segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

À nossa volta

Tarcisio Padilha Junior*





A estratégia moderna consiste em fatiar os temas que transcendem o poder do homem em tarefas menores – por exemplo, a substituição da luta contra a morte inevitável pelo tratamento eficaz de muitas doenças evitáveis.
A velocidade da mudança dá um golpe decisivo no valor da durabilidade. A ideia de valor permanente, imune ao fluxo do tempo, parece não ter fundamento na experiência humana. O antigo ou de longa duração se torna sinônimo de fora de moda, ultrapassado, algo que sobreviveu à sua utilidade, e, portanto, está destinado a terminar em breve numa pilha de lixo.
Quando comparada ao tempo de vida dos objetos que servem à existência humana e às instituições que a estruturam, a vida humana parece ter hoje a maior expectativa de duração.
Na verdade, a vida humana parece ser a única entidade com expectativa crescente de duração, e não em rápido processo de encurtamento. Há cada vez menos coisas à nossa volta – excetuando aquelas que são recortadas da vida quotidiana – que tenham visto o tempo anterior ao nascimento do indivíduo.
Concentramos as nossas atenções e nossas energias em tarefas de acordo com o nosso alcance, a nossa competência e capacidade de consumo. As coisas devem estar prontas para consumo imediato. As tarefas devem produzir resultados antes que a atenção se desvie para outros esforços. Os assuntos devem gerar frutos antes que o entusiasmo por eles termine.
A história moderna é um esforço contínuo para afastar os limites do que pode ser mudado à vontade pelos seres humanos e aperfeiçoado para melhor se adequar às necessidades e desejos destes. Se no passado a arte da vida consistia principalmente em encontrar os meios adequados para atingir determinados fins, agora se trata de testar, um após o outro, todos os fins que se possam atingir com a ajuda dos meios que se possui ou que estão ao alcance.
Não vivemos o fim da história, nem tampouco o princípio do fim. Estamos no limiar de uma grande transformação. Que formas institucionais essa transformação efetivamente produzirá é difícil conjeturar: a história não pode ser realmente objeto de uma aposta antecipada.
É bastante improvável que qualquer modelo com base em um único fator seja capaz de dar conta da complexidade do mundo em que vivemos e abranger a totalidade da experiência humana.
A força da sociedade moderna sobre os indivíduos se baseia agora em sua atitude evasiva, na imprevisibilidade desorientadora de seus movimentos e na habilidade com que desafia expectativas e volta atrás em suas promessas – declaradas sem rodeios ou engenhosamente insinuadas.
Na vida moderna, os relacionamentos tendem a ser o foco da mais aguda ambivalência: o preço da companhia que todos nós ardentemente desejamos é invariavelmente o abandono, pelo menos parcial, da independência, não importa o quanto possamos desejar aquela sem este.
Hoje, expostos às facilidades da tecnologia eletrônica, perdemos a habilidade de nos engajar em interações espontâneas com pessoas reais. Escrevemos mensagens no celular para escapar de interações complexas e difíceis de abandonar com pessoas reais que estão à nossa volta.
*Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.
Fonte Jornal do Brasil -  27/12/2009

domingo, 27 de dezembro de 2009

10 Livros brasileiros


Romances ousados, narrativas autobiográficas,
ensaios e livros-reportagem sobre a história do Brasil
atraíram os leitores e
solidificaram carreiras literárias

Redação Época

1. Budapeste, 2003

Depois de uma trajetória como ídolo na música popular, Chico Buarque (ao lado) se destacou na ficção. Seu principal romance narra as desventuras do ghost-writer José Costa, dividido entre duas mulheres e duas cidades: uma húngara e uma carioca, Budapeste e Rio de Janeiro.

2. As ilusões armadas (quatro volumes), 2002-2004

O experiente jornalista Elio Gaspari mergulha nos arquivos da ditadura militar brasileira (1964-1985) para produzir um painel monumental do período.

3. Nove noites, 2002

Um dos autores de maior relevância na década, o carioca Bernardo Carvalho conjugou ficção com texto jornalístico em seu sexto romance. Trata-se de uma investigação sobre a morte do antropólogo americano Buell Quain, que, sem motivo aparente, enforcou-se na floresta diante de dois índios.

4. Dois irmãos, 2000

O amazonense Milton Hatoum ganhou status de mestre da ficção em língua portuguesa com este romance. A narrativa aborda uma saga familiar contada por um menino, filho de uma empregada.

5. Onze minutos, 2003

O romance narra a busca pelo autoconhecimento de Maria, personagem real que sai do interior do Brasil para acabar se tornando prostituta na Suíça. É o livro de maior sucesso de Paulo Coelho. Foi traduzido para 40 idiomas.

6. 1808, 2008

O jornalista paranaense Laurentino Gomes escreveu uma história saborosa sobre a chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808. Foi vendido meio milhão de exemplares em 2008. Um êxito para um livro de história.

7. O filho eterno, 2007

O relato poderoso em primeira pessoa do catarinense Cristóvão Tezza sobre a convivência com seu filho primogênito que sofre de síndrome de Down.

8. Não somos racistas, 2006

Com este ensaio o jornalista e sociólogo carioca Ali Kamel lança um ataque contundente ao sistema de cotas raciais criado pelo governo brasileiro. Para ele, em vez de prover a igualdade, geram o ódio racial.

9. Pico na veia, 2002

O escritor Dalton Trevisan atingiu com este livro o ápice da concisão. São 205 contos em 242 páginas. O último se resume a um enigmático travessão: “-”. O leitor que o decifre.

10. O doce veneno do escorpião, 2005

O livro resultou do blog de Bruna Surfistinha, uma adolescente de classe média paulistana que se prostitui. Vendeu 250 mil exemplares no ano de lançamento e vai virar filme em 2010.

FONTE: Revista ÉPOCA - 23/12/2009 - Edição nº 606

10 Livros estrangeiros



Para fazer sucesso, a maior parte dos best-sellers se uniu ao cinema e ao marketing agressivo.
Os temas fantásticos e o suspense foram dominantes

Redação Época

1. Harry Potter (série), 1997-2007

A escritora inglesa J.K. Rowling (foto) encontrou no aprendiz de bruxo Harry uma maneira de trazer de volta a magia para a literatura infantojuvenil numa fábula atual perfeita. Nesta década, os sete livros deram origem a um verdadeiro culto mundial e se tornaram franquia cinematográfica.

2. O Código Da Vinci, 2003

O maior fenômeno da literatura para adultos da década virou filme e transformou a história de suspense erudita em um fenômeno popular. Vendeu 70 milhões de exemplares no mundo todo.

3. Crepúsculo (quatro volumes), 2005-2009

Quando todos pensavam que seria impossível superar o sucesso das narrativas fantásticas, uma dona de casa do Arizona sonhou com a história de amor entre uma jovem e um vampiro romântico. Surgia a série que contaminou uma geração de adolescentes.

4. O segredo, 2006

A australiana Rhonda Byrne reuniu depoimentos de especialistas de diversas disciplinas para encontrar uma sabedoria comum. Chamou isso de a lei da atração: a capacidade do pensamento em atrair magneticamente tudo o que é desejado.

5. O caçador de pipas, 2003

A partir da história de dois meninos amigos, Khaled Hosseini faz um retrato do Afeganistão antes e depois do domínio dos talebans e aborda os efeitos da opressão religiosa.

6. Travessuras da menina má, 2006

Mario Vargas Llosa conta a trajetória de sua geração num romance repleto de reviravoltas. O peruano Ricardito se apaixona na adolescência por Lily. E a reencontra sob vários disfarces em cidades como Paris, Tóquio e Londres ao longo de 40 anos.

7. Deus, um delírio, 2007

O ensaio do biólogo inglês Richard Dawkins desfere um ataque aos religiosos, que ele afirma sofrerem de uma alucinação coletiva.

8. Reparação, 2001

Vencedor do Man Booker Prize, principal prêmio da comunidade britânica, o romance de Ian McEwan conta a história de um amor frustrado pelo olhar da jovem Briony, que passa a vida se culpando pela infelicidade da irmã. McEwan restaura o poder do romance realista.

9. Complô contra a América, 2004

O romance mais ambicioso de Philip Roth reinventa a história americana. Em vez de Roosevelt, o presidente eleito é o piloto Charles Lindbergh. Por simpatizar com nazistas, ele toma decisões que alteram os rumos dos acontecimentos.

10. As benevolentes, 2006

O romance de estreia do americano Jonathan Littell escrito em francês ganhou os principais prêmios literários da França. É a história, narrada em primeira pessoa, de um carrasco nazista durante a ocupação alemã na França, num campo de concentração da Segunda Guerra Mundial.

Fonte: Revista ÉPOCA online -  23/12/2009 - Edição nº 606

A experiência de Sigourney Weaver



Por Fábio M. Barreto, de Los Angeles Em entrevista ao Cinema.com.br, Sigourney Weaver se revela mãe apaixonada, atriz engajada e mulher consciente de sua relevância por conta de papéis como Ten. Ripley, na cinessérie Alien, e, agora, a Dra. Grace, em Avatar. É a voz da experiência e a objetividade de uma carreira que passou pelos holofotes dos grandes sucessos, trilhou o caminho sólido do teatro, educou milhares com sua voz marcante e cativante.


Qual a principal arma para mergulhar numa locução de conto de fadas, de documentário ou mesmo no mundo de Pandora?
Sigourney Weaver: Fazer de conta que somos crianças novamente e se deixar encantar, aprender e maravilhar. Sem imaginação não é possível fazer nada disso.

Você costumava ler contos de fada para sua filha?
Sim. Sempre gostei de contar histórias a ela.

Ela tem alguma história favorita?
Gostamos dos livros de Dr. Seuss. São maravilhosos! Foram escritos nos anos 50 e é incrível como são atemporais.

Como você caracteriza esse período longe dos blockbusters?
Fiz uma série de bons filmes que não tiveram uma distribuição muito boa - começando com O mapa do Mundo - e, de vez em quando, tirava algum tempo para ficar com minha filha (especialmente porque eu tive uma só, e ela está crescendo). Esse sumiço aconteceu porque estava fazendo mais filmes independentes, que eram pouco vistos fora dos EUA. E, confesso, mesmo aqui dentro.

Você achou que cairia no estereótipo hollywoodiano da estrela de filmes de ação? Que em algum momento os estúdios diriam "OK, Sigourney não é mais uma estrela de ação, o que faremos com ela"?
Não acho que tenha sido vista como uma estrela de filmes de ação. Tinha feito apenas os filmes de Alien, e fiz muitas outras coisas divertidas além deles. Acho que enganei todos aqueles que me observavam para tentar descobrir que tipo de atriz eu seria, porque sempre pulava da comédia para o drama e tudo o mais. Acho que o maior desejo de todo ator é que as pessoas vejam o trabalho pelo qual você se esforçou tanto, mas, às vezes, você não consegue porque a distribuição de um filme independente é muito cara - mas mesmo assim você segue tentando, na esperança de que as pessoas possam encontrar esses filmes.

Você acha que seus papéis serviam de modelo positivo para as mulheres?
Eu nunca fui "a garota" nos filmes. Acho que isso tornou as coisas mais fáceis para mim, já que meus papéis eram sempre diferentes entre si. Sabe, histórias sobre uma mulher, não sobre um casal. Isso tornava meu trabalho mais fácil.

Você nunca foi o tipo mulherão, chamada de sex symbol...
Tudo culpa da minha mãe. Quando era pequena, perguntava a ela se era bonita e ela respondia "não, querida, você é uma garota comum". É isso que as mães inglesas fazem, e todas as garotas britânicas que conheço têm histórias parecidas. Mas também há muitas vantagens em ter uma mãe inglesa. Eu descobri que posso ser uma sex symbol. Sou uma sex symbol para o meu marido.

Você mencionou que gosta de fazer filmes sobre garotas, e não sobre casais. Você se vê como sendo uma feminista?
Gosto de pensar que sou uma feminista tardia porque acho que feministas são aqueles que acreditam que mulheres devem fazer o que quiserem (inclusive trabalhos tradicionalmente masculinos), recebendo o mesmo salário que os homens, dizer o que pensam sem medo de serem censuradas pela sociedade. Claro, não é grande coisa ser feminista hoje, quando esses fatos já caíram no senso comum, mas eu fui suficientemente afortunada para começar minha carreira numa época em que ser feminista era realmente importante.

Falando sobre teatro, como foi trabalhar em Os heróis? É uma história muito poderosa...
Estávamos trabalhando numa peça num pequeno teatro a oito quadras do Ground Zero. Bill Murray e eu começamos a encenar a peça cerca de seis semanas depois dos atentados (de 11 de setembro de 2001). Lembro que as pessoas vinham porque realmente precisavam estar juntas, e o presidente (George W. Bush) dizia "gastem dinheiro, sigam com suas vidas". Mas a cidade estava em choque. A peça deu às pessoas a chance de deixar aflorar um pouco do que estavam sentindo. Foi uma experiência muito emocionante compartilhar essa peça com a audiência, dar a elas a chance de expressar sentimentos que elas não podiam demonstrar em nenhum outro lugar. Fizemos o filme de forma bem rápida depois do encerramento da temporada, e eu acho que funcionou porque é um documento relevante para aquele momento.

O que você acha do presidente Barack Obama? O que espera dele?
Bem, mesmo sem fazer nada ele vai ser melhor do que o anterior. Apoio Obama desde 2004, e acho que ele é muito esperto, inteligente, metódico; e nos deu uma chance de reunir uma equipe como um país, independentemente de partidos, para resolver vários problemas e mal-entendidos. Há um tempo visitei o Marrocos, o que é bem significativo depois de oito anos com um governo que desencorajava os próprios cidadãos a sequer visitarem a Europa por causa do medo de atentados e tudo o mais. E a hospitalidade no festival de cinema, as pessoas que encontramos me animaram. Estar lá foi uma experiência emocionante. Fazer parte do mundo, e conhecer outra cultura, mesmo que por tão pouco tempo, é algo fantástico. Sinto que uma das coisas que realmente quero fazer é viajar mais. Acho que nossa perspectiva deve ser um pouco diferente. Não podemos esperar que o presidente faça tudo. Acho que as pessoas acreditam que começamos uma nova jornada, com um governo honesto.


Você foi indicada ao Oscar três vezes (por Uma secretária de futuro, Aliens - O resgate e Nas montanhas dos gorilas), mas nunca venceu. Qual é a sua opinião sobre o Oscar?
Acho que para vencer um Oscar você precisa estar num filme muito bem promovido. Mas eu gosto de projetos que não se destacam tanto, que não ganham tantos prêmios, mas resultam em trabalhos maravilhosos mesmo assim. Minhas expectativas são muito baixas. Quero apenas continuar recebendo roteiros. Claro, houve uma época em que eu adoraria ganhar um Oscar, mas acho que fiz trabalhos melhores desde então. E eu tenho um "Oscar britânico". (O BAFTA Awards , recebido por seu trabalho em Tempestade de gelo). Está guardado na biblioteca. É um prêmio bonito. Não estava muito bem quando o ganhei, e tomei tantos remédios que não lembro muito bem da cerimônia. Mas me lembro de ter ficado muito feliz e surpresa, até porque nem fui indicada nos EUA.

Você sabe quando fez um bom trabalho?
Acho que sim. Tento trabalhar tão instintivamente quanto puder, e ao final do filme sei se consegui ou não. Por exemplo, por não ser religiosa, se interpreto uma mãe cristã cujo filho se matou, é como se você não soubesse para onde o trabalho está indo. Mas sou mãe. Foi uma experiência extraordinária interpretar uma pessoa de uma família real, que passa por isso. Estou muito animada com o filme, porque acho que tem muito a ver com a nossa época. As coisas não mudaram tanto assim. Prêmios podem vir, quem sabe? Mas tudo o que você pode fazer é dar seu melhor e esperar que o distribuidor leve seu trabalho até as pessoas. É com isso que eu me importo, com os resultados.

Você corre atrás de roteiros ou prefere esperar pelo que os diretores lhe oferecem?
Nunca fiz nenhum papel para o qual tivesse me oferecido. Se digo que quero um papel é garantia de que não vou consegui-lo.

Então o convite para Avatar foi uma surpresa?
Sim, uma surpresa adorável. Foi ótimo trabalhar com Jim (o diretor James Cameron) de novo. Gostei mesmo, nós nos divertimos muito. Ele é um cientista brilhante. Quando ele me disse "você vai interpretar uma cientista" e explicou o que ela faria, o tipo de testes que tentava fazer, eu fiquei chocada, pensando: "Caramba, olhem só pra isso". Gostei muito do projeto, há muita ciência envolvida neste filme - parte ciência real e parte fantasia. As crianças vão adorar, e os adultos também.

Com que freqüência sua altura (1,80m) foi uma vantagem na carreira, e com que freqüência foi uma desvantagem?
Bem, há muitos diretores que gostam de mulheres altas, mas outros me veem e saem correndo.
Acho que minha altura evitou que trabalhasse em alguns filmes mais delicados, mas também impediu que eu trabalhasse com pessoas convencionais. Um diretor convencional nunca me contrataria. Tive sorte de Peter Weir (que a dirigiu em O ano em que vivemos em perigo) não ligar para a minha altura. Acho que no fim a altura funcionou a meu favor. Tive muita sorte.

E com colegas de elenco?
Na verdade, a pessoa que ficou mais irritada com minha altura foi um ator muito alto. Acho que ele tinha "aquilo" bem pequeno.

Você é uma pessoa emotiva?
Acredito que sim, mas prefiro manter meu lado emotivo para minha vida pessoal e para o trabalho. Não vou ser emotiva na fila do supermercado ou coisa assim.

Como é trabalhar com seu marido (o diretor Jim Simpson)?

Trabalhamos juntos algumas vezes e gosto de fazer isso. Ele me deixa por minha conta, e isso é bom. Ele não me gerencia, e não estou acostumada a isso. Estou acostumada a fazer as coisas bem rápido, e partir para a próxima etapa. Há poucos diretores que tentam fazer as coisas de um jeito totalmente diferente. Meu marido sempre me escala para papéis que ele sabe que vou gostar de fazer. Tentamos ter muito cuidado com os trabalhos que escolhemos fazer. Ele é um diretor muito competente. Na verdade, quanto mais trabalhos ele faz menos ele efetivamente dirige no set - porque escolhe bem o elenco.

Você fez muitas boas comédias - como Heróis fora de órbita, por exemplo. Tim Allen também estava nesse filme e agora voltam a se encontrar em Crazy on the outside...
Isso mesmo. Tim atua e dirige. É sobre um sujeito que sai da prisão, e descobre que sua irmã disse a todos que ele estava fazendo um curso de arte no Louvre. Ela mentiu para todo mundo sobre isso, e aos poucos vemos que ela mentiu sobre muitas outras coisas também. É um filme muito divertido, e Tim está ótimo. Ele também é um grande diretor.

Fonte: http://www.cinema.com.br/tempo-real/a-experiencia-de-sigourney-weaver.html -27/12/2009

2009 na política: a popularidade de Lula

Marcos Coimbra



Se Dilma ganhar, algo que hoje parece muito possível, teremos criado, em Lula, uma figura que nossa imaginação política não conhecia e que nossa cultura não está preparada para absorver: um líder inconteste, legitimado por um apoio popular quase unânime.



Como fizemos no final do ano passado, a coluna de hoje e as próximas duas são dedicadas a um
balanço do ano político que termina. Nelas, vamos discutir três assuntos que poderiam ser considerados os mais importantes de 2009.
Em um repeteco de 2008, o primeiro e o que mais impacto teve na nossa vida política este ano voltou a ser o tamanho da popularidade de Lula. Ela chega, neste dezembro, a novos níveis históricos e influenciou de maneira decisiva o segundo tema de que trataremos, a maratona eleitoral em direção a 2010, uma corrida tão longa que ameaça deixar esgotados candidatos e eleitores.
Lula tem hoje uma popularidade que não conhecíamos em nossa experiência democrática. Sobre os presidentes da República de 1945, quase não há dados comparáveis, mas toda a evidência, baseada em outras fontes, diz que não. Quem consultar a imprensa do período, quem ler seus intérpretes, quem tiver memória própria, saberá que nenhum deles gozou da unanimidade com que conta o atual. Fora o fato de todos, com a possível exceção de Dutra, terem enfrentado crises agudas onde seus mandatos foram questionados, através de golpes, ameaças de golpe e sublevações diversas, de origem civil ou militar.
Da redemocratização em diante, o mesmo. Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique, cada um à sua maneira, tiveram seus auges de aprovação. No governo Sarney, ele foi alcançado dois anos depois da posse e durou alguns meses, na breve vida do Plano Cruzado. Quando o plano acabou de maneira
decepcionante, Sarney nunca mais se recuperou.
O de Collor foi o mais engraçado, pois aconteceu antes que chegasse ao governo. No intervalo entre a vitória em dezembro de 1989 e a posse em março de 1990, as pesquisas mostraram que eram elevadíssimas as expectativas sobre seu desempenho e a avaliação positiva quase universal. Do discurso de posse ao final antecipado do governo, no entanto, os números só foram ladeira abaixo.
Itamar experimentou algo parecido, mas terminou de maneira diferente. Quando assumiu, em meio à crise do impeachment, toda sociedade torcia por ele e lhe tinha apreço. Mas seu governo teve uma aprovação sempre declinante, até ser recuperado pelo Plano Real. Se Sarney começou baixo (pela frustração com a morte de Tancredo e a desconfiança que contra ele existia), subiu (com o Cruzado) e terminou mais baixo ainda, Itamar fez o percurso inverso: de alto a baixo e depois a alto de novo.
Sobre a avaliação de Fernando Henrique, o que mais chama a atenção, atualmente, é quão mal ela resistiu à passagem do tempo. Ao contrário dos bons vinhos, quanto mais tempo passa, pior fica. Os elementos que fizeram com que ela fosse elevada, há poucos anos, como que sumiram. As realizações de seu governo, decisivas para que o país estivesse hoje melhor, ficaram secundárias, frente à antipatia com que é visto pela maioria das pessoas.
E Lula? Não só sua avaliação média, nos últimos dois anos, ganha de goleada da que todos tiveram, quanto os ultrapassa nos seus picos de popularidade. Ou seja, o Lula do dia a dia é mais bem avaliado que o Sarney do Cruzado, o Collor de antes da posse, o Itamar do dia da posse, o FHC do Plano Real.
Deixando de lado as explicações que têm sido aduzidas para esse fenômeno, de uma coisa podemos estar certos: a campanha eleitoral de 2010 só vai fazer com que Lula fique maior. Do lado de Dilma, sua figura será enaltecida a ponto de se confundir com os arcanjos e os querubins. Sua campanha dirá que a obra de Lula é extraordinária, para justificar sua proposta de apenas mantê-la. Do lado de Serra, ele mesmo tem afirmado que pretende polemizar é com Dilma, pois quer tudo, menos se defrontar com o presidente.
Se Dilma ganhar, algo que hoje parece muito possível, teremos criado, em Lula, uma figura que nossa imaginação política não conhecia e que nossa cultura não está preparada para absorver: um líder inconteste, legitimado por um apoio popular quase unânime. Querendo, voltaria à Presidência quantas vezes pudesse.
O perigo é que, nesse ponto, só sua convicção democrática nos separaria de outra aventura autoritária. Ainda bem que a tem.

* Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi  marcoscoimbra.df@dabr.com.br
Fonte: Correio Braziliense online, 27/12/2009

Portôes do inferno foram roubados

Timothy Garton Ash*



Entre o Hannukah e o Natal, o letreiro na entrada do campo de extermínio de Auschwitz foi roubado. A polícia polonesa recuperou-o e prendeu os ladrões, que aparentemente tinham recebido uma encomenda do exterior. Lutamos para imaginar que tipo de ser humano gostaria de um objeto desse na sua coleção particular. Por todo a carnificina, escravidão e tortura ali perpetrados , Auschwitz continua sendo, para os europeus da minha geração, o símbolo da maldade humana.

Este grotesco episódio encerra um ano em que as relações entre cristãos e judeus em geral, e cristãos poloneses e judeus poloneses em particular, mais uma vez se tornaram objeto de discussão. Os fantasmas do passado de uma Europa do Leste torturada fizeram muito alarde pelos corredores de Westminster, quando os conservadores anunciaram sua aliança no Parlamento Europeu com um grupo de partidos de direita, principalmente da Europa Central e do Leste, sob a liderança de Michal Kaminski, do Partido da Lei e da Justiça, da Polônia.

Na controvérsia que se seguiu, o autor e ator Stephen Fry declarou que "esta é uma história do catolicismo de direita profundamente perturbadora para aqueles que conhecem um pouco da história e lembram de que lado da fronteira estava Auschwitz". Um pouco da história. Culpar os poloneses católicos pelo campo de extermínio nazista em território polonês anexado pelos alemães, campo onde católicos poloneses também foram presos e mortos, é um absurdo tão grande que a observação da Fry sofreu uma avalanche de críticas; e ele, rapidamente, se desculpou.

Mas não se trata apenas de insensatez de um cidadão inglês. Ao ver uma notícia na TV alemã sobre o julgamento de John Demjanjuk, há algumas semanas, fiquei estarrecido quando o apresentador descreveu Demjanjuk como um guarda "do campo de extermínio polonês de Sobidor". Que tempos são estes, quando uma das principais tevês da Alemanha acha que pode descrever campos nazistas como "poloneses"? Pela minha experiência, a equação automática da Polônia com catolicismo, nacionalismo e antissemitismo - e assim culpá-la pela associação com o Holocausto - é uma ideia que ainda persiste na Europa Ocidental e na América do Norte. Essa acusação coletiva não faz justiça aos antecedentes históricos. Nela não há lugar, por exemplo, para a incrível história de Witold Pileck, oficial polonês que foi preso voluntariamente em Auschwitz para descobrir o que se passava ali. Ele passou dois anos e meio no local, conseguiu passar clandestinamente informações para fora do campo e depois escapou.

Lutou no levante de Varsóvia contra os nazistas e sobreviveu aos últimos meses no campo de prisioneiros de guerra, para depois ser preso e torturado pela polícia secreta comunista na Polônia ocupada pelos comunistas, sendo executado em 1948.

Esses estereótipos provocam uma reação defensiva da parte dos poloneses, o que dificulta sua reconciliação com a história inquietante do antissemitismo católico e polonês (ele não está confinado à direita; o Partido Comunista polonês foi abalado por uma notória campanha antissemita em 1968). Especialmente depois que a Polônia reconquistou sua liberdade, esse processo de reconciliação com o passado estavam bem encaminhado. No início desta década, a descoberta por um historiador da carnificina de judeus na pequena cidade polonesa de Jedwabne pelos aldeões vizinhos católicos, em 1941, desencadeou o que o escritor judeu Konstanty Gebert qualificou como um debate "impressionantemente profundo e corajoso", acrescentando que "o país sofreu uma transformação moral importante".

Não poupo ninguém nas críticas à nova aliança dos conservadores no Parlamento Europeu, mas o veredicto político tem de ser separado do moral e do histórico. A linguagem partidária, com suas frases pré-fabricadas e meias verdades simplistas, é tão pateticamente inadequada aos terrores de Auschwitz e o heroísmo de um Pilecki, que só o fato de usar essa verborragia pode ser considerado como um sacrilégio.

Há um julgamento político, para o qual a questão envolvendo aquilo que um oportunista de direita como Kaminski disse quando se debateu a carnificina em Jedwabne é uma consideração relevante, embora subsidiária. Existe também um julgamento histórico, que os estudiosos, com suas avaliações crescentes sobre a real complexidade do Leste Europeu e a história judaica, estão nos possibilitando fazer. E há ainda o julgamento legal, que deve ser aplicado a todos aqueles que cometeram crimes contra a humanidade.

Mas o fato é que todos nós seguimos esse caminho, apenas sem esses extremos. O que não quer dizer simplesmente que alguns são bandidos e outros heróis. Ocorre que esse mesmo homem ou mesma mulher podem se comportar horrivelmente num determinado momento, e magnificamente em outro. Podemos chegar mais baixo do que o nível dos macacos, ou nos elevarmos acima dos anjos. Somos fracos; somos fortes. Assumimos a culpa. Pedimos misericórdia. Depois envelhecemos, adoecemos e morremos.
*Timothy Garton Ash é escritor britânico e professor na Universidade de Oxford
Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091227/not_imp487380,0.php

"Pais devem respeitar infância"


Para especialista em distúrbios infantis do desenvolvimento,
há um excesso de pressão em cima das crianças

O psiquiatra pediátrico Francisco Assumpção, professor do Instituto de Psiquiatria da USP e especialista em distúrbios do desenvolvimento, defende que escolas e pais devem respeitar o ritmo de desenvolvimento das crianças. "Aos 5 anos, a grande maioria das crianças não tem nem coordenação motora para escrever", afirma. Segundo ele, é dos 2 aos 6 anos que a criança adquire habilidades cognitivas e motoras necessárias para a alfabetização.

Na avaliação do senhor, qual o benefício e o risco da alfabetização antes dos 5 ou 6 anos?
Nas últimas décadas, as crianças se alfabetizavam a partir dos 7 anos. E faziam isso sem grandes dificuldades. Depois, anteciparam para os 6 anos. Agora, eu recebo no consultório um número cada vez maior de crianças de 4 anos que foram encaminhadas pela escola porque estavam com dificuldades de aprendizagem. Nesta idade, criança nenhuma tem dificuldade de aprendizagem. Ela não está pronta. Não tem nem coordenação para escrita. Algumas vão ter, mas não é o esperado, não é a regra.

Qual a abordagem adequada nesse tipo de caso?
É preciso conversar com os pais e explicar que a criança precisa ter oportunidades para se desenvolver. A criança para se alfabetizar precisa ter algumas funções adquiridas antes, até para ela conseguir prestar a atenção. É preciso respeitar a infância. Eles precisam entender isso, porque muito dessa pressão em cima da criança, do desempenho dela, da competição, vem dos pais. Eles têm algumas exigências com as crianças que não fazem sentido. A criança precisa ter experiências para se desenvolver como um todo, para estar motivada. Criança motivada e com autoestima alta aprende rapidinho.

Muitos pais e colégios argumentam que o mundo de hoje está tornando as crianças mais precoces para o aprendizado. O senhor concorda?
O ambiente externo pode estar mudando, ter mais estímulos, mais letramento. Mas a biologia da criança, sua capacidade cognitiva, não muda assim rapidamente. O homem não muda em alguns anos. Algumas coisas precisam de etapas para acontecer. S.I.

Reportagem de Simone Iwasso

Arte iluminada da Clarice misteriosa

Leda Tenório da Motta*


Benjamin Moser produz obra bem documentada,
mas acaba reforçando mitologia em torno da vida e
do ofício da ficcionista

Sensação atual no mundo das letras, a biografia de Clarice Lispector por Benjamin Moser é empenhada, extremamente documentada, extremamente anotada. Estamos falando de um texto de quase 800 páginas, que evolui dentro do melhor modelo do gênero, aquele que articula a vida e a obra do biografado, mais buscando compreender a vida através da obra do que o contrário, o que, neste caso, é uma homenagem prestada à literatura, e uma providência antirreducionista. O que não o impede de ser também uma imensa pesquisa de campo, que, aliás, nos revela um jovem brasilianista norte-americano em formação já bastante íntimo do Brasil. Capacitado assim para a incursão de certo fôlego que faz aos bastidores políticos e sociais recifenses e cariocas implicados em sua prospecção. E sem que esse plano de cultura seja o único perseguido, já que - sendo judeu como a sua musa -, o autor vai pôr insistentemente o dedo em algo que nós mesmos nunca havíamos tocado, pelo menos não seriamente: o judaísmo da escritora.

Daí o livro começar pelo antissemitismo russo, oferecendo um painel histórico ligeiro mas eficiente de um período que envolve pogroms, primeira guerra mundial, revolução bolchevique e a posição desamparada dos judeus no seio da primeira revolução comunista, que é tudo o que está na origem da saída dos Lispectors da Ucrânia, no início dos anos de 1920. E seguir fixado nas marcas que tudo isso só pode ter deixado em Clarice - que só agora descobrimos se chamava Chaia - mesmo que a caçula daquele pequeno comerciante que aportou em Pernambuco, em 1921, vindo com a família de albergues de refugiados na Romênia, para ganhar a vida como mascate na América do Sul, não fosse nascida quando a fuga começou. O que não a teria impedido de se lembrar de tudo, bem ao contrário.

Trata-se de uma bela contribuição aos estudos clariceanos, de que já não poderemos abrir mão, para o futuro. Também porque, como têm notado todas as reviews feitas nos Estados Unidos, desde o lançamento da versão original - que quase coincide com o da tradução brasileira por José Geraldo Couto, o que fala de operações de marketing bem orquestradas -, Clarice Lispector sempre esteve envolta em mistério. E agora temos essa ponte que se estabelece entre essa ferida original do "nome roubado" e a impenetrabilidade da autora. E essa mãe imigrante judia que está por trás de tudo, de que se descobre, nos registros mais fechados da família, finalmente devassados, que foi estuprada num daqueles fatídicos pogroms, o que a levaria a contrair sífilis, morrendo pouco depois da chegada ao Brasil. O que, entre outros horrores fantasmáticos, tinha tudo para ser introjetado como culpa.

Entretanto, o crítico que secunda o biógrafo é mediano. E nada impede este trabalho, bem mais interessante enquanto levantamento de fatos e só fatos, de cair na própria armadilha que denuncia: "No vácuo de informações floresceu toda uma mitologia." Pois nada mais mitológico, mais bolha retórica, mais giro no vazio que esta fraseologia que prospera na introdução, desfazendo por um lado o que foi construído por outro: "Ela nunca perdeu inteiramente a esperança de ser vista como uma pessoa real", "ficou mortificada quando Maria Bethânia se jogou aos seus pés exclamando: minha deusa!", "num texto melancólico, descreve sua rebelião contra sua imagem", "era uma outsider".... É essa a inflexão. E é impossível ler essas linhas sem lembrar outras de Roland Barthes sobre a mistificação retorcida desse tipo de reconversão do artista inacessível à condição prosaica, que nada mais seria que uma hagiografia disfarçada, que desfruta do segredo do gênio, no momento mesmo em que ele é convidado a descer ao patamar do homem comum.

Participa dessa mesma construção do prestígio da estranheza a insistência do biógrafo na beleza de Clarice: "Os olhos de gata e seu olhar intenso, que ninguém conseguia suportar por muito tempo...", "a irmã Tânia recordava que Clarice era espantosamente bonita".... Ele quer lhe dar um physique du role, como se o escritor precisasse necessariamente de um, e João Cabral não fosse João Cabral, sendo externamente um perfeito funcionário do governo brasileiro. Mas a glamourização desumaniza, pela equiparação daquela máscara inquietante que todos conhecemos ao rosto da star. E parece explicar por que não há menção no livro à desfiguração final desse rosto, quando do episódio em que a escritora se deixa adormecer com o cigarro na boca, perdendo fisicamente a face.

Mas é o apelo ao judaísmo que mais incomoda. Não porque Moser nos lembre que Clarice se casou com um "gói", num tempo em que ninguém na colônia ousaria fazê-lo. Nem porque ele é o primeiro a nos dizer o quanto ela era brasileira, e como brasileira, nordestina. Nem porque ele é o mais bem posicionado para saber quanto havia de irreligioso ou de laico naquela maneira da escritora de sentir-se insuportável no mundo. Mas porque o vínculo que não cansa de estabelecer entre a escritura de Clarice e este primeiro pertencimento, que lhe rende seu não-pertencimento, faz pouco do fato de que todo grande escritor habita um não-lugar. Ou de que toda literatura é de testemunho.

A resenhista de Clarice, para o Los Angeles Times escrevia, em julho passado, que Moser trata a bizarrice de Clarice "very gently". É verdade. Já a resenhista do New York Times escrevia, em agosto passado, que, graças a Moser, se supera agora o culto da pessoa e o da feminista - este último é bem aquele que lhe abriu as portas do mundo francês - , e a escritora pode entrar no cânone literário. Não é completamente verdade.

*Leda Tenório da Motta, professora da PUC-SP, é autora, entre outros, de Proust - A Violência Sutil do Riso (Perspectiva)
Clarice,
Benjamin Moser
Cosac Naify
648 págs., R$ 79

Afinal, por que ler nas férias?

IVO BARROSO*


Quando minha mulher me viu enfiar o suspeito embrulho na mala do carro, foi logo perguntando: "Que é isto? Não vai dizer que está levando livros para ler nas férias?!"

O espanto era natural: ela não podia admitir que alguém, que passa o ano inteiro metido nos livros, os carregasse para a montanha ou a praia, onde o ideal seria quebrar essa rotina de ler e de escrever.

Explico que a leitura das férias é totalmente diversa da que fazemos por dever de ofício. São férias de leitura essas leituras das férias; nelas saboreamos de novo o prazer de ler sem compromisso, numa boa, por mera distração.

Leitura e lazer

Rodeado de verde ou embaixo de um para-sol, a leitura se torna tão agradável e menos cansativa do que as caminhadas pelo mato e as braçadas na piscina.

Não que uma coisa vá impedir a outra, pois as férias nos permitem saborear esse coquetel de ação e meditação: exercício muscular e repouso mental associados a repouso muscular e exercício mental.

Nas férias, você pode ler aquele livro que seus colegas de trabalho estavam comentando com você por fora.

Se não gosta de best-sellers, está bem, mas, nas férias, não custa ver por que motivo estão falando de vampiros as mesmas pessoas que no ano passado falavam de Harry Potter.

Claro, se você é chegado às letras, aproveite para pegar de novo aquele livro fundamental que você deixou no capítulo 14.

Novidades? É só passar numa livraria que os tentáculos envolventes de centenas de tomos, com suas capas chamativas e títulos provocantes, estarão prontos para te agarrar ou desejosos de serem agarrados.

Nos escaparates (é assim que se diz vitrines em Portugal -aprendi isso num livro), centenas de autores estarão disputando a possibilidade de entrar em férias... com você.

Leve algum, não hesite: haverá sempre um dia de chuva, um churrasco indigesto, uma festa de crianças que lhe permitirão refugiar-se no barato careta da leitura.
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*IVO BARROSO é poeta e crítico. É autor de "A Caça Virtual" (ed. Record) e tradutor de "Arthur Rimbaud - Correspondência" (Topbooks).
FONTE: Folha online, 27/12/2009

O bom selvagem 1

JORGE COLI*

"Avatar" traz consigo o velho fascínio,
que pertence à antropologia,
mas é bem anterior a ela:
o do paraíso que está no outro

Vamos almoçar em Canudos!" e "Vamos jantar em casa!". As duas frases, bem parecidas, são pronunciadas em situações idênticas. A primeira é uma exclamação do coronel Moreira César, registrada por Euclydes da Cunha em "Os Sertões". César, retratado nesse livro como exemplo da estupidez militar histérica, lançou esse grito antes da batalha contra os jagunços de Canudos em que morreria.
A segunda é rosnada pelo coronel Miles Quaritch, não menos estúpido, não menos histérico e não menos militar, antes do ataque contra Pandora, em "Avatar", de James Cameron.
Quaritch também morre na inesperada derrota. Moreira César e Miles Quaritch têm outro ponto em comum: são personagens de duas formidáveis criações épicas, o livro e o filme.
Cameron decerto não leu Euclydes da Cunha. Mas as duas cenas são mais do que apenas coincidentes. Fazem parte de lembranças coletivas, em eco. Remetem à resistência daqueles que são mais frágeis só em aparência diante de exércitos muito poderosos.
É uma conjuntura que viaja em idas e vindas, da história para as artes: os EUA tiveram fracassos militares semelhantes, dos quais o Vietnã é exemplar e "Apocalypse Now", seu grande épico.
As gabolices retumbantes de Moreira César e Miles Quaritch atualizam a versão, primordial e realista, de Leônidas nas Termópilas: "Almocemos como homens que jantarão nos Infernos".

Cipós

Leônidas e seus espartanos: um punhado de resistentes contra o grande exército persa.
Daí o realismo da frase. César e Quaritch, fortes e fanfarrões, são inconscientes e antipáticos.
Ao contrário, os fracos, vítimas potenciais, despertam sempre solidariedade.
As enormes desproporções militares pressupõem quase sempre diferenças de cultura: foi assim em Canudos e no Vietnã, é assim entre os terráqueos e os na'vi de Pandora. Cameron insere em sua história um projeto antropológico, chefiado pela dra. Grace Augustine, uma irresistível Sigourney Weaver.
Há quem destrua, há quem tente compreender. "Avatar" traz consigo o velho fascínio, que pertence à antropologia, mas é bem anterior a ela: o do paraíso que está no outro.
Quantos antropólogos, ao estudarem, não procuraram integrar seus próprios objetos? Entre tantos e tantos, o admirável Curt Nimuendaju, abandonando seu sobrenome alemão por um guarani e morrendo entre os tucunas, na Amazônia.
Nimuendaju era fascinado pela busca indígena e mítica do paraíso, ou terra sem males. Seu nome, ao que parece, pode ser traduzido por "aquele que encontrou seu lugar".

Ferro velho

James Cameron tem fascínio pela fusão entre homem e máquina. Ela o levou aos dois "Exterminador do Futuro" [em 1984 e 1991]. A atração já estava em "Xenogenesis", seu primeiríssimo curta-metragem, que pode ser visto no YouTube. Ali nascia o gigantesco soldado robô (em "Avatar" ironicamente apresentado como um Golias de aço sem cabeça).

Vasos comunicantes

Cameron também é atraído pelas metamorfoses genéticas, pelos mistérios biológicos: assim, seu "Aliens - O Resgate".
Em "Avatar" defrontam-se o homem racional e militar, cúmplice articulado da máquina, e o alienígena suave, que sabe conectar-se e sintonizar-se com a natureza. Ou, ainda, o capitalista que calcula lucros e o selvagem que intui e fusiona com seu mundo.
Guerra entre o mecânico e o orgânico, entre a insatisfação insaciável e a plenitude bem-aventurada. Um maniqueísmo que conserva sua verdade no fato de que o primeiro termo se esqueceu da possibilidade do segundo.
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*Colunista da Folha jorgecoli@uol.com.br
FONTE: Folha online, 27/12/2009

Elegia

Cecília Meireles

Perto de tua sepultura,
trazida pelo humilde sonho
que fez a minha desventura,
mal minhas mãos na terra ponho,
logo estranhamente as retiro.
Neste limiar de indiferença,
não posso abrir a tênue rosa
do mais espiritual suspiro.
Jazes com a estranha, a muda, a imensa
Amada eterna e tenebrosa
pelas tuas mãos escolhida
para teu convívio absoluto.
Por isso me retraio, certa
de que é pura felicidade
a terra densa que te aperta.
E por entre as pedras serenas
desliza o meu tímido luto,
com uma quieta lágrima, apenas,
- esse humano, doce atributo.

Morte e poesia

Rubem Alves*

Um dos poemas mais bonitos da língua portuguesa é a Elegia que a Cecília Meireles escreveu para sua avó morta, Jacinta Garcia Benevides. Não sei quantas vezes o li. Não sei quantas vezes o lerei. Ele começa assim: “Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos. Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído. No dia seguinte estavas imóvel, modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos... Neste mês, as cigarras cantam e os trovões caminham por cima da terra, agarrados ao sol. Mas tudo é inútil, porque estás encostada à terra fresca e as tuas mãos não se arredondam já para a colheita e nem para a carícia...”
Eu quero ser cremado. A razão pode ser tola. Mas é que tenho claustrofobia. Sei que estarei morto naquele momento, mas não estou morto neste momento em que me imagino fechado no escuro. Neruda disse que os poetas são feitos de fogo e fumaça. Cremado, nada poderá me prender. Eu me transformarei em fogo e fumaça e subirei na direção dos céus. Por outro lado é preciso não se esquecer da pergunta de T.S. Eliot: “E o cadáver que você plantou no seu jardim, já começou a brotar? Pode ser que cada sepultura seja um jardim! Penso, então em combinar a terra, o fogo e a fumaça. Cremado me transformarei em cinza que será colocada ao pé de um caquizeiro que produzirá caquis vermelhos...
Na minha opinião a Elegia deveria ter sido lida inteira juntamente com os textos sagrados do cerimonial do sepultamento da “Vozinha” nos seus 97 anos! Seu corpo ficaria mais leve. O corpo da Vozinha já estava leve e branco como as nuvens – bastaria uma brisa para levá-lo.
O seu nome era Alice. Foi um longo tempo de espera. Há sementes que demoram muito a brotar. Não sabíamos onde ela estava. Sim, nós a víamos na cama. Mas será que ela estava mesmo na cama? Aquela proximidade visível escondia uma distância invisível que não podia ser medida. Estaria andando por lugares que não conseguíamos ver? O seu silêncio impenetrável nada dizia sobre o mistério. O que a Cecília disse de sua avó também poderia ser dito dela: “Tudo em ti era uma ausência que se demorava: uma despedida pronta a cumprir-se...” Aquele corpo transparente era a presença de uma ausência. Uma despedida pronta a cumprir-se? Alguns de nós suspeitávamos, ao contrário do que disse a Cecília, que aquela era uma despedida que não queria cumprir-se. Queria adiar... Porque ela amava muito a vida.
Era uma linda mulher quando jovem. Mas o tempo passou, o horizonte se aproximou, e a sua sensibilidade se tornou mais intensa. Apaixonada por flores, entregava seus olhos aos ipês, aos flamboyants, às paineiras, às sibipirunas. Amava as gloxínias e dizia em alemão, a primeira língua que aprendeu:
“Die Welt ist so schon! Aber Ich muss scheiden…”
O mundo é tão bonito. Mas eu tenho de partir...
Amava os cães, seus companheiros de vida inteira.
Seus olhos brilhavam quando aparecia a jarrinha de caipirinha bem doce...
Melado com farinha de milho — coisa que só gente da roça e que viveu em fazenda aprecia.
Olhava e só de olhar ela dizia: Que gostoso...
Mas todo velório tem dois lados.
O primeiro lado é esse, formado pelos que contemplam o morto, sentem saudades e choram. O segundo lado somos nós que olhamos uns para os outros e nos perguntamos... “A minha morte, até onde ela terá entrado?
Paul Tillich em um dos seus sermões contou a seguinte história: “Nos julgamentos por crimes de guerra em Nuremberg compareceu uma testemunha que havia vivido por um tempo num túmulo num cemitério judaico. Era o único lugar onde ele e muitos outros podiam viver, escondidos, depois de haverem escapado das câmaras de gás. Durante esse tempo ele escreveu poesia, e um dos seus poemas era a descrição de um nascimento. Numa sepultura próxima uma jovem mulher deu à luz um menino. O coveiro, de oitenta anos, envolto num lençol de linho, foi o parteiro. Quando o menininho recém-nascido deu o seu primeiro grito, o velho homem orou: “Grande Deus, será que Tu finalmente nos enviaste o Messias? Pois quem, além do Messias, poderia nascer numa sepultura?”
*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
Fonte: Correio Popular online, Campinas, 27/12/2009

Minaretes suíços

Ives Gandra*


A Suíça sempre se caracterizou por ser um país com cidadãos serenos, respeitadores dos demais, preocupados em não se envolver com seus vizinhos, tendo, inclusive, conseguido permanecer neutra em duas guerras mundiais, apesar de estar no centro dos conflitos.
Estranhamente, a onda de um falso laicismo, que começa a dominar o mundo, pela qual, devido ao extremismo, só quem não acredita em Deus pode falar em um estado laico, tem levado a geração de ódios e preconceitos que terminaram por atingir o âmago de povos civilizados, como o suíço, o francês e até mesmo a comunidade europeia.


Na França, proibiu-se o uso das “burcas” e “xadors” nas escolas, mas não a pouca roupa das meninas francesas, que se exibem em revistas de todas as espécies, algumas delas não recomendáveis, pois em um estado laico, quem é islamita não pode seguir os seus costumes publicamente. Na Itália, uma única mulher obtém da “Corte de Direitos Humanos” da União Europeia — tenho dúvidas se os juízes deste tribunal não italiano conheçam as tradições e costumes do povo italiano — o direito de eliminar de todas as escolas públicas o crucifixo. Felizmente, a ministra da Educação italiana já disse que não respeitará a desarrazoada decisão. Agora, na Suíça, proíbe-se que os templos islâmicos ostentem seus minaretes!
É bem verdade que, no estado laico europeu, que está conformando os “sem Deus” ou aqueles agnósticos que se julgam deuses”, se comemora o aniversário de Cristo, com feriados e presentes, sem que haja um movimento para abolir o Natal, data maior da cristandade.
Pergunto eu: por que não respeitar os minaretes islâmicos como se respeitam os sinos católicos e as igrejas cristãs na Suíça? Por que o preconceito? Por que admitir que as casas de prostituição, os motéis para encontros suspeitos, as boates noturnas e os espetáculos pouco dignificantes, que também existem na Suíça, como em todos os países, não sejam fechados, por uma questão de igualdade? Por que o culto ao Criador, conforme cada religião, não é respeitado como se respeita o culto aos denominados centros turísticos de diversões laicas, em que a droga e o meretrício de luxo têm curso fácil e quase sem controle oficial?
Àqueles que não conseguem viver como deveriam pensar e passam a pensar como vivem, à evidência, incomodam os valores que as religiões transmitem e que não conseguem viver, em sua maioria, razão pela qual os bons costumes devem ser afastados — embora vividos pela maioria das pessoas — em detrimento de um estado laico, sem valores, quase sempre libertino, no qual a frustração, os divãs dos psiquiatras, a droga, o adultério, os casamentos desfigurados e os filhos desorientados povoam como símbolo da modernidade.
Indiscutivelmente, o preconceito suíço não faz bem à sua história, definitivamente manchada pelo plebiscito, que pode estar beirando às raias de um racismo contra o povo árabe, revivendo o que de pior o nazismo exibiu, na busca de uma raça pura. Estou convencido que este tipo de “preconceito aristocrático” suíço e de outros países europeus está na essência da reação dos povos menos desenvolvidos, que, muitas vezes, até no terrorismo buscam a sua vingança. Como entendo que devemos buscar a paz e a convivência entre os povos, não posso aprovar a discriminação odiosa dos suíços.

*Ives Gandra da Silva Martins é doutor em Direito e professor emérito da Universidade Mackenzie
FONTE: Correio Popular online, Campinas, 27/12/2009

sábado, 26 de dezembro de 2009

Os seis sentidos de Philippe Starck


O francês Philippe Starck, o designer mais celebrado do mundo,
comemora o 30º aniversário de seu estúdio e
revela à Platinum os seus sentidos.


AUDIÇÃO 

Vivo ouvindo música. Sonho com música, escuto 24 horas por dia. Para você ter ideia, costumo viajar com seis iPods, de medo que um ou dois não funcionem. Ainda não aconteceu de algum estragar, mas prefiro me prevenir (risos). Minha escolhas são muito ecléticas: eu busco qualidade e estou à procura do meu “som pessoal”. Não tenho uma música preferida, mas, se tivesse, poderia transformá-la em lágrimas facilmente. A música é parte integrante do meu processo criativo. Escolho um tipo adequado para cada projeto e cada momento do dia. Na verdade, se eu fosse honesto, dividiria os roylties das minhas criações com os autores das músicas que ouço para me inspirar (risos).                                                                          

PALADAR
Meu prato preferido é a botarga, como são chamadas as ovas de peixe secas. Mas posso dizer que aprecio todas as formas de cozinha que sejam inteligentes, honestas, dietéticas e biológicas, com preferência para as gastronomias japonesa e italiana. Na hora de procurar um restaurante, fujo dos que estão na moda, pois prefiro os clássicos, embora aprecie muito o modelo de cozinha que Ferran Adriá no elBulli, na Espanha. Não sou grande cozinheiro, mas adoro cozinhar e posso fazer um jantar para 30 pessoas em 30 minutos. O resultado vai ser algo “comível”.

OLFATO
Entre todos os aromas possíveis, meu preferido é o odor que exala do corpo humano. Quanto a fragrância, eu adoro tanto as clássicas – e até mesmo arcaicas –, como o Habanita, da marca Molinard, quanto as mais recentes, como o Vetiver, da Labo. No meu quarto tenho cerca de 20 diferentes, de grifes como Comme dês Garçons e Labo, mas quase não toco nelas. Na verdade, uso cada vez menos no dia a dia, e muitas vezes nem me perfumo. Antes, quando tinha mais tempo, eu criava meus próprios perfumes e tinha até um laboratório profissional, mas agora é impossível. Se recebesse hoje uma encomenda para desenvolver o conceito de uma fragrância, pensaria em uma que não escondesse os odores corporais.

                                                                                                             
VISÃO
Perguntar minha cor preferida é como perguntar a um músico sua nota preferida ou a um escritor qual é a sua letra preferida. Qualquer cor, letra ou nota só nos interessa no conjunto. Separadamente, elas significam a mesma coisa, têm a mesma importância. Adoro arte, mas jamais vou a exposição e também não saberia escolher meus artistas favoritos porque seria injusto. Certamente, eu deixaria vários nomes importantes fora. Admiro o belo, porém ele nada mais é do que a representação de uma etiqueta social saída da burguesia, que se manifesta na moda, por exemplo. Não sigo moda, vivo fora desse mundo, e nem se quisesse conseguiria. Eu me interesso por valores mais atemporais do que o belo. O bom, por exemplo.

INTUIÇÃO

Eu me considero um bloco de cristal de intuição. Em resumo, sou pura intuição, não consigo nem controlar meu inconsciente. Sou perigoso para mim e para os outros (risos). No momento de criar, o que mais me inspira é a mutação da espécie humana. E, pensando nela, sigo minha intuição também ao me preocupar com o futuro do planeta e pensar em tantos projetos “verdes”. Sinto que todos nós humanos temos um dever com o amanhã, está escrito em nosso DNA. E temos de cumprir esse dever com inteligência ao longo de nossa veloz evolução.

TATO
A pele é minha superfície preferida de tocar. Quando defino um objeto, fecho os olhos e o leio com meus dedos. É graças ao toque que reconheço a qualidade das linhas.

Por PRISCILLA PORTUGAL.
REPORTAGEM COMPLETA  na Revista ISTO É PLATINUM de dez/jan.2010, pp.54-61.

Conta em dólar no Brasil? Esqueça!

Alexandre Barros*


Os vários anos em que vivi na International House de Chicago foram os melhores de minha vida. Ganhei amizades do mundo inteiro. Meus colegas economistas me ensinaram muito em conversas. O resto aprendi lendo e vivendo.

Lembra-se, leitor, do confisco de Collor? Pois é, quando as economias de sua vida inteira viraram pó graças a uma sandice do presidente e de seus ministros. A operação foi simples. José Sarney, que saía, decretou um feriado bancário, mancomunado com Fernando Collor, que entrava. A vilania de Collor não teria sido possível sem a cumplicidade de Sarney. Uma penada, bancos fechados e seu dinheiro congelado. Collor cortou o sangue que mantinha viva a economia brasilleira. Efeito benéfico? Zero. Na política econômica amanteigada, que está ameaçando virar moda, o governo propõe autorizar os bancos que funcionam no Brasil a receberem depósitos em moedas estrangeiras. Uma das lições que meus amigos economistas da International House me ensinaram: nunca abra conta bancária numa moeda que não seja a emitida pelo país em que está o banco. É simples: a receita de Collor pode ser aplicada a qualquer momento.

Abrir conta em moeda forte num banco no país que não é o emissor da moeda é colocar todos os seus frangos no galinheiro da raposa.

O Banco Central do Brasil vem administrando a política monetária e o câmbio de maneira inatacável, só que seus dirigentes passam e vão fazer outras coisas na vida. Em 2011 vem um governo que ninguém sabe qual será. Tampouco sabe-se como pensam os dois candidatos com mais chance de serem eleitos, se a eleição fosse hoje. Serra e Dilma (ou vice-versa) são atores desconhecidos em matéria de política econômica. Qualquer um pode fazer desde as coisas mais corretas (como acabou fazendo Lula, apesar das previsões pessimistas em 2002) até bobagens, como Collor.

Quando a sua conta é em moeda estrangeira se agrega uma variável ausente nos tempos de Collor. Se muitos brasileiros fugirem do real e depositarem seus caraminguás em bancos instalados no Brasil, a raposa terá todos esses valiosos frangos no seu galinheiro. Outra penada igual à de Collor e seu dinheiro virará fumaça invisível.

Isso acontece quando o país tem muitas dívidas em moedas estrangeiras e não as tem em quantidade suficiente para pagá-las. A solução mais fácil é congelar os depósitos de quem acreditou no governo quando ele disse que você poderia ter sua conta em moeda estrangeira.

Depois ele dirá aos brasileiros que ninguém perdeu nada, porque o governo pagará a todos. Só que o que você tinha em moeda estrangeira será pago em moeda nacional. O mais grave é que o governo roubará o seu rico dinheirinho fixando a taxa de câmbio que bem lhe aprouver. E você não ficará sequer a ver navios.

A história econômica é pródiga em exemplos. Os países começam a se endividar em moeda estrangeira e a coisa fica séria quando o governo fixa a taxa de câmbio (em vez de deixá-la flutuar). O primeiro passo foi dado pelo ministro da fazenda, Guido Mantega, em 17 novembro de 2009, quando declarou na Fiesp que o preço ideal do dólar seria de R$ 2,60. O primeiro passo da política cambial amanteigada foi dado.

Sem o mercado sinalizador para dizer quanto vale de verdade cada moeda (já que na política cambial amanteigada as moedas valem o que diz o governo), os desequilíbrios e as dívidas do governo começam a acumular e você ficará erradamente tranquilo e confiante, porque suas economias estão em moeda estrangeira.

De repente, o Brasil fica sem dinheiro para pagar suas contas, mas a solução está à mão: seu rico dinheirinho em moeda estrangeira será confiscado pelo governo para pagar as dívidas dele. O mico é todo seu.

Não estou insinuando nem que isso vai acontecer, nem que isso pode acontecer, nem quando, mas os sinais de fumaça já estão aí: governo intervindo na taxa de câmbio e a consequente perda de referência do valor verdadeiro de cada moeda.

As pessoas que decidem a política cambial mudam e com elas as concepções e políticas. Felizmente, nos últimos anos tivemos pessoas responsáveis na administração monetária e cambial, mas com as mudanças incertas que podem estar por vir, nunca se sabe o que podem fazer seus sucessores. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

Se você não sabia o que faz um analista de risco político, este é um bom exemplo. Avisa às pessoas aquelas coisas perigosas que nem sempre são aparentes à primeira vista. Não sou portador de más notícias. E mais, quase sempre prefiro prever o passado, porque minha taxa de acerto é sempre de 100%. Às vezes, no entanto, arrisco-me a prever o futuro. Agora me sinto na obrigação de fazê-lo.

Desejo apenas lembrar-lhe que todos os negócios ótimos sempre acabam sendo ilegais ou demasiado arriscados. Assim começam as bolhas.

A crise de 2008-2009 foi assim: os americanos achavam que suas casas subiriam de valor indefinidamente. Re-hipotecavam-nas várias vezes, confiantes de que aquele amontoado de madeira, tijolos e tintas subiria de preço sempre. Quando o mercado (que são milhões de pessoas tomando decisões independentes que ninguém controla) passou a achar que aquelas casas não valiam aquilo que os proprietários achavam, a bolha estourou, como as bolhas de sabão que fazíamos quando crianças.

Dois princípios básicos: um, informação é um bem que, como qualquer outro, não é distribuído igualmente por toda a humanidade - quando você desconfiar que o governo pode congelar os seus depósitos, ele já o terá feito. Você é que vai ficar pendurado na brocha. Dois, considere sempre que as outras raposas são sempre mais felpudas do que você.

Boa sorte e esqueça conta em moeda estrangeira no Brasil.

*Alexandre Barros, cientista político (Ph.D. - University of Chicago), é diretor-gerente da Early Warning: Análise de Risco Político (Brasília) E-mail: alex@eaw.com.br
FONTE: Estadão online, 26/12/2009

E-book

O mercado do livro eletrônico avança em 2009


Novos títulos foram lançados simultaneamente no digital e
 já há preocupação quanto à pirataria

No início do 2009, editores brasileiros estimavam que o livro eletrônico, conhecido por e-book, levaria no máximo cinco anos para ocupar um espaço de respeito no mercado editorial do País. No final da temporada, porém, as discussões variavam entre nova regulamentação do direito autoral por conta da venda de conteúdo digital e medidas para combater a pirataria eletrônica.

Ou seja, em um ano, o futuro tornou-se mais próximo - o e-book ainda não é um produto fartamente comercializado no Brasil, mas a ferramenta já divulga autores nacionais, como o mais recente policial de Rubem Fonseca, O Seminarista (Ediouro), lançado em novembro tanto na versão tradicional, em papel, como em formato digital para e-book, iPhone e iPod. Também editoras, como a Zahar, começaram a disponibilizar parte de seu acervo aproveitando o surgimento da primeira eBookStore brasileira, a Gato Sabido.

Foi uma temporada de novidades tecnológicas, com o aparecimento de dispositivos de leitura eletrônica, os conhecidos e-readers, da Samsung, Fujitsu, Sony e Amazon, que lançou o já famoso Kindle, pequeno aparelho que, ligado a uma rede Wi-Fi ou a uma conexão USB, tem a capacidade de armazenar uma pequena biblioteca.

Com isso, logo se percebeu uma verdadeira urgência no mercado editorial em inovar com novas formas de conteúdo. Alguns autores pediam novidades - em 2009, ecoaram as palavras ditas por Paulo Coelho na Feira de Frankfurt do ano anterior: "Os livros digitais já reclamam seu espaço". De fato, na feira deste ano, mais da metade dos participantes confirmou 2018 como o ano da virada, ou seja, quando a obra digital superará a de papel em vendas.

O próprio Coelho liberou, na quinta-feira, algumas obras para serem baixadas gratuitamente. Acertou também um contrato com a Gato Sabido a fim de disponibilizar seus livros no mercado virtual. Lançado em dezembro, o portal fechou parceria com a COOL-ER, maior empresa de e-book da Inglaterra, o que lhe permitirá oferecer cerca de 1,48 milhão de títulos aos internautas brasileiros - 1 milhão do Google Books, 400 mil da COOL-ER e cerca de 80 mil títulos nacionais, a serem negociados ao longo de 2010. A Zahar foi a primeira editora a acertar parceria, disponibilizando cerca de 300 títulos em um lote inicial. Também a editora jurídica Lumen Juris entrou no negócio, oferecendo 100 livros.

O momento é de pressa, especialmente no Brasil onde o alto preço despontou como um refreador (importar um e-reader custa cerca de US$ 520, graças aos impostos). Mas, no início da semana, a Justiça determinou que qualquer leitor eletrônico também conte com a imunidade tributária que recai sobre a importação de livros e revistas - o aparelho vem sendo taxado como eletrônico, cujo imposto chega a 60%, ou seja, exatos US$ 266,32 de taxa. Com isso, é possível esperar que 2010 termine com um boom de vendas no mercado brasileiro.

O que pode reforçar a tese é o surgimento de um e-reader nacional, o Mix Leitor D, desenvolvido no Recife e com previsão de lançamento para junho. E, antes mesmo de ficar pronto, a empresa criadora do produto, a Mix Tecnologia, já conta com 150 mil unidades encomendadas, que é, na verdade, sua capacidade máxima de produção.

O mercado, portanto, prepara-se para uma atualidade digital. E os escritores? Muitos continuam reticentes à nova tecnologia, cientes da perene atração do livro tradicional - as imagens na sobrecapa, as fontes convidativas, o cheiro do papel. Mas outros já pensam nos lucros oferecidos pelas novas ferramentas, como o americano Stephen R. Covey, que transferiu os direitos "digitais" de dois de seus títulos de uma editora tradicional, a Simon & Schuster, para uma nova, digital, a RosettaBooks. Ao noticiar o fato, o jornal The New York Times informou que isso deve "aumentar a grande preocupação já existente entre os editores sobre a economia do mundo do livro digital e pode oferecer aos autores um meio de ter maiores lucros com seus trabalhos do que eles obtêm com o sistema tradicional".

Também a pirataria de e-books já preocupa as grandes redes, que buscam, entre outras defesas, o estabelecimento de um "selo de autenticidade". Assim, se 2009 termina diferente de como começou, 2010 promete mais surpresas.
Reportagem Ubiratan Brasil
FONTE: Estadão online, 26/12/2009