sábado, 30 de outubro de 2010

Como se escolhe um presidente

Juremir Machado da Silva*

Crédito: ARTE PEDRO LOBO

Escolher um presidente pode ser tão complicado quanto escolher um bom vinho. A propaganda do produto mais confunde do que ajuda. Os nomes nem sempre dizem muito sobre as qualidades intrínsecas do que será degustado ou entronizado. Nossos critérios acabam sendo bastante subjetivos ou aleatórios: rótulo, preço, origem, popularidade, capacidade de falar em público, carisma, visibilidade e simpatia. Volta e meia alguém diz assim: o candidato Fulano de Tal não consegue fazer uma frase clara. E daí? Há quem fale mal e administre bem. Há quem administre mal e fale bem. O que é mesmo o carisma? Nem os sociólogos sabem direito. Serra e Dilma muito menos. Por que ser simpático é importante? Nunca vamos conversar com o eleito. O que isso tem a ver com bons projetos? Talvez seja só um sintoma da dificuldade de escolher.
Os debates servem menos para revelar a substância dos candidatos do que para confirmar o supérfluo. Ficamos atentos a habilidade de cada um para escapar de pegadinhas, decorar respostas, emplacar uma piadinha na hora certa, soltar uma frasezinha de efeito ou ironizar o adversário. É um jogo. Não confiamos em nosso paladar. Queremos ajuda dos especialistas. Aí é que a porca torce o rabo. Nem tudo o que tem cor de rubi tem gosto de cereja. O sociólogo francês Lucien Sfez passou quatro meses em Porto Alegre. Na França, ele bebe vinho todo dia. Conhece o assunto. Aqui, oferecemos para ele os melhores vinhos gaúchos, argentinos, chilenos e uruguaios. Inutilmente. O único vinho que ele queria era Marcus James. Confiava no seu paladar. Não se constrangia em contrariar o bom gosto local. Sabia o que queria.

"O buraco dessa eleição sempre foi claro:
conservadorismo versus reformismo."

Uma campanha eleitoral é um duro processo para se ir das aparências aos projetos. Apesar da baixaria que dominou o confronto entre Serra e Dilma, os projetos apareceram. Quem prestou atenção, sabe o que cada um representa e pretende fazer. Chegou a hora de apertar as teclas da urna. Cada um deve tentar seguir o seu paladar. Quem gosta de Marcus James não deve hesitar. O importante é seguir o próprio gosto sem se deixar impressionar pelos modismos ou pelas chantagens estéticas. Não há bem nem mal dentro da garrafa. O mal vem do excesso. A escolha de um presidente, óbvio, é mais complexa e importante que a de um vinho. Não pode, portanto, ser reduzida a uma questão de marca e marketing. Luiz Inácio provou que se pode ser bom presidente sem diploma universitário e sem título de doutor. Isso, porém, não quer dizer que Marcus James seja mesmo melhor do que um Casa Silva. O buraco é outro.
O buraco dessa eleição sempre foi claro: conservadorismo versus reformismo. Uma viagem no tempo. Em alguns momentos, parecia que estávamos em 1954, com uma legião de Carlos Lacerda vociferando contra os 100% de aumento do salário mínimo dados por Getúlio Vargas. Na época, último governo de Vargas, o grande confronto era entre privatização e controle do Estado de riquezas como o petróleo. Nada de novo no front. A diferença é que Luiz Inácio sairá vivo do palácio. Voltará nos braços do povo?
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* Filósofo. Escritor. Colunista do Correio do Povo
Fonte: Correio do Povo online, 30/10/2010

Neurose de destino em tempos incertos

BRASIL DAS RELIGIÕES
Fiéis carregam imagem de santa em procissão de 
Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá em Pelotas, em 2007

 
Abordagem religiosa de questões de saúde e de gênero expõe impasses do poder modernoUm inevitável sentimento de naufrágio nos atinge quando percebemos que países que historicamente constituíram um modelo de riqueza e poderio entram em crise, suas economias tremem, seus modelos políticos engasgam, seu equilíbrio social desanda. Se nos anos de 1920 foi a vez de a Grã-Bretanha perder o comando do mundo, hoje certamente não ficamos felizes (independentemente do pouco que viermos a gostar de Sarkozy) de ver as ruas de Paris invadidas – mais uma vez na história – pelas fogueiras das barricadas. Como também, seguramente, nos causou um recente dissabor ver a dignidade histórica da Grécia afundar nos labirintos da miséria financeira. Tampouco nos tranquiliza que uma das potências atuais – que se projeta como dominante num futuro próximo – desqualifique, para firmar sua arbitrariedade ideológica, o Prêmio Nobel da Paz concedido a um de seus presos políticos. No último triênio os efeitos de um “mal cálculo” na movimentação de juros e capitais nos negócios imobiliários da economia americana acabaram se estendendo como uma tsunami pelo mundo todo. Uma parte essencial dos Estados árabes, seculares guardiões das culturas e riquezas geradas pelas linhas milenares do comércio entre Oriente e Ocidente, transformou-se em Estados islâmicos (então, Estados de caráter confessional), passando a protagonizar violentos conflitos étnico-religiosos sem limites geográficos definidos.

"A angústia que emerge do distanciamento
entre as fontes de poder e as vias da representação popular
 – efeito político da globalização –
toma a forma de uma neurose de destino.
Nessas condições, o sujeito fica mais exposto ao controle de
suas escolhas morais por parte das instâncias religiosas:
 desafiar o que os deuses aprovam colocaria
 imaginariamente em risco seu destino"

A resistência dos Estados poderosos do mundo em reduzir significativamente as emanações de CO2; a instabilidade climática global provocando fenômenos meteorológicos surpreendentes e, de um modo geral, de consequências trágicas; a consciência popular de que um desmatamento na Indonésia ou uma queima de florestas na América do Sul não tange somente às condições ambientais daqueles que habitam nessas proximidades, mas que afeta a todos os habitantes da Terra. Enfim, que a globalização não consiste meramente em poder comprar chocolate suíço no Rio de Janeiro, Coca-Cola em Taiwan, ou um quimono em Madri, mas sim consiste em termos que suportar as consequências de decisões tomadas por governantes de outras latitudes – de cujas escolhas não participamos –, ou poderosos sobre cujas ações não temos ingerência. É vox populi que os governantes que formos escolher – seja na nossa cidade, no nosso Estado ou no nosso país –terão, inevitavelmente, de negociar seus programas de ação com instâncias internacionais mais poderosas do que eles e, ainda, de seus grupos de apoio. O desejo de mudar o que não funciona na nossa sociedade corre, então, todo o risco de tropeçar num cerco de limitações “globais” e acabar de cara num muro dos lamentos.

"A tramitação política incorpora hoje, então,
 a troca de fatias de poder por exigências morais.
A razão cede seu lugar à oração."

É natural, então, que um sentimento de incerteza tome conta de nós, sendo que, cada vez mais durante os últimos anos, diante do fracasso de influenciar a condução do mundo com nossas boas razões, tem acontecido de vastos setores da sociedade terem cedido à tentação de entregar a garantia de seu destino às entidades religiosas. Expandidas e multiplicadas pela migração da militância popular, elas se vêm facilmente catapultadas a recapturar para a religião o Estado que a modernidade transformou em laico. A tramitação política incorpora hoje, então, a troca de fatias de poder por exigências morais. A razão cede seu lugar à oração.
A angústia que emerge do distanciamento entre as fontes de poder e as vias da representação popular – efeito político da globalização – toma a forma de uma neurose de destino. Nessas condições, o sujeito fica mais exposto ao controle de suas escolhas morais por parte das instâncias religiosas: desafiar o que os deuses aprovam colocaria imaginariamente em risco seu destino. Questões como a prática do aborto, a utilização das células tronco, a união entre homossexuais, a transfusão de sangue, o divórcio, a iniciação sexual, a extensão do conceito de adultério, a monogamia ou a poligamia, o uso da burka, a proibição do uso de minissaias, de expor o corpo ao sol ou de namorar em lugares públicos (até mesmo a significação do termo “namorar”), a eutanásia médica, a determinação da morte por inatividade cerebral, são temas – entre outros muitos – que, considerados por um estado clerical não têm outra possibilidade senão se transformar em projetos de imposição legislativa seja de limite à ciência, seja de uma moral obrigatória independentemente da filiação cultural do sujeito que venha a suportá-la. O debate desaparece do terreno da razão porque entra nos domínios do dogma. Corre-se, então, o risco de que cada templo venha a exigir dos fiéis condutas públicas e políticas que acabem cultivando um clima de oposições entre crenças que deveriam ficar restritas ao exercício da vida privada.
Há 10 anos, escrevemos neste Cultura que Brasil era um raro caso de politeísmo bem-sucedido. Hoje nos vemos na necessidade de colocar tal postulado sob ponto de interrogação: Brasil, um caso de politeísmo bem-sucedido?
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* POR ALFREDO JERUSALINSKY, PSICANALISTA, MESTRE EM PSICOLOGIA CLÍNICA PELA PUCRS, AUTOR DE “QUEM FALA NA LÍNGUA?” (ÁGALMA, 2004)
Fonte: ZH online, 30/10/2010

O colapso dos seminários

Tom McMahon
Vivemos um momento fascinante da história eclesial. Para aqueles que acompanham os comentários nas publicações mais intelectualmente atentas ao redor do mundo, o colapso agora é quase palpável, apesar de acontecimentos como a canonizações em Roma há poucas semanas.
O Vaticano II tem sido visto por muitos como uma oportunidade para a Igreja se renovar e manter sua relevância no mundo moderno. Tom McMahon, como muitos de nós, ficou muito animado com o horizonte que o Concílio entreabriu. Hoje, a iniciativa se perdeu, e a instituição parece estar desmoronando em um museu e em uma reminiscência, largamente irrelevante para as necessidades da grande maioria que ela uma vez batizou em nome de Jesus.
McMahon continua sua exploração do colapso. Hoje, ele chama a atenção para o sistema de seminários, que está no núcleo do poder da instituição desde o Concílio de Trento.
Tom McMahon (foto) é ex-padre e agora casado, vive em San Jose, nos EUA, e continua contribuindo com a discussão católica em diversos âmbitos. O artigo foi publicado no sítio Catholica, 26-10-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em primeiro lugar, peço aos leitores que vejam um artigo que se encontra na edição do dia 16 de outubro da revista The Tablet. É sobre a história e o fechamento atual de um antigo seminário inglês – o último grande seminário que atendia o norte da Inglaterra, Ushaw College, localizado nos arredores de Durham. Que lição podemos aprender com isso? O que está acontecendo? A "bola de demolição" se aproxima de uma instituição envelhecida. Existe um futuro para o sistema de seminários? Tudo é processo! O Concílio Vaticano II foi uma "bola de demolição" para a Igreja medieval? Lembre-se de Stanley Keleman: "Toda vida nova vem da destruição da velha".
Em segundo lugar, eu incentivo a leitura do belo artigo de Richard Sipe, publicado no site Catholica ["O tempo para as desculpas acabou", disponível aqui, em inglês] Por favor, não leiam-no superficialmente, como se Richard estivesse divagando sobre a questão da pedofilia. Ele merece um estudo cuidadoso.
Ambos os artigos contêm as chaves para a compreensão da atual crise clerical. No escândalo sacerdotal mundial – notem as bandeiras da Liga das Nações –, o abuso clerical é uma crise internacional, que toca em todas as partes do globo. Há um denominador comum mundial do atual sacerdócio romano: o sistema de seminários do Concílio de Trento controlado pelo Vaticano por 400 anos.
Não é de se admirar que Bento XVI pressione pelo regresso do latim, a língua unificadora internacional da antiga Igreja medieval. Com o latim, todos os clérigos podem se manter à distância, se proteger dos leigos e vestir seus barretes obsoletos colocando a "culpa" no Papa.
Originalmente como cargo político na Roma antiga, o papado substituiu o imperador da Roma antiga e sobreviveu como a única monarquia de uma cultura medieval moribunda. O sistema de seminários mundial é o seu centro de comunicação atual e futuro. A palavra seminário significa "sementeira", um lugar onde a política da corporação é plantada profundamente. Alguém é ordenado quando é claramente um homem da corporação. Aqueles que pensam independentemente não vão passar pela revista.
A contribuição do jesuíta norte-americano John Courtney Murray (foto) ao Concílio Vaticano II foi o 16º e último documento aprovado pelos 1.800 bispos do Conselho Geral. A Declaração sobre a Liberdade Religiosa é uma estaca no coração das religiões-vampiro dos Papas Borgia e da Inquisição. Somente um membro do moderno Mundo Livre poderia modelar esse reconhecimento ao estilo de Jesus. João Paulo II e seu seguidor, Bento XVI, menosprezaram essa liberdade cristã, particularmente ao silenciar teólogos como Leonardo Boff, Roger Haight e Tissa Balasuriya... Jesus veio para nos libertar.
Há um grande problema no sistema de seminários de hoje, com o influxo dos filhos não nativos do terceiro mundo e daqueles que possuem orientação homossexual. Eles vêm de culturas dominadas pelos homens, com uma total incompreensão acerca da mulheres. Eles são uma contradição silenciosa a um Jesus histórico, muito dispostos a praticar os costumes do meu seminário de antigamente, assim como vendo a si mesmos acima do comum. Alguns se lembram da história que eu contei no Catholica sobre a minha visita ao St. Patrick's Seminary and University, para uma grande celebração, quanto eu estava de pé na fila do almoço, atrás de quatro estudantes clericalmente vestidos. Eles não tinham nenhuma ideia de quem eu era. Eu simplesmente perguntei: "Por que um jovem gostaria de ser padre?". Um jovem clérigo virou-se e disse: "É uma posição de prestígio" e, depois de se afastar por alguns segundos, falou novamente: "E serve às pessoas". Eu balancei a cabeça em assentimento e disse "obrigado". O traje clerical é muito importante para o seminarista moderno.

Em 1800, o cardeal Paul Cullen (foto) desligou a tomada de um sacerdócio que se sebtua em casa com o povo irlandês. A maioria do clero nativo havia sido treinado na França, fortemente influenciado pela revolução dos povos [A Revolução Francesa (1789-1799) foi um período de agitação social e política radical na história francesa e europeia]. Nos dias da Grande Fome da Batata Irlandesa [em 1840, a Irlanda foi acometida por um terrível fungo que atacou as plantações de batata, o que provocou um dos maiores surtos de fome da Europa moderna], Cullen condenou os analfabetos pela sua infidelidade, pregando que Deus havia os amaldiçoado com essa peste. O sistema de seminários Trentan estava convenientemente disponível para separar os futuros clérigos das pessoas comuns. Cullen pretendia tornar o clero irlandês em bons ingleses, senhores poderosos como ele mesmo sobre pessoas simples, controlados por uma burocracia ultramontana chamada Cúria.
Esses poderosos monges internos excluíram as mulheres, os casados e os não-ordenados desde 1139. A ordenação clerical se tornou a base nuclear para a religião Católica Romana, suplantando o significado e o valor do batismo e do Estado laico. A instituição era a atividade daqueles que continuam usando a mitra – o chapéu dos proprietários de terras do século XII.
Naquele momento, e hoje, apenas um Jesus cerimoniosamente honrado pode participar na sua farsa. A Europa Renascentista está repleto de lutas de poder entre as "nações" recém-nascidas e a corte papal. A luta pelo poder se desintegrou agora em uma atual briga de rua silenciosa: um bispo no Nebraska que estupidamente excomunga escoteiras meninas, e católicos romanos que pertencem a grupos de reforma.

A teóloga do século XXI Rosemary Radford Ruether (foto) sugeriu que o padre aceitável do amanhã virá de dentro das fileiras de uma comunidade cristã já estabelecida. O único sacerdote de sucesso é aquele que é nativo para o seu povo, alguém que os conhece e os compreende. Perdoem-me a utilização do gênero masculino, já que eu posso ver facilmente a liderança feminina se tornando rapidamente o estilo das chamadas religiões protestantes dos Estados Unidos. Espero que as mulheres possam evitar o clericalismo. As pessoas comuns podem ajudar nisso.
O grande Agostinho de Hipona se orgulhava porque, apesar fosse bispo, ele era membro da sua comunidade cristã. Para compreender Jesus, é preciso pertencer a uma comunidade cristã de diálogo. Hoje, esse é o grande desafio para o Povo de Deus. O poder clerical romano irá resistir poderosamente contra pessoas que assumem um lugar no governo do Vaticano. Essa é a questão básica da atual guerra civil dentro do catolicismo.
Como descendente de vítimas da Grande Fome da Batata Irlandesa e como sacerdote ordenado no âmbito de um Sistema de Seminários Romanos disfuncional, tenho uma profunda mágoa com relação a Paul Cullen e seus seguidores de batinas escarlates que, em minha opinião, traíram não só o meu povo ao longo de centenas de anos, mas também a Jesus. Eu gostaria de incentivar os leitores a observar as palavras "consagrado" e "entronizado" na biografia de Cullen, assim como, em sua foto, a proeminência de um anel episcopal e da cruz peitoral como sinais do poder monárquico.
O Concílio de Trento condenou um episcopado mundano, embora sua voz não tenha sido ouvida durante mais de 300 anos até o Concílio Vaticano II. No final dos anos 1960, quando um corpo do estudantes inteligente do Seminário da América do Norte, em Roma, discutiu os documentos do Concílio Vaticano II, houve um êxodo em massa dos seminaristas de elite, por terem percebido duas Igrejas diferentes e a impossível tarefa de servir a dois senhores. Mais de 100 estudantes norte-americanos deixaram o seminário, homens escolhidos a dedo pelos bispos locais para estudar em Roma e se tornarem futuros bispos da América. O futuro do sacerdócio e da hierarquia estavam em perigo.


A Irlanda, na década de 1960, tinha 11 seminários maiores, enquanto hoje tem apenas um. O artigo da The Tablet fala de 26 alunos no seminário inglês de Ushaw que foi agora fechado. Registros do St. Joseph College (foto) na Internet mostram bem mais de 250 alunos (de Ensino Médio e nível Superior júnior) no auge do tempo em que eu estuve no seminário, nos anos 1942 a 1948.
Depois do Concílio Vaticano II, o forte declínio do corpo discente acelerou. O terremoto de Loma Prieta de 1989 condenou a "Pequena Cidade de Deus". Eu assisti durante horas a bola de demolição destruir não só o complexo de prédios, mas junto com eles "os sonhos de infância de muito tempo atrás". Eu chorava e perguntava por que os prelados da antiga Igreja não podiam prever a mudança como benéfica para o povo. Com o desaparecimento do seminário menor, o arcebispo de San Francisco ainda tinha uma mão cheia de cartas. Ainda havia o St. Patrick – agora chamado de Universidade e Seminário – a apenas 50 milhas de distância das ruínas da Pequena Cidade de Deus. Eu vi na destruição a erosão de um sistema educacional do século XVI – um sacerdócio lavado cerebralmente em seu caminho ao esquecimento.

Para mim, a Pop's Rock (monumento na frente do seminário, na foto) é uma lembrança simbólica da segunda comunidade cristã à qual eu pertenci, da minha família de infância, da primeira experiência de Jesus e de meus companheiros de seminário – uma família real. Eu entraria no sacerdócio em 1954, com uma visão de partilhar esse espírito de família cristã com o mundo. Eu sou um garoto da Grande Depressão norte-americana, um idealista que luta com a mentalidade negativa dos bispos romanos.
Eu me lembro muito vividamente, em 1939, de minha mãe ao dizer que havia percebido que o nosso bispo-pastor era um republicano genuíno. Minha mãe era totalmente pró-Franklin D. Roosevelt. Enquanto eu envelhecia, encontraria a Igreja institucional em oposição aos movimentos sociais, em conflito com os ensinamentos de apoio às pessoas do Vaticano II.
Existe uma linha comum – um denominador comum que une os sacerdotes do mundo inteiro? Creio que existem três bases comuns que podem ser encontrados em todos os seminaristas e sacerdotes, independentemente de suas nacionalidades (mais uma vez, lembre-se das bandeiras das nações de Sipe).
Nós éramos crianças de pais comuns, simples, religiosos;
O sistema de seminários absorveu bons rapazes que queriam servir a Deus e às pessoas;
A experiência do seminário ofereceu uma mensagem ambígua, uma imagem distorcida da Criação e da futura possibilidade de trabalhar com pessoas boas.
Darei mais detalhes sobre isso futuramente. Como homens bons se tornam maus?
Espaço e tempo se esgotam enquanto minha mente se enche de ramificações das memórias da Pequena Cidade de Deus.
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Fonte: IHU online, 30/10/2010

O publicismo obscurantista da campanha presidencial 2010

Cláudio Lorenzo*

Obscurantismo pode ser definido como uma forma de política que busca impedir o esclarecimento da população por considerar o conhecimento perigoso ou inadequado. No campo da Ética e da Moral, como não é possível determinar objetivamente o que é o correto, ou seja, não é possível aplicar métodos de confirmação universalmente aceitos, tomar uma decisão ética análoga à verdade, implica necessariamente em estabelecer espaços públicos de diálogo, e nesses espaços se construir consensos entre os sujeitos e coletividades implicados em uma determinada situação a regular.
Tomemos a questão do aborto como uma dessas situações a regular e que protagonizou durante boa parte da campanha presidencial. Trata-se de uma situação sobre a qual existe uma tremenda carga valorativa oriunda das diversas visões de mundo que formam as sociedades plurais como a nossa. Neste caso, tomar uma decisão sobre se devemos manter a criminalização nos termos que a lei define ou se devemos mudá-la, por considerar eticamente aceitável a interrupção da gravidez em sua fase inicial e visando à proteção de milhões de mulheres que praticam anualmente o aborto inseguro, implica necessariamente na exposição livre de argumentos por todos os segmentos da sociedade.
Uma campanha presidencial poderia ser um momento privilegiado para esse tipo de debate. Entretanto, as campanhas já não pertencem aos partidos, mas aos grupos publicitários contratados para construir a imagem dos candidatos e escrever midiaticamente as suas políticas. Esses novos “publicistas”, donos de uma implacável racionalidade instrumental, incapazes de refletir sobre qualquer outra coisa que não seja a obtenção de seu fim, guiam os caminhos da abordagem de questões como o do aborto no Brasil, não importando suas demais consequências para a sociedade.

"Dessa maneira, a população brasileira,
não pode ter acesso a outros argumentos distintos
daquele da sacralidade do embrião.
 Não pode refletir, por exemplo,
sobre a injustiça da lei que pune exclusivamente a mulher,
sobre o fato de que existem mulheres violentadas
 pelos companheiros quase diariamente e
que os filhos que nascem dessa violência,
reduzem sua força de trabalho e
 aumentam sua dependência do agressor."

É assim que a ideia tradicional de origem religiosa de que o embrião tem o mesmo estatuto moral da criança e, portanto, a interrupção da gravidez em qualquer fase equivale a um assassinato, tornou-se uma verdade inquestionável na campanha. Um dos candidatos, certamente orientado por seus “publicistas” acusava a oponente de querer matar as criancinhas. A outra candidata, sentindo o perigo para sua campanha em abrir o debate, e orientada por sua equipe também excelente equipe de “publicistas” apressou-se em declarar-se pessoalmente contrária à modificação da lei.
Dessa maneira, a população brasileira, não pode ter acesso a outros argumentos distintos daquele da sacralidade do embrião. Não pode refletir, por exemplo, sobre a injustiça da lei que pune exclusivamente a mulher, sobre o fato de que existem mulheres violentadas pelos companheiros quase diariamente e que os filhos que nascem dessa violência, reduzem sua força de trabalho e aumentam sua dependência do agressor. Não pode pensar sobre o fato de que são as mulheres pobres, negras e índias as que precisam da modificação da lei para não arriscarem perder suas vidas em práticas inseguras, posto que as de classe média e rica tem todo acesso garantido mesmo na clandestinidade. Não pode ouvir que o estatuto ético do embrião só foi comparado ao da criança pela igreja no final do século XVII e que antes disso ela se baseava na Suma Teológica de Tomás de Aquino, que inspirada em Aristóteles, descrevia que o concepto como tendo uma etapa vegetal (embrião) e finalmente uma fase animal (humana) que era quando ele começava os primeiros movimentos no ventre, sinal de que havia recebido a anima (alma), e que a própria bíblia estabelece o estatuto do embrião de forma distinta do da criança (Exodus, 21).
O resultado foi que nas semanas seguintes as pesquisas de opinião mostravam um aumento da recusa na modificação da lei de criminalização, o que é preocupante para uma sociedade que precisa se tronar mais tolerante com a diversidade e avançar nas liberdades individuais. Os fundamentalistas à espreita agradecem.
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* Cláudio Fortes Garcia Lorenzo é professor adjunto do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília, professor do Programa de Pós-Gradução em Bioética da mesma universidade e professor associado à Universidade de Sherbrooke, Canadá. Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal da Bahia, Mestrado em Medicina e Saúde pela Universidade Federal da Bahia, com concentração em Bioética e Doutorado em Ética Aplicada às Ciências Clínicas pela Universidade de Sherbrooke. É o primeiro vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética e membro da REDBIOÉTICA para América Latina e Caribe da Unesco. Tem experiência na áreas de Bioética e Saúde Coletiva, atuando principalmente nos seguintes temas: ética da pesquisa, bioética, medicina social e filosofia da saúde.
Fonte: http://www.unb.br 28/10/2010
Imagens da Internet

Ingredientes para o Sucesso

Tom Coelho*


10 tópicos essenciais para o êxito nas corporações


Enquanto consultor, tenho tido a oportunidade de conhecer e estudar a realidade de empresas diversas, seja no porte ou na atividade econômica, concluindo que invariavelmente a distância entre o sucesso e o fracasso é mensurada pela qualidade da gestão. Desta experiência, posso afirmar que o êxito no mundo corporativo passa necessariamente pelos quesitos abaixo relacionados.

1. Propósito definido. Toda organização deve ser capaz de responder à seguinte questão: Qual é o seu negócio? Empresas de cosméticos vendem beleza, a expectativa das mulheres de se tornarem mais belas e atraentes. Companhias de transporte aéreo vendem economia de tempo, a promessa de fazer o usuário chegar mais rapidamente ao seu destino. Indústrias de freios e pneus vendem segurança. O que vende a empresa na qual você trabalha?

2. Valores e visão compartilhados. Os valores praticados (e não os meramente declarados) por uma empresa expressam seu DNA e sua personalidade. Definem o perfil de quem pode e deve vestir a camisa da corporação. E a visão, quando comungada pelos colaboradores, indica a trajetória a ser seguida. Os valores determinam o ponto de partida, e a visão, a estação de chegada.

3. Foco no cliente e na rentabilidade do negócio. O cliente é, há tempos, o fiel da balança. Do alto de sua subjetividade e infidelidade, sentencia quem capitula ou permanece no mercado, simplesmente decidindo onde e como gastar seus recursos. Mas que não se perca de vista a obrigatoriedade de a empresa ser lucrativa, e mais ainda, rentável. Este é o único caminho para a perenidade.

4. Metas factíveis, planejamento e monitoramento sistemáticos. Administrar uma empresa não é fruto do acaso. É um processo que demanda a determinação de metas específicas, quantificadas, ousadas e possíveis de serem alcançadas, traçadas dentro de um planejamento estratégico e continuamente monitoradas.

5. Produtos, serviços e atendimento excepcionais. Produtos e serviços (e todo produto é um serviço em última instância) estão comoditizados, cada vez mais similares em forma, conteúdo, design e funcionalidade. Mas há um grande diferencial competitivo: a qualidade do atendimento. Este é o único fator possível de fidelização de clientes. E o primeiro a impor uma fronteira entre preço e valor.

6. Equipe extraordinária e clima organizacional estimulante. Se a vantagem comparativa advém de um atendimento primoroso, este só pode ser proporcionado por pessoas. O segredo está em contratar, capacitar, educar, desenvolver e aprimorar pessoas comprometidas, responsáveis e leais, além de íntegras e éticas, ou seja, de bom caráter. E propiciar um ambiente de trabalho auspicioso, aliando os interesses individuais aos corporativos, além de promover a diversidade.

7. Marketing na veia. O marketing não pode ser entendido como responsabilidade de um departamento da empresa. Marketing é tudo o que fazemos e deixamos de fazer. Ou, como diria Peter Drucker, ele é o próprio negócio. Deve-se cuidar da comunicação corporativa (no seio da empresa), mercadológica (para fora da empresa) e institucional (perante a comunidade). O objetivo deve ser a construção de uma marca sólida capaz de gerar um vínculo cognitivo e emocional com o consumidor.

8. Finanças sob controle. Nenhuma organização progride com má administração financeira. Vendas deficitárias, crédito irresponsável, cobrança inepta, investimentos perdulários e endividamento galopante conduzem gradualmente qualquer empresa à bancarrota. É preciso austeridade na gestão do caixa, combate aos desperdícios e atenção com os custos, que crescem como unhas: insistentemente.

9. Responsabilidade social e sustentabilidade. Toda empresa tem uma função social que principia com a geração de emprego e renda e se amplia ao suprir as deficiências do Estado no que tange à saúde, educação, transporte e segurança. Associado a isso, surge a questão da sustentabilidade, mais do que um modismo, uma tendência, ainda que incipiente como princípio valorativo. Num futuro próximo, a percepção do consumidor da preocupação legítima das empresas com o meio ambiente balizará suas decisões de compra.

10. Inovação e capacidade de se reinventar. Ao seguir um mesmo receituário, ainda não se garante uma posição de destaque e diferenciação. O desafio é evoluir sempre. Antever e traçar cenários. Criar novas maneiras de gerir o negócio e as pessoas. O mais difícil não é atingir o topo, pois toda liderança é transitória e situacional. Difícil é permanecer lá em cima.

Estes são ingredientes essenciais para o sucesso empresarial. Já a receita, cada um faz a sua, mediante a combinação inclusive de outros temperos.
Mas vale salientar que a prosperidade deve contemplar uma melhor qualidade de vida. Este é um objetivo final nobre e que vale a pena ser perseguido.
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*Tom Coelho, é educador, conferencista e escritor com artigos publicados em 15 países. É autor de “Sete Vidas – Lições para construir seu equilíbrio pessoal e profissional”, pela Editora Saraiva, e coautor de outros quatro livros. Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br.
Visite: www.tomcoelho.com.br e http://www.setevidas/

Democracia 2.0

Denis Russo Burgierman*

Este ano, falou-se muito que uma ou outra campanha contratou “o marketeiro do Obama”. Pelo jeito, os políticos brasileiros chamaram a equipe inteira, do diretor ao estagiário, mas não adiantou. Se o upgrade da democracia brasileira para a versão 2.0 deu “pau”, não foi por falta de dinheiro gasto com marketing digital.
Você ouviu falar: em 2008, Barack Obama tornou-se o primeiro presidente da era digital, ao vencer uma eleição cuja estratégia estava fortemente baseada na internet. Obama começou a corrida como minoritário dentro de seu próprio partido. Relegado na disputa por financiadores, diante da proximidade de sua adversária democrata, Hillary Clinton, com setores riquíssimos, como os bancos e a indústria farmacêutica, parecia destinado a um papel coadjuvante. Acabou vencendo Hillary e ganhando impulso para massacrar o candidato republicano, que não viu o que o atingiu.
Claro que a campanha de Obama não aconteceu exclusivamente na internet. Seu sorriso luminoso apareceu fartamente na televisão, e seu nome foi impresso em cores patrióticas em outdoors, adesivos e bandeiras tremulantes. Mas foi pela internet que grupos de apoiadores autônomos se articularam para criar estratégias locais. Em alguns estados americanos, as eleições primárias são decididas não por votos secretos, mas por debates verbais abertos – nesses estados, os apoiadores de Obama superaram os de Clinton com imensa folga. Estavam muito mais engajados, preparados e ativos. A internet também foi fundamental para a guerra de informação travada na campanha. E, claro, graças a ela, a campanha de Obama conseguiu o feito inédito de convencer três milhões de pessoas a doar um total de meio bilhão de dólares. Doar para a campanha não era mais complicado que comprar um livro pela Amazon.com (na verdade, era mais simples).
Na época, não faltaram análises de que a natureza da política tinha mudado para sempre. De que uma “democracia 2.0” estava sendo instalada no sistema operacional do globo, mais sustentada no engajamento cívico que em lobbies obscuros. Diante disso, a importância da internet nas eleições presidenciais brasileiras, que se realizaram no começo de outubro, pareceu um tanto frustrante.
Verdade que todo mundo se divertiu com os vídeos de Tiririca e com as cenas na qual Serra “confessa” comer todo mundo. Os candidatos (ou seus dedicados assessores) “tuitaram” e até criaram redes sociais à moda da que Obama fez. Marina Silva, a mais internética dos presidenciáveis, chegou a enfatizar a relevância de doações online (recebeu um total de R$ 125.965,30 até o dia 21 de setembro, algo como 3 mil vezes menos que Obama). As frases espirituosas de Plínio viraram hits de microblog. Mas, de substantivo mesmo, de concreto, que diferença a internet fez para a democracia brasileira?
Definitivamente, não dá para dizer que o que aconteceu nos Estados Unidos dois anos atrás não tenha influenciado em nada no processo eleitoral brasileiro. Este ano, li repetidamente a notícia de que uma ou outra campanha contratou “o marketeiro do Obama”. Afinal, quantos marketeiros tinha o Obama? Os políticos brasileiros, pelo jeito, contrataram a equipe inteira, do diretor ao estagiário. Se o upgrade da democracia brasileira para a versão 2.0 deu “pau”, não foi por falta de dinheiro gasto com empresas de marketing político digital.
Foi assim que o episódio Obama chegou ao Brasil: como um case de marketing. Uma campanha bem-sucedida a ser copiada, assim como as empresas brasileiras copiam muito do que faz sucesso no mercado americano. É disso que se falou.
O que mereceu bem menos atenção, aqui pelas nossas praias ensolaradas, foram as ideias por trás do marketing. Faltou dizer que o que Obama fez foi bem mais que um gasto inovador com o planejamento de mídias de sua campanha. Obama pensou de uma maneira nova sobre a relação entre eleitores e políticos. E o mais interessante é que ele não fez isso apenas na campanha eleitoral. Após ser eleito, enviou sinais ao país de que queria manter, como presidente, essa proposta. Mudar a relação entre eleitores e políticos é importante, claro. Mas muito mais importante é a relação entre governo e cidadãos. A conversa não pode acontecer apenas uma vez a cada quatro anos.

MyObama

A plataforma digital sobre a qual a campanha obamista nas eleições se sustentou era um site de comunidades bastante simples, mas que trazia em si uma lógica nova na política, que pouco tempo antes seria impensável. Tratava-se do MyObama, MyBO para os íntimos, uma criação de um menino inteligente, tímido e gay, chamado Chris Hughes. Chris tinha 24 anos, mas seu currículo já era razoável. Anos antes, ainda na faculdade, ele foi um dos cinco garotos que começaram uma empresinha de fundo de quintal. Talvez você já tenha ouvido falar dela: chama-se Facebook.
O MyBO não era uma tubulação vertical, despejando conteúdo centralmente produzido para a massa ignara lá fora. Ele era – assim como o Facebook – uma rede. Uma rede na qual qualquer usuário – fosse o nome dele Barack Obama ou José da Silva – era um nodo numa teia de conexões. Não havia um centro no MyBO, cada pessoa era uma pessoa e podia se conectar com qualquer outra. Todas produziam conteúdo. Por exemplo, meninos espertos das boas faculdades escreviam de graça para desmentir com pesquisa boatos mentirosos espalhados pela direita raivosa dos EUA.
No MyBO, cada usuário podia ganhar pontos se realizasse tarefas. A maioria das tarefas era bastante simples. Por exemplo, o voluntário encontrava no site uma lista de números de telefones na sua região e tinha de ligar e tentar convencer as pessoas a votar em Obama. Algumas tarefas eram bem mais complexas: organizar eventos para arrecadar dinheiro, para citar uma. Os pontos eram distribuídos de acordo com a quantidade de trabalho envolvido.

"Eleições são resultados grosseiros
de processos imensamente complexos,
 que abrangem decisões subjetivas
de cada um dos milhões de cidadãos do país.
Muita coisa influencia num resultado,
e é bom não subestimar o peso do charme,
 da lábia e da inteligência do candidato e
das qualidades absolutamente
opostas de seu antecessor."

Do ponto de vista financeiro, os pontos valiam tanto quanto um tostão furado. Mas, na lógica da comunidade, valiam bastante. Pessoas com mais pontos e mais conexões eram valorizadas e tinham mais facilidade de se conectar e, consequentemente, acumular mais pontos. Pode parecer bobagem, mas essa diversão de colecionar pontos é imensamente poderosa sobre nossos sistemas cerebrais de recompensa, moldados pela evolução (os mesmos que nos convencem a trabalhar demais para acumular mais dinheiro do que precisamos). O fato de as pessoas se sentirem participantes as deixava felizes e aumentava sua vontade de participar, o que, por sua vez, aumentava o senso de participação, e assim por diante.
Isso decidiu a eleição? Não tem como fazer esta afirmação. Eleições são resultados grosseiros de processos imensamente complexos, que abrangem decisões subjetivas de cada um dos milhões de cidadãos do país. Muita coisa influencia num resultado, e é bom não subestimar o peso do charme, da lábia e da inteligência do candidato e das qualidades absolutamente opostas de seu antecessor. Mas a rede de Hughes certamente criou condições para que grupos de eleitores se articulassem sem relação hierárquica com o comando da campanha, inovando, experimentando, trocando melhores práticas. Esses experimentos foram fundamentais, em vários estados, nas primárias contra Hillary. E essas vitórias iniciais, que provavelmente só foram possíveis graças ao MyBO, criaram uma onda de empolgação. Quando o republicano John McCain ficou em pé ao lado de um Obama energizado por essa onda, ele parecia uma relíquia de um século distante.
Quando a eleição passou, o MyBO não foi dissolvido. Continuou existindo, mas ganhou um design um pouquinho mais formal e um nome mais pomposo: Organizing for America (Organizando pela América). Apesar da diferença no layout, o site permaneceu o mesmo: uma rede simples de pessoas que gostam de Obama, conectadas horizontalmente, premiadas com pontos pela participação. Só que, em vez de eleger Obama, o objetivo da comunidade virtual passou a ser ajudá-lo a governar.
Em alguns momentos, essa ajuda se dá de forma muito parecida com as estratégias da campanha: por exemplo, chamando a população para mandar e-mails pedindo para os congressistas votar de determinado jeito. O site teve algumas sacadas bem interessantes, embora de pieguice indiscutível. Quando o novo sistema de saúde foi finalmente aprovado no Congresso, todos os membros da rede receberam uma mensagem pedindo seu endereço postal para ser enviado um diploma que atestava que seu portador era “coautor da lei”. Claro, a mensagem aproveitava para pedir mais uma doaçãozinha, mas o recebimento do diploma não estava vinculado ao dinheiro.

Um novo jeito de pensar

Imagino que os marketeiros, ao ouvirem esses cases, fiquem encantados com a sua engenhosidade. Mas, para mim, o mais engenhoso foi o fato de que não havia apenas marketing nessas iniciativas. Havia efetivamente um jeito novo de pensar. Não se trata de dizer que Obama seja um santo redentor. Mas ele está, sim, efetivamente engajado na criação de uma forma de comunicação com o país que seja mais horizontal. Há sinais disso nas suas entrevistas, no seu canal do YouTube, nos seus frequentes convites a membros da sociedade civil para conversar. Um documento interno, distribuído logo no primeiro mês de seu governo para todos os chefes de departamentos e agências do governo, talvez seja o exemplo mais claro disso. O memorando começava assim:
Assunto: transparência e governo aberto
“Minha administração está comprometida a criar um nível sem precedentes de abertura no governo. Vamos trabalhar juntos para garantir a confiança pública e estabelecer um sistema de transparência, participação pública e colaboração. A abertura vai fortalecer nossa democracia e promover eficiência e eficácia no governo.”
A seguir, o memorando detalha três objetivos para todo mundo que trabalha no governo: transparência, participação e colaboração. Por fim, o presidente determina que o governo tenha um CTO (Chief Technology Officer – executivo chefe de tecnologia), que ficaria responsável por preparar, em 120 dias, suas recomendações para uma “Diretiva de Governo Aberto”, à qual todos os funcionários do governo teriam de obedecer a partir de então.
A tal Diretiva acabou criando uma série de novas instituições democráticas. Talvez a mais relevante delas seja o site data.gov, no qual todos os documentos do governo devem ser disponibilizados de graça, com fácil acesso, busca eficiente e num formato que possa ser lido por pessoas ou por softwares que gerem mais dados a partir do cruzamento entre eles. Em linhas gerais, a intenção é convidar os americanos a contribuir para o governo, a participar efetivamente do processo de governar. É dar a todo mundo acesso a toda a informação que, até outro dia, era exclusiva dos governantes.
Enfim, a afinidade entre Obama e a transparência digital não foi só uma estratégia para ganhar a eleição. Ela se apoia em uma série de políticas decididas pelo próprio candidato, assessorado por grandes teóricos, como o professor de Harvard (na época, em Stanford) Lawrence Lessig, e por executivos de alto nível, como Chris Hughes. Essas medidas tinham como objetivo abrir a política e o governo, torná-los mais transparentes, mais participativos e mais colaborativos. E o marketing que se seguiu propagandeou, de maneira altamente profissional, essas ideias novas.

Nada de novo

Pois aqui, no Brasil, só interessou o marketing. As duas principais candidaturas (Dilma e Serra) importaram apenas os marketeiros, não os teóricos ou os executivos, muito menos as ideias. As grandes campanhas continuam hierárquicas e centralizadas, comandadas por três ou quatro pessoas com imensa experiência. A informação é quase sempre controlada, as ideias fluem de cima para baixo, os membros mais jovens das equipes apenas executam o que se decide nos andares de cima.
Por trás da aparência de novidade, o que se viu na eleição daqui foi a mesma política antiga que tomou forma no início dos anos 1990, quando ainda batucávamos em gigantescas máquinas de escrever. Para muita gente, os recursos da internet serviram apenas para realçar a bizarrice do nosso sistema político, baseado em alianças aleatórias para somar segundos na TV. O Tiririca que o diga.
Isso não significa que as mesmas ideias que promoveram a mudança de relações nos Estados Unidos não estejam se difundindo no Brasil. Elas estão. A campanha de Marina Silva foi ajudada por alguns teóricos brasileiros da turma do Lawrence Lessig e, se conquistou apenas uma pequena fração do sucesso de Obama, foi bastante bem-sucedida para um partido sem coligações e com tempo na TV pouco superior à duração de um comercial.

O que fica de bom

Mas certamente as maiores novidades na política brasileira não vieram nem das grandes organizações de mídia nem das campanhas eleitorais: vieram de pequenas iniciativas independentes da sociedade civil. Acompanhei de perto algumas delas porque aconteceram na empresa onde trabalho, a Webcitizen. O Votenaweb (http://www.votenaweb.com.br) é um site que ajuda você a acompanhar as leis em tramitação no Congresso Nacional e a comparar o voto dos congressistas ao modo como você votaria se estivesse no lugar deles. O Eu Lembro (http://www.eulembro.com.br) – recentemente tirado do ar por medo de que o corporativismo dos políticos levasse a uma multa pesada da Justiça Eleitoral – permite que você siga todas as notícias sobre seus candidatos e ajuda a impedir que esqueça em quem votou.
Essas iniciativas da Webcitizen são dois pequenos exemplos no meio de uma multidão de websites nascidos nos últimos anos para horizontalizar as relações entre cidadãos e governos. Um dos meus favoritos é o incrível Cidade Democrática (http://www.cidadedemocratica.com.br), que promove bem-sucedidas campanhas de “adoção de vereador” e foi utilizado por cidadãos de Jundiaí para planejar uma rede cicloviária, que acabou efetivamente implantada.
Há no Brasil, como, aliás, em todos os países que estão tendo suas aspirações modificadas pelas novas tecnologias da informação, uma imensa vontade de propor um novo modelo de participação pública. É fato que os políticos tradicionais continuarão mobilizados para evitar essa horizontalização, que eles interpretam como uma redução de poder. Mas, depois que essas coisas começam, ninguém consegue pará-las.
Falta muito para 2014?
______________________________________
*Denis Russo Burgierman é diretor de conteúdo da Webcitizen, ex-diretor de redação da revista Superinteressante e ex-Knight Fellow da Universidade Stanford, na Califórnia. Atualmente, faz parte do time da curadoria da conferência TEDxAmazonia http://www.tedxamazonia.com.br.
(Envolverde/Le Monde Diplomatique Brasil)
Fonte: http://www.envolverde.com.br 29/10/2010

Reciclagem latinhas de alumínio

Coleta de latinhas rende R$ 32 por mês a catadores do país

A reciclagem de latas de alumínio injetou R$ 1,3 bilhão na economia nacional no ano passado. Para os catadores do material, entretanto, a coleta do produto rendeu, na média, R$ 382 durante todo o ano, ou seja, pouco menos que R$ 32 por mês.
Este valor não leva em consideração a coleta de outros materiais. Seu cálculo é baseado em um balanço divulgado nesta quinta-feira (28/10) pela Associação Brasileira de Alumínio (Abal) e a Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade (Abralatas).
Segundo as duas entidades, dos R$ 1,3 bilhão gerados com a reciclagem das latinhas, R$ 382 milhões são referentes apenas à coleta do material. De acordo com o governo federal, existem cerca de 1 milhão de catadores de material reciclável no país. Portanto, o produto rendeu, na média, R$ 382 para cada um em 2009.
“É pouco mesmo”, confirmou Davi Amorim, um dos coordenadores do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), em entrevista à Agência Brasil. “Todo mundo quer coletar latinha hoje em dia. É difícil achar.”
A grande concorrência existe porque o alumínio é um dos materiais mais rentáveis na cadeia da reciclagem. O quilo é comprado por até R$ 3,10, contra os R$ 0,50 pagos, por exemplo, pelo quilo de plástico.
Devido ao alto preço, condomínios e empresas também separam e vendem as latinhas. Com isso, grande parte dos catadores recorre a outros materiais para compor sua renda mensal, que, na média nacional, varia entre R$ 140 a R$ 200 segundo a MNCR. “O que dá mais dinheiro hoje em dia é papelão, papelão ondulado e papel branco”, disse.
Segundo Amorim, os catadores esperam que a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), sancionada em agosto, mude este quadro. Para ele, o trabalho dos catadores precisa ser reconhecido, e a PNRS pode ajudar neste processo. “A política prevê que os catadores sejam incluídos na coleta dos recicláveis, que passará obrigatória”, disse. “Queremos ser mais bem remunerados por este serviço. Hoje, prestamos de graça”, completou.
O diretor executivo da Abralatas, Renault de Freitas Castro, porém, não está tão otimista quanto ao futuro dos catadores. Para ele, a PNRS deve fortalecer o mercado da coleta, favorecendo mais as grandes empresas. “Grandes empresas terão mais acessos à sucata”, afirmou ele. “Os catadores devem perder espaço.”
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Reportagem por Vinicius Konchinski, da Agência Brasil
Fonte: http://mercadoetico.terra.com.br - 29/10/2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Michel Onfray - Entrevista

Falsa ciência no divã


O filósofo francês Michel Onfray
publica livro na França questionando a Psicanálise e
classificando seu criador,
Sigmund Freud,
de "charlatão"

Por Marcelo Galli

Desmontar um mito nunca foi tarefa fácil. Ainda mais se a sua sombra for mais forte do que o personagem que o originou, como é o caso de Sigmund Freud (1856-1939) e a Psicanálise. Mesmo assim, o filósofo francês Michel Onfray, um polêmico profissional, não teve dificuldade de chamá-lo de "charlatão", em livro de mais de 600 páginas lançado em abril deste ano na França (ainda sem previsão de lançamento no Brasil).
Para Onfray, o médico vienense teria usado ideias de filósofos sem devidamente (e como exige o mundo acadêmico) creditá-las. Ele cita casos como o de Mundo como vontade de representação, de Arthur Schopenhauer, a Filosofia do inconsciente, de Karl Hartmann, e "obra completa de Nietzsche, pela qual Freud tinha uma aparente ojeriza que dissimulava uma autêntica fascinação", disse o francês, em entrevista feita por e-mail.
A publicação de O Crepúsculo de um Ídolo: a fabulação freudiana criou polêmica na França. E parece ser só o começo. Os estudiosos sobre o tema gritaram, principalmente os mais famosos, como Elisabeth Roudinesco, que, de acordo com a mídia, convidou o filósofo para um duelo televisivo em rede nacional, convite que não teria sido aceito por Onfray. Ele nega.
Neste século XXI, segundo Onfray, a Psicanálise terá cada vez mais imagem de disciplina esotérica, longe de ser uma doutrina ou teoria digna desse nome, com um discurso "falso sábio, mas na verdade religioso, a ladainha habitual dos curandeiros".
O filósofo se dedicou, nos últimos anos, a defender uma visão hedonista do mundo. E para isso bateu nas grandes religiões. O título de obra sobre o tema publicada no País, em 2007, é autoexplicativo e propõe uma "física da metafísica": Tratado de ateologia (Martins Fontes).
Onfray nasceu em 1959 e já escreveu mais de 30 livros. Ele é fundador da Universidade Popular de Caen, onde dá aulas de contra-história da Filosofia e que atrai grande público na França e fora dela por meio dos vídeos divulgados na Internet.
Nesta entrevista, ele adianta aos leitores brasileiros que seu próximo livro será um elogio: irá celebrar a política libertária de Albert Camus.

FILOSOFIA A Psicanálise é a ciência de uma época que não existe mais?
Michel Onfray Será que chegou a existir? Portanto, sem o saber, cada psicanalista seguiu a pista de Freud sem saber exatamente como: nesse caso, projetando no inconsciente do outro o seu próprio inconsciente. Fiquei atônito, após o lançamento do meu livro, ao constatar como o conhecimento real e verdadeiro sobre Freud é nulo, e quanto frequentemente as pessoas que se dizem freudianas jamais leram a obra completa do seu guru. E se satisfazem por uma vulgata com impreciso conhecimento de alguns textos, um gênero de assimilação que ainda prospera após um século.

FILOSOFIA Como fica nesse contexto o papel dos considerados historiadores e disseminadores da disciplina?
Onfray -  Certa historiadora francesa da Psicanálise, autoproclamada "historiadora da Psicanálise", e que leva a milícia freudiana em ordem atrás dela, se contenta, por exemplo, a escolher a vulgata em prejuízo de um conhecimento verdadeiro do texto. Nesse contexto, trabalha-se a partir de um livro que não existe, mas que poderia ser chamado "A Psicanálise para os desprovidos de inteligência" e que dará em um dia as dicas ao psicanalista para exercer a Psicanálise. Com efeito, essa impostura está a caminho de desaparecer na França.

FILOSOFIA A Psicanálise ainda terá lugar ao curso deste século?
Onfray - Não, pelo contrário, terá cada vez mais, longe de toda aparência de doutrina e de teoria digna desse nome, uma imagem de disciplina esotérica. Passando-se por útil, se legitimará com um discurso falso sábio, mas na verdade religioso, a ladainha habitual dos curandeiros.

FILOSOFIA Freud teria usado ideias de filósofos sem devidamente creditá-las?
Onfray -  O Schopenhauer de O mundo como vontade e representação, o Hartmann de Filosofia do inconsciente e, sobretudo, a obra completa de Nietzsche, pela qual Freud tinha uma aparente ojeriza que dissimulava uma autêntica fascinação. A prova: quando ele parte para Londres no exílio, fugindo do Nazismo, leva consigo a obra completa do filósofo. Freud, que se projetava como um científico na linha de Copérnico e Darwin, nunca foi mais do que um filósofo, isso e nada mais, um homem de letras no espírito de um Goethe. Tudo isso foi suficiente para creditá-lo do talento de inventar um mundo, mas não de ter criado uma "Ciência" suscetível de sonhar e de curar.

"Fiquei atônito ao constatar como
o conhecimento real
sobre Freud é nulo e
quanto os que se
dizem freudianos jamais leram
a obra completa
do seu guru"

FILOSOFIA -  Elisabeth Roudinesco teria convidado você para um debate televisivo logo após o lançamento do livro, e sua resposta foi uma negativa, segundo publicou a mídia francesa.
Onfray -  Ela ainda não tem o poder de convidar quem ela quer para falar na televisão. Ela, portanto, não me convidou para ir a esse debate. Mas isso vai bem dentro da sua estratégia de deixar crer que ela monta os balcões da televisão francesa.

FILOSOFIA - Em sua opinião, as redes sociais (Twitter, Facebook, Orkut) funcionam atualmente como "analistas coletivos"?
Onfray -  Não, é um local de descarrego, a oportunidade de se livrar da raiva, do fel, do desprezo, mas também de exibir o ego, de praticar o narcisismo. Também de se praticar aquilo que não se é (escritor, crítico, pensador, jornalista, etc.), de endossar um disfarce, como as crianças, que permita argumentar a não realização do mundo real em favor de um universo virtual que não obedece outra lei senão a do capricho pessoal. Nada a ver com a Psicanálise.

FILOSOFIA - O que são as mídias sociais para você?
Onfray - Um gênero de "cloaca máxima" como existia na Roma antiga para drenar o esgoto, um canal destinado a conduzir as imundices de uma sociedade e de uma época insuficiente para produzir o que seria uma análise coletiva. Para fazê-la, prefiro que se leia e que seja reatualizado Psicologia da massa e fascismo, de Wilhelm Reich.

FILOSOFIA -  Como você se sente ao ser um filósofo e ao mesmo tempo uma celebridade, algo que acontece com outros intelectuais na França?
Onfray - Eu traço meu caminho como ele se dá: conhecido, desconhecido, pouco conhecido, pouco importa. Faço um trabalho de homem livre em um mundo que não sabe mais o que é liberdade. Se meus livros vão bem, tudo bem; se eles vão menos bem ou nada bem, isso é sem importância. O que defendo é poder ficar de cabeça erguida ao fazer um trabalho filosófico digno desse nome. A celebridade, como o dinheiro e as honrarias, são coisas sem importância.

FILOSOFIA - Por qual razão você criou a Universidade Popular de Caen?
Onfray - Para tirar a Filosofia do duplo gueto universitário elitista e liberal que surfa sobre a demanda filosófica para produzir uma oferta execrável geralmente vinda de agregados normalistas ou jornalistas que redigem bobagens destinadas a grandes tiragens. Eu quero a qualidade universitária sem o gueto e a liberdade de praticar a Filosofia sem o mercado liberal que a acompanha.

FILOSOFIA -  Quais são as principais orientações educacionais da universidade?
Onfray - Há uma dezena de seminários que vão da Filosofia para crianças ao feminismo, passando por economia, jazz, Arte contemporânea, Psicanálise (sim, porque sou partidário do debate, ao contrário da mulher já citada) e meu curso de contra-história da Filosofia.

FILOSOFIA - Quem pode estudar nessa instituição?
Onfray - É aberta livremente a todos, sem inscrição, sem diplomas, sem requisitos, sem outro desejo a não ser o de querer filosofar.

FILOSOFIA Quem financia o funcionamento da universidade?
Onfray - Somos beneficentes, o orçamento para pagar as despesas dos palestrantes provém da região da Baixa Normandia, onde a sede da instituição está localizada.
Elisabeth Roudinesco, que debate as questões colocadas pelo filósofo

FILOSOFIA - Qual é a sua opinião sobre o sistema de educação adotado em várias escolas no mundo todo, reflexo ainda do que era no início do século passado?
Onfray - Essa escola não corresponde mais àquilo que deveria se fazer, ainda se ensina como se estivéssemos no século XIX. Para aqueles que querem transpor essa situação, não o fazem tão melhor: eles ensinam como se a verdade do mundo estivesse na sua realidade imediata, celebrando a modernidade tecnológica, a Internet, o computador, as novas tecnologias como horizonte da pedagogia pós-moderna. Por minha parte eu creio no livro e na meditação do texto, na escritura, em seu exercício e no seu domínio. Houve o Maio de 1968, é uma coisa a ser integrada, mas não é preciso nem restaurar a ordem anterior, nem crer no esquema de ficção científica que leva atualmente alguns pedagogos a pensar que são modernos.

Sigmund Freud (1856-1939), fundador da Psicanálise.
Onfray o considera charlatão, já que teria se apropriado das ideias de filósofos
 que refutava para criar as suas teorias

FILOSOFIA - Qual seria o modelo de ensino ideal para ser utilizado atualmente?
Onfray É preciso se recordar que o essencial se encontra na relação do professor com seu aluno. A importância da qualidade existencial daquele que ensina é considerável: tudo passa pelo mediador, que é quem ensina. A máquina não faz nada, a tela não substitui a vibração íntima que se manifesta no belo ato de aprendizagem.

FILOSOFIA-  Como na época de Adão e Eva, o conhecimento continua a ser a "fruta do pecado"?
Onfray-  De fato, pode-se dizer que o saber é um poder. E o poder vigente não gosta daquele que pode ser um contrapoder. O poder gera um poder contrário bem pouco nocivo para dar aparência de tolerância, de abertura de espírito, de grandeza de alma. Mas ele não tolera aquele que não gerou. Um verdadeiro saber é crítico e, de fato, tem sempre relação com o diabo, o demônio. Lúcifer, eu retomo aqui, significa, etimologicamente, o "portador da luz". Lúcifer, de Eva à Filosofia dos iluministas, é o homem que gosta de saber, e, assim, não gosta de obedecer, de se submeter.

FILOSOFIA - Você critica bastante as grandes religiões. Qual é a passagem da Bíblia (ou de qualquer outro texto religioso) que o agrada?
Onfray -  O Eclesiastes que diz a verdade da existência: "tudo é vaidade e vento que passa".

"Eu quero a qualidade universitária
sem o gueto e a liberdade de praticar a
Filosofia sem o mercado liberal
que a acompanha"

FILOSOFIA -  Eu percebo um movimento na França para tentar se aproximar de um modelo de liberalismo anglo-saxão, particularmente após a chegada de Nicolas Sarkozy ao poder. Isso não é temeroso, não implica em uma perda de identidade do país?
Onfray - O país já perdeu sua identidade faz tempo. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o "modelo de vida americano" foi imposto de maneira insidiosa com a cultura de nossos libertadores após anos de ocupação nazista, e, não raro, com a colaboração francesa em favor do inimigo. Literatura americana, jazz, uísque, cinema de Hollywood, modernidade tecnológica, cigarros, publicidade... Sartre e os seus mostraram como essa fascinação preparou ideologicamente o terreno para o que se seguiu. Hoje a Europa é um fenômeno americano.

FILOSOFIA - Você acredita numa mudança de valores mundiais com a reconfiguração mundial que a decadência do poder hegemônico dos Estados Unidos poderá provocar? E também a emergência de potências como o Brasil, a China e a Índia, por exemplo?
Onfray - Não, a globalização se fez no seio do capitalismo liberal, é preciso se render a essa evidência. O que nos resta é resistir combatendo para que a derrota não avance, mas é preciso levá-lo em conta, por elegância desesperada, mas lúcida. O barco afunda, é preciso preservar o sorriso e, como no caso do Titanic, escutar os músicos tocar o movimento de quarteto e assistir ao espetáculo do naufrágio sem rir nem chorar.

FILOSOFIA-  Qual personagem será seu próximo alvo de crítica?
Onfray - O próximo livro será um elogio - visto que esse livro sobre Freud me forçou a ter a companhia desse personagem detestável. Mas não poderia evitá-lo no trajeto de contra-história da Filosofia que sigo após oito anos na Universidade Popular de Caen. Trata-se de um livro que vai celebrar a política libertária de Albert Camus.
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Por Marcelo Galli é jornalista e escreve para esta publicação
Fonte: Revista FILOSOFIA CIÊNCIA & VIDA - outubro/2010

A viuvez da presidente


Imagem da Internet
O fator singular a ter em conta antes de qualquer outro nas especulações sobre os rumos da Argentina depois da morte súbita do ex-presidente Néstor Kirchner, que se fez suceder por sua mulher Cristina e se preparava para reaver o cargo em 2011, é a peculiar cultura política do país. Nela, a veneração pelos líderes falecidos, beirando a necrofilia, confere um sentido literal à clássica expressão de Auguste Comte de que "os mortos governam os vivos".
Ainda assim, depende de quem sejam os mortos e os vivos - e da aptidão destes para encarnar aqueles. Em 1974, quando morreu o presidente Juan Perón, a sua segunda mulher e vice, Maria Estela Martinez, a Isabelita, não conseguiu unir as facções do peronismo e acabou removida da Casa Rosada pelos militares. Duas décadas antes, quando Perón enviuvou de Evita - a santa viva do povo argentino -, o prestígio do caudilho varou o céu. Nem sequer o exílio de 17 anos depois do golpe de 1955 dissipou a sua liderança. E o culto a Evita ajudou a devolvê-lo ao poder.

"Nela, a veneração pelos líderes falecidos,
beirando a necrofilia,
confere um sentido literal à clássica expressão de
Auguste Comte de que
 "os mortos governam os vivos".


Há poucas dúvidas de que a peronista Cristina Kirchner estará mais para Perón sem Evita do que para Isabelita sem Perón. Salvo na improvável hipótese de que, desprovida do seu principal interlocutor e articulador político, ela se revele um completo desastre, o retrospecto indica que o desaparecimento prematuro do marido, aos 60 anos, resgatará a sua popularidade. A aprovação ao governo foi atingida pela inflação em alta, os percalços de uma economia que só há pouco começou a se recuperar da crise internacional - e a exacerbação do truculento "estilo K" que ela compartilhava com o falecido e que funciona como uma máquina de fazer desafetos.

"Há poucas dúvidas
de que a peronista Cristina Kirchner estará
mais para Perón sem Evita
do que para
 Isabelita sem Perón."

Se, como exageravam os críticos, Cristina governava à sombra do marido, talvez seja o caso de dizer que a memória dele, transfigurada - como é da índole argentina - pela morte, tenderá doravante a ser a sua grande aliada. A lembrança de Néstor Kirchner deverá mitigar as consequências dos futuros erros da sucessora, lustrar a sua imagem e conduzi-la como favorita às urnas presidenciais de 2011. Para os mais céticos sobre o discernimento político dos nossos vizinhos, que acreditam que a maioria dos argentinos vota movida pelas emoções e não pelo raciocínio, com a morte inesperada do marido Cristina Kirchner já está praticamente reeleita.
Será um notável feito póstumo do militante da Juventude Peronista e advogado de causas miúdas que, para se distanciar da feroz repressão do regime militar, se mudou de La Plata, onde se formou e conheceu Cristina, para Rio Gallegos, capital da remota Província de Santa Cruz. Na obscuridade, elegeu-se prefeito de Rio Gallegos e em seguida governador de Santa Fé, no centro-leste do país. Subiu na política, impulsionado pela mesma vaga de anomia política que engolfou uma Argentina falida na virada do século. Quando o povo tomou Buenos Aires aos gritos de que se vayan todos, abriu-se espaço para ele ficar.

"A incógnita é o que Cristina fará para se reeleger:
mais, ou menos, kirchnerismo?"



E mesmo assim não foi fácil. Desajeitado e destituído de carisma, beneficiou-se da desmoralização da classe política. Em 2002, à falta de melhor, o então presidente provisório Eduardo Duhalde o escolheu para disputar a Casa Rosada contra Carlos Menem, desejoso de voltar ao poder. Elegeu-se porque este desistiu de disputar o segundo turno. Assim, com os seus 22% de votos da rodada inicial tornou-se presidente da República - o menos votado da história argentina. Empossado, abriu as asas. Mediante um calote espetacular da dívida, tirou o país da recessão, reduziu o desemprego e a pobreza, e resgatou das profundezas a autoestima nacional.
Outra marca de seu governo foi mandar abrir processos contra os chefes da ditadura militar, que perderam a garantia da impunidade com a derrogação da Lei da Anistia. O aumento de sua popularidade e a hegemonia da facção sob o seu comando no eternamente fraturado Partido Justicialista o animaram a governar com mão pesada - e corrupção desbragada. Em 2007, com o país dividido, teve o estalo de indicar a mulher, senadora, para suceder a ele. A incógnita é o que Cristina fará para se reeleger: mais, ou menos, kirchnerismo?
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Fonte: Editorial do Estadão, 29/10/2010