sábado, 29 de maio de 2010

A mística judaica e a moda New Age

 Entrevista com Moshe Idel

Moshe Idel

No hebraico moderno, Qabbalah é uma palavra que se usa normalmente para indicar um recibo fiscal, particípio do verbo "leqabbel", isto é, receber. E paciência se no mundo contemporâneo a mística judaica dos cabalistas enlouquece, deformada em moda New Age.
De repente, descobrimos ligações impressionantes entre a introspecção da alma experimentada na práxis religiosa de outros tempos e o estudo do inconsciente com as técnicas da psicanálise. Esse estranho cruzamento, até a Qabbalah de Madonna & Cia., certamente não é desprezado, mas causa a ironia de Moshé Idel, depois de uma vida dedicada à sempre nova reinterpretação dos textos medievais e modernos, da Espanha à Europa Central, passando pelas sinagogas de Safed e pela cidade da Galileia, onde esses perscrutadores do Incognoscível se encontraram.
Tendo sucedido a Gershom Scholem no ensino de mística judaica na Universidade de Jerusalém, há 22 anos, Moshé Idel teve a coragem de revirar essa visão com o livro "Qabbalah, nuove prospettive", que a editora Adelphi republica, atualizado e corrigido com uma ampla introdução.
Quando o encontro em Verona junto com Elisabetta Zevi, responsável pela seção de hebraística da editora Adelphi, durante uma pausa do seminário "Filosofia versus Kabbalah", organizado pela Fundação Campostrini, esse professor israelense de origem romena pode sorrir comprazido sobre os êxitos dessa controvérsia. "Nenhum estudioso é um Papa. Eu me esforço para corrigir os meus erros. Mas as pesquisas históricas que floresceram nesses 20 anos certamente não legitimaram o violento debate levantado em Israel contra mim, por lealdade ao mestre, pelos seguidores de Scholem".

Eis a entrevista.

Portanto, é errado traduzir literalmente o conceito de Qabbalah, isto é, "recibo", como uma Tradição intocável?
A Qabbalah, sem dúvida, é uma Tradição. Como tal nos foi transmitida e assim deve ser estudada com o devido rigor. Isso não nos exime de reinterpretá-la, depurando-a dos erros de quem nos precedeu.

Por isso, o senhor rejeita a acusação de ter traído Gershom Scholem?
Quando ele me recebeu pela primeira vez, eu era um jovem laureando, e ele já era um professor emérito. Eu lhe submeti aquelas que me pareciam ser contradições entre os seus textos de épocas diversas. Fui brusco, coloquei-as sobre a mesa, sublinhadas. Alguns dias depois, eu recebi em casa uma carta sua com uma meticulosa resposta. Ela terminava com uma frase que não me esqueço: "Bendito aquele que te ajuda a corrigir os teus erros em vez de jogá-las contra ti". Ainda sigo esse ensinamento do mestre Scholem, que me acolheu ao seu lado.

Mas o senhor, Moshé Idel, é só um estudioso ou também um místico?
Espero não lhe desiludir, mas sou só um estudioso. A palavra chave que me impulsiona é a curiosidade. Como nos revela a sua autobiografia, Scholem, desde jovem, utilizou técnicas místicas na sua abordagem da Qabbalah. Não por acaso ele a elevou a sistema de pensamento judaico, e como tal contraposto aos sistemas filosóficos orgânicos de Kant e de Hegel. Eu, ao contrário, vejo na Qabbalah mais simplesmente um modo de viver. Considero o ritmo da vida mais significativo do que as ideias, sem necessidade de contraposições filosóficas.

O senhor não é um místico, não é um filósofo. Como pode então adentrar na esfera do irracional?
Racional, irracional: para mim são só etiquetas. Não busco a verdade nos sistemas filosóficos. Para mim, Aristóteles está errado assim como Platão. Tudo o que pensamos é imaginário. O racionalista Maimônides tem um lugar de honra na história do judaísmo, mas é um imaginário assim como os cabalistas.

Insisto: essa declarada estranheza à introspecção não constitui um limite aos seus estudos?
Admito que foi preciosa para mim a relação instaurada com um místico estudioso da Qabbalah como o rabino Mordechai Attia. Graças a ele, posso dizer que conheci o caso existencial de um cabalista verdadeiro. Mas certamente não o acompanhei quando ele pretendia retrodatar em tempos bíblicos o texto fundamental da Qabbalah, o "Zohar". Continua sendo incontroversa a sua colocação medieval sancionada por Gershom Scholem.

Porém, o senhor tem que admitir que o boom dos estudos contemporâneos sobre a Qabbalah se deve à portentosa capacidade com a qual a mística judaica antecipa a investigação psicanalítica da alma humana.
David Bakan publicou em 1957 uma pesquisa para demonstrar a influência da Qabbalah no pensamento de Freud. Considero isso um exagero. Mas indubitavelmente a Viena de Freud era uma praça em que os rabinos tinham peso, e Freud entendia de cultura judaica mais do que se imagina. É provável que ele tenha sofrido a influência do chassidismo. Mas ao contrário eu duvido que ele conhecia a fundo a Qabbalah.

Mas o movimento chassídico fundado na Polônia por Baal Shem Tov no século XVIII não é talvez a terceira manifestação da Qabbalah? E depois, coincidentemente, esse místico é lembrado como um curandeiro milagroso...
Certamente. Mesmo que estudiosos como Martin Buber a tenham transmitido, não especialistas em Qabbalah, é ali que a mística judaica se revificou chegando até nós como experiência criativa.

A imprevisível difusão mundial dos estudos sobre a Qabbalah é filha de um espírito dos tempos apocalípticos?
Pode ser. Ciclicamente, renova-se a convicção de que o Messias pode vir a qualquer momento. Mas não vem. Continuo cético diante de manifestações de messianismo político derivadas de eventos históricos aparentemente portentosos, como por exemplo a vitoriosa guerra israelense dos Seis Dias. Tais circunstâncias assinalam que, diferentemente do que defendia Gershom Scholem, a Qabbalah pode ser alimentada pela euforia em vez do trauma do exílio. Mas continua sendo uma parcialidade do caso judeu.

A Qabbalah como continuidade em vez de revolução?
Exato. Seria limitado estudá-la como resposta a uma crise histórica, quando, ao invés disso, ela se renova entre nós como tradição.
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*A reportagem é de Gad Lerner, publicada no jornal La Repubblica, 26-05-2010.
A tradução é de Moisés Sbardelotto
Fonte: IHU online, 29/05/2010

“Poucos falam na resistência a Hitler”


ENTREVISTA: DANNY ORBACH, HISTORIADOR ISRAELENSE

Autor de obra lançada em Israel sustenta que, se oficiais rebeldes tivessem assassinado ditador, não seriam “nota de rodapé”Poucos países tiveram sua existência tão condicionada pela II Guerra Mundial e pelo nazismo quanto Israel, fundado por europeus expatriados e, em grande parte, sobreviventes do Holocausto. Para os historiadores israelenses, o foco de interesse nesse período sempre foi a memória das vítimas e o funcionamento da máquina da morte nazista. No início deste ano, Danny Orbach, 28 anos, nascido em Kfar Saba e formado em história na Universidade de Tel Aviv, destoou dessa tendência ao publicar Valquíria – A Resistência Alemã a Hitler (Yedioth Ahronoth Books, inédito no Brasil).

O livro se detém nos complôs de oficiais alemães contra o ditador, especialmente sobre Claus von Stauffenberg (1907 – 1944), líder da conspiração que dá título ao livro e que inspirou em 2008 um filme estrelado por Tom Cruise. Para o eminente historiador Tom Segev, que resenhou Valquíria para o jornal israelense Haaretz em fevereiro, Orbach “acredita no mito da resistência alemã a Hitler”.

Aluno de doutorado em história em Harvard, nos Estados Unidos, Orbach não foge da polêmica. Ele chegou a peticionar o Yad Vashem, museu israelense do Holocausto, para que o almirante Wilhelm Canaris (1887 – 1945), chefe da Abwehr, agência de espionagem do Reich, fosse reconhecido como Justo entre as Nações, título honorífico concedido por Israel aos que ajudaram a salvar vidas de judeus sob o nazismo. Executado em 1945 pelos nazistas por conexões com a resistência, Canaris colaborou comprovadamente com os Aliados, especialmente a Grã-Bretanha, durante a guerra.

– Canaris não ajudou a salvar apenas um judeu, mas centenas – afirma Orbach, cujos avós maternos, de origem romena, sobreviveram ao Holocausto.

A abordagem controversa de Operação Valquíria sobre a oposição a Hitler na Alemanha se soma a outras obras recentes, como O Göring Esquecido, do australiano William Hastings Burke, sobre as atividades antinazistas de Albert Göring, irmão do marechal Hermann Göring. De Boston, Orbach falou por telefone a Zero Hora:


Zero Hora – Por que a resistência a Hitler no interior da Alemanha lhe atraiu como objeto de estudo?
Danny Orbach – Sempre fui interessado pela II Guerra Mundial. De fato, eu era fascinado pelo tema, não só porque meus avós eram sobreviventes do Holocausto, mas porque o assunto dizia respeito a Israel. Na escola secundária, encontrei livros de história geral da II Guerra e tomei contato com a história dos oficiais alemães que tentaram assassinar Hitler. Na universidade, descobri que havia diferentes complôs políticos com o mesmo objetivo.

ZH – Muitos historiadores se detiveram no fato de que a maioria dos alemães colaborou ativa ou passivamente com Hitler. Esse é o foco, por exemplo, do livro Os Carrascos Voluntários de Hitler, de Daniel Jonah Goldhagen. O que o senhor pensa dessa abordagem?
Orbach – Os envolvidos na resistência a Hitler na Alemanha eram uma pequena minoria. A maioria colaborou com o regime. Mas os historiadores em Israel analisam especialmente a colaboração, e praticamente ninguém ou muito poucos falam na resistência a Hitler. A pesquisa histórica deve analisar tudo, de muitos ângulos. É muito ruim levar adiante uma abordagem de um ponto de vista e negligenciar outro. Muitos historiadores fizeram estudos melhores do que o mencionado (Os Carrascos Voluntários de Hitler). Nele há muitos problemas, que outros pesquisadores apontaram. É muito mais um best-seller do que um estudo histórico.

ZH – O historiador Tom Segev escreveu que a resistência alemã a Hitler não merece mais do que “uma nota de rodapé na história”.
Orbach – Bem, depende do que seja o seu texto principal. (Risos.) Gosto muito de Tom Segev. Entretanto, a fim de entender a complexidade do regime nazista, deveríamos ver também a resistência e não somente a colaboração. Algumas tentativas de assassinato de Hitler falharam por falta de sorte, porque um explosivo não foi detonado ou porque alguém removeu a bomba de Stauffenberg. Se tivessem sido bem sucedidas, a resistência não seria uma nota de rodapé. O sucesso não pode ser o único critério ao se julgar fenômenos históricos. Em muitos países, no passado, no presente e talvez no futuro, seremos confrontados por ditaduras totalitárias como o regime nazista. Não é importante estudar como as resistências agem a fim de entender esse fenômeno no futuro? Segev se detém apenas na Alemanha nazista. Vejo a resistência de forma comparativa.

ZH – Stauffenberg pode ser visto como um opositor de boa-fé?
Orbach – É sabido que havia muitas pessoas sob o regime nazista que discrepavam em questões particulares, mas colaboravam em outras. Um bom exemplo é o do bispo Galen (Clemens von Galen, bispo católico de Münster), que se opunha fortemente à eutanásia, o assassinato de portadores de deficiência, mas não resistia em outros terrenos. Mas, quando se decide assassinar o líder no mais alto escalão de poder, essa é a suprema forma de resistência. É claro que nenhum oposicionista discorda do governo em todos os aspectos. Mas as discordâncias de Stauffenberg foram suficientemente importantes para levá-lo a uma vida perigosa, de autossacrifício, a fim de remover esse regime. É ilusório dizer que ele discrepava em algumas coisas. Stauffenberg – aliás, um líder muito complexo – adotou a suprema forma de resistência, e isso deve ser levado em conta.

ZH – O senhor propôs que Wilhelm Canaris seja considerado um Justo entre as Nações. Por quê?
Orbach – Sim, fiz um requerimento sobre Canaris. O Yad Vashem (Museu do Holocausto, em Israel) tem critérios legais pelos quais define um Justo entre as Nações. O primeiro é que tenha salvo pessoalmente judeus, mesmo um único. Canaris salvou centenas. O segundo é que tenha feito isso por, digamos, razões humanitárias – por exemplo, quem foi pago para isso não é um Justo entre as Nações. Pelo menos alguns dos salvos por Canaris o foram por motivos puramente humanitários, e isso significa, no caso dele, contratá-los como espiões ou como funcionários da agência de inteligência, e há mesmo provas de que muitos dos que foram salvos receberam ordens de não espionar e não se engajar em atividades de inteligência. O terceiro critério é ter arriscado a vida. Há evidências de que ele arriscou consideravelmente a vida. Adolf Eichmann (responsável pelos campos de extermínio) enviou uma carta no final de 1942, e tenho essa carta comigo, acusando a Abwehr de salvar judeus e dizendo que, toda vez que a agência empregara judeus como espiões, a ordem partira de Canaris. A carta foi enviada em 1942, e ele continuou salvando judeus. Foi executado em 1945, não apenas por salvar judeus, mas por estar ligado à resistência. O último critério é não reconhecer como Justo entre as Nações alguém engajado no Holocausto, especificamente no Holocausto contra judeus. Não há nem sombra de evidência de que Canaris tenha se envolvido pessoalmente com o Holocausto. Todas essas evidências o qualificam para ser reconhecido como Justo entre as Nações.

ZH – Como o senhor reage às críticas a sua obra dentro e fora de Israel?
Orbach – Para que o debate sobre o Holocausto seja feito, as diferentes opiniões devem ser consideradas legítimas se estiverem baseadas em fatos. Não podemos fazer um verdadeiro debate histórico sobre fatos que não compreendemos. Coloquemos primeiro os fatos sobre a mesa.
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luiz.araujo@zerohora.com.br
POR LUIZ ANTÔNIO ARAUJO
Fonte: ZH online, 29/05/2010

O Entrevero e o Big Mac

CLÁUDIA LAITANO*


Muito antes de o termo globalização chegar às conversas de bar, o Big Mac já era seu garoto-propaganda. O McDonald’s, que está completando 70 anos com filiais em 119 países, inventou não apenas os princípios da fast-food, mas o próprio conceito de comida padronizada (não necessariamente saborosa, mas relativamente insuspeita). O verdadeiro molho especial do sanduíche mais famoso do mundo não é a gororoba estranha sobre o hambúrguer, mas a previsibilidade – a promessa mais ou menos implícita de que não seremos surpreendidos por sabores exóticos, bata a fome em Burkina Faso ou em uma esquina da Champs-Élysées.

Ninguém com mais de oito anos de idade sai de casa com o objetivo de degustar Big Macs do outro lado do planeta, mas quem viaja muito sabe o valor de encontrar um McDonald’s aberto quando nada no horizonte gastronômico parece amigável. Para entender o significado de um Big Mac, basta imaginar o espanto de um estrangeiro diante de um legítimo Entrevero Gaúcho, aquele sanduíche que jamais poderia ter sido criado (ou consumido) em nenhum outro lugar do mundo que não o nosso: cebola, tomate, pimentão, todas as carnes do açougue mais próximo e mais duas fatias de pão para disfarçar. (O estômago gaúcho é um forte.)

No documentário Mondovino (2004), o diretor americano Jonathan Nossiter usava o universo da produção de vinhos para refletir sobre os riscos da globalização. Percorrendo regiões como Bordeaux, Napa, Toscana e até mesmo o interior de Pernambuco, Nossiter mostrava a crescente padronização da bebida, cada vez mais suscetível ao gosto médio dos consumidores e à preocupação das vinícolas em não perder clientes. O enólogo francês Michel Rolland, consultor de dezenas de vinícolas espalhadas em 13 países, inclusive o Brasil, é apontado como um dos agentes dessa padronização dos vinhos em escala global. Um dia, sugere Nossiter, todos os vinhos serão produzidos de forma tão parecida, que as perdas das riquezas locais serão irreversíveis. E o que vale para o vinho pode valer também para a música, as roupas, a arquitetura, a comida... Bye, bye, Entrevero.

Na semana passada, perguntei a um dos maiores especialistas em vinhos do mundo, o brasileiro Dirceu Vianna Junior, radicado em Londres, se ele concordava com a tese de Nossiter de que a globalização estava ameaçando o vinho de “terroir” (próprio de uma área limitada e inimitável). Dirceu me disse que os vinhos “padrão” estão mesmo se multiplicando, mas essa tendência de globalização convive com a valorização cada vez maior dos sabores locais. Essa lógica confirma a tese do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que aos 84 anos é um dos analistas mais interessantes das questões típicas da nossa época. Para Bauman, estamos cada vez mais interconectados e interdependentes, é verdade, e tudo que acontece em algum lugar do planeta tem impacto em todos os outros. Mas o que compartilhamos se traduz em diferentes línguas e em diferentes culturas, e é pouco provável que a nossa interdependência resulte em uniformidade, como as análises mais catastróficas da globalização previam.

O Big Mac não matou o Entrevero. Pelo contrário: seu peculiar sabor local tornou-se um valor em si mesmo. Que aproveitem os fortes.
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*Cronista da ZH
Fonte: ZH online, 29/05/2010

O amor não discute, vai embora

Felipe Pena, Jornal*

RIO - Ela o manipulava utilizando a própria indignação como estratégia. E não precisava se colocar no papel de vítima. Bastava fazê-lo perceber os julgamentos injustos, a paranoia, a insegurança. Mostrava-se plena, absoluta. Uma confiança quase religiosa perpassava seu sorriso meio de lado enquanto falava. Mas não era tão confiante assim.

Só pareceu ter a situação sob controle até reparar nas estantes vazias da sala e nos caixotes com livros perto do bar, onde, no lugar das garrafas, jaziam pedaços de jornal velho. Havia candelabros cobertos com plástico e quadros embrulhados com papelão. Duas malas cheias estavam empilhadas ao lado da porta, junto com alguns objetos que ainda não haviam sido embalados.

Sentiu o golpe, mas fez-se de desentendida. Aquele idiota recalcado estava fugindo! Fugindo de verdade! Fisicamente. Geograficamente. Covarde filho da puta! Por que ficar de conversinha se já estava decidido a partir? Teve vontade de ser mais violenta do que ele, e não apenas de forma verbal. Precisava mordê-lo, arranhá-lo, bater naquela cara bonita. Como ele era bonito! Agora ainda mais, como um soneto incompleto, uma escultura neoclássica sem os membros, algo inacabado e, por ser inacabado, muito mais bonito.

Não tinha um rosto geométrico. Era masculamente desproporcional: os olhos grandes, as maçãs salientes, o queixo pontiagudo e rachado, a barba meio grisalha com falhas visíveis em ambos os lados. E os sulcos laterais denunciando a idade, o detalhe preferido dela. Um rosto perfeito de um homem perfeito. Tão perfeito que não o veria mais.

- Vou voltar pra casa. Não posso mais ficar aqui. Meu voo está marcado pra depois de amanhã.

Então era o fim. Antes mesmo do começo. O fim. O que poderia fazer? Segurá-lo pelo pescoço? Encenar um escândalo? Suplicar para que ficasse? Dizer: eu te amo, não me abandone! Isso seria pior do que perdê-lo. Porque perderia a fleuma, a postura altiva, a verve crítica que o conquistara. E, nesse caso, o perderia de qualquer jeito.

- Não há encantamento na hora da partida. - ele disse. E ela ficou em silêncio.

O jogo de aforismos de repente perdera o sentido. Não conseguia elaborar uma resposta à altura, uma frase de efeito, algo genial que a trouxesse de volta ao controle. Pela primeira vez, não sentia qualquer prazer na superioridade intelectual. Naquele instante, gostaria de ser uma dona de casa siciliana, com as ancas largas, a lasanha no forno e as crianças na barra da saia.

Queria não ter pensado na carreira, no mundo, na sociedade capitalista. Queria não ter se filiado a um partido de esquerda. Queria não ter brigado com a família. Queria não ter lido Nietzsche, Foucault, Marx, Freud, Deleuze, Lacan. Queria não ter ombros largos. Queria não ter opinião.

Mas tinha. E era estranho pensar como tudo que representava tanto valor poucos minutos antes agora não passava de névoa, espuma de chuveiro, pó.

Deslizou o corpo pelo sofá, segurando no braço, para não cair. Olhou reto, certeira, nos olhos dele. Uma lágrima insistia em romper o bloqueio emocional, mas ela a segurou, refez o dique. Enxugou o canto, discretamente, dilatando a pupila para disfarçar. Ele se aproximou, curvou o corpo, tentou beijá-la na testa, mas ela o afastou.

Beijo na testa era pior do que separação.
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*Felipe Pena, além de jornalista e escritor, é psicólogo, professor da Universidade Federal Fluminense, doutor em literatura pela PUC, pós-doutor pela Sorbonne e autor de 10 livros, entre eles o romance 'O marido perfeito mora ao lado'.
Fonte: JB online - 28/05/2010

Charge do dial

Fonte: JB online, 29/05/2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Conceito de justiça muda com a idade

Segundo pesquisa realizada por universidade norueguesa, com o tempo,
as crianças mudam sua percepção sobre a desigualdade,
que passa gradualmente a ser encarada como
algo aceitável

• Humberto Rezende
                                                                             Fotos: NHH/Divulgação
Quase 500 estudantes de 10 a 19 anos participaram do experimento:
preocupação em tomar uma decisão justa foi identificada em todas as idades



Erik e Ingvild:
estudo pode ajudar professores
a lidar melhor com alunos


O que um estudante de 5ª série considera justo quando é necessário distribuir entre as pessoas de um grupo o que elas conseguiram juntar com seu trabalho? Ele estaria disposto a doar mais do que outros para que todos recebessem a mesma quantia? E o que esse aluno acha correto tende a mudar à medida que ele envelhece? São perguntas como essas que um estudo da Escola Norueguesa de Economia e Administração (NHH) publicado na edição de hoje da revista Science busca responder.

Coordenado pela professora Ingvild Almas, o estudo conclui que o conceito que as crianças têm de justiça e desigualdade muda com o tempo. Quando mais novas, elas se mostram dispostas a repartir igualmente os ganhos entre os membros de um grupo. Ao chegarem à adolescência, porém, sua noção sobre o que é justo passa a ser gradualmente influenciada por questões de mérito pessoal.

Para chegar a esse resultado, os cientistas contaram com a participação voluntária de 486 estudantes da 5ª série ao último ano do ensino médio, com idades entre 10 e 19 anos. Todos da cidade de Bergen. Durante o experimento, os alunos participavam de uma versão modificada do Jogo do ditador, muito usado em estudos do tipo. Em uma primeira etapa, usando computadores individuais, eles participavam de uma brincadeira que consistia em escolher números dispostos na tela. Depois de 45 minutos, cada aluno tinha “produzido” diferentes quantias, que recebiam valores determinados pelos pesquisadores. Assim, depois de “trabalharem” por quase uma hora, cada voluntário descobria que possuía um resultado mais ou menos valioso que o dos colegas.

Passada a fase do trabalho, chegava o momento da distribuição. Os alunos eram, então, organizados em duplas. A somente um estudante de cada par era feita a pergunta: “Baseado no total de ganhos que vocês dois conseguiram, quanto você acha que cada um deve receber?”. O voluntário podia determinar qual era a divisão mais justa por conta própria, sem que ninguém soubesse o que havia decidido. A equipe da NHH analisou as diversas decisões levando em consideração a produção e o ganho dos alunos.

O curioso é que grande parte dos estudantes de todas as faixas etárias mostraram-se preocupados em abrir mão de parte de seus ganhos. “Fica evidente na pesquisa que tanto as crianças quanto os adolescentes dão um peso muito grande ao que consideram certo. Eles estão dispostos a sacrificar seus ganhos pessoais, em uma quantidade considerável, para acompanharem seu conceito de justiça”, diz Ingvild, em entrevista por e-mail ao Correio.

O que diferencia as posturas dos estudantes de acordo com a idade é que, quanto mais velhos, mais importância eles dão às conquistas pessoais na hora de tomar a decisão sobre uma divisão justa dos ganhos. Critérios como a sorte, por exemplo, passão menos valorizados. Passa a ser mais aceitável, portanto, que alguns tenham mais que outros, já que produziram mais. No entanto, ressaltam os pesquisadores, o fato de os mais velhos aceitarem melhor que haja desigualdade não significa que eles se importam menos com a justiça. Eles apenas acrescentam novos aspectos na análise, levando em conta o quanto cada um produziu de fato. “À medida que envelhecem, as crianças parecem encarar mais a desigualdade como algo aceitável, mas elas continuam dando muito valor ao que consideram ser justo”, explica Erik Sorensen, coautor do estudo e também professor da NHH.

Escola e esporte

Apesar de não ter sido o foco principal do experimento, os cientistas arriscam algumas explicações para o fato de o senso de justiça das crianças mudar dessa maneira. “Eu diria que o amadurecimento do cérebro e a maior exposição a instituições como a escola e o esporte, que dão muita importância às conquistas individuais, desempenham papéis importantes (nesse processo)”, analisa Ingvild, que é doutora em economia pela NHH.

A pesquisadora acredita que resultado semelhantes seriam encontrados em países diferentes, mesmo no Brasil, onde grande parte da população é católica, diferentemente da Noruega, onde a maioria é protestante. “Em outro estudo semelhante, realizado na Noruega, na Alemanha, na Tanzânia e em Uganda, encontramos diferenças que são pequenas comparadas às mudanças de conceito de justiça observadas nas crianças de diferentes idades. Portanto, eu suspeito que, mesmo os noruegueses sendo maioritariamente protestantes, nós encontraríamos resultados semelhantes em um país com a maioria católica”, afirma.

Para o grupo de cientistas, o maior valor do estudo é demonstrar que as crianças podem ter diferentes visões sobre justiça. “Eu acho que os professores e as escolas deveriam ser mais sensíveis ao fato de que os estudantes discordam sobre o que é justo. Eles discordam entre si e devem discordar também de seus professores”, avalia Sorensen.

"À medida que envelhecem, as crianças parecem encarar mais a desigualdade como algo aceitável, mas elas continuam dando muito valor ao que consideram ser justo”
Erik Sorensen, economista e coautor da pesquisa

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Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 28/05/2010

Irã: quem atira a primeira pedra?

Frei Betto*

O presidente Lula empreendeu delicada operação diplomática para evitar que o Irã utilize a energia nuclear para fins bélicos. As nações mais poderosas do mundo, capitaneadas pelos EUA, logo expressaram sua indignação e discordância: como um “paiseco” como o Brasil ousa querer ditar regras na política internacional?

Marx, Reich e Erich Fromm já nos haviam prevenido que preconceito de classe costuma ser um tabu arraigado. Como alguém que nasceu na cozinha tem o direito de ocupar a sala de jantar?

Pelo critério de George Bush, lamentavelmente preservado por Obama, o Irã faz parte das nações que integram o “eixo do mal”. Não morro de amores pela terra dos aiatolás, considero o governo iraniano uma autocracia fundamentalista e discordo do modo patriarcal que o Irã trata as suas mulheres, como seres de segunda classe. Diga-se de passagem, assim também faz o Vaticano, razão pela qual as mulheres são impedidas de acesso ao sacerdócio.

Mas não custa questionar o cinismo dos senhores do mundo com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU: por que Israel tem o direito de possuir arsenal nuclear e o Irã não? Ele jogaria uma bomba nuclear sobre outras nações? Ora, isso os EUA já fizeram, em 1945, sacrificando milhares de vidas inocentes em Hiroshima e Nagasaki.

O Irã desencadearia uma guerra mundial? Ora, o Ocidente civilizado já promoveu duas, a segunda vitimando 50 milhões de pessoas. O nazismo e o fascismo surgiram no Oriente? Todos sabemos: foram criações diabólicas de dois países considerados altamente civilizados, Alemanha e Itália.

Os árabes, ao longo de 800 anos, ocuparam a Península Ibérica. Deixaram um lastro de cultura e arte. A Europa ocupou e saqueou a África e a Ásia, e o lastro é de miséria, mortandade e extorsão. O Irã é uma ditadura? Quantas não foram implantadas na América Latina pela Casa Branca? Inclusive a do Brasil, que durou 21 anos (1964-1985). Há pouco a Casa Branca apoiou o golpe militar que derrubou o governo democrático de Honduras.

Fortalecido belicamente, o Irã poderia ocupar países vizinhos? E o que dizer da ocupação norte-mericana de Porto Rico, desde 1898, e agora do Iraque e do Afeganistão? E com que direito os EUA mantêm uma base naval, transformada em cárcere clandestino de supostos terroristas, em Guantánamo, território cubano?

Respaldado em que lei internacional os EUA implantaram 700 bases militares em países estrangeiros? Só na Itália existem 14. Na Colômbia, cinco. E quantas bases militares estrangeiras há nos EUA?

Há que admitir: o Irã não está preparado para se integrar no seio das nações civilizadas... Nações que financiam, pelo consumo, os cartéis das drogas, tratam imigrantes estrangeiros como escória da humanidade, fazem do consumismo o ideal de vida.

E convém lembrar: fundamentalismo não é apenas uma síndrome religiosa. É, sobretudo, uma enfermidade ideológica, que nos induz a acreditar que o capitalismo é eterno, fora do mercado não há salvação e a desigualdade social é tão natural quanto o inverno e o verão.

Lula candidato era discriminado pelo elitismo brasileiro por não dominar idiomas estrangeiros. Surpreendeu a todos por falar a linguagem dos pobres e revelar-se exímio negociador em questões internacionais.

Sem o apoio do Brasil não avançaria essa primavera democrática que, hoje, semeia esperança de tempos melhores em toda a América Latina. Os eleitores dão as costas às velhas oligarquias políticas e escolhem governantes progressistas.

Essa nova geopolítica latino-americana, que oficializará em 2011 a União das Nações Latino-Americanas e Caribenhas, certamente preocupa Washington. A crise financeira bate às portas das nações mais poderosas do mundo e a Europa entra num período de recessão. O livre mercado, o Estado mínimo, a moeda única (euro), a ciranda especulativa, mergulham numa crise sem precedentes.

Tudo indica que, daqui pra frente, o mundo será diferente. Se melhor ou pior, depende do resultado do embate entre duas forças contrárias: a dos que pensam a partir do próprio umbigo, interessados apenas em obter fortunas, e a dos que buscam um projeto alternativo de sociedade, menos desigual e mais humano. É a antiética em confronto com a ética.
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*Frade Dominicano. Escritor, é autor de Calendário do Poder (Rocco), entre outros livros (www.freibetto.org)

Fonte: Correio Braziliense online, 28/05/2010

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A coragem do amor que dura

CONTARDO CALLIGARIS*

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Quando amo, consigo olhar o mundo por duas janelas que não se confundem,
 a minha e a do ser amado

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PROLONGANDO MINHAS observações da semana passada sobre "Quincas Berro d'Água", vários leitores e leitoras observaram que a literatura e o cinema, em geral, glorificam a coragem de quem, um belo dia, chuta o balde e vai embora.

E como ficam os que passam a vida inteira deslocando o balde para estancar as goteiras? Será que eles são todos covardes e acomodados?

É inegável: nossa cultura idealiza a ruptura, a aventura, a saída para o mar aberto. Em matéria amorosa, o momento que preferimos contar é a hora do apaixonamento.

Depois disso, gostamos de imaginar que "eles viveram felizes para sempre", mas sem entrar em detalhes que poderiam transformar a história numa farsa.

Uma boa solução, aliás, é que os amantes morram logo. O sumiço (de ambos ou de um dos dois) evita que a comédia da vida que levariam juntos contamine a apoteose do encontro inicial. Os amantes ideais são os que não duraram no tempo: Romeu e Julieta, o jovem Werther e Charlotte, Tristão e Isolda.

Concluir o quê? Que a coragem é sempre a de quem deixa a mornidão de seu conforto para se queimar num instante de paixão? Será que não pode haver coragem nos esforços para que o amor dure?

É óbvio que a duração não é um valor em si: uma relação pode durar a vida inteira e ser uma longa e insulsa experiência repetitiva, sem amor algum. Mas, inversamente, será que as paixões-relâmpago são amores? Enfim, seria útil dispor de uma definição do amor.

Justamente, li nestes dias um livro que me tocou, "Éloge de l'Amour" (elogio do amor, Flammarion 2009, ainda não traduzido para o português), de Alain Badiou; é a transcrição de uma breve entrevista do filósofo francês.

Nela, inevitavelmente, Badiou constata que, em nossa cultura, a visão dominante do amor é a de uma espécie de "heroísmo da fusão" dos amantes, que, uma vez consumidos por sua paixão, podem sair de cena (para não se tornar ridículos) ou sair do mundo e morrer (para se tornar sublimes).

Contra essa visão, Badiou define o amor mais como um percurso do que como um acontecimento: segundo ele, o amor precisa durar um tempo porque é "uma construção".

Confesso que fiquei com medo de que o filósofo nos propusesse amores tagarelas, em que os amantes não parariam de discutir a relação (claro, para construí-la). Por sorte, não se trata disso. Então, o que constroem os amantes?

Geralmente, explica Badiou, minha experiência do mundo é organizada por minha vontade de sobreviver e por meu interesse particular: vejo o mundo só de minha janela.

Certo, ao redor de mim, há muitos outros de quem gosto e aos quais reconheço o direito de também sobreviver e promover seus interesses.

Mas o fato de eu respeitar esses meus semelhantes não muda em nada meu ângulo de visão. É só quando amo que consigo olhar, ao mesmo tempo, por duas janelas que não se confundem, a minha e a de meu amado. A estranha experiência ótica faz com que os amantes reconstruam o mundo, enxergando coisas que ficam escondidas para quem só sabe olhar por uma janela.

Entende-se que o amor assim definido exija tempo. Quanto tempo? Um mês, um ano, uma vida, tanto faz. Consumir-se na paixão pode ser rápido, mas reinventar o mundo a dois é uma tarefa de fôlego.

O amor segundo Badiou, em suma, é uma aventura, mas que precisa ser obstinada: "Abandonar a empreitada ao primeiro obstáculo, à primeira divergência séria ou aos primeiros problemas é uma desfiguração do amor. Um amor verdadeiro é o que triunfa duravelmente, às vezes duramente, dos obstáculos que o espaço, o mundo e o tempo lhe propõem".

Você aprecia a definição, mas a acha um pouco abstrata? Gostaria da história de um amor que dura e se obstina sem se tornar pesadelo ou farsa? Pois bem, acabo de ler um texto comovedor, bonito e capaz de ilustrar e explicar perfeitamente as palavras de Badiou.

Em "Amar o Que É: Um Casamento Transformado" (Objetiva), Alix Kates Shulman conta como ela e Scott, o marido, reinventaram o mundo, a dois, obstinadamente, depois de um acidente que precipitou Scott numa forma de demência.

Há momentos difíceis, sacrifícios e durezas, mas, curiosamente, o relato não chega nunca a ser triste porque se trata de uma extraordinária história de amor.
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*Psiquiátra. Escritor. Colunista da Folha
ccalligari@uol.com.br
Fonte: Folha online, 27/05/2010

Software celular, sintético


Muita bobagem foi dita na semana passada sobre a “vida sintética” criada pelo cientista americano Craig Venter. Então, aqui vai um guia prático para entender (talvez) o que foi feito, o que não foi feito, e quais as implicações disso.

O QUE FOI FEITO

Os cientistas produziram (sintetizaram) em laboratório uma cópia do genoma de uma bactéria, colocaram esse genoma “sintético” dentro da célula de uma outra bactéria cujo DNA original havia sido removido, e essa célula, então, “ganhou vida”, assumiu as características da bactéria original (da qual o genoma foi copiado) e passou a se reproduzir normalmente, produzindo, eventualmente, milhões de cópias dela mesma (como faz qualquer bactéria cultivada in vitro).

O QUE NÃO FOI FEITO

Os cientistas não criaram vida “do nada”. Não transformaram matéria inanimada em matéria viva. Também não produziram uma célula “artificial”, como disse muita gente por aí. O termo “sintético” refere-se ao fato de que o genoma da célula foi sintetizado (confeccionado) em laboratório. Não significa “sintético” como se diz de uma camiseta de Lycra comparada a uma camiseta de algodão. O genoma foi confeccionado com moléculas orgânicas idênticas às de qualquer outra célula viva na natureza.

Os cientistas também não provaram que Deus não existe nem nada desse tipo. Também não explicaram como a vida começou. “Apenas” mostraram que, de posse dos ingredientes e da receita certa, é possível confeccionar um genoma funcional em laboratório.

O QUE HÁ DE IMPORTANTE/INTERESSANTE NISSO?

Os ingredientes básicos, nesse caso, são os ácidos nucléicos adenina (A), timina (T), citosina (C) e guanina (G), que formam a estrutura básica do DNA.

Respondendo a uma pergunta que meu pai me fez: Essas moléculas A T C G são idênticas em todos os seres vivos. TODOS mesmo. Se você coletar DNA de uma rosa, uma bactéria, uma baleia, um ser humano, um cachorro, uma lagartixa, uma barata, um fungo, um grão de arroz ou uma folha de mogno, o genoma de cada um deles será composto das mesmas bases A T C e G.

Os ingredientes químicos da vida são os mesmos para todos os seres vivos. Só o que muda é a receita. Dependendo da quantidade e da ordem de letrinhas, você pode construir qualquer coisa entre uma bactéria e um elefante. Imagine só!

Mas o que isso tem a ver com o experimento da célula sintética? Pois bem: O que os cientistas fizeram foi ler a sequência de bases A T C G do genoma de uma bactéria e sintetizar uma cópia desse genoma em laboratório, letrinha por letrinha.

E de onde vieram as bases A T C e G para isso? Esses ácidos nucléicos podem ser comprados de várias empresas fornecedoras, como se compra qualquer outro insumo de laboratório. Eles podem ser sintetizados quimicamente (grudando átomos de hidrogênio, nitrogênio e oxigênio) ou purificados de microrganismos cultivados in vitro. Você liga lá e pede: “Me manda dois vidrinhos de A, um vidrinho de T” e pronto…. Eles entregam na sua casa.

Os cientistas da equipe de Venter, então, leram a receita do genoma de uma bactéria, reproduziram essa receita em laboratório e botaram essa receita genética dentro de uma outra bactéria cujo DNA original havia sido previamente removido. Como se você tirasse o motor de um carro e substituísse por outro.

Esse é um ponto importante da pesquisa: Os cientistas não produziram uma célula sintética inteira. Ou um carro inteiro. Eles produziram um genoma sintético que foi colocado dentro de uma célula já formada pela natureza e esse genoma funcionou. Botaram o motor sintético dentro de um carro sem motor, e o carro funcionou. O que não é pouca coisa!!! Na verdade, é muita coisa!!! Mas é fato que as outras peças necessárias para o carro funcionar (mitocôndrias, ribossomos e outras organelas essenciais) já estavam presentes na célula original para a qual o genoma sintético foi transplantado. Sintetizar o carro inteiro seria algo imensamente mais complicado. Eu diria até impossível!

Agora, para entender melhor a importância disso, a melhor analogia é pensar no genoma como um software. Um software que, em vez de 1 e 0, utiliza os códigos A T C e G. Há décadas os cientistas já são capazes de transferir genes (pedaços menores do genoma) de um organismo para outro. Agora, reproduzir um genoma inteiro é algo bem diferente.

Podemos pensar nos genes como programas aplicativos específicos, tipo Word ou Excel, e no genoma inteiro como um sistema operacional, que faz a máquina toda funcionar e no qual os aplicativos precisam estar inseridos para funcionar também. Foi isso que Craig Venter fez: ele sintetizou, pela primeira vez, o sistema operacional inteiro de uma célula.

As aplicações, agora, podem ser muitas. Agora que o processo de programação genética foi “dominado”, torna-se possível alterar essa programação ao gosto do cliente. Você precisa de uma célula que chupe CO2 do ar para combater o aquecimento global? Beleza, vamos programar uma para isso. E você precisa de uma que sintetize etanol via fotossíntese? Vamos programar uma para isso também…. E assim por diante.

Alguém aí quer encomendar uma célula?

Abraços a todos.


FOTOS: No alto do post, um pôster com uma representação gráfica do genoma de M. mycoides JCVI-syn1, como foi batizada a linhagem de bactérias contendo o DNA sintético. (disponível no site do J. Craig Venter Institute)

Acima, uma foto de microscopia das próprias bactérias M. mycoides JCVI-syn1, em cultura e em pessoa. (também disponível no site)
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Fonte: http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/software-celular-sintetico/ - 26/05/2010

Metafísicas

L.F. Veríssimo*


Os gregos foram os primeiros a encarar a metafísica com algo mais do que espanto e reverência. No berço da civilização ocidental também nasceu o pensamento organizado sobre o invisível, o além e nossa relação com os deuses. Assim, não deixa de ser irônico que na Grécia moderna hoje se teste os limites da outra metafísica, não a dos filósofos mas a do dinheiro. A que se impôs porque suas abstrações são muito mais potentes do que as aristotélicas ? e rendem muito mais. A Igreja medieval condenava o comércio financeiro porque os juros eram produto de uma coisa infecunda, o próprio dinheiro, e portanto antinaturais, além de serem um preço dado ao tempo, que é de Deus. Mas desconfia-se que a Igreja combatia os juros, acima de tudo, para proteger sua metafísica da metafísica emergente do mercado. Acabou cedendo, aceitou os juros para não ficar de fora do melhor negócio do mundo, que é o dinheiro produzido por dinheiro, e hoje não excomunga mais ninguém por usura.


A vitória não foi da realidade do dinheiro sobre a especulação filosófica, foi de uma irrealidade sobre outra. As duas metafísicas se parecem. Como são feitas no ar, só têm os limites que elas mesmas se dão. Aqueles concílios da Igreja em que discutiam coisas como quantos anjos poderiam dançar na ponta de um alfinete são os antecedentes diretos dos conluios do capital financeiro que geraram as pirâmides de papel desligadas de qualquer lastro real, para o dinheiro produzir cada vez mais dinheiro, cada vez mais abstrato. Na questão dos anjos a discussão era entre os que diziam que o número de anjos que cabiam na ponta de um alfinete era limitado e os que diziam que era infinito. As mesmas especulações etéreas eram feitas sobre até onde poderia ir a farra do capital especulativo. O que a atual crise mostrou é que o número de anjos é finito.

Mas as metafísicas se autoregeneram. A Crise tem significado uma espécie de Purgatório para o capital financeiro descontrolado, mas nenhum dos seus beneficiários acabará no Inferno. Wall Street reage e retoma seus maus hábitos, na Europa optou-se por um adiamento do pior em vez de uma solução. A metafísica medieval, herdeira da metafísica grega, pelo menos garantia a remissão dos pobres e dos virtuosos no fim dos tempos. A metafísica do mercado só garante felicidade para os espertos.
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*Escritor. Cronista.
Fonte: Estadão online, 26/05/2010

Sensorial

Adélia Prado



Obturação, é da amarela que eu ponho.

Pimenta e cravo,

mastigo à boca nua e me regalo.

Amor, tem que falar meu bem,

me dar caixa de música de presente,

conhecer vários tons pra uma palavra só.

Espírito, se for de Deus, eu adoro,

se for de homem, eu testo

com meus seis instrumentos.

Fico gostando ou perdoo.

procuro sol, porque sou bicho de corpo.

Sombra terei depois, a mais fria.


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Por Conceição Freitas
Fonte: Correio Braziliense online, 26/05/2010

Só ajuda quem não atrapalha

Mauro Santayana*


É natural que o presidente Barack Obama concorde em postergar a visita que faria ao Brasil ainda durante o governo do presidente Lula. O governo norte-americano tinha interesse na visita de Obama ainda no ano passado, mas as dificuldades da agenda impediram a viagem. A visita foi adiada para este primeiro semestre. O governo brasileiro ponderou que, se ela se fizesse depois disso, poderia “contaminar” o processo eleitoral. Novamente a pressão dos fatos políticos, internos e externos, com a exigência da ação presidencial junto ao Congresso norte-americano, em decisões cruciais para o país, impediu Obama de vir nesta primeira metade do ano. Não há nada, portanto, que se possa considerar desaire para o presidente Lula e o Brasil.

Mas as razões de Estado, que a diplomacia conhece, não as conhecem a inveja nem a esperteza política. Começou a circular – e foi acolhido por um jornal de São Paulo – a informação de que, por detrás dos fatos, houve manobra vitoriosa de contre-diplomatie, praticada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Senhor da intimidade do ex-presidente Bill Clinton, com quem participa de um clube de ex-presidentes (para o qual nunca foi convidado Itamar Franco), o autoproclamado líder da oposição teria persuadido Clinton e sua mulher a dissuadirem Obama de realizar a viagem. Há, nesse boato, que os partidários do ex-presidente se encarregam de espalhar, a intenção deliberada de ofuscar os grandes êxitos da diplomacia brasileira no atual governo – sobretudo quando obtivemos, juntamente com a Turquia, acordo alentador com o governo de Ahmadinejad.

Se houve realmente essa intervenção de Fernando Henrique, tratou-se de chover no molhado, porque, ainda que Obama o quisesse, não lhe teria sido possível vir, e coube ao próprio governo brasileiro desaconselhar a visita no segundo semestre.

Há que se considerar que a vinda de Obama tanto poderia ser favorável à candidata do PT quanto prejudicial. Tudo dependeria das circunstâncias, e as circunstâncias não têm agenda prévia, nem obedecem aos protocolos diplomáticos.

De qualquer forma, coube a Obama seguir a prudência de nosso governo. Ele terá que esperar o próximo governante brasileiro para uma visita, que será importante para os dois países. Por mais o presidente se informe, mediante os canais diplomáticos e a imprensa, do que é o Brasil, a presença pessoal é decisiva para que ele “sinta” o nosso país, para que conheça o nosso povo, com o qual ele se disse identificado, quando ganhou as eleições de 2008. Há uma observação de Ortega y Gasset – e, provavelmente de outros, pela sua forte obviedade – de que qualquer um pode ler dez anos seguintes sobre Paris e não a conhecerá mais do que aquele que nela estiver e a sentir por dez minutos. Por isso mesmo alguns espertalhões enlatavam o ar de Paris e o vendiam aos turistas encantados.

Obama, se tiver a oportunidade de sobrevoar algumas cidades brasileiras, visitar uma universidade pública e conversar com alguns integrantes da verdadeira intelligentsia nacional, na certa entenderá que não somos, como pensam muitos, entre eles certos brasileiros, apenas uma banana republic mais extensa e mais populosa. Entenderá que os Estados Unidos nos devem ter como interlocutores sérios, e não dóceis vassalos. Uma associação livre, honrada, de plena igualdade, entre os nossos dois povos, seria conveniente ao Hemisfério e ao mundo, nestas horas de grande incerteza. Mas, até hoje, a diplomacia norte-americana se tem pautado pela arrogante divisa – atribuída, entre outros, a Summer Welles, e repetida depois por Henry Kissinger – de que “os Estados Unidos não têm amigos; têm interesses”. Esses interesses os fazem aproximar-se de nosso povo, como ocorreu para o esforço comum contra o nazifascismo, e os fazem cooptar os seus deslumbrados admiradores brasileiros, para golpear as nossas instituições, como fizeram em 1954, contra Vargas, e em 1964, contra Jango.

Não faria mal o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso desmentir – se é que ainda não o fez – a aleivosia que lhe atribuem. Ela só pode prejudicar a candidatura de José Serra, como a prejudicaram outras trapalhadas de que tem sido protagonista o ex-presidente.
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*Jornalista.
Fonte: JB online, 26/05/2010
http://www.jblog.com.br/politica.php

A destruição de árvores

MÁRCIA H. CORRÊA E ROSELI B. TORRES*

Uma das previsões dos cientistas do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas é a de que o aumento da temperatura do planeta levará à ocorrência cada vez mais frequente de chuvas fortes, tempestades e inundações, dentre outros eventos extremos. Nas áreas urbanas, a ocupação desordenada do solo e a sua impermeabilização têm como consequência o aumento da temperatura ambiente. As cidades atuais, onde se concentra a maior parte da população, são ilhas de calor, cuja temperatura ambiente é mais alta do que nas periferias. A existência dessa “bolha” de calor faz com que as tempestades sobre as cidades sejam fortes e violentas, alimentando o ciclo de destruição — enchentes, erosão, perdas materiais e humanas.

Ainda assim, o Departamento de Parques e Jardins (DPJ) de nossa cidade continua ad nauseaum com uma política de destruição das árvores urbanas. Elas têm sido mutiladas, extraídas e mortas sem justificativa técnica, embora existam em nossa cidade conhecimentos acumulados, especialistas em paisagismo, botânica e arborização urbana, e mesmo um guia de arborização urbana (GAUC) disponível para consulta pública no sítio da Prefeitura Municipal de Campinas. Árvores belíssimas e antigos retratos de um plantio diversificado e rico tombam para atender necessidades injustificáveis diante do quadro de degradação ambiental em que vivemos.

Então, qual a explicação para a contínua ação predatória do Departamento de Parques e Jardins ou com a sua expressa autorização? Por que a lei de arborização urbana — Lei nº 11.571, de 17 de junho de 2003 — é reiterada e sistematicamente desrespeitada? Por que os repetidos protestos da população em relação aos maus tratos às árvores da cidade não surtem qualquer efeito prático? Por que, apesar dos protestos de vários conselheiros em reuniões públicas do Comdema, o DPJ continua a autorizar e a efetuar podas e extrações das árvores da cidade sem critério técnico? Por que o Ministério Público, tantas vezes acionado, não se manifesta? Porque tudo é feito sem considerar que nossas perdas ambientais são para sempre e desencadeiam efeitos em cascata, e somos todos atingidos?

Campinas deve proporcionar uma vida de alta qualidade para seus habitantes, já que se coloca entre os maiores PIBs do país. No entanto, a criação de novas praças e de áreas verdes para o lazer e a recreação não é considerada no planejamento e nas discussões dos planos diretores e das macrozonas. Essas áreas verdes desempenham importante papel no equilíbrio psíquico da população e contribuem para a qualidade de vida de todos. As árvores (já cansamos de falar sobre isso) tornam o clima mais ameno, pois as plantas interceptam parte da radiação solar; aumentam a umidade relativa do ar devido à transpiração das folhas; contribuem para a diminuição das enchentes, pois as copas funcionam como anteparo para as chuvas, diminuindo o volume e a velocidade do escoamento superficial; amortecem os ruídos; controlam os ventos; funcionam como filtros das partículas sólidas em suspensão no ar; seus frutos e flores atraem e mantêm as mais variadas espécies de animais, tornando o ambiente urbano mais agradável, e podem contribuir para a conservação da biodiversidade regional.

A arborização planejada e bem cuidada ajuda a conservar o asfalto das ruas, representa economia para os cofres públicos. E também ajuda os moradores a economizar energia para a refrigeração dos ambientes fechados. Além destes benefícios diretos e mensuráveis, a arborização tem o valor estético e cultural — muitas árvores antigas da nossa cidade são marcos históricos para os moradores. Atualmente, temos menos de 3% de vegetação nativa no município — essa constatação nos leva a deduzir que deveríamos estar multiplicando as espécies nativas, estudando a sua biologia e, com planejamento e informação, plantando-as pelas nossas ruas e áreas verdes. Assim, a pergunta persiste — por que o poder público, que tem a obrigação de zelar pelas árvores da cidade, executa e ou autoriza essa política de destruição contínua do patrimônio ambiental urbano?
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*Márcia H. Corrêa é presidente da Associação Protetora da Diversidade das Espécies — Proesp; Roseli B. Torres é bióloga, botânica e vice-presidente da Proesp.
Fonte: Correio Popular online, 27/05/2010

Mário Sergio Portella - vídeo

O professor e filósofo Mário Sergio Portella, no vídeo (abaixo postado- só clicar) irá distinguir o que seja: depressão e cansaço; velho e idoso, numa entrevista curta e inteligente. 

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A cigarra e a formiga

Martin Wolf*




Existem muitos formigueiros.
A Ásia, em especial, está cheia deles.


Quando as formigas chinesas pedirem às cigarras americanas que paguem sua dívida, elas vão reduzir o valor da dívida e a poupança das formigas perderá valor

Todo mundo no Ocidente conhece a fábula da cigarra e a formiga. A cigarra preguiçosa canta durante todo o verão, ao passo que as formigas poupam para o inverno. Quando o frio chega, a cigarra pede alimento à formiga. A formiga recusa-se a dar e a cigarra morre de fome. A moral da história? O ócio gera escassez.

Contudo, a vida é mais complexa do que na fábula de Esopo. Hoje, as formigas são alemães, chineses e japoneses, enquanto as cigarras são americanos, britânicos, gregos, irlandeses e espanhóis. As formigas produzem bens sedutores que as cigarras desejam comprar. A cigarra pergunta se as formigas querem algo em troca. "Não", respondem as formigas. "Vocês não têm nada que queiramos, exceto, talvez, um lugar a beira-mar. Nós vamos lhes emprestar dinheiro. Dessa forma, vocês poderão desfrutar nossos produtos e nós acumularemos reservas".

As formigas e as cigarras ficam felizes. Sendo frugais e prudentes, as formigas depositam suas rendas excedentes em bancos supostamente seguros, que as reemprestam às cigarras. Estas, por sua vez, não precisam mais produzir bens, uma vez que as formigas os fornecem a preços baixos. Mas as formigas não vendem casas, shopping centers ou escritórios às cigarras. Por isso são as cigarras que os constroem. Elas podem até mesmo pedir às formigas que venham para que executem o trabalho. As cigarras se dão conta de que com todo esse afluxo de dinheiro, o preço dos terrenos sobem. Então, as cigarras tomam mais empréstimos e gastam mais.

As formigas são muito melhores na fabricação de produtos reais do que na avaliação de produtos financeiros. Então as cigarras descobrem maneiras inteligentes de empacotar seus empréstimos em ativos atraentes para os bancos das formigas.

Agora, o formigueiro alemão está muito perto de algumas pequenas colônias de cigarras. As formigas alemãs dizem: "Nós queremos ser amigas. Então, por que não usamos todos o mesmo dinheiro? Mas, primeiro, vocês devem prometer comportarem-se como formigas para sempre". Para isso, as cigarras têm de passar por um teste: comportarem-se como formigas por alguns anos. As cigarras passam no teste e então são autorizadas a adotar o dinheiro da Europa.

Todos vivem felizes, por um tempo. As formigas alemãs observam seus empréstimos às cigarras e sentem-se ricas. Enquanto isso, nas colônias de cigarras, seus governos examinam suas contas saudáveis e dizem: "Vejam, nós cumprimos as regras fiscais melhor que as formigas." As formigas consideram isso embaraçoso. Por isso, nada dizem sobre o fato de os salários e os preços estarem subindo rapidamente nas colônias de cigarras, o que torna seus produtos mais caros, ao mesmo tempo em que diminui o ônus dos juros reais, estimulando, assim, ainda mais tomadas de empréstimos e construção de imóveis.

Sensatas formigas alemãs insistem que "árvores não crescem até o céu". Os preços dos terrenos finalmente atingem um pico nas colônias de cigarras. Os bancos das formigas ficam compreensivelmente nervosos e pedem seu dinheiro de volta. Assim, as cigarras devedoras são obrigadas a vender. Isso cria uma cadeia falimentar e paralisa a construção nas colônias de cigarras e os gastos das cigarras na compra de mercadorias das formigas. Os empregos desaparecem - tanto nas colônias de cigarras como nos formigueiros - e os déficits fiscais crescem, especialmente nas colônias de cigarras.

As formigas alemãs percebem que seus estoques de riqueza não valem muita coisa, pois as cigarras não podem prover-lhes nada do que desejam, exceto casas baratas em lugares ensolarados. O governo das formigas têm medo de admitir que deixou seus bancos perderem dinheiro das formigas. Por isso, eles preferem uma segunda alternativa, denominada "operação de socorro". Simultaneamente, eles ordenam que os governos das cigarras aumentem os impostos e cortem gastos. Agora, dizem eles, vocês têm realmente de se comportar como formigas. Por isso, as colônias de cigarras caem em profunda recessão. Mas as cigarras continuam incapazes de produzir algo que as formigas queiram comprar, porque não sabem como fabricá-lo. Como as cigarras não podem mais tomar empréstimos para comprar bens das formigas, elas morrem de fome. As formigas alemãs finalmente dão baixa contábil de seus empréstimos às cigarras. Mas, tendo pouco aprendido com essa experiência, elas vendem seus produtos, em troca de ainda mais dívida, em outros lugares.

Aliás, mundo afora, existem outros formigueiros. A Ásia, em especial, está cheia deles. Um é muito rico, algo semelhante à Alemanha, chamado Japão. Existe também um enorme formigueiro, embora mais pobre, chamado China. Essas formigas também querem ficar ricas vendendo mercadorias para as cigarras a preços baixos. O formigueiro chinês chega a fixar o câmbio de sua moeda em nível para assegurar que seus produtos sejam extremamente baratos. Felizmente, para os asiáticos, ou assim parece, por acaso existe uma colônia de cigarras muito grande e extraordinariamente trabalhadora, chamada EUA. Na realidade, a única maneira de sabermos que se trata de uma colônia de cigarras é o fato de seu lema ser: "In shopping we trust" (confiamos em consumir). Os formigueiros asiáticos desenvolveram, com os EUA, um relacionamento semelhante ao da Alemanha com seus vizinhos. As formigas asiáticas acumulam pilhas de endividamento das cigarras e sentem-se ricas.

Entretanto, há uma diferença. Quando o colapso acontece nos EUA e as famílias param de tomar empréstimos e de gastar e o déficit fiscal explode, o governo não diz a si mesmo: "Isso é perigoso, temos de cortar gastos". Em vez disso, o governo diz: "Precisamos gastar ainda mais, para manter a economia funcionando". Por isso, o déficit fiscal fica enorme.

Isso deixa os asiáticos nervosos. Assim, o líder do formigeiro chinês diz: "Nós, seus credores, insistimos em que vocês parem de tomar empréstimos, exatamente como as cigarras europeias estão fazendo agora". O líder da colônia americana ri: "Não pedimos que nos emprestassem esse dinheiro. Na verdade, nós os avisamos que se tratava de uma loucura. Vamos nos assegurar de que as cigarras americanas tenham empregos. Se vocês não quiserem nos emprestar dinheiro, aumentem o preço de sua moeda. Então produziremos o que costumávamos comprar e vocês não precisarão mais nos conceder empréstimos". Dessa maneira, os EUA ensinam aos credores a lição de um falecido sábio: Se você deve US$ 100 a um banco, você tem um problema, mas se você deve US$ 100 milhões, o problema é do banco.

O líder chinês não quer admitir que sua enorme pilha de dívida americana em seu formigueiro não valerá o que custou. Os chineses também querem continuar a fabricar produtos baratos para estrangeiros. Por isso, no fim das contas, a China decide comprar ainda mais dívida americana. Mas, décadas depois, os chineses finalmente dizem aos americanos: "Agora gostaríamos que vocês nos fornecessem produtos em troca do que nos devem". Então, as cigarras americanas riem e prontamente reduzem o valor da dívida. A poupança das formigas perde valor e algumas delas, então, morrem de fome.

Qual é a moral dessa fábula? Se você quiser acumular riqueza duradoura, não conceda empréstimos a cigarras.
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*Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.
Fonte: Valor online, 26/05/2010

As vira-casacas

MARTHA MEDEIROS*

Fico sempre de pé atrás com pessoas que passam por uma metamorfose radical, virando justamente o oposto do que eram. Quando li um depoimento da outrora Regininha Poltergeist, furacão sensual, musa de Fausto Fawcett e que teve breve carreira como atriz pornô, dizendo que hoje atende pelo nome de Regininha Pentecostes, me deu um frio na espinha. De louca a santa? Ora. De louca a louca e meia.

Acabei lendo um pouco mais sobre essas “perdidas” que se transformam em crentes, as Marias Madalenas deste século. E soube que algumas ex-capas de revistas masculinas hoje estão a serviço da castidade e da abstinência, inclusive pretendem estrear um programa na linha do Saia Justa para “levar uma visão de Deus a assuntos polêmicos”. Pregam que sexo, agora, só depois do casamento. Dizem que foram traídas por quase todos os homens que tiveram e que já se pegaram entre elas a socos para defenderem a posse de seus bofes. Hoje, arrependidas, concluem que só lhes resta ajoelhar e orar.

O famoso meio-termo, nem pensar. É como se um gremista fanático virasse colorado do dia pra noite, ou vice-e-versa.

Sou a primeira a incentivar que as pessoas reavaliem suas escolhas e, caso estejam desgostosas, mudem, se deem a chance de vivenciar novas experiências. Faz parte da dinâmica da vida. Alguns baladeiros notívagos hoje dormem depois da novela e acordam às 5h. Garotas de programa se apaixonam, casam e têm filhos, virando fidelíssimas esposas. E, se alguns céticos passam a frequentar a igreja, ótimo, nenhuma contradição, estão em movimento, desde que não inventem de se transformar em novos messias.

Prefiro comprar um carro usado da Rita Cadillac a um da Regininha Pentecostes. Desconfio de pessoas que trocam de nome, que “renascem depois do acidente”, como se fosse um acidente ter vivido uma história que já não lhes interessa mais. Há muitas coisas que fizemos e não voltaríamos a fazer, estamos sempre em busca de crescimento, e trocar de ideia e de hábitos é parte natural da aventura de estar vivo, mas posar de convertida? É acreditar demais em pecado e salvação.

Todos nós temos um pouco de loucos e de santos, somos modernos para nos vestir e caretas para educar os filhos, corajosos para esportes radicais e apavorados para sair de carro à noite. Se há algo que nos torna criaturas saudáveis é justamente o fato de sermos flexíveis, diversos. E divertidos! O passado passou, não é preciso negá-lo e virá-lo do avesso para legitimar uma nova persona, isso mais parece penitência. Engessar-se num único perfil, seja qual for, é doentio. Nada nos define. A não ser o nosso time, claro.
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*Escritora. Colunista da ZH
Fonte: ZH online, 26/05/2010

Escadas e chicletes

Marcos Coimbra*

Não parece haver qualquer razão para sustentar que as vitórias no futebol são boas para quem está no governo e más para a oposição. Dilma e Serra estão livres para torcer sem preocupações. Ganhando ou perdendo nossa Seleção, suas chances não mudam. Nenhum dos dois teria mais vantagens com a derrota. Podem vestir a camisa verde-amarela e soltar a voz

Conta-se que o ex-presidente Gerald Ford tropeçou um dia ao descer do Air Force One, o avião que transporta os presidentes americanos. Para explicar o vexame, se justificou: “Também, estava mascando chicletes e descendo a escada. Nada mais natural que caísse”.

É fato que muitas pessoas não conseguem fazer duas coisas complicadas ao mesmo tempo e que podem se esborrachar tentando. Mas a maioria consegue.

Como os eleitores brasileiros e a Copa do Mundo. Por obra do acaso, que veio quando o mandato presidencial foi abreviado para quatro anos, quando da aprovação da emenda da reeleição (que reduziu os cinco que a Constituição de 1988 estabelecia), temos eleições presidenciais exatamente nos anos de Copa do Mundo. Em 1994 foi coincidência, pois Collor havia sido eleito para cinco anos e seu mandato terminava em um ano de Copa. No novo figurino, começamos em 1998 e, desde então, toda vez é igual. Já fizemos três e vamos fazer a quarta eleição presidencial com ela no meio. Tomara que tenhamos muitas pela frente.

Deve ser um acaso construído pelos deuses, sabe-se lá se da bola ou da nacionalidade. Se formos mesmo o país do futebol, onde as pessoas mais o amam e mais se envolvem com ele, é uma coincidência feliz que as duas coisas aconteçam tão perto uma da outra. São meses de paixão para quem gosta de ambas, começando agora, passando por jogos cada vez mais emocionantes, atravessando a decisão e prosseguindo, pois a eleição emenda com a Copa e só termina com a apuração no início de outubro (ao que parece) ou no fim do mês.

Em 1994, a Copa, como este ano, foi de meados de junho a meados de julho. Houve quem se perguntasse se o sucesso ou o fracasso da Seleção Brasileira redundaria em vantagens para Fernando Henrique, àquela altura já candidato, ou Lula. O raciocínio banal era que o ex-ministro da Fazenda lucraria se vencêssemos e que Lula seria beneficiado se todos ficassem tristes com a derrota, se enfurecessem com o status quo e resolvessem votar nele só de birra.

Não houve como testar o aforismo “povo que ganha Copa vota no governo, povo que perde Copa vota na oposição”. Veio o Plano Real e aniquilou a candidatura Lula. No fim do mês de julho, FHC ultrapassou os 40 pontos nas pesquisas e foi (quase) tranquilo para uma vitória no primeiro turno. Em outubro, ninguém nem se lembrava mais das especulações sobre a Copa e as eleições. O fato de o Brasil ter vencido não entrou nas explicações do que havia acontecido.

Em 1998, o Brasil perdeu a Copa e o governo venceu a eleição. Em 2002, venceram o Brasil e a oposição. Em 2006, perdemos e ganhou o governo. Ou seja, não parece haver qualquer razão para sustentar que as vitórias no futebol são boas para quem está no governo e más para a oposição. A rigor, a tomar pela nossa experiência, Dilma e Serra estão livres para torcer sem preocupações. Ganhando ou perdendo nossa Seleção, suas chances não mudam. Nenhum dos dois teria mais vantagens com a derrota. Podem vestir a camisa verde-amarela e soltar a voz.

Este ano, a discussão sobre as relações entre Copa do Mundo e futebol tem um ingrediente diferente. Continua-se a especular sobre quem ganha ou perde em função de seus resultados, mas a ênfase da conversa está sendo, especialmente nos últimos dias, outra.

É a ideia de que “tudo começa depois da Copa”. Ela tem tanta sustentação quanto outras mitologias sobre o processo de decisão do eleitorado. “Tudo começa depois da parada (de 7 de setembro)”, “tudo começa depois do andor” e outras parecidas. Em todas, a suposição sem sentido de que os eleitores só vão pensar na eleição depois que alguma coisa importante (ou não) tiver acontecido.

Existem centenas de estudos internacionais que mostram que não é assim que as coisas acontecem. A tomada de contato do eleitorado com a eleição é um processo contínuo, ainda que comece cedo para alguns e mais tarde para outros. Mas acontece diariamente, sem intervalos ou interrupções. Os eleitores conseguem prestar atenção na eleição e na Copa, sem cair da escada.

Quem defende o argumento do “só depois da Copa” são as mesmas pessoas que achavam que tudo começaria depois da desincompatibilização ou depois de quando Serra assumisse sua candidatura. Estavam enganadas. Na verdade, tudo começou há muito tempo.
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*sociólogo e presidente do instituto vox populi

marcoscoimbra.df@dabr.com.br
Fonte: Correio Braziliense online, 26/05/2010