domingo, 29 de agosto de 2010

Fast food agrava crise de civilidade entre americanos"


Janet A. Flammang*
 Tese é defendida por professora californiana,
que vê reflexos na situação de radicalismo político do país


Estudos mostram que pessoas gastam apenas 20 minutos por refeição,
o que desestimularia conversa e tolerância

Há uma "crise de civilidade" nos Estados Unidos que afeta principalmente a política, e uma das razões para isso é o fato de as pessoas dedicarem cada vez menos tempo às refeições em grupo.
A tese está no livro "The Taste for Civilization - Food, Politics and Civil Society" (o gosto pela civilização - comida, política e sociedade civil; à venda na Amazon.com por cerca de R$ 40, mais taxas), da cientista política Janet Flammang, 62.
Professora da Universidade Santa Clara, na Califórnia, Flammang diz que a "arte da conversação" é aprendida à mesa, onde "há um incentivo para discordar sem dar aos outros uma indigestão".
Em entrevista à Folha, Flammang diz ver esse problema refletido no Congresso, onde os "políticos de partidos diferentes não socializam". Em outubro, ela participa de painel promovido pelo governo para discutir o assunto, parte do "tour da civilidade por 50 Estados".
A iniciativa é de Jim Leach, ex-congressista que foi nomeado pelo presidente Barack Obama como titular do National Endowment for the Humanities, agência do governo dedicada a apoiar pesquisa, educação e programas públicos em humanidades.
Leach viaja pelo país, desde o fim de 2009, dando palestras sobre "o discurso do ódio e os seus perigos". Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Folha - A sra. diz, em seu livro, que a democracia se beneficiaria de refeições mais longas. Como relaciona as duas coisas?
Janet Flammang - Desenvolver a arte da conversação é extremamente importante para aprender a discordar de forma civilizada. E aprendemos essa arte à mesa.
Quanto menos tempo dedicamos às refeições, mais colocamos essa habilidade em perigo.
À mesa, há um incentivo para discordar sem dar aos outros uma indigestão.
Muito da política atual nos EUA é uma política de ataque, na qual se quer marcar pontos e derrubar o oponente, e não ouvir.
O foco do livro é a conversação. A conversa não é uma discussão, há regras sobre como ouvir, esperar a vez e guardar o que tem a dizer. A coisa mais próxima de uma conversa é a diplomacia, que todos nós achamos ser extremamente importante. O que me intriga é: por que não estudamos como fazer as pessoas se comportarem com diplomacia?

Isso está piorando? A conversa está morrendo?
Sim. Há muitos estudos que indicam que gastamos, em média, 20 minutos no jantar, à mesa, e mais e mais pessoas já nem se sentam para dividir uma refeição, pegam algo e saem correndo.
Meu livro é sobre a situação americana, mas há evidências de que outras culturas estão se tornando mais como os EUA, onde o trabalho é a coisa mais importante e você é consumido por atividades.
As pessoas não param para pensar no custo de não se sentar e ter conversas, e cara a cara, porque é claro que muita coisa hoje é eletrônica.

Quais são os sinais de falta de civilidade nos EUA?
Podemos começar pelo Congresso. Tem havido forças-tarefa pela civilidade promovidas por congressistas, que dizem que perdemos a civilidade na Casa, a habilidade de socializar com pessoas de outro partido e de discordar.
Muito disso se relaciona à chamada revolução republicana de 1994, quando Newt Gingrich tomou conta [da Câmara dos Representantes].
Muitos veem isso como um ponto-chave, porque ele disse aos republicanos que voltassem aos seus distritos todos os finais de semana e não mudassem suas famílias para Washington.
Isso significou que havia muito pouca socialização entre congressistas. Hoje, as salas de jantar estão vazias, eles não socializam.

As iniciativas de Michelle Obama [pela alimentação orgânica e contra a obesidade infantil] tiveram resultado?
Qualquer coisa que a Casa Branca faça tem grande importância simbólica. E as pessoas que trabalham na Casa Branca estão muito mais sensíveis a essas questões do que antes.
Não só o Departamento da Agricultura, mas outros departamentos estão mais preocupados com produtos de qualidade e com a crise da obesidade. Michelle não tem poder oficial, mas, nos EUA, o comportamento da "primeira família" tem grande importância simbólica.

Repito uma pergunta que a sra. faz: como é possível encontrar tempo para rituais alimentares em uma cultura acelerada e workaholic?
Depende de cada lar, não há uma resposta única.
Sei que em lares em que os salários são baixos é muito difícil, mas a primeira medida a tomar é encontrar uma maneira para que haja pelo menos um jantar comum [por semana].
Questiono também o número de horas que os americanos dedicam ao trabalho. Devemos ter cargas horárias mais humanas, para que os pais possam voltar para casa antes de os filhos dormirem.
A Europa tem dias mais curtos e igual produtividade. Falo no livro sobre o modelo europeu de menos horas, mais tempo para a vida.
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Reportagem por CRISTINA FIBE DE NOVA YORK

Fonte: Folha online, 29/08/2010
*Janet A. Flammang ensina cursos de política E.U. com ênfase nas mulheres e política. Sua pesquisa atual explora o relacionamento entre as refeições , a conversa da comunidade e da democracia. Ela é o autor ou o editor de livros e artigos científicos sobre política das mulheres. Ela trabalhou em um projeto financiado pela NSF nas respostas às questões do governo da cidade de controvérsia moral. Ela tem sido um membro da Comissão do Status da Mulher , tanto na American Political Science Association e da Western Political Science Association . Ela serviu como Atuando Dean ( metade de 2001 e 2004-05 ) e Associate Dean ( 1994-2003) na Faculdade de Artes e Ciências. Ela recebeu um prêmio Phi Beta Kappa pela excelência de ensino. O último livro do Professor Flammang , O gosto pela Civilização : Alimentação , Política e Sociedade Civil, é analisada por Michael Pollan na edição 10 de junho do New York Review of Books . Ver http://www.nybooks.com/articles/archives/2010/jun/10/food-movement-rising/ para ler a resenha e para obter mais informações sobre o livro.
Introdução à Política U. S.
Mulher e Política
Mulheres e Política Pública
A elaboração de políticas públicas
Administração Pública
Califórnia Política
Política Estadual e Municipal
Publicações selecionadas
O gosto pela Civilização : Alimentação , Política e Sociedade Civil, Champaign : University of Illinois Press, 2009.
Voz Político da Mulher : Como as mulheres estão transformando a prática eo estudo da política, Philadelphia: Temple University Press , 1997.
A política americana em um mundo em mudança (Co -autor ), Pacific Grove: Brooks / Cole, 1990.
Mulheres : Os papéis atual governo estadual e local (Editor) , Beverly Hills : Sage Publications, 1984.
"A implementação eficaz : O Caso de valor comparável em San Jose" Análise da Política de Estudos, 5:4 (Maio 1986).
"Funcionários Feminino na Capital Feminista : O Caso do Condado de Santa Clara" Western Political Quarterly 38:1 (Março 1985).

Deus

FERNANDA TORRES*

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A eleição virou um fenômeno de massa, midiático, que age em favor próprio

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NA ESPERANÇA de ver os candidatos ao vivo, fui ao encontro do Fórum Nacional na Academia Brasileira de Letras no Rio de Janeiro. O fórum é uma associação apartidária de crânios privilegiados que estuda maneiras viáveis de modernizar o Brasil.

Serra fez forfait e Dilma enviou Michel Temer. Marina e Plínio compareceram. A sessão foi presidida por Reis Veloso, ministro do Planejamento de Médici e Geisel e um dos responsáveis pelo milagre brasileiro nos anos 70.

Quando eu era adolescente, qualquer homem público ligado aos militares era visto como a encarnação viva do Lobo Mau. Hoje, é curioso perceber que a agenda econômica da ditadura não se afasta muito da dos candidatos de esquerda que disputam a Presidência.

Veloso fez uma impecável explanação histórica do nosso atraso. Comparou o PIB, a taxa de crescimento, tocou na tragédia inflacionária e desfiou todo o rosário de números que paira acima das convicções partidárias para apresentar o inteligentíssimo documento de propostas do fórum.

Quarenta anos depois da revolução de 64, a ideologia não norteia mais nossas decisões. A economia tomou seu lugar. A economia e os interesses eleitorais.

Graças ao voto obrigatório e ao crescimento da população, a eleição se transformou em um fenômeno de massa, midiático, que age em favor próprio.

A corrida eleitoral fomenta os caixas dois, os bilhões gastos em propaganda, os conluios imperdoáveis e a retórica para boi dormir dirigida a currais de eleitores com nível zero de educação.

A democracia não funciona. O problema é que não encontraram um sistema melhor; as opções são terríveis.

Depois de Veloso, Marina Silva abriu seu discurso agradecendo a Deus.

Uma senhorinha paulistana confessou ao padre engajado que vai votar em Marina porque, para Dilma, Lula é Deus, para Serra, São Paulo é Deus, e para Marina, Deus é Deus mesmo.

Já o filho adolescente de um amigo meu se revoltou ao saber que o pai votaria na ex-ministra. "Mas ela é criacionista!", disse o menino. Ao que o pai respondeu: "Mas os outros são se-criacionistas, meu filho!"

Marina é monoteísta e monotemática.

Ela relembrou as catástrofes causadas pelas mudanças climáticas e repetiu, com razão, que o desenvolvimento sustentável passa por todos os problemas capitais do Brasil: educação, saúde, saneamento...

Concordo. Só tenho dificuldade quando a ex-ministra afirma que escolherá os melhores quadros, criará as ferramentas mais eficazes e julgará o que for mais justo, mas não explica, na prática, como concretizará tais mudanças.

E Deus sabe como é difícil.

No fórum, depois que Reis Veloso citou a frase da "Economist" ("a natureza foi generosa demais com o Brasil"), Marina narrou sua luta no ministério, e mais tarde no Senado, para aprovar as leis de proteção da biodiversidade brasileira. Foi derrotada em todas as instâncias.

Esse fato me fez pensar. Dilma não precisa de mim. É só vê-la sóbria e sólida na campanha de TV. Dilma já está presidente. O programa de Serra é estranhíssimo, mais populista que o dos populistas, e o enquadraram na frente de um cartaz do Cristo Redentor cujos braços abertos parecem sair de dentro de suas orelhas. Será que ninguém notou?

O PSDB entregou para o DEM a candidatura de um político valioso como José Serra. Como pôde?

Eu nunca votei para ganhar. Depois do encontro na ABL, tive vontade de exercer meu voto útil e fortalecer as forças contrárias ao extrativismo atávico tão bem representado no Congresso.

Até outubro, decido. Quem sabe com a ajuda de Deus.
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*FERNANDA TORRES é atriz
Fonte: Folha online, 29/08/2010

Escovinha...

Rubem Alves*


A família do meu pai chupava laranjas de tampa. Mas a família da minha mãe se julgava diferente, era de “sangue azul”, e uma das marcas de sua nobreza estava no fato de que chupavam laranja de gomo.

As diferenças entre a família do meu pai e a família de minha mãe se revelavam no insignificante e banalíssimo ato de chupar laranja. Ah! Vocês pensavam que uma laranja é simplesmente uma laranja! Não é não. Laranjas do mesmo pé podem ser nobres ou plebeias. Depende do jeito como são comidas. A família de minha mãe chupava laranja de gomo, a família do meu pai chupava laranja de tampa. Você pode imaginar uma senhora da alta sociedade chupando laranja de tampa num jantar? Jamais! Chupar laranja de tampa é coisa de plebeus: a laranja enfiada entre os beiços e os dentes, comprimida pelas mãos para lhe extrair o caldo, as sementes enchendo a boca para serem cuspidas para o lado. Pode-se dizer que chupar laranja de tampa é gostoso e descontraído. Mas elegante é que não é.

Laranja de tampa pode-se chupar de pé e mesmo andando. O que não é possível fazer quando se chupa uma laranja de gomo. Há duas formas de se chupar uma laranja de gomo. A primeira, plebeia, consta das seguintes operações. Descascar a laranja. Tirar a pele branca que cobre os gomos. Abrir a laranja em duas. Ir enfiando os gomos um a um na boca para serem mastigados, o caldo engolido, as sementes cuspidas e o bagaço engolido ou cuspido, conforme o gosto ou as necessidades da pessoa. Digo “necessidades” porque há pessoas que engolem o bagaço por ordem médica, por causa da prisão de ventre.

A segunda, nobre, é diferente. É preciso estar assentado à mesa. Primeiro é o cuidadoso ato de descascar. Descascada a laranja segue-se a operação de retirar-lhe a película branca que a cobre. A seguir, abre-se a mesma em duas metades e separam-se os seus gomos. Tomam-se então os gomos, um a um, e vagarosamente executa-se a operação cirúrgica de retirar a pele translúcida em que vêem revestidos, o que se faz por meio de uma incisão ao longo da linha fina do gomo. Desnudados os gomos, retiram-se com a ponta da faca os caroços que são colocados num prato. Finalmente, come-se a sua carne enquanto se conversa. É trabalhoso comer uma laranja de gomo. Trata-se de um elaborado “streap-tease”.

Todos da família da minha mãe comiam as laranjas de gomo, do jeito nobre. Curioso sobre esse costume, procurei explicações com a minha mãe. Ela me respondeu: “É para aproveitar melhor”. De fato, aproveita-se melhor. Mas eu não via razão para se aproveitar tanto quando as laranjeiras estavam cheias de laranjas que se perdiam, comidas pelos passarinhos e insetos e apodrecidas no chão. Não, não fazia sentido. Essa estória de “aproveitar melhor” só faz sentido quando laranjas são poucas e raras, frutas nobres e caras, possivelmente importadas... Mas lá no interior de Minas não se importavam laranjas, não eram raras e nem eram caras. Havia um descompasso entre a abundância das laranjas e a necessidade de comê-las de sorte a aproveitar todas as suas garrafinhas. Se você não sabe, as garrafinhas de uma laranja são aquelas minúsculas gotas de caldo que compõem o gomo. Isso não era costume brasileiro. Era costume que vinha das cortes reais da Europa. Lá os nobres, ricos, comiam caras laranjas importadas, de gomo, elegantemente. O povo pobre não comia laranjas, talvez nem soubesse o que eram laranjas... Assim, ao comer as laranjas de gomo os membros da família de minha mãe anunciavam suas origens de sangue azul.

Uma outra marca de nobreza estava nas roupas que tínhamos de vestir. Os meninos da plebe muito cedo começavam a usar calças compridas. Mas a família da minha mãe achava que os filhos nobres tinham de usar calças curtas. Meu irmão me contou da sua vergonha: já tinha 14 anos, suas pernas eram peludas e tinha de usar calças curtas. Ele andava pelas ruas se espremendo contra as paredes para que ninguém o visse. Naqueles tempos filho não tinha vontade. Minha mãe se justificava dizendo que os meninos do Rio de Janeiro usavam calças curtas.

Na família do meu pai as portas da rua das casas tinham um buraco pelo qual se passava um barbante amarrado ao trinco. Não era preciso bater. Bastava puxar o barbante que a porta se abria e a pessoa podia entrar pela casa indo até a cozinha onde havia sempre uma cafeteira sobre a chapa do fogão de lenha. No sobradão do meu avô ninguém passava da sala de visitas que ficava na frente, ao fim da escadaria. Era lá que as visitas eram cerimoniosamente recebidas e confinadas.

Mas, de todas as marcas de nobreza, havia uma que me humilhava mais: os meninos da plebe tinham os seus cabelos raspados à escovinha, com uma franja na testa. Como tínhamos de nos diferenciar dos meninos da “prateleira de baixo” nosso cabelo havia de ser comprido. O que era motivo de muita vergonha porque, naqueles tempos, cabelo comprido era coisa de menina. Cabelo comprido e calças curtas: era demais...

Aconteceu que o meu irmão Ismael, já moço, que estava no colégio interno, já havendo ultrapassado a humilhação das calças curtas e do cabelo comprido, veio nos visitar. Sem dizer nada e sem pedir permissão ele me pegou pela mão e disse: “Vamos passear! Ao passar por uma barbearia ele entrou, assentou-me na cadeira e ordenou ao barbeiro: “escovinha”...

Agora, que ele morreu, me lembrei com carinho desse ato de rebelião fraterna...
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*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
Fonte: Correio Popular online, 29/08/2010

sábado, 28 de agosto de 2010

O jogo é jogado

Seja qual for o resultado das eleições,
PT e PSDB continuarão a dar cartas no processo político,
diz pesquisador

A semana começou com pesquisas colocando a candidata do Partido dos Trabalhadores, Dilma Rousseff, 20 pontos à frente de seu principal adversário, o tucano José Serra. E terminou com o tiroteio em torno da sindicância da Receita Federal sobre a violação do sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, e outras três pessoas ligadas ao comando do partido - com direito até a pedido de impugnação da campanha petista.

Fernando é professor da USP e autor de Política Orçamentária no Presidencialismo de Coalizão (FGV)

O jogo continua, portanto. E, para analisar as táticas e os lances em profundidade dos principais times em disputa pela bola da vez no Planalto, o Aliás convidou Fernando Papaterra Limongi, professor titular da Universidade de São Paulo e um dos principais nomes da ciência política brasileira. Mestre pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1988 e doutor pela Universidade de Chicago em 1993, Papaterra Limongi acaba de voltar de uma temporada de um ano na Universidade Yale, em New Haven, nos EUA, onde ministrou aulas de política comparada das democracias latino-americanas.
Nos últimos anos, o pesquisador se dedicou a uma análise sistemática da série histórica de eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização. Viu, no processo político brasileiro, mais constâncias que incongruências. "De 1994 para cá, as eleições se resumiram à competição entre dois partidos, PT e PSDB", diz Limongi, que crê na continuidade desse quadro de alternância no poder das duas principais agremiações do País. E não corrobora a argumentação do colega Bolívar Lamounier de que, na eventualidade de uma vitória de Dilma, após oito anos de presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, o País corre risco de "mexicanização" - com o PT convertido em uma espécie de versão brasileira do PRI, o Partido Revolucionário Institucional, que ficou por seis décadas no poder no México. "Dizia-se a mesma coisa quando o PMDB saiu vitorioso das eleições em 1986", lembra.
Na visão do professor, a explicação é o tal feel good factor, de que falou a revista britânica The Economist, em uma formulação mais elegante do célebre bordão americano que diz "é a economia, estúpido!" Limongi sustenta: "O eleitor é conservador". E, assim como o foi em 1998, mantendo na cadeira o presidente do Plano Real, Fernando Henrique Cardoso, teme reverter a maré boa do governo Lula. Por isso mesmo, também não assina embaixo dos que criticam a performance de Serra: "Ele fez tudo certinho desta vez".

O sr. estudou os resultados das eleições presidenciais desde a redemocratização. A que conclusões chegou?
Trabalho com a série histórica das eleições em busca de padrões. Alguns são evidentes: de 1994 para cá, as eleições se resumiram à competição entre dois partidos, PT e PSDB. Hoje pode parecer óbvio, mas em 1989 não se adivinhava nada disso: foi uma eleição aberta, fragmentada, com a decisão sobre quem passaria ao segundo turno acontecendo voto a voto. A disputa entre Lula e Brizola foi travada na casa decimal. Outros, durante a campanha, tiveram oportunidade de viabilizar-se. O que se nota ali? Que ninguém fez coalizão. Em 1994, já há uma restrição no número de candidaturas, mas com competição entre vários partidos grandes. Essa competição, vencida de um lado pelo PSDB, fechando a centro-direita do País, e seguida pelo PT, fechando a centro-esquerda, definiu o que aconteceria dali para a frente. A vitória do PSDB está ligada ao Plano Real, mas também à coligação com o PFL - permitindo que o partido, que não tinha penetração no Nordeste, viesse a ter. Do outro lado, o voto no PT de 1989 explica o de 1994, com uma subida pequena, em torno de 5%. Em todos esses anos, qual é a terceira força que participa da campanha? Enéas em 1994, Ciro em 1998, Garotinho em 2002, Heloísa Helena em 2006 e deve ser a Marina Silva em 2010. Não há constância.

O que explica o atual crescimento do PT?
É possível notar um crescimento constante do PT, eleição a eleição, até 2002, quando dá um salto e ganha. Tenho lido análises ressaltando um "aumento significativo" no apoio ao PT entre 2002 e 2006. Mas acho que esse crescimento é de magnitude menor do que se supõe. Houve, sim, adição de votos de outros eleitores em momentos específicos, mas o petismo mantém-se mais ou menos constante, na faixa dos 18%, 20% do eleitorado. Nos últimos anos, ganhou eleitores de baixa renda nas cidades do Nordeste e perdeu parte dos mais educados e ricos do Sudeste. O PSDB, por sua vez, deixou escapar esses eleitores pobres quando sua aliança com os pefelistas se desfez em 2002 e a economia se deteriorou. Em 1994, a argumentação do governo Fernando Henrique era a de que estavam "arrumando a casa" para crescer depois. Tanto que, em 1998, a composição do segundo ministério privilegiou os desenvolvimentistas. Mas aí vem a crise asiática e o eleitor diz "é hora de dar o poder a outro".

O que explica a atual vantagem de Dilma sobre Serra?
Entre 2006 e 2010, o PT está retendo o eleitorado que conquistou e ampliando-o por uma razão simples: o País vai bem. Os estudos sobre eleições presidenciais nos EUA são unânimes: a principal variável para explicar resultados eleitorais é a economia.
Diante dessa demonstração de força eleitoral de Lula, há quem diga que esse predomínio de PT e PSDB no País tem dias contados. É sempre arriscado fazer futurologia. Mas quando você analisa a série histórica, é confrontado com isso: PT e PSDB continuam controlando a eleição presidencial. Para o PSDB perder esse monopólio da oposição, a capacidade de ser o polo de convergência que lança o candidato de oposição, terá que pisar muito na bola. Sobretudo porque a única alternativa existente seria o PMDB. e ele já está muito atrelado ao PT. O PSDB tem potenciais candidatos à presidência com expressão nacional - coisa difícil de se constituir, que não se faz da noite para o dia em um país tão grande e politicamente organizado em torno dos Estados. Alckmin já foi candidato e tem recall. Aécio continua em evidência e seu candidato em Minas, Anastasia, cresce nas pesquisas. O governador do Paraná, Richa, é outra liderança emergente. O que acontece é que a oposição tomou um choque de realidade agora. Mas nada inesperado, diante do tal feel good Factor...

Ou seja, boa parte do eleitorado sente-se satisfeita e tem receio de mudar.
Por que iria? O eleitor é conservador. Foi conservador em 1998, quando poderia ter dito "o Plano Real nos trouxe uma melhora, mas o crescimento não veio". Esperou e só falou "é a vez da oposição" quando a situação ruim se perpetuou - o que, como pessoalmente acho, não teve muito a ver com a gestão do PSDB, mas com as circunstâncias internacionais. Simplesmente, deu azar. o mundo não estava legal (risos). E o mundo agora está legal.
O sr. não vê sinais de mudanças no espectro partidário brasileiro?
Não. Você pode dizer isso: o PT, na oposição, tinha mais consistência no seu voto, soube se comportar e capitalizar como oposição. O PSDB demorou para aprender, e não sei se já sabe. Mas enfrentou um momento mais difícil para ser oposição. O PT lá atrás podia dizer que "faria tudo diferente". Hoje, Serra fala em "fazer melhor". Não tem como evitar. Daí surge esse temor diante da possibilidade de duas derrotas seguidas. Mas os tucanos sempre dependeram mais desse fator coordenação que, por exemplo, de uma base social.

Essa semana circularam notícias de que o PT pretende facilitar a 'transição' para seus quadros de políticos que estão em desconforto na oposição. É um tipo de cooptação?
O que aconteceu quando o PT chegou ao poder? Ele não cooptou para dentro do partido, não inchou por migração partidária. O PSDB sim, atraiu quadros e costuma fazê-lo nas prefeituras de outros partidos em cidades do interior.

Mas no primeiro mandato de Lula, os partidos nanicos da base aliada incharam.
Sim. O que o PT faz é ceder lugar. Mas não atrai quadros, não é um partido-ônibus ou um partido-constelação. Pelo contrário, perdeu quadros descontentes para o PSOL - que não teve sucesso, não conseguiu eleger um vereador sequer na cidade de São Paulo. E perdeu todo um primeiro escalão colhido pelos escândalos, incluindo potenciais candidatos à Presidência: Dirceu, Palocci, Gushiken, Genoino. O que o PT fez para manter a coalizão unida para esta eleição presidencial é notável. Teve estratégia de partido unido. Chegar em Minas Gerais e decidir entregar a candidatura ao PMDB, em uma eleição que Patrus Ananias e Fernando Pimentel tinham chance de ganhar, não é pouca coisa. Lula e o PT privilegiaram a sucessão presidencial. Deu certo.

O sociólogo Chico de Oliveira disse certa vez que Lula é 'uma árvore frondosa em torno da qual não nasce grama'. Essa presença de um presidente glorificado em uma popularidade de 79% inibe o surgimento de novas lideranças no País?
Peço vênia para discordar do Chico nesse ponto. Cresceu a Dilma, o que não é pouco. Quando, no fim do mensalão, no meio daquela crise toda, Lula antecipou o seu nome, muita gente achou que era precipitação, que ele havia escolhido mal ou que Dilma seria um balão de ensaio a ser queimado depois. Mas o plano deu certo porque o verdadeiro jogo era manter o PT e a coligação unidos e chegar fortes à eleição. Foi uma estratégia de partido, que não se deve exclusivamente a Lula.

E a estratégia do PSDB? Tem se falado de erros na escolha do vice de Serra e até seu caráter supostamente 'desagregador'. É uma crítica pertinente?
Ao contrário. Eu compararia isso àqueles comentários de campeonato de futebol, quando quem está vencendo invariavelmente fez "bom trabalho de base" e quem está atrás "não soube planejar". Se você comparar o Serra de 2002 com o de 2010 vai ver que ele deu um show desta vez. Fechou tudo, compôs com o DEM na Prefeitura de São Paulo, reincorporou Alckmin ao governo. Se tivesse conseguido Aécio para vice seria melhor, mas isso se mostrou impossível. Acontece que o cenário, agora, é muito favorável ao governo. Em contrapartida, a estratégia do PT tem seu lado arriscado. Ao jogar exclusivamente na Presidência e abandonar competições estaduais, pode comprometer sua base. O que se refletirá na composição da futura Câmara. É fato que o PT tem tentado compensar dizendo "cedo os Estados mas não abro mão do Senado". Mas, se Dilma ganhar, há risco de o PMDB sair excessivamente fortalecido, o que aumentaria seu peso na coalizão.

A tal 'partilha do pão' de Michel Temer.
A visão que as pessoas têm de um governo de coalizão é de que o partido no poder dá um pedaço do governo para ser consumido pelo aliado. Como se ele recebesse um sorvete para se lambuzar. Não é bem assim. Quando se "ganha" um ministério é preciso desempenhar. Ou não se sustenta. E, no sistema representativo, partido que tem voto tem direito a uma parte do Estado.

Em um artigo no ‘Estado’, o cientista político Bolívar Lamounier alertou para o risco de 'mexicanização' do Brasil caso o PT vença - e se transforme em uma espécie de PRI, que se eternizou no poder no México. Concorda?
É um cenário muito pouco provável. Ainda que o PSDB perca o Planalto, irá controlar Estados importantes, terá recursos e votação nacional superior a 20%. A competição partidária não desaparecerá.

Octavio Paz diz que, no México, o PRI construiu uma fachada democrática para um controle político de um único partido.
É diferente. No México houve uma revolução lá atrás, fraudes eleitorais... E o PRI é fenômeno singular na história latino-americana. Também vale lembrar que, no Brasil, o PT não está sozinho, mas associado ao PMDB, o PP, o PSB. Não é um cenário próximo do que foi o mexicano. Aqui, o PT foi bem-sucedido na Presidência e está sendo retribuído por isso. Nada mais normal no funcionamento da democracia. Veja que já se falou em "mexicanização" do Brasil antes: após as eleições de 1986, quando o PMDB saiu vitorioso e houve quem também o comparasse ao PRI.

O sr. acaba de dar um curso em Yale sobre política comparada na América Latina. A tendência à continuidade no poder em países como a Argentina, a Venezuela e a Colômbia, é um risco para a democracia?
Há um temor exagerado na América Latina com relação ao problema da reeleição e do limite de mandatos. Ele é fruto de uma visão um pouco estereotipada da história política do continente, que enfatiza o caudilhismo do passado. E, aí, perde-se o aspecto comparativo com outras democracias. Há regimes parlamentaristas em que o primeiro-ministro permanece mais de 20 anos no poder. Na maior parte deles, além de não haver limite de permanência, o primeiro-ministro tem liberdade para definir quando será a eleição, antecipando-a para momentos oportunos. Evitar reeleições também tem custo: impede que líderes testados e competentes sejam reeleitos. É evidente que, em qualquer país, o exercício do poder pode ser usado para promover uma desigualdade na competição. Mas isso não necessariamente está ligado à pessoa do governante. Às vezes, forjar uma nova liderança, formar um "poste" do zero, pode ter um custo ainda mais alto para a sociedade. E aí estou pegando carona em um artigo do José Antonio Cheibub, estudioso do presidencialismo, que saiu na Texas Law Review.

A alternância de poder não é um bem em si, com partidos e grupos políticos testando agendas diferentes para um país?
Ela é positiva. O que quero dizer é o seguinte: quem está no governo tem vantagem, mas o fato de um presidente não poder se candidatar não a diminui significativamente. O fundamental é minimizar as vantagens de quem está no poder.

Como se faz isso? Há alguns dias, Lula prometeu articular, fora do Planalto, a reforma política que não fez em oito anos de governo. Que tipo de reforma o Brasil precisa?
Tenho me colocado contra as propostas de reforma política. Em geral, elas são mal fundamentadas do ponto de vista empírico e teórico, baseiam-se em informações incompletas sobre a realidade e são tiros no escuro sobre os efeitos que causariam. O que se tentou até agora, como a verticalização e a cláusula de barreira, deu errado. O maior risco que vejo após a eleição deste ano é PT e PSDB se unirem em torno de uma reforma política. Eles têm todo o interesse em fechar o sistema eleitoral, em uma espécie de bipartidarismo. Claro que o PMDB deve resistir a isso. Mas temo menos um PRI à brasileira do que esse tipo de aliança por cima: a oligopolização do sistema partidário por dois partidos que originalmente competem entre si. Elevar o custo de entrada no sistema político, por exemplo - como faz o modelo distrital ao tornar mais difícil para um político obter a primeira cadeira -, dificulta a oxigenação e a renovação do sistema partidário. Foi o que aconteceu na velha Venezuela, e acabou dando no Chávez.

E a questão do financiamento das campanhas, que gerou escândalos que respingaram em quase todos os partidos brasileiros?
Mexer no financiamento de campanhas é ainda mais perigoso. Se optar-se pelo financiamento estatal, ele será distribuído conforme o voto na eleição anterior. O que irá fechar o sistema integralmente. A parte mais cara das campanhas hoje é o espaço na TV, que já é público. E se alguma coisa o mensalão nos ensinou foi que o problema está no conluio entre agências de propaganda e gastos futuros do governo. Para isso, seria uma boa estabelecer um órgão que controle quem ganha as contas do governo e das estatais. Da mesma forma que há uma comissão regulatória na bolsa de valores. E tirar do sistema político a decisão sobre quem ganha a conta do Banco do Brasil, da Petrobrás, etc. Eu também restringiria o número de nomeações para cargos de confiança, que cria uma pressão desnecessária sobre o governante, passa uma imagem negativa e politiza a gestão. De resto, é dar tempo ao tempo. O Brasil viveu algo que nenhum país do mundo viveu: a transição do bipartidarismo para o multipartidarismo sob democracia. E com o mercado eleitoral funcionando. Ganham-se e perdem-se Copas, mas estamos jogando o jogo.
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Reportagem por Ivan Marsiglia - O Estado de S. Paulo
Fonte: Estadão online, 28/08/2010

Sorte e felicidade

ROBERTO RODRIGUES*
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Em busca da felicidade, é preciso ter prazer no que se faz;
mas isso só não basta, é preciso ter sorte

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PARTICIPEI recentemente de um debate sobre formação profissional.

A escassez de engenheiros veio à tona e a questão da atração de jovens para essa função foi amplamente discutida. Como trazê-los para uma área tão essencial ao desenvolvimento da sociedade brasileira, se as carreiras ligadas às finanças são muito mais atrativas, inclusive com "promessas" de ganhos rápidos e significativos, e em pouco tempo?

Por que um jovem se arriscaria a ganhar muito menos e a trabalhar mais, sem os horizontes da riqueza vislumbrados no setor financeiro?

Aprendi na vida, em busca da felicidade, que um bom roteiro é ter prazer no que se faz. Levantar todo dia bem cedo, pensando nas coisas por fazer e sentir entusiasmo por fazê-las já é meio caminho andado.

Mas não basta: é preciso também saber fazer, para dar certo. Não adianta gostar da profissão se não houver dedicação a ela, aprendendo o que há de mais novo na atividade, estando sempre à frente dos outros. Mas também não basta: é preciso ter sorte!

É isso: gostar da profissão, saber exercê-la com perfeição e ter sorte.

Mas não seria essa uma visão superficial das coisas da vida? Sorte é assim tão fundamental? Afinal, não é certo o ditado, segundo o qual "Deus ajuda a quem cedo madruga"? Isso é, quem se dedica firmemente a uma tarefa não será recompensado?

Claro que há essa ligação direta, mas também é claro que a vida é mais fácil para uns do que para outros.

Nesse sentido, duas pessoas que se dedicam igualmente a um mesmo trabalho poderão ter resultados não equivalentes. E não se chama sorte o fato de nascer mais bem dotado de bens materiais, ou de estudar em melhores escolas: isso está explicado. Isso é favorecimento; sorte é a maneira como caem os dados, é um privilégio que determina a sucessão de coisas boas sem que haja uma atitude preliminar, independe do esforço realizado. A gente não acha a sorte: ela simplesmente aparece e faz a gente mais feliz.

E aí surge outra discussão: e a felicidade, como se obtém, o que é?

Basta ter sorte? Claro que não. Muito menos é ganhar bem, ter uma boa renda. Tanto é verdade que hoje se sabe que o PIB elevado não representa bem-estar da sociedade.

Por essa razão, a ONU já vem discutindo o IVH (Índice de Valores Humanos) em que, com base em educação, saúde e trabalho, são avaliados as expectativas, os sonhos, as aspirações e as percepções da sociedade, orientando até possíveis políticas públicas. Isso já é mais que o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que marca somente educação, saúde e longevidade.

Mas é menos que o FIB (Felicidade Interna Bruta), lançado pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, e apoiado pelo Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz, para quem não basta medir o resultado da economia, mas é preciso medir o bem-estar das populações beneficiadas pelo crescimento econômico.

Todos esses temas vieram à baila no referido debate: como atrair os jovens? Há diferentes aproximações para diferentes públicos. Na graduação, colocar emoção, de modo que os alunos se sintam bem com o curso. Os jovens são mais apaixonados, e devemos fazê-los amar a disciplina e, através dela, levá-los a amar o seu país, criando o sonho de participação na história do desenvolvimento do seu povo.

Já no mestrado e no MBA, os cursantes não são tão jovens: são profissionais trabalhando em área ligada ao curso. Nesse caso, a carga é muito mais de informação técnica do que de emoção. Isto é: na graduação, o gostar do que se faz; no mestrado, o saber fazer.

E torcer para a sorte sorrir para cada um e para todos.

Finalmente, perguntou-se, após todas essas questões serem debatidas, qual o melhor caminho para a felicidade. Isso já discuti neste mesmo espaço, há tempos, e reitero: a vida é um trem no qual se entra no nascimento e do qual se sai na morte. E os trilhos são o amor e a justiça.

Sobre eles é que se dá a viagem: a felicidade é a viagem, não é uma estação em particular.
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*ROBERTO RODRIGUES, 67, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (Fundação Getulio Vargas), presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Departamento de Economia Rural da Unesp - Jaboticabal, foi ministro da Agricultura (governo Lula). Escreve aos sábados, a cada 15 dias, nesta coluna.
Fonte: Folha online, 28/08/2010

A Palavra de Deus deve ser para todos

Entrevista com Werner Kaschel:
Tradutor da SBB por 25 anos


Tradutor da SBB por 25 anos, Werner Kaschel foi um
dos grandes responsáveis
 por fazer com que as Escrituras Sagradas
 ficassem mais próximas dos brasileiros.

Do alto de seus 85 anos de idade, comemorados em 4 de abril último, o reverendo batista Werner Kaschel carrega em sua biografia o compromisso com a difusão da Bíblia entre os brasileiros. Ele foi um dos grandes expoentes no trabalho de tradução das Escrituras para uma linguagem mais próxima da falada hoje pela população brasileira. “A Palavra de Deus deve ser compreendida por todos. E isso inclui ricos, pobres, cultos e incultos”, defende o tradutor.
Nascido em Campinas (SP), Kaschel recordase com saudades das mais de duas décadas em que trabalhou como tradutor e revisor bíblico na Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Ele fez parte da Comissão de Tradução da entidade, que foi responsável pela elaboração da Bíblia na Linguagem de Hoje, lançada em 1988. Participou, inclusive, de sua última revisão,finalizada no ano 2000, quando foi rebatizada de Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).
Doutor em Teologia e especialista em Hebraico, ele traduziu todos os livros do Antigo
Testamento. Sua trajetória, calcada na divulgação do Livro Sagrado, teve início já na mais tenra idade. Aos oito anos, descobriu a vocação de pregador evangelista.
Aos 21, ingressou no ministério da Igreja Batista. Dali em diante, tornou-se um estudioso da Bíblia.
Na área acadêmica, se destacou como professor de Hebraico e Geografia Bíblica. De 1972 a 1988,foi diretor da Faculdade de Teologia do Colégio Batista Brasileiro. Werner Kaschel só parou de trabalhar em 2007, com mais de 80 anos, para cuidar de sua saúde.
Na entrevista, a seguir, o tradutor relembra alguns momentos marcantes de sua trajetória a serviço do Livro Sagrado.

Revista ABNB: Qual a importância da tradução da Bíblia na Linguagem de Hoje?
Werner Kaschel: Ela é uma tradução fundamental. Sempre fui amante da linguagem simples. Como pastor, eu pregava na linguagem do povo. E sabia me expressar bem por causa de um curso que fiz de homilética, a arte de pregar. Percebia que era necessária uma tradução na linguagem simples. Muitas pessoas, até hoje, têm deficiência de ordem cultural. Por isso, traduzindo na linguagem que o povo entende fica mais fácil compreender a Bíblia.

ABNB: Quais técnicas o senhor usava para aproximar o texto bíblico da linguagem popular?
W.K.: Para traduzir o texto bíblico em linguagem simples, tínhamos de nos colocar no lugar de uma pessoa simples e não culta. Voltamos a utilizar, por exemplo, a expressão “Palavra” referindo a Jesus (João 1). O mais comum era “Verbo”, já que o termo “palavra” não se usava antes porque era feminino. Colocamos também no texto bíblico a palavra “amor” para substituir “caridade”. Outra mudança se deu em Gênesis (1.2), numa passagem sem tanto sentido: “E a terra era sem forma e vazia”. Traduzimos esse trecho para “A terra era um vazio, sem nenhum ser vivente, e estava coberta por um mar profundo”. Ao revisar a tradução bíblica, é preciso levar em conta que a Palavra de Deus deve ser simples e compreendida por todos. E isso inclui ricos, pobres,cultos e incultos.

ABNB: O senhor acha que a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) poderá se tornar preferência nacional na leitura bíblica?
W.K.: A NTLH com certeza vai crescer na preferência dos brasileiros porque todo mundo a entende facilmente. A impressão é que muita gente gosta da Linguagem de Hoje, mas ainda existem reações contrárias a ela, pois algumas pessoas estão acostumadas com a velha tradução.

ABNB: Como foi sua chegada à SBB?
W.K.: Nos anos 80, fui morar no Rio de Janeiro para pastorear uma igreja em uma comunidade carente. Naquela época, fazia trabalhos também na Casa Publicadora Batista, na Praça da Bandeira, e a Bíblia na Linguagem de Hoje estava começando a ser elaborada. Na época, a SBB tinha dificuldade para traduzir o Antigo Testamento para a Linguagem de Hoje em português. Certo dia, fui convidado a traduzir o livro de Jonas. Usei uma linguagem simples,do povo. Depois disso, fui convidado a colaborar durante anos com a SBB.

ABNB: Quais lembranças o senhor tem dos trabalhos de tradução na SBB?
W.K.: A tradução bíblica é um trabalho apaixonante. Na SBB, eu traduzi todos os livros do Antigo Testamento. O trabalho que mais me marcou, por sinal, foi a tradução de Salmos. Mas eu também ajudava na tradução de manuais de tradução bíblicos para outros países. Meu último trabalho foi na tradução do manual de Salmos para Angola.

ABNB: Em 2009, a SBB alcançou a marca recorde de mais de seis milhões de Bíblias distribuídas no País. Isso mostra que o brasileiro deseja ler e entender cada vez mais a Palavra de Deus?
W.K.: Com certeza! É um recorde extraordinário e isso foi alcançado em grande parte graças à facilidade de compreensão do texto sagrado, porque a pessoa pode agora ler e entender claramente toda a Bíblia.

ABNB: O senhor colaborou como tradutor bíblico na SBB até os 82 anos. O que carrega consigo dessa experiência?
W.K.: Trabalhar na SBB foi o cumprimento de um objetivo de vida. Sou muito honrado por ter participado desse empreendimento fantástico de Deus. !
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Fonte: Revista ABNB - A Bíblia no Brasil - Julho/2010 - pg.22/23

Malditas férias!

Descobertas recentes de pesquisas sobre o prazer
na Universidade de Yale surpreendem


Se você perguntar, a maioria provavelmente vai dizer que tirar férias é algo mais prazeroso do que o expediente. Uma pesquisa do Departamento de Psicologia da Universidade de Yale revelou que, na realidade, sucede o oposto. O nível de estresse tende a aumentar durante as férias. Brigas conjugais, ou as rusgas com os filhos, são mais comuns durante os períodos supostamente de descanso e lazer. Em contrapartida, a rotina diária do escritório é, sim, muito prazerosa para a maioria – mais do que admitido. Ainda que, nas lembranças, as férias se confundam com prazer. Um enigma insolúvel?

Sem mais digressões, o psicólogo Paul Bloom arriscou uma resposta a essa charada. Segundo afirma, nosso prazer não é puramente sensorial. Apreciamos um bom filé, ou a ópera A Flauta Mágica, de Mozart, não somente pelo gosto da carne ou pela qualidade musical das árias, mas sim por algo que Bloom chama de “essencialismo” do objeto de prazer. Internamente, formamos um conceito sobre os objetos e as experiências que nos cercam. Estes conceitos pesam em nossa avaliação do prazer. O conceito mental de “férias” é muito bom. Logo, para que as férias do mundo real sejam consideradas “ruins”, elas têm de ser de fato desastrosas, como a comédia pastelão Férias Frustradas, de Chevy Chase.

Engana-se quem pensa que Bloom seja um platônico enrustido, disfarçando alguma Teoria dos Arquétipos com neurociência. A questão do prazer e da felicidade nos acompanha desde sempre, e Bloom juntou psicologia, filosofia, economia e neurociência para tentar elucidá-la, ou ao menos lançar alguma luz sobre ela.

Como nascem esses conceitos “essenciais”? O cérebro humano foi desenhado para a vida da época do Cro-Magnon. Desenvolvemos, ao longo da evolução, alguns truques cognitivos à negociação diária com o mundo físico e social. Saber de antemão que “tal coisa era boa”, ou “tal coisa era ruim”, tornava-se vital para a sobrevivência. Sem isso, morreríamos feito moscas. A imperiosidade desapareceu, mas o cérebro não abandonou o hábito de formar conceitos sobre tudo. Os tais conceitos “essenciais”. Esse gosto essencial está por trás da nossa afeição por coisas objetivamente ruins. Por exemplo, o ser humano é o único animal que aprecia o gosto do molho Tabasco. Sensorialmente, ele seria repugnante, como o é para cavalos, porcos ou gatos. Porém, o consumidor de temperos picantes tem gratificada a sensação de resiliência, de “sobreviver” a uma experiência extrema – ao ardido da pimenta. É uma sensação “essencial” comum aos apreciadores de bebidas destiladas.

Também está provado, diz Bloom, que a criação dos filhos mais nos aborrece do que alegra. Porém, a necessidade biológica fala mais alto. “Nós achamos que as crianças nos tornam felizes, por mais que a experiência nos mostre o contrário”, diz Bloom.Essa tendência humana também explica o gosto pela ficção. “O maior tempo que gastamos com prazer não é em sexo, comida, bebida, esportes, drogas ou com amigos, mas sim imaginando outras vidas – lendo romances, vendo filmes ou televisão: participando de experiências irreais”, diz Bloom. Essas experiências dão vazão externa a uma realidade interior. No cérebro humano, nota o psicólogo, convivem múltiplos egos.

O sucesso de mundos alternativos virtuais, como o Second Life, são explicados por esta necessidade essencial. Por fim, um dos principais conceitos “essencialistas” é o da autenticidade. Ao apreciar uma obra de arte, por exemplo, acreditamos que uma parte da essência daquele artista está impregnada na obra. Bloom fez o teste. Levou apreciadores a uma exposição do pintor holandês do século 17 Vermeer. Um dos quadros em exposição – A Mulher Adúltera – era obra do famoso falsário Han van Meegeren. A sensação de enlevo desaparecia nas pessoas quando lhes era dito que se tratava de uma falsificação.
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Por Álvaro Oppermann
Fonte: Revista ÉPOCA NEGÓCIOS online, 04/08/2010

Han van Meegeren – Pintor e falsário holandês (1889-1947). Durante a Segunda Guerra, ludibriou o nazista Hermann Goering, que adquiriu um de seus quadros como se fosse uma autêntica obra do mestre barroco Johannes Vermeer

8 tendências do trabalho

Das tarefas em equipe à autonomia,
da flexibilidade ao padrão de comportamento,
como será o emprego da próxima década
A tecnologia é a principal responsável por mudanças no mundo do trabalho. Mas quem espera que o avanço tecnológico nos livre de suar, como sugerem algumas obras de ficção científica, vai se decepcionar. Não que a tecnologia vá estacionar. Ao contrário. Só que a revolução que se espera – a comunicação instantânea e colaborativa à frente – deverá aumentar, e não diminuir, as responsabilidades.
Essa é uma das tendências do futuro do trabalho, segundo os relatórios de grandes consultorias e a avaliação de gente que lida com o mundo dos recursos humanos, consultados por ÉPOCA. Há outras: a flexibilização do horário de trabalho, por exemplo. Porém, ela virá acompanhada de desafios tão instigantes que o tempo livre total poderá diminuir, em vez de aumentar (leia a reportagem sobre o Google). Uma terceira: as empresas lançarão desafios para qualquer pessoa, e as melhores respostas ganharão prêmios ou um contrato para realizar a ideia.
Todas essas tendências já são notadas, em pequena escala, no mundo de hoje. Algumas já são anunciadas há mais de uma década – caso da flexibilidade dos contratos de trabalho, que no entanto esbarra na legislação brasileira. Entendê-las é crucial para quem quiser estar preparado para o mercado de trabalho da próxima década.
O trabalhador dos próximos anos será ainda mais exigido, tanto do ponto de vista técnico como em comportamento profissional e na vida privada. Num país mais rico, de mercado mais maduro, haverá um prêmio para o conhecimento. Essa tendência ganha corpo há décadas e deverá se fortalecer. Paralelamente, os trabalhos serão feitos coletivamente. Saber trabalhar em equipe (liderar ou discordar construtivamente) será um imperativo.

A seguir, as oito principais tendências do mercado de trabalho.

1. Decisões nas extremidades

Não é questão de ter alma democrática. As empresas de hoje precisam que seus funcionários tomem decisões sozinhos. Por causa da competição extrema, das demandas urgentes e do trabalho colaborativo, não há mais tempo para burocracia e consultas a diversos chefes antes de tomar uma decisão. Na maior parte das vezes, o conhecimento para tomar a decisão está nas mãos apenas do funcionário que tem contato com aquela realidade – o vendedor, o técnico, o operador. Segundo o professor americano Peter Malone, do Massachusetts Institute of Technology, estudioso do futuro do trabalho, descentralizar as decisões traz três benefícios: estimula a motivação e a criatividade; leva a mais ideias; traz flexibilidade e individualiza cada tarefa.
2. Pequenos e espertos

As grandes empresas serão cada vez maiores, mas haverá bem menos delas. O empregão clássico, com carteira assinada e benefícios, será proporcionalmente menor. Num mercado em expansão, vários profissionais talentosos deverão tentar carreira solo – prestar serviço para diversos patrões, e assim ganhar mais. Esse deverá ser um ambiente fértil para pequenas empresas criadas por empreendedores qualificados. Daí tendem a vir serviços especializados e produtos de alto valor agregado. Vão proliferar os autônomos, os consultores e os microempresários. Por causa de suas estruturas enxutas e flexíveis, esses negócios vão se adaptar melhor às condições do mercado. Justamente por terem menos a perder, eles tendem a ser inovadores e atentos ao cliente.

3. Liberdade com responsabilidade

Antigamente, o relógio de ponto era o principal mecanismo de controle das empresas sobre seus funcionários. se ele tivesse marcado seu cartão, era sinal de que estava produzindo. Mas cada vez menos as horas passadas no trabalho serão símbolo de produtividade. O horário flexível deverá ser a regra (já é em várias empresas desta lista das 100 melhores). O funcionário poderá escolher quantas horas vai trabalhar por dia e quantos dias irá ao escritório. Mas terá metas duras. Mesmo o funcionário normal de uma grande empresa terá cada vez mais um comportamento parecido com o de um empreendedor. Para que isso vire realidade, são necessárias novas métricas de eficiência. O difícil é conciliar essas medidas individuais com a tendência de trabalho em equipe.

4. Relações fluidas

Imagine o cenário: grandes empresas lançam desafios. os autônomos colaboram em rede. os pequenos empreendedores estão em busca de oportunidades promissoras. nesse panorama, as relações não serão engessadas. os profissionais vão trabalhar mais por empreitada, em contratos de curta e média duração. pequenos grupos podem se formar, realizar uma tarefa, dissolver-se e reagrupar-se para o trabalho seguinte. nas empresas, as equipes também serão móveis. o profissional precisará ter liderança para montar equipes e executar projetos de emergência. no brasil, as relações flexíveis vão esbarrar na consolidação das leis do trabalho. mas há maneiras de não ferir a legislação. esses trabalhos deverão ser realizados por consultores e autônomos.

5. Desafios ao vento

Para lançar produtos ou serviços, as grandes empresas vão promover uma espécie de competição aberta. Elas vão lançar desafios e tarefas. Os que tiverem as melhores ideias ganharão prêmios ou a possibilidade de realizar aquela tarefa. Isso já tem ocorrido em algumas campanhas publicitárias e deverá se espalhar. O benefício para as empresas é a redução de custos e a possibilidade de contar com ideias vindas de um universo mais amplo. Para os profissionais independentes, é a chance de valorizar seu portfólio. É provável que os desafios lançados pelas empresas incentivem a formação de grupos de profissionais. “a especialização vai gerar um aumento das redes de trabalho colaborativas”, afirma um relatório da consultoria PricewaterhouseCoopers.

6. Diversidade extrema

O discurso da diversidade no trabalho não é novo. Mas vai se intensificar. “Sceitar a variedade sexual, religiosa e étnica já era uma obrigação. agora os funcionários terão de aprender a interagir com pessoas com atitudes e valores completamente diferentes”, afirma Rolando Pelliccia, diretor da consultoria de RH Hay Group. As empresas vão incentivar profissionais com diferentes padrões de comportamento para reunir talentos com variadas formas de trabalhar, filosofias distintas e até pontos de vista conflitantes. Tudo para obter soluções diferentes e atingir novos tipos de público. “A habilidade mais importante será pensar abertamente, e não se limitar com preconceitos”, diz o futurologista inglês Ian Pearson.

7. Estímulos para agir

São cada vez mais comuns nas empresas programas para conscientizar os funcionários da importância de uma vida saudável, poupar dinheiro, fazer trabalho solidário. A perspectiva é que as pessoas devam se alinhar às políticas da empresa. “As empresas querem que seus funcionários sejam embaixadores da marca”, diz um estudo da consultoria Euromonitor sobre o futuro do trabalho. Os estímulos, apesar de bem-intencionados, podem criar mal-estar. Além de oprimir os discordantes, eles podem enraizar certos padrõesde comportamento. Bem-sucedido será o funcionário que souber se alinhar ao pensamento da empresa e filtrar os estímulos positivos das intromissões inadequadas.


8. Os próximos emergentes

Quem já estudou a etiqueta chinesa pode começar a pensar na da indonésia. As oportunidades não estão só nos Brics – sigla das quatro potências emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China. Outros países estão no radar de bons negócios. Os Next 11, ou próximos 11, são uma lista de países com futuro promissor. Além de exportar para esses países, as empresas brasileiras deverão investir em diversos setores deles. Dos 11 eleitos, sete têm maioria muçulmana. Conhecer a cultura, mais que nunca, será um diferencial. Nossos vizinhos latino-americanos também não podem ser esquecidos. Além do Mercosul e do Chile, o Peru é visto como um futuro prodígio: seu crescimento mensal tem padrão chinês, em torno de 10%.
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Reportagem por Thiago Cid
Foto:Um operário da Electric Time Co. limpa o mostrador de um relógio Wegman de 2 metros de diâmetro (AP Photo/Elise Amendola)
Fonte: Revista ÉPOCA  online Nº 640 - 20/08/2040

Conversa rápida com Dave Eggers

Literatura:
 O autor de "Os Monstros",
publicado recentemente no Brasil,
gosta de escrever no sofá, de pernas para cima.

AP
O escritor americano Dave Eggers:
 "Preciso de cerca de oito horas de protelação
para chegar a uma hora em que escrevo de fato"

O primeiro e mais célebre livro de Dave Eggers, "Uma Comovente Obra de Espantoso Talento" (Rocco, 2003, esgotado), lançado em 2000, é um relato biográfico emocionalmente carregado sobre a luta do autor para criar o irmão mais novo depois da morte dos pais. Ele foi indicado para o Prêmio Pulitzer. Outra obra de não ficção, "Zeitoun" (2009), acompanha um americano de origem síria que decide enfrentar o furacão Katrina em sua casa em Nova Orleans. Na área de ficção, ele estreou com o romance "You Shall Know Our Velocity", em 2002.
Nascido em Boston em 1970, Eggers é fundador da editora independente McSweeney's. Casado com a escritora Vendela Vida, vive em San Francisco com ela e os dois filhos. O mais novo romance de Dave Eggers é "Os Monstros" (Companhia das Letras, 264 págs., R$ 39,50)

Quem é o seu leitor ideal?Dave Eggers: Gosto que eles sejam elegantes e com boa postura. Talvez usando uma echarpe. Um monóculo dá um belo toque.

Quais livros estão no momento em seu criado-mudo?
Eggers: Não tenho criado-mudo. O livro que deixo cair no chão à noite é "O Fio da Navalha", de W. Somerset Maugham.

Segue uma rotina para escrever?
Eggers: Preciso de cerca de oito horas de protelação para chegar a uma hora em que escrevo de fato. Portanto, mais do que qualquer coisa, em vez de uma rotina, preciso de muito tempo.

Que petiscos o mantêm ativo enquanto escreve?
Eggers: Amêndoas e alcaçuz.

Onde o senhor escreve melhor?
Eggers: Em meu escritório no quintal, em um sofá, com os pés para cima e o laptop queimando minhas coxas.

Qual é a coisa mais estranha que o senhor já fez ao pesquisar para um livro?
Eggers: Para "Zeitoun", precisei ver de dentro a prisão onde Abdulrahman Zeitoun era mantido. Então eu fingi ser um professor de presídios para conseguir entrar. Senti-me mal por mentir, mas foi a única maneira de entrar.

Quando o senhor se sente mais livre?
Eggers: Quando nado no mar.

Qual foi o melhor conselho que seus pais lhe deram?
Eggers: Na escola secundária, sempre que meu pai conhecia alguém com quem eu estava saindo dizia: "Não estrague tudo". Ele não acreditava que alguém quisesse sair comigo. Acho que essas palavras são úteis em qualquer situação.

Que livro gostaria de ter escrito?
Eggers: "Herzog", de Saul Bellow.

Lembra-se do primeiro romance que leu?
Eggers: O primeiro que li por conta própria provavelmente foi "Duna", a obra de ficção científica de Frank Herbert. Aquilo mexeu com minha cabeça
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Reportagem: Por Anna Metcalfe, do Financial Times
Fonte: Valor Econômico online, 27/08/2010

Sustentar o quê, para quem?

Ambiente:
No mundo dos economistas,
cultiva-se o mito de que existe um sistema neutro para a natureza.

Hugo Penteado*

Fernanda Preto/Folhapress
É como se fosse possível passar um trator na Amazônia,
dar marcha à ré e nada aconteceria,
porque o sistema econômico é neutro,
previsível e reversível

Ao ler as entrevistas que integram o excelente livro "O Que os Economistas Pensam sobre Sustentabilidade", do jornalista Ricardo Arnt, somos tomados por uma sensação de abandono e falta de respostas claras sobre as ações necessárias para mudar nosso rumo, ao lado do pouco tempo para responder aos estragos já impostos aos mecanismos de sustentação da vida na Terra. Tudo depende daquilo em que acreditamos: como não são os humanos que dão as regras, mas o planeta, torna-se inaceitável o mito de total separação entre economia e ambiente, presente na maioria das análises.

A economia tem ignorado as questões ambientais e sociais, apesar de tantas evidências. É um erro científico monumental. Ao bicho da economia não importa de onde vêm os recursos, nem para onde vão os dejetos. Ele só tem sistema circulatório, só gera benesses que se somam no PIB e flutuam num Jardim do Éden. Esse mundo de faz de conta poderia estar até em Marte, e as conclusões seriam as mesmas.

Não é mencionada nas entrevistas a maior extinção em massa da vida deste planeta nos últimos 65 milhões de anos, causada pela pressão humana sobre os ecossistemas finitos da Terra. O paleontólogo e biólogo Stephen Jay Gould (1941-2002) escreveu que é muita ingenuidade achar que essa extinção jamais vai se voltar contra seus causadores, já que na Terra todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos e respectivos ecossistemas. Aquecimento global não é o problema, mas um deles. E nem é o mais importante, além de ser mera consequência. Faltou, na maioria das entrevistas, dar ênfase às causas - uma delas, o crescimento econômico -, mencionadas com clareza e crítica apenas por José Eli da Veiga e Ricardo Abramovay.

Nelson Perez/Valor
Os conceitos de energia limpa e de economia de baixo carbono
precisam ser aprimorados, porque produzir mais energia,
mesmo com processos mais avançados,
não significa ter melhores resultados
(na foto, usina de álcool)

Vários economistas entrevistados raciocinam sob influência dos erros da teoria neoclássica, segundo a qual a economia pode ser maior que o planeta. Não se trata mais de discutir quem está certo ou errado, mas de discriminar as visões de mundo que estão em acordo ou desacordo com a realidade complexa à nossa volta. A economia aplicada, baseada em premissas falsas, sofreu uma quebra de paradigma que, estranhamente, ainda não foi reconhecida pelos seus principais usuários.

As citações do matemático e economista Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994) ignoram a dureza da sua crítica irrefutável. Com sua profunda análise do sistema econômico nos anos 1970, ele previu as tragédias planetárias dos anos 1990 em diante: "Se a economia do descarte imediato dos bens e do desperdício continuar, seremos capazes de entregar a Terra ainda banhada de sol apenas à vida bacteriana".

Se esse vaticínio tivesse sido incorporado ao pensamento econômico como uma contribuição, e não como heresia, teria evitado a maior parte das catástrofes já observadas.

Esse desastre não diz respeito às gerações futuras, pois quem já sofre os danos são as gerações atuais, viventes. Não dá mais para achar o contrário, como na resposta do professor Antonio Delfim Netto, quando lhe foi perguntado se não o preocupava a finitude da capacidade de resistência do planeta: "Eu me preocupo, mas o que posso fazer? Esse futuro eu não vou viver". Essa perda de referência nos faz imaginar que não temos mesmo nada a fazer. Temos sim.

Para falar de sustentabilidade, os economistas devem iniciar pela crítica de Roegen, que recorre às leis da mecânica clássica para explicar processos econômicos. Cultiva-se o mito de um sistema econômico neutro para a natureza: podemos passar um trator na Amazônia, dar marcha à ré e nada aconteceria, porque o sistema econômico é neutro, previsível e absolutamente reversível.

Isso cria ideias estapafúrdias, como a infinita substituição dos recursos da natureza, mas o pecado maior apareceu na teoria de crescimento de Robert Solow: um dia, o ser humano será capaz de produzir outros fatores materiais que não os da natureza - esse capital (máquinas, equipamentos etc.) seria um perfeito substituto da natureza. Não existem outros fatores materiais que não os da natureza, avisam os físicos à sua irmã siamesa, a economia.

O mito da tecnologia aparece amiúde nas respostas dos entrevistados, como solução milagrosa dos problemas, mas há oposição: Eduardo Giannetti e outros pedem que não se conte com milagres tecnológicos. Ao mito do crescimento eterno junta-se outro que tudo justifica: todas as benesses sociais derivam do crescimento. Os economistas precisam também reavaliar os resultados sociais. Há pinceladas sobre esse tema nas entrevistas, mas nada conclusivo.

A revista "New Scientist" no texto "The folly of growth",
no qual pergunta aos cientistas quantas pessoas o planeta sustentaria
no padrão de vida dos países ricos.
Resposta: apenas 200 milhões

O Clube de Roma apenas evidenciou, tal como Roegen, que há limite para a economia dentro de um planeta finito. Essa visão simples continua válida, com vários graus de acerto. Não há exercício de futurologia aí. Apenas, recomenda-se reconhecer a incompatibilidade de um subsistema sempre crescente dentro de um planeta finito.

Pouco entendimento é mostrado por grande parte dos entrevistados sobre o cálculo da Global Footprint Network, pelo qual hoje a humanidade já faz uso de 1,3 planeta e não há mais tempo para a regeneração da maior parte dos 20 serviços ecológicos de sustentação da vida, que já estão em colapso.

A mesma conclusão está presente nos dois relatórios do Millenium Ecossystem Assessment, o mais recente dos quais intitulado "Civilization Collapse". A revista "New Scientist" também tocou nesse tema no texto "The folly of growth", no qual pergunta aos cientistas quantas pessoas o planeta sustentaria no padrão de vida dos países ricos. Resposta: apenas 200 milhões.

Veiga e Abramovay fizeram propostas interessantes no âmbito de soluções institucionais, endossadas indiretamente por outros economistas. A discussão sobre renováveis quase sempre foi dirigida para oportunidades de negócios e exportações e não em revogação da rota de colisão com a Terra. Fica clara a necessidade de rever o conceito de energia limpa e suas reais limitações e remover o desperdício monumental (de tudo), como o do sistema de transportes (e não copiar os chineses, que começam a proibir bicicletas nas principais cidades). André Lara Resende tocou nesse ponto com razão. Transformar nosso sistema de transportes, ineficiente energeticamente, evitaria a construção de várias usinas Belo Monte. Na verdade, ter mais energia não significa ter melhores resultados.

O conceito de energia limpa também precisa ser aprimorado, bem como o da economia de baixo carbono, por uma razão muito simples: produzir mais energia, mesmo que com tecnologias mais limpas, aumentará a pressão humana sobre a Terra, e não o contrário. Acima de tudo, não se pode esquecer que não temos só um problema de energia, mas de matéria. É um erro acreditar que o único desafio é obter uma fonte de energia limpa e infinita e com isso construir um novo planeta (crença muito difundida).

O erro de Malthus é o mesmo da visão dominante atual e é hilário ele ser citado como exemplo contrário. Malthus, como todos, não via a menor restrição para o crescimento ininterrupto da população. Apenas recomendava correspondência com o ritmo aritmético de produção de alimentos. Se, por acaso, ele soubesse que os alimentos iriam apresentar crescimento geométrico, não teria visto o menor problema no crescimento populacional.

Uma ideia estranha, similar, está relacionada com a queda dos regimes comunistas. A derrocada do comunismo nada tem a ver com organização política, mas, sim, com colapsos ambientais e falta de recursos naturais - rota igualmente seguida pelo Ocidente, o que sugere um alerta para os regimes ditos "vitoriosos".

Exportações não são uma solução econômica viável para país nenhum, quando não se leva em conta a questão ambiental e planetária. É uma demanda estrangeira sobre os ecossistemas do Brasil, com poucos benefício para a população e impacto negativos até no emprego. A comissão Stiglitz-Fitoussi-Senn recusou o conceito de pegada ecológica, pelo seu viés contrário ao comércio global. O maior furor ambientalista na Europa, hoje, é concentrar-se em produtores locais, para evitar a tragédia carbônica do transporte transoceânico, ignorada também pelo sistema de preços.

O comércio global, principal causa do colapso ambiental civilizatório, pela primeira vez na história da humanidade permitiu aos países ricos exportar esse mesmo colapso para o resto do mundo, a custo zero. Se os Estados Unidos (ou a China, ou outro país rico) fossem o único território deste planeta e não tivessem nenhum lugar onde explorar recursos para sua "prosperidade", já teriam entrado em colapso há muito tempo.

É correta a crítica pela qual não podemos aceitar a tese de que, se os ricos poluíram e destruíram, devemos fazer o mesmo. Precisamos, sim, propor internacionalmente uma forte compensação monetária por salvarmos o resto do planeta. Manter a Amazônia em pé parece ser consenso de todos. Resta saber por que, com tanta unanimidade, a cada ano temos menos floresta e estamos mais próximos de sua resiliência. Segundo Niro Higuchi, cientista brasileiro membro do Intergovernmental Panel on Climate change (IPCC), a floresta retém carbono equivalente a 150 anos de atividade industrial e, se sua resiliência (ou padrão de umidade) desaparecer, não há como impedir que desapareçam bilhões de seres humanos.

É estranho, e errado, achar que a limitação ecológica só existe quando nos aproximamos dela. Em outras palavras, não haveria erro na análise, só no momento em que nos aproximamos do precipício.

No fundo, se a teoria econômica não fosse tão capenga em relação às questões essenciais da humanidade e sua posição vulnerável em relação ao planeta, as potencialidades que teríamos atingido teriam sido muito maiores. O fato de os recursos causarem a impressão de serem inesgotáveis no passado, como respondeu Edmar Bacha, e terem sido tratados como bens livres, é um erro secundário decorrente dos mitos que regem os princípios de conservação e axiomas do pensamento econômico tradicional.

Enfim, o livro é de uma riqueza de análise interessantíssima para abrir um debate que não pode mais ser adiado. Não deixa de ser positivo o fato de os economistas serem chamados a pensar a respeito de um assunto sobre o qual nunca se debruçaram. Mas faltou coragem para reconhecer os erros e as falhas do pensamento atual. Só assim teremos um progresso verdadeiro.
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*Hugo Penteado é economista formado pela Universidade de São Paulo, autor do livro "Ecoeconomia - Uma Nova Abordagem" (Lazuli, 2003 e 2008)
Fonte: Valor Econômico online, 27/08/2010