terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O mundo é pequeno

JOÃO PEREIRA COUTINHO*


Imagem Internet
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Campanhas nos dizem o que
devemos ser, pensar, comer, dizer,
como nos devemos comportar

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OS MEUS amigos me abandonaram. Uns moram no Brasil. Outros partiram para o Brasil. Para passar o Natal e a virada do ano.
Que barbaridade. Haverá maior sacrilégio? Como é possível viver a quadra natalícia, esse tempo arcádico que Charles Dickens praticamente inventou no século 19, nas areias de uma praia? Alguém imagina o Papai Noel de bermuda e chinelos, bebendo uma caipirinha? E as renas? Quem acredita que esses pobres bichos sobreviveriam no calçadão de Ipanema? Natal no Brasil é um erro de casting.
A Europa, pelo contrário, cumpre o papel. Chuva. Frio. Neve. Atrasos nos aeroportos. Mortos nas estradas. Um Natal tradicional. Exatamente como deve ser.
E, para além de tudo isso, até a chuva, o frio e a neve têm direito a tratamento jornalístico especial. Não sei quando começou essa moda. Talvez com a histeria ignara do aquecimento global. O que sei é que não existe jornal ou programa de TV que não seja um longo show de meteorologia.
Começa com coisas banais. É dezembro. Os termômetros desceram em todo lado. E os repórteres europeus saem para as ruas para noticiar o fato: faz frio, chove, cai neve. Os fatos são comunicados à nação como se estivesse iminente uma invasão alienígena. A nação treme. Não de frio, mas de medo.
Alguns jornalistas, não contentes com o medo, apostam no pânico. E questionam o cidadão comum: "O que pensa do frio?" O cidadão comum, perante as câmeras, não ri nem agride o jornalista. Inicia uma longa dissertação sobre a problemática do frio.
Faz sentido. O frio é um problema. Só em Portugal, o Instituto de Meteorologia tem por hábito lançar "alertas" de acordo com o estado do tempo. Existem "alertas" para todos os gostos. E de todas as cores. Vermelhos. Amarelos. Laranjas. Desconheço o que significam. Mas sei que se multiplicam. Lisboa pode estar sob "alerta vermelho" e, horas depois, passar para amarelo. Ou vice-versa. Aceitam-se apostas.
"Essa infantilização absoluta dos cidadãos
 não é apenas praticada por autoridades democraticamente eleitas,
que aconselham roupa quente
quando faz frio ou guarda-chuva
quando cai chuva."


Mas o melhor não é a cor dos "alertas", são os conselhos que vêm atrelados. Se faz frio, por exemplo, as autoridades aconselham o uso de roupa quente. Se chove, aconselham guarda-chuva. Parece óbvio, mas não é: um povo infantilizado começa a perder a capacidade básica para distinguir fatos básicos. Se não houvesse "alertas", desconfio que a população seria como o Papai Noel brasileiro: pronta para enfrentar a tempestade de bermuda e chinelos.
Porque a triste verdade é que estamos mais infantis do que nunca. O jornalista britânico Michael Bywater, em livro sobre a matéria ("Big Babies, Or: Why Can't We Just Grow Up?", grandes bebês, ou por que não podemos simplesmente ficar adultos), já tinha alertado para o fato: a todas as horas, em todos os lugares, são infindas as campanhas que tratam o parceiro como criança.
Campanhas que nos dizem o que devemos ser, pensar, comer, dizer, como nos devemos comportar, vestir e até se despir, ou não fosse o sexo o prato principal das sociedades adolescentes em que vivemos.
Essa infantilização absoluta dos cidadãos não é apenas praticada por autoridades democraticamente eleitas, que aconselham roupa quente quando faz frio ou guarda-chuva quando cai chuva.
Encontra-se na quantidade obscena de publicações que determinam "estilos" e "tendências" como se um ser adulto precisasse de ter um "estilo" e cultivar uma "tendência". Escreve Bywater, em frase primorosa: "O meu pai não tinha estilo de vida. Ele tinha uma vida." Curioso. O meu também. E o seu, leitor?
No Ocidente balofo e pós-ideológico, ninguém tem uma vida para viver em paz. Porque só é possível ser adulto quando somos deixados em paz: nós, confrontados com as nossas escolhas e responsabilidades, sem uma mão paternalista a guiar as nossas existências.
O circo em volta impede essa autonomia ao prolongar perpetuamente a infância. Quando somos tratados como crianças, dificilmente deixaremos de ser crianças.
Hoje é o frio. Amanhã será a forma correta de inspirar e expirar o ar, conhecida antigamente como "respiração". Um dia, quem sabe, haverá uma autoridade qualquer para aconselhar o uso de fraldas 24 horas por dia. É mais seguro e, além disso, nem sempre existem banheiros ao virar a esquina.
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* José João Pereira Coutinho (Porto, 1 de Junho de 1976) é um jornalista e comentador político português.
jpcoutinho@folha.com.br
Fonte: Folha online, 28/12/2010

O silêncio

RUBEM ALVES*

Imagem da Internet
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Parte da disciplina do mosteiro
era participar da liturgia.
Tenho horror a sermões.
Mas me conformei

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O VENTO FRIO, aos golpes, anunciava que o inverno estava se aproximando. Nuvens cinzentas cobriam os Alpes, navios que navegavam velozes. Era um velho mosteiro de freiras que praticavam o silêncio, costume abençoado que libertava as pessoas da obrigação de conversar com os vizinhos às mesas de refeições. Conversar por delicadeza quando não se quer falar e não se tem sobre o que falar é uma maldição.
Hóspede naquele mosteiro, eu deveria obedecer aos horários e participar dos eventos. Fui, então, informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 6 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci. Tenho horror a sermões. Mas me conformei.
O santuário era um velho celeiro de madeira hexagonal, muito grande e escuro, sem janelas. Os arquitetos, para por luz nas sombras, abriram buracos nas paredes de madeira, cobrindo-os com vidros coloridos. A luz do sol, entrando pelos orifícios e atravessando os vidros coloridos, faziam desenhos no espaço vazio, desenhos que se deslocavam à medida em que o sol caminhava pelo céu.
Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo, ao estilo da arte bizantina.
Uns poucos bancos arranjados em "U" definiam um espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio.
Cheguei pontualmente. Havia umas poucas pessoas. Os mosteiros não são lugares que atraiam turistas. Fiquei à espera do início da liturgia, que deveria iniciar-se suiçamente ao repicar dos sinos às 6 da manhã. Os sinos repicaram, mas a liturgia não começou.
Como nada acontecia, nenhuma reza, nenhum hino, nenhuma leitura bíblica, pus-me a examinar o espaço e as luzes que se entrecruzavam. O exercício de simplesmente ver tem o efeito de fazer parar o pensamento. Tornamo-nos só olhos. Alberto Caeiro já dizia que "pensar é estar doente dos olhos..." Os pensamentos, produtos internos da cabeça, são perturbações que distorcem a pureza da visão.
Aí, ao misticismo do ver seguiu-se o misticismo do ouvir. O vento descia furioso das montanhas, em golpes, lufadas que torciam a estrutura de madeira, provocando aqueles ruídos típicos de navios à vela batidos pelo vento.
Ao lado do santuário havia uma plantação de macieiras nuas -o vento havia arrancado suas folhas todas e somente seus galhos pelados ficaram. Quando o vento sacudia a galharia era como se houvesse um mar enraivecido quebrando ondas. Aí os sons e as cores começaram a invocar poemas ancestrais.
"E a terra era um abismo sem forma e o vento de Deus soprava violentamente sobre a superfície das águas... E disse Deus: "Haja luz...'"
E aí meus pensamentos foram possuídos pela poesia.
Mas e a liturgia? Só depois de 20 minutos é que eu percebi que tudo já se iniciara 20 minutos antes. A liturgia era o silêncio.
FIM
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* Educador. Teólogo. Escritor.
Fonte: Folha online,28/12/2010

domingo, 26 de dezembro de 2010

Duvide do seu cérebro


Dan Ariely desconfia do dele. E de idiota ele não tem nada. É professor de economia comportamental da Universidade Duke e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT. Autor de Previsivelmente Irracional, Ariely diz que as decisões que tomamos - mesmo as mais milimetricamente calculadas - são contaminadas por sentimentos ou influências que nem mesmo percebemos. E que estragam o trabalho da razão.

Por que seu interesse nas nossas decisões?
Aos 18 anos, tive 70% do corpo queimado por uma explosão. Passei 3 anos no hospital. Todos os dias, as enfermeiras trocavam as bandagens que cobriam meu corpo puxando-as de uma vez. Meu sofrimento era terrível. Quando eu perguntava se não seria melhor tirar as bandagens devagarinho - o que aumentaria a duração da dor, mas reduziria sua intensidade -, as enfermeiras garantiam que não. Depois de sair de lá, fiz testes com dor e concluí que aquele só era o método certo para as próprias enfermeiras, que também sofriam com a minha situação. Foi então que comecei a me interessar pelas decisões que tomamos.

A que conclusão você chegou com os estudos?
Descobri que, sem perceber, deixamos de usar a razão frequentemente. Isso acontece porque nossas decisões são guiadas por fatores que passam despercebidos pelo cérebro quando calculamos nosso próximo passo. É possível estimular as pessoas a ver a realidade de um jeito distorcido - e elas acharão que estão vendo tudo da forma mais lógica possível.

Como assim?
Veja a influência do hábito. Sentimos que estamos sempre tomando decisões - mas, na verdade, repetimos a mesma decisão várias vezes. Você nem sempre pesa os prós e contras na hora de escolher. Só conclui que, se já agiu assim antes, sua decisão anterior deve ter sido razoável. Se comprou um carro grande, é provável que continue comprando.

Como a nossa razão pode ser manipulada?
Se estimulamos uma pessoa a adotar uma certa ótica, ela pode acabar vendo o mundo de forma diferente - o que se reflete em suas decisões. Um exemplo: reunimos alunos do MIT para fazer uma prova de matemática. Eles tinham 5 minutos para resolver vários problemas. Ao fim do tempo, deveriam rasgar a prova, dizer quantas questões haviam feito e ganhar dinheiro por elas. O resultado: vários alunos mentiram, porque sabiam que não seriam pegos. Mas, num dos testes seguintes, fizemos os alunos jurar sobre a Bíblia que não iam nos enganar. E eles não mentiram - nem mesmo os ateus. Ou seja, não tiraram uma conclusão em função dos benefícios do dinheiro e do risco de serem pegos. O raciocínio deles foi orientado pela moral, e isso inclui aqueles que supostamente nem acreditam na Bíblia.

Dá para se prevenir contra essas fraquezas?
Sim, com mecanismos que as eliminem. É duro economizar todo mês, não é? Em vez de confiar em nós mesmos, podemos criar um sistema que retire uma parte do nosso salário e a deposite na conta de aposentadoria. Afinal, se o cérebro prega peças, temos de abandonar a confiança cega nele.
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Reportagem por Eduardo Szklarz
Fonte:Revista SUPERINTERESSANTE online, setembro/2009 - Acesso 26/12/2010

sábado, 25 de dezembro de 2010

Luc Ferry - VIDA BOA

Um dos pensadores  mais  polêmico da atualidade, o filósofo e ex-ministro de Educação da França, Luc Ferry, fala sobre os valores da vida. Autor de diversos best-sellers, o filósofo tenta explicar o que é uma vida boa. Para Ferry, estamos vivendo uma revolução diferente de qualquer outra dos últimos dois mil anos: a revolução do amor. Nesse contexto, a família é a base.
Ateu declarado, o filósofo gera polêmica ao relacionar religião e escola. Conhecido em todo o mundo por proibir o uso dos símbolos religiosos em escolas públicas francesas, Ferry diz que criou a lei para evitar que as crianças se transformassem em pequenos militantes religiosos.
Defensor da existência de uma espiritualidade laica, é a favor do ensino de História Religiosa nas escolas.
Ferry esteve em Curitiba em maio para uma palestra inédita no Teatro Positivo. O evento foi realizado pela Universidade Positivo,em parceria com o Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe/PR).

Revista Escada - Quais os critérios para se ter uma vida boa?
Luc Ferry - Primeiro, nenhuma vida boa é possível se os seres humanos não aceitarem a morte, isto é, a condição humana. Precisamos aceitar o que nós somos mortais. Enquanto continuarmos com medo da morte, nos angustiando com a morte, enquanto contarmos histórias de imortalidade, não poderemos ter acesso à serenidade, à sabedoria. O sábio é, antes de mais nada, aquele que aceita a morte. O que isso quer dizer? É a vitória sobre o medo.
O segundo critério da vida boa é viver o presente.Constantemente, o passado nos puxa para trás. Quando o passado é feliz, temos a nostalgia dos bons tempos. Quando o passado é infeliz, vivemos no remorso, na culpa. Então, a gente se precipita, se joga no futuro e acha que isso vai ser melhor, e que tudo vai melhorar depois. O melhor é sempre depois, nunca vivemos o presente, estamos constantemente no passado ou no futuro, nunca aqui e agora.
Em terceiro lugar, a vida boa só é possível quando oser humano se reconcilia com a ordem cósmica, com esse universo harmonioso que nos cerca. A vida boa só é possível quando o homem compreende que é um fragmento de eternidade e se ajusta à ordem do mundo,que é um átomo do cosmos e – o cosmos sendo
eterno – um próprio fragmento da eternidade.
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Toda a entrevista vc lê na revista clicando aqui:

PENSO, LOGO CAMINHO

A lenta inscrição da paisagem no corpo
Sucesso editorial na França, previsto para sair no Brasil em 2011, livro de Fréderic Gros fala do ato de caminhar como quem trata de filosofia

Escolham as dores que preferem: o corpo encapsulado no carro durante um engarrafamento gigante ou o res­mungo dos músculos depois de uma longa caminhada? A coluna mastigada por horas diante de uma tela ou a dormência da lombar impactada por pés que foram longe? A saturação mental pela cotidiana avalanche de informações ou o leve zunido da cabeça que pensou livremente o dia inteiro?
Frédéric Gros não esconde sua preferência pela fadiga preciosa, a que advém de um grato esforço. Filósofo, ele também caminha. “Duas coisas que detesto”, protestariam de chofre a síndrome de adolescente e o pragmatismo mercantil, monarcas absolutos da plasta época em que vivemos. No entanto, eu aposto: de sedentários barrigudos a ratos de biblioteca, poucos resistirão à prosa de Gros.
Na França, a obra foi acolhida com entusiasmo por sua escrita “soberana, límpida, exata” (Le Monde), além de “ritmada e enérgica” (Les Echos). Um “livro inclassificável” (L’Express), de “profunda simplicidade” (Le Figaro). Um convite a “itinerários a um só tempo universais e singulares”(L’Humanité). O sucesso foi também de público: a edição de bolso será lançada em breve.
Ora, intelectos refinados raramente produzem textos tão cativantes. Grande conhecedor e editor da obra de Michel Foucault, professor de Filosofia da Universidade de Paris XII, o jovem Frédéric Gros já acumula notável produção acadêmica, na qual se destaca um ensaio magistral sobre a guerra (États de Violence, Paris: Gallimard, 2006). Contudo, em entrevista ao Philosophie Magazine (agosto/2009), o autor explica que o elementar sobre a caminhada encontra-se fora do discurso filosófico universitário: “É que ela fala primeiro àquele que a pratica”.
Sim, o texto de Gros nos atinge fisicamente. Mas não entendam mal a sua faceta aeróbica. Não se trata de um guia para atletas ou peregrinos – aliás, o autor desconfia dos guias. A primeira frase esclarece que caminhar não é um esporte, pois prescinde de técnica, escore ou competição. Longe das grandes cerimônias da mídia, a caminhada é mera repetição de um gesto infantil: um pé diante do outro. Nas longas marchas, aliás, em radical oposição ao ritmo de vida contemporâneo, o maior sinal de segurança é a lentidão. A velocidade é uma perda de tempo. Sei que chegarei ao final, portanto desfruto, não preciso correr. O estirar do tempo aprofunda o espaço.
Então de que trata o livro? Penso, logo... caminho? Ou vice-versa? O certo é que aqui a filosofia não é vã: é um grande vão – como verbo conjugado (incitação a ir) e como substantivo (espaço que atrai). Gros segue, entre outros, os passos de Nietzsche: lágrimas de felicidade ao caminhar longamente, nada sentimentais, mas que marcam seu “privilégio sobre os homens de hoje”. De Rimbaud, para quem o aqui era insuportável, por isto a fuga obstinada e enraivecida, a morte de passagem por Marselha. De Thoreau, em busca do primitivo, não por ser antigo, mas porque ali ainda vibram as forças de nosso futuro. Na trilha da filosofia, faz-se uma filosofia da trilha; Rousseau, Nerval e Gandhi ladeiam andarilhos anônimos.
Sem cacoetes de biógrafo ou resquícios de arrogância, o autor trança, mas não as pernas. Não é um “livro obeso”, embuchado de bibliotecas, “envenenado pelas morais sedentárias”. Os capítulos são curtos, plenos de frescor. Abordam o silêncio – no ruído da natureza, dissipa-se nossa linguagem funcional. E a solidão: se a tropa for grande, caminhar pode tornar-se um inferno, “a sociedade transportada para a montanha”.
Só, ou em solidão compartilhada, caminhar despoja. O que parecia imprescindível mostra-se um peso, porque as ofertas em profusão (bens, transportes, redes) e as facilidades (comunicar-se, comprar, circular) geram dependências que nos aprisionam. Logo, aparentes privações convertem-se em pequenas libertações. A infusão do corpo em sabores, cheiros e cores permite “possuir sem os inconvenientes da propriedade”. Restam os da incerteza. Mas quando há chuva, frio ou calor inclementes, exaustão ou percalços, a alma encoraja o corpo e se orgulha dele. “Nada do seu saber, de suas leituras, de suas relações, servirá aqui: duas pernas bastam, e grandes olhos para ver”, escreve Gros.
Caminhar também põe em xeque o abismo entre fora e dentro. Lá fora significa quase sempre uma transição entre interiores: o brincar das crianças, o sair dos adultos, o caminho entre trabalho e casa, a higiene mental de Kant ou a pausa para arejar. Entretanto, na caminhada, o fora é estável, é lá mesmo. A constância do passo permite habitar uma paisagem, impregnar-se dela. Em lugar do acúmulo de imagens fugazes, pequenas doses de presença.
A propósito, em palestra sobre o livro (disponível no site http://www.laprocure.com/ ), o autor resgata Platão, para quem o conhecimento exige que se habite os problemas, que neles se passeie com desenvoltura antes de resolvê-los. Na mesma ocasião, Gros cede ao célebre exercício estoico da “precisão da urgência”: o que faria se tivesse apenas duas semanas de vida? “Uma imensa caminhada”, responde sem hesitar.
Assim, na contramão da liturgia social e do jugo econômico que nos acachapam, surge o fôlego subversivo de Gros, ar puro que encoraja à evasão. Não é preciso ir muito longe para caminhar, ou para viver de outro modo. Basta valorar cada gesto pelo que custa em “instantes de vida pura”; familiarizar-se com as verdadeiras paisagens, e não se contentar com suas representações. Enfim, ao mesmo tempo e sem pressa, caminhemos mais e pensemos melhor.

CAMINHAR, UMA FILOSOFIA

Livro de Frédéric Gros, em tradução literal,
tem publicação no Brasil, pela editora paulista É Realizações,
prevista para 2011.
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REPORTAGEM POR DEISY VENTURA
PROFESSORA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA USP, AUTORA DE “AS ASSIMETRIAS ENTRE O MERCOSUL E A UNIÃO EUROPEIA” (MANOLE, 2003)
Fonte: ZH online, 24/12/2010

Mr. WikiLeaks

Sérgio Augusto*
                                                                                                                                 Zé Otávio
Julian Assange chacoalhou o mundo ao criar um novo tipo de luta,
apartidária e sem lideranças.
Coisa de traidor ou de ciberguerrilheiro?

As notícias sobre a morte da mídia impressa foram um tanto ou quanto exageradas. Os abutres já voavam baixo na blogosfera, coveiros e carpideiras se agitavam ao redor do moribundo, mas a mídia impressa, salva e revigorada pelo WikiLeaks, deu mostras de que seu fim iminente são fábulas, não favas, contadas. The New York Times, The Guardian, El País, Le Monde e Der Spiegel, os cinco grandes veículos escolhidos pelo WikiLeaks para cúmplices e avalistas do Cablegate, não circulam apenas na internet, ainda saem de uma gráfica, no formato em que consolidaram sua respeitabilidade.
Para os jornalistas, os historiadores e a opinião pública, o WikiLeaks foi um maná. Festejemos.
Quanto aos diplomatas, xeretar, segredar, fofocar e mentir são músculos do ofício, e eles não se saíram de todo mal dos vazamentos; ao contrário, mostraram-se, no geral, competentes, para orgulho de muitos americanos, que nem por isso aplacaram sua irracional fúria contra o WikiLeaks e sua exclusiva preocupação com o futuro da confiabilidade diplomática. Como jornalista e cidadão, meu maior (mas não exclusivo) compromisso é com a confiabilidade da imprensa, com o futuro da livre circulação de informações e da transparência e responsabilidade de governos e entidades públicas e privadas.
"O WikiLeaks representa
 um novo tipo de luta,
de ativismo político apartidário.
Sua ciberguerrilha já mudou as
regras do jogo jornalístico ao criar o
que até recentemente parecia impensável:
empresas competidoras compartilhando
os mesmos furos diariamente."
Até prova em contrário, é esse o apito que o WikiLeaks toca. É um consolo saber que a estrutura montada por Julian Assange, fundador e guia espiritual do WikiLeaks, permite ao site sobreviver sem lideranças, hierarquias e até ao boicote orquestrado de antigos parceiros como a Amazon, Visa, Mastercard, etc. Alguém o definiu como “um vasto Deep Throat da Era Napster”. Sim, o Napster deixou de existir, mas sua insurgência afetou para sempre a indústria de discos e a difusão da música. O WikiLeaks representa um novo tipo de luta, de ativismo político apartidário. Sua ciberguerrilha já mudou as regras do jogo jornalístico ao criar o que até recentemente parecia impensável: empresas competidoras compartilhando os mesmos furos diariamente.
Detido na cadeia de Wandsworth, no sul de Londres – uma das cinco em que Oscar Wilde, também acusado de ofensas de natureza sexual, viu o sol nascer quadrado em 1895 –, Assange ficou sem acesso à internet, como se algum crime online tivesse motivado sua prisão. Houve quem visse nessa proibição mais uma evidência de que as nebulosas acusações de “estupro” e “sexo forçado” por duas ex-tietes de Assange fazem parte, mesmo, de um complô para puni-lo por supostos “delitos” cometidos com os préstimos de um modem. Libertado sob fiança no dia 15, somente em 11 de janeiro decidirão seu destino.
O WikiLeaks não divulgou mentiras nem algo sequer remotamente perigoso como seria, por exemplo, vazar os planos de desembarque das forças aliadas na Normandia, para citar uma das mais hiperbólicas comparações assacadas contra o site e sem pudor repetida ad nauseam por políticos conservadores e colunistas de direita. Ao que se sabe, não há documentos top secret no acervo de 250 mil documentos sigilosos do WikiLeaks, que, ao contrário do que seus desafetos vivem a martelar, vem liberando somente uma ínfima parcela dos arquivos, que antes de chegar às primeiras páginas e à internet passam pelo filtro dos cinco mais respeitados veículos de informação do Ocidente, aos quais astuciosamente se associou.
Quando vão prender os editores do Times, do Guardian, do El País, do Le Monde e da Der Spiegel? E, firmada a jurisprudência, quando vão prender Bob Woodward pelos vazamentos contidos em seus best-sellers?
"Um articulista da revista
The New Yorker comparou-o a Klaatu,
o extraterreno do filme O Dia em que a Terra Parou,
recebido a tiros em Washington
por nos ter trazido uma
mensagem inconveniente.
Procede."

Assange se autodefine como “jornalista, publisher e inventor”. Acredita ter inventado um sistema seguro para acabar com a censura à informação e aos denunciantes de malfeitorias governamentais e corporativas. Herói e mártir, para uns; vilão e terrorista, para outros, já o insultaram de irresponsável, paranoico, narcisista, dominador, criminoso: “Assange, o Bin Laden da web”. Para gozar quem o acusa de espionagem, escolheu um parâmetro assaz conveniente, o agente 007: Assange, “o James Bond do jornalismo”. Um articulista da revista The New Yorker comparou-o a Klaatu, o extraterreno do filme O Dia em que a Terra Parou, recebido a tiros em Washington por nos ter trazido uma mensagem inconveniente. Procede.
"Seu sobrenome é uma corruptela de Ah Sang,
imigrante chinês que se estabeleceu
numa ilha da costa australiana,
no começo do século 19.
Seus ancestrais maternos foram para
a Austrália várias décadas depois,
procedentes da Irlanda e Escócia.
Sua tendência à errância, ao nomadismo,
talvez seja genética."
Tecnicamente, Assange é um traficante internacional de informações que governos e instituições tentam esconder, não raro por razões escusas. Com a ajuda de centenas de voluntários, ativistas, nerds, criptógrafos, recolhe documentos secretos como se fossem donativos e os repassa sem ônus à mídia. O procedimento é igual ao de um jornal investigativo, ou melhor, ao de uma agência de notícias investigativa. Se por algum motivo Assange ficar para sempre impedido de exercer suas funções, o WikiLeaks seguirá em frente, com o mesmo empenho e na mesma cadência. E se um poder superior conseguir desativar o site, outros surgirão. É um processo irreversível.
Seu sobrenome é uma corruptela de Ah Sang, imigrante chinês que se estabeleceu numa ilha da costa australiana, no começo do século 19. Seus ancestrais maternos foram para a Austrália várias décadas depois, procedentes da Irlanda e Escócia. Sua tendência à errância, ao nomadismo, talvez seja genética. Sua mãe, Christine, mal completara 17 anos quando fez uma fogueira de seus livros, montou numa moto e sumiu no mapa.
Filho de um diretor de teatro itinerante, Julian Paul Assange nasceu no mesmo dia (3 de julho de 1971) em que Jim Morrison foi encontrado morto numa banheira, vitimado por uma overdose de heroína. Aos 8 anos conheceu seu único padrasto: um músico dado a ataques de fúria de quem sua mãe passaria cinco anos fugindo. Sempre na estrada, teve uma infância de Tom Sawyer e, por força das circunstâncias e de um arraigado preconceito de Christine contra escolas e professores, uma educação informal. “Não queria que meu filho desenvolvesse um respeito não saudável pela autoridade e desinteresse pelo ensino”, justificou-se Christine a um jornalista interessado em descobrir como o filho dela se transformara num prodígio digital.
Aos 14 anos, Assange já mudara de endereço 37 vezes. Estudando por correspondência e tomando aulas particulares, superou aos poucos suas deficiências. Anos depois, estudaria física na Universidade de Melbourne. Pilotando um Commodore 64 presenteado pela mãe, precisou de alguns meses apenas para transformar-se, ainda adolescente, num sofisticado programador de informática. Com o codinome de Mendax (tirado de uma Ode de Horácio), associou-se a dois hackers, formou o grupo International Subversives e invadiu uma infinidade de computadores corporativos na Europa e na América, deixando sempre o mesmo recado: “Foi um prazer brincar com seu sistema. Não lhe causamos dano algum e até o livramos de alguns bugs. Por favor, não nos delate à polícia federal australiana”.
Apesar das precauções que tomava (seus disquetes eram guardados num apiário), acabou em cana e correu o risco de pegar 10 anos de cadeia. Inocentado em 6 das 31 ações penais que contra ele moveram, afinal caiu nas mãos de um juiz camarada, que o indultou do resto por entender que “o réu havia apenas bisbilhotado”, movido por sentimentos altruístas. Àquela altura, Assange já tinha um filho (Daniel), por cuja custódia lutou tenazmente anos a fio, com a ajuda de Christine, esta sim, pelo visto, a única mulher confiável de sua vida. Enquanto aguardava o julgamento, leu três vezes O Primeiro Círculo, de Soljenitsin, releu Kafka e O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler, em cujas páginas, dizem, encontra-se a chave para entender sua cruzada contra informações secretas, hierarquias institucionais e sociedades repressoras.
Tão logo ganhou a liberdade, isolou-se numa casa em Melbourne para aperfeiçoar sua bisbilhotice eletrônica. Através de um site que, por questão de segurança, hospedara num servidor sueco, inaugurou os serviços do WikiLeaks em dezembro de 2006, tornando pública uma decisão secreta do xeque Hassan Dahir Aweys, líder rebelde da Somália, ordenando a execução de autoridades do governo por um bando de sicários. Nove meses atrás, alugou uma casa em Reykjavik, na Islândia, onde montou um bunker eletrônico, com meia dúzia de computadores, e editou aquele vídeo do massacre de 18 pessoas por soldados americanos, no Iraque, gravado a bordo de um helicóptero Apache em 2007, que seria o cartão de visitas do WikiLeaks.
O resto da história vocês conhecem. E continuarão acompanhando por muito tempo.
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Sérgio Augusto é colunista do Estado, foi da equipe de O Pasquim e é autor de As Penas do Ofício (Agir)
Fonte: Estadão online, 25/12/2010

Nada será como antes

Marco Aurélio Nogueira*

                                                                                                                                                  Zé Otávio
Lula não inventou a roda nem começou do zero,
mas mudou o País. Quem há de se vangloriar ou se lamentar disso?

Nunca antes na história deste País houve um presidente como Luiz Inácio Lula da Silva. Encerrada sua dupla presidência, nada será igual. O País que ele nos deixa é outro, para o bem e para o mal. Nem melhor, nem pior, simplesmente diferente. Lula fez e desfez, aconteceu, circulou e apareceu, mudou o discurso do poder e o modo como a opinião pública se relaciona com seus governantes, pacificou e articulou os mais distintos interesses sociais, a ponto de sair de cena como uma espécie inusitada de glória nacional. Deixou marca tão forte na política, na administração pública e no imaginário popular que será preciso um tempo para assimilarmos sua ausência.
Lula não teve a grandeza fundacional e paradigmática de um Vargas, verdadeiro artífice do Brasil moderno, que ele forjou mediante um padrão de intervenção estatal e um “pacto” ainda hoje vigentes. Não trouxe o charme nem o dinamismo de JK, com sua fantasia industrializante de recriar o País, fazendo 50 anos em 5. Nem sequer seria justo aproximá-lo de Fernando Henrique Cardoso, cujo refinamento intelectual fazia com que conhecesse a estrutura do País que pretendeu administrar.
Mas Lula foi diferenciado. A começar do estilo. Falastrão, debochado, emotivo, avesso a protocolos e a regras gramaticais, demarcou um território. Líder metalúrgico, filho humilde do Brasil profundo, encontrou uma fórmula eficiente de dialogar com as grandes multidões, valendo-se da exploração de uma espontaneidade que o levou a ser tratado como um brasileiro igualzinho a você, predestinado a promover a ascensão dos pobres graças à magia de uma identificação imediata. Por ter vindo “de baixo” e carregado a cruz do sofrimento, Lula saberia como atender os pobres. A precariedade da formação intelectual e a falta de gosto por leituras ou estudos sistemáticos seria compensada pela percepção intuitiva das carências sociais. Ponha-se nisso uma pitada de sagacidade e se tem a lapidação de um mito.
O estilo Lula de ser presidente caminhou sempre de braços dados com glorificação e a autoglorificação. Foi assim, aliás, que ele abriu caminho no PT. Soube usar a aura que o cercou no final dos anos 70, quando despontou como expressão de um “novo sindicalismo” que irrompia numa sociedade silenciada pela ditadura e disponível para se emocionar com a movimentação dos operários do ABC paulista. Criou-se assim o signo do trabalhador que se impõe a políticos, estudantes e intelectuais para fundar um partido diferente, uma política de outro tipo, um novo discurso, um distinto modo de deliberar e agir. O bordão “nunca antes na história”, na verdade, nasceu ali, colando-se a sua trajetória.
O estilo sempre esteve próximo da egolatria e da autossuficiência, combinadas com uma enorme vontade de agradar a todos. Lula nunca reconheceu erros ou cultivou a modéstia. Sua vida teria transcorrido numa sucessão de eventos positivos, modelados por seu discernimento, seu sacrifício e seu espírito de luta. Outros erraram, companheiros inclusive; ele no máximo foi enganado ou ficou imobilizado por perseguições e preconceitos.
"O estilo sempre esteve
próximo da egolatria e
da autossuficiência,
combinadas com uma enorme vontade
de agradar a todos."
Mas é impossível diminuir o tamanho real do personagem. Num País em que as elites políticas, econômicas e intelectuais, apesar de não terem conseguido governar com generosidade, nunca largaram as rédeas do governo, a irrupção de um metalúrgico no Planalto deve ser compreendida sem ira nem ressentimento. Tratou-se de um fato excepcional, desses que podem efetivamente sinalizar que algo novo começou a trepidar no chão da vida cotidiana.
"O “animal político” nascido no
ABC mostrou que tem corpo e
vontade própria.
Já não depende mais de um partido
para se afirmar e pode almejar
ser fiador do novo governo."
A chegada de Lula ao poder não foi obra do desígnio divino, nem derivou exclusivamente de seu carisma ou mérito pessoal. Muita gente se empenhou para isso e a operação exigiu algum sacrifício. O PT, por exemplo, trocou sua identidade operária pela possibilidade de projetar um operário na cúpula do Estado. Depois de ter se recusado a jogar o jogo da redemocratização do País, o partido passou a defender as regras formais e informais do sistema político. Afastou-se dos compromissos de esquerda. Depurado de combatividade e eixo, ficou refém de seu mais conhecido expoente. Alguma semelhança com o papel desempenhado por Luiz Carlos Prestes no velho PCB não é mera coincidência.
A estratégia foi auxiliada pelos fatos da vida. Houve o governo FHC, que venceu a inflação e lançou a plataforma de uma sociedade mais educada para a racionalidade econômica e mais sensível à necessidade de centralizar a questão social. Lula beneficiou-se, também, da consolidação democrática, da expansão da economia internacional e do que isso trouxe de espaço para o crescimento da economia brasileira. Tudo ajudou as políticas públicas a ganhar nova preeminência e incluir o combate às zonas de miséria e pobreza que devastam a sociedade.
Exagera-se muito na avaliação que se faz de Lula. Na apreciação do que há de positivo em seu governo, nem sempre se dá o devido valor à equipe técnica e política que o assessorou. O bloco de sustentação e a amplíssima coalizão de interesses que montou não se deveram a uma incomum habilidade de negociador, mas sim à recuperação do Estado como agente, à disseminação de práticas generalizadas de composição parlamentar e a uma “racionalidade” dos próprios interesses, que pactuaram para ganhar um pouco mais ou perder um pouco menos. Uma “nova classe média” apareceu, impulsionada pelas facilidades do crediário, pelos programas de transferência de renda e pela impressionante mobilidade da sociedade. Mas não mudou a face do País.
"Lula entrou para a galeria política brasileira.
Mas não inventou a roda,
nem começou do zero.
Não fará tanta falta
quanto imagina ou imaginam."
A presidência Lula se completou com a eleição de Dilma Rousseff, sua maior criação. O “animal político” nascido no ABC mostrou que tem corpo e vontade própria. Já não depende mais de um partido para se afirmar e pode almejar ser fiador do novo governo.
Mas nada é tão simples como parece. Todo governante constrói sua biografia e a lógica da política o impele a buscar luz autônoma. Uma hipótese realista sugere que haverá um suave descolamento entre Lula e Dilma. Disso talvez nasça um governo mais ponderado e equilibrado, capaz de substituir a presença de um líder carismático e intuitivo pela determinação e pelo rigor técnico que são indispensáveis para que se possa construir uma sociedade mais igualitária.
Lula entrou para a galeria política brasileira. Mas não inventou a roda, nem começou do zero. Não fará tanta falta quanto imagina ou imaginam. Sua passagem para os bastidores do sistema, ainda que temporária, poderá propiciar uma lufada de oxigênio na política e na dinâmica social, ajudando-as a adquirir mais espontaneidade e a pressionar por agendas de novo tipo.
Nada será como antes, é verdade, mas ninguém lamentará nem se vangloriará disso.
_______________________
*Marco Aurélio Nogueira é professor titular de teoria política da Unesp e autor de o encontro O Encontro de Joaquim Nabuco com a Política (Paz e Terra)
Fonte: Estadão online, acesso 26/12/2010

Com a palavra, a Faixa

Ivan Marsiglia*
Ela acaba de completar 100 anos e fala de seus ritos de passagem –
o próximo, sábado que vem

Quer saber? Vou falar. Sempre fui uma faixa discreta, mas ando atravessada com isso. Quase ninguém lembra que existo. Pensam que sou mera formalidade, peça de museu, resquício do passado. Quanta injustiça! Não que eu queira os louros só para mim – a bem da verdade, nasci foi para substituir isso aí, os louros da Roma antiga, mas essa é uma longa história. Peço apenas um pouco de consideração pelas minhas funções. Não é para reclamar não, mas alguém como eu tem que andar na linha, viu? Vivo trancada num cofre e só tenho direito, se muito, a duas voltinhas por ano: no desfile de 7 de Setembro e quando tem festa de posse. Nessa, às vezes nem banho de sol tomo, pois chove quase sempre. E sempre é aquilo: carro aberto ou carro fechado? Carro aberto ou carro fechado? Não desenrola nunca. Eu ali, prontinha, querendo dizer: “Tem graça andar num Rolls-Royce conversível de capota fechada?” Menos mal que nas duas últimas vezes o chefe ignorou a garoa. Confesso que a umidade danificou um pouco meu delicado tecido. Mas pelo menos pude saudar o povo na esplanada, do jeito que eu gosto.
Antes que alguém cometa a deselegância de perguntar, vou logo dizendo: tenho 100 anos, recém-completados essa semana. Qual o problema? Sou mais jovem que o Niemeyer. Está na minha certidão de nascimento: Decreto nº 2.299, de 21 de dezembro de 1910. Faço saber que o Congresso Nacional decretou e eu sancciono a resolução seguinte: Art. 1º. Como distinctivo de seu cargo o Presidente da Republica usará, a tiracollo, da direita para a esquerda, uma faixa de seda com as cores nacionaes, ostentando o escudo da Republica bordado a ouro. A faixa, cuja largura será de 15 centimetros, terminará em franjas de ouro de 10 centimetros de largo e supportará, pendente do porto de cruzamento das suas extremidades, uma medalha, de ouro, mostrando no verso o mesmo escudo de que falla o artigo anterior e no anverso o dístico - Presidencia da Republica do Brazil.
Assina o marechal Hermes Rodrigues da Fonseca, na data do 88º ano da Independência e 21º da proclamação da República. Já que esticamos a prosa, vou falar um pouco mais de mim. A medalha que eu tenho é de ouro 18 quilates, cravejada com 21 brilhantes – o número de toques de canhão disparados em honra aos chefes de Estado. Não foi para fazer fita que o marechal Hermes decidiu me sancionar. Militar, ele era sobrinho do marechal Deodoro da Fonseca, que destronou dom Pedro II e foi o primeiro presidente do Brasil. Olha, não é fácil competir com um imperador. É coroa, cetro, anel, manto... O povo se deslumbra. Já reparou que até hoje todo o mundo diz “rei do futebol”, “rei da soja”, “rei Roberto”? Ninguém fala em “presidente” de nada, embora existam muitos aí com o rei na barriga.
Então, quando o marechal Hermes assumiu, ele era o oitavo mandatário da República, mas as coisas não andavam assim tão estáveis. Havia um medo generalizado em relação à volta da monarquia. Até aqueles pobres diabos de Canudos, massacrados 13 anos antes, eram tachados de monarquistas. E o novo presidente, que vivia fardado desfilando fama de grosseirão, tinha sido eleito contra Rui Barbosa, um civil cheio de estilo e de oratória. O clima no País era de decepção, conta o historiador Boris Fausto. E convinha ao supremo mandatário trazer no peito, além das condecorações de guerra, um símbolo que marcasse a presidência civil. Para ninguém ter dúvida, Hermes ainda introduziu o Pavilhão da República, aquela bandeira verde que fica hasteada onde quer que o eleito esteja.
Poucos dias depois da posse, o primeiro presidente enfaixado enfrentou um motim de marinheiros. A Revolta da Chibata, contra os bárbaros castigos corporais que eram hábito na Marinha, só foi debelada à custa de prisões e mortes. E, em 1912, veio a Guerra do Contestado, com a população cabocla lutando nas ruas contra as forças federais – encrenca que sobreviveu a seu mandato, até 1916, quando eu já estava envolvida no sucessor Venceslau Brás. “É uma época em que os símbolos e modelos republicanos penam para se afirmar e intelectuais como o escritor Lima Barreto falam na ‘República que não foi’”, me disse a antropóloga Lilia Schwarcz. Faz sentido.
Com que roupa? Onde estava mesmo? Eu me enrolo toda nessas reminiscências. Ah, no meu tecido danificado pela chuva nas últimas posses. Para ser franca, antes mesmo eu já estava meio rota. Tanto que o cerimonial da Presidência, que é o setor responsável pela minha guarda, decidiu que era hora de dar uma repaginada no meu visual. Mas acha que é fácil mexer com armas e símbolos nacionais? Tiveram que montar uma comissão para estudar os farrapos de minha biografia e costurar o processo licitatório de minha renovação. Em 2006, uma empresa de confecção de Brasília venceu a concorrência por R$ 38 mil. O preço alto deu pano pra manga. Não dou palpite nessa coisa de governo, que o meu negócio é de Estado. Mas queriam o quê? Que fosse na faixa?
Melhorei, mas a bem da verdade, depois da renovação ninguém rasgou elogios. Fiquei uma faixa meio pedestre, por assim dizer. O que mais me magoou foi a reação do presidente Lula, a quem sempre tive como amigo do peito: “Eu não vou usar esse molambo no desfile da Independência de jeito nenhum”. Toca os assessores correrem para remendar o problema. O chefe da diretoria de documentação histórica da Presidência, Claudio Soares Rocha, se enfurnou nos livros e descobriu que o novo tecido, embora de seda como manda a lei, não era idêntico ao original. Além de brilhoso demais pro meu gosto, aquele cetim ficava mal-ajambrado no corpo – sem comparação com o chamalotado de seda pura de minha juventude.
"Nesse ponto, do alto de
meu centenário,
até que sou moderninha.
Gosto de variar, mudar de dono,
 exercitar o desapego.
Romances não me faltaram."
Como quase ninguém faz mais esse tipo de pano no Brasil, o diligente Claudio garimpou numa pequena confecção de Americana, interior de São Paulo. Para transferir o Brasão da República e a medalha para a roupa nova, foi escalada Renata Barretto, uma restauradora do Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Renata removeu os fios de ouro com bisturi, para não danificar a peça e bordou um a um no chamalotado. Também refez a emenda original dos tecidos, com as tiras verdes costuradas por baixo da amarela. O trabalho terminou em agosto de 2010 e ficou uma beleza. O presidente até brincou: “Dia 31, quando der meia-noite, não vou entregar a faixa. Estou pensando em colar a bichinha na barriga e sair correndo”. Eu, hein?
Ame-a e deixe-a. Sem ser pretensiosa: todo o mundo me deseja. Só que não fui feita para ser de ninguém. Nesse ponto, do alto de meu centenário, até que sou moderninha. Gosto de variar, mudar de dono, exercitar o desapego. Romances não me faltaram. Getúlio chegou como quem não queria nada e praticamente me tomou à força em 1937. Depois voltou, se desculpou e acabou me conquistando. Senti sua falta quando ele se foi daquele jeito trágico. Já o Jânio fazia o gênero difícil: te quero, não te quero mais... Ele me deu o fora no dia 22 de agosto de 1961, mas só saiu de perto de mim no dia 26. Esperando, sei lá, que eu me rebaixasse, implorasse. Lo siento, cariño.
Diz a lenda que quando me arrancaram de Jango, seu cunhado, Leonel Brizola, me levou para o exílio na esperança de devolvê-la ao legítimo dono. Mas não me lembro bem disso não. Deve ser a idade... Veio, então, aquele período que não gosto nem de lembrar. Eu, passando do general da vez para outro. De todos, Médici foi quem me tratou pior. Figueiredo também era complicado. Foi o primeiro que parou de me usar debaixo da casaca, como sempre fui acostumada, e me pôs por cima do terno: casaca, para ele, só a de equitação. Em 1985, ele não teve nem a delicadeza de me entregar ao Sarney.
"Vai ser as 16h30 do dia 1º de janeiro,
quando a mineira Dilma Rousseff chegará ao
Palácio do Planalto,
depois de fazer o juramento
constitucional no Congresso.
Quero estar esperando no alto da rampa,
ainda abraçada com Lula.
A primeira dona. Hoje, já me habituei a ficar em cima do terno. Não é tão elegante, mas é mais jovial. Só Collor de Mello fez questão de me vestir à moda antiga. O Itamar, esse nem foto oficial comigo fez. Azar dele. O que me traz, enfim, aos amores da maturidade: FHC, tão fino e cultivado, e Lula, amante apaixonado. Na passagem de um para outro, em 2003, fiquei tão nervosa que quase derrubei os óculos do príncipe. Ainda bem que o sucessor segurou. Um fim de relacionamento bem civilizado, eu diria.
Agora, faltam seis dias para uma nova cerimônia de posse e, pela primeira vez, de uma mulher. Imaginem minha emoção. Aqui, dentro do cofre da sala 302 do terceiro andar do Palácio do Planalto, mal contenho a ansiedade. Há anos guardam o cofre no banheiro privativo do embaixador chefe do cerimonial – o que não é lá muito glamouroso –, mas a minha nova grande hora está para chegar.
Vai ser as 16h30 do dia 1º de janeiro, quando a mineira Dilma Rousseff chegará ao Palácio do Planalto, depois de fazer o juramento constitucional no Congresso. Quero estar esperando no alto da rampa, ainda abraçada com Lula. De lá, vamos os três direto para o parlatório, onde, pela 42ª vez na história da República, o poder presidencial será passado de uma pessoa para outra. Vestida de mim, Dilma dará posse aos ministros às 18h30, descerá a rampa e então embarcará no Rolls-Royce presidencial. Se São Pedro ajudar, vou me exibir com a presidente em carro aberto para o povo todo na capital federal. Minha única preocupação, enquanto faixa, é estar bem bonita e composta. Vai que eu desato a chorar...
______________________________
* Ivan Marsiglia é jornalista, bacharel em Ciências Sociais e editor assistente do caderno Aliás.
Fonte: Estadão, acesso 26/12/2010

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

BOAS FESTAS!

Aos blogueiros/as que
visitaram o meu BLOG e que o seguem,
deixo a minha
MENSAGEM FESTIVA.

Natal é memória.
O que surge agora é novidade.
Amanhã, será memória!
Todos os natais são diferentes,
todos apontam para a VIDA.
Só a VIDA lê o que eles escondem...
Se a VIDA é grande
o NATAL é do mesmo tamanho.
FELIZ NATAL!!!!!!!!!!!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

De Natal

VERISSIMO*

Imagem da Internet
Não há cronista que não tenha cometido uma crônica de Natal. Alguns são reincidentes, fazem uma crônica de Natal a cada Natal - muitas vezes a mesma crônica. Ou faziam. Hoje poucos se sentem obrigados a não deixar passar a data, talvez porque tenham escasseado, com o tempo, as formas de tratar do assunto com um mínimo de criatividade. Antigamente você podia fazer da natividade uma metáfora moderna: a manjedoura como símbolo da origem humilde de um justiceiro social, José e Maria como despossuídos (os primeiros sem-teto) perseguidos pelos poderosos do dia, como hoje, etc., etc. Ou podia apelar para a crítica política indireta: os Três Reis Magos chegam à manjedoura trazendo só mirra e incenso porque tiveram que passar por Brasília e o ouro desapareceu. Uma vez descrevi a cena na manjedoura do ponto de vista dos animais, perplexos com o que veem e incapazes de compreender o momento histórico que vivem. Minha intenção, eu acho, era fazer uma divagação profunda sobre a neutralidade do mundo natural diante - ou atrás, já que só serve de cenário - dos dramas humanos, e a insignificância destes em contraste com a vasta indiferença das coisas. Ou coisa parecida. Isso tudo sem falar, claro, nas mil e uma variações sobre a figura do Papai Noel e seu saco. Tudo já foi feito. Mas, só para não deixar passar a data, aqui vai a minha crônica de Natal deste ano, na categoria reminiscências com ilações, também já muito usada.

"O Natal nos fornece símbolos
de muito mais coisas,
 e coisas mais importantes,
do que questões de fé."

Sempre houve árvore de Natal na nossa casa, desde os pinheirinhos da época dos móveis escandinavos, que era como minha mãe chamava os caixotes de bacalhau norueguês trazidos do mercado e transformados em mesas e estantes. Quando a situação melhorou o pinheirinho cresceu. Eventualmente, acometidos de consciência ecológica, trocamos o pinheiro de verdade por um sintético, que é o que está na sala agora, todo decorado, com uma humilde estrela na ponta onde, no Natal de 2006, tremulava uma fotografia do Gabiru, autor do gol que deu o campeonato do mundo ao Internacional naquele ano, suspiro e reticências. Minha mãe era religiosa mas o nosso Natal nunca foi religioso. Às vezes há mais amigos judeus do que cristãos no jantar da véspera, em nossa casa. E aqui entra a ilação, já que se está discutindo tanto crença e descrença em Deus. O Natal nos fornece símbolos de muito mais coisas, e coisas mais importantes, do que questões de fé. Estamos juntos, nos gostamos muito, isso é o que celebramos todos os anos. E nada mais distante de especulações teológicas do que a Lucinda rondando a árvore, tentando adivinhar quais dos presentes são seus.
_______________________
* Jornalista. Escritor. Cronista
Fonte: Estadão online, 23/12/2010

Quem não acredita em Papai Noel?

CONTARDO CALLIGARIS*
Imagem da Internet
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Papai Noel encarna a
esperança básica de que,
ao menos uma vez por ano,
o mundo nos queira bem

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NO SÁBADO, foi o primeiro aniversário de Gabriela, filha de amigos meus. Ela estava radiante, num vestido que, pela cor vermelha, contribuía ao tema da festa: o Natal. Havia um Papai Noel no seu trenó, em tamanho natural, e a casa do Papai Noel no polo Norte, com o elfo a judante diante da porta e muita neve no teto. Havia também duas renas voadoras, que não reconheci, mas nenhuma delas era Rudolfo (que, como se sabe, tem nariz vermelho).
Concordo com a escolha dos pais de Gabriela: como primeira história na qual acreditar, a de Papai Noel é imbatível -embora ela tenha vários inimigos.
1) Há os que dizem que Papai Noel não passa de um vendedor de shopping center ou de um animador de loja de departamento, inventado para que, nesta época do ano, compremos um monte de futilidades. Penso diferente.
Vi muitas crianças ponderando e escrevendo suas cartas de Natal ou, então, esperando, na fila, para sussurrar seus sonhos no ouvido do próprio Papai Noel. O importante não era que elas conseguissem o que pediam, mas que elas manifestassem suas vontades, tivessem a coragem de querer.
No Natal, aliás, o presente é quase supérfluo. Nestes dias, não há como jantar num restaurante sem assistir à entrega das surpresas de um amigo secreto. Cada um desembrulha, finge encantamento e ergue seu presente para a foto: é um troca-troca de objetos sem uso que acabarão no fundo de uma gaveta ou serão passados adiante, quem sabe no Natal do ano que vem.
O presente pode ser qualquer coisa porque, em muitos casos, seu valor é o mesmo dos ursos de pelúcia que abraçamos no sono, ao longo da infância: ele serve como lembrança saudosa de quem nos presenteou e, ao mesmo tempo, substitui o presenteador de maneira que possamos dispensar sua presença.
Só para ilustrar a complexidade de pedidos e presentes, mais um exemplo. Francisco, aos cinco anos, num dia de novembro, quis ditar sua carta ao Papai Noel; ele não queria presente algum naquele ano, preferia que o Papai Noel pensasse nas crianças que não têm nada.
Francisco selou e mandou seu pedido, com grande contentamento dos pais, orgulhosos da generosidade do filhinho. Poucos dias mais tarde, Francisco estava sendo impossível, explosivo, levado. A mãe: "Se Papai Noel souber como você se comporta, ele não trará nada para você". Francisco, feliz e sardônico: "Eu não pedi nada neste ano".
2) Alguns se indignam porque o culto a Papai Noel, figura mágica ou pagã, desnaturaria o Natal religioso. Acho estranho: o Papai Noel encarna e celebra a esperança básica de que o mundo não nos seja hostil, que, ao menos uma vez por ano, ele possa nos querer bem. Graças ao Papai Noel paira, sobre nós todos, um olhar generoso. Será que essa esperança é muito afastada do sentido cristão do Natal?
3) A objeção mais impiedosa ao Papai Noel vem da crítica racionalista, pela qual é nocivo induzir as crianças a acreditar em coisas cuja existência é duvidosa.
Acho curioso. No fundo, acreditar ou não na existência do velhinho do polo Norte é sem relevância. Mas é crucial acreditar na possível generosidade do mundo para com a gente e com todos.
Anos atrás, passando o Natal em Gstaad, uma estação de esqui nos Alpes do Valais, na Suíça, eu e um amigo decidimos (estupidamente) atormentar o pequeno Mário, seis anos, anunciando, sem parar, a chegada iminente do Papai Noel. Mário, ao mesmo tempo, desejava essa chegada e era literalmente apavorado por sua eventualidade.
No fim, quisemos saber: do que ele tinha tanto medo? Da aparição sobrenatural do trenó voador? Do julgamento de seu comportamento passado, que seria implícito no presente recebido? Mario explicou: "Nada disso. É que, se ele vier, eu terei que ser bom".
Agora, se um jovem leitor tivesse aguentado até aqui e me perguntasse "Afinal, para você, Papai Noel existe ou não?", como responderia?
Primeiro, observaria que é bom não dar ouvidos aos que insinuam que o Papai Noel não existe. Os cínicos são sobretudo invejosos; funciona assim: por medo de que meu irmão receba mais amor do que eu, declaro que a mãe não existe e tento vender essa ideia ao meu irmão.
Logo, seguiria o exemplo de uma mãe que, diante das dúvidas do filho, disse: "Se você acredita nele, no mínimo ele existe dentro de você".

Feliz Natal a todos.
__________________
* Psicanalista. Escritor. Colunista da Folha.ccalligari@uol.com.br
Fonte: Folha online, 23/12/2010 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A consciência de que a vida é um milagre

Eduardo Shinyashiki*
Imagem da Internet

O relógio bate meia-noite, os fogos iluminam os céus, as pessoas se abraçam e se beijam e infinitos planos e promessas são feitos. Mais uma vez, chegamos ao fim de outro ano. Os assuntos se voltam para o que chega, para as juras que faremos e inúmeras outras que não cumprimos. Estamos todos cheios de sonhos e esperanças acerca do ciclo que se encerra e do próximo que se inicia. As atenções estão voltadas para tudo o que pretendemos fazer de outra forma, de um jeito novo.
A catarse de emoções, tarefas e obrigações parece ter fim e tudo o que esteve pendente já não está mais, afinal, é ano-novo, e isso significa vida nova. No entanto, quando percebemos, ela continua na mesma direção, os problemas são iguais e as promessas continuam sendo simplesmente promessas. E se fizéssemos de outro jeito desta vez? E, se em vez de continuarmos tentando mudar tudo, refizéssemos as atividades de nossa vida e mudássemos um ponto simplesmente: nossas próprias atitudes?
Gastamos boa parte de nosso tempo planejando a vida, as ações, as atividades e o futuro. Vivemos tentando antecipar a vida, quando, na verdade, nós é que deveríamos nos antecipar ao futuro e estar de braços abertos para recebê-lo quando ele chegar. Tentar fazer com que o futuro aconteça agora somente aumenta nossa ansiedade e nos faz viver insistentemente em um tempo que não é o nosso, não é o hoje, não é o presente.
"Ser uma pessoa vencedora,
ter atitudes vencedoras, constitui, de fato,
em ter gestos conscientes – saber o que acontece
ao seu redor e agir a partir disso.
É ter, novamente,
o controle sobre si mesmo."

Insistimos tanto em remediar as situações que não percebemos que, na verdade, o futuro depende de nós mesmos. Deixamos as coisas acontecerem para só quando a crise completa se instala tomarmos alguma atitude. E, muitas vezes, a atitude é, na verdade, a omissão de ação. Sofremos consequências por motivos que podíamos ter evitado, solucionado e nos antecipado. Remediamos as relações até que se tornem insustentáveis, deixamos de agir e, assim, perdemos totalmente o controle sobre nossas próprias vidas.
Em vez de continuarmos remediando situações, por que não aproveitamos essa virada de ano para preveni-las e antecipar questões previsíveis? Ser uma pessoa vencedora não significa criar diversos planos e segui-los à risca. Todos querem uma vida vitoriosa, um caminho iluminado e bem-sucedido. No entanto, é preciso que possibilitemos que o futuro aconteça e que criemos contextos necessários. Antes de tudo, é preciso que tenhamos atitude, pois, sem agir, não criamos nem ao menos as possibilidades. E as primeiras atitudes a tomarmos – para isso, não precisamos nem esperar que o próximo ano chegue – são as que não tomamos, aquilo que deixamos de fazer.
Desde o cômodo que prometemos, mas nunca arrumamos até as declarações que pensamos e fizemos em silêncio, porém que jamais dissemos para quem gostaríamos – todas essas ações, por mais que pareçam pequenas, são grandes gestos e ótimas iniciativas para uma vida e pensamento mais conscientes. Como eu disse anteriormente: sem atitudes, não há ao menos possibilidades.
Neste novo ano que se aproxima, deixo meus mais sinceros votos de felicidade, amor, união e bons sentimentos. No entanto, mais que tudo isso, desejo a todos um novo presente, um novo agora dotado de atitudes conscientes e vencedoras. Espero que o ano que chega seja de contextos, de possibilidades, de grandes realizações e de plena consciência sobre os outros e nós mesmos. Desejo que todos tomem consciência de que o grande presente é o próprio agora e de que a vida é, na verdade, um grande e bonito milagre.
Feliz 2011 a todos!
_____________________
* Eduardo Shinyashiki é palestrante, consultor, escritor e especialista em desenvolvimento das competências de liderança e preparação de equipes.
Visite o site: www.edushin.com.br.

Culpado por dirigir ou desperdiçar água? Junte-se ao clube

'Culpa depressiva',
conceito criado pela psicanalista austríaca Melanie Klein,
pode levar pessoas a mudar hábitos
para impedir danos ao ambiente;
mas é preciso parar de vez
de agredir o planeta

Não é uma sensação tão desconhecida. Um dia você desliga o chuveiro depois de apenas cinco minutos de banho. No outro, está separando cada categoria de lixo e deixa de ir ao trabalho de carro para pegar um ônibus e um metrô. Ao procurar com calma as origens de tal mudança de atitude, é provável que encontre pelo caminho um sentimento que, à primeira vista, pode parecer embaraçoso: a boa e velha culpa.
Arte: Paula GamaAtitudes.

Um dia você separa cada categoria de lixo e
no outro deixa de ir ao trabalho de carro
para pegar um ônibus ou metrô

"Considero a culpa uma condição fundamental para a evolução do ser humano, no sentido de alcançar uma ética humanista universal, baseada na não agressão e na não destruição nem do outro nem do planeta. Mas é preciso que a pessoa tenha alcançado um tipo de culpa que é chamada de "culpa depressiva"", esclarece Sueli Damergian, professora do Instituto de Psicologia da USP e autora do livro Para Além da Barbárie Civilizatória: o Amor e a Ética Humanista.
O conceito, segundo Sueli, foi cunhado pela psicanalista austríaca Melanie Klein. "A pessoa sente culpa cada vez que ataca um objeto de amor necessário para sua sobrevivência."
A psicóloga afirma que a culpa depressiva não é ruim - é uma evolução do ser humano. O sentimento está ligado à capacidade de reparação do mal. "A culpa depressiva faz a pessoa reconhecer o mal que pode ter causado e procurar de todas as formas reparar, reconstruir, refazer", diz.
Comprar créditos de carbono ou plantar árvores para neutralizar as emissões podem ser manifestações da culpa depressiva, porque visam consertar um mal causado ao planeta. "O desejo de reparar é legítimo e louvável."
O oposto dessa culpa depressiva é a culpa persecutória. "A pessoa movida por ela só não age mal por medo de ser punida", resume Sueli. É o caso de quem não joga lixo pela janela por não querer receber uma multa, digamos. Ao contrário desses, os que "alcançaram a culpa depressiva têm uma censura interna", afirma Sueli.
Culpa a mais. Para alguns, um pouco mais dessa tal culpa depressiva - ou senso de responsabilidade - não faria mal ao planeta. "Falta culpa às pessoas. Elas têm preguiça e acham que suas ações estão protegidas pelo anonimato", diz o cantor Carlos Navas. Tachado de chato por seus vizinhos, Navas lembra a todos de fazer a sua parte no planeta.
"Certa vez, no Parque da Água Branca, vi um casal jogando na rua todo o lixo que restou dos lanches que comiam: embalagens de papel, copos de refrigerante, canudos, sacolas... Bati no vidro do carro e perguntei: "Vocês precisam jogar isso no chão?". Eles disseram que a rua era pública e perguntaram o que eu tinha a ver com isso. Eu respondi: "Tudo. Se a rua é pública, é de todos, inclusive minha.""
Se por um lado alguns não são mobilizados por sentimentos de culpa depressiva, outros com hábitos ambientalmente corretos consolidados são exigentes a ponto de sentir que poderiam fazer melhor e mais.
"Por ser vegano, eu até podia me orgulhar dos meus hábitos, especialmente da redução do consumo de água, de emissão de poluentes e de produção de lixo", afirma o técnico de documentação da Cinemateca Brasileira Sérgio Silva. "Mas ainda gostaria de comprar menos e consumir menos produtos industrializados", prossegue, revelando sentimento de culpa.
Embora as condutas individuais de tentar ser mais sustentável sejam elogiáveis, Sueli alerta que a destruição que o homem causa "vai mais além e está em um nível muito avançado". "Ter apenas atitudes reparatórias ou pseudo-reparatórias não é mais suficiente. É preciso parar de agredir", diz, citando o caso dos EUA, que até hoje não ratificaram o Protocolo de Kyoto.
"Não adianta reparar e voltar a fazer. Isso vira um mecanismo de defesa folgada. O ideal é antecipar-se ao dano e não cometê-lo", afirma a psicóloga.
Para Eda Tassara, professora do Laboratório de Psicologia Ambiental da USP, a culpa depressiva pode ser excepcionalmente produtiva, mas seus portadores não estão livres da influência do discurso da propaganda ambiental.
"A propaganda tem o objetivo de fazer com que a pessoa aja de determinada forma. No caso de um produto fica fácil: a meta é fazer o sujeito comprar o produto. Já a propaganda ideológica atua através de motivações: medo, culpa..."
Eda afirma que uma tendência da propaganda ambiental é o uso de um discurso pesado, que joga sobre as pessoas toda a responsabilidade diante de possíveis catástrofes ambientais. "Culpa não define, mas pode ser o motor motivacional que dispara várias formas de ação", conclui.
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* REPORTAGEM POR Karina Ninni - COLABOROU GUSTAVO BONFIGLIOLI, ESPECIAL PARA O ESTADO
FONTE: Estadão online, 22/12/2010

Redigir é pôr ordem no caos

THAÍS NICOLETI DE CAMARGO*
REDAÇÃO

Fazer associações entre ideias é uma ótima estratégia
para construir um raciocínio

UMA BOA REDAÇÃO de vestibular deve, em primeiro lugar, atender àquilo que estiver sendo proposto pela banca examinadora, ou seja, deve respeitar o tema e a estrutura textual previstos.
Não há fórmulas para escrever, tanto que redações bem diferentes entre si obtêm as melhores classificações nos exames. Há, porém, uma variedade de meios eficientes de realizar um bom texto.
No caso específico da Fuvest, geralmente a proposta de redação motiva uma reflexão de natureza filosófica, o que, para muitos, pode parecer um bicho de sete cabeças.
Diante de temas abstratos, pode o candidato aventurar-se na elaboração de um texto igualmente abstrato ou pode tentar encontrar situações concretas que ilustrem a discussão. Esta última atitude é mais segura, pois o estudante minimiza, assim, o risco de perder a linha de raciocínio.
A reflexão puramente abstrata, isenta de analogias ou ilustrações, requer muita capacidade de organização lógica do raciocínio e embasamento prévio.
É evidente que o aluno já habituado a ler textos críticos tem mais facilidade para compreender esse tipo de tema e estabelecer relações com outras fontes do seu próprio repertório cultural. Fazer associações entre ideias é uma ótima estratégia para construir um raciocínio.
O primeiro passo, porém, é ler a proposta com atenção. Geralmente, a Fuvest apresenta textos de modalidades diferentes e/ou imagens que dialogam entre si. A primeira tarefa do candidato é compreender esse diálogo. Dado esse passo, é preciso mostrar a importância da discussão.
Por que se discute aquilo? Que implicações a discussão tem? A que outra discussão ela remete? É possível relacionar esse assunto com outro? As perguntas podem ajudar a organizar o pensamento e a encontrar um ponto de vista particular, que vai dirigir a linha argumentativa do texto.
A modalidade de texto que o candidato desenvolverá na prova da Fuvest é a dissertação, de resto o gênero textual mais adequado à avaliação da sua capacidade de compreender ideias e de tratar delas criticamente, como se espera de um vestibulando.
Essa estrutura requer um parágrafo introdutório em que se apresente a discussão ao leitor e em que se defina a linha argumentativa do texto. É a primeira oportunidade que tem o redator de revelar um pensamento original.
Abordar o tema de um ponto de vista próprio ajuda a cativar o leitor. Embora sejam características apreciáveis, originalidade e criatividade não podem ser exigidas num exame vestibular. Exigem-se, isto sim, coesão entre as partes do texto e coerência entre as ideias.
"O raciocínio não pode girar em círculos;
tem de progredir até o ponto de chegada,
que é a conclusão do texto."

Encontrar bons argumentos é fundamental para validar a ideia central do texto. Como fazer isso? Exemplificar o que se diz é muito útil numa discussão reflexiva, pois o exemplo torna concreto o que está no plano abstrato. O estabelecimento de relações de causa e efeito é importante não só para provar o que se diz mas também para criar progressão no texto.
O raciocínio não pode girar em círculos; tem de progredir até o ponto de chegada, que é a conclusão do texto.
Outro recurso muito útil, quando o tema permite, é o uso da refutação de argumentos contrários. É importante mostrar que se está ciente de que as próprias ideias constituem um ponto de vista, não a "verdade absoluta". A habilidade de apontar os pontos fracos das ideias contrárias às que se pretende defender é uma poderosa forma de argumentar.
Ponto importante: para redigir bem, é preciso, antes, ser um leitor atento, mas isso, por si só, não basta. É necessário treino constante. O pensamento não surge pronto e organizado. A tarefa de quem escreve é pôr ordem no caos.
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*THAÍS NICOLETI DE CAMARGO é consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL.
 thais.nicoleti@grupofolha.com.br
Fonte: Folha online, 23/12/2010Imagem da Internet