terça-feira, 29 de junho de 2010

A terceira depressão

Paul Krugman*
Recessões são comuns; depressões são raras. Pelo que sei, houve apenas duas eras na história econômica qualificadas como “depressões” na ocasião: os anos de deflação e instabilidade que acompanharam o Pânico de 1873, e os anos de desemprego em massa, após a crise financeira de 1929-31.

Nem a Longa Depressão do século 19, nem a Grande Depressão, no século 20, registraram um declínio contínuo. Pelo contrário, ambas tiveram períodos em que a economia cresceu. Mas esses períodos de melhora jamais foram suficientes para desfazer os danos provocados pela depressão inicial e foram seguidos de recaídas.

Receio que estamos nos estágios iniciais de uma terceira depressão. Que provavelmente vai se assemelhar mais à Longa Depressão do que a uma Grande Depressão mais severa. Mas o custo – para a economia mundial e, sobretudo, para os milhões de pessoas arruinadas pela falta de emprego – será imenso.

E esta terceira depressão tem a ver, principalmente, com o fracasso político. Em todo o mundo – e, mais recentemente, no profundamente desanimador encontro do G-20, no fim de semana -, os governos se mostram obcecados com a inflação quando a verdadeira ameaça é a deflação, e insistem na necessidade de apertar o cinto, quando o problema de fato são os gastos inadequados.

Em 2008 e 2009, parecia que tínhamos aprendido com a história. Ao contrário dos seus predecessores, que elevavam as taxas de juros para enfrentar uma crise financeira, os atuais líderes do Federal Reserve e do BCE (Banco Central Europeu) cortaram os juros e partiram em apoio aos mercados de crédito. Ao contrário dos governos do passado, que tentaram equilibrar os orçamentos para fazer frente a uma economia em forte declínio, os governos hoje deixam os déficits aumentarem. E melhores políticas ajudaram o mundo a evitar o colapso total: podemos dizer que a recessão provocada pela crise financeira acabou no verão (no hemisfério norte) passado.

Mas os futuros historiadores irão nos dizer que esse não foi o fim da terceira depressão, da mesma maneira que a retomada econômica em 1933 não foi o fim da Grande Depressão. Afinal, o desemprego – especialmente o desemprego a longo prazo – continua em níveis que seriam considerados catastróficos há alguns anos e não dão sinal de queda. E tanto Estados Unidos como Europa estão próximos de cair na mesma armadilha deflacionária que atingiu o Japão.

Diante desse quadro sombrio, você poderia esperar que os legisladores tivessem entendido que não fizeram o suficiente para promover a recuperação. Mas não. Nos últimos meses observamos o ressurgimento da ortodoxia do equilíbrio orçamentário e da moeda forte.

O ressurgimento dessas teses antiquadas é mais evidente na Europa, onde as autoridades parecem estar usando os discursos de Herbert Hoover para fundamentar sua retórica, incluindo a afirmação de que elevar impostos e cortar gastos vai expandir a economia, melhorando a confiança nos negócios. Mas, em termos práticos, os EUA não estão agindo muito melhor. O Fed parece consciente dos riscos de uma deflação – mas o que propõe fazer com relação a esses riscos é, bem, nada.

O governo Obama entende os perigos de uma austeridade fiscal prematura – mas como os republicanos e democratas conservadores do Congresso não aprovam uma ajuda adicional aos governos estaduais, essa austeridade se impõe de qualquer maneira, com os cortes no orçamento estaduais e municipais.

Por que essa virada equivocada da política? Os radicais com frequência referem-se às dificuldades da Grécia e outros países na periferia da Europa para justificar seus atos. E é verdade que os investidores atacaram os governos com déficits incontroláveis. Mas não há nenhuma evidência de que uma austeridade a curto prazo, face a uma economia deprimida, vai tranquilizar os investidores. Pelo contrário: a Grécia concordou com a adoção de um plano severo de austeridade, mas viu seus riscos se ampliarem ainda mais; a Irlanda estabeleceu cortes brutais dos gastos públicos e foi tratada pelos mercados como um país com risco maior do que a Espanha, que até agora reluta em adotar medidas drásticas propugnadas pelos radicais.

É como se os mercados financeiros entendessem o que os legisladores aparentemente não compreendem: que, embora a responsabilidade fiscal a longo prazo seja importante, cortar gastos no meio de uma depressão vai aprofundar essa depressão e abrir caminho para a deflação, o que é contraproducente.

Portanto, não acho que as coisas tenham a ver de fato com a Grécia, ou com qualquer apreciação realista sobre o que priorizar, déficits ou empregos. Em vez disso, trata-se da vitória de teses conservadoras que não se baseiam numa análise racional e cujo principal dogma é que, nos tempos difíceis, é preciso impor o sofrimento para outras pessoas pra mostrar liderança.

E quem irá pagar o preço pelo triunfo dessas teses conservadoras? A resposta é: dezenas de milhões de trabalhadores desempregados, muitos deles sujeitos a ficar sem emprego por anos e outros que nunca mais voltarão a trabalhar.
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*é um economista norte-americano. Autor de diversos livros, também é desde 2000 colunista do The New York Times.Fonte: Estadão online, 28/06/2010
Atualmente é professor de Economia e Assuntos Internacionais na Universidade Princeton. Em 2008, recebeu o Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel por um trabalho anterior à atuação como colunista do The New York Times, que tratava da dinâmica da escala - quantidade de produção - na troca de bens entre os países.

Poema dum Funcionário Cansado

António Ramos Rosa*


A noite trocou-me os sonhos e as mãos

dispersou-me os amigos

tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo

as casas engolem-nos

sumimo-nos

estou num quarto só num quarto só

com os sonhos trocados

com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado

um funcionário triste

a minha alma não acompanha a minha mão

Débito e Crédito Débito e Crédito

a minha alma não dança com os números

tento escondê-la envergonhado

o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente

e debitou-me na minha conta de empregado

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar

Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço

Soletro velhas palavras generosas

Flor rapariga amigo menino

irmão beijo namorada

mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho

palavras soterradas na prisão da minha vida

isto todas as noites do mundo numa só noite comprida

num quarto só


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O AUTOR: Já houve quem dissesse que António Ramos Rosa é o grande poeta das coisas primordiais, da luz, da pedra, da água. Português nascido em Faro, Rosa é também ensaísta, tradutor. Publicou dezenas de livros de poesia. Está com 85 anos.
Por Conceição Freitas
Fonte: Correio Braziliense online, 29/06/2010

Literatura e engajamento político

Moacyr Scliar*

“O caso de Saramago prova que, na cabeça de um escritor,
o ficcionista e o intelectual
habitam compartimentos separados”

José Saramago, falecido no último dia 18, era um grande narrador e uma pessoa afetiva, como pude constatar nas várias vezes em que estivemos juntos, no Brasil (ele gostava muito de Porto Alegre, cidade onde moro) e no exterior. E foi também um conhecido comunista. Como tal, acompanhou as transformações pelas quais o comunismo passou, tanto do ponto de vista ideológico como do ponto de vista cultural. Essa trajetória iniciou-se sob o signo do stalinismo, uma ditadura cruel e opressiva, que interferia em todos os setores da vida das pessoas, inclusive na produção literária. Foi a época do chamado realismo socialista.

Os escritores e os artistas em geral tinham obrigação de, em suas obras, reforçar a imagem do comunismo como um regime ideal, em que todas as pessoas viveriam no melhor dos mundos possíveis, para usar a expressão de Voltaire. A pintura mostrava jovens musculosos, bonitos, altaneiros, de olhar sonhador. A arquitetura evidenciava o poder do Estado: prédios maciços, soturnos, esmagadores. E a literatura exaltava a luta dos revolucionários, atacando os chamados reacionários.

Exemplo é o conto do comunista americano Michael Gold, intitulado “Mais depressa, América, mais depressa”. A ação decorre em um trem particular, fretado por um milionário produtor de Hollywood que ali está, com uma jovem atriz de Hollywood. É o comboio da devassidão, atrizes desavergonhadas, intelectuais vendidos à indústria do cinema. Insistem para que a composição vá mais rápido, sempre mais rápido: “A América é um trem particular que esmaga os escorregadios trilhos da História. Mais depressa, América, mais depressa!” Na escuridão da noite sobrevem um terrível acidente. E aí a gloriosa redenção: “Um camponês vem correndo do escuro. Traz uma foice na mão. A ele se une um operário vestindo macacão e empunhando um martelo. Silenciosos, começam o trabalho de salvação. Desponta a aurora.”

Medíocre como era essa literatura, ela oferecia boas compensações: na antiga URSS, os escritores que seguiam os ditames governamentais tinham a publicação de seus livros assegurada e viviam no maior conforto, em prédios construídos especialmente para eles. Já os contestadores (o caso de Isaac Babel) iam direto para os campos de trabalho.

Saramago, que era de família pobre e foi operário, se tornou comunista muito cedo. Como disse mais tarde em entrevista: “Eu sou o que pode se chamar de um comunista hormonal”. Mas o “hormônio comunista” que circulava em suas veias não era suficiente para neutralizar um temperamento independente e impulsivo. Saramago não se adequava ao chamado coletivismo ideológico, que homogeneizava o pensamento dos intelectuais. Era muito franco, dizia o que lhe vinha à cabeça — não foram poucas as brigas que comprou, mesmo porque não raro se contradizia em suas declarações. Como outros comunistas, defendia o regime cubano; mas em 2003, quando dezenas de dissidentes foram presos e três pessoas foram executadas após julgamento sumário, declarou: “De agora em diante, Cuba segue seu caminho, eu fico aqui. Cuba perdeu minha confiança e fraudou minhas ilusões”.

Significava isso um rompimento? Aparentemente sim, mas pouco tempo depois, em entrevista a um jornal cubano, corrigiu-se: “Não rompi com Cuba. Continuo sendo um amigo de Cuba, mas reservo-me o direito de dizer o que penso”. E criticava o comunismo em geral; em entrevista ao Nouvel Observateur, foi taxativo: “ O comunismo? Ora, isso jamais existiu em nenhum país e em tempo algum. Mesmo na ex-União Soviética, o que havia era um capitalismo de Estado.”

O caso de Saramago prova que, na cabeça de um escritor, o ficcionista e o intelectual habitam compartimentos separados. E nem poderia ser de outra maneira. Ficção nutre-se de fantasias, cuja origem, para o próprio escritor, pode ser obscura e incompreensível. Já o intelectual pensa em termos da realidade concreta que ele quer ver modificada. Mas o intelectual pode se enganar e até formular opiniões desastradas: Saramago comparou a ocupação israelense dos territórios palestinos ao regime hitlerista, o que, em se tratando de um grupo que pagou alto tributo ao nazismo, é uma ofensa pesada. De resto, porém, seus livros são admiráveis. Como acontece em A jangada de pedra, no qual a Península Ibérica desprende-se da Europa e sai flutuando pelo oceano, o Saramago ficcionista libera-se dos estreitos referenciais políticos e sai a flutuar pelo oceano da imaginação.
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*Médico. Escritor. Colunista da ZH
Font`: Correio Braziliense online, 29/06/2010

Tomada da Bastilha no Brasil

Sylvain Levy*

A Revolução Francesa foi um processo de transformação do Estado, do governo e da sociedade que durou mais de 10 anos (1789 a 1799) e cujo início pode ser marcado pela convocação da Assembleia dos Estados Gerais, em maio de 1789. Entretanto, a data escolhida como emblemática para caracterizar o movimento foi 14 de julho de 1789, quando o povo tomou a Bastilha, prisão onde eram encarcerados os presos políticos e que na época totalizavam apenas oito. A tomada significou o fim dos privilégios e foram proclamadas a liberdade, a igualdade e a fraternidade.

O Brasil de tantas reformas, revoluções e transformações vive um processo de redemocratização de suas estruturas políticas, econômicas e sociais desde 1985, mas só poderá considerar encerrado o ciclo quando a nossa Bastilha for tomada: a democratização do Poder Judiciário.

Em um sistema pleno de prerrogativas não pode haver igualdade. Ou, como escreveu Millôr Fernandes: “A justiça é cega e aí começa a injustiça”. Enquanto houver prerrogativas haverá privilégios, e com privilégios não há igualdade. Justiça com privilégio é justiça sem equidade, sem isonomia.

A transformação do Judiciário não é um desafio para um governo, mas sim um desafio para o Estado. É a nossa Bastilha a ser derrubada. É necessário libertar o Brasil dessa in-justiça que, há séculos, aprisiona seu povo.

Freud dizia que uma civilização se caracteriza como tal quando as leis existentes servem para que um indivíduo se defenda do outro, para que a sociedade se defenda dos indivíduos e para que os indivíduos se defendam do Estado (e governo).

Apenas num Estado-nação, no qual prevalece um sistema de pesos e contrapesos entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e em cujo Judiciário coexistem em harmonia o cidadão, a sociedade e o governo é possível falar de civilização. Porém, quando um dos poderes se omite (o Legislativo) e outro subordina os demais (o Executivo), o sistema de contrapesos não é operante, ou melhor, opera privilegiando um deles (obviamente o Executivo).

Do mesmo modo, quando inexiste harmonia entre os segmentos — indivíduo, sociedade e governo —, já que persistem privilégios do governo e de alguns indivíduos, qualquer esforço de ministrar a equidade fica desequilibrado. E esse desequilíbrio sempre pende para o lado mais forte, que nunca é o do indivíduo.

O foro privilegiado para autoridades, dirigentes e políticos, assim como a prisão especial para os portadores de curso superior, ofende a igualdade entre os cidadãos e entre os extratos da sociedade, transformada em associação de castas: quem é doutor (tem diploma) merece coisa melhor; quem tem poder é diferente (e diferenciado).

Outro foro privilegiado, sem estar explicitado em lei, mas de uso corrente nos códigos de processos legais e que orientam a tramitação de todas as demandas nos órgãos do Judiciário, é o do poder econômico. “Rico não vai preso.” Muitas vezes nem é julgado, por força das infindáveis possibilidades de recursos que os códigos proporcionam a quem dispõe de bons (e caros) advogados, que podem dedicar tempo, engenho e arte aos processos do clientes. Consequentemente, outra casta se forma: a dos ricos. Outra injustiça se estabelece, e assim nossa sociedade se conforma.

Ao governo, tudo! Aos outros, a letra fria da lei. As prerrogativas do governo nas lides judiciais são conhecidas como prazos contados em dobro, citação pessoal (na Justiça do Trabalho, por exemplo, não vale nem citação por meio eletrônico), entre outros. No entanto, o mais desigual e anti-isonômico é a própria Justiça. Juízes, desembargadores e ministros não precisam se ater a prazo nenhum. Julgam quando (e se) se sentem competentes para tal. Em função disso, processos se arrastam por anos.

Para realçar a diferença com os demais, os juízes sentam-se em tablados que os colocam acima dos demandantes, usam roupas (togas) que os diferenciam de todos e, principalmente, se utilizam de um idioma próprio, que os torna compreensíveis apenas pelos iniciados, distanciando-os do cidadão comum, do indivíduo e da sociedade em geral.

A tal ponto chega esse processo de desidentificação social que seu órgão máximo designa-se como Supremo: Supremo Tribunal Federal, ou seja, suas decisões são irrecorríveis e seus membros inalcançáveis, o que os distancia (instituição e membros) do objetivo concreto de impor um limite às apelações.

Nenhuma mudança estrutural no país estará completa sem que a Justiça se integre à sociedade, sem que seus integrantes se considerem cidadãos, como o são na realidade. Sem que a sociedade tome essa Bastilha.
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*Psicanalista, é membro da Sociedade de Psicanálise de Brasília
Fonte: Correio Braziliense online, 29/06/2010

Ajuste fiscal crível

Antonio Delfim Netto*


Para entender as dificuldades escondidas na construção da União Europeia (UE) e na introdução da moeda única, o euro, basta considerar a situação do país (a Bélgica) em cuja capital ela está centrada (Bruxelas). A Bélgica é um reino construído à moda antiga quando as nações e seus habitantes pertenciam aos seus soberanos. Aparentemente ela é o resultado de um complô amoroso que transformou em 1831 (por artes da diplomacia de casamentos) um lindo príncipe alemão de contos de fadas (falido), em imperador de uma espécie de Estado-tampão, a Bélgica, sob o nome de Leopold I. Ela é constituída por uma combinação de três regiões que se estranham duas a duas: a Valônia (40% da população), onde se fala francês e é mais pobre do que Flandres, onde se fala o flamengo (holandês) e alemão, e Bruxelas (um enclave dentro de Flandres), onde se instalou a corte e sua burocracia afrancesada, que fala as duas línguas. Para dar uma ideia de complexidade desse arranjo, basta lembrar que somente em 1971 ela foi dividida em três comunidades baseadas nas três línguas, que em 1972 foi a primeira vez que um cidadão de língua alemã participou do governo e que só em 1989 foi instituído o sistema federativo. Há, além do mais, uma gravíssima assimetria: enquanto a maioria dos flamengos fala francês, apenas uma pequena minoria dos valônios fala o flamengo.

Essa descrição sumária e imperfeita da construção da Bélgica é suficiente para entender a grande preocupação que se instalou com a recente vitória nas urnas da Nova Aliança Flamenga (N-VA), cujo líder, Bart de Wever, reabre a velha discussão sobre a desconstrução do Estado belga. Criado por uma mágica diplomática, ele poderá morrer nas urnas por ter sido incapaz de equilibrar os crescimentos regionais e de harmonizar os interesses dos valônios e flamengos. Esses que, anualmente, transferem aos primeiros qualquer coisa como 6% do PIB belga!

A essa altura o leitor poderá estar pensando que diabos tem essa confusão belga a ver com os problemas da União Europeia encrencada com a Grécia? Tem tudo! Debaixo do seu nariz, em Bruxelas assiste-se, ao vivo e a cores, que ela está longe de ser uma área monetária ótima, condição necessária para o sucesso e desenvolvimento de uma comunidade econômica a preliminar da integração política que é o objetivo final da União Europeia.

Mas onde está essa evidência que dificulta a realização do generoso desejo de estabelecer a "paz eterna" num continente belicoso em que francos e germânicos lutam há séculos! O problema belga é uma espécie de microcosmo dessa luta: 180 anos de comunhão forçada (nada menos do que sete gerações!) sob a proteção e a mão de ferro de um reino, foram incapazes de dissolver as diferenças. A Bélgica, ela mesma com 32,5 mil km2 (menor do que o Estado do Rio de Janeiro) e 10 milhões de habitantes (menos do que o Estado do Paraná) não é uma área monetária ótima: os valônios e os flamengos não migram para integrarem-se num único mercado de trabalho. A distância média entre um valônio e um flamengo é, certamente, inferior a 100 km (São Paulo a Campinas). Não existe nenhuma restrição física: o problema é linguístico mas, fundamentalmente, é cultural, que se acumulou ao longo do tempo.

Quando olhamos mais de perto, o fenômeno existe (talvez em menor proporção) dentro de todos os países da Eurolândia, mesmo quando usam apenas uma língua com múltiplos dialetos. Apesar de tudo, isso não é um obstáculo intransponível para a construção de uma união política.

O problema que merece hoje maior atenção é como a Eurolândia superará os desequilíbrios fiscais, a descoordenação nas políticas de salários, de preços, de regulação e de produtividade entre os seus membros para recriar o equilíbrio original das suas taxas de câmbio quando entraram no euro. Com relação aos desequilíbrios fiscais há um pessimismo muito grande. A "teoria" derivada de um keynesianismo de pé quebrado afirma que, necessariamente, os ajustes fiscais exigidos produzirão recessão e agravarão os sofrimentos.

Tal proposição só é correta nos livros-texto, quando não se consideram os efeitos estimuladores das expectativas sobre o "espírito animal" dos empresários, se eles acreditarem no programa. Um forte ajuste fiscal que corte permanentemente as despesas, acompanhado da desvalorização do euro, que melhore as condições de competição, não amplie a tributação e tenha credibilidade pode estimular a ampliação dos investimentos privados e levar a uma expansão do PIB. A teoria é velha: Keynes e também Pigou sugeriram essa possibilidade em 1931. Empiricamente, desde os anos 80, essa deixou de ser uma hipótese curiosa, como mostram os casos da Dinamarca e da Irlanda.

Como sempre, a introdução das "expectativas" corrige os resultados dos modelos ingênuos. O que os países da Eurolândia em dificuldade precisam para reduzir os sacrifícios de suas populações é um ajuste fiscal crível, acompanhado da desvalorização do euro e da reorganização de suas dívidas.
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*Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.
Fonte: Valor Econômico online, 29/06/2010

O ‘testamento' de José María Díez-Alegria





Visitei com frequência José María Diez Alegría (foto) na Casa de Saúde dos jesuítas em Alcalá de Henares. Quando completou 97 anos me comunicou algo que considero o seu testamento que procuro reproduzir aqui respeitando as suas palavras, o quanto permite a minha memória. O relato é de Javier Domínguez no sítio Religión Digital, 28-06-2010. A tradução é do Cepat.

Eis o ‘testamento’.


Fiz noventa e sete anos e isto é uma barbaridade. Não gostaria de chegar aos cem anos porque aos cem anos entra-se em uma categoria de monstros da natureza na qual não gostaria de estar. De qualquer forma, se chegar aos cem anos aceitarei com bom humor. Não se pode perder nunca o sentido do humor, de rir-se de si mesmo. Sempre tive esse senso de humor que é muito saudável: não levar muito a sério a si mesmo.

Eu não quero morrer, tampouco quero continuar vivendo. Seja o que Deus quiser. Estou nas mãos de Deus. Sempre digo: ‘quando queira e como queira’. Eu preferiria morrer rapidamente, não quero uma agonia lenta e dolorosa que faz sofrer a todos. Disseram-me que o mais rápido é um edema pulmonar. Eu fiz um testamento vital no qual digo que não prolonguem artificialmente a minha vida, que me deixem morrer tranquilamente e me dêem todos os tranquilizantes necessários para morrer tranquilo, mesmo que encurtem a vida.

Isso é moralmente bom segundo a doutrina católica e lhe digo eu, que fui professor de moral na Universidade Gregoriana. Essa coisa da Opus Dei e dos Legionários de Cristo que obrigam as pessoas a morrerem com dor como Cristo, não sei onde leram isso no evangelho e nem onde estudaram moral. Cristo morreu sofrendo porque alguns perversos o torturaram e lhe crucificaram, mas ele não queria que os seus amigos morressem torturados.

Tudo é um mistério. A vida é um mistério, a morte é um mistério, Deus é um mistério. Nós não conhecemos as coisas em si mesmas, mas as interpretamos segundo nossas categorias mentais. Nossas ideias são ‘predicamentais’ como dizem os filósofos. Vivemos em um mundo ‘predicamental’, hoje diríamos em um mundo virtual e nesse mundo nos movemos com toda desenvoltura, mas não sabemos o que é o mundo em si. Intuímos que há uma realidade ‘transcendente’, não predicamental. A esta realidade transcendente, que chamamos de Deus, não podemos chegar pela razão, que é predicamental. Eu acredito que chegamos a Deus pelo que Kant chamava de razão prática, a razão moral, a razão emocional. Assim podemos chegar a Deus. Mas temos que ter consciência de que este conhecimento é um conhecimento ‘analógico’.

Como dizia Santo Tomás tudo o que afirmemos de Deus, temos que negar ao mesmo tempo. Posso dizer que Deus é bom, mas, ao mesmo tempo tenho que dizer que a palavra bom, que é predicamental, não se pode aplicar a Deus, é outra coisa, na qual entra algo do que eu entendo por bom. Tudo é um mistério. Vivemos rodeados de mistério. Entretanto, se tenho esperança é porque estou nos braços de Deus, ainda que Deus não tenha braços. Como dizia São Bernardo: ‘Deus tem pés para que tu os beije’. Tudo é um mistério e temos que tratá-lo como mistério.

Eu acredito que Jesus de Nazaré não teria compreendido as disquisições dos concílios sobre se tinha duas naturezas (divina e humana) e apenas uma pessoa divina. É um mistério, e eu acredito, inclusive na ressurreição. Jesus, o filho de Deus, passou fazendo o bem e nos ensinou o caminho. O principal de sua mensagem é a opção pelos pobres. Não nos julgará por nossa fé ou nossos ritos, mas sim se demos de comer ou não ao faminto. Estou totalmente de acordo com a teologia da libertação.

Finalmente, penso que a Igreja católica em seu conjunto traiu Jesus. Esta Igreja não é que Jesus quis, mas sim a que quiseram ao longo da história os poderosos do mundo. Estas são ideias que tenho agora, surdo e meio cego, esperando a morte com muita esperança e com muito humor.
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Fonte: IHU online, 29/06/2010

Revisitando Ensaio sobre a Cegueira: a incômoda visão de Saramago

Renato Ferreira Machado*



Na última semana, 18 de junho, calou-se a maior voz contemporânea da língua portuguesa. José Saramago, ao morrer, deixa um legado de perguntas e inquietações sobre a existência humana, feitas de uma maneira que ninguém ainda fizera e dificilmente alguém fará. Ateu convicto, o escritor português partiu desta vida preocupado com a falta de sentido que perpassa a humanidade. Não há novidades nisso, em se tratando de José Saramago: a explicitação desta falta de significado existencial é uma constante em suas histórias. “Ensaio sobre a Cegueira” talvez tenha se tornado sua obra mais conhecida, em função de uma adaptação para o cinema carregada de significados. Para começar, é dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles, que ganhou visibilidade ao mostrar no filme Cidade de Deus alguns meandros da sociedade brasileira de uma forma nunca vista antes. Da mesma forma, o elenco internacional atua sem a imposição hegemônica de uma única cultura (apesar da onipresença da língua inglesa), mas traz à luz uma síntese daquilo que se vive no ocidente como relação social. Enfim, há a grande metrópole onde a história se desenrola e que, no filme, não é identificada. Ali se encontram São Paulo, Buenos Aires e Montevidéo, apresentadas de uma forma que engana a visão: reconhece-se elementos de um lugar ou outro, porém, sem a certeza de que se está mesmo naquele lugar. Neste cenário, acompanhamos personagens sem nome que, aos poucos, são contaminados por uma estranha doença que tira a visão e, compulsoriamente, modifica suas existências.

A cegueira sobre a qual Saramago escreve possui uma sutileza que foi traduzida com fidelidade para as telas: não é uma cegueira de escuridão, mas uma cegueira “branca”, ou, de certa forma, fica-se cego por uma espécie de excesso de luz. Tudo fica branco, sem forma e sem foco, impedindo a diferenciação do que se vê, dificultando a circulação e a comunicação. Este dado, que quase passa desapercebido em toda a trama, carrega um precioso simbolismo: como humanidade, parece que não nos encontramos mais em um tempo de escuridão, em busca de luzes que iluminem a existência; pelo contrário, tem-se a impressão que, na pós-modernidade, vive-se sob intensas luzes que a tudo iluminam e explicitam. Há uma overdose de informações e acesso a estas, que podem trazer, igualmente, uma cegueira que impede a focalização de questões essenciais. Nesta adaptação literária, o cinema desperta a interrogação-chave de toda a filosofia e de toda a antropologia, exatamente pelo elemento audiovisual: o que são o espírito (atividade) e o cérebro (máquina) humanos? Se perceberá que a caracterização do homo não se dará tanto sua dimensão faber ou sapiens, mas exatamente sua porção demens¬ – ser que produz fantasmas, mitos, ideologias, magias. A realidade imaginária do cinema forma um duplo mistério com a realidade imaginária do homem (MORIN).

A evolução da doença vai marcando, simultaneamente, a decadência de condições humanas. De um incidente no trânsito – na sequência inicial – passa-se a um oftalmologista que também perde a visão e que precisará se juntar aos outros infectados: a dinâmica de contágio atropela todas as convenções, juntando a todos em um precário abrigo hospitalar. Logo se percebe que a intenção do isolamento não é tanto a busca de cura para a doença, mas o afastamento dos doentes daqueles que ainda não foram infectados. Em pouco tempo, porém, não haverá pessoas saudáveis e, nas palavras de um idoso caolho, terá restado apenas o caos. Em seu exercício estético, Saramago e Meirelles acabam fazendo um exercício teológico: sua história remete ao caótico primordial, existente antes da criação e que assombra esta pela possibilidade de afastamento por parte de Deus de junto de suas criaturas. Volta-se ao informe e vazio, pois a Palavra Criadora retirou-se, arrependida do que havia criado. Nesta situação, não há mais diferença entre luz e trevas, pois o vazio que a tudo domina não direfencia mais os seres e os devora indistintamente (MOLTMANN). Em meio à escalada da enfermidade, porém, acompanhamos a trajetória de um grupo que se forma dentro do abrigo para infectados. Integrando este grupo há uma mulher que não perdeu a visão e que, ocultando este dado, acompanha solidariamente o marido (o oftalmologista) para o exílio social imposto pelas forças do estado. Ela será testemunha, pela visão, daquilo que os demais só experimentarão pelos outros sentidos: memorizará faces das quais os outros apenas escutaram vozes, enxergará o ambiente degradante no qual está confinada e do qual os outros só saberão do desconforto pelo tato e olfato. A certa altura da história se perguntará a esta personagem se ela teme perder sua visão e ela responderá que tem medo daquilo que pode enxergar. Saramago talvez queira provocar, com isso, a visão do leitor/espectador: a cegueira não acaba se tornando um benefício em determinadas situações? Enxergar com clareza no contexto de Ensaio sobre a Cegueira não traz poder sobre os cegos, mas uma responsabilidade assumida na solidariedade ao sofrimento. Afinal, quando a esposa do oftalmologista resolve acompanhar o marido em sua quarentena, mentindo ser também cega, ela o faz por um amor profundo que a impede de abandonar o amado na angústia em que ele se encontrava.

O poder, por outro lado, é tomado por outros cegos, internados em uma ala vizinha a desta mulher. Um deles se autoproclama rei e passa fazer exigências cada vez mais cruéis aos restantes: para receberem comida, precisam se desfazer de seus objetos preciosos – jóias, relógios, dinheiro, etc. Quando estas riquezas findam, o “rei” e seus asseclas exigem as mulheres de cada ala em troca do alimento. Ala a ala, as mulheres são conduzidas aos “governantes” do asilo e por eles violentadas.

O patriarcado e as manifestações dele decorrentes no sexismo masculino não só humilharam as mulheres, mas também roubaram a humanidade dos próprios homens. O drama do eu masculino reside na busca permanente por segurança mediante o controle e a repressão, porque não há outra maneira de manter um eu consciente dividido. Quando o homem dividido e adestrado compensa os seus medos interiores mediante agressões contra mulheres e sua depreciação, ele destrói a sociedade humana. (MOLTMANN)

Meirelles e Saramago colocam na boca dos homens que estupram as mulheres toda vulgaridade que se ouve dos homens em geral quando se referem às suas “conquistas sexuais” no dia a dia, ressaltando o quanto esta relação perversa se encontra banalizada no atual contexto sociocultural. Ao mesmo tempo, é no olhar feminino que residem a criticidade e a esperança libertadora da opressão vivida na história: neste sentido, é bastante emblemática a imagem na qual as mulheres banham o corpo de uma companheira, morta ao ser estuprada. Parece se encontrar, ali, a urgência do resgate da dignidade humana em meio à degradação causada pela busca desenfreada de poder – dignidade necessária mesmo na morte, como memorial de tudo que a vida poderia ter proporcionado.

Em uma segunda parte da história, os internos deixam o asilo - já abandonado pelas autoridades estatais - e ganham a rua, guiados pela visão da esposa do oftalmologista. Seu caminhar, por uma metrópole deserta, se dá em conjunto, com um pousando a mão sobre o ombro do outro, buscando descobrir caminhos em unidade. Claramente um contraponto ao individualismo cegante da civilização ocidental, esta imagem faz lembrar que, em outra situação – com todos enxergando – cada um faria seu caminho sozinho, sem olhar para os lados ou enxergar o próximo. Assim, nas ruas, a vida é celebrada, com a chegada da chuva, as dúvidas são partilhadas e os tropeços são amparados. Ao passarem por uma igreja, o filme mostra a poderosa imagem de santos com olhos vendados, enquanto o sacerdote faz uma pregação referindo-se a At 9, 3-9 (ler este trecho no final do artigo): talvez a cegueira tenha vindo para que todos enxerguem melhor, como ocorreu a Paulo na estrada de Damasco.

Finalmente, o grupo chega à casa do oftalmologista. Sob um teto comum novamente, as pessoas se purificam das feridas e da sujeira, para logo após partilharem o alimento na mesma mesa. Eis o contraste com a sequência inicial da história, que se passa no trânsito de uma metrópole: em uma grande cidade, feita para muitos habitarem juntos, todos são anônimos e vivem em função da mecânica urbana; na casa, feita para poucos habitarem, há uma população de vozes, histórias, risos, confissões e silêncios. Tudo é importante e ninguém passa desapercebido. Neste ecumenismo – verdadeira habitação da casa comum – é possível voltar a enxergar, pois há o que o enxergar. É assim que a história contada por Saramago e retratada por Meirelles vai chegando ao seu final, com o primeiro cego recuperando sua visão e despertando a mais viva esperança nos demais: se a visão de um retornou a visão dos outros também voltará. Ateu confesso e militante, Saramago acaba fazendo uma bela metáfora sobre a ressurreição no desfecho de Ensaio sobre a Cegueira, uma vez que, na Tradição Cristã, o Cristo que volta dos mortos é esperança de todos os viventes que passarão pela aniquilação de sua existência. Primícia dos mortos, sua ressurreição é sinal da vida eterna prometida por Deus à sua criação. Porém, assim como na trama de Saramago, corre-se o risco de uma cegueira quanto ao profundo da existência, principalmente ao se acreditar em uma autoconsumação da vida através do imediato e daquilo que se pode comprar: ofuscadas pelas luzes do consumismo, do hedonismo, da compulsividade e da indiferença individualista da pós-modernidade, as pessoas precisam retomar seu caminho para casa para, sentados à mesma mesa, partilharem o banquete da dignidade e da paz.

MORIN, Edgar. O Cinema ou O Homem Imaginário.Lisboa: Relógio D’Água, 1997, p. 14.
MOLTMANN, Jürgen. No fim, o Início.São Paulo: Loyola, 2007, p. 49-58

(trecho 3-9):

Durante a viagem, quando já estava perto de Damasco, Saulo se viu repentinamente cercado por uma luz que vinha do céu. Caiu por terra, e ouviu uma voz que lhe dizia: «Saulo, Saulo, por que você me persegue?» Saulo perguntou: «Quem és tu, Senhor?» A voz respondeu: «Eu sou Jesus, a quem você está perseguindo. Agora, levante-se, entre na cidade, e aí dirão o que você deve fazer.» Os homens que acompanhavam Saulo ficaram cheios de espanto, porque ouviam a voz, mas não viam ninguém. Saulo se levantou do chão e abriu os olhos, mas não conseguia ver nada. Então o pegaram pela mão e o levaram para Damasco. E Saulo ficou três dias sem poder ver, e não comeu nem bebeu nada.
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* Doutorando em Teologia nas Faculdades EST
Coordenador do Serviço de Pastoral Escolar e
Orientador Educacional do Ensino Médio
no Colégio Mãe de Deus

Um design ecológico para a democracia

Leonardo Boff *


A democracia é seguramente o ideal mais alto que a convivência social historicamente elaborou. O princípio que subjaz à democracia é este: "o que interessa a todos, deve poder ser pensado e decidido por todos".

Ela tem muitas formas, a direta, como é vivida na Suíça, na qual a população toda participa nas decisões via plebiscito.

A representativa, na qual as sociedades mais complexas elegem delegados que, em nome de todos, discutem e tomam decisões. A grande questão atual é que a democracia representativa se mostra incapaz de recolher as forças vivas de uma sociedade complexa, com seus movimentos sociais. Em sociedades de grande desigualdade social, como no Brasil, a democracia representativa assume características de irrealidade, quando não de farsa. A cada quatro ou cinco anos, os cidadãos têm a possibilidade de escolher o seu "ditador" que, uma vez eleito, faz mais a política palaciana do que estabelece uma relação orgânica com as forças sociais.

Há a democracia participativa que significa um avanço face à representativa. Forças organizadas, como os grandes sindicatos, os movimentos sociais por terra, teto, saúde, educação, direitos humanos, ambientalistas e outros cresceram de tal maneira que se constituíram como base da democracia participativa: o Estado obriga-se a ouvir e a discutir com tais forças as decisões a tomar. Ela está se impondo por todas as partes especialmente na América Latina.

Há ainda a democracia comunitária que é singular dos povos originários da América Latina e pouco conhecida e reconhecida pelos analistas. Ela nasce da estruturação comunitária das culturas originárias, do norte até o sul de Abya Yala, nome indígena para a América Latina. Ela busca realizar o "bem viver" que não é o nosso "viver melhor" que implica que muitos vivam pior. O "bem viver" é a busca permanente do equilíbrio mediante a participação de todos, equilíbrio entre homem e mulher, entre ser humano e natureza, equilíbrio entre a produção e o consumo na perspectiva de uma economia do suficiente e do decente e não da acumulação. O "bem viver" implica uma superação do antropocentrismo: não é só uma harmonia entre os humanos mas com as energias da Terra, do Sol, das montanhas, das águas, das florestas e com Deus. Trata-se de uma democracia sociocósmica, onde todos os elementos são considerados portadores de vida e por isso incluídos na comunidade e com seus direitos respeitados..

Por fim estamos caminhando rumo a uma superdemocracia planetária. Alguns analistas como Jacques Attalli (Uma breve historia do futuro, 2008) imaginam que ela será a alternativa salvadora em face a um superconflito que poderá, deixado em livre curso, destruir a humanidade. Esta superdemocracia resultará de uma consciência planetária coletiva que se dá conta da unicidade da família humana e de que o planeta Terra, pequeno, com recursos escassos, superpovoado e ameaçado pelas mudanças climáticas obrigará os povos a estabelecer estratégias e políticas globais para garantir a vida de todos e as condições ecológicas da Terra.

Esta superdemocracia planetária não anula as várias tradições democráticas, fazendo-as complementares. Isso se alcança melhor mediante o biorregionalismo. Trata-se de um novo design ecológico, quer dizer, outra forma de organizar a relação com a natureza, a partir dos ecossistemas regionais. Ao contrário da globalização uniformizadora, ele valoriza as diferenças e respeita as singularidades das biorregiões, com sua cultura local, tornando mais fácil o respeito aos ciclos da natureza e a harmonia com a mãe Terra.

Temos que rezar para que este tipo de democracia triunfe senão ignoramos totalmente para onde seremos levados.
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* Teólogo, filósofo e escritor - Autor do livro Ecologia, Mundialização e Espiritualidade, Record 2008.
Fonte: Adital online, 28/06/2010

Dívidas morais

JOÃO PEREIRA COUTINHO*

Tocqueville

 
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É precisamente nestes momentos de confusão mental que
devemos revisitar os clássicos

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O MUNDO está alarmado com a dívida. Ou, pelo menos, a circunspecta revista "The Economist", que dedica uma edição ao problema.

No último meio século, o Ocidente viveu do crédito. Governos, empresas, famílias, toda a gente entrou na orgia de gastar agora e pagar depois. Até ao momento em que não era mais possível pagar depois.

A situação, pela sua escala e consequência, é nova na história da espécie. No século 19, quem não pagava os seus empréstimos terminava nos calabouços, com a reputação arruinada. Na primeira metade do século 20, o medo recorrente da carestia e da depressão convidava à poupança e à prudência.

O tsunami aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial e um pequeno pedaço de plástico simbolizava o novo espírito: o cartão de crédito. O Ocidente viveu 70 anos a cavalgar nos seus cartões. E agora?

A consequência mais imediata é que o Ocidente vai conhecer anos de aperto para pôr as contas em ordem. Mas o mais irônico é que pôr as contas em ordem e resolver os déficits que devoram os Estados pode abrandar a economia e fazê-la entrar em novos ciclos de recessão.

O Ocidente está num belo "cul-de-sac": se emagrece, pode morrer de anorexia; se não emagrece, também, mas apenas porque será cada vez mais difícil financiar-se nos mercados internacionais, que deixarão o glutão morrer de fome. A Grécia sabe disso. Portugal sabe disso.

Não sou economista para resolver o dilema. E é precisamente nestes momentos de confusão mental que devemos revisitar os clássicos. É o que faz Steven Malanga em ensaio primoroso para a "City Journal" sobre as lições de Alexis de Toqueville. "Whatever Happened to the Work Ethic?", pergunta ele. É uma boa pergunta.

Tocqueville escreveu "Da Democracia na América" entre 1835 e 1840. E nesse livro de viagens, fresco magistral sobre a "era democrática" nascente, deixou uma lição que importa relembrar: a prosperidade da América era uma consequência do equilíbrio operado pelos nativos entre o interesse próprio e o interesse geral; entre a ambição pessoal e o respeito por valores éticos (e religiosos) fundamentais. Sem esse equilíbrio, feito de "moderação" e "disciplina", o milagre americano não teria sido possível.

Concordo com Steven Malanga sobre a importância desse ensinamento. E então reparo como Tocqueville, vivendo um século depois de Adam Smith, o fundador intelectual do capitalismo, já não parecia partilhar do otimismo "iluminista" do escocês.

Para Smith, o mercado não apenas exigia certas virtudes moderadoras (autocontrole, honestidade, civilidade etc.) como seria também capaz de as sustentar "invisivelmente": sem essas virtudes, não haveria vantagens para o açougueiro, para o cervejeiro ou para o padeiro, que assim perderiam clientela.

Para Tocqueville, o mercado livre poderia não ser capaz de, por si só, promover continuamente as virtudes salubres de Smith. Poderia até arrasar com elas se os indivíduos, em busca da mera gratificação pessoal, perdessem de vista suas naturezas como seres sociais e o respeito a instituições ou valores que sobreviveram aos "testes do tempo".

Quando lemos Tocqueville, aprendemos de imediato que os problemas econômicos do Ocidente são, primeiro, problemas políticos. Eles assentam na forma "despótica" como diferentes governos, assumindo as piores formas de paternalismo, corrompem os seus eleitorados com níveis de vida que não correspondem à produtividade real.

É assim que, nas palavras de Tocqueville, os eleitores do Ocidente vivem uma "minoridade perpétua": porque são mantidos, eleição após eleição, em jardins de infância, feitos de divertimento e dependência.

Mas a "dívida" que assombra as democracias liberais não é apenas uma consequência do "despotismo democrático" que leva os governos a infantilizar as suas populações.

O modo de vida do último meio século, com as consequências conhecidas, constitui um problema radicalmente moral. E, sendo um problema moral, coloca uma questão premente: será que o capitalismo pode operar de forma sadia quando noções antiquadas de "honestidade", "dever", "honra", "poupança" e mesmo "sacrifício" desaparecem completamente do nosso mapa mental e social?

Imagino Tocqueville, do outro lado da eternidade, a olhar para nós e a sorrir de compaixão.
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Fonte: Folha online, 29/06/2010

Sobre vacas, porcos e bolas...

RUBEM ALVES*

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Não é raro que um jogo de futebol termine em tourada e
que seja manifestação de espírito de porco

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EU HAVIA acabado de me mudar de Minas para o Rio de Janeiro, no ano de 1945. Caipira, desconhecia as regras de sociabilidade da capital. Foi então que um colega do curso de admissão chegou-se a mim sorrindo e, num gesto de amizade, me disse: "Eu sou Flu. E você?"

Fiquei abobalhado. Ele era "Flu". "Flu" deveria ser uma coisa muito importante, ao ponto de ele me confessar ser "Flu". Mas eu não sabia o que era "Flu". Diante do meu silêncio ele se dirigiu a um outro colega e lhe disse a mesma coisa. "Eu sou Flu", ele repetiu. "Eu sou Mengo", o outro respondeu. Iniciavam-se assim as relações sociais, não com a troca de cartões de visita, mas trocando nomes de times. Eu não tinha nome a dizer. Portanto não existia...

Contaram-me de um palmeirense roxo que odiava o Corinthians. Já velho, na cama, aguardava o apito do Grande Juiz que o expulsaria de campo. Chamou o filho e com voz trêmula lhe disse: "Estou morrendo. Quero que você faça a minha última vontade. Vá lá no Corinthians e inscreva-me como torcedor".

O filho achou que o velho já estava tendo alucinações. Argumentou. Mas o pai foi irredutível. O filho fez, então, a vontade do pai. Voltou com a carteirinha de torcedor do Corinthians. O velho, vendo o seu rosto na carteirinha, sorriu um sorriso angelical e disse: "Oh, a suprema alegria de ver mais um corintiano morrer..." Ditas essas palavras, entregou a alma.

Sou indiferente ao futebol, exceto quando o Brasil está jogando. Essa indiferença tem sido a causa de muitos embaraços, e cheguei mesmo a levar esse problema à minha psicanalista.

"Por que é que todo mundo se entusiasma com futebol e eu não me entusiasmo?" Ela me sugeriu que deveria haver algum trauma infantil não resolvido no início dessa perturbação. Sugeriu-me entregar-me às associações livres da mesma forma como os urubus se deixam levar pelo vento. Voei. E eis que, de repente, uma cena esquecida me apareceu.

Era um campo de futebol de roça, um pastinho. Dois times estavam jogando. Meu irmão me levara até aquele lugar. Eu nada entendia do que estava acontecendo, com todos aqueles homens em calções correndo para chutar uma bola. Tudo ocorria sem maiores percalços quando, de repente, veio pela estrada de terra um cavaleiro conduzindo uma vaca.

A vaca, vendo aquele alvoroço, a bola que era chutada para lá e chutada para cá, resolveu entrar no jogo. Arremeteu contra a bola, de cabeça abaixada como os touros na arena.

Os jogadores e o juiz fugiram espavoridos. Muitos subiram em árvores. Eu, menino pequeno, não conseguiria subir numa. Meu irmão, para me salvar, arrastou-me para um chiqueiro cheio de porcos e colocou-me lá dentro.

A vaca, não contente em chifrar a bola, dispunha-se a chifrar tudo o que se movesse. Mas eu, dentro do chiqueiro, nada via, a não ser aqueles porcos peludos que grunhiam grunhidos que davam medo.

Minha analista, comovida com o meu relato, concluiu que minha indiferença ao futebol se devia a essa experiência em que o jogo aparece ligado a uma vaca desembestada e a porcos mal cheirosos.

Concordei. Minha primeira experiência com o futebol foi traumática: mistura de bola, vaca e porcos. E está certo: não é raro que uma partida termine em tourada e que seja manifestação de espírito de porco...
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*Teólogo.Educador. Escritor.
Fonte: Folha online, 29/06/2010

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Um posto ligado

Para abastecer direto na tomada

Você precisa abastecer o carro, então, dirige até um posto de combustível. No lugar da bomba, uma pequena tomada abastece seu carro de energia elétrica. Esta cena não está tão longe de sua vida como você pensa. O Brasil já conta com 13 postos elétricos de uma rede exclusiva nos Estados de Espírito Santo e São Paulo.
Hoje, os postos ainda são projetos pilotos, abastecendo apenas bicicletas. Em Guarulhos (SP), a prefeitura recebeu 15 bicicletas elétricas do grupo português EDP Energias para serem testadas pela Guarda Municipal. Se comparadas com uma motocicleta de 125 cilindradas, elas deixam de emitir 85 gramas de CO2 na atmosfera a cada quilômetro rodado. Um passo importante na difusão do uso de transportes menos poluentes.
A iniciativa pioneira da empresa portuguesa é um investimento no futuro, quando o mercado terá expressão. E, também, uma forma de estimular o Brasil a se alinhar com o que há de vanguarda no desenvolvimento mundial de meios de transporte sustentáveis e suas alternativas de carregamento. Questão que desponta em países como Alemanha, Dinamarca, França, Inglaterra e Portugal.
– Daqui a 10 anos, 10% dos veículos devem ser elétricos – diz Miguel Setas, vice-presidente de Distribuição da EDP no Brasil.
Montadoras em todo o mundo trabalham desenvolvendo modelos de carros abastecidos por energia elétrica. Ainda assim, Setas acredita que deve haver uma unidade que permita o uso de postos de abastecimento universais, como os da EDP.
O tamanho dos novos postos de recarga é pequeno se comparado aos atuais. E o carregamento dos veículos ocorre de forma direta à rede de distribuição urbana, com tensão de 127 volts.
Focada na mobilidade, a EDP atua nas áreas de geração, comercialização e distribuição de energia, tendo triplicado sua capacidade instalada desde 2005. Um dos focos é a energia renovável, por isso também o investimento em postos elétricos.
Até o final de 2010, sete novos postos devem ser criados no Brasil. Na sua terra natal, Portugal, eles vão mais longe. Apoiando o projeto governamental Better Place, o grupo pretende instalar mais de mil pontos de recarga de veículos até 2012. E a razão disso tudo é reforçada por Setas:
– Poderemos expandir com segurança quando o mercado explodir.

PÍLULAS ELÉTRICAS

> O reabastecimento da bateria de um veículo elétrico é feito em uma tomada normal, de 127 volts, semelhante à de um aparelho eletrônico. O funcionamento da recarga das bikes pode ser comparado ao de um celular.

> As bicicletas são impulsionadas por motores elétricos alimentados por baterias acopladas ao compartimento traseiro, que devem ser recarregadas a cada 30 quilômetros. A distância é compatível ao percurso patrulhado por um guarda municipal de uma cidade como Guarulhos (SP).

> A bicicleta elétrica atinge 25 km/h e tem um baixo consumo de energia, chegando a aproximadamente 0,8 Kw/h. Este consumo é equivalente ao gasto de uma lâmpada incandescente de 100 watts.

> A bateria da bicicleta é abastecida em seis horas.

> No caso dos automóveis, a área ocupada pelo tanque de combustível ou pelo motor a combustão pode ceder espaço para um motor elétrico ou para baterias. O motor elétrico também pode estar nas rodas.
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Fonte: ZH - Caderno Nosso Mundo Sustentável - 28/06/2010

Caminho para a sustentabilidade: de quem é o primeiro passo?

A FORÇA DA AÇÃO INDIVIDUAL
Especialista na área, a jornalista portuguesa Sandrine Lage (foto) compara a briga sobre quem deve iniciar o movimento rumo à economia sustentável à discussão sobre quem veio primeiro, o ovo ou a galinhaA jornalista portuguesa Sandrine Lage é mestre em Sustentabilidade na Universidade de Cranfield, no Reino Unido, e autora do livro Sustentabilidade na Mídia: O Poder de (In) Formar. Referência na área, Sandrine acredita que o papel dos jornalistas é desmontar o enredo que faz com que o consumidor não saiba que produto escolher na prateleira, por exemplo. Ao falar de um cenário ideal, ela imagina uma orquestra. Com todos tocando ao mesmo tempo, consumidores, empresas e governos, a música seria outra.
– Não podemos dizer quem precisa começar. A mudança tem de ser simultânea – garante.
Do marketing verde até a mobilidade urbana, Sandrine acredita na força da ação individual. Confira trechos da entrevista ao Nosso Mundo:

Nosso Mundo Sustentável – Qual a importância de ações do setor público em relação a práticas sustentáveis?
Sandrine Lage – São importantes, mas fazem parte de um conjunto de iniciativas que devem ter como objetivo a mudança de comportamento. No fundo, está tudo ligado. Consumidores alimentam empresas, empresas alimentam governos, cidadãos votam, e assim vai. É um pouco como a questão de quem surgiu primeiro: o ovo ou a galinha? Tem de ser simultâneo. Ainda assim, a iniciativa individual tem mais peso do que pensamos.

Nosso Mundo – Ainda é difícil diferenciar um produto que segue práticas com menos impacto daqueles que apenas fazem uso do marketing verde. Que práticas o consumidor pode adotar?
Sandrine – A desmistificação não é fácil, implica ter acesso a estudos ou análises do ciclo de vida. A grande questão é consumir produtos locais, em vez de produtos orgânicos provenientes de outros países. Consumir o que é nacional vale para outros setores, como a moda. A camiseta da Nike feita de PET é um exemplo. Faria mais sentido se fosse fabricada no Brasil ou se soubéssemos em que condições de trabalho foi produzida. Evitar, ao máximo, embalagens, e reduzir, em vez de só reciclar. Você pode reciclar muito e, ainda assim, consumir muito. A ideia é transitar do consumismo para o consumo consciente, sem abdicar dos pequenos prazeres.

Nosso Mundo – Faltam certificações isentas na área?
Sandrine – Não sei se é isso. Mas, hoje, as empresas sabem que as certificações adicionam valor à sua marca. Conheço bem o caso da Social AccountAbility 8000 (SA8000), norma internacional de avaliação de responsabilidade social, criada em 1997, que gerou desdobramentos interessantes. Existem estudos que apontam os consumidores de países desenvolvidos como pessoas que valorizam uma marca certificada e estão dispostos a escolhê-la em vez de outras mais baratas.

Nosso Mundo – A mobilidade urbana é um grande desafio hoje. Como vê esta questão no futuro?
Sandrine – Salvo por escolha política inversa, enquanto restar energia a baixo custo, tudo indica que a lógica continuará a levar a melhor. Qualquer racionalidade parece excluída do sistema de mobilidade. As inovações tecnológicas não bastam para inverter tendências, porque a realidade reflete contradições como a de existirem veículos utilizados por um único condutor dirigindo a menos de 90 km/h, quando foram pensados para transportar até cinco pessoas, a uma velocidade duas vezes maior.

Nosso Mundo – Que atitudes concretas podem ser tomadas a longo prazo?
Sandrine – Os carros elétricos poderiam ser uma boa opção, sobretudo nas cidades, desde que o carregamento das baterias fosse realizado com fontes renováveis, como a energia solar. Além disso, aumentar a oferta de meios de transporte menos gulosos e mais limpos. Outra ideia seria criar um imposto ecológico, mediante o impacto no ambiente. Mais do que simbolismos e ações pontuais, uma política de transporte à altura do atual desafio passa por um conjunto de medidas ambiciosas: alterar a oferta de transporte e, sobretudo, privilegiar as opções alternativas à estrada a fim de reequilibrar, ou inverter, as tendências.

Nosso Mundo – E no curto prazo, o que cada um pode fazer?
Sandrine – Imagine. Eu até posso querer um carro elétrico, mas não tenho energia solar em casa ou não tenho dinheiro para comprar outro carro. Então, o que posso fazer? Deixo o carro em casa mais vezes, marco reuniões no mesmo lugar e na mesma data, dirijo vigiando o consumo ou evitando as horas complicadas de trânsito. Não é por não ter um carro elétrico que as pessoas devem virar as costas à mudança de comportamento. Tendo saúde, por exemplo, vá pelas escadas, em vez do elevador (se não for no 20º andar, claro). Tudo isso são mudanças possíveis, e, acredite, se todos aplicássemos, o avanço seria imenso.
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Fonte: ZH online - Caderno Nosso Mundo Sustentável -  28/06/2010

Nietzsche

''Ele era um individualista radical, mas não era inocente''
Autor de uma biografia de Nietzsche que é referência, o alemão Rüdiger Safranski (foto), 65, ataca, na entrevista a seguir, a irmã do pensador, Elizabeth, por tê-lo associado ao nacional-socialismo.
Mas ele lembra que Nietzsche tem culpa no cartório, por haver defendido posições condenáveis - como a "eliminação de formas de vida inferiores".
Safranski também fala de sua obra recém-lançada no Brasil "Romantismo - Uma Questão Alemã", Estação Liberdade, que tem um capítulo dedicado ao autor de "Além do Bem e do Mal" e de "Humano, Demasiado Humano".

Eis a entrevista.

Por que Nietzsche é tão popular entre não especialistas?
Nietzsche de fato se tornou rapidamente um mito para o grande público. Mas por quê? Tudo se encaixa! [Ele era] um solitário que, de modo ousado, proclamou que "Deus está morto" e, como se fosse castigado por isso, enlouqueceu. Sua reputação com o público era de "o ateu louco".
Depois, ficou famoso com a teoria do "super-homem". Segundo ela, é possível o desenvolvimento superior do ser humano, que se torna real quando a pessoa usa bem suas próprias forças.
Além disso, sua linguagem e seu estilo seduziam pela beleza e caía bem colocar a arte acima da ciência: para ele, o homem criativo ocupa um posto mais alto do que o positivista aplicado.

Como o estilo explica a obra?
Alguns aforismos psicológicos eram muito eficazes e não era preciso estudar um sistema para entendê-lo - na verdade, não havia sistema nenhum. Eram "insights" que faziam efeito como: "Você fez iss", diz a memória,/ "Você não pode ter feito isso", diz o orgulho,/ Mais cedo ou mais tarde, a memória cede!". Esse aforismo traz toda a teoria freudiana do recalque.

Como vê sua apropriação pelo nazismo?
A irmã de Nietzsche, que viveu décadas a mais do que ele, fez de tudo para associá-lo à ideologia nacional-socialista. Porque Nietzsche era um espírito independente, liberal, um inimigo do antis semitismo e do nacionalismo.
Era um individualista radical. Sua filosofia da "vontade de poder" se referia sobretudo à formação da individualidade, de que a pessoa deveria ter poder sobre si mesma.
Agora, de fato, ele teve experiências com pensamentos sobre raças superiores e eliminação de formas de vida inferiores. E, nesse contexto, expressou opiniões que posteriormente foram instrumentalizadas pelos nazistas.

Portanto, Nietzsche não foi completamente inocente! Aí, então, é preciso confrontar Nietzsche com Nietzsche!
No capítulo em que trata de Nietzsche, o sr. usa formulações quase idênticas às de sua biografia do pensador...
Nietzsche pertence à história do romantismo. Não se pode simplesmente dizer essas coisas de um modo melhor do que já falei. Não vejo nenhum problema em "utilizar" a mim mesmo.
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A entrevista é de Marcos Flamínio Peres e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 28-06-2010.
Fonte: IHU online, 28/06/2010

Domenico Losurdo - biógrafo de Nietzsche

Entrevista*

De formação marxista, o professor de filosofia na Universidade de Urbino (Itália) Domenico Losurdo(foto) fala sobre sua biografia "Nietzsche - O Rebelde Aristocrata", que está sendo lançada no Brasil.
Destaca a importância dos aforismas na obra do pensador alemão, mas alerta que eles podem ser usados para "provar quase tudo".

Por que Nietzsche é tão popular?
Domenico Losurdo - Ele é um prosador muito fascinante, que se exprime, no mais das vezes, por meio de aforismos. Eles desdenham o cansativo concatenamento das demonstrações lógicas.
Não há leitor que não consiga tirar da obra desse filósofo um aforismo que lhe pareça particularmente iluminador. Mas isso também favorece o arbítrio.

Como é a recepção de sua obra hoje?
Em nível internacional continua a prevalecer a "hermenêutica da inocência", contra a qual meu livro polemiza. Em todo o arco da sua evolução, Nietzsche não se cansa de repetir que a escravidão é o fundamento inalienável da civilização.

Como entender isso?
O início da atividade literária de Nietzsche ocorre em meio à Guerra de Secessão (1861-65), que marca a derrota do Sul dos EUA em eternizar a escravidão negra.
Ele manifestou todo seu desprezo por Beecher-Stowe, a autora do célebre romance abolicionista "A Cabana do Pai Tomás".
Mas, onipresente em Nietzsche e no debate cultural e político da segunda metade do século 19, o tema da escravidão se dissipa ou se transforma numa inocente metáfora no âmbito da hermenêutica da inocência _(Bataille, Deleuze, Vattimo, Colli, Montinari etc.).
Assim o filósofo é "salvo", mas a um preço caro, atribuindo-se a ele uma capacidade limitada de entender e querer no campo político: ele teria feito recurso constante à "metáfora" da escravidão, estando totalmente às escuras na áspera polêmica e na luta que, sobre tal tema, se espalha em volta dele.

Está superada a tão falada relação entre Nietzsche e nazismo? Ele ainda está marcado pelo irracionalismo?
A categoria de "irracionalismo" não me parece particularmente produtiva para explicar Nietzsche e Hitler.
São claros os elementos de continuidade e descontinuidade que subsistem entre um e outro. Quando lemos em Nietzsche terríveis palavras de ordem ("aniquilamento das raças decadentes", "aniquilamento de milhões de malsucedidos"), não podemos deixar de pensar na tradição colonial e no sociodarwinismo, herdados e radicalizados por Hitler.
Também a celebração nietzschiana da escravidão nos reconduz ao nazismo. O Terceiro Reich pretendia encontrar na Europa Oriental, entre os eslavos, os escravos para trabalhar para a "raça dos senhores".
No entanto esse motivo é antípoda ao pensamento de Nietzsche, que, vivendo numa época históricadiferente (anterior à Primeira Guerra), se bate pela unidade da aristocracia de todos os países europeus, inclusive os da Europa Oriental.

O que Nietzsche tem a ensinar no século 21?
Só compreendendo o caráter extremamente reacionário do pensamento de Nietzsche é possível captar a sua grande capacidade desmitificadora.
Exatamente porque condena a abolição da escravatura, a democracia e o movimento socialista, Nietzsche acaba traçando um quadro bastante sombrio do Ocidente e, portanto, contestando sua pretensão de exportar ao mundo a "civilização", por meio da expansionismo colonial e da força das armas.
Não há dúvida de que uma crítica da "guerra humanitária" e do "imperialismo dos direitos humanos" não pode prescindir da lição de Nietzsche.
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Reportagem de MARCOS FLAMÍNIO PERES - DE SÃO PAULO
Fonte: Folha online, 28/06/2010

Padre belga apoia ação policial

"Nestes 18 anos, fui 22 vezes em visita ao arcebispado.
 Em uma ocasião, fui acompanhado por 20 vítimas de abusos sexuais
cometidos por homens da Igreja.
Nada. Nunca me escutaram, nunca fizeram nada.
Sempre protegeram os padres.
Diziam: 'Não existem provas, rezaremos por vocês'.
E depois nos faziam ir embora".

Rik Devillé (foto) tem o ar manso, mas pronuncia palavras pesadas como pedras. Aos seus 65 anos, passou 30 cuidando das almas da igreja de Dom Bosco, em Buizingen, nos arredores do Ring, no sul de Bruxelas. O cruzados dos antipedófilos está aposentado há poucos meses, mas ainda não deixou a paróquia.

Desde 1992, ele recolhe os testemunhos de quem defende ter sofrido violências por parte de padres, tendo acumulado mais de 300 nos arquivos da sua associação Direitos e Liberdade na Igreja. Foi ele, no início de junho, que transmitiu os documentos à procuradoria da capital belga, medida que desencadeou as investigações de Mechelen (Malines). "Foi uma coisa boa", comenta. "Já era hora de que a justiça procurasse os culpados".

Eis a entrevista.

A Igreja belga havia instituído a Comissão Adriaenssens. Não bastava?
O problema era a sua ligação com o arcebispado, a ausência de um componente laico em seu interior de uma conexão com a magistratura. Eu sempre desejei que fosse formada uma comissão verdadeiramente independente, um órgão cujo objetivo fosse o de ajudar a justiça a fazer o seu percurso. Esse deve ser o caminho. Não cabe à Igreja estabelecer quem violou a lei e como deve ser punido.

O senhor acredita que a Bélgica é um caso especial ou que a chaga dos abusos sexuais na sacristia é um mal comum?
Isso acontece em todo o lugar, acredite-me. A Bélgica acreditava ser a exceção, porque nenhum caso jamais havia saído à tona. Porém, ainda em 1994, havia recolhido 82 denúncias. As vítimas queriam ser ouvidas pela Igreja, queria romper a maldição. Foi inútil, pelo menos até agora.

O senhor relatou ter se aproximado também de Godfried Danneels, o ex-primaz belga. Ele diz que não se lembra do senhor.
Eu falei com ele sobre os meus dossiês em duas ocasiões, na primeira metade dos anos 90. Eu lhe indiquei o problema e não sei o que ele fez depois. Em uma ocasião, porém, lembro que o cardeal ficou com raiva. Disse que esse não era o meu trabalho, que eu devia ficar de fora.

O senhor acredita que ele estava escondendo alguma coisa?
Os bispos têm uma longa história em suas costas quanto a silêncios e omissões. Protegem os culpados e não as vítimas.

Como os belgas reagiram? São um povo muito católico...
Eles eram, uma vez. A partir dos anos 60, a Igreja Católica tornou-se sempre menos democrática, e os fiéis se afastaram. Se olharmos para o passado, é um poder que está apodrecendo. Não se fala mais do progresso, de pôr fim ao celibato ou de ordenar mulheres ao sacerdócio.

O senhor acha que haveria uma solução também para reconsolidar as relações com as pessoas?
Certamente não sozinha. A Igreja não deve voltar à Idade Média, mas confiar-se de modo mais concreto à letra do Evangelho, cuidar dos pobres e dos fracos, renunciar à ostentação do poder terreno. Senão, só poderá ir lentamente rumo ao seu fim.

Pergunta minha: E no BRASIL, os nossos prelados será que estão imunes destes procedimentos de "empurrar com a barriga"  os fatos que chegam até eles? Há casos...
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A reportagem é de Marco Zatterin, publicada no jornal La Stampa, 27-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelottto.

Fonte: IHU online, 28/06/2010

Paine, Blair e Cameron

Eduardo Suplicy*

RIO - Excelentíssimo senhor David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido:

Em maio passado, o novo governo inglês anunciou que, como parte das diretrizes de redução de gastos, extinguirá o Fundo Patrimonial da Criança. Faço um apelo no sentido de que esta decisão seja reconsiderada. Ministro Cameron, no seu país, viveram pessoas que deram extraordinárias contribuições para a história da humanidade. Thomas Paine, em 1795, em Justiça agrária, observou que a pobreza era algo que tinha sua origem na civilização e na propriedade privada. Nas vilas e cidades europeias de então havia maior pobreza do que na América, porque lá a propriedade era comum entre os índios. Considerava, entretanto, ser de bom senso que uma pessoa que cultivasse a terra e nela realizasse benfeitorias devesse ter o direito de usufruir do seu trabalho na sua propriedade. Mas era seu plano que toda pessoa que assim procedesse separasse parcela do seu ganho para um fundo comum. E, uma vez acumulado, pagar-se-ia a cada pessoa, ao completar 21 anos de idade, um capital básico e, ao completar 50 anos, uma renda básica anual. Não como caridade. Mas como direito de todos participarem da riqueza da nação.

Com base na reflexão de Paine, os professores Bruce Ackerman e Ann Alstott, da Universidade de Yale, em 1999, publicaram o livro The stakeholder society (A sociedade dos participantes), em que propõem que todo cidadão nos EUA, ao completar 21 anos, receba um capital básico de US$ 80 mil dólares. Um capital básico pode sempre ser transformado num fluxo de renda básica ao longo do tempo e vice-versa. Um dos alunos de Ackerman, amigo do primeiro-ministro Tony Blair, levou a ideia para a Inglaterra. Quando Blair anunciou que sua mulher estava grávida de seu quarto filho, propôs ao Parlamento que, daí para frente, todas as crianças em seu país recebessem, ao nascer, uma poupança de 250 libras esterlinas e, ao completar sete anos, mais 250 libras. Se a renda anual da família fosse inferior a 17 mil libras esterlinas, as quantias depositadas seriam de 500 libras. Com o rendimento dos juros, a criança, ao completar 18 anos, teria o direito de receber a quantia acumulada para iniciar sua vida adulta. Essa proposta foi aprovada como a lei que instituiu, em maio de 2003, o Fundo Patrimonial da Criança (Child Trust Fund), válido para todas as crianças nascidas a partir de 1º de setembro de 2002.

Nesta semana, nos dias 30 de junho, 1º e 02 de julho, na Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo será realizado o 13º Congresso Internacional da Rede Mundial da Renda Básica (Basic Income Earth Network). Pesquisadores de mais de 35 países analisarão cerca de 100 trabalhos sobre experiências de todo o mundo, sob o lema: “A renda básica como um instrumento de justiça e paz”. O Congresso apresentará congratulações ao Reino Unido por ter aplicado, depois de tanto tempo, as proposições tão bem fundamentadas por Thomas Paine. Portanto, fica o apelo ao primeiro-ministro: não dê um passo atrás. Mantenha o Fundo Patrimonial da Criança. Ele é um exemplo para todo o mundo.
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*Eduardo Suplicy é senador(PT-SP).
Fonte: JB online, 27/06/2010