segunda-feira, 22 de março de 2010

Deus e a tecnologia

Fábio Toledo*


Lembro-me de uma frase de um professor do então colegial que foi suficiente para abalar a fé, ao menos de um imaturo aluno do Ensino Médio. Dizia ele: “Deus é uma fuga. O cientista aprofunda na busca do conhecimento até que, quando chega ao seu limite e não consegue explicar algum fenômeno, diz simplesmente que isso ou aquilo é assim porque Deus quis”. Mas será mesmo que a fé e a ciência são coisas incompatíveis e inconciliáveis? Pior ainda, é a fé um entrave para a ciência e a ciência um obstáculo para a propagação da fé religiosa?

A frase, ao menos numa análise superficial, é sedutora. Com efeito, explicar que o mundo, as pessoas e o Universo são como são porque Deus quis pode justificar uma postura desleixada do cientista. Mas pode também, se encarada de outra forma, ser um estímulo para o próprio progresso da ciência. É que, quanto mais se descobrem as perfeições do universo e dos seres criados, tanto mais se ressalta a perfeição de quem os criou. E então o bom cientista busca cada vez mais aprimorar os conhecimentos para o bem da humanidade, sem perder a perspectiva de que, quanto mais avança, mais se desenha e se faz evidente a sabedoria do Criador.

Isso nos remete, porém, para outra indagação: haverá limites éticos nessa corrida pelo conhecimento? É evidente que sim. E o limite está, essencialmente, na dignidade da pessoa humana. Não contribuem para fazer uma humanidade melhor os inventores das bombas químicas e de outros equipamentos de destruição em massa, como igualmente não promove a dignidade humana as pesquisas e a manipulação das células embrionárias humanas. E a razão disso é muito simples. É que a vida humana é um valor absoluto, perene e universal, de modo que não é verdadeira ciência a que é feita para destruí-la, ainda que com o falso pretexto de salvar outras vidas.

A dicotomia entre a fé e a ciência talvez assuma modernamente uma tensão mais dramática na postura com que as pessoas em geral encaram as adversidades e a doença. Os avanços tecnológicos são sensíveis em toda parte. Maravilhamo-nos com eles no setor de transportes, nas telecomunicações e especialmente na medicina. Com isso, muitas pessoas passam a confiar na tecnologia como o único recurso para a sua cura e também para as livrarem de toda sorte de dor e sofrimento. Mas também aqui a contradição entre Deus e a ciência é apenas aparente, embora muito se insista — em minha opinião, de má-fé — em sustentar o contrário.

É fantástico que a medicina tenha evoluído e a tecnologia muito contribua não apenas para salvar milhares de vida, mas também para permitir que se viva com dignidade por mais tempo. Contudo, a tecnologia não conseguirá jamais eliminar o sofrimento das pessoas nem impedir o que é absolutamente inevitável: a morte. Qual seria, então, o equilíbrio?

Penso que o vice-presidente da República, José de Alencar, deu-nos uma lição fantástica que merece ser meditada. Evidentemente que ele foi tratado de sua doença com o que há de mais moderno na medicina e ansiamos pelo momento em que isso esteja disponível a todo cidadão brasileiro. Mas depois de se valer de todos esses recursos tecnológicos, disse ele de si para si em voz alta, para que todos nós pudéssemos aprender do seu exemplo de fé bem vivida: “Se Deus quiser me levar, Ele não precisa de câncer. Se Ele não quiser que eu vá, não há câncer que me leve”. Alguém já imaginou alguma quimioterapia mais maravilhosa para curar as doenças da alma?
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Fábio Henrique Prado de Toledo é juiz de Direito em Campinas
E-mail: fabiotoledo@apamagis.com.br
Fonte: Correio Popular online, 22/03/2010

domingo, 21 de março de 2010

Por que investir em pessoas dá lucro


Fenômeno editorial no Brasil com o livro “O Monge e o Executivo”, James C. Hunter diz que empregados satisfeitos são mais criativos e produtivos, ajudam a manter na empresa o investimento feito em treinamento e se relacionam melhor com clientesQuando recebeu o primeiro convite para vir ao Brasil, há cinco anos, James C. Hunter não entendeu. Do outro lado da linha, um representante da editora Sextante dizia que seu livro O Monge e o Executivo era um sucesso no país.
Hunter telefonou para seu agente e perguntou que loucura era aquela. Nunca escrevera nenhuma obra com aquele título. A explicação veio em seguida: seu livro The Servant (O Servidor, em tradução literal) recebera outro nome no Brasil. E era um fenômeno de vendas. Hunter considerou o título melhor que o original.
Desde então, nunca mais deixou de vir ao Brasil. Já foram 20 visitas, e ele ainda se confessa surpreso com as vendas. Dos cerca de 3,5 milhões de exemplares de O Monge e o Executivo vendidos no mundo, mais de 2 milhões saíram de prateleiras brasileiras.
– Nunca entendi por que tanto sucesso aqui, mas tenho uma suposição. O Brasil tem inúmeras qualidades e potenciais mas, assim como nos Estados Unidos, ainda é carente de líderes. Conheço muitos executivos aqui. Sei o que estou dizendo – reforça o religioso escritor e consultor de empresas, que tem a Bíblia como obra de cabeceira, Jesus Cristo como referência e dezenas de provérbios e pensamentos sempre na ponta da língua.
A falta de líderes parece estar ficando para trás. Se não fosse isso, por que dezenas de companhias teriam enviado cerca de 700 funcionários para assistir à palestra que Hunter fez em Porto Alegre na terça-feira passada, a R$ 400 a inscrição individual? Porque esse é o caminho natural dos negócios nos dias de hoje e, principalmente, porque investir na gestão de pessoas resulta em lucro.
O Great Place to Work, que organiza mundialmente o ranking As Melhores Empresas para se Trabalhar, apresenta exemplos disso. Partindo de pesquisas em 44 países, o CEO do instituto no Brasil, Ruy Shiozawa, usa três casos para mostrar que os ganhos de um grupo bem liderado são mensuráveis.
1- Em uma rede de supermercados do Chile bem classificada no estudo, o índice de satisfação dos clientes em três diferentes lojas, com três diferentes graus de contentamento por parte dos empregados, mudava bastante. No loja apontada com o pior local de trabalho, a satisfação dos clientes era de 78%. Onde os empregados estavam mais satisfeitos, chegou a 86%.
Por que isso traz lucro? Funcionários mais felizes garantem fidelidade dos clientes, o valor médio de compra tende a ser maior e é sempre mais barato manter clientes antigos do que conquistar novos.
2 - A rotatividade média do setor de varejo na área de alimentação nos Estados Unidos gira em torno de 53%. Ou seja, de cada dois funcionários treinados por uma empresa do setor, um se desliga após um ano de trabalho. Nas melhores empresas para se trabalhar nessa atividade o índice ficou em 14%.
Por que isso traz lucro? É prejuízo treinar e investir em um funcionário que pouco depois vai embora levando consigo o conhecimento sobre a operação e o valor gasto na sua qualificação.
3 - O terceiro exemplo de como investir em gente dá lucro vem do Brasil. O instituto contabilizou quanto um investidor ganharia aplicando R$ 100 mil em ações a partir do índice Bovespa entre 2000 e 2009. O capital se transformaria em R$ 409 mil. Um ganho e tanto. Mas sabe em quanto esse investidor transformaria os mesmos R$ 100 mil se aplicasse, no mesmo período, apenas nas melhores empresas para se trabalhar listadas na Bovespa? Em R$ 1,2 milhão.
Por que isso traz lucro? É um indicador de que a empresa cresceu, suas ações se valorizaram mais do que a média e só conquista mais investidores quem tem os melhores indicadores do mercado, inclusive lucro.
Também leitor de Hunter, o CEO do Great Place to Work poderia tranquilamente estar na plateia do Teatro do Sesi, palco da palestra. O público reunia de estudantes de Ensino Médio a empresários. Minutos antes, os organizadores não tinham certeza de que o auditório lotaria. Agora, já pensam em trazer Hunter novamente ao Estado, talvez em 2011. As pessoas, até lá, certamente continuarão sendo importantes para as empresas.

DEPOIMENTOS


Por que investir em pessoas dá lucro, na opinião de alguns participantes da palestra de James C. Hunter:
“Porque pessoas são a origem, como colaboradores, e o final de tudo, de qualquer negócio, como clientes.”  - MARCELO SUSSERMANN, 41 anos, consultor da Nextel

“É preciso saber lidar com as pessoas para conhecê-las melhor, identificar suas qualidades e obter todo o seu potencial. Só assim um empregado dará à empresa tudo o que pode render.”
ESTER VARGAS, 29 anos, estudante de Administração

“São pessoas que dão resultados para a empresa. É investindo em pessoas que se extrai delas motivação e iniciativa para agir. Sem pessoas que pensem o negócio, serão apenas máquinas trabalhando.” PEDRO HOYER, 44 anos, empresário

“Satisfação tem influência direta no que uma pessoa produz e o retorno disso, claro, traz lucros para a empresa de diferentes formas, inclusive a financeira.” FÁBIO DUTRA, 36 anos, gerente comercial  da Racon Consórcios em Porto Alegre

“O maior capital de uma organização são as pessoas, não a estrutura ou os equipamentos. Por isso, o maior investimento precisa ser nos colaboradores. São eles que estão na ponta final, com o cliente, que é que dá retorno ao investimento.”  MAURÍCIO MELLO PALLUDO, 25 anos, operador de negócios do Banrisul
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Reportagem: THIAGO COPETTI
thiago.copetti@zerohora.com.br
Fonte: ZH online, 21/03/2010

Espalhando o vírus da paz

JAIME PINSKY*

Foi interessante a recente visita feita pelo presidente Lula ao Oriente Médio, onde se apresentou como candidato a mediador da situação naquele canto do planeta. A mídia logo que se posicionou sobre o que aconteceu lá, como sempre, a partir de sua posição sobre a sucessão presidencial. Provavelmente isso aconteceu também com os próprios assessores do nosso primeiro mandatário. Ora, santificar ou demonizar protagonistas não leva a nada, assim como soa demagógico homenagear Arafat e recusar-se a colocar flores no jornalista vienense Theodor Herzl, considerado o inspirador do Estado judeu.

Há mocinhos e bandidos de todos os lados, essa é a verdade. Ainda há os que apresentam os árabes, todos, como agressivos e belicistas, retrógrados e primários. Primário é o argumento. Somos todos beneficiários da cultura árabe, que está presente em nossa vida, mesmo que filtrada pelo mundo ibérico. O que não se pode é atribuir sempre ao “outro” a culpa da decadência cultural e econômica do mundo árabe e islâmico, sujeito a interferência da religião no Estado, a uma depreciação da mulher, a pouca ou nenhuma liberdade de expressão. Li, há pouco, um artigo que dizia que a culpa de tudo de ruim que aconteceu por lá era dos “bárbaros” mongóis, depois dos turcos, ingleses, franceses, russos e agora americanos. Menos dos povos árabes, é claro...

Povos? Sim, pois a ideia de uma nação árabe única, hoje, é de uma ingenuidade comovente e serve a vários interesses. Antes de tudo, é introjeção de uma visão imperialista de mundo. Nos Estados Unidos somos “latino-americanos” e que confundir La Paz com Rio de Janeiro é prática corrente até entre acadêmicos americanos. Da mesma forma é concebida suposta unidade árabe nas salas do Pentágono e nas emissoras de TV americanas.

A bandeira da unidade árabe, sob a sombra de uma religião única, na guarida de uma única língua e com o respaldo de um passado glorioso, tem tido a função de escamotear conflitos internos e justificar o expansionismo de ditadores de plantão. O fato é que nem todos os árabes são muçulmanos e nem todos os muçulmanos são árabes. Por sinal, as maiores nações muçulmanas não são árabes. Por que então imaginar uma unidade que não existe? Para poder eleger um inimigo comum (o “inimigo objetivo” como dizia Sartre) para estimular o fervor patriótico, esmagar minorias e buscar entre os vizinhos o “espaço vital”, estratégia política recorrente que Hitler utilizou há não muito tempo.

O “inimigo objetivo” das nações árabes é Israel. Os “descamisados e descalços” das ricas nações árabes foram levados a crer, durante muitos anos que a destruição daquilo que chamam de “entidade sionista” e a “libertação” de Jerusalém encheriam seus pratos de comida, eliminariam o tracoma e provocaria sua redenção. Enquanto isso, as contas dos emires e dos ditadores de plantão engordam.

Os palestinos também sentiram na própria carne e ação de seus “irmãos”. Vistos como parentes maltrapilhos e malcheirosos dos “irmãos” árabes, eles tentam desfazer-se dos palestinos oferecendo-lhes uma peça usada de roupa ou um pedaço de pão (ou, melhor ainda, algumas armas e muitos gritos de guerra). Quando insistem em atravessar os portões da mansão do parente rico, são massacrados, por inconvenientes, como haverá de se lembrar o leitor com o que aconteceu com os palestinos no Líbano ou no Setembro Negro na Jordânia.

O fato é que a maioria dos Estados árabes instituídos não tem o menor interesse em resolver o problema palestino: ficariam sem o “inimigo objetivo”. Por seu lado, Israel mudou muito, desde a sua fundação. E nem sempre para melhor. Criado por inspiração de um pensamento sionista socialista laico, estruturado com base no kibutz, colônia coletiva estruturada à base da ausência total de propriedade privada (não só dos meios de produção), Israel tem se curvado às influências chauvinistas, de um lado; e de extremismo religioso, de outro.

Ambas conduzem à rejeição ao “outro”, seja ele o laico israelense, seja o palestino. Ausência de casamento civil (!), de transporte público no sábado em várias cidades, confusão entre origem biológica e status civil são características preocupantes em um Estado que se apresenta como democrático. É verdade que o prolongado conflito com os palestinos aumenta a coesão interna e rotula amigos críticos de inimigos, mas cabe aos israelenses encontrar uma solução para essas contradições. Gostaria que imaginários vírus desinformados da paz resolvessem os problemas de lá. Mas confesso meu ceticismo.
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*Historiador e editor

www.jaimepinsky.com.br
Fonte: Correio Braziliense online, 21/03/2010

Um retrato da "Bíblia" em 1.200 telas


O paulistano Carlos Araujo dedicou 25 anos ao trabalho; série rendeu livro, exposições no exterior e agora ganha mostra em São Paulo

O paulistano Carlos Araujo, de 59 anos, passou o último quarto de século reescrevendo a Bíblia. Em forma de quadros. Pintor desde os 13, ele criou mais de 1.200 telas - de até 6 metros de altura - que contam o livro, da Gênese ao Apocalipse. São retratadas as passagens do Velho e do Novo Testamento, como quando Deus diz "Façamos o homem", o Dilúvio e o nascimento de Jesus. A obra virou um livro de 700 páginas (com tiragem de 3 mil exemplares, foi vendido a R$ 2 mil e não está mais nas livrarias) e ganhou exposições em Nova York, Florença e na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma. Na quinta-feira, a série estreia na capital paulista em mostra com cerca de 20 telas, no Museu Brasileiro de Escultura (MuBe), nos Jardins.

"Uso meu trabalho para despertar, em cristãos, budistas, ateus e em qualquer outro ser humano a mensagem divina de amar e cuidar do próximo", afirma Araujo. "Com meu talento, faço o bem e sou instrumento de Deus." O pintor, porém, nem sempre foi tão dedicado a essa vocação que denomina como "religiosa" e "espiritual". "Antes, tinha desejos materiais e seguia os hormônios. Só queria fazer sucesso."

Apesar de católico desde criança, Araujo não era praticante. Nascido no Hospital Pro Matre, na região da Avenida Paulista, ele cresceu em Perdizes e na Vila Buarque. Quando pequeno, pintava com qualquer material que encontrasse. "Instalei-me na garagem de casa para ter mais espaço para criar", lembra. A veia artística do garoto ficava explícita até na decoração do espaço: no teto, o menino pendurou duas bicicletas velhas, para deixar o ambiente com o aspecto de um quadro.

Sucesso. Introvertido e autodidata, Araujo passava o dia pintando e sonhava ter fama e se dedicar à arte. "Perdia carnavais para desenhar telas", recorda. Seu primeiro quadro catalogado, Alegoria ao Carnaval, data de 1963.

Mas ele tinha receio de não conseguir uma boa renda com a vida de artista e, por influência do pai, formou-se em Engenharia na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Não teve, porém, de se dedicar à profissão.

Aos 20 anos, foi descoberto por Pietro Maria Bardi, então diretor do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Três anos depois, apresentou sua primeira exposição individual, no espaço comandado por Bardi.

Com um trabalho que tende ao figurativo e ao abstrato, o paulistano focava principalmente questões sociais. "Percorri o Brasil pintando cenas tristes, como a de uma mãe que dava o leite de seu peito à avó por falta de alimento", diz. Suas telas foram expostas na França, onde morou, no Panamá, na Suíça, na Argentina e nos Estados Unidos.

Conversão. Em 1985, enquanto morava na capital francesa, Araujo foi convidado pela editora Arianne Lancell a realizar o penúltimo capítulo de uma série de livros religiosos - o catalão Salvador Dalí fez duas das obras da saga. Ao paulistano, coube retratar o texto do Apocalipse.

"Entrei em depressão ao ler esse trecho", relata. "Notei que havia homens na luz e outros na escuridão. E todos seriam julgados." Ele pensava estar nas trevas, com seus desejos de crescimento e conquistas materiais. Durante dois anos, isolou-se em uma casa no Morumbi, onde morava com dois de seus quatro irmãos. "Tinha visões e delirava", conta. Ele recorreu a métodos como terapia e acupuntura. "Mas continuava infeliz e perdido, sem vontade de pintar ou de sair de meu quarto."

Araujo afirma ter se encontrado somente quando passou a ler e tentar compreender a Bíblia. "Aí, tudo ficou claro", diz. Foi então que ele começou a pintar o livro sagrado. "Faço sem dificuldades." Para ter inspiração, ele ouve músicas evangélicas, lê passagens e tem imagens de Jesus em seu ateliê de cerca de 500 metros quadrados no Morumbi, bairro onde também mora com a mulher e os quatro filhos.
As telas do paulistano custam até R$ 100 mil. "Vendi entre 10% e 20% da coleção da Bíblia", afirma. Os principais compradores são colecionadores, mas há obras também em museus da França e no Vaticano. "Sonho em ter meu acervo em locais abertos para democratizar minha mensagem."
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Reportagem de Filipe Vilicic
FONTE: - O Estadao de S.Paulo online, 21/03/2010

Badulaques 141

Rubem Alves*


O SOPRO DA VIDA

Digo sem o menor constrangimento que a Raquel, minha filha, é uma mulher extraordinariamente forte, paisagista e arquiteta que faz coisas lindas. Foi ela que planejou e executou minha casa e meus jardins. Mas quando nasceu ela era uma criança fraquinha cujos olhos vivos diziam que ela tinha uma enorme vontade de viver. Tinha uns dois meses. O médico receitou um composto vitamínico com a consistência de uma emulsão. As emulsões, vocês sabem, são pegajosas, não têm consistência líquida, são difíceis de engolir. Aconteceu, então, quando lhe demos a primeira colher da tal emulsão. Ela ficou repentinamente silenciosa, parou de fazer aqueles barulhinhos com a boca que uma criança de dois meses faz. Olhamos por alguns segundos para ela para ver o que estava acontecendo. Nenhum ruído. Ela só nos olhava. Foi então que nos demos conta de que a emulsão estava presa na sua garganta e ela não conseguia respirar. Estávamos, então, diante daquela menininha que queria viver mas estava morrendo à nossa frente sem que nada pudéssemos fazer. Sacudimos, viramos de cabeça para baixo, pressionamos o tórax, demos tapas nas costas, tudo inutilmente. A Raquel estava morrendo asfixiada diante dos nossos olhos. Foi então que algum anjo me disse: respiração boca a boca! Deitei a Raquel, abri sua boquinha, apliquei a minha boca sobre a dela e soprei. Foi só uma vez. Uma grande inalação de ar encheu os seus pulmões! Ela estava viva! Não me lembro do que sentimos. Nem sei se foi alegria. O nosso medo tinha sido grande demais. Simplesmente caímos ajoelhados ao lado da sua cama e choramos...

CARCASSONE

Estive brincando com um pequeno relógio de sol de que se valiam os peregrinos a caminho de Santiago de Compostela como marcador das suas horas.

Estranho que se possa usar um relógio de sol como brinquedo. Porque relógios de sol são, normalmente, objetos grandes e pesados, feitos ou de pedra ou ferro. Mas esse relógio é diferente. Ele é do tamanho de um daqueles antigos relógios de bolso, com dois milímetros de grossura. Prodígio da tecnologia medieval. Comprei-o numa lojinha da cidade de Carcassone, no sul da França. Dizem que Carcassone, dentre todas as cidades medievais que restaram, é a mais bem preservada. Um turista que viaje por aquela região não pode perdê-la.

Carcassone era ponto de descanso para os peregrinos. Aqueles minúsculos relógios de sol, eles os levavam como colares à volta do pescoço para facilitar a consulta ao sol.

Gravada no metal do meu relógio está uma sóbria advertência para um viajante: “Tempus Fugit”, o tempo está fugindo.

Podia-se comprar os mais variados tipos de relógio de sol, de pedra, madeira, ferro, todos eles com a mesma inscrição.

Mas por toda a cidade, nas inúmeras lojinhas freqüentadas pelos turistas, vendiam-se também objetos com uma outra inscrição: “Carpe Diem”, que quer dizer “colha o dia” como se colhe uma fruta. Colha hoje porque amanhã – quem sabe o que nos reserva o amanhã? - estará podre... O tempo ignora as “poupanças”...

“Tempus Fugit”, “Carpe Diem”. A presença dessas duas frases latinas numa mesma cidade deixou-me intrigado. E isso porque, muitos anos antes de visitar Carcassone eu havia escolhido precisamente essas duas frases como resumo da minha filosofia de vida. Seria uma coincidência?

Veio-me então a suspeita inevitável: será que em algum século passado eu vivi nessa cidade de Carcassone e que essas frases tivessem ficado gravadas na minha alma até que um acidente qualquer as fizesse emergir do fundo do mar até a superfície da minha consciência? Qualquer pessoa que visitar meu escritório verá esculpidas em madeira essas duas frases: “Tempus Fugit” e “Carpe Diem”.

Meu corpo é uma ampulheta. A areia fina não pára de se escoar. Chegará o momento em que o último grão de areia vai cair. Cada momento é único, grão de areia que cai e não volta.

A ampulheta silenciosamente me interroga. Ela não me pergunta sobre a morte por saber que ninguém sabe as respostas. Pergunta-me sobre a minha vida. “O que é que você vai fazer enquanto a areia se escoa?”

Os peregrinos faziam sua penosa viagem porque estavam convencidos de que a sua escolha era a escolha essencial naquele momento de suas vidas.
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Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
Fonte: Correio Popular online, 21/03/2010

sábado, 20 de março de 2010

SUE BENNETT* - Entrevista

“A geração de ‘nativos digitais’ é um mito”
Para a educadora australiana, é uma ilusão acreditar que os mais jovens têm intimidade inata com as novas tecnologias – e pensar assim pode prejudicar a educação

A geração nascida e criada na internet, a partir dos anos 80, é vista com interesse no mundo. São os chamados nativos digitais. Vários especialistas vêm afirmando que esses jovens, por seu convívio precoce com a tecnologia, têm poderes especiais, como capacidade criativa, jeito para aprender o novo e tolerância para realizar várias tarefas simultâneas. Como nossas escolas se adaptarão a eles? E como eles competirão no mercado de trabalho? Diante dessas questões, a educadora australiana Sue Bennett dá uma resposta surpreendente. Para ela, os nativos digitais não existem. Não passam de um estereótipo inútil.

ÉPOCA – Os nativos digitais – jovens nascidos depois de 1980 – são realmente diferentes?
Sue Bennett – A questão é que deve haver alguma diferença entre as gerações. Mas não é nada tão expressivo quanto tem sido dito por alguns especialistas ou em artigos publicados na mídia. Além disso, nessa geração, existe uma variabilidade muito grande no contato com as tecnologias. As diferenças dentro dessa geração são tão grandes quanto o que os distinguiria da geração dos mais velhos.

ÉPOCA – Faz sentido falar de uma geração de nativos digitais, então?
Bennett – Não acredito que esse rótulo tenha muita utilidade. Por que falar de um grupo específico da nova geração, com características semelhantes a outras pessoas de outra faixa etária? Cria a impressão de que todos os jovens têm uma intimidade inata com as tecnologias digitais. O que não é necessariamente verdade. Estudos recentes entre universitários australianos mostram que só 21% deles mantêm um blog e 24% usam redes sociais. Embora muitos usem uma vasta gama de tecnologias em sua rotina, existem claramente áreas em que a familiaridade com as ferramentas tecnológicas não é nada universal. Um estudo feito nos Estados Unidos com 4.374 estudantes de 13 instituições mostrou que a maioria tinha computadores pessoais e celulares. Mas só 12% deles tinham computadores de bolso. E uma minoria, cerca de 20%, já tinha criado conteúdo próprio para a internet.

ÉPOCA – De onde saiu essa expressão?
Bennett – Às vezes, observamos uma atividade, e aquilo parece muito novo para nós. E não reconhecemos que não passa de uma extensão de um comportamento prévio. Sem muita análise aprofundada naquele momento. Além disso, algumas pessoas ganharam fama ao defender esse tipo de ideia. E isso as incentivou a alimentar esse mito. É algo que soa bem. Vem de acordo com nosso senso comum, embora ninguém tenha investigado de verdade.

ÉPOCA – Algumas pessoas propõem mudanças na educação para atender às necessidades dos nativos digitais. O que a senhora acha?
Bennett – Isso é um grande perigo. Se mudarmos as práticas nas escolas para incorporar essas tecnologias e atender os chamados nativos digitais, poderemos deixar a educação inacessível para a maioria dos jovens, que não está tão integrada ao mundo digital. Poderá agravar a situação dos estudantes deixados para trás. Nós ainda não sabemos exatamente se a tecnologia realmente melhora o desempenho dos alunos. Os estudos feitos até hoje mostram que os estudantes gostam dos computadores nas salas. Mas não está bem definido se eles melhoram o resultado. Na Austrália, o governo forneceu laptops a todos os estudantes no meio da high school (equivalente ao ensino médio), de 15 e 16 anos. Eles levam os computadores para casa.

ÉPOCA – Por outro lado, como a lição que o professor dá no quadro-negro pode ser atraente para estudantes criados com o Facebook ou o Nintendo DS?
Bennett – Não podemos perder de vista o que queremos com a educação, embora, claro, o engajamento seja importante. Também não podemos ter uma imagem estereotipada do professor. A maioria deles consegue envolver os estudantes em atividades estimulantes usando os equipamentos tradicionais da escola. Independentemente da tecnologia, deveríamos investir em ajudar os professores a tornar o ensino mais interativo e provocante.

ÉPOCA – E no mundo profissional? A geração que nasceu com a internet tem mais habilidades do que os mais velhos?
Bennett – Aí certamente temos uma geração que é mais confiante no uso da tecnologia, que está mais disposta a aprender na base da tentativa e do erro. E isso faz diferença em um mundo onde as tarefas profissionais usam cada vez mais computadores e ferramentas que buscamos na internet e precisamos aprender a usar rapidamente. Por outro lado, embora eles entendam muito de computador, continuam sendo menos experientes em outras habilidades exigidas em cada profissão.

ÉPOCA – Os profissionais mais velhos podem se manter atualizados com as novas tecnologias, assim como os jovens?
Bennett – De novo, estamos muito presos aos estereótipos. Quando pensamos no choque de gerações no trabalho, imaginamos homens de 60 anos comparados a jovens na faixa dos 20. Mas a maior parte das pessoas está nas idades intermediárias. Existem pessoas mais velhas que têm capacidade para aprender qualquer coisa. E também têm mais tempo e mais dinheiro para se dedicar a isso do que os jovens. O que acontece com frequência com esses profissionais mais velhos é que eles têm outras prioridades às quais dedicar sua energia. Enquanto você tiver saúde, conexão com o mundo e envolvimento com outras pessoas, terá meios para se atualizar com a tecnologia, sem limite de idade. Se estiver aposentado, até melhor, porque terá mais tempo para se dedicar a isso.

ÉPOCA – Faz sentido imaginar que essa nova geração é mais capaz de executar várias tarefas ao mesmo tempo?
Bennett – Quando se fala em realizar várias coisas ao mesmo tempo, na verdade o que acontece é que ficamos pulando de uma tarefa para outra, com várias interrupções. Não estamos fazendo nada simultaneamente. Às vezes, é benéfico. Mas muitas vezes piora o resultado final. Por exemplo, quando você estuda algo, já está provado que consegue reter e compreender melhor aquilo se estiver bem focado.
"Enquanto você tiver saúde e envolvimento com outras pessoas,
poderá se atualizar com a tecnologia sem limite de idade "

 
ÉPOCA – Alguns estudos mostram que os alunos têm menos visão crítica quando selecionam referências na internet. Como resolver isso?
Bennett – Primeiro, é importante saber que isso acontece. Depois, ser ativo e discutir com os alunos a importância de entender o contexto das informações e de procurar discernir o que são dados mais ou menos confiáveis. Mostrar que não dá para acreditar no primeiro link que o Google lhe dá. Em vários estudos com alunos da high school, se aquela tarefa não é muito importante para eles, ficam satisfeitos com informações colhidas rapidamente na internet, mesmo desconfiando que não sejam as mais confiáveis. Por outro lado, se é um trabalho mais decisivo para eles, então tomam mais cuidado na pesquisa. De certa forma, nós também fazemos isso sem a internet. Quando pesquiso em bibliotecas, posso pegar o primeiro livro que encontrar sobre um assunto ou tentar investigar mais, dependendo da circunstância. Essa capacidade para pesar quanto esforço você dedica a cada tarefa não é novidade da era digital. Há estudos que mostram como isso acontece há muito tempo com os estudantes. É da natureza humana.

ÉPOCA – Os campeões de digitação em teclado de celular têm todos menos de 15 anos. Essas habilidades farão diferença quando forem maiores?
Bennett – Lembra-se do cubo mágico dos anos 80? Alguns adolescentes montavam o cubo com rapidez incrível. Parecia que tinham habilidades mentais superiores e fariam diferença na sociedade. Acontece que eles simplesmente tinham mais tempo e interesse para praticar.

ÉPOCA – E as habilidades desenvolvidas pelos jovens nos games serão úteis na vida adulta?
Bennett – É uma suposição que não foi devidamente testada. Não sabemos se essas habilidades continuam eficientes em outro contexto.

ÉPOCA – A senhora, que nasceu antes da era da internet, acha que tem menos habilidade com tecnologia do que seus alunos?
Bennett – Eles têm muito mais acesso à tecnologia do que eu tive quando tinha aquela idade. Por outro lado, eu estaria perdida sem meu laptop. Escolho o tipo de tecnologia de que preciso em cada momento. Não é uma questão etária. Algumas pessoas de minha idade têm tanta intimidade com tecnologia quanto meus estudantes de 18 anos.

ÉPOCA – A senhora gostaria de ter algum conhecimento tecnológico que seus alunos têm?
Bennett – Espero que não.
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*QUEM É
É diretora do Centro de Tecnologia em Educação da Universidade de Wollongong, na Austrália Reportagem:  Alexandre Mansur
O QUE FAZ
É uma das principais vozes céticas sobre o uso de novas tecnologias na educação. Já trabalhou nas universidades de Canberra, Central Queensland e Nacional da Austrália

Fonte: Revista ÉPOCA onlina, 18/03/2010

Nomofóbicos

CLÁUDIA LAITANO

Guarde essa palavra: nomofobia. A expressão (do inglês “no mobile”, sem celular) apareceu pela primeira vez há cerca de dois anos em um estudo britânico sobre hábitos dos usuários de celular. O resultado mais surpreendente da pesquisa, e que acabou dando origem à palavra, foi que 53% dos entrevistados admitiram praticamente surtar quando esqueciam o telefone em casa, ficavam sem bateria ou fora da área de cobertura da operadora – mais ou menos como acontecia antigamente quando as pessoas deixavam as chaves ou a carteira em casa.
É uma maluquice mansa, é verdade, como usar a mesma cueca todas as vezes em que o time disputa um campeonato importante ou fazer simpatia para conseguir marido, mas, ao contrário de outras mitologias cotidianas, essa de que o mundo vai acabar se você não estiver conectado 24 horas por dia passa por raciocínio lógico e sensato – e chega a ser muito bem vista em alguns ambientes. Tente convencer um nomofóbico (tenho certeza de que você conhece um) de que ele pode desligar o telefone enquanto janta à luz de velas com a namorada ou durante o velório da avó: seja ele um guri espinhento ou um atarefado executivo, vai contra-argumentar como se fosse o próprio presidente dos Estados Unidos e estivesse aguardando uma ligação que pode impedir o início da Terceira Guerra Mundial. E como ninguém mais usa o telefone apenas para encontrar e ser encontrado (mas para ver as horas, conferir a agenda, mandar torpedos, ler e-mails, abastecer o Twitter, conferir a rota no GPS...), o nível de ansiedade dos nomofóbicos tende, em breve, a alcançar extremos nunca dantes navegados, com consequências que a gente pode apenas imaginar por enquanto.
Os nomofóbicos argumentam, como os tabagistas antes da revolta dos fumantes passivos, que só prejudicam (se é que prejudicam) a eles mesmos. Mas não é bem assim. A primeira consequência cotidiana facilmente verificável é a quebra de alguns protocolos básicos de cordialidade e convivência social. Se você está conversando com alguém – seja a namorada aquela do restaurante, sua avó ainda viva ou seus colegas de trabalho –, esta pessoa merece ser honrada com sua atenção e interesse. Qualquer um que já foi trocado por uma ligação ou um torpedo sabe a cara de banana que a gente fica quando nosso interlocutor não nos concede sequer o benefício de um “com licença” antes de lançar-se ao aparelho como se fosse a última fatia de nega-maluca do aniversário. No telefone, como no trânsito, deveria valer a mesma regra de civilidade: pessoas são mais importantes do que não pessoas. (Falando em trânsito, a apresentadora americana Oprah Winfrey está promovendo em seu programa uma enorme campanha contra o “texting and driving”, o hábito de mandar mensagens ou e-mails enquanto se dirige, uma irresponsabilidade tão grande quanto dirigir bêbado e que está se tornando cada vez mais comum – lá como aqui.)
Para encerrar, confira abaixo uma lista de sinais que podem sugerir que uma pessoa “ligada” já está virando “nomofóbica” :
– Se esquece o celular em casa, volta de onde está para pegá-lo.
– Tem sensação de pânico quando fica sem celular.
– Abandona tudo (tudo mesmo, inclusive aquilo) o que está fazendo para atender o telefone.
– Carrega o celular na mão para atender mais rapidamente.
– Checou o celular pelo menos uma vez enquanto lia esta coluna...
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FONTE: ZH online, 20/03/2010

Carta Pastoral do Papa aos Fiéis Irlandeses

O Papa Bento XVI publicou, nesta manhã, uma Carta Pastoral a todos os Católicos da Irlanda para expressar a indignação com os abusos sexuais cometidos contra jovens por parte de expoentes da Igreja e pelo modo com que estes casos foram enfrentados pelos bispos irlandeses e pelos superiores religiosos. Ele pede que a Carta seja lida com atenção na sua íntegra. O Santo Padre fala da sua proximidade na oração com toda a comunidade católica irlandesa neste tempo de amargura e propõe um caminho de cura, de renovação e de reparação.

A íntegra da Carta, em inglês e em italiano e português de Portugal pode ser lida no sítio do Vaticano (abaixo o endereço. Clique):



Trecho da Carta

6. Às vítimas de abuso e às suas famílias
Sofrestes tremendamente e por isto sinto profundo desgosto. Sei que nada pode cancelar o mal que suportastes. Foi traída a vossa confiança e violada a vossa dignidade. Muitos de vós experimentastes que, quando éreis suficientemente corajosos para falar de quanto tinha acontecido, ninguém vos ouvia. Quantos de vós sofrestes abusos nos colégios deveis ter compreendido que não havia modo de evitar os vossos sofrimentos. É comprensível que vos seja difícil perdoar ou reconciliar-vos com a Igreja. Em seu nome expresso abertamente a vergonha e o remorso que todos sentimos. Ao mesmo tempo peço-vos que não percais a esperança. É na comunhão da Igreja que encontramos a pessoa de Jesus Cristo, ele mesmo vítima de injustiça e de pecado. Como vós, ele ainda tem as feridas do seu injusto padecer. Ele compreende a profundeza dos vossos padecimentos e o persistir do seu efeito nas vossas vidas e nos relacionamentos com os outros, incluídas as vossas relações com a Igreja. Sei que alguns de vós têm dificuldade até de entrar numa igreja depois do que aconteceu. Contudo, as mesmas feridas de Cristo, transformadas pelos seus sofrimentos redentores, são os instrumentos graças aos quais o poder do mal é infrangido e nós renascemos para a vida e para a esperança. Creio firmemente no poder restabelecedor do seu amor sacrifical – também nas situações mais obscuras e sem esperança – que traz a libertação e a promessa de um novo início.
(...)

9. Aos meninos e aos jovens da Irlanda


Desejo oferecer-vos uma particular palavra de encorajamento. A vossa experiência de Igreja é muito diversa da que fizeram os vossos pais e avós. O mundo mudou muito desde quando eles tinham a vossa idade. Não obstante, todos, em cada geração, estão chamados a percorrer o mesmo caminho da vida, sejam quais forem as circunstâncias. Todos estamos escandalizados com os pecados e as falências de alguns membros da Igreja, sobretudo de quantos foram escolhidos de modo especial para guiar e servir os jovens. Mas é na Igreja que encontrareis Jesus Cristo que é o mesmo ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13, 8). Ele ama-vos e ofereceu-se a si próprio na Cruz por vós. Procurai uma relação pessoal com ele na comunhão da sua Igreja, porque ele nunca trairá a vossa confiança! Só ele pode satisfazer as vossas expectativas mais profundas e conferir às vossas vidas o seu significado mais pleno orientando-as para o serviço ao próximo. Mantende o olhar fixo em Jesus e na sua bondade e protegei no vosso coração a chama da fé. Juntamente com os vossos irmãos católicos na Irlanda olho para vós a fim de que sejais discípulos fiéis do nosso Deus e contribuais com o vosso entusiasmo e com o vosso idealismo tão necessários para a reconstrução e para o renovamento da nossa amada Igreja.
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Fonte: Santa Sé

Na internet, privacidade desaparece aos poucos



Se um estranho o abordasse numa rua, você lhe daria seu nome, número da Previdência Social e endereço de e-mail? Provavelmente não.
No entanto, as pessoas frequentemente disponibilizam toda sorte de informações pessoais na internet que permitem que esses dados sejam deduzidos. Serviços como Facebook, Twitter e Flickr são oceanos de minúcias pessoais - cumprimentos de aniversário enviados e recebidos, fofocas de escola e de trabalho, fotos de férias familiares, filmes assistidos e livros lidos.

A reportagem é de Steve Lohr e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 20-03-2010.

Cientistas da computação e especialistas políticos dizem que esses pedaços pequenos, aparentemente inócuos, de autoexposição podem ser cada vez mais coletados e remontados por computadores para ajudar a criar um quadro completo da identidade de uma pessoa, chegando às vezes ao seu número da Previdência Social.
"A tecnologia tornou obsoleta a definição convencional de informações pessoalmente identificáveis", disse Maneesha Mithal, diretora executiva da divisão de privacidade da Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês).
Num projeto de classe no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Carter Jernigan e Behram Mistree analisaram mais de 4 mil perfis de alunos do MIT no Facebook, incluindo conexões entre amigos online. A dupla criou um software que previu, com uma precisão de 78%, se um perfil pertencia a um homossexual. A técnica foi verificada usando um grupo de alunos que haviam livremente se identificado como homossexuais.
Por enquanto, esse tipo de garimpo de dados, que depende de correlações estatísticas sofisticadas para construir dossiês individuais, pertence principalmente ao reino dos pesquisadores universitários, e não a ladrões de identidade e marqueteiros.
Mas a FTC está preocupada porque as leis e regulamentos que protegem a privacidade não acompanharam a mudança tecnológica, e a agência realizou esta semana o terceiro de três workshops para tratar justamente desse assunto.
Suas preocupações são de longo alcance. No do ano passado, a Netflix, empresa que recebe pedidos de aluguel de vídeo por e-mail e entrega os vídeos em domicílio, entregou US$ 1 milhão a uma equipe de estatísticos e cientistas da computação que venceu um concurso de três anos para analisar o histórico de aluguel de filmes de 500 mil assinantes e melhorar a acuidade de previsão do software de recomendação da Netflix em pelo menos 10%.
Na semana passada, a Netflix comunicou que estava engavetando planos para um segundo concurso - curvando-se às preocupações sobre privacidade colocadas pela FTC e um litigante privado. Em 2008, dois pesquisadores da Universidade do Texas mostraram que os dados de clientes liberados para aquele primeiro concurso, apesar de desprovidos de nomes e outras informações de identificação, poderiam com frequência ser identificados pela análise estatística dos distintos padrões de classificação e recomendações de filmes.
Nas redes de relacionamento social, as pessoas podem aumentar suas defesas contra a identificação adotando controles estritos de privacidade sobre informações em perfis pessoais. Mas as ações de um indivíduo, segundo os pesquisadores, raramente são suficientes para proteger a privacidade no mundo interconectado da internet.
A pessoa pode não expor informações pessoais, mas seus amigos e colegas online podem fazê-lo em lugar dela, referindo-se a sua escola ou empregador, gênero, local e interesses. Os padrões de comunicação são reveladores, dizem os pesquisadores.
"A privacidade já não é uma questão individual", disse Harold Abelson, o professor de ciência da computação no MIT. "No mundo online de hoje, o que sua mãe lhe disse é verdade, só que mais ainda: as pessoas realmente podem julgá-lo por seus amigos." Quando são reunidas, as informações sobre cada indivíduo podem formar uma "assinatura social" distinta, segundo os pesquisadores.

Identificação.
O poder de computadores de identificar pessoas partindo apenas de padrões sociais foi demonstrado no ano passado em um estudo da mesma dupla de pesquisadores que "arrombou" a base de dados anônimos da Netflix: Vitaly Shmatikov, um professor adjunto de ciência da computação na Universidade do Texas, e Arevind Narayanan, pesquisador em pós-graduação na Universidade Stanford.
Ao examinar correlações entre várias contas online, os cientistas mostraram que podiam identificar mais de 30% dos usuários tanto do serviço de microblogs Twitter como no Flickr, apesar de as contas terem sido despidas de informações identificadoras como os nomes e endereços de e-mail das contas. Na primeira rede, os internautas deixam comentários sobre o que estão fazendo e divulgam ideias. No Flickr, os usuários compartilham fotos online.
Ainda mais enervante para os advogados da privacidade é o trabalho de dois pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon. Em um estudo publicado no ano passado, Alessandro Acquisti e Ralph Gross mostraram que podem apontar com precisão os nove dígitos que compõem o número do Seguro Social de 8,5% das pessoas nascidas nos Estados Unidos entre 1989 e 2003 - o que significa cerca de 5 milhões de indivíduos.
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Fonte: IHU online, 20/03/2010

Livro de George Orwell fala do trabalho nas minas de carvão

Alvaro Costa e Silva

RIO - A caminho de Wigan Pier, George Orwell dá uma no cravo, outra na ferradura; morde e assopra. E paradoxalmente jamais fica em cima do muro para apreciar o que está ao redor – uma paisagem feia e desumana, o trabalho nas minas de carvão de Lancashire e Yorkshire no período entre as duas grandes guerras, de maciço desemprego. O resultado é um oxímoro: reportagem com opinião.

Em janeiro de 1936 o editor Victor Gollancz – o mesmo que publicara três anos antes Na pior em Paris e Londres, estreia literária não só do autor como também do nom de plume George Orwell (na pia batismal Eric Arthur Blair) – fez a encomenda ao escritor, pedindo-lhe que contribuísse para a série Left Book Club (Clube do Livro de Esquerda).

O resultado, nas palavras do próprio editor, é um texto “altamente provocativo”. Tanto que o socialista Gollancz queria publicar apenas a primeira parte do livro, a menos polêmica. Com Orwell já lutando na guerra civil da Espanha – experiência que lhe rendeu outro livro de não-ficção, Homenagem à Catalunha – a mulher dele, Ellen, teve de entrar em cena para conseguir a publicação integral, em 1937.

A inspiração de Orwell está no livro O povo do abismo, no qual Jack London descreveu o submundo dos excluídos e miseráveis da Londres do começo do século 20. É um dos primeiros exemplares de uma futura moda: a grande reportagem escrita e vivida na primeira pessoa, existencial e testemunhal. Prática, com o tempo, vulgarizada no jornalismo e tomada de assalto por qualquer tipo de picareta, explorador de sensacionalismos, fazedor de abobrinhas. Qualquer semelhança com a transformação do Big Brother orwelliano no show do Pedro Bial não é mera coincidência.

No primeiro capítulo de A caminho de Wigan Píer, Orwell é visto como hóspede de uma pensão que ao mesmo tempo funcionava como açougue de tripas. O quarto dele “fedia como uma gaiola de gambá”. No café da manhã recebia um pão com manteiga entregue pelo proprietário “fatia por fatia, cada uma firmemente presa a seu grande e imundo polegar preto”. Quando viu um penico cheio embaixo da mesa o ex-aluno do Eton College (a melhor escola pública do Reino Unido, que lá é paga, ou seja, um lugar destinado à elite) picou a mula.

O tempo passado na pensão era apenas a preliminar. A partir do segundo capítulo o bicho pega. Com sua descrição objetiva, o autor nos leva para dentro das minas e nos põe na pele dos trabalhadores cobertos de pó. Sentimos o calor que eles sentiam e sofremos o esforço deles, tendo de andar quilômetros abaixados entre paredes de pouco mais de um metro – a altura do veio de carvão. Orwell desceu lá, e quando pensamos que era um homem alto (1, 86 metro) ficamos ainda mais impressionados com sua coragem e disposição para o trabalho.

Escreve ele: “Falamos desse negócio terrível de ter de andar abaixado no trajeto de ida e volta, o que para uma pessoa normal já é uma tarefa duríssima, e no entanto ele não é considerado parte do trabalho do mineiro, em absoluto; é apenas um extra, tal como a viagem diária de metrô de um funcionário da City de Londres. O mineiro vai e vem dessa maneira, e entre a vida e a volta há sete horas e meia de trabalho bruto, feroz”.

Detalhe: os caras trabalhavam praticamente nus devido ao calor sufocante: usavam apenas uma cueca de tecido fino, tamancos e joelheiras. “Quase todos têm um corpo absolutamente nobre: ombros largos que vão se afinando até a cintura delgada e flexível, nádegas pequenas e bem pronunciadas, e coxas rijas, sem excesso de carne em parte alguma”, descreve Orwell.

Ao contrário da primeira, a segunda parte, a tal que o editor Victor Gollancz queria limar, não é descritiva, e sim argumentativa. Nela, George Orwell – que até os 14 anos, criado numa família de posses, considerava-se um “esnobezinho odioso” – faz uma dura crítica do socialismo inglês e da classe média cheia de boas intenções.

Seus argumentos até hoje incomodam: “E aqui chegamos ao verdadeiro segredo das distinções de classe no Ocidente – a verdadeira razão pela qual um europeu de educação burguesa, mesmo que se considere comunista, não consegue, sem muito esforço, pensar em um operário como seu igual. Resume-se em quatro palavras terríveis, que hoje as pessoas têm escrúpulos de dizer, mas que eram ditas com muita liberdade em minha infância: Essas palavras são: a classe baixa fede. Era o que nos ensinavam – a classe baixa fede. E aqui, obviamente, estamos diante de uma barreira intransponível. Pois quando se trata de gostar ou não gostar, nenhum sentimento é tão fundamental como um sentimento físico. O ódio racial, o ódio religioso, as diferenças de educação, temperamento, intelecto, até as diferenças nos códigos morais – tudo pode ser superado, mas não a repugnância física”.

Dito isto, fica a aviso: o livro é recomendável a leitores que tenham ou não olfato sensível.
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Fonte: Jornal do Brasil online, 19/03/2010

Charge do dia

Fonte: Jornal do Brasil online, 20/03/2010

Psiquiatra acusa Igreja de ter ignorado seus avisos

MUNIQUE - O psiquiatra de um padre pedófilo alemão, acolhido há 30 anos na diocese onde atuava o então cardeal Joseph Ratzinger, atual Papa Bento XVI, para fazer terapia, afirmou nesta sexta-feira que a Igreja ignorou seus alertas, durante anos.

Quebrando o segredo médico, o neurologista e psicanalista Werner Huth conta na edição online do jornal alemão Süddeutsche Zeitung ter aconselhado o arcebispo de Munique-Freising a proibir o padre H. de trabalhar em contato com adolescentes.

O padre, identificado pela imprensa alemã como Peter Hullermann, "era narcisista como costumam ser os pedófilos"; não possuía "a capacidade de introspecção" e "não tinha o sentimento de que deveria mudar", descreveu o psiquiatra que o acompanhou de 1980 a 1992.

Não se integrava verdadeiramente durante terapia de grupo, comparecendo às sessões "não por convicção, mas porque sentia a pressão de seus superiores", acrescentou o médico no Süddeutsche Zeitung.

Em 1985, quando o cardeal Ratzinger já estava em Roma, o arcebispado alemão recebeu um laudo de 60 páginas assinado pelo doutor Huth com a seguinte conclusão: "considero que se exclua a possibilidade de o padre H. trabalhar com adolescentes", conta o Süddeutsche Zeitung.

Há uma semana, no momento da revelação do fato, o arcebispo havia afirmado que "os conselhos do psiquiatra foram determinantes" em sua decisão de oferecer ao padre novas funções, o que chamou de "grave erro".

Em 2008, o arcebispo de Munique-Freising havia pedido um novo parecer a um outro especialista, que considerou que o padre estava inteiramente apto a cumprir suas funções eclesiásticas. Desprezando o conselho positivo, as autoridades diocesanas acabaram por proibir o sacerdote de trabalhar com jovens e o nomearam capelão.

De novembro de 1986 a outubro de 1987, o padre H. atuou como abade num asilo de velhos, tendo sido nomeado, depois, administrador do conselho paroquial na comunidade bávara de Garching.
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Reportagem: Agência AFP

Fonte:Jornal do Brasil, online, 19/03/2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

Economia e Vida (VI): escolher é preciso

Jung Mo Sung *

Eu terminei o artigo anterior perguntando como se dá, no nosso mundo globalizado, o processo de decisão sobre o que, quanto, como e para quem produzir. Isto é, como se dá o processo de coordenação da divisão social do trabalho (DST) na economia globalizada e quais são as instâncias e agentes de decisão?

Para tentarmos responder a essas questões, precisamos continuar a reflexão sobre a divisão social do trabalho. Quando eu iniciei esta série de artigos sobre "Economia e vida" como uma contribuição para as discussões em torno da Campanha da Fraternidade, eu tinha me comprometido manter uma regularidade em termos de tempo, isto é, eu tinha a intenção de publicar um artigo por semana. Mas, infelizmente eu não pude cumprir isso na semana passada por causa de falta de tempo.

Na verdade, eu tinha, como sempre, as mesmas 24 horas por dia. O que ocorreu é que eu tive muitos trabalhos e me faltou tempo para escrever este artigo para Adital. Aqui temos um exemplo que pode nos ajudar a entender um pouco melhor o nosso tema. Eu tive que fazer uma opção entre usar o tempo para escrever este artigo ou para realizar outros trabalhos "urgentes". Em que sentido esses outros trabalhos eram mais urgentes do que o meu compromisso pessoal de escrever para Adital?

A simples resposta de que aqueles eram do meu emprego e escrever para Adital é voluntário não explica tudo. Pois há trabalhos do nosso emprego que não são tão urgentes; e eu tenho escrito estes artigos sem deixar o meu emprego. A urgência dos meus trabalhos profissionais tinha a ver com o fato de que havia um prazo limite para serem feitos. E esses prazos são determinados pelo andamento do processo dentro do qual o meu trabalho está inserido. Se eu não cumpro o prazo, o resto do trabalho de outras pessoas e instituições fica prejudicado. Com isso o dano pode se estender para âmbitos maiores. O fator tempo é um dos componentes fundamentais de um sistema de produção, distribuição e consumo de bens e serviços necessários para a vida das pessoas e da sociedade. Soluções "perfeitas" que demorarão muito tempo para serem concretizados não são soluções reais se vêem fora do tempo necessário.

Ocorreu um conflito entre o cumprimento do prazo das minhas atividades relacionadas com a minha função na universidade onde trabalho e o da Adital. Eu poderia ter escolhido cumprir o prazo deste artigo, mas isso significava colocar o Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista, onde sou coordenador, em situação difícil (sem falar na minha situação profissional). Eu fiz uma escolha, por isso o artigo atrasou. Tanto na vida, quanto na economia, estamos sempre fazendo esse tipo de escolhas. Pois o tempo é um dos fatores escassos da vida e do sistema econômico.

Além do cumprimento do prazo, é preciso que o resultado do meu trabalho chegue até o segmento seguinte. Se por acaso eu termino o trabalho, mas não há conexão na internet (ou outros meios) para ser enviado ao destinatário (por ex., o modo como o meu artigo escrito em São Paulo chega a sede do Adital em Fortaleza), o processo fica truncado. Por isso, a manutenção da rede de internet e dos servidores (que eu não sei quem faz e nem como) é crucial para o processo de trabalho em que estou localizado. Isso vale também para eletricidade, o fornecedor de computadores, sanduíche que como no intervalo, transporte da casa ao emprego etc. Imagine o que significa juntar todos os processos de trabalho e de consumo de todas as pessoas do mundo inteiro de um modo que o sistema como um todo funcione de um modo minimamente eficiente para produzir os bens materiais e serviços necessários para a vida de toda a população. Não temos bem a idéia de como tudo isso funciona.

Não basta gritarmos ao mundo que, em nome da nossa fé cristã ou de valores humanos, somos a favor da vida e contra o mercado que explora os trabalhadores, exclui os pobres e concentra a riqueza nas mãos de poucos. Isso é necessário, mas é também preciso apresentar alternativas para substituir o mercado como o centro e o principal mecanismo de coordenação da divisão social do trabalho no mundo.

O neoliberalismo se caracteriza não pela exploração ou exclusão social, mas pela proposta de fazer do mercado o único coordenador da DST, fazendo do Estado simplesmente um agente de segurança e de garantia do cumprimento dos contratos. Se tudo é decidido baseado somente nos critérios de mercado, os problemas e necessidades de quem não tem dinheiro para consumir a "solução" (os não-consumidores) não serão atendidos e nem levados em conta na economia e na sociedade.

Criticar o neoliberalismo ou o sistema de mercado capitalista global vigente hoje não pode significar simplesmente a negação e a expectativa de que depois da queda do capitalismo não haverá mais a necessidade de coordenação da DST ou que não teremos que fazer escolhas em casos conflitivos.

Quais são alternativas de coordenação da DST para uma outra sociedade? (a continuar)
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* Professor de pós-graduação em Ciências da Religião. Autor de "Cristianismo de Libertação: espiritualidade e luta social", Paulus. Fonte: Adital online, 18/03/2010

Superando os Jetsons

Aumenta o número de projetos de robôs com inteligência artificial, destinados a ajudar em tarefas domésticas, fazer companhia e até reger uma orquestra. Rosie, a empregada do popular desenho animado, ficaria com inveja

Fotos:Physorg/Reprodução

O iCube foi concebido para agir como uma criança
e permitir
pesquisas sobre
o processo de aprendizado

O Robovie II, criado no Japão,
 faz as compras pelo dono (e até avalia frutas e verduras) :
 lista pelo celular

O sul-coreano Mahru-Z
lava roupas e
prepara o jantar


Um cuida de tarefas domésticas. Outro ajuda nas compras do supermercado. Há, também, o que participa de uma orquestra de música regendo os músicos. Isso sem falar no que faz companhia a adultos e no outro que cuida de crianças. A variedade e a qualidade de robôs humanoides desenvolvidos nos últimos tempos fazem Rosie, a competente empregada dos Jetsons, parecer um modelo tosco e pouco prático. Aquele futuro representado por uma sociedade composta por humanos e máquinas equipadas com inteligência artificial, outrora tão distante e impossível, está cada vez mais próximo. Cientistas e fabricantes, agora, estudam uma estratégia viável para que as invenções deixem de ser somente protótipos apresentados em eventos tecnológicos e passem a ser comercializadas em larga escala industrial. Por enquanto, a parte econômica da complicada equação ainda não foi resolvida.

O caso de Mahru-Z é emblemático. Criado por pesquisadores sul-coreanos, o robô é capaz de recolher as roupas sujas e colocá-las na máquina de lavar. Pode, ainda, aspirar a poeira da casa, preparar uma refeição no micro-ondas e servir o jantar em uma mesa arrumada de maneira impecável. Mahru-Z é, portanto, uma grande esperança para que pessoas com deficiências físicas tenham as tarefas domésticas realizadas de maneira menos complicada. O Instituto de Ciência e Tecnologia da Coreia do Sul, onde o projeto foi elaborado, gasta cerca de US$ 3,5 bilhões todos os anos em pesquisas na área de robótica. Mesmo assim, esse robô ainda não tem previsão para chegar ao mercado, porque a produção em grandes quantidades não é vantajosa financeiramente.

Ir às compras pode ser uma verdadeira tortura. É preciso lembrar dos itens que estão faltando em casa, localizar cada um dos produtos nas seções e prateleiras, comparar preços e carregar sacolas pesadas. O Robovie II, produzido pelo Instituto Internacional de Pesquisas Avançadas em Telecomunicações, de Kyoto, no Japão, resolve todos esses problemas. De casa, por meio do telefone celular, o usuário envia a lista de compras para o robô no supermercado. Quando o cliente chega ao local, a máquina reconhece o usuário pelo sistema de localização do telefone, saúda o consumidor pelo nome e inicia as compras. Tem mais. O Robovie II tece comentários sobre a aparência de frutas e verduras. O robô já está sendo testado em lojas da cidade, mas o custo de fabricação também é altíssimo.

Todos esses projetos de robôs humanoides requerem uma tecnologia extremamente apurada. O professor Alberto José Alvares, da faculdade de engenharia mecatrônica da Universidade de Brasília (UnB), ressalta que é exatamente essa sofisticação que torna tais máquinas tão caras. “O preço por unidade é absurdo. Desenvolver uma máquina inteligente e flexível, que consiga realizar tarefas como os humanos fazem, é algo muito complexo. São necessários hardwares e softwares modernos, mas que ainda trazem limitações e custos que se transformam no grande entrave para a comercialização dos robôs”, destaca Alvares. “Essa não é uma tecnologia barata e disponível, como é a da robótica industrial”, completa.

Lazer e diversão

As tarefas realizadas por hobôs humanoides, atualmente, não estão somente no campo das obrigações humanas. Muitas dessas máquinas são programadas para entreter o usuário. Aiko é uma robozinha atraente. Com quase 1,6m, ela tem medidas de deixar muitas mulheres com inveja: 82cm de busto, 56cm de cintura e 84cm de quadril. A conversa entre máquina e humano é permitida por causa das 13 mil sentenças programadas em Aiko. De fabricação canadense, ela adora crianças, tem habilidade para discutir o relacionamento e reclama quando não está feliz com determinada situação. Quanto custa esse sonho de mulher? Cerca de US$ 17 mil, ou algo em torno de R$ 30 mil.

Outra invenção que vem conquistando a admiração do público é o pequeno iCube. O robô apresenta design moderno e traços faciais que remetem a uma criança. Ele foi criado para que pesquisadores possam observar o processo de aprendizado de uma criança que ainda dá os primeiros passos e descobre formas, cores e cheiros. “O objetivo é entender mais sobre a capacidade dos seres humanos de cooperar, trabalhar juntos e compreender o que os outros querem que façamos”, afirma Peter Ford Dominey, responsável pelo projeto, que é desenvolvido com cientistas de todo a Europa.

Quer mais? Eis Asimo. Um simpático humanoide que anda para todos os cantos segurando uma baqueta. Exatamente. Ele é capaz de reger, com precisão, uma orquestra inteira sozinho. O projeto da Honda foi apresentado, no ano passado, em Detroit, nos Estados Unidos, onde impressionou ao comandar programas musicais da cidade na companhia do renomado violoncelista naturalizado norte-americano Yo-Yo Ma. Um dos objetivos da fabricante com o robô é chamar a atenção de crianças e adultos para os concertos da Orquestra Sinfônica de Detroit, incentivando a popularização da música clássica.

Eliana Prado Aude, pesquisadora do Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UCE/UFRJ), explica que os estudos na área de inteligência artificial estão bastante avançados em todo mundo. No Brasil, de acordo com ela, existem trabalhos muito interessantes nesse sentido. “Temos bons laboratórios e profissionais capazes. Não vejo dificuldades em desenvolver robôs programados para realizar tarefas domésticas, por exemplo. O que falta, talvez, seja um direcionamento. Na minha opinião, é uma questão definir as demandas para iniciar o desenvolvimento”, afirma a especialista.

COMPANHIA COMPLETA

Rosie era uma simpática robô que trabalhava na casa da família Jetson e realizava tarefas domésticas. Dona de um jeito estabanado, ela recompensava eventuais confusões com bastante carisma. O desenho animado, que criava um cenário de como seria o mundo no século 21, foi criado há 48 anos. Liderado pelo patriarca George, o quarteto completado por Jane, Elroy e Judy transformou-se em um dos ícones do desenho animado na década de 1960.
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Reportagem: Igor Silveira

Fonte: Correio Braziliense online, 19/03/2010

Guillermo Fariñas Hernández - greve de fome em Cuba


Leito número 8 da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Provincial Arnaldo Millian Castro, na cidade de Santa Clara — capital da província de Villa Clara —, a 268km de Havana. O jornalista e psicólogo cubano Guillermo Fariñas Hernández, 49 anos, sabe que lhe resta pouco tempo e que sua vida está nas mãos do regime de Raúl Castro. Já se passaram 24 dias desde que o dissidente político parou de beber e de comer. Nesse prazo, perdeu 18kg dos 81kg que tinha antes de começar seu protesto.
Com fortes dores de cabeça e praticamente cego, Guillermo recebe um coquetel de soro, glicose, aminoácidos e minerais na veia, por recomendação médica. Seu estado de saúde é considerado grave, porém estável. Em entrevista exclusiva ao Correio, por telefone, ele revelou que sua família se opõe à greve de fome — um gesto extremado para forçar a libertação de 26 prisioneiros políticos de consciência — e avisou: “Estamos dispostos a levar esse protesto até as últimas consequências”.
Guillermo Fariñas fez fortes críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O jornalista acusou o mandatário brasileiro de ser “terrorista” e de ter responsabilidade na morte de Orlando Zapata Tamayo, preso político que sucumbiu à greve de fome em 24 de fevereiro. Naquele dia, Lula desembarcou na ilha caribenha para se encontrar com Raúl e Fidel Castro e condenou a greve de fome.
O dissidente pediu ao povo brasileiro que não vote na candidata Dilma Rousseff, nas eleições de outubro. Apesar de disposto a morrer, Guillermo acredita em resquícios de liberdade em Cuba. Ele cita as “irmãs” do movimento Damas de Branco, que têm saído às ruas de Havana para exigir a libertação de seus maridos, pais e filhos. Na manhã de ontem, as ativistas marcharam em silêncio pela Havana Velha, levando ramos de gladíolos rosas, no sétimo aniversário da prisão de seus 75 familiares.

“Lula é tão assassino quanto Raúl e Fidel”

Qual é a situação de sua saúde?
Bom... A situação de minha saúde... Os doutores que estão me atendendo a consideram grave e estável. Estou com a pressão de 110 por 70. É uma pressão para uma situação de saúde muito debilitada. Também tenho muita dor de cabeça e perdi a visão. Estou recebendo nutrição parenteral por meio intravenoso. Estou recebendo gorduras essenciais, aminoácidos, plasma, minerais e glicose concentrada e uma mistura de água e sal. Comecei a greve de fome em 24 de fevereiro passado. Na verdade, estou em greve de fome e de sede.

Até quando pretende levar essa greve de fome? O senhor pretende realmente morrer em protesto contra o regime de Raúl Castro?
Nós pretendemos que o governo cubano liberte os 26 prisioneiros políticos de consciência investigados pelos médicos militares e do Ministério do Interior, os quais afirmaram que a saúde deles é muito precária. Eles mesmos recomendaram que esses presos sejam postos em liberdade, pois a vida deles corre perigo dentro das prisões. Esse é nosso principal objetivo. Encerraremos a greve de fome se o governo cubano fizer esse gesto de boa vontade ou como queira dizer. É preciso lembrar... Esse governante cubano, Raúl Castro, não foi hipócrita e cínico ao dizer que lamentava a morte de um preso político cubano, quando recorria às impressões brasileiras? Eu lhe digo essas palavras: para que o senhor não precise lamentar outra vez, por favor, ponha em liberdade essas 26 pessoas que estão a ponto de morrer. Do contrário, estamos dispostos a levar esse protesto até as últimas consequências. Isso significa que poderia haver um desfecho fatal. E, dessa forma, assumimos isso.

Sua mulher e sua mãe (1)o apoiam completamente nesse gesto extremo?
Elas não estão de acordo com o que estou fazendo, tampouco meus irmãos de luta e de ideias. Elas respeitam o que realizo. Minha mãe e meu pai falecido me ensinaram que, acima de qualquer afeição, está o amor à pátria. Isso é o mais importante para qualquer cidadão que se considere patriota e que deseje o bem da sua pátria.

Mas é possível ter uma pátria com amplas liberdades civis, sob a tutela de Raúl Castro e do socialismo?
Indiscutivelmente, é impossível ter liberdades políticas, sociais e econômicas com o regime encabeçado por Raúl Castro nesse instante. Raúl e Fidel Castro consideram que Cuba e os cubanos são sua fazenda particular e tratam as pessoas que se opõem a eles de maneira pública como delinquentes comuns. Eles não aceitem que alguém que os enfrente seja uma pessoa correta. Para eles, todas as pessoas que não estão de acordo com suas ideias políticas são desprezíveis e indignas de serem respeitadas.

Sua morte não pode ser vista como um triunfo do regime cubano, já que suas demandas não teriam sido atendidas?
Não, não. Para nós, nossa morte seria um triunfo moral sobre o regime. O regime nos acusa de sermos mercenários. Um “departamento de mercenários” é formado por soldados capazes de morrer em um conflito, motivados por dinheiro. Que eu saiba, nenhum mercenário é capaz de morrer por suas próprias ideias, por aquilo que ele defende. Aqui, eu quero reivindicar a memória de nosso irmão de luta, Orlando Zapata Tamayo, que foi capaz de entregar sua vida. Seríamos capazes também de fazê-lo, para mostrar ao mundo que o que ocorreu a Orlando Zapata Tamayo não foi uma casualidade, mas uma generalização, que ocorre há 52 anos, nos regimes de Fidel Castro e de Raúl Castro.

Como o senhor analisa o papel do Brasil em relação a Cuba? Logo depois da morte de Zapata, o presidente Lula esteve em Havana e se reuniu com Fidel Castro...
Não analiso o papel do Brasil em relação a Cuba, mas o papel do presidente José (sic) Inácio Lula da Silva. Eu considero que Lula é tão assassino de Orlando Zapata Tamayo como são Raúl Castro e Fidel Castro. Consideramos que há uma série de cumplicidades entre a esquerda radical latino-americana e que Lula não é um verdadeiro democrata. Ele é um terrorista solapado que, devido à conjuntura histórica — não existe, nesse momento, uma Guerra Fria —, ascendeu ao poder por meio da democracia presidencialista. No entanto, Lula demonstrou que suas afinidades ideológicas estão acima da vida dos seres humanos. Lula poderia, perfeitamente, ter cancelado sua visita. Faltou-lhe respeito a um defunto, como Orlando Zapata Tamayo, ao compará-lo com os delinquentes de São Paulo.

E o que o Brasil precisa fazer para ajudar Cuba a encontrar o caminho da democracia?
O governo do Brasil precisa respeitar a dor do povo cubano, de Reina Luisa Tamayo — mãe de Orlando Zapata Tamayo — e não ser cúmplice do assassinato. Não tenho nada para pedir a Lula. Para mim, ele é um assassino, um cúmplice. O que peço ao Congresso brasileiro é que faça uma moção de censura ao presidente Lula. Peço ao povo brasileiro que não vote na candidata do Partido dos Trabalhadores (Dilma Rousseff). Se querem render homenagens a Orlando Zapata Tamayo nas próximas eleições, pedimos a vocês que não votem nela. A candidata representa o mesmo engano, hipocrisia e cumplicidade.

Existe algum indício de liberdade em Cuba? O que é ser cubano sob o atual regime?
Penso que sim... Há um resquício de liberdade, posto que por esses dias nossas irmãs, as Damas de Branco, estão tomando as ruas, apesar dos atos de repúdio (do governo) e apesar da repressão de ontem. Hoje elas também estão realizando atividades para que seus maridos e filhos ou irmãos sejam colocados em liberdade, porque são prisioneiros de consciência e somente estão presos por se oporem ao pensamento do regime. É importante recordar aos brasileiros que, quando os familiares de Fidel e Raúl Castro cometeram um ato terrorista, ao assaltar o Quartel Moncada, em 1953, suas irmãs e mães, que realizavam protestos e caminhadas, nunca foram agredidas pelo regime de Fulgencio Batista. Nunca foram repudiadas, golpeadas, sequestradas ou ameaçadas. Foram respeitados seus direitos e seus familiares foram libertados. Aqui vemos a intolerância da dinastia dos irmãos Castro. Fidel, Raúl e seus familiares puderam lutar naquela época. Agora, não permitem e golpeiam quem trata de fazer o mesmo por seus familiares.

Que mensagem sua morte representaria para o povo cubano?
Nossa morte, para o povo de Cuba, representaria um símbolo de que não tememos o terror e estamos dispostos a oferecer nossas vidas pelo bem da pátria, pelo bem da democracia e pelo bem da Cuba e para o bem de todos. Incluindo os castristas e os anticastristas, os cubanos que vivem na diáspora e os cubanos que vivem dentro de Cuba.

Os médicos fizeram algum comentário sobre sua expectativa de sobrevida?
Nós nos encontramos sendo tratados diretamente pelo doutor Elias Béquer García, especialista em terapia intensiva de grande renome e por toda a equipe de especialistas deste hospital. A grande preocupação é o trato intestinal. Segundo o médico Béquer García, meu intestino delgado apresenta várias bactérias que estão comendo umas às outras. Entre 30 e 60 dias, elas começarão a invadir todo meu organismo e a criar toda uma série de infecções em meu corpo. Não há um prazo determinado. Isso depende de fatores biológicos e clínicos, inclusive de minha condição espiritual.

Muitas pessoas vão considerá-lo um mártir, caso morra nos próximos dias. O senhor aceitaria esse título?
Se me consideram um mártir ou não, isso se encarregarão os historiadores de definir. Creio que não serei eu. Eu simplesmente estou cumprindo com o que a minha consciência, como patriota cubano e democrata, me ordena. Estou fazendo o que considero que devo fazer neste momento.

1 - Sofrimento resignado
Durante a tarde de ontem, Alicia Hernández esteve ao lado do leito do filho, no hospital de Santa Clara. Em entrevista ao Correio, por telefone, ela afirmou: “Como mãe, não posso estar de acordo com a greve que ele está fazendo, pois eu prefiro meu filho vivo do que morto”. Segundo ela, não resta nada a fazer a não ser atender aos desejos de Guillermo Fariñas. “Eu o apoio, mas o apoio para tratar de sair disso. E, se houver qualquer outra situação, que ele lute para obter o tratamento indicado”, comentou.
Minha mãe e meu pai falecido me ensinaram que, acima de qualquer afeição, está o amor à pátria”
Lula demonstrou que suas afinidades ideológicas estão acima da vida dos seres humanos”
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Reportagem: Rodrigo Craveiro
Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 19/03/2010