sábado, 30 de junho de 2012

O exército de Brancaleone

Menalton Braff*

 

Até o fim desta crônica, vocês, os que até lá persistirem, vão descobrir por que me sinto, ao escrevê-la, verdadeiro soldado do exército de Brancaleone, o que, de certa forma, posso adiantar, significa alguma coisa próxima de não estar na moda. Sei que não estou na moda. Há muito tempo já não me preocupam muito as opiniões, sobretudo da maioria. E isso não me tem causado remorso algum. Além de meu amigo Adamastor, pouca gente ousaria acusar-me por tal gosto de caráter antidemocrático.
Antes de continuar, contudo, e para que não me confundam os propósitos, devo declarar com certa ênfase que meu nome não é Policarpo Quaresma, não me julgo um nacionalista ingênuo nem pretendo apresentar projeto propondo o tupi-guarani como língua oficial do Brasil.
O caso que me tem espantado, ultimamente, é a constatação de que nomes como João, Maria, Pedro, Paulo, Alice e outros, desta lista de bons e antigos nomes com que nossos antepassados batizavam seus filhos, foram seqüestrados e já não fazem parte do acervo onomástico popular. Eram nomes que não dignificavam ninguém, que nome não existe para isso, mas que encaixavam com suavidade em nossos ouvidos. Às vezes até com doçura. Em seu lugar, descubro (ainda não sei se me descrevo angustiado, indignado ou penalizado) que os nomes da moda, pelo menos aqui, onde moro, são Maicon, Greice Kelly, Tcharles, Djony e outros, muitos outros, do mesmo jaez. Convenhamos que, mesmo fonicamente, os nomes antigos dão de dez a zero (para usar expressão da moda, por ser futebolística) nessas canhestras adaptações de nomes de bárbaras procedências. A moda, nem por ser moda, deixa, muitas vezes, de ser ridícula.
Se o caso, entretanto, fosse apenas de moda, mesmo que de gosto discutível, me parece que não seria caso de maior gravidade. Há algo de insidioso por trás de tudo isso, me dizem as antenas já meio calejadas.
Então ouço, agora estarrecido, a história de uma professora. Sua filha adolescente insistiu com a mãe para que fossem à loja comprar uma blusa que, dizia a filha, estava na moda. Chegando lá, esta digna e entristecida mestra, descobriu que a tal blusa estampava a bandeira dos EUA. Chamou a filha a um canto e lhe disse com a aspereza que o caso requeria: – Essa aí, não. Minha casa não vai sofrer invasão nem desembarque de marines. Bandeira, no doce aconchego de nosso lar, só existe lugar para uma: a nossa.
A filha chorou, esperneou, calou.
Consultada, a balconista confirmou que sim, que existiam blusas com a bandeira brasileira, mas que não tinham saída, pois não estavam na moda. Mesmo assim, sem estarem na moda, a indignada mãe comprou uma, correspondente ao manequim da filha, que se recusou à prova.
Hoje, a inconformada professora diz que a blusa está lá, jogada em um fundo de gaveta, aguardando alguma Copa do Mundo, quando poderá, talvez, ter alguma serventia.
Contei a história a meu amigo Adamastor, um aforista, que sentenciou: – Colonizado feliz é a pior merda.
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*  Ex-professor, é contista, romancista (com 18 obras publicadas) e cronista.
Fonte:  http://www.cartacapital.com.br/cultura/o-exercito-de-brancaleone/?autor=958
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O vale-tudo é mundial

Mino Carta*

Escolha. Quem aqui é mais esperto? Fotos: Valter Campanato/ABr e Jewel Samad/AFP
É do conhecimento até do mundo mineral que a crise mundial é o efeito anunciado de uma nova religião de origem anglo-americana fiel do deus mercado, chamada neoliberalismo, responsável pelo surgimento de uma oligarquia financeira internacional à qual se sujeitam os governos nacionais. Epicentro do sismo Wall Street, com a inegável participação de outras praças satelitares. Mesmo assim, Obama, imperturbável enquanto o resto dos crentes ainda não abjurou, diz que culpada é a Grécia.
Excluída a possibilidade de que o presidente dos Estados Unidos se refira à inestimável contribuição da antiga Hélade à cultura do mundo, permito-me imaginar Obama dedicado à prática do pôquer. Tão logo lhe seja possível, deveria rumar para Monte Carlo, que de longe prefiro a Las Vegas, de sorte a explorar convenientemente seu talento, tão bem representado por suas faces pétreas. Cito Obama como a enésima prova de que o vale-tudo político não é exclusivo do Brasil.

Diante de uma declaração que esticaria o nariz de Pinóquio até o horizonte, prefiro a última fala de Paulo Maluf: “Perto do PT, hoje eu sou comunista”. Bem mais esperto, ou menos ingênuo, que o presidente americano. A respeito da surtida malufista, leiam Mauricio Dias em sua Rosa dos Ventos. Muitos petistas, aliás, para justificar o acordo Lula-Maluf a favor da candidatura de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo, apressaram-se a lembrar que Fernando Henrique Cardoso já fez algo similar. Não menos que José Serra contra Marta Suplicy. Ora, ora, não seria lógico que os petistas pretendessem diferenciar-se dos tucanos?
Recordo tempos de patrulhamento feroz organizado pelo PT na oposição, ao defender uma pureza que faltava a todos os demais. A questão discutida na semana passada refere-se ao ritual encenado para sacramentar o entendimento. Assim como faz parte do jogo da política nacional a presença do PP de Maluf na base de sustentação do governo Dilma, o apoio a Haddad cabe na norma, por mais indigesta que pareça. A chamada realpolitik admite concessões, resta ver quais são seus limites.
É da norma, digamos, que os governos chamados a combater a crise tomem medidas que antes de mais nada aproveitam à oligarquia financeira? Até o momento, tudo que se fez não passou disso, e no caso a norma prejudica o mundo. Estamos à espera dos resultados da cúpula da União Europeia, onde se desenha o confronto entre Angela Merkel e François Hollande na esperança da mediação de Mario Monti, singular figura a representar com insólita dignidade uma Itália à deriva, até ontem entregue ao vale-tudo comandado por Berlusconi.
A resistência do euro e o abrandamento sensível de uma política toda voltada para a austeridade teriam efeitos benéficos globais. Contra o vale-tudo dominado pela prepotência e pela hipocrisia. O mesmo vale-tudo que no Paraguai pretende apresentar um golpe de Estado como ato legítimo absolutamente constitucional. Aos meus desolados botões pergunto: qual é a norma? Leio as reações da mídia nativa e lá vou com outra pergunta: e qual é, especificamente, a norma do jornalismo pátrio? Se a norma é a do vale-tudo sem limites, então, meu caro, sossegue seu coração, respondem os botões, entre a melancolia e a irritação.
Derrubar um presidente constitucionalmente eleito em nome da Constituição é o que é, e fica dentro da norma de uma América Latina que permanece bananeira. Quanto aos editoriais dos nossos jornalões, vivem uma norma duradoura há um lustro. Quem estiver em idade adequada e conservar a boa memória, haverá de pensar ter voltado atrás no tempo 48 anos exatos ao tropeçar nas análises da mídia nativa sobre a situação paraguaia. Esforço brutal fiz eu, depois de enfrentar alguns destes textos, para ter certeza de que a data não era um dia de março de 1964. Pois é, pasmem os homens de boa vontade, mas por aqui, pelas redações, a norma ainda é aquela. E só Deus sabe, como diria Armando Falcão, amigão e partícipe da tigrada, aonde seriam capazes de chegar.

De muitos pontos de vista continuamos ancorados no passado. Refiro-me, por exemplo, à chamada, absurda lei da anistia. Um torturador emérito como o coronel Brilhante Ustra tem de ser processado no Cível para ser levado a ressarcir a família do jornalista Luiz Eduardo Merlino, torturado e assassinado nas masmorras da ditadura. Lembrei-me de um episódio marcante que remonta a 1977, em plena ditadura, quando os advogados Marco Antonio Barbosa e Samuel McDowell com rara coragem e competência processaram o próprio Estado ditatorial e conseguiram para a família o ressarcimento pela morte de Vlado Herzog em ação cível. Lei imposta pela ditadura não tem valor algum se vigora a democracia, mas ainda há quem discuta se a paradoxal lei da anistia permite demandas no Cível. Pois esta dita lei teria de ser letra morta, mesmo que tenha havido quem a aceitou naqueles tempos em nome de um justificável vale tudo. Ou a democracia, no caso, foi aposentada?
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Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Jornalista.
Fonte: Editorial:  http://www.cartacapital.com.br/politica/o-vale-tudo-e-mundial/29/06/2012

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Complexo de Midas

Montserrat Martins*
 
Muitas interpretações já foram feitas sobre o aperto de mão de Lula e Maluf, em troca do apoio do partido deste ao Haddad – gesto do qual Lula já disse que não se arrepende. Quero acrescentar mais uma teoria, psicológica: o ex-presidente está com Complexo de Midas, convencido de que tudo em que ele toca vira ouro. Depois de ter indicado Dilma e do sucesso desta na eleição e no governo, acredita que pode fazer o mesmo com quem quiser.
O Complexo de Midas, que ainda não está descrito nos livros de psiquiatria, seria uma percepção onipotente da realidade na qual o indivíduo acredita tanto na própria intuição que desconsidera todos os demais fatores externos, contextuais, no tempo e no espaço. Deixa de se importar com a reação dos outros aos seus atos, convencido de que no final todos lhe darão razão e de que sua genialidade intuitiva será amplamente reconhecida, mais uma vez.
A tese de que estamos diante de um “complexo” psicológico só se confirma, aliás, caso Haddad não “emplaque”, porque sua eleição significaria que o pretenso poder de Lula, de tornar ouro tudo que toca, não é ilusório, mas real. Quando Erundina disse que Lula “passou dos limites” estava expressando não apenas uma convicção moral, mas também a de que desta vez ele se enganou ao desprezar a rejeição à aliança proposta. Algo que só saberemos com certeza quando as urnas forem abertas, em outubro. O ex-presidente já tem tantos feitos assombrosos, em sua história, que mesmo diante do ceticismo geral já li pelo menos uma jornalista política de São Paulo acreditando que ele conseguirá seu intento, mais uma vez.
Trata-se de um exercício de leitura da realidade. Estamos acostumados à História do Brasil contada como uma sucessão de individualidades, desde os Dom Pedros I e II até os Presidentes da República, descontextualizada. O mito da “genialidade” individual de líderes superando o senso comum, coletivo, faz parte dessa leitura “personalizada” da história. Nas últimas três décadas, o movimento social de onde emergiu Lula cresceu e se afirmou pregando o contrário, que a história é escrita coletivamente, a partir do acúmulo de forças de cada grupo social, ideologicamente, numa correlação de forças dentro de um sistema socioeconômico mais amplo.
O personagem que encarnou o papel de liderança máxima desse grupo, agora, se comporta mais como um mito do que como um representante compromissado com a sociedade. Parece agir por conta própria, sem se importar mais com a opinião dos outros, mesmo causando constrangimentos aos companheiros de jornada. Os recordes de popularidade alcançados teriam lhe “subido à cabeça”, enfim, demonstrando sua face humana, pois é difícil resistir a tanto sucesso popular sem se deixar influenciar por ele, desenvolvendo ideias de onipotência.
O que a realidade parece mostrar, no entanto, é que a indicação de Dilma ocorreu num contexto diferente, com uma pessoa que já havia sido testada no cargo (Casa Civil) com sucesso e que mesmo sem ter carisma popular, até então, tinha preparo administrativo. Além disso, essa escolha não constrangeu nenhuma outra liderança de seu grupo, até aquele momento sem um líder natural a sucedê-lo. Haddad, ao contrário, não conseguiu organizar sequer um Enem sem problemas e acabou sendo imposto como candidato “passando por cima” das bases paulistas de seu partido. Não é uma liderança forjada no grupo ou na boa experiência administrativa, é apenas um “escolhido de Midas”.
Lembro ter ouvido Lula se comparar a Getúlio Vargas, tido até hoje como o mais influente Presidente da República da nossa história. Alternando governos democráticos com ditatoriais, Getúlio conquistou o coração do povo por suas virtudes, aparentemente sendo perdoado pelos seus excessos, no julgamento popular. O episódio mais impressionante de todos foi o do apoio político de Prestes, quando este colocou sua visão ideológica e estratégica acima dos sentimentos pessoais mesmo após Getúlio entregar Olga aos nazistas. Vivemos tempos mais amenos, felizmente, e esse breve recuo no tempo foi só para lembrar que limites já foram ultrapassados anteriormente, sem perda da popularidade, quando um líder se torna um mito popular. Os Diários de Getúlio Vargas talvez possam nos dar pistas a respeito, mais que os seus biógrafos. Talvez Lula esteja testando os seus limites, afinal, para saber até que ponto já se tornou um mito, como Getúlio. Pode descobrir que conseguiu, ou então que “bateu no teto”, afinal (enquanto Dilma, em contraste, vem se firmando como liderança mais coerente), e que ele agora tem apenas um Complexo de Midas.
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* Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.
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Fonte:  http://www.ecodebate.com.br/2012/06/29/complexo-de-midas-artigo-de-montserrat-martins/

Estômago e política

Eduardo Hoornaert*
 
Na sexta-feira, 22 de junho, o presidente do Paraguay, Fernando Lugo, foi destituído do governo por um processo sumário de impeachment longamente preparado e articulado pelo poder legislativo daquele país. Esse acontecimento me leva a refletir sobre a relação entre estômago e política. A muitos, essa relação deve parecer estranha, mas ela é muito real. Pois o fato é que o presidente Lugo, por mais que o desejasse, não conseguiu alimentar o estômago dos paraguaios mais pobres. Eis o que declarou, no dia 26 de junho, um dos líderes dos ‘carperos’ (os ‘sem terra’ do Paraguay): ‘A gente mede qualquer decisão do governo através do estômago’.
Ao longo dos três anos de seu governo, Lugo não tinha condições de encher o estômago dos paraguaios, pois ficou preso nas teias de um sistema político que lhe era adverso. Ele ficou sem apoio por parte do congresso nacional, majoritariamente composto de latifundiários ou seus representantes. Por sinal, a maioria das boas terras do Paraguay está nas mãos de brasileiros, que, antes do governo de Lugo, foram se aproveitando das oportunidades excepcionais de fazer agro-negócio numa terra praticamente sem lei. Foram esses brasileiros que, juntamente com os latifundiários paraguaios, ‘cozinharam’ lentamente a panela de pressão que chegou ao ponto de fervura no dia 22 de junho e resultou na violenta ejeção de Lugo da cadeira presidencial. Os mesmos hoje se apressam a tentar justificar a legitimidade do governo golpista.
Ao ler os noticiários sobre esses tristes acontecimentos no Paraguay, lembro-me de uma declaração do político inglês Churchill, durante a segunda guerra mundial: ‘os governos sempre tomam as decisões erradas, até o momento em que se atinge o estômago das pessoas. Aí as coisas mudam rapidamente’. Na segunda guerra mundial, os ingleses só se uniram contra a ameaça nazista depois de sentir no estômago o que estava acontecendo.

 "É aqui que entra o cristianismo.
 O que se lamenta, neste momento, 
é o silêncio das autoridades eclesiásticas. 
Elas não parecem preocupadas 
com o estômago das pessoas, 
pensam em outros assuntos. 
Para o papa de hoje, parece 
que as pessoas não têm estômago."

Essa relação entre estômago e política nos mostra a precariedade do sistema político hoje vigente no mundo inteiro. Esse sistema pensa em dinheiro, não em estômago. Pensa-se em preservar os bancos, ou seja, o sistema de lucro que hoje toma conta do mundo. Isso vai continuar até o momento em que o estômago das pessoas é atingido diretamente. Aí pode haver uma explosão de resultados imprevisíveis. Pois a história ensina que as reações do estômago são perigosas. É como resposta ao grito do estômago dos alemães que Hitler conseguiu subir ao poder nos anos 1930. Oxalá o mundo de amanhã encontre figuras como Churchill, Adenauer e outros, que conseguem pensar no estômago das pessoas e fazer política para alimentar as bocas das pessoas, não as caixas dos bancos. Nosso futuro é ao mesmo tempo fascinante e ameaçador, ele pode dar no melhor ou no pior.
É aqui que entra o cristianismo. O que se lamenta, neste momento, é o silêncio das autoridades eclesiásticas. Elas não parecem preocupadas com o estômago das pessoas, pensam em outros assuntos. Para o papa de hoje, parece que as pessoas não têm estômago. Ele só fala nos perigos do ‘relativismo’, da ‘secularização’, das ‘seitas’, como fica claro na programação do próximo sínodo dos bispos a ser celebrado em Roma no mês de outubro. Onde está o papa João XXIII? Na noite do dia 11 de outubro de 1962 (faz 50 anos!), depois de anunciar pela manhã a abertura do concílio Vaticano II, ele falou à multidão que estava reunida na Praça São Pedro e significativamente pensou no dia-a-dia das pessoas. Ele disse as seguintes palavras: ‘Voltando para casa, vocês encontrarão as crianças. Façam-lhes uma carícia e digam-lhes: Esta é a carícia do papa’. Eis o que nos falta hoje: a carícia de um papa que pensa no estômago da gente! Quem quiser conhecer melhor esse memorável discurso de João XXIII, consulte os trabalhos do padre José Oscar Beozzo pelo Google. A carícia do papa no rosto das crianças! O papa se sente bem quando pensa que as crianças dormem bem, ‘de estômago cheio’. Hoje, somos carentes dessas palavras. Nunca mais ouvimos palavras desse tipo saindo de Roma. Penso que o papa João XXIII foi o último papa em pensar em carícia, beijo, estômago, boca e corpo, ou seja, nas necessidades básicas das pessoas, em vez de pensar na preservação de seu poder.
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* Padre casado, belga, com mais de 5O anos de Brasil, historiador e teólogo, mais de 20 livros publicados. Mora em Salvador. Dedica-se agora ao estudo das origens do cristianismo
Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=68265
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A longa história da cárie

 Fernando Reinach*
 
Muita coisa melhorou na vida do Homo sapiens nos últimos 20 mil anos, mas uma piorou: a quantidade de cáries. É o que concluiu um grupo de dentistas, antropólogos e arqueólogos.
Saber se diabete ou hipertensão eram frequentes na Idade da Pedra Lascada é praticamente impossível. Esqueletos, ruínas e artefatos são tudo de que dispomos para entender como era a vida de nossos ancestrais.
Algumas vezes encontramos ossos quebrados e marcas de pancadas nos crânios, o que permite avaliar o nível de violência ou os acidentes do no dia a dia. Mas talvez nunca venhamos a saber a incidência de doenças metabólicas ou a prevalência da obesidade.
Mas, se essa ignorância incomoda os médicos, os dentistas têm mais sorte. A quantidade de fósseis de crânios humanos é enorme. Muitos se dedicam a verificar o estado dos dentes de nossos antepassados, correlacionando seus achados com a época em que viveram, seus hábitos alimentares e a idade de cada um.
Nossos parentes distantes, os macacos, dificilmente apresentam cáries durante a maior parte de sua vida. Elas e outras doenças dentárias só aparecem no final da vida e são sinal de envelhecimento.
O que sabemos dos dentes de nossos ancestrais mais antigos vem do exame de crânios de humanos que viveram antes do desenvolvimento da agricultura. Examinando mais de mil crânios dessa época, foi constatada pelo menos uma cárie em só 2% dos indivíduos. Eram coletores e caçadores, comiam raízes, frutos, sementes duras e um pouco de carne.
O estado dental começou a piorar há 13 mil anos, no Neolítico, quando surgiu a agricultura. Nessa amostra de crânios, 9% deles possuíam uma cárie. Nessa época o consumo de grãos moídos, ricos em carboidratos, começou a fazer parte da dieta humana. Muito depois, tanto no Egito (há 3,3 mil anos) quanto nos crânios de aborígenes australianos (há uns 70 anos), a quantidade de cáries era próxima a 2%, mas esses povos não haviam adotado completamente a dieta rica em grãos típica das civilizações que adotaram a agricultura.
Açúcar. Nas populações europeias, há até 4 mil anos, a quantidade de crânios com cáries era de 10%. Há cerca de 2,3 mil anos, Alexandre, o Grande, trouxe o açúcar à Grécia. A quantidade de cáries aumentou lá, em Roma e depois em toda a Europa durante a Idade Média. O mesmo ocorreu na Inglaterra, quando, após a conquista das Índias, os navios trouxeram grandes quantidades de açúcar. O imposto sobre o açúcar foi reduzido em 1874 e o consumo explodiu. A partir desse momento, mais de 90% dos crânios ingleses possuem múltiplas cáries em quase todos os dentes.
Nessa época a alta incidência de problemas dentários fez com que as pessoas passassem a limpar os dentes: surgiram escovas, pastas, dentistas. Essa nova tecnologia estancou a incidência de cáries, que estabilizou em nível alto (50% a 90% das pessoas com cáries) na a Europa até meados do século 20. Em 1970, foi introduzido o flúor na água, o que melhorou um pouco a situação. Agora, no início do século 21, pela primeira vez a incidência está aumentando novamente.
A introdução de carboidratos purificados (amido) e solúveis (açúcar) em nossa dieta é provavelmente o grande culpado pelas cáries. Esse estudo é um bom exemplo de como a evolução tecnológica da humanidade é muito mais rápida que a biológica.
Nossa espécie viveu por milhões de anos comendo raízes, frutas, grãos e carne. Sobreviveram os indivíduos com dentes que resistiam nesse ambiente, mesmo sem higiene bucal. Mas o homem descobriu a agricultura e, com ela, carboidratos fáceis e baratos. E começou a consumi-los, apesar de seus dentes não estarem adaptados. Os dentes passaram a apodrecer rapidamente, o que deveria ter pressionado a população a comer menos destes alimentos. Mas novas tecnologias, como a escova e a dentadura, livraram-nos da pressão seletiva, a força maior da evolução.
A lição é simples: qual a melhor dieta para o ser humano? Aquela para a qual fomos selecionados durante milhões de anos, a dos que viveram antes da descoberta da agricultura.
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* BIÓLOGO
MAIS INFORMAÇÕES: AN EVOLUTIONARY THEORY OF DENTISTRY. SCIENCE,  VOL. 336,  PÁG. 973,  2012
Fonte: Estadão on line, 28/06/2012
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Pondé em entrevista à MÍDIA@MAIS



Em entrevista exclusiva, o intectual aborda, dentre outros, temas como ativismo de minorias, supremacia de teses socialistas no mundo cultural e religiosidade. 

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M@M — O senhor acha que hoje vivemos algo parecido a uma “tirania das minorias”, onde uma série de grupos minoritários brigam por “direitos especiais” acima das pessoas comuns? Por exemplo, os ciclistas em São Paulo, que reivindicam o tempo todo mas parecem não ser capazes de respeitar sinais de trânsito como os carros e pedestres comuns? Se a bandeira política de outros tempos era “igualdade”, hoje é “privilégio”?
PONDÉ: De certa forma sim, mas acho que isso é resultado de uma sociedade excessivamente cheia de gente e de interesses; tem que fazer engenharias de acomodação de interesses sociais o tempo todo; o que julgo pior nisso, é que casos como o dos ciclistas.  Acho ótimo quem pode ir trabalhar de bike, nada contra e acho que deve haver uma regulamentação para isso – são comumentemente acompanhados de um senso de superioridade moral do tipo “ando de bike, estou salvanado o mundo, por isso sou melhor que você”. Isso é muito comum hoje em dia. Mas, de certa forma, sempre foi assim, quem acha que faz o bem, se acha superior.

M@M — Há uma noção moderna, e disseminada especialmente pelo cinema e pela literatura, de que a “repressão” (especialmente a de natureza sexual) é a responsável por boa parte dos males humanos e suas infelicidades. O senhor acha que tal noção é verdadeira? A chamada “Revolução Sexual” foi realmente “libertadora”?
PONDÉ: Sem repressão não há tesão. O pecado é um afrodisíaco. A revolução sexual foi um fenômeno da classe média americana junto com a pílula. Há algo de verdadeiro nela, principalmente em termos de marketing de comportamento e de vestuário. Mas não acho que ela implica em mais sexo ou em melhor qualidade de sexo; acho que há 100 anos se fazia mais sexo que hoje. 

M@M — Após o fim do regime militar, percebemos a predominância praticamente absoluta do pensamento de esquerda, marxista, no meio universitário, na imprensa, entre os artistas e “formadores de opinião”, etc., uma tendência que acaba se refletindo também no campo político-partidário. O senhor acha possível que uma verdadeira “democracia” conviva com tal ausência de debate ideológico? Como combater ou diminuir os efeitos do “pensamento único”, especialmente quando pensamos no ambiente acadêmico, todo regido por grades curriculares, regimentos, ementas e portarias?
PONDÉ: Primeiro dando aos alunos a chance de lerem mais autores que não os marxistas. A democracia vive bem sem debate ideológico, mas hoje ela é um regime de massa e de espetáculos ideológicos e não discussão. Acho que a principal dificuldade na Democracia é a natureza humana que não se resolve politicamente: somos medrosos, ressentidos, vaidosos… a generosidade e a coragem não se ensinam politicamente; necessitamos de mais diálogo moral e não só político.

M@M — Hoje em dia, o movimento feminista parece confundir-se com outros movimentos mais predominantes na esquerda, tais como a defesa do aborto, a luta contra o “imperialismo”, contra Israel, contra o embargo a Cuba, etc.? Não é irônico (ou trágico, enfim) que uma feminista empunhe bandeiras contra a presença de americanos no Oriente Médio, ou que fique ao lado dos palestinos contra Israel, sabendo-se que as mulheres têm infinitamente mais direitos nos EUA e em Israel do que em qualquer país muçulmano?
PONDÉ: Claro e é ridículo! Mas isso é fruto da natureza fundamentalista do movimento feminista. Sua radicalidade religioso-fanática faz isso com ele. Esquecem as mulheres e embarcam em projetos utópicos monstruosos como qualquer fanático religioso…

M@M — O senhor acredita em Deus? O senhor acha possível compatibilizar a crença no Deus bíblico com a prática científica e com o ambiente acadêmico? E como o senhor vê a “substituição”, de certa forma proposta pela modernidade e que hoje resultou em fenômenos muito perceptíveis em nossa sociedade, como quando os jovens (e mesmo muitos adultos) trocam o culto a Deus por outros cultos (a celebridades, bandas de música, astros de cinema, ou mesmo a Che Guevara)?
PONDÉ: Chesterton dizia que o problema em parar de acreditar em Deus é que começamos a acreditar em qualquer coisa em seu lugar, como as que você citou. A ciência não tem nada a dizer sobre Deus porque Deus não é uma variável sob controle epistemológico. Não dá para testar Deus em um laboratório, mas há uma tendência de alguns cientistas de ficarem ateus por conta do ônus da prova da existência de Deus; de Deus ser dos crentes. Outro argumento contra a existência de Deus é o chamado ARGUMENTO DO MAL: se Deus é bom e o mundo é mal, há algo de errado na premissa. Quanto a mim, acho o ateísmo mais provável como hipótese filosófica. Não sou religioso, não acho que a vida tenha algum grande sentido, mas acho o conceito de Deus bíblico elegante e fascinante.

M@M — Em relação à Igreja Católica, como o senhor vê o fenômeno da Teologia da Libertação?
PONDÉ: Vejo como uma resposta à miséria latino-americana, um modo de ler o carisma profético do cristianismo usando a hermenêutica marxista, um fato do contexto histórico dos anos 60 e 70. Mas acho uma lástima em termos intelectuais e teológicos porque reduziu a teologia à pastoral sindical, político-partidária e a modas da esquerda mundial, do tipo teologia feminista, teologia gay, teologia verde; isso não significa que não devemos dar atenção a esses temas, o que critico é a tendência, as obssessões da teologia ao se tornar uma vassala do marxismo atenuado que ela usa.
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 Por: Maria Júlia Ferraz  |  Fonte: MÍDIA@MAIS (15/06/2012)
Fonte:  http://luizfelipeponde.wordpress.com/2012/06/29/ponde-em-entrevista-a-midiamais/

O sorriso amarelo de Chevalier

 Amir Labaki*
 AP / AP

É impossível ler "Paris - A Festa Continuou" (Companhia das Letras, 446 págs., R$ 54), a admirável reportagem em livro de Alan Riding sobre a vida cultural na França durante a ocupação nazista entre 1940 e 1944, sem se lembrar do documentário clássico de Marcel Ophüls "A Tristeza e a Piedade" (1969, lançado em DVD pela Videofilmes). Foi Ophüls, antes mesmo do historiador americano Robert O. Paxton ("Vichy France - Old Guard and New Order, 1940-1944", Knopf, 1972), que desbravou a picada elegantemente aprofundada agora pelo ex-correspondente do "The New York Times" no Brasil e na França.
Em pouco mais de quatro horas e meia, "A Tristeza e a Piedade" pôs como nenhuma obra fizera antes o dedo na principal ferida francesa do século XX. Concentrando-se num estudo de caso, o da cidade industrial de Clermont-Ferrand, no centro da França, Ophüls liquida o mito heroico da inquebrantável e pervasiva resistência civil francesa à ocupação pelas tropas de Hitler.
O livro de Riding fecha o foco sobre a cena cultural francesa nos quatro anos do regime colaboracionista de Vichy, liderado pelo marechal Philippe Pétain (1856-1951), herói da Primeira Guerra. Durante grande parte desse período, o país foi administrativa e militarmente cindido ao meio, entre a zona ocupada pelos alemães ao Norte e a zona não ocupada ao Centro-Sul. Paris, claro, ficou na primeira área. Clermont-Ferrand, vizinha a Vichy, na segunda.
Um departamento que passou à história como Propaganda Staffell cuidou do controle da produção cultural de toda a França. Foi dividida em seis seções: imprensa, rádio, cinema, cultura (artes plásticas e espetáculos), literatura e propaganda ativa. O objetivo central era banir qualquer manifestação crítica à ocupação, aos alemães e a Vichy, divulgar as mensagens totalitárias e antissemitas do novo regime e estimular atividades culturais leves e descompromissadas.
Os teatros foram logo reabertos com ênfase em musicais e textos clássicos, alcançando lotações constantes. O cinema foi retomado, tendo à frente os estúdios Continental, controlados pelos alemães e tendo como testa de ferro o produtor André Greven. Exposições e editoras também voltaram a funcionar. Tudo devidamente expurgado de qualquer participação de judeus.
O exílio foi o que restou para centenas de artistas, como o ator e diretor teatral Louis Jouvet, o líder surrealista André Breton e cineastas como René Clair, Jean Renoir e Max Ophüls (pai de Marcel). A maioria que não pôde partir ou decidiu ficar se dividia entre os que acreditavam na nova França de Pétain ("Terra, Família, Pátria"), os simpatizantes de Hitler, os neutros e os resistentes que seguiam a liderança, de Londres, do general De Gaulle.
Alain Riding é especialmente brilhante no exame de casos específicos, como o do escritor Robert Brasillach, autor de uma pioneira história de cinema e germanófilo declarado, e o do filósofo Jean-Paul Sartre, que teria inflado posteriormente uma participação na Resistência muito maior do que a real. Dois casos célebres teriam merecido maior atenção: o da figurinista Coco Chanel e o da atriz Arletty ("O Boulevard do Crime", 1945), ambas tornadas símbolo da chamada "colaboração horizontal" pelos envolvimentos amorosos com oficiais alemães durante a ocupação.
Entre os inúmeros pontos em comum entre "Paris - A Festa Continuou" e "A Tristeza e a Piedade" destaca-se a participação do ator e cantor Maurice Chevalier (1888-1972). Ophüls elegeu suas canções popularíssimas como trilha essencial de seu filme. Mais que isso: inclui na segunda parte do documentário um generoso trecho da mensagem filmada protagonizada por Chevalier logo após a derrota alemã, no qual desmente veementemente a versão de que teria se confraternizado com as tropas nazistas.
Como conta Riding, Chevalier permaneceu freneticamente ativo durante a ocupação, em peças e shows que regularmente apresentavam na plateia tropas alemãs, como muitos, entre os quais Edith Piaf, Charles Trenet e Tino Rossi.
Acusado como colaboracionista pela emissora resistente Rádio Londres, Chevalier "passou os meses finais da ocupação escondido tanto da Resistência quanto da Gestapo", escreve Riding. Preso por poucos dias com a liberação da França em meados de 1944, foi perdoado graças à intervenção do poeta comunista Louis Aragon, "comprometendo-se em troca a cantar em diversos espetáculos comunistas para a arrecadação de fundos".
É no filme de Ophüls que encontramos a imagem que melhor resume o livro de Riding: sentando num escritório, num inglês de forte sotaque, eis Maurice Chevalier suplicando compreensão. Seu sorriso amarelo diz tudo.
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* Amir Labaki é diretor-fundador do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários.
E-mail - labaki@etudoverdade.com.br
Site do festival: www.etudoverdade.com.br
Fonte: Valor Econômico on line, 29/06/2012
Leia mais em:
http://www.valor.com.br/cultura/2732600/o-sorriso-amarelo-de-chevalier#ixzz1z9ZkZ7X8

Do Protestantismo ao Ateísmo Moderno e Relativismo Contemporâneo Uma leitura dos acontecimentos históricos

Daniel Marques*
 
Uma leitura dos acontecimentos históricos
É possível fazer uma leitura dos acontecimentos históricos que percorrem desde o surgimento do Luteranismo até o relativismo atual através da chave de interpretação da quádrupla negação. Sendo que uma negação prepara o sucessivo “não”. Vejamos de modo concreto para entender a questão. 
 
DEUS SIM, IGREJA NÃO
É a negação surgida e instaurada por Lutero. Permite uma visão mais subjetivista da fé, onde realça o caráter pessoal da salvação em detrimento do caráter institucional. É possível seguir a Deus, sem seguir uma instituição em concreto. Nega-se o caráter necessário da Igreja para a salvação, para isto, será necessário defender um conjunto de conceitos epistemológicos que será à base do pensamento da filosofia moderna.

DEUS SIM, CRISTO NÃO
Esta segunda grande negação é própria do século da ilustração, onde se busca uma fé fundada apenas na razão. Aceita-se a Deus, mas apenas como um grande relojoeiro que fez sua obra prima (o cosmos), a dotou das forças necessárias para se autogerir e foi embora. A providência é jogada no lixo, surge o DEISMO. Um Deus sem culto e despersonalizado. O homem é senhor total e absoluto de seu próprio destino. Nega-se a transcendência. A realidade não é apreendida objetivamente pelo ser humano, mas construída intelectualmente através das percepções sensitivas que são próprias a toda raça humana.
É no contexto desta segunda negação que surge a Revolução Francesa, retirando dos templos católicos a presença dos santos e de Cristo eucaristia, e erigindo altares à Deusa Razão. Uma “contraditio terminis”, pois “mitologizam” a fé católica, retiram dos evangelhos tudo que seja milagroso e sobrenatural e ao mesmo tempo criam culto e templo para a “Deusa Razão”.
É um racionalismo fundando na irracionalidade do caos e da violência. Destinada intelectualmente ao fracasso, a revolução tinha seus dias contados, apesar da propaganda massiva da revolução perpetrada por Jacques-Louis David criando obras como o Juramento de Horácio (cena dramática que convida a população a pegar em armas) e perpetuando o mártir da revolução no quadro “A morte de Marat”.
A revolução francesa nasce de exigências legítimas de uma população que sofria pela fome, crise nas colheitas e impostos sufocantes. No entanto, conduzida não pela razão que tanto defendia, mas pelo terror das guilhotinas. O lema “liberdade, igualdade e fraternidade”, pese seu caráter evangélico e de se propor como novo evangelho, era escrito pelo sangue de muitos homens e mulheres que não se alinhavam. Vemos a expropriação das propriedades do clero, a assassinato de sacerdotes, religiosos e religiosas. A Fé católica é vista como fundamento do Ancient Regime e como tal deve ser varrida do mapa, como principal inimiga da revolução e de seus ideais.
Surge, então, como resposta a esta barbárie um novo absolutismo que se espalha por toda a Europa. Mas, o mundo já não era mais monárquico, a semente do pensamento revolucionário já tinha sido plantada. E mais tarde crescerá com mais furor através da revolução marxista que veremos a seguir na terceira negação.

DEUS NÃO, O HOMEM SIM
É a última negação presente no séc. XIX. Deus já não é necessário para garantir a ordem do mundo. A única realidade é a material e a este senhor devemos prestar contas. Seu fundamento é a filosofia Hegeliana. Onde o espirito absoluto é traduzido à matéria. E os indivíduos são apenas um momento, uma ocasião para o desenvolvimento da matéria, do mundo perfeito sem classes e de total igualdade.
Na filosofia marxista, não há pessoas, existe apenas o estado, que se desenvolve através da dialética de lutas de classes. O novo homem e nova humanidade marxista é a síntese final do processo dialético, onde a tese são os sistemas econômicos burgueses e a antítese é a classe operária explorada. O marxismo acelera o confronto entre ambas que ocorrerá de modo necessário.
A visão de pessoa humana como um momento do processo dialético materialista é o que justifica a barbárie de mais de 100 milhões de pessoas exterminadas por Stalin. Os comunistas alegam que isto ocorreu porque Stalin desvirtuou a revolução. Em realidade, ele se apresenta como aquele que leva até as últimas consequências os pressupostos filosóficos da revolução.
A negação de Deus só é possível, em última instância, através da negação do ser humano, o que nos conduz a uma quarta negação.

O HOMEM NÃO
A degradação da razão humana conduz a negação da impossibilidade da existência de qualquer verdade absoluta. A filosofia hermenêutica presente na obra “Verdade e Método” de Gadamer é um exemplo. O homem constrói a verdade segundo seu grupo social e cultura, e este grupo com “suas verdades" é que constrói o homem e a verdade das coisas. Deste modo, a verdade é sempre mutável e não um termo “ad quo”, não há uma finalidade para vida humana, mas apenas uma construção de algo caótico a um nada último.
Esta visão epistemológica se apresenta como fundamento do relativismo moral e do indiferentismo religioso. Quando tudo é verdade, não existe verdade. E quando nada é objetivamente verdadeiro, todas as coisas são colocadas no mesmo plano, perdendo seu valor. Priva a racionalidade humana do principio de não contradição, conduzindo a humanidade a ações bárbaras.
Sobre a bandeira da tolerância, o relativismo implanta uma verdadeira ditadura da força e do poder. Pois quando não há uma verdade como critério e medida de nossas ações, se implanta a verdade subjetiva dos mais fortes. Por isso, as politicas e medidas sociais são implantadas não em vistas a um bem comum, ou um critério de bondade e verdade, mas segundo pressões sociais, econômicas ou interesses privados.
Assim vemos a aprovação das uniões homoafetivas, a aprovação do aborto em geral, e do bebê anencéfalo em especifico. O homem volta-se contra o mesmo homem, pois ferido em sua racionalidade, é incapaz de perceber as consequências de seus atos que vão contra a sua própria humanidade.

CONCLUSÃO: UNIDADE SUBSTANCIAL DO SER HUMANO
Existe uma profunda unidade entre as questões religiosas, econômicas, filosóficas, sociais e politicas. Não são elementos separados, pois quem as elabora, vive e pratica é o homem. O ser humano é o centro das questões.
Por isso, um subjetivismo religioso exacerbado de Lutero nos conduz a uma filosofia moderna que coloca o homem como criador da realidade e a Deus apenas como garantidor de uma ordem. Este racionalismo moderno exige a existência de um Deus impessoal e ordenador, surgindo o Deísmo próprio do iluminismo, com sua expressão mais “gloriosa e nefasta” instaurado no culto à “Deusa Razão” no período da Revolução Francesa. Revolução esta guiada por um desejo de fazer o bem, mas com princípios que levariam ao terror. Neste processo de degradação da razão humana o surgimento de regimes ateus, o indiferentismo e o relativismo presentes nos dias atuais são consequências naturais.
Um processo de negação da objetividade das coisas que "corrói" a razão humana, pois negar a capacidade de transcendência humana, é negar a mesma humanidade.
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* Daniel Marques é formado em Humanidades Clássicas em Salamanca, Espanha, obteve a graduação e o Mestrado em Filosofia em Roma, e atualmente cursa o 2o. ano de teologia na arquidiocese do Rio de Janeiro.
Contatos: ddsmarques@gmail.comwww.facebook.com/cienciafeculturawww.cienciafecultura.org
Fonte:  ZENIT.org 28/06/2012
Imagem da Internet 

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Bonhoeffer apaixonado.

  Gianfranco Ravasi* 

Bonhoeffer e Maria von Wedemeyer viveram um amor poderoso e intenso, que a censura e a distância não conseguem enfraquecer, um amor que se alimenta também da fé comum, até o último e fugaz encontro em setembro de 1944 na prisão de Tegel e na extrema carta de dezembro desse mesmo ano.


Mesmo quem não tem muita familiaridade com a teologia, mas conhece o clima cultural reativo ao nazismo e a força da espiritualidade no compromisso social do século XX, já ouviu falar de Dietrich Bonhoeffer, filho de uma família burguesa, nascido no dia 4 de fevereiro de 1906 em Breslau. Provavelmente, também terá lido a sua obra mais popular, Widerstand und Ergebung [na versão brasileira Resistência e submissão, publicada pela editora EST, 2003].

A sua figura é emocionante, não só em nível teológico, mas também pela sua pura e simples biografia. Ela, como se sabe, teve um fim trágico, primeiro, na cela 92 da prisão berlinense de Tegel (era o dia 5 de abril de 1943), depois no campo de concentração de Buchenwald e, por fim, em Flossenbürg, um vilarejo bávaro, onde ele foi enforcado por ordem de Hitler no dia 9 de abril de 1945, e o seu corpo foi queimado em uma fogueira.

O médico do campo de concentração, que desconhecia quem era o enforcado, confessou mais tarde que havia ficado comovido com o comportamento "daquele homem profundamente simpático", que, antes da execução capital, "havia se ajoelhado em profunda oração com o seu Senhor... e então havia subido, corajoso e resignado, a escada do patíbulo. Na minha atividade médica de 50 anos, nunca vi um homem morrer com tanta confiança em Deus".

Por trás desse ainda jovem pastor protestante, havia uma intensa existência teológica que fez dele um dos personagens mais originais do pensamento religioso do século XX, ao lado daquele Karl Barth com quem havia compartilhado a oposição clara ao regime dentro da Igreja "confessante", mas da qual era distante em alguns percursos teológicos.

A reconstrução biográfica mais completa, pontual e atenta também ao itinerário teológico bonhoefferiano continua sendo a do amigo Eberhard Bethge, que apareceu em 1966 (Dietrich Bonhoeffer. Teologo cristiano contemporaneo. Una biografia, Ed. Queriniana, 1975, reeditada em 2004).

Agora, aparece em versão italiana, a pouca distância do original em inglês, um outro perfil de corte documentário-narrativo, mas marcado por uma apaixonada sintonia humana. Ele foi traçado por um conhecido jornalista e escritor norte-americano, Eric Metaxas, que, em certo sentido, assume como lema duas frases do pastor mártir.

A primeira é testemunhal: "O silêncio diante do mal é ele mesmo um mal. Não falar é falar. Não agir é agir". A segunda é mais teológica: "A graça barata é o inimigo mortal da nossa Igreja. Nós lutamos hoje pela graça a caro preço". Deus, de fato, oferece a sua salvação através de um ato de amor "caro", a doação sacrificial do Filho Jesus Cristo.

Certamente, seria muito sugestivo seguir o mapa de um pensamento que desembocou há apenas 21 anos com a tese de doutorado de corte eclesiológico-social e que avançou na especulação sistemática com os sucessivos escritos teóricos que, porém, ainda conservam em seu interior uma carga vital muito provocante. Pense-se, por exemplo, na sua candente interrogação sobre o debate que a fé cristã deve instaurar com um mundo "adulto" e secular, para o qual é necessária a figura de um nicht religiöses Christentum, ou seja, de um cristianismo não religioso, mas que conserva – como uma semente fecunda na terra – a sua alma profunda mística e salvífica.

O testemunho da íntima espiritualidade de uma fé, que opera em um horizonte de realidade "penúltima", mas que sempre está voltada às verdades "últimas", não separadas ou alienadas, m as sim entrelaçadas com a história, é visível no admirável tríptico Seguimento, A vida comum e Ética (que ele considerava como a sua maior obra), obras totalmente disponíveis em italiano por mérito da editora Queriniana, da Bréscia.

O relato de Metaxas, que tem como pano de fundo acima de tudo a trama existencial dos 39 anos da vida de Bonhoeffer, é igualmente fascinante, até porque vibra o ideal decacordo da harmonia de uma alma cujo canto se desenrola leve e luminoso sob o céu obscuro de uma época de opressão e sobre uma terra marcada pelo sangue de milhões de vítimas.

Os trechos textuais que estão decorados nas páginas da biografia geram um constante tremor de consonância com a experiência vivida pelo protagonista, impedindo, porém, toda tentação de indultar a hagiografia enfática. A nós, agora, basta apenas evocar uma passagem de Resistência e submissão, diário espiritual do cárcere. É a "oração da manhã" para o Natal de 1943: "Está escuro dentro de mim, mas junto de Ti há luz; eu estou sozinho, mas Tu não me abandonas; estou com medo, mas Tu me ajudas; estou inquieto, mas junto de Ti há paz; em mim há amargura, mas em Ti quietude; eu não compreendo os Teus caminhos, mas Tu conheces a minha vida".

Um capítulo doce e terno da biografia de Metaxas é o de Bonhoeffer apaixonado. Agora, a citada editora Queriniana decidiu oferecer uma reedição das emocionantes Cartas à namorada Maria von Wedemeyer, que havia confessado a Dietrich que, depois da sua prisão (5 de abril de 1943), "ao redor da minha cama, com giz, eu tracei uma linha grande como a tua cela. Há uma mesa e uma cadeira, como imagino que seja contigo. Quando estou sentada ali, parece-me quase que estou junto de ti".

É um amor poderoso e intenso, que a censura e a distância não conseguem enfraquecer, um amor que se alimenta também da fé comum, até o último e fugaz encontro em setembro de 1944 na prisão de Tegel e na extrema carta de dezembro desse mesmo ano. Maria, que então tinha pouco mais do que 20 anos, viveria até 1977.
  • Eric Metaxas. Bonhoeffer. La vita del teologo che sfidò Hitler. Roma: Ed. Fazi. Tradução de Pietro Meneghelli.
  • Dietrich Bonhoeffer. Maria von Wedemeyer, Lettere alla fidanzata, Cella 92 
  •  (1943-1945). Bréscia: Ed. Queriniana, 290 páginas. Tradução de M. Claudia Murara.
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 * Gianfranco Ravasi, cardeal presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 24-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: IHU on line, 28/06/2012

Voltar-se a Deus e não à Bolsa

Ah, os traders da Bloxham! Esses banqueiros requintados e refinados evidentemente inspiraram confiança na Madre Superiora das ordem das Holy Faith Sisters (Irmãs da Santa Fé) de Dublin, Irlanda. O know-how da prestigiosa instituição financeira irlandesa é bem conhecido. Essa venerável marca tem muitas relações dentro do establishment dos negócios tanto da Ilha Verde quanto da City de Londres [centro financeiro inglês]. O que pode haver de melhor?

A reportagem é de Marc Roche, publicada no jornal Le Monde, 27-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por esse motivo, em 2006, a Congregação das Holy Faith Sisters, fundada no século XIX para ajudar órfãos e crianças pobres, investiu de olhos fechados uma parte dos seus bens em títulos comercializados por esses profissionais que atesouram a virtude. Um investimento à la bom pai de família, sólido, moderado, sobre o qual os operadores da Bloxham vigiariam como a pupila dos seus olhos.

Além disso, se esses instrumentos, chamados de "hybrid structured euro constant maturity swap notes" não fossem seguro, será que o seu emissor, Morgan Stanley, um dos pilares da Wall Street, se arriscaria nessa aventura com uma experiência como a sua? Nenhum rendimento espetacular, mas também nenhum grande risco, assegura a publicidade atraente.

Dito e feito. Assim como as Holy Faith Sisters, uma centena de pequenos investidores compraram o produto financeiro em questão. Mas, em 2009, as suas economias viraram fumaça, com uma perda de 20 milhões de euros. Ao contrário, a Morgan Stanley obteve um ganho de 10 milhões de euros.

Em agosto de 2010, os investidores, que se consideravam fraudados, processaram a Morgan Stanley perante a justiça britânica. Um acordo de indenização amigável foi concluído no dia 19 de junho do ano passado. De sua parte, a Bloxham, que havia negociado com as freiras, foi obrigada pelo Banco Central da Irlanda a cessar suas atividades depois da descoberta de "irregularidades financeiras".

Como explicar a decepção financeira das Holy Faith Sisters, cujo patrimônio foi profundamente afetado?

Ser protestante e rico é possível e permitido, contanto que os seus bens não sejam transformados em um bezerro de ouro. Ao contrário, esse não é o caso da Igreja Católica. O dinheiro desperta desconfiança, rejeição e opróbrio desde o Concílio de Latrão, em 1139, que condenou o crédito e a usura, a base das finanças.

Ao longo da história, essa regra se manteve intangível, com algumas exceções, como aconteceu com os Lombardos, inventores, no século XII, das letras de câmbio. Mas a Irlanda é uma nação católica e romana como nenhuma outra. A religião majoritária faz parte da vida cotidiana. Nesse contexto, as altas finanças são, em geral, um negócio da minoria protestante que governou a ilha até a separação de 1921 entre o Sul e o Norte.

O papa faz bem ao denunciar regularmente a ganância da sociedade moderna e a sede de lucro, mas a verdade é que a Igreja move importantes recursos que ela tem que fazer frutificar. Ela tem que financiar a manutenção das igrejas e das escolas, pagar os salários e as aposentadorias dos padres, assim como desenvolver as suas missões no exterior. As Holy Faith Sisters, por exemplo, tem uma ampla rede de sedes no exterior, particularmente nos Estados Unidos, na Nova Zelândia, na Austrália, em Samoa e na América Latina.

E é aí que surgem os problemas. Com efeito, mal equipadas, as instituições religiosas são presas fáceis para os bancos financeiros, "que têm o desagradável hábito de fingirem ser o melhor amigo de qualquer um, quando, na realidade, estão simplesmente tentando vender alguma coisa", diz Bethany McLean, jornalista da Vanity Fair, ex-analista da Wall Street.

Por outro lado, no direito anglo-saxão, o Estado do caveat emptor ("cuidado, comprador") atribui a responsabilidade ao cliente, não ao vendedor. Na Europa continental, onde os compradores estão mais protegidos, esse escudo é facilmente contornado por contratos escritos em inglês que transitam por Londres. Por exemplo, em 2010, a justiça italiana acusou de fraude vários bancos italianos e estrangeiros por terem vendido cerca de 30 bilhões de euros de produtos derivados a prefeituras e a organizações religiosas da península italiana, que perderam até sua roupa íntima. Em particular, a ordem dos capuchinhos de Gênova...

Enfim, as pessoas desavisadas são incapazes de compreender a complexidade dos produtos financeiros criados pelos pequenos gênios do mercado e recombinados em elaborações algorítmicas antes de serem revendidos em fatias, como se fossem salames. Assim, a fim de estruturar a emissão desses títulos, a Morgan Stanley havia criado uma entidade idônea, chamada de Saturns Investments Europe. Essa "concha vazia", registrada em Dublin para fins fiscais, embaralhou ainda mais as cartas.

Vocês entenderam. A relação entre religião e dinheiro é um coquetel explosivo. É por isso que um banqueiro pode realmente "fazer o trabalho de Deus", segundo a declaração do CEO da Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, em uma entrevista ao Sunday Times.

Uma bela gafe. Essa observação permitiu que seus detratores reanimassem o velho fantasma de um eixo Deus-Mamon, termo utilizado por Jesus para indicar a riqueza mal adquirida. Felizmente para ele e para nós, Blankfein jurou a seus grandes deuses que isso havia sido apenas uma brincadeira.
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Fonte: IHU on line, 28/06/2012

Lula e “Sombra”

 L. F. VERISSIMO*
 

Todo o mundo sabe que o Paulo Maluf é procurado pela Interpol. O que pouca gente sabe é que o codinome dele na Interpol é “Sombra”, devido à dificuldade da organização em sequer localizá-lo. O escritório da Interpol no Brasil tem agentes dedicados exclusivamente a procurar o Maluf, cujos atos de corrupção internacional são notórios e comprovados. Ainda não conseguiram achá-lo, mas, recentemente, chegaram perto. Esta coluna teve acesso a memorandos internos na Interpol que descrevem o episódio.

Um relatório de um dos agentes encarregados de procurar o “Sombra” revela a existência de rumores nos meios políticos segundo os quais o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva irá se encontrar com o Maluf, em lugar não especificado, para tratar de assuntos também desconhecidos. Em resposta ao relatório, o chefe da Interpol pede cautela, em memorando que publicamos na íntegra, só omitindo o nome do agente e do seu chefe para proteger nossas fontes.

“De XXX para X. Confidencial. Assunto: ‘Encontro com Sombra’. Recomendo extrema cautela. Os rumores de um encontro de Lula com ‘Sombra’ são obviamente destinados a desmoralizar o ex-presidente e seu partido, o PT. Como já lembrei em outras ocasiões, não devemos nos envolver na política do país. Desconsidere os rumores.”

O agente responde em outro memorando:

“De X para XXX. Confidencial. Assunto: Lula e ‘Sombra’. Os rumores parecem estar confirmados. Haverá, sim, um encontro do ‘Sombra’ com o ex-presidente, que, sabe-se agora, irá pedir seu apoio para o candidato do PT nas próximas eleições municipais. Peço autorização para iniciar uma operação”.

A resposta do chefe:

“De XXX para X. Confidencial. Assunto: sua insistência. A possibilidade de um encontro de Lula e ‘Sombra’ é tão inverossímil, levando-se em conta o histórico do PT e as opiniões do Lula sobre o ‘Sombra’, que não merece consideração, quanto mais uma operação. Desista, X.”.

Volta o agente:

“De X para XXX. Confidencial. Assunto: chance única. Chefe, desculpe a insistência. Mas descobrimos que o encontro Lula/‘Sombra’ será na casa do ‘Sombra’. Se seguirmos o Lula até o local, não só encontraremos o ‘Sombra’ como descobriremos onde ele mora. Posso colocar agentes disfarçados de arbustos para flagrar o encontro. É uma chance que não se repetirá!”.

Como resposta, XXX ordena que o agente X abandone seu plano, informe-se melhor sobre a história política do Brasil e da próxima vez use o bom senso, em vez de acreditar em boatos delirantes. E a Interpol continua procurando o Maluf. Agentes da Interpol ainda não conseguiram achar Maluf.
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* Cronista. Escritor.
Fonte: ZH on line, 28/06/2012
Charge da  Internet

Sorria!

Contardo Calligaris*
Pesquisas mostram que valorizar a felicidade produz insatisfação e mesmo depressão 
Na frente da câmara fotográfica, ninguém precisa nos dizer "Sorria!"; espontaneamente, simulamos grandes alegrias, sorrindo de boca aberta. Em regra, hoje, os retratos são propaganda de pasta de dentes -se você não acredita, passeie pelo Facebook, onde muitos compartilham seus álbuns, rivalizando para ver quem parece melhor aproveitar a vida.
O hábito de sorrir nos retratos é muito recente. Angus Trumble, autor de "A Brief History of the Smile" (uma breve história do sorriso, Basic Books), assinala que esse costume não poderia ter se formado antes que os dentistas tornassem nossos dentes apresentáveis.
Além disso, os retratos pintados pediam poses longas e repetidas, para as quais era mais fácil adotar uma expressão "natural". O mesmo vale para os daguerreótipos e as primeiras fotos: os tempos de exposição eram longos demais. Já pensou manter um sorriso por minutos?
Outra explicação é que o retrato, até a terceira década do século 20, era uma ocasião rara e, por isso, um pouco solene.
Mas resta que nossos antepassados recentes, na hora de serem imortalizados, queriam deixar à posteridade uma imagem de seriedade e compostura; enquanto nós, na mesma hora, sentimos a necessidade de sorrir -e nada do sorriso enigmático do Buda ou de Mona Lisa: sorrimos escancaradamente.
Certo, o hábito de sorrir na foto se estabeleceu quando as câmaras fotográficas portáteis banalizaram o retrato. Mas é duvidoso que nossos sorrisos tenham sido inventados para essas câmaras. É mais provável que as câmaras tenham surgido para satisfazer a dupla necessidade de registrar (e mostrar aos outros) nossa suposta "felicidade" em duas circunstâncias que eram novas ou quase: a vida da família nuclear e o tempo de férias.
De fato, o álbum de fotos das crianças e o das férias são os grandes repertórios do sorriso. No primeiro, ao risco de parecerem idiotas de tanto sorrir, as crianças devem mostrar a nós e ao mundo que elas preenchem sua missão: a de realizar (ou parecer realizar) nossos sonhos frustrados de felicidade. Nas fotos das férias, trata-se de provar que nós também (além das crianças) sabemos ser "felizes".
Em suma, estampado na cara das crianças ou na nossa, o sorriso é, hoje, o grande sinal exterior da capacidade de aproveitar a vida. É ele que deveria nos valer a admiração (e a inveja) dos outros.
De uma longa época em que nossa maneira e talvez nossa capacidade de enfrentar a vida eram resumidas por uma espécie de seriedade intensa, passamos a uma época em que saber viver coincidiria com saber sorrir e rir. Nessa passagem, não há só uma mudança de expressão: o passado parece valorizar uma atenção focada e reflexiva, enquanto nós parecemos valorizar a diversão. Ou seja, no passado, saber viver era focar na vida; hoje, saber viver é se distrair dela.
Ao longo do século 19, antes que o sorriso deturpasse os retratos, a "felicidade" e a alegria excessivas eram, aliás, sinais de que o retratado estava dilapidando seu tempo, incapaz de encarar a complexidade e a finitude da vida.
Alguém dirá que tudo isso seria uma nostalgia sem relevância, se, valorizando o sorriso e o riso, conseguíssemos tornar a dita felicidade prioritária em nossas vidas. Se o bom humor da diversão afastasse as dores do dia a dia, quem se queixaria disso?
Pois é, acabo de ler uma pesquisa de Iris Mauss e outros, "Can Seeking Happiness Make People Happy? Paradoxical Effects of Valuing Happiness", em Emotion on-line, em abril de 2011 (http://migre.me/9CT8e).
Em tese, a valorização ajuda a alcançar o que é valorizado -por exemplo, se valorizo as boas notas, estudo mais etc. Mas eis que duas experiências complementares mostram que, no caso da felicidade (mesmo que ninguém saiba o que ela é exatamente -ou talvez por isso), acontece o contrário: valorizar a felicidade produz insatisfação e mesmo depressão. De que se trata? Decepção? Sentimento de inadequação?
Um pouco disso tudo e, mais radicalmente, trata-se da sensação de que a gente não tem competência para viver -apenas para se divertir ou, pior ainda, para fazer de conta. Como chegamos a isso?
Pouco tempo atrás, na minha frente, uma mãe conversava pelo telefone com o filho (que a preocupa um pouco pelo excesso de atividade e pela dispersão). O menino estava passando um dia agitado, brincando com amigos; a mãe quis saber se estava tudo bem e perguntou: "Filho, está se divertindo bem?". 
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 * Psicanalista italiano radicado no Brasil. Escritor. Colunista da Folha
@ccalligaris
Fonte: Folha on line, 28/06/2012
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Um mundo requentado?

Roberto DaMatta*
 
 

Dizem que o mundo está aquecido. Eu afirmo que é pior: vivemos num mundo requentado. Servir uma comida requentada é sinal de preguiça; melhor seria fazer um prato novo. É como ensinar a quem acha que sabe - essa multidão que povoa o mundo. O que singulariza um universo globalizado é o excesso de meios e uma enorme carência de fins. Nele, o velho tende a retornar como novo. No mundo diário, isso surge com os homens de cabelo pintado da cor de burro quando foge.
 
* * * *
A vida é uma linha. Ela começa no nascimento, passa por um longo período de consolidação física e ética; segue para uma aliança conjugal cuja consequência é geralmente a criação de novas vidas e a responsabilidade de transformá-las em pessoas e, finalmente, ela nos leva a um ponto sem futuro (toda mudança na velhice é problemática porque não se mexe em time que está ganhando), que antecede a saída deste dramalhão barato e belo do qual tomamos parte sem termos sido convidados.
Não obstante essa implacável linearidade, cada fase da vida tem seus impulsos, seus dilemas e suas regressões. Uma nova etapa não acaba automaticamente com a outra. Exceto nos rituais, e, por isso, eles são tão importantes, essas fases todas se confundem e criam dilemas dentro de dilemas e regressões (bem como saltos e rompimentos) em meio aos retornos. Continuar crescendo (dizendo não a nós mesmos) ou voltar à irresponsabilidade da infância? Caminhar sozinho na tempestade ou desistir? Como saber se o Brasil vai dar certo se ele continua e nós, um dia, partiremos?
Na meio do jardim podado da velhice encontramos o menino inseguro ou o adolescente moleque; na juventude tentamos viver o idoso que fala pausadamente e imagina que sabe tudo. As fases da vida seguem como um trem de ferro, mas a composição não é fixa. Muitas vezes a locomotiva é empurrada por vagões vazios...

* * * *
Tenho a sensação do requentado. A Rio+20 me reitera - apesar do esforço de alguns grupos e do Sérgio Besserman - a Torre de Babel. E existe coisa mais velha do que redescobrir em meio à fanfarra da mídia e da presunção dos "chefes de Estado" que nós, humanos, não nos entendemos nem quando se trata de salvar o teatro no qual atuamos? O único modo de encontrar o acordo é saber que estamos sempre em desacordo. Geralmente, em nome de algo maior que para o outro é obviamente menor. Movidos por um enredo individualista, mas ignorando-o, queremos discutir o planeta sem nos darmos conta da força dos nossos tabus nacionais e patrióticos. O resultado é uma conta que não fecha, pois nossa maior dificuldade é justamente perceber o planeta como um englobante - como uma totalidade que tem suas razões e demandas.

* * * *
Há algo mais cinicamente requentada do que essa CPI Cachoeira-Demóstenes-Delta num momento eleitoral? Pode haver algo mais lamentável numa democracia do que a mentira e a mendacidade como valores políticos? O caso Demóstenes é culminante - como ter democracia sem oposição? Melhor do que isso, só o encontro de Lula com Maluf - essas criaturas da modernidade paulista -, ambos candidatos a padrinhos do candidato Haddad. Mas no meio do retorno do nosso velho personalismo, negativo e onipotente, surge uma Erundina que usa sua individualidade para dizer que sem os valores nenhum de nós é coisa alguma. E não há nada mais patético do que um ator sem texto.

* * * *
Eis uma pergunta que não pode calar-se: é possível fazer política - essa esfera da vida que hoje substitui a religião - permitindo tudo? O cálculo do poder pelo poder, o vencer a qualquer custo, a norma brasileira segundo a qual em política o pecado é perder e a ideia de os adversários serem canalhas são concepções vencedoras?
Será que perdemos o senso e não nos importamos com a politicalha de alguns políticos? Pode-se viver democraticamente numa sociedade que tem uma multidão de leis, mas que não pune os privilegiados - os que, como Lula e Maluf e Haddad, entram no grupo do "nós somos tu e tu é nosso"? É possível conviver com o roubo aberto de bens essenciais para a nossa própria existência, como escolas, hospitais, polícia e saneamento? Nem num livro de ficção científica escrita por um cínico se encontra esta combinação que hoje permeia a cena nacional: esta divisão de tarefas na qual um monte de gente trabalha para sustentar uma aristocracia estatal que nada faz e tem a arrogância de alardear isso como algo normal, comum em todos os países.
Será que vivemos num país que conseguiu encaixar nos pagamentos rotineiros da vida pública algo que vai além dos dinheiros, pois neste Brasilzinho de hoje a ideologia - que era o último reduto do altruísmo - virou também moeda corrente e sonante?

* * * *
"Um povo livre", escreve Karl Jaspers no seu Introdução ao Pensamento Filosófico, "sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação" - continua - "não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."
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* Antropólogo. Escritor. Colunista do Estadão.
Fonte: Estadão on line, 27/06/2012
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A natureza ao alcance da mão

Marcelo Coelho*
 
Cachorros com preferências menos eruditas podem encontrar programação cultural dentro de casa 

Já existem bolos de aniversário para cachorros, assim como sorvetes e chocolates, sem contar com psicólogos e spas para os que abusaram das guloseimas.
Mesmo quem acha normal esse tipo de coisa deve ter se espantado com a notícia que saiu na "Ilustríssima" deste domingo. Uma das maiores exposições de arte contemporânea do mundo, a Documenta de Kassel, organiza agora visitas guiadas para cães.
Conduzidos por veterinários, os cães são levados para "farejar objetos das instalações que encontram no parque Karlsaue", conta a jornalista Silvia Bittencourt.
Cachorros com preferências menos eruditas podem encontrar programação cultural dentro de casa mesmo. Surgiu, nos Estados Unidos, um canal a cabo especializado em distrair a população canina.
A DogTV funciona 24 horas por dia, e suas atrações se dividem em três tipos. Há cenas para estimular o cão, para adormecê-lo, e para acostumá-lo ao convívio social.
Procurei pela coisa no YouTube, e coloquei a tela do computador na frente do meu cachorrinho. Ele não reagiu a nada. Talvez prefira a Documenta de Kassel. Em todo caso, os criadores desse canal certamente precisam aperfeiçoar a programação. Talvez, pagando uma taxa extra, sejam fornecidos óculos 3D, sem contar com uma necessária máquina de reprodução de odores.
Sem isso, tudo indica que ver um cachorro adormecendo ou correndo atrás de uma bola não é suficiente para induzir o animal doméstico a um comportamento parecido.
A psicologia por trás da criação desse canal, segundo reportagem na revista "Época" desta semana, está no fato de que muitos cachorros se sentem abandonados dentro de casa, enquanto seus donos saem para trabalhar. Como resultado, latem, urinam e destroem objetos, como forma de protesto; ou apenas para chamar a atenção dos humanos demasiado relapsos.
Mesmo que o canal não funcione, é certo que o humano se sentirá menos relapso pagando uma mensalidade para o canal. Reproduz-se, evidentemente, o fenômeno clássico da "babá eletrônica", que distrai as crianças enquanto os pais têm mais o que fazer. Sem disposição para ter filhos, o jovem adulto sai de casa para morar sozinho. Sente necessidade de alguma coisa, que seria difícil definir: Companhia? Afeto? Responsabilidades?
Melhor, quem sabe, chamar isso de "vida". Vida animal, vida selvagem, vida infantil -qualquer vida que, sendo outra, é ainda parte de nós mesmos, e não inteiramente igual a nós. Imediatamente -cachorro ou criança-, as encrencas começam. E o esforço do dono da casa será, sempre, o de "humanizar" aquele novo tipo de ser. Com crianças, isso dá muito trabalho, mas tende a dar mais certo.
Com os cachorros, vejo que não é só consumismo o motivo de tantas atenções e produtos à disposição. Trata-se de uma forma especial de nostalgia, uma herança a mais do velho pensamento de Rousseau.
A natureza, quase inteiramente domesticada pela cultura industrial, pareceu nos últimos séculos nos encarar com aquele jeito de cachorrinho abandonado na rua. Torna-se objeto de ternura, magnificada pela distância.
De resto, por falar em seres abandonados na rua, foi provavelmente o mesmo romantismo que levou o curador de outra exposição de arte, a Bienal de Berlim, a chamar pichadores brasileiros para mostrarem o seu trabalho numa igreja de 1830.
Eles "demarcaram o seu território", emporcalhando não só o patrimônio histórico da cidade, mas o próprio curador. Pelo menos assim a iniciativa ganhou sentido. Foram convidados porque eram "transgressores", e não se corromperam com o convite. Transgrediram.
Já o cachorro de apartamento, tendo uma vocação obediente e domesticável, é a natureza ao alcance da mão. Mais do que uma cena campestre, corresponde ao nosso olhar; comunica-se conosco, mas sua linguagem não tem palavras.
Queremos que se humanize, assim como o apaixonado por jardinagem refaz a desordem vegetal em canteiros bem comportados.
Somos entretanto incapazes de levar com sucesso o plano de humanização. Isso não seria desejável, aliás. Imagine-se conviver com um cachorro falante à mesa do jantar. Basta que conviva conosco à frente da televisão. Logo brigaremos pelo controle remoto. Não importa. É possível que os canais para humanos, psicologicamente testados para distrair, socializar e acalmar a nossa espécie, não sejam tão diferentes assim. 
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* Colunista da Folha
coelhofsp@uol.com.br
Fonte: Folha on line, 27/06/2012
Imagem da Internet 

"A economia verde é um cavalo de tróia invisível"

Maíra Mathias*
c45 Economia verde versus economia solidária

Cumprindo uma extensa agenda de compromissos na Cúpula dos Povos desde o dia 14 de junho, quando participou da oficina ‘Saúde, sustentabilidade e bien vivir’ promovida pela Universidade Popular de Movimentos Sociais em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos participou de duas atividades de conversa com os participantes do evento no Aterro do Flamengo nesta terça-feira (19). Quem foi ao Clube Boqueirão, na mesa organizada pela ONG italiana A SUD, e em seguida à tenda da Economia Solidária pôde ouvir um balanço antecipado da conferência oficial e seus (fracos) resultados, assim como uma reflexão sobre as esquerdas no cenário político atual. Para Boaventura, os movimentos sociais e organizações que atuam em defesa da justiça ambiental e social precisam, mais do que nunca, se unir em agendas agregadoras expressadas por meio de campanhas únicas.

Rio+20
Para Boaventura, a conferência oficial das Nações Unidas foi capturada por interesses privados, que travam a discussão e pode ser comparada ao Fórum Econômico Mundial, baseado em Davos na Suíça, que reúne todos os anos chefes de Estado e grandes empresários. “A novidade de 2012 em relação à 2001 é que naquele ano, o Fórum Econômico Mundial se realizou em Davos, enquanto que Porto Alegre sediava a primeira edição do Fórum Social Mundial. Hoje, o Fórum Econômico está acontecendo no Riocentro e o Fórum Social no Aterro do Flamengo. Entre nós, um oceano de morros e táxis, um oceano de apartheid social que o Rio turístico esconde”, criticou.
O sociólogo comparou a principal proposta da ONU para a Rio + 20 – que prevê mecanismos de financeirização da natureza e é conhecida como economia verde – ao presente de gregos a troianos. “É um Cavalo de Tróia instalado na praia, é invisível e enorme. A economia verde é a cortina de fumaça que estão estabelecendo a nossa volta, porque é a melhor maneira para o capital global, financeiro, sobretudo, ter acesso à gestão dos recursos globais”.
Seguindo a conturbada negociação do documento da Rio + 20, intitulado ‘O futuro que queremos’, Boaventura acredita que o texto sai esvaziado. “Nem as propostas do G77 [bloco formado pelos países em desenvolvimento] mais China vão poder ser aprovadas. O grande Fundo do Desenvolvimento Sustentável foi recusado. O acesso universal à saúde foi recusado pelos Estados Unidos. A alteração dos sistemas de governo do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional, do Conselho de Segurança obviamente nem a Europa nem os Estados Unidos querem ouvir falar”, enumerou, completando: “Penso que é um retrocesso em relação à 1992, que produziu compromissos obrigatórios, se seguiram as convenções e por outro lado as responsabilidades comuns diferenciadas, isto é, os países ricos têm que pagar mais porque poluem mais e há mais tempo, nada disso é neste momento pacífico.
Por todas essas razões, o sociólogo português sustenta que não temos muitas razões para ter esperanças no plano intergovernamental e destaca o papel que a Cúpula dos Povos desempenha para dar voz às demandas e críticas da sociedade civil mundial. “O que mudou de positivo em relação à 92 é o que se passa na Cúpula dos Povos. Nós temos hoje consciência socioambiental, existem organizações, movimentos mais fortes do que antes. Por exemplo, a agenda socioambiental começa a ser transversal e entra em movimentos como o Sintagma na Grécia, dos indignados em Madrid, dos jovens urbanos da Inglaterra e também no Ocuppy Wall Street. Em todos eles, a questão ecológica aparece de maneira profunda, como o Bem Viver. A maneira como se organiza a vida cotidiana nos acampamentos é um testemunho de outra maneira de viver e estar com a natureza, um modelo que tem como horizonte a justiça social e ambiental”, destacou.

Ecologia de saberes
No entanto, Boaventura acredita que ainda não temos uma nova cultura socioambiental. Para chegar lá, ele sustenta que é preciso resgatar os fundamentos da economia política. “Não adianta pensar que a luta de classes não é importante porque já vimos que o colonialismo, o sexismo e o capitalismo andam junto, portanto, não faz sentido lutar pelo meio ambiente se não se luta pelas comunidades quilombolas, pelos territórios dos indígenas, pelos povos de rua, pela seguranças dos travestis, contra os massacres de homossexuais”, citou.
Elementos de todas as culturas dos povos articulados ao conhecimento produzido nas universidades podem criar uma nova economia de saberes, necessária, segundo o sociólogo, para alcançar novas formas de pensar o poder e a democracia. “A Constituição da Bolívia diz que há três formas de economia: privada, pública e comunitária. E há sete formas de propriedade, dentre elas a pública, a comunal, a privada, a associativa, a cooperativa. Ou seja, pluralizar as economias. A mesma Constituição também diz que as formas da democracia são várias: representativa, participativa, comunitária. Nas nossas teorias eurocêntricas, nunca nos demos conta que para além da democracia representativa e da participativa poderia existir a comunitária. É a democracia das populações ribeirinhas, dos indígenas, das populações quilombolas”, disse.
Para ele há uma “demodiversidade”, uma diversidade de democracias que circulam na sociedade com uma diversidade cognitiva de saberes, uma diversidade de poderes. “Seria um erro grave pensarmos que podemos transformar o mundo sem tomar o poder, agora não podemos transformar o poder sem mudar o poder”. Nesse sentido, Boaventura acredita que os partidos, os movimentos e organizações sociais não são as únicas formas de fazer política. “Os indignados mostraram que nós da esquerda tínhamos sido muito elitistas porque sempre consideramos que para fazer política era preciso estar organizado em partido, sindicato, movimento social ou ONG, não levando em conta que esmagadora maioria da população não está organizada em partido não é membro de movimento ou associação. E olhamos para eles como se fossem despolitizados. Ora é essa gente que hoje está na Ocuppy Wall Street. Nós negligenciamos qual é o patamar a partir do qual a indignação é tão grande que a pessoa sai à rua. Temos que estudar onde está o patamar de indignação”, propôs.

Agendas agregadoras
Boaventura relatou que a maior lição tirada da atividade organizada pela Universidade Popular dos Movimentos Sociais foi a necessidade de construir agendas agregadoras. Ele relatou o caso do representante dos moradores de rua que, a princípio, não queria se articular com representantes de outros movimentos populares no encontro. “Eu perguntei: Porque não se uniu? Quanta gente do LGBT, quantos travestis não vivem na rua? Ao fim da atividade, o Samuel do movimento da população de rua estava articulado não só com o LGBT, mas também com o movimento de educação popular da saúde porque tinha chegado à conclusão que a luta dos povos de rua se integra ao SUS em pontos muito específicos. Portanto, nós temos um problema em articular as agendas”.
Para ele, o grande desafio é identificar quais são essas agendas agregadoras nas quais devemos nos concentrar. “A agenda socioambiental é agregadora, mas ela por vezes é muito vaga”, pontuou. O sociólogo acredita que lutas agregadoras são aquelas em que populações do campo e da cidade conseguem confluir suas demandas. O professor citou o exemplo do norte da Colômbia, onde a luta contra a privatização da água articulou camponeses com moradores da cidade, todos à favor do acesso à água potável por um bom preço. No Brasil, Boaventura acredita que a campanha contra os agrotóxicos e pela vida pode ter essa dimensão. “O agronegócio se assenta no conceito de produtividade, que consiste em extrair o máximo da terra em um ciclo de produção. Essa é a diferença para a agricultura camponesa porque o camponês extrai o máximo da terra, mas não em um ciclo porque sabe que ao fim de uma colheita a terra, assim como nós, precisa repousar. Isso é absolutamente incompatível com lógica de produtividade capitalista, que quer máximo lucro em um ciclo de produção. Por isso, a monocultura capitalista precisa dos agrotóxicos”, expôs.
O professor lembrou que há três anos, o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo, produtos que, em alguns casos, foram proibidos na Europa há mais de vinte anos por comprovadamente causarem doenças como câncer e diabetes. “Esse movimento tem um potencial enorme de unir o campo e a cidade porque envenena os camponeses e contamina suas águas, mas obviamente contamina a alimentação da cidade, e ao contaminá-la, também produz câncer, causa aos urbanos muitas enfermidades”.
Para Boaventura, o grande problema político dos movimentos sociais é centrarem-se nas suas agendas. “Essas agendas são facilmente cooptáveis, como vemos hoje nos conselhos de saúde, e por outro lado não veem a floresta. A floresta é o sistema político corrupto. Nós não podemos ter políticas sustentáveis com políticos insustentáveis. Cada político corrupto é um político insustentável. E porque ele é corrupto? Será porque é má pessoa? Porque não foi à missa ontem? Não tem nada a ver com isso. A corrupção é um sistema”, argumentou.
Para ele, o sistema da corrupção encontrou terreno mais fértil com a crescente indistinção entre mercado político dos valores que não se compram nem vendem com o mercado econômico dos valores que se compram e se vendem. “Hoje, o mercado político é igual ao mercado econômico. A corrupção é endêmica. Por isso que as parcerias público-privadas são efetivamente parcerias privadas-privadas. Não zelam pelo interesse público, mas pelo interesse de seus bolsos. E sendo assim, é curioso que o Brasil avance nas parcerias público-privadas sem olhar a experiência da Europa. Em Portugal e na Espanha, essas parcerias foram consideradas as maiores fontes de corrupção e estão todas em tribunal”.
Para ele, não podemos vencer as nossas lutas sem alterar o sistema político. Boaventura também criticou o Código Florestal: “O código sem-vergonha seria possível se a bancada ruralista não tivesse 400 membros no Congresso Nacional? Eles servem ao sistema politico brasileiro que tem que ser reformado. Também o sistema eleitoral, o sistema da democracia participativa, o sistema dos tribunais. Vejam, há mecanismos da Constituição de 1988 que nunca foram aplicados porque não foram regulamentados, como o plebiscito e o referendo. Precisamos por em prática. Não é apenas lutar por orçamentos participativos, mas por essas outras medidas do sistema político”.
(Instituto CarbonoBrasil)
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Da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio
Fonte:  http://mercadoetico.terra.com.br/27/06/2012
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