sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Deus, uma lembrança

Alves: "Se Deus amasse realmente o mundo, ele tomaria uma providência"

Literatura: Abalado com as tragédias provocadas pelas chuvas, o filósofo e teólogo Rubem Alves desabafa: a ideia de um ser supremo é apenas uma nostalgia.

Onde estava Deus enquanto as encostas da serra fluminense despencavam, acabando com a vida de tanta gente? "Se é onipotente, onisciente e onipresente, por que nada fez? Estava dormindo?", pergunta um indignado Rubem Alves, teólogo, filósofo, psicanalista, colunista da "Folha de S. Paulo" e ex-pastor protestante.
Esta entrevista é para falar sobre coisas boas - tema de seu novo livro, segunda edição atualizada de "Livro sem Fim", lançado em 2002 pelas Edições Loyola. Agora, é editado pela Planeta. Em "Variações sobre o Prazer", Alves passeia por ideias de Santo Agostinho, Friedrich Nietzsche e Karl Marx e pela sabedoria da protagonista do filme "A Festa de Babette" para refletir sobre teologia, filosofia, economia e culinária e chegar às coisas que realmente importam - a beleza do voo do sabiá, o cheiro da manga, a contemplação artística e as crianças. Mas a tragédia está por toda parte, e o autor parece querer desabafar. "Não, não estou com raiva de Deus, porque ele não existe. Se existisse, ia fazer alguma coisa."
A indignação não estaria mirando o alvo errado? Não são os seres humanos os responsáveis pela tragédia, por causa de decisões erradas? "É engano dizer que as coisas estão acontecendo apenas por nossa responsabilidade - isso é coisa da natureza -, o mundo inteiro está assim - na China é o gelo, na Europa, as chuvas -, o mundo está de cabeça para baixo! Se Deus amasse realmente o mundo, ele tomaria uma providência. Em primeiro lugar, ele mataria as pessoas certas. Ele está com a pontaria péssima - se fosse meu empregado, já estaria demitido há muito tempo - incompetência administrativa."
Para o escritor Rubem Alves, Deus, hoje, é apenas uma nostalgia. É curioso notar que com seus mais de 100 livros - dentre os quais 35 para crianças, ele inspira ainda hoje seminaristas e pastores evangélicos progressistas, que encontram em seus textos uma teologia mais liberal e autêntica.
O escritor cita o verso de "Pedaço de Mim", de Chico Buarque, para ilustrar o que quer dizer: "A saudade é arrumar o quarto pro filho que já morreu". E pergunta: "Qual é a mãe que ama mais, aquela que arruma o quarto para o filho que vai chegar amanhã ou a que arruma para o filho que não vai chegar? Você pode amar uma coisa que não existe. Para mim, é assim, Deus é meu filho que não existe, é meu pai que não existe".
Alves esteve doente, muito doente. O ano passado foi pesado: lutou contra um câncer no estômago - fez uma cirurgia para remover o órgão -, trocou uma válvula do coração e teve um sério problema de coluna. Nem todo esse sofrimento fez que se voltasse para o Deus dos cristãos, que um dia seguiu. "Fé para curar o câncer eu não tenho. Sabe o que é fé? É estar no avião com um paraquedas nas costas e de repente dar um salto no abismo, acreditando que o paraquedas vai abrir", afirma. "Ser generoso, honesto, não porque Deus está mandando ou por esperar uma recompensa."
"Os cristãos têm um problema com o prazer.
Você não vê ninguém fazendo
uma promessa a Deus e dizendo assim:
 'Oh, Deus, se tu me deres esta bênção,
prometo tocar toda manhã um CD de Bach,
ou tomar toda noite uma taça de bom vinho'.
As pessoas oferecem a Deus cascas de ferida
porque elas acham que Deus fica feliz
quando a gente está sofrendo.
Têm uma ideia sádica de Deus."
Muitos cristãos, acredita o escritor, são ensinados hoje num tipo de Evangelho interesseiro, que iria, como Alves define no livro, direto para a "caixa de ferramentas". O autor toma emprestado um conceito de Agostinho e separa os elementos da vida em duas caixas - uma para as coisas feitas para dar prazer e ser contempladas (a caixa dos brinquedos) e outra para tudo o que é objetivo e utilitário. Santo Agostinho escreveu que todas as coisas do mundo estavam guardadas em duas feiras - a feira das utilidades e a feira da fruição. A primeira, segundo a releitura do autor, é a feira do poder. "A feira da fruição é o lugar do amor."
Resgatar o prazer que há em, por exemplo, lambuzar-se ao comer um caqui ou uma manga entra, segundo o escritor, na experiência erótica do tato. "Come-se por prazer. Comer uma fruta é uma alegria. Não foi por acidente que os escritores sagrados, profundos conhecedores da alma humana, escolheram uma fruta como o lugar onde os deuses depositaram o seu saber. O saber dos deuses é comestível, saboroso, é 'sapientia'", escreve no livro.
O erotismo do tato, da contemplação estética ou mesmo do olfato é algo estranho ao universo de muitos cristãos, segundo Alves. "Os cristãos têm um problema com o prazer. Você não vê ninguém fazendo uma promessa a Deus e dizendo assim: 'Oh, Deus, se tu me deres esta bênção, prometo tocar toda manhã um CD de Bach, ou tomar toda noite uma taça de bom vinho'. As pessoas oferecem a Deus cascas de ferida porque elas acham que Deus fica feliz quando a gente está sofrendo. Têm uma ideia sádica de Deus."
Essa dimensão erótica precisa ser resgatada também no campo da economia, da filosofia e da culinária. "Marx tinha a ver com prazer - ele fala que a economia é para produzir prazer. Nos manuscritos de 1844, já fala disso, que a economia é para tornar os homens felizes, para gozar a vida, a arte. Nós eliminamos tudo isso da tradição marxista - eu adoro Marx, mas tenho raiva dos marxistas, porque eles não lidam com a dimensão erótica de Marx."
No capítulo sobre Nietzsche, Alves observa que o filósofo foi mal traduzido em seu conceito sobre o "super-homem". Na visão de Rubem Alves, a melhor tradução para o termo alemão "übermensch" seria o "homem transbordante", um ser humano tão rico interiormente que chega a transbordar, como se fosse uma fonte. "Qual é o ideal desse homem transbordante? A criança."
O ideal, então, é uma utopia - tornar-se como as crianças "para herdar o reino", como prega o Deus dos cristãos, que um dia Rubem Alves seguiu, mas hoje é apenas uma lembrança.

OBS. O texto ONDE ESTÁ DEUS? do Rubem Alves, vc encontra-o no dia 25/01/2011 aqui no Blog.
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Reportagem por Marília de Camargo César, de São Paulo
Fonte: Valor Econômico online, 28/01/2011
Foto Régis Filho/Valor

Desigualdade e bem-estar

André Lara Resende*
Imagem da Internet

 Capa: Padrões de consumo mais equânimes podem ser desejáveis,
se associados ao dinamismo da economia de mercado
 e à liberdade individual.

1 - O crescimento sempre foi o objetivo da política econômica. A teoria associa o crescimento ao aumento da renda e ao aumento do bem-estar. Até muito recentemente, utilizar o crescimento como o objetivo primordial de uma economia bem administrada não merecia maiores explicações. O aumento da renda nacional estava de tal forma associado a uma vida melhor que não era preciso introduzir indicadores de bem-estar entre os objetivos da política econômica. Se a economia crescesse e a renda aumentasse, todos os demais indicadores de bem-estar acompanhariam. Tão alta era a correlação entre o crescimento e o aumento de bem-estar que não se perdia grande coisa ao simplificar a análise e definir o crescimento como o objetivo da política econômica. Como crescimento econômico é um conceito simples e as estatísticas da renda nacional estão disponíveis, é uma grande vantagem, tanto teórica como empírica, utilizar o crescimento como a variável-objetivo da teoria e da política econômica.
Diante da evidência de que o estrago da atividade econômica sobre o planeta se aproxima do limite do tolerável, a identificação do crescimento econômico com o aumento do bem-estar tornou-se obrigatoriamente questionável.
Transformar a preservação ambiental num objetivo em si, como tão frequentemente se vê entre grupos mais aguerridos de críticos do crescimento econômico, não é uma resposta aceitável. O desafio de continuar a elevar a qualidade de vida, o bem-estar, de uma forma sustentável - palavra que se tornou um horrível lugar comum - continua tão relevante como sempre foi. Assim como a imposição de sacrificar a contínua melhora da qualidade de vida em nome dos limites ecológicos parece irrealista, mais irrealista ainda, absurdo mesmo, é imaginar que a mera incorporação do neologismo "sustentável", aposto a crescimento, a consumo ou ao que quer que seja, nos permitirá seguir o curso do aumento dos níveis de consumo observados no século passado. Se estivermos necessariamente obrigados a crescer e a enriquecer, para continuar a melhorar a qualidade de vida, estaremos diante de um impasse, pois é evidente que não será mais possível crescer, enriquecer e, sobretudo consumir, nos padrões de hoje, por mais muito tempo, sem esbarrar nos limites físicos do meio ambiente. Será preciso encontrar uma outra forma de prosseguir com a melhora progressiva da qualidade de vida, que não dependa do crescimento econômico ou, sobretudo, do aumento do consumo.
Mas é possível melhorar a qualidade de vida sem aumentar os níveis de consumo? É possível melhorar a qualidade de vida sem crescer? A resposta não é simples nem evidente. Há, entretanto, indícios de que, a partir de um determinado nível de renda, a correlação entre crescimento e bem-estar se enfraquece. Até um determinado nível de renda, a melhora da qualidade de vida é indissociável do crescimento econômico. Não há como melhorar a qualidade de vida de comunidades excessivamente pobres sem aumentar a sua renda, mas, a partir de um patamar mínimo, capaz de assegurar as necessidades básicas, o aumento da renda não está necessariamente associado à melhora da qualidade de vida. Mais renda nem sempre significa mais bem-estar. O debate no plano individual - riqueza garante ou não garante felicidade? - pode não estar resolvido, mas, no plano social, parece que sim: a partir de certo nível, riqueza não garante qualidade de vida.
Ainda que se dê o devido desconto ao saudosismo, à natural tendência de romancear o passado, não há como negar, por exemplo, o efeito deletério sobre a qualidade de vida do crescimento econômico, com o seu impacto sobre o trânsito, em particular, nas grandes cidades. Pode-se sempre argumentar que o problema não é o crescimento propriamente dito, mas o automóvel, as grandes aglomerações urbanas, o estilo de vida, mais do que o enriquecimento diretamente, que podem reduzir a qualidade de vida. Correto, mas crescimento e enriquecimento são hoje indissociáveis do estilo consumista que, a partir de certo ponto, contribui para a redução do bem-estar.
2 - Dois médicos infectologistas ingleses, Richard Wilkinson e Kate Pickett, em livro publicado em 2010, "The Spirit Level", organizam as evidências e chegam a conclusões que, se não totalmente contraintuitivas, surpreendem pela amplitude: a partir de um nível de renda, a redução das desigualdades contribui mais para o bem-estar do que o crescimento. No limite, a desigualdade é evidentemente detratora do bem-estar, até mesmo dos mais afortunados, como demonstram o aumento da criminalidade, a necessidade de se viver confinado em condomínios fortificados e se locomover em carros blindados, cercado de seguranças privados. Mas não é óbvio que a redução da desigualdade, mesmo longe dos extremos, contribua para o aumento do bem-estar. É, entretanto, o que afirmam de forma peremptória Wilkinson e Pickett.
Seu trabalho é fruto de anos de estudos dedicados inicialmente a entender as diferenças de saúde, medidas por expectativa de vida, entre grupos de diferentes estratos nas sociedades modernas. O foco inicial era compreender por que a saúde piora a cada degrau inferior na escala social. Como infectologistas, utilizaram a metodologia dos que trabalham com os determinantes sociais da saúde para explicar por que alguns grupos são mais propensos a certas doenças do que outros, ou por que certas doenças se tornam mais frequentes em determinados grupos. Perceberam que poderiam generalizar o método, para compreender não apenas questões ligadas à saúde física, mas também à saúde emocional e a outros determinantes da qualidade de vida, do bem-estar ou da felicidade.
Ora, melhorar a qualidade de vida, ou aumentar o bem-estar, é o objetivo da atividade econômica. Por se tratar de uma variável com um grande coeficiente de subjetividade, sua mensuração exige a coleta de dados sobre múltiplas dimensões da vida de uma população. Até algumas décadas atrás, isso não era factível e, portanto, os dados não estavam disponíveis. A utilização do crescimento econômico como o objetivo primordial da atividade econômica, como uma "proxy" para o bem-estar, além de não sofrer séria contestação teórica, era uma imposição da prática. Não mais. Os avanços da tecnologia e os esforços de pesquisa social das últimas décadas criaram um formidável banco de dados acessível a todos.

3 - A primeira constatação é que o crescimento econômico, por tanto tempo o motor do progresso e da melhora de vida, já não o é mais. A expectativa de vida aumenta com a renda per capita nos países pobres, mas, a partir de um determinado nível - acima do qual já estão todos os países latino-americanos, por exemplo - já não há mais aumento da expectativa de vida com o aumento da renda. Não por que a expectativa de vida tenha atingido o limite fisiológico, pois continua a elevar-se para todos com o passar do tempo e a melhora tecnológica. Apenas, deixa de haver correlação observável entre os dois indicadores.
Saúde e longevidade são excelentes indicadores de bem-estar, mas não esgotam, evidentemente, os componentes determinantes da qualidade de vida e da felicidade. Estudos recentes, que procuram correlacionar felicidade com o nível de renda, chegam a resultados semelhantes aos encontrados para a expectativa de vida: a felicidade aumenta com a renda, mas só até um determinado nível, a partir do qual, assim como para a expectativa de vida, o aumento da renda não tem mais efeito. A expectativa de vida deixa de estar associada ao aumento da renda antes que da percepção de ser feliz, mas os dois indicadores de qualidade de vida se tornam igualmente insensíveis ao aumento da renda a partir de certo ponto.
A evidência de que o aumento da renda torna-se incapaz de melhorar a qualidade de vida pode ser constatada, tanto num determinado momento no tempo, entre países de diferentes níveis de renda, quanto para um mesmo país ao longo do tempo. O que não chega a ser totalmente surpreendente, pois, à medida que se tem mais gratificação adicional, ou marginal, como gostam de dizer os economistas, o benefício torna-se decrescente. A contribuição marginal da renda de uma sociedade para o bem-estar e a felicidade de sua população torna-se praticamente insignificante a partir do ponto em que as necessidades básicas estão satisfeitas. Países pobres se beneficiam extraordinariamente com o crescimento econômico e com o aumento da renda, mas, a partir de certo ponto, o aumento da renda tem resultados decrescentes, que se tornam muito rapidamente nulos, em relação à melhoria da qualidade de vida.

4 - O que, então, explicaria o aumento da qualidade de vida a partir do patamar mínimo de renda que a grande maioria dos países já atingiu? Qual o mais importante fator para a melhoria do bem-estar nos países que já saíram da pobreza absoluta? Segundo "The Spirit Level", a resposta é uma só: a redução das desigualdades. A melhor distribuição de renda é o mais importante fator determinante da melhora da qualidade de vida, do bem-estar, da felicidade, de um país.
Sempre se soube que redução das desigualdades é desejável. Não a qualquer custo, nem necessariamente através da intervenção desastrada do Estado, protestarão sempre os que acreditam que a igualdade de oportunidades é mais importante do que a igualdade de resultados, que defendem que não se deve sacrificar o sistema de estímulos da meritocracia em nome do ideal igualitário. De toda forma, uma melhor distribuição de renda, embora o tema tenha saído de moda na discussão teórica, sempre esteve entre os objetivos da boa política econômica. A incontestável vitória do capitalismo de mercado como sistema produtor de riqueza explica, em grande parte, a perda de importância do tema da distribuição de renda, apesar de nos países centrais, especialmente nos Estados Unidos, ter havido uma significativa deterioração da distribuição de renda, nas três últimas décadas.
Nos países em desenvolvimento, como no caso do Brasil, onde a desigualdade sempre foi e ainda é extraordinariamente alta, a ênfase no esforço de redução das desigualdades deslocou-se para a elevação do poder aquisitivo das camadas mais pobres da população. O capitalismo competitivo tornou-se indissociável, ao menos na imaginação pública, de um sistema que exige grandes vitoriosos. Incensados pela mídia, os novos ricos, milionários, bilionários, são promovidos a ícones da prosperidade recém-descoberta, modelos das novas possibilidades, em tese, acessíveis a todos os de espírito empreendedor.
O fato é que, justificada ou injustificadamente, a equanimidade tornou-se percebida como incompatível com o sistema de mercado competitivo. A pujança geradora de riquezas do capitalismo não apenas exigiria a tolerância com a existência de extraordinariamente ricos, como deles dependeria como elemento indispensável de seu sistema de incentivos. Desde que os muito pobres deixassem de ser muito pobres, tivessem acesso a um nível de vida minimamente condizente com as necessidades essenciais de nosso tempo, a existência de uma péssima distribuição de renda não deveria ser motivo de preocupação. Ao contrário, se as oportunidades fossem igualmente acessíveis, a existência de remediados, ricos, muito ricos e riquíssimos apenas refletiria o sistema de incentivos e premiação indispensável para o bom funcionamento do capitalismo competitivo.
Deixemos de lado, por um momento, a suposição de que o sistema de mercado competitivo exige má distribuição de renda. O fato é que uma sociedade iníqua, em que a distribuição de renda é excessivamente desigual, independentemente do seu nível de renda, é uma sociedade em que o nível de bem-estar é inferior ao de uma sociedade mais equânime, em que a renda é mais bem distribuída.
Nada de novo, exclamarão alguns. Uma sociedade em que há menos pobres é uma sociedade mais feliz. Sim, mas atenção: não por que os pobres são menos pobres e, portanto mais felizes. Estaríamos de volta à correlação entre riqueza e bem-estar. O ponto crucial do argumento é que, independentemente do nível de renda, a pobreza relativa contribui para a perda de bem-estar. Infelicidade está associada a renda, mas também à renda relativa.

5 - A evidência dos estudos feitos nas últimas décadas, em universidades e institutos de pesquisa por toda parte no mundo, sugere que todos os possíveis indicadores de bem-estar, sejam relativos tanto à saúde, física e mental, quanto a questões sociais, como delinquência juvenil, gravidez adolescente, desempenho escolar, criminalidade, entre muitos outros, estão invariavelmente correlacionados com o nível de desigualdade social.
Willkinson e Pickett utilizaram dados para cinquenta países ricos da OCDE e também para os cinquenta estados americanos. A desigualdade da renda está associada à piora de todos os indicadores de bem-estar. Maior desigualdade está correlacionada com menor expectativa de vida, maior incidência de doenças físicas e mentais, maior taxa de homicídios, maiores índices de delinquência juvenil, de gravidez adolescente, maior percentual da população encarcerada, maiores índices de "stress" e obesidade, maior índice de crianças que abandonam a escola, piores índices de aprendizado escolar. A lista é impressionante, mas não são apenas os indicadores objetivos e quantificáveis de bem-estar que estão negativamente correlacionados com a desigualdade. Também aqueles com maior dose de subjetividade, como a sensação de felicidade ou o grau de confiança nos outros, medidos através de questionários, em que diferenças culturais, até mesmo sobre o dever de se declarar feliz, por exemplo, poderiam mascarar os resultados, são fortemente correlacionados com a desigualdade.
Todos esses indicadores, como era de se esperar, são invariavelmente piores para os estratos mais pobres da sociedade. Esta é uma das razões que nos levam a inferir que o aumento da renda levaria a uma melhora do bem-estar em todas as camadas da população. Mas não é o que ocorre. Os indicadores de bem-estar continuam muito piores para os mais pobres, independentemente do nível médio de renda da sociedade, porque não é a baixa renda absoluta, mas sim a baixa renda relativa, que reduz a saúde e o bem-estar. Não é o fato de ser pobre que faz alguém infeliz, mas o fato de ser mais pobre do que seus pares.
Há algo profundamente corrosivo na desigualdade. O crescimento econômico, nas sociedades em que existe grande desigualdade, não aumenta o bem-estar. Ao contrário, substitui as doenças e as dificuldades da pobreza absoluta pelas doenças e as infelicidades da afluência. Nas sociedades desiguais, o crescimento transfere para os pobres as doenças anteriormente associadas ao ricos, que se tornam muito mais frequentes nos pobres do que nos ricos.
Os indicadores de bem-estar permanecem sempre piores para os pobres do que para os ricos, em qualquer nível de renda, mas o ponto fundamental é que maior desigualdade piora tanto a qualidade de vida dos pobres como a dos ricos, qualquer que seja o nível médio de renda de uma sociedade, depois de ultrapassado o patamar mínimo capaz de garantir as necessidades biológicas básicas para todos. Wilkinson e Pickett sustentam que não são apenas os pobres, que, por serem menos pobres, numa sociedade mais igualitária, são mais felizes. Também os ricos são mais felizes numa sociedade mais equânime.
"É possível transitar para uma
sociedade de padrões de consumo
menos extravagantes
e mais igualitários, sem comprometer
o dinamismo das economias de mercado
e as liberdades individuais?
Creio que sim.
Este é o desafio de nosso tempo."
6 - A conclusão é tão surpreendente quanto polêmica. Comprende-se a repercussão de "The Spirit Level", sobretudo na Inglaterra, onde o livro foi originalmente publicado e onde a desigualdade aumentou significativamente nas últimas três décadas. Uma coisa é defender a redução das desigualdades em nome de um ideal de justiça social ou de empatia pelos menos favorecidos. Outra é defender a redução das desigualdades com base na evidência empírica de que a desigualdade reduz o bem-estar, não apenas dos mais pobres, mas de todos, os ricos inclusive.
A econometria de Wilkinson e Pickett é relativamente primária. As corrrelações estão lá, mas não são devidamente trabalhadas para testar quão robustas são suas conclusões. Os críticos não perdoaram. Um trabalho de 2010, publicado pelo instituto inglês Policy Exchange, faz uma dura e bem formulada crítica das conclusões de "The Spirit Level". O ponto central da crítica é que a maioria das conclusões, no caso da análise internacional, depende de alguns casos extremos. No caso da análise dos estados americanos, argumenta-se que há uma variável excluída - o percentual de negros na população - que explicaria bem melhor os resultados. As correlações entre bem-estar e igualdade seriam, portanto, frágeis. Infelizmente, por mais que a base de dados tenha crescido e melhorado, em relação à grande maioria dos temas sócio-econômicos, não há como pretender declarar vitória incontestável, com base exclusivamente na evidência empírica. As grandes questões, ainda que iluminadas pela evidência empírica, a qual não se pode desrespeitar, exigirão sempre algum julgamento de valor. Negar o elemento valorativo das questões econômicas, políticas e sociais, pretender que seriam passíveis de tratamento científico, à semelhança das ciências naturais, é um equívoco quase tão sério como pretender desconsiderar integralmente a evidência empírica.
Policy Exchange é uma instituição que se define como um centro de reflexão que tem como "missão desenvolver e promover novas ideias de políticas, com o objetivo de promover uma sociedade livre, baseada em comunidades fortes, liberdade individual, governo limitado, autoconfiança nacional e uma cultura empresarial." Não surpreende que não tenham gostado do livro de Wilkinson e Pickett, e o título do trabalho, "Beware of False Prophets", não deixa dúvidas sobre as intenções dos autores. Depois das experiências comunistas de inspiração marxista do século XX, há uma justificada desconfiança, a priori, dos que defendem os princípios liberais clássicos, em relação a toda proposta de corte igualitário. A defesa da igualdade está quase sempre associada à maior intervenção do governo para implementá-la. As implicações negativas sobre as liberdades individuais são as tradicionalmente associadas aos Estados fortes com ideias redentoras. A experiência do século XX, à esquerda e à direita, com o comunismo, o fascismo e o nazismo desmoralizou as propostas idealistas totalizantes. Para o liberalismo contemporâneo, a única igualdade desejável é a de oportunidades. Garantir a igualdade de oportunidades não é questão trivial, assim como, com certeza, também não exclui a intervenção do Estado.
A maior igualdade dos padrões de consumo parece ser desejável para o bem-estar de todos. Mais importante do que isso, entretanto, é compreender que é essencial para compatibilizar os atuais níveis da população mundial com os limites físicos e ecológicos do planeta. É possível transitar para uma sociedade de padrões de consumo menos extravagantes e mais igualitários, sem comprometer o dinamismo das economias de mercado e as liberdades individuais? Creio que sim. Este é o desafio de nosso tempo.
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*André Lara Resende é economista.
Fonte: Valor Econômico online, 28/01/2011

O homem "aqui estou!"

Desfile em homenagem à China:
terno slim, gravata estreita,
capanga e gorro para ir
 à Grande Muralha
Nunca mais seremos chics. Os jornalistas e compradores chineses que invadiram as ruas de Milão, durante a semana de moda masculina, são protótipos da modernidade. Do corte de cabelo ao salto dos sapatos, não há nada fora do lugar. Eles demonstram já ter entendido tudo. Mas querem mais. E as grifes sabem muito bem disso.
A China já responde por 45% das vendas da Ermenegildo Zegna. A grife italiana foi a primeira marca luxuosa de moda a desembarcar por lá em 1991. E comemorou seus rentáveis vinte anos naquele país com um desfile temático, em seu showroom, em Milão, há 15 dias. Na passarela, havia uma profusão de modelos e figurinos chineses. Paletós, camisas e sapatos traziam como estampa uma pintura panorâmica do século XII, de Zhang Zeduan, uma espécie de "toile de Jouy" chinês. Com uma projeção num fundo de chroma key, os moços "saíam" da Grande Muralha diretamente para a passarela.
"Meu pai foi visionário e corajoso. Fomos para lá quando as pessoas ainda temiam o país. Não havia nenhum carro na rua e eu pensava: 'Como podemos vender Zegna aqui?'", lembra-se Anna Zegna, diretora de marketing da companhia e integrante da quarta geração da família centenária.
Anna ZegnaA globalização da marca, destaca Anna, foi o que aplacou os efeitos da crise. Em especial com o crescimento "espetacular" em mercados como a China e os países da América Latina - que respondem por 4% das vendas. A Zegna tem hoje 550 pontos em 86 países, sendo 300 lojas próprias.
A grife só passou a integrar o calendário da moda de Milão em 2008, com as etiquetas Ermenegildo Zegna e Z-ZEgna, a mais fashion delas, conduzida por Alessandro Sartori. Até então, a Zegna não era reconhecida como uma lançadora de tendências em vestuário, focando sua criatividade na concepção dos tecidos, uma vez que começou como lanifício.
Hoje, quando se veem os casacos de couro luxuosos, os acessórios práticos e joviais - como a versão de capanga-, looks inteiros em sofisticados tons terrosos e uma apresentação que consegue emocionar pelos efeitos visuais, fica claro que a Zegna escreve uma história diferente para seu próximo século. Até os tecidos, admite Anna, a base de tudo para a grife, buscaram o efeito 3D.
Em seu escritório, em Milão, colado ao do irmão Gildo - CEO da empresa -, ela conversou sobre sua visão do homem moderno, a vantagem de ser uma grife masculina e a volta da gravata.

Valor: Como se mede a suscetibilidade do homem à moda?
Anna Zegna: O homem sabe que o estilo é uma forma de apresentar sua personalidade. É como a casa e o carro. Tudo faz parte. Mas o apelo será sempre mais racional, de uso inteligente das peças. O comportamento masculino se aproxima das mulheres. Antes, por exemplo, as camisas eram brancas ou azuis e hoje há uma riqueza cromática incrível. Há uma oferta maior de acessórios e gadgets. Isso sem falar nos gays, que exercem uma grande influência no mercado.

Valor: Quais as principais mudanças no comportamento masculino que se refletiram na Zegna?
Anna: Os homens não são só o traje de trabalho. Eles gostam de experimentar a moda como as mulheres, com diferentes looks para os momentos de sua vida. E com a tendência do casual, o terno que nasce de uma cultura formal pode se adaptar a diversas situações, indo da gravata a uma polo. Ao mesmo tempo, os tecidos precisam ser práticos, dispensando o ferro de passar, o que nos levou às texturas tridimensionais. Antes eles eram planos, mas agora há uma consistência diferente. São leves, mas parecem pesados. Na atual coleção há um destaque para os tecidos dos anos 40, como o príncipe de Gales.

Valor: Pode-se dizer que a tecnologia 3D influenciou esses tecidos?
Anna: Sim, porque a textura dá essa sensação de profundidade. E também porque são diferentes materiais trabalhados juntos. Nunca é só lã ou só cashmere. Também trabalhamos com o efeito gofrato, que se consegue, com o uso de dois fios no tear, um fino e um grosso. Um sobressai mais que o outro, dando a sensação de perspectiva, como na pintura.
"No ano passado, com a crise,
os homens compraram só um traje,
uma gravata, uma camisa.
Mas eles estão jogando mais
 com a moda e
os acessórios se tornaram
um elemento importante."

Valor: Por que resgatar o homem dos anos 40 na coleção?
Anna: Porque foi um período muito forte e com looks muito masculinos e uma grande tradição das proporções sartoriais, com tecidos estruturados e ricos. Os ombros são definidos, numa construção diferente. Nessa coleção, há uma nova linha com ternos de três botões em tecidos estruturados. É para o homem que diz "aqui estou!". Mas não é uma aparência rígida, é uma reconstrução do paletó.

Valor: Os acessórios já são significativos nos resultados da empresa? A empresa vai focar neles para desenvolver o e-commerce?
Anna: Os acessórios têxteis e de couro, relógios, perfumes já representam entre 25% a 30%. No ano passado, com a crise, os homens compraram só um traje, uma gravata, uma camisa. Mas eles estão jogando mais com a moda e os acessórios se tornaram um elemento importante. Os acessórios são fundamentais nas compras de impulso, por isso ficam na frente da loja física. A sensação de provar um casaco não pode ser reproduzida pela internet, nem o contato com um xale. Mas vivemos com realidade virtual e temos que aproveitá-la. Nosso e-commerce vai atender ao mundo todo, com operação centralizada na Itália. É claro que será mais fácil trabalhar com os acessórios, as jaquetas, as malhas de cashmere e as gravatas nesse contexto. Estamos esperando um crescimento expressivo nessa área.

Valor: Como crescer em países sem tradição do consumo?
Anna: O que a Zegna faz é educar o consumidor, mas antes de tudo, educar nossos vendedores. Nós levamos nossa tradição italiana, mas escutamos também o consumidor local. Na Europa temos a sazonalidade do alto inverno e do verão. Na China, especialmente em Xangai e no sul do país, há um verão muito longo. Fizemos, então, uma terceira coleção com cores mais claras, pensando nessa particularidade. E levamos para outros mercados que funcionam da mesma forma. Para os Estados Unidos, fizemos uma coleção cruise porque eles viajam muito para o Caribe. Há uma personalização para atender o mercado local. E isso vale não só para o país como para as cidades. Nosso portfólio muda para atender São Paulo, Brasília e Rio.

Valor: Como a crise os afetou?
Anna: A grande força da Zegna é que somos uma família independente e muito sólida. Meu irmão Gildo e antes dele meu pai e meu avô sempre disseram que a força da marca é a força da família. Por isso, nunca pensamos em entrar na bolsa. Por isso, num momento difícil nunca baixamos a qualidade. Os consumidores compraram menos, mas não deixaram de comprar. Temos a sorte de ser uma marca internacional, reconhecida por sua qualidade. Estados Unidos e Espanha foram mercados que sofreram, mas a China foi super bem. E a América Latina também. O ano de 2009 foi dificílimo, mas controlamos mais os custos. Fizemos coleções concentradas, compramos melhor e não fizemos estoques.

Valor: A empresa investiu em matérias-primas menos custosas como fizeram Gucci e Louis Vuitton com o jeans e a lona, por exemplo?
Anna: Até plástico (risos). Mas veja, a Louis Vuitton tem uma dimensão enorme, já se tornou um luxo massivo e tem de cobrir diferentes segmentos de mercado. Zegna é Zegna. Não há concessões quanto a qualidade. Além disso, a matéria-prima tem uma participação pequena sobre o custo final do produto. O que pesa é o desenvolvimento, a inovação e o estilo.

Valor: Como a senhora mede a influência cultural da China na moda do ocidente?
Anna: Há uma contaminação, como na comida em todo mundo. No nosso fashion show carregamos mais nessa presença porque era um desfile comemorativo. Mas nas lojas, vamos ter uns três looks apresentados aqui. É um guarda-roupa italiano com toques chineses. Como se fosse um viajante europeu descobrindo a China.

Valor: O terno continua sendo o produto mais vendido da Zegna?
Anna: O traje de trabalho é sempre o traje de trabalho. Mas o figurino está caminhando para versões mais esportivas. Hoje há blazers de malhas, uma evolução. Posso dizer que nossa configuração é 50% de roupas casuais e 50% de ternos. A gravata, que tinha sido deixada de lado, está em alta, mais estreita e criativa. Temos modelos em que o tecido da frente é diferente do verso. O terno também está rejuvenescendo. Ele está mais slim, sexy e moderno.
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Reportagm por Angela Klinke De Milão
A repórter viajou a convite da Ermenegildo Zegna
Fonte: Valor Econômico online, 28/01/2011

Assim caminha a humanidade

CARLOS HEITOR CONY* 
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Não há quem não tenha pago
tributo a Dale Arden,
primeiro símbolo sexual de jovens
de todo o mundo

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SEMANA PASSADA, a capa da Ilustrada trouxe em tamanho bem grande um dos ícones das histórias em quadrinhos -como se dizia então e ainda se diz. Era a de um dos casais mais famosos do gênero, obra prima do cartunista Alex Raymond: nada menos que Flash Gordon e Dale Arden. A série fora criada pela King Features Syndicate em 1933 e estreou na imprensa no ano seguinte, como concorrente de Buck Rogers, herói de um sindicato rival.
O sucesso foi imediato e estrondoso. No Brasil, foi lançado em 1935, como suplemento de "A Nação", mas logo se transformou em veículo próprio no "Suplemento Juvenil", que durou anos e foi, senão o primeiro, o mais importante contato da infância e juventude não apenas com as histórias em quadrinhos e a ficção científica, mas obra de referência que marcou toda uma geração e as seguintes.
Como não podia deixar de ser, logo passou para o cinema, em várias versões, inclusive uma com alguns lances pornográficos, inspirados de certa forma no exuberante erotismo do traço original de Alex Raymond. A primeira série, "Flash Gordon no Planeta Mongo", com Buster Grabbe no papel principal, era a peça de resistência para as matinês daquela época.
O ponto de partida para a aventura do herói não chegava a ser muito original, era quase o mesmo de outro herói, o Super-Homem, um extraterrestre que veio do espaço para viver na Terra com poderes sobre-humanos, uma vez que seu planeta de origem estava em vésperas de destruição.
Disfarçado de jornalista careta, de chapéu e óculos, ele se envolvia com bandidos daqui mesmo, ao contrário de Flash, que enfrentava inimigos terríveis, homens com imensas asas e um imperador cruel que dominava um planeta sustentado por feixes de luz.
Não há sobrevivente daquela época que não tenha pago tributo a Dale Arden. Foi o primeiro símbolo sexual para jovens de todo o mundo, inclusive para os meninos da minha rua. Era difícil namorar as meninas de então, as aproximações eram evitadas em nome da pureza infantil, um dos meus vizinhos foi impedido de fazer a primeira comunhão porque confessou ao frei André Mattioli que colecionava o "Suplemento Juvenil".
E tem mais. Não podendo se intrometer com as meninas, os meninos buscavam as alternativas à mão, desde as bananeiras dos quintais até os complicados casos de garotos complacentes, dos quais o de maior evidência era um tal de Rubinho, que mais tarde entrou para a Marinha e terminou a carreira como capitão de mar-e-guerra.
Embora vivêssemos na ditadura do Estado Novo, éramos democratas por gosto ou necessidade. Votávamos tudo, no melhor goleiro, na melhor pipa, no melhor doce da Confeitaria Indiana, no melhor ônibus da Viação Popular que servia ao bairro.
Nada demais que votássemos no Rubinho, que logo adquiriu outro nome: Dale Arden. Ao contrário da personagem de Alex Raymond, cuja fidelidade era feroz a Flash Gordon, a nossa Dale Arden era compassiva, compreendia as coisas e dava a impressão de que gostava daquela unanimidade e, sobretudo, do nome que lhe haviam dado.
Antes de entrar para a Marinha, Rubinho fez um estágio entre os escoteiros do mar. Naquele tempo havia muitos escoteiros de terra, sempre alertas por sinal. E logo criaram os escoteiros do mar, que eram a mesma coisa em cenário marinho.
Reinou desolação em toda a rua Cabuçu e imediações. À falta de Rubinho, as edições do "Suplemento Juvenil" se esgotavam na manhã do dia do novo lançamento, os exemplares eram disputados a bofetão. Os mais felizes alugavam o seu, mas, geralmente, o exemplar alugado vinha mutilado, sem as páginas em que Dale Arden aparecia.
Carlos Drummond de Andrade, de uma geração anterior à minha, confessou em várias crônicas que era amarrado no "Tico-Tico", creio que uma pioneira nos quadrinhos para a infância. Era uma revistinha light, seus heróis eram assexuados: Reco-Reco, Bolão e Azeitona, Zé Macaco e outros. Veio depois o "Suplemento Juvenil", com Dale Arden em nossa iniciação sexual. Em geração posterior, surgiram os livrinhos de Carlos Zéfiro, sacanagem pura, 99% dos quadrinhos eram do chamado sexo explícito. Assim caminhava a humanidade.
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* Escritor. Jornalista. Cronista da Folha de São Paulo. Imortal da Academia Brasileira de Letras.
Fonte: Folha online, 28/01/2011

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Linguagem e namoro

Paulo Ghiraldelli Jr.*
Houve uma época que a mão humana e, principalmente, o polegar, diziam tudo que precisávamos para sabermos de nós mesmos. A antropologia havia feito a apologia do formato de nossa mão, propícia a virar um instrumento melhor que a boca ou chifres de outros de nossos parceiros terrestres. Não à toa isso ocorreu. A “sociedade do trabalho” foi transformada em categoria sociológica e até filosófica e, então, o homem foi redefinido, inclusive anatomicamente, por tudo aquilo que viesse a dizer que ele havia se tornado humano pela atividade do trabalho. Inclusive o trabalho intelectual foi descrito pelas metáforas do trabalho manual. Entre os séculos XIX e o XX fizemos de tudo para mostrar que nós, os animais mais inteligentes do Planeta – segundo nós mesmos – haviam se tornado o que se tornaram por conta, risco e sorte do trabalho.
Marx, Durkheim e Weber construíram e adotaram o “paradigma do trabalho” em tudo que escreveram. Em trio, deram os parâmetros para a sociologia. Como a filosofia social ganhou status no século XX e, enfim, como ela nada era senão a fusão da filosofia moral com a nova sociologia – os frankurtianos e os pragmatistas fizeram isso de modo brilhante –, não foi difícil para os filósofos e toda uma gama de outros intelectuais adotarem o paradigma do trabalho para tudo. O trabalho e, então, as classes sociais e as ideologias ligadas ao trabalho – fascismo, nazismo, liberalismo, comunismo e social democracia – deram os rumos para a prática política e, em teoria, não podíamos falar outra coisa senão nesse mundo derivado do desenvolvimento do polegar humano.
No século XX ninguém mais era somente cristão ou gordo ou zarolho ou ferreiro. Todos viraram burgueses e proletários ou empregadores e empregados ou trabalhadores e empresários. A própria noção de mercado perdeu sentido se não viesse acoplada à noção irmã de mercado de trabalho. Quase cem anos antes disso tudo virar lei, Marx havia também vinculado as emoções humanas ao paradigma do trabalho. Nos Manuscritos Econômico Filosóficos, de 1844, ele escreveu que caso se quisesse entender a psicologia humana o que teria de se fazer era bem examinar as fábricas.
Ao longo do século XX, mas com raízes no final do século XIX, a filosofia, contra a sociologia, foi tecendo um outro paradigma. Vinculados ou não ao humanismo que, enfim, comandava a sociologia clássica, os filósofos – Nietzsche e Moore à frente – plantaram a semente da idéia de se pensar nossas atividades com tendo centro antes na linguagem que no trabalho. Estávamos integrando nossa sociedade industrial em uma “sociedade da informação” e, por isso mesmo, a “sociedade do trabalho” parecia não mais sobreviver como reino central para a vida e para a teoria. A noção de “sociedade da informação” só não superou a noção de “sociedade do trabalho” nos textos acadêmicos porque, como disse, essas transformações não foram operadas no centro da sociologia, mas no campo filosófico. Ou seja, a linguistic turn veio da filosofia, não da sociologia. E talvez até hoje, de certo modo, ainda não tenha completado seu percurso no campo das ciências sociais. Mas, mesmo restrita à filosofia, ela fez um bom estrago no “paradigma do trabalho”. O “paradigma da linguagem” acabou conquistando espaço e a filosofia deu passos na frente da sociologia, quase a ofuscando em capacidade analítica e sofisticação no último quarto do século XX.
"Psicólogos dizem hoje que estilos de uso
da linguagem mostram que é isso que pode
definir as afinidades mais importantes entre nós,
o que irá determinar se um relacionamento
continua com êxito
ou termina."
Para quem ainda ficou no humanismo, foi necessário, então, redefinir o homem como aquele que se hominizou pelo desenvolvimento da linguagem, esquecendo a história do polegar. Para quem abandou junto com o “paradigma do trabalho” também a cosmovisão humanista, as discussões sobre “o que é o homem?” perderam sentido, mas isso não impediu ninguém de vir a perguntar como podemos nos controlar e controlar e prever o comportamento alheio. Utopias de controle e previsão continuaram a ter seu status – até mais! Livramo-nos logo da antropologia do trabalho e do polegar e viemos a fazer antropologia urbana, voltada para os fenômenos da inserção das narrativas na vida cotidiana. Como conversamos e como contamos o que fizemos e o que vamos fazer se tornou o centro da nova antropologia que, enfim, soube dar passos mais avantajados do que a própria sociologia. Filósofos que passaram a abocanhar mais temas que os restritamente filosóficos acabaram por dar o tom para o que queríamos fazer e pensar.
É com esse pano de fundo que podemos entender as interessantes pesquisas a respeito do estilo de conversação adotadas por homens e mulheres, como o que pode nos dar pistas a respeito de namoros que irão ser bem sucedidos ou não.
Psicólogos dizem hoje que estilos de uso da linguagem mostram que é isso que pode definir as afinidades mais importantes entre nós, o que irá determinar se um relacionamento continua com êxito ou termina. Segundo essas pesquisas (Folha, 27/01/2011), pessoas que conversam usando estilos parecidos tendem a ficar juntas. Pessoas que conversam e se entendem bem, mas não comungam o mesmo estilo podem não se entender tão bem quanto o necessário para um namoro duradouro.
Até aqui, tudo que disse é comum ao cabedal de conhecimento de muitos que se mantém informados. Mas, agora, arrisco colocar minha colher nesse tacho. Caso o modo como entendemos a linguagem seja o tradicional, ou seja, a linguagem como um código pré-existente (não importa se inato ou aprendido), talvez não venhamos a extrair tudo que podemos dessas pesquisas sobre namoro. O passo que temos de dar é aquele que foi desenvolvido por Donald Davidson. Foi ele quem disse que a linguagem não existe, existe somente a comunicação. Ou seja, o que fazemos é o exercício de nos entendermos e, então, posterior a isso, construímos códigos. Todavia, mesmo quando já estamos de posse de um código, continuamos a fazer isso, ou seja, o exercício de construção comunicacional e de invenção e reinvenção da linguagem. Assim, para Davidson, antes temos funcionado com a imaginação que com qualquer outra coisa de nossas capacidades. Para o que interessa aqui, ou seja, o sucesso do namoro, podemos então ver que se duas pessoas não conversam segundo o mesmo estilo isso não quer dizer que não poderão ter êxito no relacionamento. É nisso que a pesquisa – talvez por conta de ficar no velho modelo de linguagem com código – não avançou. Um namoro não precisa ser o encontro de dois falantes. Um namoro contém um componente chamado amor, e esse componente leva as pessoas a exercitarem a imaginação para construírem pontes entre si e, então, depois de um tempo, elas podem estar experts no uso estilístico alheio.
Em outras palavras: com Davidson, podemos entender que o namoro é o uso da linguagem para que o amor cumpra sua determinação, ou seja, a de continuar a atração, não diminuí-la. Podemos fazer isso conscientemente, mas, em geral, o amor leva as pessoas a fazerem isso não de modo muito consciente. Observamos o amado e captamos dele o estilo de linguagem, ampliando as chances de azeitarmos a relação e torná-la quase indissolúvel. Uma pitada de sexo bem feito nisso tudo e, então, temos um bom e durável casal.
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* Filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Casais que falam de forma parecida têm relação mais bem-sucedida

Imagem da Internet
As pessoas costumam se sentir atraídas por outras com personalidade, valores e aparência física parecidos. No entanto, esses recursos apenas estão na superfície do que faz um relacionamento dar certo. As formas como as pessoas falam também são importantes. Um novo estudo publicado na revista "Psychological Science", da Associação de Ciências Psicológicas dos EUA, descobriu que pessoas que falam com estilos parecidos são mais compatíveis.
O estudo focou as chamadas "palavras de função", que relacionam substantitvos e verbos, como artigos, preposições e pronomes relativos ("o", "um", "que" etc.). O modo como as pessoas usam essas palavras forma o estilo de escrita e fala, segundo o coautor do estudo James Pennebaker, da Universidade do Texas em Austin.
"O que as pessoas dizem umas às outras
é importante, mas a maneira como
elas estão dizendo pode ser
ainda mais reveladora."
"Palavras de função são altamente sociais e necessitam de habilidades sociais para serem usadas", disse ele. "Por exemplo, se eu estou falando sobre um artigo que está sendo publicado, e em poucos minutos, eu faço alguma referência a 'ele', você e eu sabemos que essa palavra se refere ao artigo". Mas alguém que não fez parte da conversa não iria entender.
Pennebaker, Molly Ireland e colegas examinaram se os estilos de fala e escrita que casais adotam durante uma conversa preveem o comportamento de um possível namoro e a força de um relacionamento de longa duração. Eles fizeram dois experimentos em que um programa de computador comparava os estilos de linguagem dos parceiros.
No primeiro estudo, casais de estudantes universitários tinham encontros de quatro minutos, enquanto suas conversas eram registradas. Quase todos os pares conversaram sobre os mesmos temas: "Qual curso você faz? De onde você é? Você gosta de faculdade?" Todas as conversa soaram mais ou menos similares, mas a análise dos textos revelou diferenças acentuadas na sincronia da linguagem. Os casais cujos resultados de correspondência de estilo de linguagem estavam acima da média tinham quase quatro vezes mais chances de querer se encontrar novamente.
Um segundo estudo revelou o mesmo padrão em todos os bate-papos on-line entre casais de namorados ao longo de dez dias. Quase 80% dos casais cujo estilo de escrita era compatível ainda namoravam três meses depois, em comparação a cerca de 54% dos casais que não eram compatíveis.
O que as pessoas dizem umas às outras é importante, mas a maneira como elas estão dizendo pode ser ainda mais reveladora. As pessoas não sincronizam os discursos conscientemente, segundo Pennebaker. "O que é maravilhoso é que nós realmente não tomamos essa decisão, ela apenas sai de nossas bocas."
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Fonte: Folha online, 27/01/2011

Segurança ou liberdade?

"Na luta entre segurança e liberdade, a liberdade está sempre em desvantagem, pois, assim que começarmos a prezar a segurança, como correremos algum risco para defender nossa liberdade?
Alguém observará que os "garotos" sempre vivem como se não houvesse amanhã. Concordo, mas não acho que seja apenas porque, em tese, eles estão ainda longe da morte.
"QUANTO MENOS sentido a vida tem,
TANTO MAIS valorizamos (mesquinhamente)
o simples fato
de sobreviver."
Há uma outra razão. 1) Em geral, a juventude é o tempo durante o qual mais acreditamos num sentido da vida; 2) o que dá sentido à vida também dá sentido à morte: sempre vale a pena arriscar a pele por uma ideia ou esperança que pareça justificar a existência (no caso de Mapplethorpe, vale a pena sacrificar-se pela arte); 3) inversamente, quando não acreditamos num sentido, estamos muito preocupados com nossa segurança, pois este é o paradoxo: QUANTO MENOS sentido a vida tem, TANTO MAIS valorizamos (mesquinhamente) o simples fato de sobreviver." (CONTARDO CALLIGARIS)
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OBS.:Este trecho é o final da coluna do psiquiátra Contardo Calligaris: Segurança ou liberdade?, na Folha de São Paulo (27012011). Se alguém quiser toda a coluna é só recorrer à Folha. Também posso enviar via e-mail, só solicitar.
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Fonte: Folha online, 27/01/2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Criança ou índio?

JUREMIR MACHADO DA SILVA*
Crédito: ARTE PEDRO LOBO

Ando encafifado com uma questão: uma criança índia é antes uma criança ou um índio? O que vem primeiro? Ser criança ou ser índio? Uma criança índia brasileira é primeiro criança, brasileira ou índia? Quando eu era estudante de antropologia, emperrava na oposição entre particular e universal. Todos os dias, ando no Centro de Porto Alegre, onde vejo uma mãe índia com seus filhinhos. Ela mendiga na calçada. As crianças arrastam-se no chão sujo. Já a vi trocando fraldas de uma delas. Ando tão encafifado com isso que fizemos uma edição do programa "Esfera Pública", na Rádio Guaíba, sobre esse tema. Uma criança qualquer não pode esmolar na rua. O conselho tutelar pode e deve interferir. E uma criança índia? Interferir pode significar desrespeito à cultura indígena? Pode ser etnocentrismo esse pecado antropológico de preconceito com a cultura dos outros?
"Fico com a ligeira impressão de que
uma criança indígena pedindo esmolas
é apenas um pobre mendigo igualado
por baixo aos excluídos da nossa civilização.
Devo estar enganado."
Parece que esse é o entendimento de muitos especialistas e até do Ministério Público. Curioso paradoxo: uma criança qualquer mendigando não pode, sendo o adulto passível de ser acusado de exploração de menor. Criança índia mendigando é diferença cultural. Os guaranis tem uma expressão para "estender a mão". Houve um tempo em que os índios andavam nus. Não podem mais fazer isso. Podem mendigar com crianças pelas ruas da cidade? As causas da penúria dos índios integram um capítulo que, certamente, não honra a nossa história, mas também não dá brilho ao nosso currículo a pobreza dos demais. Quando vejo aquelas crianças rastejando na calçada imunda, úmida ou torrando, tenho tendência a pensar de uma maneira muito simples: criança é criança. Em qualquer lugar do planeta, seja qual for a cultura.
A partir desse princípio, que alguns poderão rotular de simplório, concluo que, dificilmente, uma cultura poderá me convencer do valor de crescer rastejando em calçadas sujas. Sou fanático pela diferença. Mas acredito também que até o relativismo deve ser relativo. Meu lado universalista usa um megafone: antes de sermos parte de uma cultura, somos seres humanos. Não culpo a mãe índia pelo que acontece com seus filhos. O problema é muito maior. Na verdade, ela também é vítima do que temos feito com os índios. Continuamos a ensinar que os portugueses "descobriram" o Brasil, um lugar que já estava ocupado, como se os índios não contassem como habitantes válidos. Até aí tudo claro. Mas não me conformo ao ver aquelas crianças fazendo de uma rua suja o seu universo simbólico, jardim da infância e até parque de diversões.
O que se pode fazer? O respeito à diferença não poderá significar no caso uma mera justificativa para nada se fazer? A "preservação" de uma cultura vale até mesmo o preço de uma educação para a miséria? Podemos devolver esses índios urbanos a sua inocência original? Perguntas sem respostas. Fico com a ligeira impressão de que uma criança indígena pedindo esmolas é apenas um pobre mendigo igualado por baixo aos excluídos da nossa civilização. Devo estar enganado. Não pretendo julgar a cultura dos índios. Contento-me em avaliar a nossa.
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*Filósofo. Escritor. Prof. Universitário. Cronista do Correio do Povo
Fonte: Correio do Povo online, 26/01/2011

Zygmunt Bauman - Entrevista

Bauman sobre Bauman
Diálogos com Keith Tester
Imagem da Internet
No início de 2011 a Zahar lança dois livros essenciais para a compreensão da obra de Zygmunt Bauman: Bauman sobre Bauman e Vida em fragmentos. A leitura dos dois ajuda na compreensão de como os conceitos desenvolvidos pelo sociólogo foram se formando e a detectar como sua trajetória de vida influenciou na forma como foi compondo sua obra. Nessa entrevista, Bauman pensa sobre essas questões e analisa, por exemplo, a influência da esposa Janina, falecida no fim de 2009, em seu trabalho.

São dois novos livros para o público brasileiro: Bauman sobre Bauman e Vida em fragmentos. Acredita que são duas obras-chave para se entender o seu pensamento?
Sim, acredito que esse é o caso. No curso de conversações iniciadas e mantidas ao longo de um determinado período de vários meses, conduzidas pelo professor Keith Tester, eu tive a oportunidade de olhar para trás, para as circunstâncias que proporcionaram meus estágios sucessivos, continuidades e descontinuidades no desenvolvimento de minhas percepções e diagnósticos em relação à percepção do mundo que habitamos, assim como moldar e remodelar através de nossas ações e omissões. Foi o esforço de Tester em criar essa oportunidade e me obrigar a usá-la para o melhor da minha habilidade. Suas questões/provocações/simulações foram todas, sem exceção, bem escolhidas, bem direcionadas, pretendiam preencher os espaços brancos na minha obra, estabelecer inconsistências exigindo reconsiderações e insistindo nos assuntos insuficientemente desenvolvidos.
Em relação a Vida em fragmentos, os ensaios reunidos refazem minha trajetória do embate com a idéia de ‘pós-modernidade’ até a seleção da ‘liquidez’ como atributo definidor da sociedade e da vida social em nosso tempo. Esses ensaios relembram as razões para essa passagem e os principais argumentos a seu favor.

Keith Tester afirma, na introdução de Bauman sobre Bauman, que alguns fatores da sua vida foram essenciais para a construção dos seus conceitos, como por exemplo, o livro escrito por Janina Bauman sobre o Holocausto. Você concorda com essa afirmação?
Sim, completamente... O livro de Janina (publicado pela Zahar com o título Inverno na manhã: Uma jovem no gueto de Varsóvia) foi, por assim dizer, o impulso que me colocou na linha de estudo perseguida por mim nos últimos 20 anos (assim como eu coloquei para mim mesmo em resposta a pergunta sobre as principais influências em meu trabalho: ‘Antonio Gramsci me ensinou o que, Georg Simmel como e Janina porque razão...’

Segundo essa visão, acredita que as trajetórias de vida de filósofos e pensadores sempre acabam por influenciar a escolha dos objetos de estudo que escolhem?
Sem dúvida – poderia ter sido completamente diferente... Elas não poderiam deixar de influenciar (afinal, o que fazemos em ciências humanas é, acima de tudo, a reciclagem de nossas experiências de vida e observações, encontrando as descobertas e iluminações que acompanham esse curso) – mas influência não significa determinação... A vida pessoa proporciona o material bruto, mas reciclar isso é o trabalho e a tarefa dos pensadores – e são eles, ‘os filósofos e pensadores’, como você citou, que precisam arcar com as responsabilidades em relação à qualidade dos resultados, bons ou maus...

A questão central que move os ensaios de Vida em fragmentos (como exercer uma atitude moral que leve em conta o outro em um mundo fragmentado, ditado pelas leis de consumo?) continua sendo um problema a se pensar?
Sim, novamente – os ensaios não perderam a sua atualidade... há pouco o que mudaria em sua mensagem se fosse escrevê-los quinze anos depois. Continuamos habitando o mesmo tipo de mundo e a questão da atitude moral no cenário fragmentado de uma sociedade de consumidores é marcada agora por desafios semelhantes, a semelhante tarefa grandiosa, ciladas e armadilhas parecidas, como há quinze anos atrás. O que eu fiz nesses últimos quinze anos foi continuar desenvolvendo essas ideias, as tendências registradas em Vida em fragmentos, continuar a desvendar e a desenvolver plenamente sua potência – desafios éticos, oportunidades e ameaças...
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- Acesso 26/01/2011

A força da memória no aprendizado

POLÊMICA NO ENSINO


A chamada decoreba, forma de aprendizado que privilegia a memória, nas últimas décadas foi relegada à condição de método ultrapassado e ineficaz em muitas escolas brasileiras.
Um estudo publicado semana passada na renomada revista Science, porém, sugere que exercícios de memorização são capazes de melhorar de maneira significativa o desempenho de estudantes. As conclusões geram controvérsia entre educadores.
Professor de Psicologia da universidade americana de Purdue, Jeffrey Karpicke (foto) selecionou 200 jovens universitários que estudaram textos científicos de duas formas diferentes. Em uma delas, procurou simular a forma mais comum de ensino, inclusive no Brasil, em que os alunos leem algo e são estimulados a fazer elaborações sobre o conteúdo que acabaram de aprender. Por exemplo: consultando os livros, escrevem em uma folha quais consideram ser os tópicos mais importantes e como eles se relacionam.
A outra estratégia foi simplesmente ler os textos, então se afastar dos livros e tentar recuperar o máximo possível de informação apenas por meio da memória. Essa atividade, que hoje é mais comum em avaliações a fim de medir o quanto o aluno já aprendeu, revelou-se um poderoso estímulo ao desempenho. Aqueles que exercitaram a memória em vez de estudar com o texto à sua frente tiveram resultado 50% superior.
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Outra surpresa é que a prática de memorização não só ajudou a fixar as informações objetivas dos textos, mas a responder questões que exigiam deduções mais complexas e cruzamento de informações. O estudo oferece uma hipótese para o fenômeno: relembrar não seria apenas resgatar informações previamente arquivadas no cérebro, mas reconstruir o que foi armazenado, reorganizando o assunto e priorizando determinados tópicos. Esse trabalho mental aumentaria o nível de compreensão sobre o tema.
Do ponto de vista pedagógico, o estudo valoriza uma ferramenta que nas últimas décadas foi condenada por muitos educadores como simples “decoreba” ou “conteudismo”. Dentro dessa tendência, mesmo avaliações oficiais como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) procuram exigir dos candidatos mais a capacidade de relacionar informações do que resgatar conhecimento por meio da memória.
Para o especialista em educação João Batista Oliveira, a pesquisa é um primeiro indício e deve ser referendada por outros experimentos semelhantes. Porém, acredita que a pedagogia atual, pouco afeita aos exercícios de memorização, carece ainda mais de sustentação científica.
– Estamos repetindo as mesmas fórmulas, sem pesquisa alguma. Não vejo contradição entre memorizar e relacionar conteúdos – avalia.
Para a educadora Esther Grossi, porém, exercícios de memória têm limites no processo educativo.
– Ninguém pode aprender a ler e a escrever por memorização, por exemplo. É preciso construir o que chamamos de um esquema de pensamento – contrapõe.
O próprio autor do trabalho, porém, considera que não há uma contradição obrigatória entre suas descobertas e os pilares teóricos de filosofias educacionais como o construtivismo – embora admita que a prática de memorização seja pouco utilizada como recurso pedagógico.
– É mais uma ferramenta – afirma Karpicke.

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Entrevista - Jeffrey Karpicke, pesquisador americano

Professor de Psicologia da Universidade de Purdue, localizada em Indiana, nos Estados Unidos, Jeffrey Karpicke se dedica a investigar a relação entre memória e aprendizagem. Na semana passada, o artigo publicado na revista Science, uma das mais respeitadas no universo científico do planeta, despertou a atenção de educadores e pesquisadores sobre o assunto. Por e-mail, o especialista concedeu a seguinte entrevista a ZH:

Zero Hora – O que o senhor considera a descoberta mais importante do trabalho?
Jeffrey Karpicke – Nossa pesquisa mostra que adotar o sistema de recuperação pela memória produz efeitos poderosos sobre o aprendizado.

Zero Hora – No Brasil, como em outros países, nos últimos anos exercícios de memorização vêm caindo em desuso. Por que esse tipo de ensino adquiriu má reputação entre diferentes acadêmicos?
Jeffrey Karpicke – Acredito que a recuperação (da memória) não se opõe a uma abordagem construtivista da aprendizagem. Nós estamos mostrando que o processo de relembrar é importante para ajudar os estudantes a construir sólidas estruturas de conhecimento conceitual.

Zero Hora – Como tem sido a resposta por parte dos educadores desde a publicação do artigo na Science?
Jeffrey Karpicke – A resposta dos educadores tem sido muito positiva. Professores são comprometidos a ajudar os seus estudantes a aprender, e eles querem usar as melhores ferramentas disponíveis. A prática da recuperação da memória é uma dessas ferramentas disponíveis.
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Aos mestres
PROFESSORES

Confira algumas das consequências práticas sugeridas pelo estudo americano:

- Como é hoje
A maior parte dos professores passa o conteúdo aos alunos e se preocupa com que eles reflitam sobre o tema recém-visto, estabeleçam relações com outras áreas, podendo fazer consultas a livros, internet ou outros recursos para aumentar a compreensão sobre o tema

- O que o estudo sugere
Depois de transmitir o conteúdo, seria mais producente estimular os alunos a fazer “testes” não destinados a medir o conhecimento já acumulado, mas com o objetivo de exercitar a memória.
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Reportagem por MARCELO GONZATTO

marcelo.gonzatto@zerohora.com.br
Fonte: ZH online, 26/01/2011

O que o alimento representa para o mundo de hoje

Alysson Paulinelli*
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Tenho sempre falado que quem conviveu no Brasil nas décadas de 60 e 70 com os problemas de alimentação tem muito mais experiências nesse campo que os que vivem nos dias de hoje. Até quase o final do século passado, os países tropicais, como o Brasil, pagaram muito caro o seu despreparo de conhecimentos de tecnologias que permitissem o uso dos seus recursos naturais e deles conseguir retirar, competitivamente, os produtos e alimentos para a sua própria manutenção.
Ou eram receptores de "sobras" internacionais ou pagavam um preço muito caro por aquilo que não sabiam fazer (produzir bem e barato). Creio que o Brasil experimentou essas duas condições.
Atribuo isso à evolução que houve no ensino das ciências agrárias no Brasil, no início dos anos 60, colocando próximo ao modelo dos land grant colleges dos americanos, que permitiu que os nossos profissionais passassem a ser muito mais realistas e preparados para enfrentar o novo desafio que surgira.
A crise da ineficiência industrial, com a urbanização repentina do País, o desabastecimento, provocado pela incapacidade de produzir o alimento para o próprio consumo nos centros urbanos, e a primeira grande crise do petróleo, que elevava o preço de um barril de US$ 3 para US$ 11, num país que dependia de 80% de petróleo importado em seu consumo, levaram-nos toda a liquidez da nossa conta café para o buraco e à expectativa de que passaríamos a viver num país derrotado e falido.
Foi aí que valeu o melhor preparo e a evolução das ciências agrárias do País. Permitiram aos governos que acreditassem e investissem em projetos de busca de novos conhecimentos, em criação de novas estruturas de pesquisas, mais ágeis, com autonomia técnica, científica, administrativa e financeira, dando condições de trabalho e produção aos seus pesquisadores.
Não somente o governo federal criou a Embrapa, mas também 17 Estados ou criaram ou fizeram evoluir as suas já tradicionais instituições de pesquisas, num esforço sem precedente, cujos resultados não demoraram a aparecer. Pode-se dizer que, em menos de 30 anos aqui, se desenvolveu a primeira e mais competitiva agricultura tropical do globo.
O País, mesmo com as dificuldades financeiras pelo acúmulo das três crises, teve a lucidez de acreditar que os investimentos em ciência e tecnologia valeriam a pena. Antes de desperdício poderia ser essa a solução de tantos e infindáveis problemas de um Brasil que necessitava se afirmar, e não se curvar diante das ameaças. De país consumidor de alimentos mais caros do mundo, na década 70, que chegava a consumir quase a metade da renda média familiar só em alimentação, chegamos aos anos 2 mil com um dos mais baratos alimentos do mundo, conforme prova o Ipea em sua última pesquisa sobre custos com alimentação, onde esse gasto não passa de 13,6% da renda familiar. De país receptor ou importador de alimentos à custa da conta café, produto tropical que dominávamos, passamos a ser exportador de comida, fibras, outras matérias-primas agrícolas, óleos e até da energia renovável que o mundo tanto necessita. Criamos em 30 anos uma nova e competitiva agricultura tropical, hoje indiscutivelmente uma solução para garantir que o mundo, mesmo com sua demanda duplicada a cada 30 anos, não fique só na dependência de suas regiões temperadas, que praticamente já esgotam os seus recursos de terra.
"O mundo inteiro está atrás de nossa tecnologia
porque sabe que ela, além de mais eficiente,
é também a mais capaz
de produzir de forma sustentável e, inclusive,
tem conseguido melhorar muitos
de nossos biomas, como é caso
dos nossos cerrados."
Agora tanto se fala, novamente, em crise mundial de alimentos, matérias-primas agrícolas e energia renovável, na subida dos preços das commodities agrícolas e o que isso irá representar econômica, social e ambientalmente para todo o mundo. As vistas de todo o mundo se voltam para o potencial produtivo de suas regiões tropicais e, logicamente, para as tecnologias e capacidade produtiva desenvolvidas no Brasil nesses últimos anos do século 20. E o que é mais engraçado é que nem os governos nem o povo brasileiro se apercebem disso. O agricultor, aqui, para o nosso cidadão urbano desinformado (ou, intencionalmente, mal informado), continua como o vilão de toda a história, como um eterno latifundiário, explorador de mão de obra, caloteiro e aproveitador ou destruidor dos nossos recursos naturais. Numa verdadeira fúria legiferante, procura impor e imputar no produtor nacional todas as culpas, crimes e responsabilidades por todos os males e tormentas climáticas que nos assolam. Arbitram-lhes multas impagáveis ou penas insuportáveis, numa ansiedade de justificar sua insanidade estranhamente criada pelos benefícios que receberam em redução de preços de seus alimentos, pela qualidade melhor dos produtos que consomem e pela tranquilidade de que aqui ainda temos as melhores condições de garantias da existência de alimentos, matérias-primas agrícolas, energia renovável, sem a dependência ou os favores de terceiros, como tínhamos há 30 anos. Esse tem sido o preço que o produtor rural brasileiro está pagando por gerar quase US$ 60 bilhões anuais líquidos para nossa balança comercial, afastar o Brasil definitivamente das crises financeiras internacionais e se posicionar como um dos mais fortes emergentes econômicos no cenário mundial.
O mundo inteiro está atrás de nossa tecnologia porque sabe que ela, além de mais eficiente, é também a mais capaz de produzir de forma sustentável e, inclusive, tem conseguido melhorar muitos de nossos biomas, como é caso dos nossos cerrados.
Não podemos permitir que os investimentos em ciência e tecnologia sejam tremendamente reduzidos a ponto de provocar um verdadeiro apagão tecnológico em nosso Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária, e a própria extinção do nosso Sistema Brasileiro de Assistência Técnica e Extensão Rural.
Os 24 anos de apagão que viveu a Embrapa são injustificáveis, pois ela só não sucumbiu nesse período de martírio porque tinha e tem uma sinergia própria, convincente, o que não ocorreu com as 17 instituições estaduais de pesquisas que hoje estão em verdadeira penúria.
O remendo de um PAC Embrapa foi um alívio louvável, mas não uma solução definitiva com a qual todos sonhamos. O desafio continua e espero que se repitam as medidas oportunas para a pesquisa, e que se estendam a nossa assistência técnica e extensão rural ao nosso crédito rural, ao nosso seguro rural que ainda não temos, e às medidas de defesa de nossa comercialização ainda incipientes.
Que não se esqueçam da nossa logística, hoje tão limitante. Que não se esqueçam do nosso consumidor porque, do contrário, ele, no fim, é quem será inocentemente o grande vilão da história.
Espero que 30 anos na vida de um País não sejam um período tão longo para que cometamos os mesmos erros de 500 anos atrás.
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*EX-MINISTRO DA AGRICULTURA
Fonte: Estadão online, 25/01/2011
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