segunda-feira, 28 de maio de 2012

Comitês de depuração

Luiz Felipe Pondé*
Depois do dilúvio, surgem milhares de "resistentes" corajosos para colher louros que não merecem 

IMAGINE PARIS entre 1940 e 1944. Ocupação nazista. Agora se pergunte: onde estavam os artistas e intelectuais, franceses ou não, naquele momento? Estes que gostam de posar de arautos da ética, da transparência e do bem.
Claro, houve a "resistência francesa". Se contarmos o número de pessoas cujos pais e avós foram da Resistência Francesa, não teremos franceses suficientes para completar a cota dos resistentes de cada família.
Provavelmente, os resistentes de fato não enchiam dois ônibus. A Resistência Francesa é um dos maiores mitos modernos, assim como a dinamarquesa, a sueca, a holandesa e outras. A falsa coragem não é privilégio de nenhum povo. A maioria conviveu com o nazismo. E conviveria de novo. Raros são os que se revoltam contra situações assim, porque simplesmente temos medo e somos seletivos em nossas prioridades morais -quando existem.
Em situações assim, pensamos primeiro no café da manhã, no almoço e na janta. No emprego, no cotidiano, nas vantagens que podemos ter, dadas as condições em que vivemos. Danem-se as vítimas.
O século 20 criou uma das maiores mentiras da humanidade: a solidariedade abstrata. Aquela que se presta direto do Facebook ou do cardápio orgânico.
Não quero dizer que "tudo bem ser covarde", desculpando nossos atos pela banalização do medo. Basta um só corajoso para a covardia revelar sua face vergonhosa. O que me espanta é a mentira moral que se conta negando a epidemia de covardia em situações como essas. E gente "chique intelectualmente" adora esse tipo de farsa.
Depois de passar o dilúvio, aí aparecem milhares de "resistentes" corajosos para colher os louros que não merecem. Onde estavam Sartre, Beauvoir, Camus, Picasso, Dalí, Mauriac, Colette, Malraux, Gide e outros luminares naqueles anos?
Se você quer saber, leia o maravilhoso livro de Alan Riding, "Paris, A Festa Continuou - A Vida Cultural durante a Ocupação Nazista, 1940-4", publicado pela Cia. das Letras. Trata-se de um painel definitivo do cenário intelectual e artístico da época, revelando detalhes do convívio "pacífico" da casta erudita francesa (e de estrangeiros que lá viviam) com a ocupação alemã.
Não se tratam dos reconhecidos fascistas e antissemitas franceses como Louis-Ferdinand Céline, o grande escritor e médico. Mas sim daqueles que ensaiaram uma resistência cultural tímida (que os alemães nunca levaram de fato a sério) a troco de permanecer vivendo suas vidas comuns de intelectuais e artistas "comprometidos com um mundo melhor" (risadas?).
Até o mercado das artes plásticas viveu um crescimento tímido, mas real, na época.
Não eram "colabôs" de fato ("colaboracionistas", termo usado na França para quem apoiou a ocupação nazista), apenas faziam teatro, escreviam livros, pintavam quadros, faziam música, bebiam vinho. E quando os Aliados libertaram a França, logo se apressaram em "provar" sua condição de membros da resistência "cuspindo" na cara de gente que, muitas vezes, os ajudou porque eram de fato "colabôs" e tinham acesso a favores nazistas.
Os "comités d' épuration" (comitês de depuração) se multiplicaram no pós-guerra e visavam estabelecer a verdade de quem era ou não "colabô".
Os alemães sabiam que, mantendo os salões, os cabarés, as "brasseries", os cafés, as livrarias, as galerias de arte e os teatros em atividade, ajudariam a manter os franceses e estrangeiros cultos "ocupados". Todo mundo sabe que o risco para regimes como o nazista está em quem pega em armas, e não em quem fala delas.
Por que a vergonha da casta artística e intelectual manchou tanto o nome da França? Porque se esperava mais deles.
Segundo Riding, o trauma francês com relação à covardia daqueles que se diziam combatentes do pensamento e da arte pode ter sido causada pelo fato de que, desde a Revolução Francesa de 1789, a França "é uma população educada para reverenciar ideias... Alguns consideram este um dos legados da revolução de 1789, a noção inebriante de que uma ideia traduzida em ação pode produzir uma mudança súbita, radical e idealizada".
Ledo engano. 
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* Filósofo. Escritor. Prof. Universitário. Colunista da Folha
ponde.folha@uol.com.br
Fonte: folha on line, 28/07/2012
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Quem é progressista e quem é de direita

Emir Sader*

Os dois maiores eixos do poder no mundo de hoje são a hegemonia imperial norteamericana e o modelo neoliberal. A direita se articula em torno da liderança política e militar nortamericana e desenvolve, em nível nacional e internacional, políticas de livre comércio e de mercantilização de todas as sociedades.

Diante desse quadro, progressistas são, em primeiro lugar, os governos, as forças politicas e as instituições que lutam pela construção de um mundo multipolar, que enfraqueça a hegemonia imperial hoje dominante, que logre a resolução dos conflitos de forma política e pacifica, contemplando a todas as partes em conflito, ao invés da imposição da força e da guerra. O que significa fortalecer os processos de integração regional – como os latino-americanos – que priorizam o intercâmbio entre os países da região e os intercâmbios entre o Sul do mundo, em contraposição aos Tratados de Livre de Comércio com os Estados Unidos.

Se diferenciam, na América Latina, com esse critério, os governos de países como a Venezuela, o Brasil, a Argentina, o Uruguai, a Bolivia, o Equador, entre outros, que fortalecem o Mercosul, a Unasul, o Banco do Sul, o Conselho Sulamericano de Defesa, a Alba, a Celac, entre outras iniciativas que privilegia o intercambio regional e se opõem aos Tratados de Livre Comercio com o Estados Unidos. Priorizam também o comércio com os países do Sul do mundo e as organizações que os agrupam, como os Brics, entre outras. São governos que afirmam políticas externas soberanas e não de subordinação aos interesses e orientações dos Estados Unidos.

Do outro lado do campo político se encontram governos como os do México, do Chile, do Panamá, da Costa Rica, da Colômbia, que priorizam por esses tratados e favorecem o comércio com a maior potência imperial do mundo e não com os parceiros da região e com os países do Sul do mundo.

Em segundo lugar, progressistas são os governos, forças políticas e instituições que colocam o acento fundamental na expansão dos mercados internos de consumo popular, na extensão e fortalecimento das políticas que garantem os direitos sociais da população, que elevam continuamente o poder aquisitivo dos salários e os empregos formais, ao invés da ênfase nos ajustes fiscais, impostos pelo FMI, pelo Banco Mundial e pela OMC e aceitos pelos governos de direita.

Além disso, as forças progressistas se caracterizam pelo resgate do papel do Estado como indutor do crescimento econômico, deslocando as políticas de Estado mínimo e de centralidade do mercado, e como garantia dos direitos sociais da população.

Por esses três critérios é que a maioria dos governos latino-americanos – entre eles os da Venezuela, do Brasil, da Argentina, do Uruguai, da Bolívia, do Equador – são progressistas e expressam, a nível mundial, o polo progressista, que se opõem às políticas imperialistas e neoliberais das potências centrais do capitalismo internacional.
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* Sociólogo.
Fonte:  http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=991

'Se não sairmos do atoleiro, teremos uma Europa de extrema-direita'

A política de austeridade e de precarização do emprego capitaneada por Angela Merkel levou a um desespero social que alimenta as tendências mais radicais. Ou a Europa reage agora ou será tarde, diz Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique em espanhol. "Na França temos cerca de 28% do eleitorado votando numa extrema direita que recusa a Europa e o euro. O respeito das normas está a levar a uma situação insustentável. Victor Hugo dizia que não há nada mais poderoso que uma ideia para a qual chegou o momento", diz Ramonet.

Madri - O otimismo transparece na voz de Ignacio Ramonet e viaja até este lado do telefone. O diretor do “Le Monde Diplomatique” em espanhol, que há 14 anos advertiu que a globalização financeira estava criando o seu próprio Estado e gerando sociedades sem poder, sonha com esperança. Precisamente agora, quando se estão a cumprir um após outro os maus augúrios daquele seu editorial, “Desarmar os mercados financeiros”, que foi semente do movimento Attac. A política de austeridade e de precarização do emprego capitaneada por Angela Merkel levou a um desespero social que alimenta as tendências mais radicais. Ou a Europa reage agora ou será tarde. Ramonet crê que reagirá.

“Reorientar a Europa para o desemprego, o futuro e o crescimento”. As palavras de Hollande, recentemente eleito presidente da França, falam de uma mudança de rumo que parecia impossível. Há vida para além dos mercados?  A proposta de Hollande chega num bom momento. Se tivesse dito há um ano que não apoiava o pacto fiscal (promovido por Merkel), não teria funcionado. Hollande não fala do crescimento que Draghi (presidente do BCE) defende, baseado na precarização do emprego para ganhar competitividade e nas curas de austeridade. Hollande defende o crescimento com estímulo por parte da União Europeia. É o momento, porque há países submetidos a duras reformas extraordinárias com os governos a viver nos limites dessas políticas. Os próprios mercados veem que só austeridade não serve. Por isso, houve tanto apoio, ativo ou passivo, a Hollande. Prova disso é o caso do Governo espanhol, que desejava a vitória do socialista porque lhe dará oxigénio para pagar a dívida em mais anos sem asfixiar a economia.

Como se financia o crescimento? Os Estados estão endividados e não podem endividar-se mais. Mas a UE como tal, não. Pode endividar-se e emprestar aos Estados ou financiar obras que criem emprego.

A banca está falida. Se lhe injetam dinheiro a 1% a partir do BCE e com ele compra dívida de países com rentabilidade maior, paga-se com impostos. É sustentável? A diferença entre o 1% que a banca paga pelo dinheiro e os 6% que recebe pela dívida da Espanha, por exemplo, leva a uma situação na qual não se poderá pagar essa dívida, que se converterá na principal questão do orçamento. Creio que há cada vez mais consenso para que o BCE empreste diretamente aos Estados. Os Estatutos do banco central não lhe permitem, e nisso apoiam-se os alemães, mas encontramo-nos numa situação de exceção e há que impor uma decisão política. Os Estatutos são pura burocracia.

Porque vão ceder se se negaram até agora? Porque já há sociedades que estão se sublevando. Na Grécia disparou o voto extremo. Na França temos cerca de 28% do eleitorado votando numa extrema direita que recusa a Europa e o euro. O respeito das normas está a levar a uma situação insustentável. Victor Hugo dizia que não há nada mais poderoso que uma ideia para a qual chegou o momento.

Está a Alemanha nesse momento? A Alemanha prevê crescer este ano a 1% e começa a temer que, se as economias europeias não compram os seus produtos, a sua situação vai piorar. Os sindicatos lançaram uma ofensiva para pedir um aumento de salários. O trabalho alemão, que já é o mais caro da Europa, será ainda mais caro e terá mais dificuldade em vender os seus produtos. Os próprios dirigentes vão juntar-se à petição de crescimento.

Draghi advertiu que o país que reduzir a austeridade será imediatamente castigado pelo mercado. Hollande aguentará? Eu penso que assistiremos a uma mobilização popular em França para que Hollande não repita os erros dos sociais-democratas de Grécia, Portugal e Espanha. O problema já não é só económico, mas sim político. Se não sairmos do atoleiro dos mercados, vamos ter uma Europa de extrema direita daqui a cinco anos.

Também há movimentos de mudança como o 15-M. O que vimos no ano passado como o 15-M foi muito emocionante, toda uma geração a protestar com uma conceção muito exigente e pura da política e da democracia. É lamentável que essa gigantesca energia, por desconfiança para com a política, não tenha encontrado um modo de permanecer como movimento reconhecível, com organização e liderança. Na minha opinião, o sentimento de asco para com a política de muitos jovens conduziu-os a um erro tático, por não se organizarem como formação, e a outro estratégico, porque não têm ferramenta, nem direta nem indireta, de conquista de poder.

Que solução vê para o desemprego juvenil? Está a perder-se uma geração inteira, apesar de ser a melhor formada da história dos nossos países. É um tremendo desperdício humano e é urgente encontrar soluções com imaginação, lançar planos de reindustrialização e de relocalização, um grande plano Marshall de emprego para a juventude. A Europa está socialmente destruída, como o esteve materialmente após a II Guerra Mundial.

Perde-se a geração melhor formada e força-se a que a próxima já não o seja. Por quê? Todos os movimentos neoliberais cortaram na educação. É a renúncia a um dos fundamentos da democracia, a igualdade de oportunidades, e isso é insuportável. A classe média está-se a desclassificar, um fenómeno que não conhecíamos. Deixa-se de pertencer a uma classe à qual se chegou com gerações de esforços.

Quanto vai custar recuperar esse caminho? Há que refletir porque, pouco a pouco e de forma silenciosa, foram-nos encerrando numa estrutura política em que as decisões são muito limitadas, na qual uma mudança de Governo não muda grande coisa porque se aplicam regras que não se podem modificar. Assistimos a uma redução da democracia e a uma preponderância do poder financeiro sobre o político. O Mecanismo Europeu de Estabilidade, que é uma prisão jurídica, está a ser ratificado sem debate.

Não foi mudado nada do sistema financeiro. Se não se controlar os mercados, não sairemos disto. Há que regulamentá-los, dissociar a banca de poupança da especulativa, impor impostos sobre os rendimentos de capital como existem sobre o trabalho e dotar-se de um sistema que permita aos políticos pôr limites ao mercado. Ou acontece isso ou passaremos a uma nova estrutura política desconhecida até agora.
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(*) Publicado em Más Público.org, tradução de Carlos Santos para Esquerda.net
Fonte:  http://www.cartamaior.com.br 28/05/2012

Pensamento do dia

 

“A nossa maior glória não reside
 no fato de nunca cairmos, 
mas sim em levantarmo-nos 
sempre depois de cada queda“.
 - Provérbio de Confúcio -

Um exemplo mais ou menos


 Luis Fernando Veríssimo*
 
A vitória do Chelsea sobre o Bayern naquele jogo fantástico que decidiu a Copa dos Campeões trouxe um alento para quem ainda acredita na União Europeia. Cada campeonato sensacional da Uefa reforça a ideia de que é possível existir uma comunidade que funcione. O futebol dá o exemplo – não de rivalidade exacerbada entre nações, mas do sucesso comercial de um empreendimento comum, fora uma ou outra guerra de torcida.

É verdade que o Chelsea não é um exemplo cem por cento aproveitável de triunfo europeu. É um clube inglês que pertence a um milionário russo e cuja estrela principal vem da Costa do Marfim. Mas quem sabe a solução para a Europa não deva vir de fora e o que falte não seja um patrocinador com muito dinheiro e uma política de imigração que facilite a vinda de muitos Drogbas? A salvação, quem diria, pode vir da Rússia e de uma política de imigração sem restrições, oposta à proposta atualmente pelos conservadores de toda a Europa. Um investidor americano já é o dono de outro tradicional clube inglês, o Liverpool. A tendência pode crescer e nada impede que algum milionário compre não um clube grego mas a Grécia.

A Copa da Uefa pode sugerir outras maneiras da Europa resolver sua crise. A grande discussão, hoje, sobre o futuro do continente, é entre austeridade e crescimento. Por que não transformar esse confronto em futebol? Times identificados com a austeridade – como uma seleção alemã – contra times pró-crescimento, num torneio bem organizado, com o vencedor final decidindo a política a ser seguida por todos. Como atrativo adicional de se ver o Messi e o Drogba no mesmo time.

Mesmo que não aproveitem minhas ideias perfeitamente razoáveis, o futebol dos campeões europeus permanece como um parâmetro para os políticos em busca de uma saída para a crise. Mas pode, claro, acontecer o contrário: em vez do futebol mostrar a saída para a crise, a crise alcançar também o futebol. E o espetáculo da final deste ano em Munique ser lembrado como a apoteose que precede o declínio.

Mas, bem ou mal, foi uma apoteose.
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* Jornalista. Escritor. Cronista da ZH
Fonte: ZH on line, 28/05/2012
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domingo, 27 de maio de 2012

Espiritualidade dos sentidos: mística da vida vivida.

  Jürgen Moltmann*

 

Os sentidos do nosso corpo nos unem ao mundo. 
Não devemos somente usá-los para viver e trabalhar; 
devemos também cuidar deles, moldá-los e 
cultivá-las com respeito à vida e à
 presença do Deus vivo.


Publicamos aqui a última parte da análise do teólogo alemão Jürgen Moltmann, em artigo publicado no sítio Teologi@Internet, 21-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Leia também a primeira, a segunda, a terceira e a quarta partes.

Eis o texto.

5. Espiritualidade dos sentidos. Mística da vida vivida


Há uma razão das ideias e um intelecto dos sentimentos. Há o esprit de geometrie, dizia Pascal, e o esprit du coeur. A espiritualidade é dinamismo do coração. Na espiritualidade, nós nos voltamos para onde experimentamos o Espírito de Deus. Por muito tempo, dominou uma espiritualidade da alma e do homem interior. O poeta místico evangélico Gerhard Tersteegen escreveu:

"Fecha as portas dos teus sentidos
e busca a Deus lá dentro, em profundidade".

Ela, no entanto, também pode se tornar uma espiritualidade dos sentidos, se o Espírito Santo é experimentado na natureza da terra, como ocorreu com a mística cósmica Hildegard de Bingen e no Cântico das Criaturas de Francisco de Assis. Então, não se deve "re-entrar" no próprio íntimo, mas, ao contrário, sair de si mesmo e experimentar com todos os sentido o mundo exterior. Devemos nos jogar entre os braços da vida. Essa mística cósmica se move, de fato, de Agostinho em diante, em sentido contrário à espiritualidade ocidental, mas ela é hoje interpelada por um futuro ecológico dos seres humanos e da terra [24].

Os sentidos do nosso corpo nos unem ao mundo. Não devemos somente usá-los para viver e trabalhar; devemos também cuidar deles, moldá-los e cultivá-las com respeito à vida e à presença do Deus vivo.

Na realidade, com os nossos olhos, vemos as coisas do mundo, mas não aprendemos a olhar. Só se ficarmos em silêncio e olharmos, percebemos a beleza de uma árvore ou a essência de uma flor. Só se olharmos e nos deixamos impressionar pelo outro que está diante de nós, amamos as coisas e as pessoas por si mesmas.

Escutamos com os nossos ouvidos os rumores do mundo externo, escutamos o ruído, as vozes, a música. Mas talvez aprendemos a escutar, ou seja, a escuta desinteressada do outro, do novo? O judaísmo e o cristianismo são religiões da escuta: "Ouve, ó Israel...", assim inicia o She'ma Israel, e Maria "escutava" a voz do anjo e guardava as suas palavras em seu coração. Não há apenas uma escuta com os ouvidos, mas também um "escutar com o coração". Essa é uma escuta profunda com todo o corpo. Depois, como se diz, chegamos "ao fundo da alma".

Deus respira através de toda a criação. Se o seu Espírito de vida se apodera de nós, desperta novamente em nós um amor inimaginável pela vida, e os nossos sentidos são despertados:

"Com a tua luz, iluminas os sentidos,
infundes o amor nos nossos corações",

canta-se no hino de Pentecostes, de Rabano Mauro.

Para combater o cinismo da aniquilação da vida, hoje difundido no nosso mundo, devemos superar a crescente indiferença do coração. A nova mística da vida dissolve esses desfalecimentos interiores, a aridez dos sentimentos para com o sofrimento alheio e o hábito de ignorar o sofrimento da natureza. Quem começa a amar a vida, a vida comum, se oporá à morte de seres humanos e à exploração da terra, e lutará por um futuro comum. Ele rezará com os olhos abertos e ouvirá o gemido da criatura oprimida.

Se amamos a Deus,
abraçamos o mundo inteiro.
Amamos a Deus com todos os nossos sentidos
nas criaturas do seu amor.
Deus espera por nós em tudo o que encontramos.

Notas:

24. J. Moltmann, Die Quelle des Lebens. Der Heilige Geist und die Theologie des Lebens. Gütersloh, 1997 [tradução italiana, La fonte della vita. Lo Spirito santo e la teologia della vita. Queriniana, Bréscia 1998].
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Fonte: IHU on line, 27/05/2012

Os espectros do desenvolvimentismo

 LUIZ WERNECK VIANNA*
 
 
Ainda não é oficial, mas o processo em curso que nos embala, nessa marcha batida rumo aos grandes do mundo, animada pelas fanfarras dos nossos êxitos econômicos e sociais, já conta com um nome à espera de consagração na pia batismal: desenvolvimentismo. Desenvolvimentismo assim sem mais, sem a pesada qualificação de tempos de antanho, que o associou à fórmula, hoje cediça, do nacional-popular, criada, por volta das décadas de 1950-60, a partir de uma de suas costelas, vindo a povoar a imaginação da esquerda brasileira da época.
Sob esse nome, com raízes na tradição republicana brasileira, especialmente de suas florações autoritárias - cite-se, para encurtar razões, apenas o regime militar -, talvez se pretenda deixar para trás o tempo dominado pela contingência, como foi aquele em que o PT iniciou o seu ciclo governamental, confrontado com uma realidade que não suportava o seu programa e as ideias-força que o tinham trazido ao primeiro plano da cena política brasileira. Diante da pressão coercível dos fatos, como é sabido, o PT adaptou-se às circunstâncias, dando continuidade ao cerne da política do seu antecessor a ponto de serem pouco distinguíveis as diferenças entre eles em matéria de política econômica.
A crise política e institucional de 2005, deflagrada pelos episódios nada republicanos vindos à tona na CPI dita do mensalão, se não importou mudanças nessa dimensão, em termos de orientação política levou a um movimento defensivo por parte do governo do PT, reagindo a uma contingência ameaçadora à sua reprodução, já às portas do processo sucessório de 2006, que trouxe consigo uma verdadeira mutação na forma de esse partido se pôr no mundo. A partir daí, declina da interpretação que lhe serviu de viga mestra para a fixação do discurso com que iniciou a sua escalada vitoriosa nas eleições e na conquista da direção de importantes movimentos sociais, que identificou na ideologia do nacional-desenvolvimentismo os suportes para uma política populista que teria atrelado o sindicalismo ao Estado e à coalizão pluriclassista que o dirigia. Produzida essa metamorfose - categoria plenamente admitida no léxico partidário, enunciada várias vezes por sua principal liderança -, deu início a uma deriva rumo ao encontro com a tradição republicana brasileira, incluídas todas as suas dicções, a de Getúlio Vargas, a de Juscelino Kubitschek e, inclusive, a do regime militar, nesse caso, sobretudo a do governo Geisel.
Exemplar desse movimento a mudança de política quanto ao sindicalismo - ponto de referência estratégico quanto à sua formação -, quando, nesse mesmo ano aziago de 2005, o PT abriu mão do seu programa de reforma sindical, confirmado num fórum nacional realizado no ano anterior, abdicando dos seus princípios em favor da pluralidade sindical e contrários à contribuição sindical. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) cede lugar à Força Sindical, cuja proximidade quanto à tradição republicana se fazia garantir com a entrega do Ministério do Trabalho ao presidente do PDT, partido fundado por Leonel Brizola, um cultor da herança de Vargas. Um dos resultados dessa recomposição foi a admissão das centrais sindicais como figuras institucionalizadas do sindicalismo, passando a ser contempladas com recursos da contribuição sindical, fortalecendo-se os vértices em detrimento das bases da vida associativa dos trabalhadores.
Tal guinada em termos de orientação não foi acompanhada de razões que a justificassem, mas o fato é que, pragmaticamente, tangido pelas circunstâncias, o PT se vai descobrir instalado num território ideal antípoda ao de sua formação. O processo de modernização, bête noire de ícones intelectuais de suas primeiras horas, como Raimundo Faoro, é incorporado à sua política econômica, emprestando-se ao tema do desenvolvimento das forças produtivas materiais uma centralidade imprevista, até mesmo pela razão de esse partido ter vindo à luz com a incorporação de setores influentes da catolicidade de esquerda, refratárias doutrinariamente a construções desse tipo. Seu panteão se renova com a inclusão em lugar de honra de Celso Furtado, e sua própria interpretação da História republicana é revista, instituindo-se pontes de comunicação entre Vargas e Lula, vistos como lideranças maiores na adoção de políticas sociais inclusivas. Insinua-se, então, se bem que veladamente, o diagnóstico de que na origem dos nossos males estaria mais a falta de capitalismo do que os efeitos da sua presença.
Expandir o capitalismo brasileiro, projetá-lo além-fronteiras, torna-se o projeto in pectore do segundo mandato de Lula, consagrando-se sans phrase no governo de Dilma Rousseff. Ressurgências do passado costumam assombrar os vivos, trazendo de volta tempos mal vividos, enredos que não se completaram, espectros que saem das sombras a fim de nos cobrar ações para que, afinal, possam repousar em paz, como na tragédia clássica de Hamlet, na bela leitura de Derrida (Espectros de Marx, Relume Dumará, 1994). Espectros que nos rondam, quando os vivos não enterram bem seus mortos, e se investem desajeitados dos papéis que tão bem couberam neles em farsas que são pantomimas do que eles viveram, nas poderosas imagens de Marx de O Dezoito Brumário.
O desenvolvimentismo que ameaça retornar com galas oficiais que venha, então, com suas roupas próprias, no estilo prosaico do agronegócio, do empreendedorismo e da associação crescente com as empresas multinacionais. Ele não conhece a face amedrontadora de um inimigo fatal nem a necessidade heroica de mobilizar a Nação para combatê-lo. Seu mundo não é o da encarniçada luta política sem quartel, mas o do cálculo da racionalização de mandarins, que, como na China, tentam tecer por cima o rumo dos nossos destinos. Quanto aos espectros, basta abrir uma janela que eles se dissipam no ar.
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* professor-pesquisador da PUC-Rio; e-mail: lwerneck096@gmail.com - O Estado de S.Paulo
Fonte: Estadao on line, 27/05/2012
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Pesadelo de menina

Debora Diniz*

Reprodução / TV Globo

 - Reprodução / TV Globo

É preciso dizer a garotas que sofrem abuso, como Xuxa, que a culpa não é delas, é de homens obscenos


Xuxa em Sonho de Menina foi um filme para crianças. A personagem vivida pela rainha dos baixinhos era uma professora de matemática que sonhava em ser atriz. Sem grandes expectativas de roteiro, o filme combinou fantasia com relances biográficos de Xuxa, uma mulher também a meio caminho entre a realidade e a ficção. Ao contar o que viu na vida, Xuxa apresentou-se como personagem de um roteiro documental. Xuxa em Pesadelo de Menina poderia ser o título de seu depoimento solitário à televisão. A melancólica trilha musical só foi interrompida quando a personagem cedeu o lugar à mulher em aflição pela memória do passado. Xuxa enfrentou a câmera e surpreendeu a audiência ao anunciar "Eu fui abusada". Até os 13 anos, Xuxa foi vítima de abuso sexual de homens de seu convívio doméstico - amigos, professores e parentes. Esse foi um segredo não previsto pelo roteiro do sonho, mas sentido pela ferida do real.
A história da rainha se transformou em um roteiro de conto de fadas, interrompido nos últimos minutos de depoimento pelo segredo da violência. Uma adolescente suburbana e bonita é descoberta em um trem; em poucos meses, é uma imagem pública. Ainda jovem, casou-se com o rei do futebol, namorou o príncipe da velocidade, transformou-se na rainha dos baixinhos. Como em um enredo de matrimônio arranjado entre famílias samurais, porém adaptado à realidade das celebridades sem fronteiras, o agente do omiai entre Michael Jackson e Xuxa foi o assessor do imperador da terra do nunca. Não houve casamento da rainha com o imperador, apesar do amor em comum pelos bichos e pelas crianças. Xuxa se apresentou ambiguamente como uma mulher independente, porém solitária. "Por que não consigo me casar? Deve ter uma explicação". A resposta, segundo ela, seria a ferida do abuso sexual sofrido na infância.
A casa é um espaço de risco para as meninas. Elas são vítimas do desejo obsceno dos homens, sejam eles pais, amigos ou vizinhos. As meninas emudecem-se diante do assédio - temem os agressores pela força com que eles as ameaçam, sentem vergonha de suas mães, imaginam-se culpadas pelo sexo que carregam entre as pernas infantis. As mães são figuras que compõem um binômio com essas meninas - poucas são as capazes de reagir ou denunciar o agressor. Com suas filhas, elas são parte de uma arquitetura perversa da violência: temem os agressores pela sedução ou pela força. Xuxa não contou à mãe ou aos irmãos a violência que sofria, algo comum às meninas muito jovens assediadas por adultos. Certamente há histórias de mães que se lançam contra os agressores, mulheres que ignoram a hegemonia patriarcal que as une às filhas como corpos disponíveis ao desejo masculino. Mas essas são histórias de exceção, seja porque o segredo das meninas é impenetrável, seja porque as mulheres também se submetem à ordem de silêncio dos agressores.
A escola e o hospital são dois espaços que provocam a hegemonia do medo e do silêncio. Por sinais muito diversos, professoras, psicólogas e assistentes sociais são as principais vozes de denúncia contra a violência e o abuso infantis. Na escola, a menina se transforma. A metamorfose imposta pela violência denuncia-se por comportamentos padronizados ao olhar atento das professoras - desde expressões afetivas como a tristeza até indicadores objetivos da desordem mental, como a queda no rendimento escolar. No hospital, a menina se demonstra. A metamorfose está no corpo e não só nos afetos perturbados. Menarca, gravidez e abuso são descobertos como sequências de um ato perverso que se estende no tempo: meninas pré-púberes são violadas e seus corpos em gestação escancaram um longo regime de violência silenciado pela casa. É a gravidez que aponta a violência e denuncia que o agressor não é um estrangeiro, mas um patriarca do regime doméstico de poder. 

 "Não há vergonha em ser uma menina desprotegida. Na verdade, não existe razão para temer ser uma menina. Há homens obscenos, fortalecidos por uma cultura patriarcal que ignora a decência e dignidade das meninas."

O segredo de Xuxa escapou aos olhares atentos das professoras, e o abuso que sofria talvez não tenha se consumado em ato sexual, o que evitou o risco da gravidez infantil. Xuxa não foi ouvida em seu silêncio por nenhuma das instituições capazes de protegê-la; ela foi uma sobrevivente do abuso sexual infantil. Hoje, causa política e biografia se confundem em uma mulher madura, rica e independente que escolhe a câmera como interlocutora do que só se imaginaria como possível na esfera do fantástico dos contos de fada. Mas não é. Xuxa é uma rainha de carne e osso, diferente da bailarina da música infantil. Como as outras meninas, ela teve unha encardida ou escarlatina. Mas, diferente de outras meninas, Xuxa foi abusada sexualmente. Há outras meninas que, como ela, se perguntam "por que aconteceu isso? Eu ainda acho que foi minha culpa". Elas se sentem únicas no segredo e na vergonha.
É preciso dizer a elas que "não, a culpa não foi sua, menina". Não há culpa em carregar um sexo entre as pernas. Não há vergonha em ser uma menina desprotegida. Na verdade, não existe razão para temer ser uma menina. Há homens obscenos, fortalecidos por uma cultura patriarcal que ignora a decência e dignidade das meninas. Há homens que não temem a lei penal, seguros que estão de sua supremacia na casa e sobre as mulheres de seu domínio. Nem Xuxa nem as meninas anônimas são responsáveis pelo abuso. Nem Xuxa nem as mães das meninas anônimas são capazes, sozinhas, de enfrentar a força patriarcal. Entre sonho e pesadelo, a voz de Xuxa deve ser poderosa para romper o silêncio masculino da casa. Quem fala é a rainha dos baixinhos, uma mulher que nunca reconheceu limites para entrar na casa dos homens.
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- Debora Diniz é antropóloga, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da ANIS - Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero
Fonte: Estadão on line, 26/05/2012

Faltou combinar com o Exército

 - Reuters

Escritor tem dúvidas quanto a militares egípcios abrirem mão do poder se um islamista for eleito

Tariq Ramadan recebeu o Aliás em seu escritório decorado com caligrafia árabe e uma impressionante biblioteca pessoal, localizado no Centro de Estudos do Oriente Médio, na Universidade de Oxford. Aquela manhã era particularmente especial para o Egito. Os noticiários começaram o dia com imagens de longas filas de homens e mulheres se formando no Cairo e em Alexandria. Os manifestantes da Praça Tahrir pareciam comparecer em massa para votar nas primeiras eleições presidenciais democráticas do mundo árabe. Mas o professor Ramadan não estava contente. "Vamos ter de esperar para ver se hoje será mesmo um dia tão importante como você diz", disse ele, para início de conversa.
Tariq Ramadan é um dos estudiosos do Islã mais conhecidos da Europa e neto de Hassan al-Banna, fundador da Irmandade Muçulmana, no Egito. Ele acaba de publicar seu décimo livro, The Arab Awakening (O Despertar Árabe), editado pela Penguin em abril, em que oferece uma interpretação cautelosa sobre o suposto sucesso dos levantes árabes de 2011. "Não uso a palavra revolução, porque o que estamos testemunhando pode ser uma revolta incompleta ou já fracassada", avalia o professor de Estudos Contemporâneos do Islã em Oxford.
Os problemas do Egito, afirma Ramadan, começam e terminam na maneira como as Forças Armadas controlam o poder político, econômico e diplomático do país. Ramadan não confia que o Exército abrirá mão do poder se o presidente eleito pelo povo for um dos candidatos islâmicos, Abdel Moneim Abou Fotouh, ex-líder da Irmandade Muçulmana, ou Mohamed Morsi, do partido da Liberdade e Justiça, o braço eleitoral da Irmandade. E se Amr Moussa, que foi ministro de Exteriores de Hosni Mubarak entre 1991 e 2001, levar a presidência? "Aí definitivamente é a volta do velho regime".
Na entrevista a seguir, o intelectual suíço fala sobre as fraquezas da interpretação política do Islã e sugere que uma solução mais inteligente para os problemas do Oriente Médio possa estar na experiência brasileira de Leonardo Boff e Dom Hélder Câmara e na Teologia da Libertação. 

Qual sua opinião sobre os candidatos e o nível do debate político nesta primeira eleição presidencial no Egito pós-Mubarak?
Para começar, a Constituição não está pronta e quem governa o país ainda é o Exército. Jogos de poder estão acontecendo por baixo dos panos. A candidatura de Omar Suleiman, ex-general de Mubarak, e depois sua saída da disputa foi uma das muitas manobras para impedir outros nomes de entrar na corrida. A novidade boa é que as pessoas podem votar, mas as eleições não estão sendo transparentes e o resultado pode ser desapontador. Quanto aos candidatos, os que lideram as pesquisas são Amr Moussa, ex-ministro de Mubarak, e os islâmicos Abdel Moneim Abou Fotouh e Mohamed Morsi. Achei o debate televisivo entre Moussa e Abdel Moneim fraco. Em vez de políticas públicas para o Egito, os candidatos ficaram discutindo que interpretação do Islã é melhor para o país.

O sr. afirma em seu último livro que um debate polarizado entre a visão secular e a visão islâmica é perigoso para o país. Por quê?
Porque quem pode levar vantagem nisso é o velho regime. O que descrevo no livro é esse ciclo vicioso em que os secularistas apelam para os valores ocidentais enquanto os islâmicos se dizem os verdadeiros representantes do povo e os protetores da tradição muçulmana diante do imperialismo ocidental. O que o país precisa é acabar com a corrupção e com a não transparência das instituições. Além disso, precisa melhorar a educação e pensar na estabilidade regional, temas que foram completamente esquecidos no discurso dos candidatos.

Quatro em dez egípcios vivem com menos de US$ 2 por dia. Qual deve ser o foco da reforma econômica no país?
A agricultura egípcia precisa passar por uma reforma que leve em conta as necessidades do povo no campo, e o país necessita pensar qual seu papel econômico no Oriente Médio e Norte da África. O Egito é obcecado com o apoio econômico dos EUA. Gamal Mubarak, filho de Hosni Mubarak, até esboçou um relacionamento com a China, porém se apoderando de empresas e direcionando multinacionais a seu bel-prazer. O turismo também precisa ser modernizado. Alguns egípcios têm uma mente estreita sobre como se relacionar com turistas. Mas a prioridade deve ser acabar com a corrupção empresarial e estatal e tirar do controle dos militares setores inteiros da economia.

Os militares vão abrir mão do poder quando o presidente for eleito e a Constituição estiver pronta?
Tanto não estou confiante disso que decidi escrever The Arab Awekening. Converso com muitas pessoas no Egito e elas dizem que depois das eleições os militares vão embora. Não vai ser assim, nunca é. Quando falamos de Exército estamos tratando de poder político, poder econômico e relações externas. O diálogo dos EUA com o Egito se dá por meio dos militares e eles não vão ceder esse lugar. Não consigo imaginar um candidato da Irmandade Muçulmana vencendo as eleições e o Exército aceitando a decisão. Para os militares egípcios, a Irmandade tem a mesma ideologia daqueles que eles consideram terroristas na Palestina.

O pensador americano Noam Chomsky diz que os EUA só permitirão uma 'democracia administrável' no Egito. O Ocidente quer um Egito domesticado?
Os EUA e a Europa protegem seus interesses geoestratégicos na região de modo paradoxal: eles têm petromonarquias como aliadas ao mesmo tempo que forçam a queda de ditadores em países com grandes mercados consumidores. Dito isso, não acho que uma democracia completamente transparente na região vá agradar aos EUA porque isso seria perigoso demais. Eles sabem qual é o sentimento do povo egípcio sobre Israel e o modo como os israelense tratam os palestinos. E, é claro, uma mudança na relação entre Egito e Israel não vai ser aceita pelo Ocidente. Por isso acho que o Egito caminha para uma democracia controlada, que é uma contradição em termos.

A Turquia é o modelo a ser seguido pelos países muçulmanos?
Entre os países de maioria muçulmana não houve gente mais brilhante nos últimos 25 anos do que o grupo que lidera a Turquia. O presidente, o primeiro-ministro, o ministro de Relações Exteriores e seus assessores e conselheiros combateram a corrupção e usaram a expectativa de entrar na União Europeia como trunfo para controlar o Exército. A Turquia entendeu que ser moderno não é ter menos Islã, é ter menor presença militar. Também percebeu que a entrada na UE não ia acontecer porque Angela Merkel e o então presidente francês, Nicolas Sarkozy, não deixariam um país muçulmano ser europeu. Então a Turquia se voltou para a China, para a Índia e para o Sul em busca de novas alianças. Hoje ela tem 40 embaixadas em países africanos. O país buscou mais diversidade econômica, mais parceiros comerciais e estabeleceu um novo equilíbrio regional. Mas algumas coisas ainda podem ameaçar esse sucesso.

Como o quê?
Quando o sucesso é grande assim os líderes se apaixonam pelo poder e já começamos a ver um troca-troca de cargos entre o mesmo grupo de pessoas. O hoje presidente foi primeiro-ministro e, antes disso, ministro de Relações Exteriores. A cobiça dos líderes turcos que construíram uma experiência histórica pode corromper o sistema. Outra questão tem a ver com os EUA e a Europa, que não veem problemas com países islâmicos quando esses são capitalistas. A Arábia Saudita, por exemplo, é contra a democracia e a favor do livre mercado, além do que os sauditas mandam todo o seu dinheiro para bancos ocidentais. Os turcos estão competindo no livre mercado e dizendo "Olha, somos como vocês", mas a Turquia quer tanto ser aceita pela comunidade internacional que se esquece de que democracia liberal não tem nada a ver com economia liberal. Em termos econômicos, liberal é deixar que os melhores e mais poderosos reinem. É isso o que queremos?

O sr. sugere que o movimento de politização do Islã tem semelhanças com a experiência brasileira da Teologia da Libertação. De que maneira se parecem?
Passei bastante tempo com Dom Hélder discutindo isso. Os primeiros textos políticos do Islã no século 20 refletem experiência parecida com a da Teologia da Libertação. Comparo a visão de Hassan al-Banna, fundador da Irmandade Muçulmana no Egito dos anos 20, com a leitura que Leonardo Boff e Dom Hélder fizeram do cristianismo a partir da história de Moisés. Moisés liderou o povo contra os poderosos, pregando liberdade, dignidade e igualdade. A Teologia da Libertação foi uma interpretação da Bíblia a partir do olhar dos pobres e acho que podemos ler o Alcorão da mesma maneira: não queremos ser colonizados, queremos livrar a economia do capitalismo especulativo. Antes de ser assassinado, Al-Bana organizava uma rede de pequenos e médios empreendimentos, até bancos populares, para funcionar fora do alcance do sistema capitalista. Mas não é essa a discussão que vemos entre os presidenciáveis, que discutem a qualificação do Estado islâmico e não propõem um modo de vida mais igualitário, justamente a proposta ética do Islã. Os islamistas se limitam a pregar a sharia (lei islâmica) e se esquecem da essência e dos objetivos morais da religião. Por isso quero promover o primeiro encontro entre teólogos da libertação da América Latina e acadêmicos islâmicos na Tunísia, em fevereiro. Hoje os islâmicos do Egito e da Tunísia são considerados "do bem" porque abrem mão de colocar a sharia na Constituição. Coloquem ou não, não importa. O problema é: qual a visão política deles? 

A sharia deve ser parâmetro para a Constituição egípcia?
Se a tomarmos como conjunto de regras e punições, é claro que não. Mas, se for entendida como uma visão para uma sociedade de dignidade e respeito, não vejo problema. Infelizmente, a sharia exige implementações formais que às vezes contradizem a essência da mensagem do Islã. É o que acontece, por exemplo, nas petromonarquias.

Por que as petromonarquias estão fechadas ao espírito revolucionário dos vizinhos?
Porque esses países dão estabilidade econômica e segurança, por meio do controle, a seus cidadãos. Na única petromonarquia em que houve um levante, o Bahrein, o conflito foi traduzido como uma luta entre sunitas e xiitas. Não é verdade. Os manifestantes do Bahrein pediam abertura e democracia, como na Tunísia e no Egito, mas a cobertura da mídia ocidental e da Al-Jazeera, com sede no Catar, foi parcial. A Al-Jazeera insuflou o espírito revolucionário dos egípcios e dos tunisianos, mas no Bahrein ela ficou calada. Por quê?

O ativista digital Wael Ghonim comparou a revolução egípcia com a Wikipedia, "na qual todos colaboram na construção". Com frequência o sr. critica essa euforia em relação ao papel da internet nas manifestações.

Wael Ghonim é um sonhador ou está fingindo ser um, porque o que ele diz é uma completa ilusão. Não é possível fazer nada no Facebook ou no Google sem ser monitorado. Não são plataformas para a liberdade individual. O governo americano sabia que blogueiros egípcios tinham sido convidados por ONGs americanas, como o Albert Einstein Institution, a Freedom House e o International Republican Institute, para participar de seminários sobre ativismo social e métodos de protesto não violento. Isso anos antes dos protestos em Tahrir. Hosni Mubarak também sabia disso, tanto que prendeu gente que voltava desses encontros. Em 2003 George W. Bush disse que a guerra do Iraque era o primeiro passo para um movimento de democratização do Oriente Médio. Quem estava por trás do movimento nas redes sociais? Wael Ghonim vai dizer: o povo. Não, me perdoe, não foi. No início pelo menos não. Reconheço o papel importante que a internet teve para o surgimento de uma nova consciência do povo árabe, mas precisamos manter esse sentimento revolucionário aceso. A luta não acaba nas eleições de hoje.

Por que o sr. chama de 'castradora' e 'imperialista' a interpretação de que os levantes árabes aproximaram os manifestantes muçulmanos dos valores ocidentais?A primeira preocupação do Ocidente quando as manifestações explodiram foi: será que são fundamentalistas islâmicos? Ficou claro que eram jovens que compartilhavam os mesmos valores de justiça e liberdade que nós. O Ocidente ficou aliviado. O "outro" de repente se tornava nosso semelhante. Mas logo esse sentimento mudou, com o resultado das eleições parlamentares do Egito e a ascensão de políticos islâmicos. O Ocidente ficou chocado porque se esqueceu de que os manifestantes em Tahrir eram muçulmanos e tinham uma tradição cultural diferente. A teoria de Edward Said, no seu livro Orientalismo, está correta. Seu trabalho acadêmico sobre como o imperialismo forjou a construção do outro na imagem do Islã e dos muçulmanos é seminal. Mas Said é um pensador árabe de tradição cristã que parte do raciocínio ocidental para criticar o Ocidente. Ele diz "é assim que vemos os muçulmanos", mas não pergunta como os muçulmanos veem a si mesmos. Said reproduz o sistema opressivo como os marxistas fizeram. Usaram o tecido cultural do dominador para criticar o dominador, mas a partir da lógica dominante. Ninguém no Ocidente precisa concordar com o que as sociedades muçulmanas pensam e como agem, mas é preciso ouvir o que dizem e tentar entendê-las.

O Marrocos tem uma nova Constituição, mas o rei ainda detém poder de veto; os manifestantes no Bahrein foram silenciados; a transição na Líbia corre o risco de sucumbir aos interesses de líderes locais; e a Síria vive uma guerra civil. Esses países tiveram, se muito, apenas vitórias de curto prazo?
Sim, e por isso não uso a palavra revoluções. Podem ter sido revoltas incompletas ou já fracassadas. Na Líbia ficou claro que os interesses econômicos da Europa, dos EUA e da Turquia foram assegurados com a intervenção militar da comunidade internacional. Importante é a região na Líbia que faz fronteira com o norte do Mali e a Nigéria. Ali há recursos minerais preciosos e ali também se concentram terroristas. Isso pode ser usado para justificar uma presença prolongada das Forças Armadas da França e dos EUA na região, com a prerrogativa de proteger o Mali. Já o Iêmen é importante para a estabilidade regional porque ele abriga grupos terroristas que migraram do Afeganistão. Agora, não vejo solução para a Síria. Sem dúvida ela será palco do maior desafio muçulmano até agora e o conflito vai depender do relacionamento complicado entre sunitas e xiitas, a divisão mais espinhosa do Islã. 

No mês passado, Sarkozy criticou Hollande porque o socialista supostamente tinha apoio seu. O agora presidente francês desmentiu a informação com medo de perder votos. O que esperar de Hollande quanto à imigração?
Não espero nada. O ministro do Interior de Hollande é Manuel Valls, a reencarnação de Sarkozy. Ele lida com a imigração com o mesmo pulso forte, qualquer coisa pode sair dali. Na sexta-feira eu faria uma palestra em Paris, mas as autoridades locais impediram o uso de um auditório. Tive que transferir os trabalhos para uma mesquita. No sábado pediram para eu adiar minha presença em outro evento porque ali ocorreria um festival judaico. Não é só uma perseguição pessoal contra mim. Essa atitude ofensiva mostra como o clima na França está ruim. Sempre digo para as pessoas que sou, no skyline intelectual, o que os minaretes são para as cidades suíças (em 2007 um grupo de políticos da direita proibiu a construção de novos minaretes nas mesquitas no país). Sou apenas o símbolo em evidência. Por baixo existe uma construção sólida.
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Reportagem por Carolina Rossetti
Fonte: Estadão on line, 26/05/2012
 

Quem tem medo de Dalton Trevisan?

João Cezar de Castro Rocha*

Caricatura do escritor Dalton Trevisan - Loredano

 Anunciado esta semana como vencedor do Prêmio Camões, o autor paranaense consagrou uma galeria de personagens exemplarmente medíocres, sob o coerente signo da concisão

Dalton Trevisan (1925) é autor de uma das obras mais originais da literatura brasileira. Com sabor de paradoxo, es,sa originalidade foi conquistada através da recorrência obsessiva de temas, de personagens, de situações e de uma fidelidade quase perfeita à forma do conto - em sua extensa obra, a exceção é o romance A Polaquinha (1985).
Acrescente-se uma habilidade incomum para ampliar os efeitos linguísticos de seus textos a partir da redução aparentemente contraditória do universo das palavras, além do emprego deliberado de chavões. O resultado é uma estética da contenção; aliás, no duplo sentido da palavra: conciso e agônico.
O vampiro de Curitiba é um jogador de xadrez que sempre lança mão de idêntica abertura de jogo e adota um único sistema defensivo, porém nunca repete o xeque-mate! Detalhe relevante, porque ele costuma vencer suas partidas.
Recordemos a trajetória fundamental do autor de Cemitério dos Elefantes (1964).
Com sabor de paródia, Quem Tem Medo de Vampiro?, reunido em Dinorá (1994), talvez seja um ponto de partida conveniente. Pelo avesso, o conto oferece um retrato da literatura (e mesmo de aspectos da biografia) de Dalton Trevisan. O texto incorpora satiricamente as ressalvas mais comuns feitas a seu estilo, transformando em matéria ficcional a incompreensão de certos críticos. Leia-se a abertura: 
“Há que de anos escreve ele o mesmo conto? Com pequenas variações, sempre o único João e a sua bendita Maria. Peru bêbado que, no círculo de giz, repete sem arte nem graça os passinhos iguais. Falta-lhe imaginação até para mudar o nome dos personagens. Aqui o eterno João: ‘Conhece que está morta’. Ali a famosa Maria: ‘Você me paga, bandido.’”
O retorno de personagens em narrativas do mesmo autor não é exatamente novidade e nem precisamos mencionar a Honoré de Balzac. Por exemplo, Quincas Borba surge como personagem em Memórias Póstumas de Brás Cubas e posteriormente volta no romance homônimo. 
Contudo, Dalton Trevisan vira o recurso de ponta-cabeça. Nos casos de Balzac e Machado, os personagens que retornam são tipos excepcionais. Na literatura de Trevisan, “João” e “Maria” retornam precisamente por não possuírem traços singulares. 
Ora, se a galeria de personagens é escolhida por ser exemplarmente medíocre, mesmo banal, a linguagem que os define não pode ser exuberante, muito menos barroca. A repetição, tornada método de escrita, exige uma linguagem sistematicamente esvaziada, quase anônima. 
Retorne-se ao conto. De novo, pelo avesso, o autor explicita seu projeto linguístico e temático: 
“Quem leu um conto já viu todos. Se leu o primeiro pode antecipar o último - bem antes que o autor. (...) Mais de oitenta palavras não tem o seu pobre vocabulário. O ritmo da frase, tão monótona quanto o único tema, não é binário nem ternário, simplesmente primário. Reduzida ao sujeito sem objeto, carece até de predicado - todos os predicados. Presume de erótico e repete situações da mais grosseira pornografia. No eterno sofá vermelho (de sangue?) a última virgem louca aos loucos beijos com o maior tarado de Curitiba. (...)”
Naturalmente, o leitor deve inverter o sentido das afirmações, a fim de avaliar a superioridade dessa concepção de literatura, compreendendo na repetição metódica a diferença almejada por Trevisan. 
Escassez não é obrigatoriamente sinônimo de precariedade. Afinal, se literatura é a arte combinatória do propriamente humano, 80 palavras permitem a reinvenção infinita de um núcleo restrito de histórias. Isso para não mencionar os jogos literários que Trevisan inclui com sutileza no “único” conto que reescreve sem parar.
Entre 1946 e 1948, ele foi editor de importante revista, que assim definiu: “O movimento de renovação inventado por Joaquim não tem ambições modernistas: tem ambições modernas.” Por isso, no seu conto, menos é sempre mais. Esteta da concisão, Trevisan vislumbra no conto a possibilidade de um haicai narrativo.
Leia-se, então, O Vampiro de Curitiba, publicado no livro homônimo, saído em 1965. O texto apresenta um personagem-síntese das obsessões do autor: “Nelsinho, o Delicado”, definido com poucas, mas definitivas pinceladas: “Pobre rapaz na danação dos vinte anos.” O nome do personagem não deixa de trazer à baila o universo de Nelson Rodrigues. Ademais, o conto alude à linguagem bíblica, à obra de Machado de Assis, à poesia de Carlos Drummond de Andrade:
“Olhe as filhas da cidade, como elas crescem: não trabalham nem fiam, bem que estão gordinhas. Essa é uma das lascivas que gostam de se coçar. Ouça o risco da unha na meia de seda (...).”
A breve menção à passagem bíblica, acerca da beleza espontânea dos lírios do campo, amplifica o efeito de dessacralização provocado pela sequência imediata: “bem que estão gordinhas”! 
De igual modo, na sua peregrinação, o vampiro Nelsinho, na urgência típica dos 20 anos, flerta não apenas com mulheres as mais diversas, mas também com a literatura.
Recorde-se outra passagem do conto: 
“Cedo a casadinha vai às compras. (...) Ó bracinho nu e rechonchudo - se não quer por que mostra em vez de esconder? -, com uma agulha desenho tatuagem obscena. Tem piedade, Senhor, são tantas, eu tão sozinho.”
Malicioso, o narrador pisca um olho para Machado de Assis, na alusão a Uns Braços. Nesse conto, Inácio, um rapaz de 15 anos, não resiste à visão dos braços nus de D. Severina, “belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina”.
 Ao mesmo tempo, o narrador enfrenta dilema semelhante ao impasse do poeta drummondiano. Leiam-se os versos iniciais de O Lutador: “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco (...).” Basta substituir “palavras” por “mulheres”, e Nelsinho, o Delicado, não hesitaria em se engajar na porfia.
O trânsito entre repetição, esvaziamento da linguagem e jogos literários se encontra no título do primeiro livro de Dalton Trevisan - isto é, o primeiro reconhecido, pois ele renegou suas publicações anteriores. Refiro-me a Novelas Nada Exemplares (1959), cuja menção a Miguel de Cervantes não passou incólume.
Otto Maria Carpeaux reagiu com ambiguidade ao livro, que obteve o Prêmio Jabuti. No calor da hora, ele se viu compelido a ressalvar: “A pretensão inédita desse título parece desafio à crítica.” A resenha não é exatamente favorável, mas tem o mérito de assinalar os eixos da literatura do autor de A Guerra Conjugal (1969) - aliás, adaptado para o cinema por Joaquim Pedro de Andrade.
No juízo de Carpeaux: “Os acontecimentos nas novelas de Cervantes criam nos personagens um estado de alma próprio ‘para el hombre salvarse’. Nas novelas nada exemplares do Sr. Dalton Trevisan, os acontecimentos criam nos personagens um estado de alma para o homem perder-se.” 
Sem dúvida.
A não ser que esse homem seja leitor de Dalton Trevisan.
Nesse caso, ele intui que a esperança de salvação ou o temor da condenação pouco importam ao vampiro (que todos nós somos). 
E não apenas em Curitiba. 
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* JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMENTADA DA UERJ
Loredano - Caricatura do escritor Dalton Trevisan
Fonte: Estadão on line, 27/05/2012

ETs, o sobrenatural e o divino

Marcelo Gleiser*

Somos cegos em relação ao futuro, e é impossível prever as características de inteligências extraterrestres 

SERÁ POSSÍVEL distinguir entre seres alienígenas ultra-avançados e deuses? Inúmeros clássicos da ficção científica, entre eles "2001: Uma Odisseia no Espaço", de Arthur Clar-ke, sugerem que civilizações extraterrestres ultra-avançadas seriam percebidas pela humanidade como divinas. Isso é menos bizarro do que parece, já que ocorreu aqui na Terra, na era das grandes explorações europeias.
Quando os europeus chegaram às Américas, vários nativos os tomaram por deuses. Tinham aparência diferente, usavam trajes estranhos, suas naves enormes podiam viajar por vastas distâncias, sua origem era incerta e podiam matar facilmente com armas de fogo.
No nosso caso, "eles" seriam capazes de feitos que hoje consideramos impossíveis, como se teletransportar, criar novas formas de vida em segundos ou ler nossas mentes. Mas esses impedimentos ocorrem com a tecnologia atual e, em ciência, os sonhos de hoje podem ser a realidade de amanhã.
"Nada é maravilhoso demais para ser verdade, contanto que seja consistente com as leis da natureza", disse o físico Michael Faraday, em meados do século 19.
Por outro lado, muitas descobertas científicas revelam novas leis ou vêm da quebra de leis vigentes. As metáforas e imagens que usamos para descrever o mundo mudam com o tempo, dependentes que são do conhecimento tecnológico e científico da época. Quem, cem anos atrás, compararia o Universo a um computador? E como podemos saber aonde nossa inventividade nos levará em dez ou 50 anos? Ninguém poderia ter previsto que a invenção dos computadores geraria as redes sociais Facebook e Twitter.
Somos parcialmente (se não totalmente) cegos em relação ao futuro não muito distante. Assim, é impossível prever as características de inteligências extraterrestres ultra-avançadas, se é que elas existem. Podemos especular, o que é sempre divertido. Mas os poderes que, para nós, são incríveis hoje, como teletransporte, são inspirados pela ciência atual. O que esses alienígenas são de fato capazes de fazer ou o que nós faremos no futuro é um grande ponto de interrogação.
Como em tantos filmes e livros, pode ser que "eles" estejam por aqui e não possamos vê-los. Pode ser que controlem, ou ao menos influenciem, nossas vidas, invisíveis mas ativos. Seguindo esse raciocínio, a fronteira entre o natural e o sobrenatural fica embaçada. Afinal, se não conhecemos todas as leis da natureza, é possível que o que chamamos de sobrenatural hoje possa, amanhã, ser perfeitamente natural.
Se seus olhos ainda não estão arregalados, pergunto: poderia haver uma conexão entre o sobrenatural e a existência de seres que são perfeitamente naturais mas que, por estarem tão além da nossa compreensão, são indistinguíveis de entidades sobrenaturais?
Não acredito que seja o caso. Apesar de nossa cegueira parcial, já aprendemos muito sobre o mundo natural. Embora limitados, buscamos, rebuscamos e não encontramos nada. "Eles" podem estar rindo às nossas custas (se é que riem). Talvez não existam ou não nos deem a menor importância. Qualquer que seja a resposta, é bom poder continuar a especular. Talvez a cegueira seja nossa maior bênção. 
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*MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita".
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Fonte: Folha on line, 27/05/2012 

A depressão através das eras

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Autor perambula pela história e cultura da depressão e mostra como as atitudes em relação à enfermidade se alteraram ao longo do tempo

O que é a depressão? Os gregos antigos acreditavam que a condição resultava de um desequilíbrio entre os quatro humores do corpo: sangue, fleuma, bile amarela e bile negra; sendo que um excesso desta última resultava em um estado de espírito melancólico. A cristandade primitiva culpava o diabo e a ira divina pelo sofrimento dos homens, e a depressão era resultado dos esforços contra tentações mundanas e pecados da carne. Na Renascença, ela era vista como uma doença de estudiosos, como Robert Burton, autor de A Anatomia da Melancolia, que se dedicavam à especulação profunda e abstrata.
Neste bem pesquisado livro, Clark Lawlor, da Universidade Northumbria, perambula pela história e cultura da depressão e mostra como as atitudes em relação à enfermidade se alteraram ao longo do tempo. Ele traz à vida diferentes escolas de pensamento sobre a questão, e debate o papel do setor farmacêutico em categorizar e tratar doenças mentais.
A parte mais instigante do livro cobre a ascensão da “nova ciência”, quando o foco sobre a melancolia se deslocou mais uma vez. Muito disso pode ser atribuído a Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão que co-descobriu o mal de Alzheimer, que postulava que patologias biológicas subjaziam a cada uma das principais desordens psiquiátricas. O trabalho de Kraepelin, contudo, foi rapidamente eclipsado pelo de Sigmund Freud, cuja conclusão de que as doenças mentais advinham de causas emocionais ao invés de físicas serviu de passe para a ascensão da tradição psicanalítica europeia e americana do século XX.

 "Organização Mundial de Saúde, que entrevistou 89.000 pessoas, revelou que mais de 120 milhões de pessoas por todo o mundo sofrem de depressão, que por sua vez é responsável por 850.000 suicídios todos os anos."

Essas duas visões ilustram boa parte do constante debate acerca da patologia e tratamento das doenças mentais. Para alguns, a doença é uma desequilíbrio na neuroquímica do cérebro passível de ser tratada com remédio – uma deficiência de serotonina – que pode ser remediada por inibidores seletivos de recaptação de serotonina como fluoxetina, mais conhecida como Prozac, que foi receitada para mais de 35 milhões de pessoas em todo o mundo desde seu lançamento em 1988. Para outros, a depressão emerge como uma resposta a danos psicológicos, sendo que a escola freudiana de psicoterapia em particular liga estes danos às condições de criação do paciente.
Hoje cerca de 15% das pessoas nos países desenvolvidos sofrem de depressão, e a doença não dá sinais de enfraquecimento. A recente pesquisa de saúde World Mental Health Survey Initiative da Organização Mundial de Saúde, que entrevistou 89.000 pessoas, revelou que mais de 120 milhões de pessoas por todo o mundo sofrem de depressão, que por sua vez é responsável por 850.000 suicídios todos os anos.
A prescrição de pílulas se tornou um tratamento popular, em parte porque é muito mais rápido que a duração de uma psicoterapia, que pode levar meses ou até anos. Mas pesquisas mostram que uma abordagem holística que trata tanto o corpo quanto a mente com uma combinação de medicação e terapia de fala oferece os maiores benefícios de longo prazo. O sucesso dessa abordagem sugere que tanto Kraepelin como Freud estavam corretos.
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 http://opiniaoenoticia.com.br/vida/saude/a-depressao-atraves-das-eras/27/05/2012

Chivas é poder

Luis Fernando Veríssimo*

O uísque foi a bebida de uma época, e o tilintar das pedras de gelo no copo, seu som característico
Contam que, proibido de beber uísque pelo seu médico, o cronista Rubem Braga enchia com gelo um copo que ficava sacudindo perto da orelha. Assim não tinha o uísque mas tinha a sua trilha sonora como consolo. O uísque foi a bebida de uma época, e o tilintar das pedras de gelo no copo o seu som característico. O Brasil deve muito da sua música e da sua literatura, do fim dos anos 1940 até mais ou menos o começo dos 1980, ao Johnny Walker e seus comparsas. Hoje ainda se bebe uísque, mas ele não é mais o fluido vital de uma geração, como foi para Tom e Vinicius e como o que faltava no copo do Rubem Braga.



Uma história da época. Alguém tinha fama de grande anfitrião, entre outros motivos porque tinha sempre uma garrafa cheia de Chivas Regal para receber os amigos. Nem todos os que frequentavam seu apartamento podiam comprar um uísque bom como o Chivas Regal, um luxo como aquele, e recebiam cada nova garrafa cheia com “obas” de satisfação. Que uísque. Que anfitrião. Que amigo! Até entendiam que o limite, a cada noite, fosse uma, e só uma, garrafa de Chivas Regal. O que importava, se na reunião seguinte lá estaria outra garrafa cheinha, para felicidade dos convidados e maior prestigio do anfitrião?



Deduziram que o anfitrião tinha um estoque de Chivas Regal. Era isso?

– Não, não – explicou o anfitrião. – Tenho um fornecedor. Compro regularmente.

“Gastando uma fortuna”, foi o que passou pela cabeça de todos. Além de generoso, o anfitrião era um homem de posses e, possivelmente, de influência, talvez um dos pró-homens da República. Quem tinha sempre uma garrafa cheia de Chivas Regal para servir aos seus convidados mostrava mais do que bom gosto. Chivas Regal era poder. Chivas Regal era a marca de um espirito nobre. E a admiração pelo anfitrião só aumentava.

Até que um dia.



Um dia um dos convidados, ao primeiro gole, decretou:

– Isto não é Chivas.

Abriu-se uma clareira de espanto. Como? Que audácia. Que acinte. Que falta de educação. O que o anfitrião iria pensar? O anfitrião apenas sorriu e perguntou:

– O que é então?

– Ou muito me engano, ou é Old Cock – disse o outro, citando o nome de um uísque inferior (o nome verdadeiro não é este, claro) que, diziam, era usado na limpeza de motores e dava azia terminal.

E o denunciante contou que, sem ninguém ver, fizera uma pequena marca no rótulo da garrafa de Chivas esvaziada na reunião anterior. E lá estava a pequena marca no rótulo da garrafa recém-aberta. A garrafa era sempre a mesma. O anfitrião só mudava o conteúdo, enchendo-a de uísque barato e mantendo no alto o seu prestigio. Que, claro, acabou – pelo menos no grupo da época – com a revelação de que, durante todo aquele tempo, ele servira Old Cock ou até coisa pior em garrafa de Chivas.



Hoje o anfitrião é um conhecido lobista em Brasília, onde continua servindo Chivas falso. E com sucesso. A maioria dos seus convivas não sabe distinguir Chivas de Old Cock ou coisa pior. E na política, mais do que qualquer outra atividade humana, o importante é a aparência. O moralista pode ser um sem-vergonha disfarçado, o honesto apenas um corrupto mal cantado. Basta parecerem que são o que não são. O que vale é o rótulo, não o conteúdo.

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* Jornalista. Escritor. Cronista da ZH
Fonte: ZH on line, 27/05/2012
Imagem da Internet

País de poetas

 Juremir Machado da Silva*

<br /><b>Crédito: </b> ARTE JOÃO LUIS XAVIER
Bizarro! Poesia não dá dinheiro. Ninguém quer publicar poesia. Editores fogem de poetas como fogem da declaração do Imposto de Renda. Ninguém lê poesia neste país de rios, mares e Cachoeiras. Mesmo assim, entre os ícones da Nação, estão alguns poetas do século XX: Drummond, Bandeira, Vinícius, Cecília, João Cabral e Gullar. Tem outros. É muito difícil encontrar, contudo, excetuando-se os especialistas, alguém que, ao mesmo tempo, goste de Drummond e saiba citar títulos de dois livros dele, salvo se for um adolescente certinho estudando para o vestibular de Medicina. O mesmo vale, no Rio Grande do Sul, para Mário Quintana. É mais fácil saber uma tirada espirituosa do poeta alegretense ou até uma resposta genial dele a um chato do que o título de um livro seu. Um, sei lá, vamos, até sai. E aí, sai dessa!

Poesia é algo que se lê de maneira avulsa. Guarda-se um poema, não o livro todo. Fica-se com um verso, não com a poesia inteira. O trabalho do poeta é insano: produz milhares de palavras para que uma dúzia entre no imaginário popular e o imortalize. Com Fernando Pessoa, que virou incontestável, é assim. Todo mundo o conhece por "navegar é preciso/viver não é preciso" e por mais alguns fragmentos. Boa parte sabe citar o título do seu mais famoso poema, "Tabacaria". De qual dos seus heterônimos? Sabe-se também recitar:
 "Não sou nada/
Nunca serei nada./
Não posso querer ser nada./
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo". 
 
Essa sacada perdoa as centenas de "não me matem, por amor de Deus".

Pessoa foi um marqueteiro fantástico. Ao criar os seus heterônimos, bancou uma diferença capaz de garantir trabalho para os críticos ao longo dos séculos. Nada os deixa mais felizes do que descobrir algo por trás do que o leitor vê. O marketing, na época, estava atrasado e não lhe valeu sucesso em vida. Sem problema, os poetas de então buscavam a posteridade. Ainda não havia Twitter nem medição de audiência. A poesia não vende, mas muitas editoras vivem de poetas consagrados. A Cia das Letras tomou Drummond da Record. Vai explorar um baita filão vendendo para o Estado. Depois de 2016, segundo já se andou dizendo por aí, porém, o Ministério da Educação não vai distribuir mais livros em papel para as escolas. Para que gastar com impressos se tudo está na Internet? Digita-se "elegia, drummond" no Google e já aparece: "Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo".

A Internet é o melhor dos mundos para os poetas. Pode-se publicar incansavelmente sem pedir licença a ninguém. Os poetas, contudo, ainda são reféns do papel. O virtual não lhes parece um espaço suficiente de legitimação e orgulho. Querem o editor, o selo na capa, o reconhecimento do selecionador, a distinção, o cheiro de tinta, as ambições de outrora, uma casa. Dizem que a poesia está ultrapassada. Como pode estar ultrapassada esta maneira de falar a verdade em Pessoa: 
"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia".
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* Sociólogo. Escritor. Prof. Universitário. Cronista do Correio do Povo |juremir@correiodopovo.com.br
 Crédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER
Fonte: Correio do Povo on line, 27/05/2012

Cidadania ou Emancipação Humana

                                                               IVO TONET*
 
Introdução

Fala-se muito, hoje, em cidadania como se esse termo fosse sinônimo de liberdade tout court. Supõe-se que lutar por um mundo cidadão seria o mesmo que lutar por uma sociedade efetivamente livre e humana. Supõe-se também que, com a cidadania, que certamente é inseparável da democracia, teria sido descoberta a forma mais aperfeiçoada possível de sociabilidade. Não porque fosse perfeita, mas porque estaria indefinidamente aberta a novos aperfeiçoamentos.
A nós, pelo contrário, parece-nos equivocado pensar que a cidadania expressa a forma superior da liberdade humana. Por suas origens e sua função social, ela representa uma forma de liberdade, certamente muito importante, mas essencialmente limitada. Ao nosso ver, a efetiva emancipação humana é, por seus fundamentos e sua função social, algo radicalmente diferente e superior à cidadania, que é parte integrante da emancipação política. Esclarecer essa distinção é hoje da máxima importância, se queremos que a luta social seja claramente orientada para a superação desta forma desumanizadora de sociabilidade, cujas raízes se encontram no capital. Por sua vez, este esclarecimento supõe a busca da natureza mais íntima tanto da cidadania quanto da emancipação humana. É isto que nos propomos fazer, brevemente, nesse texto.

O ponto de partida
O rastreamento histórico é o caminho mais comum quando se busca entender a questão da cidadania. Não nos parece que seja este o melhor caminho. Certamente, o conhecimento da história é muito importante. No entanto, o processo histórico é algo extremamente complexo e variado. Como evitar que nos percamos em meio a esta complexidade e variedade de aspectos. Precisamos de um fio condutor que nos permita compreender a lógica do processo histórico. Este fio, ao nosso ver, são as determinações gerais que caracterizam o processo de autoconstrução humana. Vale dizer, a primeira pergunta não pode ser o que é a cidadania, mas o que é o homem; o que são essas determinações fundamentais que demarcam o processo de tornar-se homem do homem. Este é o caminho que nos parece mais adequado para compreender todo e qualquer fenômeno social.
Na perspectiva marxiana, este fio tem como ponto de partida o ato que, para Marx, é o fundamento do ser social, ou seja, o ato do trabalho. Segundo ele, se queremos respeitar o processo real, temos que partir não de especulações ou de fantasias, mas fatos reais, “empiricamente verificáveis”, vale dizer, dos indivíduos concretos, suas ações, as relações que estabelecem entre si no trabalho e suas condições reais de existência. E o primeiro ato dos homens é exatamente o ato de trabalhar. Somente assim poderemos capturar as determinações fundamentais que caracterizam o ser social e seu processo de reprodução. O exame acurado do ato de trabalho permite a Marx perceber que este se compõe de dois momentos: a teleologia e a causalidade. Dois momentos, ressalte-se, de igual estatuto ontológico. Ou seja, de um ponto de vista ontológico, a consciência é tão importante como a realidade objetiva. Trabalhar é, portanto, conceber antecipadamente o fim que se pretende alcançar e atuar sobre a natureza para transformá-la de acordo com este objetivo. Por outro lado, ao transformar a natureza, o homem cria, ao mesmo tempo o seu próprio ser. Tanto Marx, como Lukács, insistem que é por intermédio do ato do trabalho que se realiza o salto ontológico do ser natural ao ser social.
A partir da análise mais rigorosa da estrutura ontológica do trabalho, pode-se perceber que o ser social é um ser radicalmente histórico e social. Isso quer dizer que não existe nada, no ser social, que seja imutável; que a totalidade deste ser é sempre o resultado dos atos humanos. Do que se segue que nenhuma ordem social pode reclamar o título de insuperável. A partir da análise do trabalho, também se pode perceber que o ser social é um ser que se caracteriza essencialmente pela atividade, pela sociabilidade, pela consciência, pela liberdade e pela universalidade. Estas determinações constituem elementos essenciais do ser social. No entanto, é preciso sublinhar enfaticamente; a noção marxiana de essência não é, de modo algum, uma noção metafísica. Ao contrário, ela é inteiramente histórica. O que significa que aquelas determinações também têm sua origem nos atos humanos. O que as distingue dos aspectos fenomênicos não é a sua imutabilidade, mas a sua maior unidade e continuidade.
Contudo, o fato de o trabalho ser o ato originário do ser social, não significa que ele esgote a natureza deste ser. Por sua natureza, o trabalho é uma atividade que tem a possibilidade de produzir de forma cada vez mais ampla. O que significa que a complexificação sempre mais intensa é uma característica própria do ser social. Esse aumento da complexificação é responsável pelo surgimento de problemas e de necessidades que não podem ser resolvidos ou satisfeitas diretamente pelo trabalho. A resolução destes problemas e a satisfação destas necessidades exige a estruturação de outras dimensões específicas, como a linguagem, a ciência, a arte, a educação, o direito, a política, etc. Todas estas dimensões têm sua origem na dimensão fundante do trabalho, mas isto não significa, de modo algum, que seja por derivação direta e mecânica. A autonomia relativa é-lhes necessária para que possam cumprir suas funções sociais. Donde se segue que, para compreender qualquer uma destas dimensões, teremos sempre que buscar as suas origens histórico-ontológicas e a função que devem cumprir na reprodução do ser social.

Cidadania e emancipação humana
Munidos destes pressupostos, podemos interrogar-nos acerca da natureza da cidadania e da emancipação humana.
Para Marx, a cidadania é parte integrante do que ele denomina emancipação política. Portanto, do campo da política. E a política é, para ele, em sua essência, uma forma de opressão. Como diz, no Manifesto do Partido Comunista, de 1848: O poder político propriamente dito é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra.
Ao contrário dos autores liberais, que consideram a política como a dimensão fundante da sociedade, Marx afirma que a emancipação política tem seu fundamento no que ele chama de sociedade civil, ou seja, nas relações econômicas. E a emancipação política é uma dimensão que tem suas origens históricas na passagem do feudalismo ao capitalismo. Suas raízes histórico-ontológicas se encontram no ato de compra-e-venda de força de trabalho, com todas as suas conseqüências para a constituição da base material da sociedade capitalista. Este ato originário produz, necessariamente, a desigualdade social, uma vez que opõe o possuidor dos meios de produção ao simples possuidor de força de trabalho. E o que acontece, todos os dias, diante dos nossos olhos nos mostra que a produção da desigualdade social é uma tendência crescente e não decrescente da reprodução do capital. O que significa que será cada vez mais forte a impossibilidade de criação de uma autêntica comunidade humana sob a regência do capital.
No entanto, este ato originário precisa, para se tornar efetivo, de homens livres, iguais e proprietários. Não, porém, efetivamente livres, iguais e proprietários, mas apenas no aspecto formal. Ou seja, apenas na sua dimensão jurídico-política e nunca em sua dimensão social. Esta situação é a responsável pelo fato de a sociedade capitalista ser, necessariamente, dividida em uma dimensão privada e em uma dimensão pública. Sendo sempre a primeira a matriz da segunda. O resultado disto é que esta esfera – jurídico-política – não é indefinidamente aperfeiçoável, mas, pelo contrário, essencialmente limitada. Ser cidadão é ser participante desta dimensão pública. Ser cidadão, portanto, não é ser efetivamente, mas apenas formalmente, livre, igual e proprietário. Por mais direitos que o cidadão tenha e por mais que estes direitos sejam aperfeiçoados, a desigualdade de raiz jamais será eliminada. Há uma barreira intransponível no interior na ordem social capitalista. Conseqüentemente, a busca, hoje, pela construção de um mundo cidadão é uma impossibilidade absoluta. Em resumo: apesar dos aspectos positivos, para a emancipação humana, que marcam a cidadania, ele é, por sua natureza mais essencial, ao mesmo tempo expressão e condição de reprodução da desigualdade social e, por isso, da desumanização. Por isso mesmo, deve ser superada, não porém em direção a uma forma autoritária de sociabilidade, mas em direção à efetiva liberdade humana.
O que, de fato, deve ser buscado é a emancipação humana.Esta, porém, é algo muito distinto da cidadania e da totalidade da emancipação política. A emancipação humana, ou seja,uma forma de sociabilidade na qual os homens sejam efetivamente livres, supõe a erradicação do capital e de todas as suas categorias. Sem esta erradicação é impossível a constituição de uma autêntica comunidade humana. E esta erradicação não significa, de modo algum, o aperfeiçoamento da cidadania, mas, ao contrário, a sua mais completa superação. Como diz Marx, nas Glosas Críticas, há uma distância infinita entre o cidadão e o homem, assim como entre a vida política e a vida humana.
Assim como o ato fundante da emancipação política é a compra e venda de força de trabalho, o ato originário da emancipação humana deve ser, necessariamente, o trabalho associado. Este ato pode ser definido, de início, como uma forma de relações que os homens estabelecem entre si na produção econômica, onde as forças individuais são postas em comum e permanecem sempre sob o controle comum. Como conseqüência, os homens detêm o controle consciente da integralidade do processo de trabalho. É isto que torna o trabalho uma atividade efetivamente livre. No entanto, este ato de trabalho – associado – exige, para sua efetivação, duas condições. Primeira: um grande desenvolvimento das forças produtivas, que possam produzir bens suficientes para atender as necessidades de todos. Segunda: a diminuição do tempo de trabalho, de modo a que os homens possam dedicar-se a atividades mais propriamente humanas. Tais condições são o resultado do próprio capitalismo, embora se apresentem de maneira deformada e desumanizadora sob o capital.
Esta forma de trabalho é a única que pode impedir a apropriação privada das forças sociais e, com isso, eliminar o capital, as classes sociais, a divisão social do trabalho, o mercado e todas as objetivações democrático-cidadãs. Por isso mesmo, também é a única que pode permitir a construção de uma autêntica comunidade humana, ou seja, de uma comunidade onde todos os indivíduos possam ter acesso amplo a todas as objetivações – materiais e espirituais – que constituem o patrimônio da humanidade; onde poderão desenvolver amplamente as suas potencialidades; onde se encontrarão em situação de solidariedade efetiva uns com os outros e não de oposição e concorrência.
Neste momento, os homens terão chegado ao patamar mais elevado de sua entificação. E, ao contrário da emancipação política, este é um patamar que abre um processo infinitamente aperfeiçoável para a humanidade. Só então se poderá dizer que os homens são efetivamente livres. O que não significa dizer que serão nem completa nem inteiramente livres, mas que serão o mais autodeterminados possível enquanto homens.
No entanto, é importante ressaltar: a emancipação humana não é algo inevitável. É somente uma possibilidade. Se se realizará ou não, dependerá da luta dos próprios homens. Contudo, ao contrário da impossível cidadania mundial, ela é uma possibilidade real, cujas bases se encontram na materialidade do próprio ser social.

* IVO TONET é Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Doutor em Educação pela UNESP. Publicado na REA, nº 44, janeiro de 2005, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/044/44ctonet.htm