foi, sim, a gota-d’água. O país era um mito para a esquerda. Vivendo lá, descobri que era só uma contradição bizarra: um stalinismo tropical.

Veja: O senhor já foi muito crítico do clima político alemão. Como está a situação hoje?
HME: Não estou mais obcecado pelo passado nazista, com o "problema alemão". Hoje somos uma sociedade burguesa comum, com os mesmos problemas dos franceses ou escandinavos. Ficamos normais e aborrecidos.

Veja: A polêmica de 2006 sobre o envolvimento do escritor Günter Grass com o nazismo não mostra que o "problema alemão" segue vivo?
HME: As revelações sobre o passado de Grass só foram constrangedoras porque ele se erigiu em "consciência da pátria", papel que não tem mais autoridade para exercer. E temos de dar um desconto: Grass não foi protegido pelo ambiente familiar, como eu fui. Meu pai considerava os nazistas uma ralé.

Veja: Seu interesse pelo general Hammerstein, que também tinha desprezo aristocrático pelos nazistas, tem algo a ver com seu pai?
HME: Isso provavelmente é verdadeiro. Meu pai também era um obstinado.
*Poeta e ensaísta alemão.
Entrevista na VEJA, 24 de junho de 2009, p.152-153. Conversa com o editor de VEJA Jerônimo Teixeira por ocasião do lançamento do livro HAMMERSTEIN OU A OBSTINAÇÃO, Cia de Letras, 344pg.

O eixo do caos

Emir Sader*

A exportação dos seus problemas é uma das características da estratégia imperial dos EUA. É o complemento indispensável da “missão civilizadora” que se atribui como potência pelo mundo afora. Não houvesse um mundo selvagem fora, não se poderia justificar a ação “civilizatória” que os EUA reivindicam.
Em janeiro de 2002, George W. Bush, então presidente dos EUA, anunciou a existência de um eixo do mal, que promoveria o terrorismo, os ajudaria a obter armas de destruição em massa, etc., etc. Três países seriam os membros mais importantes desse eixo: Irã, Iraque e Coreia do Norte. As duas “guerras infinitas” em que se meteram os EUA se fundavam nesse enfoque: invasões do Afeganistão e do Iraque.
Agora, sem que se tenha fechado esse período, os ideólogos da doutrina das guerras preventivas apontam para um novo eixo: o eixo do caos. É o que anuncia Niall Ferguson, intelectual orgânico da estratégia norte-americana, na edição espanhola do Foreign Policy. Esse novo eixo contaria com “pelo menos nove membros e talvez mais”. Estariam unidos “pela perversidade de suas intenções assim como por sua instabilidade, que a crise financeira só faz piorar a cada dia”.
Segundo Ferguson, a “turbulência brutal” que caracterizaria o mundo atual teria três causas primárias: a desintegração étnica, a volatilidade econômica e o declínio dos impérios. No Oriente Médio, os três fatores estariam fortemente concentrados, justificando, segundo ele, sua situação explosiva.
A revista seleciona três casos dessa lista caótica: Somália (“a anarquia interminável”), Rússia (“o novo estilo agressivo”) e México (“as misérias causadas pela guerra do narcotráfico”). São três casos de uma lista de nove membros do suposto eixo do caos.
Gaza, a partir da frustrada ofensiva militar de Israel, viu piorar suas condições econômicas e sociais, ao mesmo tempo em que fortaleceu o Hamas e enfraqueceu as forças consideradas moderadas — como o Fatah e o Egito, ao mesmo tempo que favoreciam a eleição de um governo de direita radical em Israel, dificultando mais ainda qualquer nova iniciativa de paz na região.
Claro que o Irã faz parte também dessa lista, porque apoiaria as forças desestabilizadoras na região — Hezbollah, no Líbano, Hamas, na Palestina —, possuindo armamento nuclear, enquanto sofre os efeitos da crise econômica internacional e da baixa do preço do petróleo.
O Afeganistão, evidentemente, seria outro pivô do eixo do caos, agora fazendo um casal inseparável com Paquistão. Os governos dos dois países estariam “entre os mais fracos que existem”, envolvidos entre talibães e armamento nuclear.
Outros membros do eixo seriam a Indonésia, a Turquia e a Tailândia, onde a crise exacerba os conflitos internos. Mas usar esses critérios permite estender a lista muito mais. Então se fala da pirataria na Somália, na guerra na República Democrática do Congo, na violência em Darfur e em Zimbábue. E se ameaça: “Não é arriscado dizer que a lista vai aumentar ainda este ano”. O diagnóstico remeteria a três fatores, que se articulariam entre si: “a volatilidade econômica, mais a desintegração étnica, mais um império em declive: a combinação mais letal que existe em geopolítica”. O que apontaria para o início de uma era do caos.
Os casos escolhidos servem como exemplos. A Somália seria “o lugar mais perigoso do mundo”, um “Estado governado pela anarquia, um cemitério de fracassos em política exterior que só conheceu seis meses de paz nos últimos vinte anos”, onde “o caos interminável do país ameaça devorar toda uma região”. Na Rússia, “Putin baseou seu apoio popular em um Estado autoritário que fez crescer as rendas mais altas e devolveu à Rússia o orgulho de grande potência. Mas a crise está ameaçando tudo. E o que se avizinha pode ser pior”. Já o México estaria em um “estado de guerra”, em que os narcotraficantes “se converteram em uma autêntica insurgência. Só no ano passado a violência cobrou mais vidas do que estadunidenses mortos no Iraque. E o fim parece próximo”.
Da mesma forma que ocorria quando se anunciou o eixo do mal, nenhum diagnóstico global para definir o que tem a ver com isso a globalização, a dominação imperial estadunidense e os modelos econômicos neoliberais. Naturaliza-se o caos. Ele não seria uma das consequências da “ordem global”, da “ordem imperial”, da “ordem estadunidense” no mundo.
O terror se combatia com guerras infinitas. E esse suposto caos, quando os centros do sistema, eles mesmos, geram caos, insegurança, instabilidade, miséria, concentração ainda maior de poder e riqueza, indústrias bélicas em crescente expansão? Somente outra ordem, outro mundo, pode diagnosticar e superar o caos — tanto nas periferias, quanto nos centros agonizantes do sistema financeiro global. A cada ordem corresponde um tipo de caos.
*Sociólogo. Escritor.
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 21/06/2009

Pensamento da noite

“As árvores querem ficar quietas.
Mas o vento as balança.”
Provérbio chinês

Cérebro turbinado

Jeremy Laurencedo*
Bioeticista pede liberação de drogas
para "doping mental",
como a Ritalina,
dizendo que elas são
uma extensão natural
da educação.
Em pleno período de provas, a oferta de uma droga que possa melhorar as notas poderia deixar os alunos animados, mas aterrorizaria os pais. Agora, um bioeticista britânico diz que é hora de abraçar o "doping mental", o uso de drogas que aumentam o desempenho cognitivo. A sugestão vem de John Harris, diretor do Instituto para Ciência, Ética e Inovação da Universidade de Manchester e editor-chefe do "Journal of Medical Ethics".
É a segunda manifestação de peso a favor da liberação do uso "off label" (sem receita médica) dessas substâncias. No fim do ano passado, Harris e mais seis pesquisadores já haviam pedido, na revista "Nature", a regulação de drogas cognitivas.
A principal da categoria é a Ritalina, usada para tratar crianças hiperativas. Ela já tem um mercado negro entre os estudantes, especialmente nos EUA. Eles estão trocando estimulantes tradicionais, como café e cigarros, pela Ritalina.
Os usuários dizem que a droga ajuda a melhorar a concentração, algo que já foi confirmado em pesquisas com adultos.
David Green, aluno da Universidade Harvard, disse ao jornal "The Washington Post": "Honestamente, desde o ensino médio eu não escrevo um artigo sem Ritalina".
Matt, estudante de administração de empresas da Universidade da Flórida, disse que uma droga parecida, o Adderall, ajudou-o a melhorar as notas. "É um santo remédio", disse ao "Boston Globe". "É incrível como minha concentração melhora quando eu uso."
Alguns especialistas condenaram a tendência e acusaram os estudantes de tirar "vantagem injusta" por meio do doping, sem explicarem por que isso seria mais injusto do que contratar um professor particular, por exemplo.
Harris diz que os argumentos contra as drogas "não têm sido persuasivos" e que a sociedade deve buscar turbinar a cognição. "Não é racional ser contra o aprimoramento", escreveu. "Os humanos são criaturas que resultam de um processo de aprimoramento chamado evolução e, além disso, aprimoram a si próprios de todo jeito possível."
Embora nenhuma droga seja 100% segura e livre de efeitos colaterais, a Ritalina foi considerada segura o suficiente para ser administrada a crianças com distúrbio de déficit de atenção (DDA) há vários anos, afirma Harris.
A Ritalina é um estimulante introduzido em 1956, que parece influenciar a maneira como o cérebro filtra e responde a estímulos. Ela aumenta a energia e a confiança, e já foi comparada à cocaína. Efeitos colaterais possíveis incluem insônia, inapetência, tontura e depressão após o fim do uso.
Outras drogas investigadas quanto ao seu papel de aprimoradoras mentais incluem o donepezil, usado para tratar demência, e o modafinil, para narcolepsia. Ambas possivelmente ampliam o desempenho em tarefas que requerem habilidade, nas quais a concentração e o estado de alerta são pré-requisitos. Um estudo mostrou que pilotos comerciais que tomaram donepezil por um mês lidaram melhor com emergências num simulador de voo do que os que tomaram placebo.
Um estudo do modafinil concluiu que ele aumentava o desempenho, num simulador de voo, de pilotos de helicóptero que tiveram privação de sono.Num artigo na edição on-line do "British Medical Journal", Harris disse que o uso de drogas para aumentar o desempenho cognitivo deveria ser visto como uma extensão natural do processo de educação. As agências reguladoras de fármacos deveriam avaliar os benefícios e os riscos da mesma forma como avaliariam qualquer outra intervenção médica.
Questão de ética
"Suponha que uma universidade queira aumentar a capacidade mental de seus alunos. Suponha que eles digam também que não só poderiam fazer isso como também que seus alunos seriam os mais inteligentes da história. Nós poderíamos não acreditar, mas, se as alegações pudessem ser provadas, deveríamos ficar satisfeitos?"
Sua resposta é um sonoro "sim". Ele conclui que é antiético impedir as pessoas de tomarem Ritalina para aumentarem seu desempenho mental.
Em total desacordo, Anjan Chatterjee, da Universidade da Pensilvânia (EUA), argumenta na mesma edição do "British Medical Journal" que há riscos demais. Nos EUA [e no Brasil], a Ritalina é um remédio de tarja preta, pois tem alto potencial de abuso, dano ao coração e risco de morte súbita.Ele acrescenta que há compensações cognitivas na Ritalina, como a perda da criatividade. Ele levanta o fantasma de pré-vestibulandos tomando a droga em "proporções epidêmicas" e de motoristas, policiais e médicos pressionados a usá-la em plantões.
O progresso sempre traz risco, diz Harris. O desenvolvimento de tochas, lampiões e lâmpadas elétricas poderia ter forçado as pessoas a trabalhar noite adentro. A resposta não foi banir essas tecnologias, mas regular as horas de trabalho.

*Diretor para Ciência, Ética e Inovação da Universidade de Manchester e editor-chefe do "Journal of Medical Ethics"
Artigo do "INDEPENDENT" postado pela FSP 21/06/2009
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2106200904.htm

A mosca

Carlos Heitor Cony*
Um pedreiro anônimo teve mais do que os seus 15 minutos de glória. Teve 16. Trabalhando no cemitério junto a uma igreja de São João Del Rei (MG), emocionou a nação e comoveu a cúpula do Estado que lá estava para sepultar Tancredo Neves -ato final de um drama que abalou todo o país. Ficou no ar em rede nacional, via satélite, nem por isso se afobou, cumpriu o ofício como se estivesse sozinho, caprichou com sua pá humilde, dando à cerimônia um momento de reflexão: assim passa a glória do mundo.
Não tenho certeza, mas apareceu no "Fantástico", nos programas do Jô e do Faustão, mereceu charge do Chico, artigo do Elio Gaspari. Tanta e tal façanha foi agora superada em escala mundial por uma mosca que saiu não se sabe de onde, de alguma lixeira de Washington (DC) e, ludibriando o esquema de segurança mais ostensivo da história, penetrou no sagrado espaço oval do salão também oval da Casa Branca, importunando o homem mais poderoso do mundo.
O Houaiss explica (ou complica) o que seja uma mosca: designação comum aos insetos dípteros esquizófonos da subordem dos ciclórrafos que se dividem em caliptrados e acaliptrados. É coisa antiga no universo. Tibério, em Capri, passava o tempo matando moscas para se distrair do tédio de governar o maior império do mundo.
Mais ou menos com o mesmo poder e já com algum tédio, Barack Obama trucidou com certeiro golpe e destra mão um exemplar da espécie, que teve também seu momento de glória. Não precisou usar seu assombroso arsenal militar, seus porta-aviões que sozinhos são capazes de dominar a Terra, suas ogivas nucleares, os serviços do FBI e da CIA.
Com um peteleco e uma expressão de quem é hábil em matar moscas, deu um único golpe e matou a mosca e a questão.
*Escritor, jornalista, imortal da Academia Brasileira de Letras, colunista
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2106200905.htm 21/06/2009

Animais

Claúdio Moreno*

Os gregos, ao contrário dos romanos, só matavam animais para fins religiosos ou para seu consumo próprio. Pitágoras e seus discípulos, então, nem isso, pois acreditavam que as almas dos mortos podiam reencarnar no corpo de qualquer ser vivo – ao que Tertuliano, crítico feroz desta doutrina, redarguia, zombeteiro: “A ser assim, quem me diz que aquela carne que chia no espeto não é uma posta da minha querida avozinha?”.
Os romanos, seus sucessores, logo aprenderam a matar por prazer. Organizavam mirabolantes espetáculos no Coliseu em que milhares de animais eram abatidos diante de uma plateia assanhadíssima. Num evento tristemente memorável, Probus transplantou dezenas de árvores copadas para a arena, criando ali uma espaçosa floresta, que povoou com mil avestruzes, mil cervos, mil antílopes e mil javalis – todos mortos diante do público. No dia seguinte, massacraram cem leões, um número igual de leoas, duzentos leopardos e trezentos ursos. Depois, vinte zebras, dez girafas, trinta hienas e dez tigres indianos; em seguida, os grandes quadrúpedes: o rinoceronte, o hipopótamo e um majestoso grupo de trinta e dois elefantes.
Esta demanda frenética atraiu um exército de caçadores de espécimes selvagens; navios carregados de jaulas – arcas de Noé da morte e da destruição – zarpavam de todos os portos do Mediterrâneo. Assim foi exterminada quase toda a fauna do norte da África; assim desapareceu para sempre o leão europeu, aquele que atacou os camelos de Xerxes, quando os Persas invadiram a Macedônia em 480 a.C. Era comum na Península Ibérica, na França, na Itália e na Grécia, onde forneceu a vestimenta de Hércules; sabe-se apenas que o último exemplar conhecido morreu no ano do nascimento de Cristo.
Eis um animal que nunca vamos conhecer – e, como ele, dezenas de outros que se extinguiram não por fenômenos naturais, como os dinossauros, mas pela simples e ilimitada estupidez humana. Assim também foi o extermínio da alca gigante, o hoje desconhecido pinguim boreal, outrora encontrável em gigantescas colônias nas águas geladas do Atlântico Norte. Em 4 de junho de 1844, Jon, Sigurdr e Ketil, três pescadores islandeses, foram a uma ilha distante procurar exemplares que um colecionador tinha encomendado. Jon matou um macho; Sigurdr matou uma fêmea. Só Ketil voltou de mãos abanando, porque, sem o saber, as duas alcas que seus companheiros haviam abatido eram as últimas do planeta! As carnificinas romanas me deixam horrorizado, mas nada me impressiona mais que o relato deste momento preciso em que algo de irreparável aconteceu. Estas espécies que se extinguem são como os canários que os mineiros de carvão levavam para o fundo da mina, a fim de detectar a existência de gás, pois sua morte anuncia que a nossa também não está longe.
* Professor, escritor, ensaísta, Dr. em Letras e colunista da ZH
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2546250.xml&template=3916.dwt&edition=12527&section=999 16/06/2009

A diferença

Luis Fernando Verissimo*
Uma vez imaginei o encontro
de Batman e Drácula
numa clínica geriátrica,
na Suíça.


Batman não acredita que Drácula tenha mais de 500 anos. Não lhe daria mais de duzentos.
– Tempo demais – diz Drácula. – Estou na terceira idade do Homem. Depois da mocidade e da maturidade, a indignidade...
O cúmulo da indignidade, para o conde, é a dentadura falsa. Ele não pode ver sua própria dentadura sobre a mesinha de cabeceira sem meditar sobre a crueldade do tempo. Já tentou o suicídio, sem sucesso. Estirou-se numa praia do Caribe ao meio-dia, para que o sol o reduzisse a nada. Só conseguiu uma boa queimadura. Dedicou-se a uma dieta exclusiva de alho. Só conseguiu que as mulheres o expulsassem da cama.
A estaca no coração também não funcionara. Precisava ser de um determinado tipo de madeira benta, usada numa determinada fase da Lua, a logística do empreendimento o derrotara. E ninguém se dispõe a matá-lo, agora que seus caninos são postiços e ele não é mais uma ameaça. Drácula está condenado à vida eterna, à velhice sem redenção e à indignidade sem fim. Internou-se na clínica com a vaga esperança de que a morte, que vem ali buscar tanta gente, um dia o leve por distração.

E você, Batman?
Batman conta que está na clínica para retardar a morte. Não confessa sua idade, mas recusa-se a tirar a máscara para que não vejam suas rugas. Ele não é um super-herói com superpoderes, inclusive o de não morrer, como o Super-Homem. “Eu sou dos que morrem”, diz Batman, com um suspiro. No tom da sua voz está a lamúria milenar da espécie dos que morrem. Drácula parece não ouvi-lo. Esta interessado em outra coisa. “Você vai terminar esse iogurte?” pergunta. Mas Batman continua sua queixa. “Eu já não voava. Hoje quase não caminho. Não posso mais dirigir o Batmóvel, não renovaram minha carteira...”. Mas ele não quer a redenção da morte. Quer a vida eterna, a mesma vida eterna de um homem de aço. “Vamos fazer um trato”, sugere Drácula. “Quando a morte vier buscá-lo, trocaremos de lugar. Você veste este meu robe de cetim e a echarpe de seda, e eu visto essa sua fantasia ridícula, e a...”. Mas Batman o interrompe com um gesto. A morte não pode ser enganada. Claro que pode, diz Drácula. “É só você passar um pouco da minha pomada no seu cabelo que a morte o tomará por mim e...”.
– Que cabelo? – pergunta Batman, com outro suspiro, também antigo.

“Não somos muito diferentes”, diz Drácula. “Somos completamente diferentes!”, rebate Batman. “Eu sou o Bem, você é o Mal. Eu salvava as pessoas, você chupava o seu sangue e as transformava em vampiros como você. Somos opostos”. “E no entanto”, volta Drácula com um sorriso, mostrando os caninos de fantasia, “somos, os dois, homens-morcegos...”.
Batman come o resto do seu iogurte sob o olhar cobiçoso do conde. Diz:
– A diferença é que eu escolhi o morcego como modelo. Foi uma decisão artística, estética, autônoma.– E estranha – diz Drácula. – Por que morcego? Eu tenho a desculpa de que não foi uma escolha, foi uma danação genética. Mas você? Por que o morcego e não, por exemplo, o cordeiro, símbolo do bem? Talvez o que motivasse você fosse uma compulsão igual à minha, disfarçada. Durante todo o tempo em que combatia o mal e fazia o bem, seu desejo secreto era de chupar pescoços. Sua sede não era de justiça, era de sangue. Desconfie dos paladinos, eles também querem sangue.
– Se eu ainda pudesse fazer um punho você ia ver qual é a minha compulsão neste momento – rosna Batman.
Mas Drácula não perde a calma.
– E veja a ironia, Batman. O morcego bom passa, o morcego mau fica. Um não quer morrer e morre, o outro quer morrer e não morre. Ou talvez não seja uma ironia, seja uma metáfora para o mundo. O bem acaba sem recompensa, e o único castigo do mal é nunca acabar.
Drácula continua:
– Somos dois aristocratas, Batman, um feudal e outro urbano, um da velha Europa e outro da nova América. Eu era Vlad, o Impalador, na Transilvânia, você, o herdeiro de uma imensa fortuna em Gotham. Eu era o terror dos aldeões, você um rico caridoso. Os pobres nunca ameaçaram invadir a sua mansão com archotes, mas somos, os dois, da mesma classe, a dos sanguessugas. O que nos diferencia é que eu não tinha remorsos.
Batman pede que Drácula se retire. Dali a pouco chegará Robin com os netos e ele não quer que as crianças se assustem.

O senhor inverno

MOACYR SCLIAR*
Se as estações do ano correspondessem a figuras humanas, poderíamos imaginar o verão como um garoto alegre, travesso, sempre de pés descalços, pronto a mergulhar num rio ou a jogar futebol; a primavera como uma adolescente bela e meiga, de olhos sonhadores, entoando suaves canções. O outono? Um homem de meia-idade, um poeta talvez, sempre a caminhar por bosques e sempre meditando sobre a vida. E o inverno? Bem, aí depende. O inverno divide opiniões; porque há quem não suporte o frio assim como existem aqueles que abominam o calor.
Aliás, é certo que a Batalha Final será travada não entre aqueles que atacam ou defendem o terceiro mandato para Lula, nem entre as forças do Bem e seus adversários do Mal; a Batalha Final será travada entre aqueles que detestam o inverno e aqueles que o amam.
Nessa linha de raciocínio, Henry David Thoreau, o pensador americano que venerava a natureza e a celebrou em várias obras, dizia que, para algumas pessoas, o inverno seria um rude e prepotente tirano, mas que ele preferia vê-lo como um monarca benévolo e gentil. Rei talvez seja um pouco de exagero, mas podemos, sim, falar de um Senhor Inverno, um cavalheiro de idade que nos visita todos os anos. Veste-se bem, ele, com elegância discreta: sobretudo, manta, boné ou chapéu. Usa barba, obviamente, uma barba bem cuidada. Sua voz é grave, voz de barítono. É um homem culto: nas longas noites da estação fria, sua diversão principal é ler (Shakespeare, Machado de Assis) e ouvir música (erudita: Bach, Mozart), enquanto saboreia um cálice de vinho. Ah, sim, o Senhor Inverno é gourmet; gosta de comer bem e frequenta bons restaurantes. Mas prefere ficar em casa, sentado diante da lareira, muitas vezes olhando as chamas que dançam alegremente.
É triste, o Senhor Inverno? Talvez o seja: a falta de luz solar exerce esse efeito sobre a química do nosso organismo, causando aquilo que os americanos chamam de winter blues, a tristeza do inverno. Isso, para o Senhor Inverno, não chega a ser problema, ao contrário: essa tristeza superior, espiritual, é para ele o ponto de partida para uma meditação sobre a existência, para uma busca de respostas às tradicionais questões com as quais muitas vezes somos confrontados: por que estamos aqui? Qual o sentido da vida?
Se esse debate interior fica muito inquietante, o Senhor Inverno tem alternativas: um bom DVD, por exemplo. Ou um chá acompanhado de torradas.
Finalmente, é bom dizer que o Senhor Inverno é muito hospitaleiro: na casa dele, sempre seremos bem recebidos. E lá encontraremos abrigo para o cortante vento que, aqui no Sul, muitas vezes arranca lágrimas de nossos olhos.
*Escritor e colunista da ZH

Socialismo em debate

Jung Mo Sung *

Felizmente o tema do socialismo volta à discussão! É claro que há grupos que, mesmo após a derrocada do bloco socialista, não deixaram de pregar, anunciar e discutir - muitas vezes de modo dogmático - o socialismo como a única saída possível para a "barbárie capitalista". Mas, muitos se afastaram dessa discussão, até como uma forma de se preservar da dor da frustração frente às esperanças depositadas nesse sistema econômico-social que se sucumbiu (ou parecer ter sucumbido) frente ao capitalismo. Com isso, muitas das propostas de alternativas passaram a ser formuladas em termos muito abstratos, marcados quase que exclusivamente por valores éticos e ecológicos, sem muita preocupação com o "desenho institucional e econômico-político". E sem diretrizes que mostrem ou indiquem o formato institucional da política e economia, essas propostas genéricas não oferecem critérios para orientar as nossas lutas e ações sociais e políticas.

Afirmações do tipo "a nova sociedade será espiritual e viverá em harmonia com todos os seres vivos e com o Planeta" são importantes para manter o horizonte de desejo, mas não oferecem direções e critérios para lutas concretas. Com isso, surge uma distância grande entre esses discursos cheios de desejos bons e as lutas e ações locais concretas. Por isso, eu afirmei que felizmente o tema do socialismo está voltando a ser discutido em setores comprometidos com a causa da vida dos pobres e dos dominados. Um exemplo disso é a publicação nos últimos dias, no Adital, de dois artigos que merecem ser lidos e discutidos ("Estatismo é a alternativa?", de Manfredo A. Oliveira e "Socialismo, contradições e perspectivas", de Frei Betto).
Eu penso que não poderemos construir um novo projeto de sociedade e de civilização sem retomarmos as discussões sobre o socialismo, os seus erros e acertos, suas semelhanças e diferenças com o capitalismo, seus potenciais e limites. Dessa discussão podemos reafirmar o socialismo como uma alternativa ao capitalismo ou "inventar" outro projeto, mas não podemos evitar essa discussão. E espaços como Adital pode ser um lugar para esse tipo de debate.
E a importância desse debate se mostra mais claro se levarmos em consideração que até Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, escreveu nos últimos dias que a atual crise econômica deixará como um dos legados "uma batalha de alcance global em torno de idéias [...] em torno de que tipo de sistema econômico será capaz de trazer o máximo de benefício para maior quantidade de pessoas". E que "em boa parte do mundo, [...], a batalha entre capitalismo e socialismo - ou ao menos entre o que muitos estadunidenses consideram socialismo - segue na ordem do dia" ("As mensagens tóxicas de Wall Street").

Uma primeira pergunta que pode aparecer na discussão sobre a alternativa ao capitalismo é: qual é a diferença fundamental entre o capitalismo e socialismo? Uma das idéias bastante difundida sobre esse assunto - entre "a esquerda pós-moderna e/ou ecológica" e até mesmo nos setores da "esquerda cristã" - é que não haveria muita diferença entre esses dois sistemas econômico-social-político. Os dois seriam "filhos da modernidade" e que, por isso, eles teriam o mesmo objetivo de aumento da produção (com a conseqüente destruição da natureza). A principal e talvez a única diferença seria que a propriedade dos meios de produção está na mão das empresas privadas no capitalismo e na mão do Estado no socialismo. Para alguns, o socialismo teria caído no "engodo do capitalismo" ou teria preservado as principais características do capitalismo e substituído somente a propriedade privada pela estatal.

Eu penso que essas críticas têm uma boa parte da razão, mas não capta um ponto essencial. Apesar das semelhanças, há uma diferença fundamental entre os dois sistemas sociais. No capitalismo, toda o sistema de produção, distribuição e consumo está guiado pela lógica da mercadoria ou pelo "valor de troca". Isto é, as empresas produzem bens, não em função da sua utilidade na reprodução da vida na sociedade ("valor de uso"), mas em função do seu valor de troca, isto é, para atender os desejos dos consumidores. Nas palavras de um dos economistas mais influentes no séc. XX, Paul Samuelson, "as mercadorias vão para onde há maior número de votos ou de dólares. O cachorro pertencente a John D. Rockfeller pode receber o leite de que uma criança pobre necessita para evitar o raquitismo". Criança pobre necessita do leite, mas como ela não é consumidora não faz parte do mercado, para onde os bens são produzidos. É assim que o sistema funciona, e o empresário não tem opção: no sistema capitalista ele tem que obedecer às leis do mercado (ou "as leis do valor").

O socialismo é um sistema pensado para "dominar" essa lei do valor e pensar a produção e a distribuição dos bens em função da reprodução da vida social. Por isso, por ex., em Cuba antes da crise pós-derrocada do bloco socialista havia escolas e hospitais para toda população, mas poucos restaurantes e quase nenhuma loja de bens de consumo considerados pelo Estado como supérfluos. O Estado apropriou-se de (quase) todos os meios de produção para poder planejar a economia em função do "valor de uso" e das necessidades da população e do regime.

O problema é que os modelos de socialismo implantados nos mais diversas partes do mundo geram também totalitarismo e ineficiência produtiva, gerando uma sociedade submetida ao Estado (que aparece por ex. na ausência da sociedade civil organizada) e a escassez de bens de consumo e de serviços necessários para a reprodução da vida corporal de forma digna e prazerosa.
Os erros e problemas dos sistemas socialistas que existiram ou ainda existem no mundo devem ser assumidos para aprendermos com a história, mas não podemos ignorar a diferença fundamental (pelo menos em termos teóricos e de valores que nortearam os principais teóricos e revolucionários socialistas) entre a lógica capitalista e a lógica de um sistema (qualquer que seja o nome que venha a ter) que procura colocar a reprodução da vida de todas as pessoas como o princípio norteador da organização econômica, social e política.

* Professor de pós-graduação em Ciências da Religião. Autor de "Cristianismo de libertação: espiritualidade e luta social", Ed. Paulus.
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=39327 19/06/2009

Cigarro e sacramento

Rubem Alves*
O escritor é um cozinheiro que prepara uma refeição de palavras para o prazer dos leitores. No livro do Apocalipse um Anjo dá um livrinho ao vidente João ordenando-lhe que o comesse. O Anjo sabia que há livros que não são para serem lidos; há de se sentir no corpo o seu doce e o seu amargo.
E há situações em que a leitura de um livro se transforma num ritual antropofágico. Murilo Mendes sabia e disse: “Quando eu não era antropófago — quando eu não devorava livros – porque os livros não são feitos com a carne e o sangue de quem os escreve?”
Isso acontece de forma especial com os livros de memórias. Quem escreve memórias está oferecendo o seu corpo para ser devorado pelos seus leitores.
Pois é um aperitivo antropofágico que Gabriel Garcia Márquez nos serve num parágrafo do seu livro de memórias Viver para contar. Vou transcrever:
“Eu estava proibido de fumar por causa da pneumonia mas fumava no banheiro como que escondido de mim mesmo. O médico percebeu e falou sério comigo, mas não consegui obedecê-lo. Já em Sucre, enquanto tratava de ler sem pausa os livros recebidos acendia um cigarro com a brasa do outro até não poder mais e quanto mais tentava abandonar o cigarro mais fumava. Cheguei a quatro maços diários, interrompia as refeições para fumar e queimava os lençóis quando dormia com o cigarro aceso. O medo da morte me despertava a qualquer hora da noite, e só fumando mais conseguia supera-lo, até eu decidi que preferia morrer a parar de fumar. Mais de vinte anos depois, casado e com filhos, eu continuava fumando.
...Numa noite qualquer, durante um jantar casual em Barcelona, um amigo psiquiatra explicava a outras pessoas que o tabaco talvez fosse o vício mais difícil de erradicar. E eu me atrevi a perguntar qual seria no fundo, a razão, e sua resposta foi de uma simplicidade assustadora: “Porque para você deixar de fumar seria como matar um ente querido.” Foi uma deflagração de clarividência. Nunca soube e nem quis saber a razão, mas esmaguei no cinzeiro o cigarro que acabava de acender, e não tornei a fumar mais nenhum, sem ansiedade e nem remorso pelo resto de minha vida.”
Pena que ele, escritor, não tivesse sugerido uma explicação para esse súbito milagre: como é que um vício mortal, bioquímico, que havia derrotado a sua força de vontade e o seu desejo de viver, desaparecia assim, sem mais essa ou aquela, instantaneamente, sem deixar vestígios, pelo poder de umas poucas palavras? Palavras, tão fraquinhas, sons, e tão poderosas...
Pois eu vou dar a minha explicação: as razões para o poder do cigarro não são só bioquímicas; são literárias e poéticas. O cigarro é um sacramento: é um objeto material que se transforma num objeto espiritual quando o fumante o liga a uma imagem poética. Descoberta essa palavra poética o seu poder desaparece. Um cigarro é um portador de fantasias que se transformam em realidade.
Observo as empregadas domésticas que, pela manhã, caminham na direção das casas das patroas. Elas têm um cigarrinho na mão e vão dando baforadas de fumaça. Qual é a realidade que mora na fumaça? Na fumaça mora a sua liberdade. Ao chegar à casa da patroa seu cigarrinho terá chegado ao fim e a sua liberdade também...
Um executivo me explicava o fascínio do seu cigarro. De noite, sozinho no seu escritório, ele se transformava numa outra pessoa pelo poder das espirais de fumaça que o envolviam. As espirais de fumaça têm um poder para desrealizar a realidade e para tornar real aquilo que não é real.
Tailândia. Participava de um congresso. Estávamos, um grupo, fazendo um passeio de barco num rio próximo a Bangkok. Todos falavam inglês. Menos o barqueiro. Aproximei-me dele e começamos a nos comunicar por meio de gestos. Foi então que ele, num gesto generoso de intimidade e afeto, ofereceu-me seu cigarro para que eu desse uma baforada. Mas o cigarro estava molhado com a saliva dele. Era um cigarro nojento. Meu primeiro impulso foi recusar. Mas logo me recompus e me disse: “Não, esse cigarro não é um cigarro nojento molhado com a saliva desse desconhecido. Esse cigarro é um objeto que esse homem usa para dizer o quanto ele gosta de mim...”
Sorri, tomei o cigarro e soltei umas baforadas.
Essa experiência mínima me foi tão importante que ela é, talvez, a única memória que guardo daquele congresso.

Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1639387&area=2220&authent=AB237439830472AB01741B83267289 21/06/2009

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O mundo "fashion"

Por que uma entrevista com Gisele me chamou a atenção?
Porque olhando a brevidade como a vida voa,
a beleza que a mídia cultua com o
mundo da moda é de uma fugacidade que dá medo e fascina.
Eis porque colo em meu blog
alguns excertos da entrevista que esta gaúcha concedeu a
Gustavo Fioratti, da Folha.
FOLHA - Você é a favor ou contra uma "cota" de negros nos desfiles?
GISELE BÜNDCHEN - Beleza é um gosto. As pessoas julgam as outras pela cor, pelo tamanho ou pela cor de cabelo. Cada raça, seja a indígena, a negra, a amarela, tem a sua beleza. A minha melhor amiga é uma negra de Uganda. E é uma das pessoas mais lindas que eu já vi.
FOLHA - Você pensa na velhice?
GISELE - Não vou dizer que fico aqui sentada pensando assim: "Como vai ser quando eu ficar velha?". Mas vou fazer 29 anos e estou muito feliz onde estou. Eu me sinto muito mais segura hoje, mais confortável por ser eu. Quando era mais jovem, era insegura. Não sabia se eu podia falar tal coisa, se podia usar tal coisa. Você se sente julgada pela sociedade. Adolescência é uma parte difícil. E eu já estava trabalhando. Hoje sou mais feliz, porque passei por muito mais coisa. Minha mãe tem 61 anos e eu vejo a calma dela -a idade traz isso.
FOLHA - A moda é cara?
GISELE - Tem moda cara e não cara. As duas são válidas. Obviamente, se você compra uma Chanel, vai durar alguns anos. Mas as pessoas podem estar na moda sem gastar muito. Acho que estar na moda é se sentir confortável com você mesmo. Não sigo tendência. Uso coisas que me deixam confortável.

FOLHA - Como você se imagina daqui 50 anos?
GISELE - Eu era muito de fazer planos e acho que muitas coisas não aconteceram como eu queria que acontecessem. Hoje, sou muito mais aberta à vida como ela é. Quero viver cada momento porque, de repente, um avião cai, alguma coisa acontece... Acho muito prepotente pensar que vou estar aqui em 50 anos. O que eu sei é que quero estar feliz no futuro. Quero estar com minha família, cuidando de mim, me entendendo e entendendo as pessoas ao meu redor...
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1806200930.htm- Acesso 19/06/2009

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Literáridas

"Degas, segundo Paul Valéry, gostava de contar uma anedota a respeito da poesia de Mallarmé. Após a leitura pelo maravilhoso poeta de um dos seus sonetos, alguns dos seus discípulos puseram-se a discutir. Uns diziam que Mallarmé se referia ao por do sol; outros, ao triunfo da aurora.
Questionado o autor respondeu:
“Nada disso... É a minha cômoda”.
Multidões de seguidores de Mallarmé continuam a desdenhar-lhe o brilho e a endeusar-lhe o lado obscuro.
Quase todo péssimo poeta, ilegível, reivindica-se de Mallarmé.
Muitos prosadores resolveram tomar o caminho: os romances incompreensíveis passaram a ser chamados de poesia.
Invocar Mallarmé tornou-se questão de álibi e de charme.
O homem que odiava a afetação transformou-se em patrono dos esnobes.
Se for jornalista, seu obscurantismo brilhará no programa dos amigos".
(SILVA, Juremir Machado da. Mal dito. Porto Alegre, Ed. Bipolar, 2005, p.53)

*Paul Valéry -(30/10/1871, Sète, França + 20/07/1945, Paris, França.) Escritor francês, poeta da escola modernista
*Stéphane Mallarmé, cujo verdadeiro nome era Étienne Mallarmé, (Paris, 18 de Março de 1842 - Valvins, comuna de Vulaines-sur-Seine, Seine-et-Marne, 9 de Setembro de 1898) foi um poeta e crítico literário francês. Autor de uma obra poética ambiciosa e difícil, Mallarmé promoveu, uma renovação da poesia, na segunda metade do século XIX, e sua influência ainda é sentida nos poetas contemporâneos como Yves Bonnefoy- Fonte: Wikipedia - A enciclopédia livre.