domingo, 29 de julho de 2012

Aristóteles e Higgs: uma parábola

Marcelo Gleiser*
A ciência não é infalível, mas é o melhor método que temos para aprender como o mundo funciona 

ARISTÓTELES E Peter Higgs entram num bar. Higgs, como sempre, pede o seu uísque de puro malte. Aristóteles, fiel às suas raízes, fica com um copo de vinho.
"Então, ouvi dizer que finalmente encontraram", diz Aristóteles, animado. "É, demorou, mas parece que sim", responde Higgs, todo sorridente. "Você acha que 40 anos é muito tempo? Eu esperei 23 séculos!" "Como é?", pergunta Higgs, atônito. "Você não acha que..."
"Claro que acho!", corta Aristóteles. "Você chama de campo, eu de éter. No final dá no mesmo, não?"
"De jeito nenhum!", responde Higgs, furioso. "O seu éter é inventado. Eu calculei, entende? Fiz previsões concretas."
"Vocês cientistas e suas previsões...", diz Aristóteles. "Basta ter imaginação e um bom olho. Você não acha que o meu éter é uma excelente explicação para o que ocorre nos céus?"
"Talvez tenha sido há 2.000 anos. Mas tudo mudou após Galileu e Kepler", diz Higgs.
Aristóteles olha para Higgs com desprezo. "Você está se referindo a esse 'método' de vocês, certo?"
"O método científico, para ser preciso", responde Higgs, orgulhoso. "É a noção de que uma hipótese precisa ser validada por experimentos para que seja aceita como explicação significativa de como funciona o mundo."
"Significativa? A minha filosofia foi muito mais significativa para mais gente e por muito mais tempo do que sua ciência e o seu método."
"É verdade, Aristóteles, suas ideias inspiraram muita gente por muitos séculos. Mas ser significativo não significa estar correto."
"E como você sabe o que é certo ou errado?", rebate Aristóteles. "O que você acha que está certo hoje pode ser considerado errado amanhã." "Tem razão, a ciência não é infalível. Mas é o melhor método que temos para aprender como o mundo funciona", responde Higgs.
"Nos meus tempos bastava ser convincente", reflete Aristóteles com nostalgia. "Se tinha um bom argumento e sabia defendê-lo, dava tudo certo", continuou. "As pessoas acreditavam em você, mas não era fácil. A competição era intensa!" "Posso imaginar", responde Higgs. "Ainda é difícil. A diferença é que argumentos não são suficientes. Ideias têm que ser testadas. Por isso a descoberta do bóson de Higgs é tão importante."
"É, pode ser. Mas no fundo é só um outro éter", provoca Aristóteles.
"Um éter bem diferente do seu", responde Higgs. "E por quê?", pergunta Aristóteles. "Pra começar, o campo de Higgs interage com a matéria comum. O seu éter não interage com nada."
"Claro que não! Era perfeito e eterno", diz Aristóteles.
"Nada é eterno", rebate Higgs.
"Pelo seu método, a menos que você tenha um experimento que dure uma eternidade, é impossível provar isso!", afirma Aristóteles.
"Touché, você me pegou", admite Higgs. "Não podemos saber tudo." "Exato", diz Aristóteles. "E é aí que fica divertido, quando a certeza acaba." "Parabéns pela descoberta do seu éter", diz Aristóteles.
"Existem muitos tipos de éter", afirma Higgs. "E muitos tipos de bósons de Higgs", retruca Aristóteles.
"É, vamos ter que continuar a busca." "E o que há de melhor?", completa Aristóteles, tomando um gole. 
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*MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: goo.gl/93dHI
Fonte: Folha on line, 29/07/2012
Imagem da Internet 

Os bonecos no divã

Por Luís Silvestre

Se as personagens de Madagáscar 3 (filme que estreia em Portugal na próxima quinta, dia 26) fossem humanas, algumas estariam internadas ou deveriam ter acompanhamento psicológico. Essa foi a conclusão da psicóloga Ana Durão, que, a pedido da SÁBADO, fez o diagnóstico destes desenhos animados. “Apesar de ser uma caricatura do comportamento dos seres humanos, aborda assuntos sérios com muito humor”, sublinha.

A personagem principal, Alex, o leão, apresenta os sintomas típicos de quem sofre de uma neurose fóbico-ansiosa. “Tem o quadro clínico quase todo”, sublinha a especialista. “Estes indivíduos têm uma grande necessidade de controlo e não gostam de se afastar da sua zona de conforto.” Além disso, o protagonista da história tem medo da mudança, fica ansioso mesmo quando as novas oportunidades que lhe surgem são boas. A vaidade excessiva é outro sinal que confirma o diagnóstico.

O caso mais grave é mesmo o da girafa Melman. A sua grande preocupação com o corpo, os movimentos descoordenados e a procura desesperada de atenção são típicos dos hipocondríacos com elevado grau de histeria. “É muito comum este tipo de indivíduos revelar uma preocupação excessiva consigo e a sua segurança, que os impede de ter uma vida normal”, diz a psicóloga.

A personagem mais fascinante para a especialista é a zebra Marty. Além de ser mais complexa do ponto de vista psicológico, mistura um pouco de tudo. “Tem comportamentos depressivos, ingenuidades e inseguranças, mas atira-se de forma irresponsável para novas situações, muito comum nos neuróticos.” Já no caso dos macacos, há um quadro clínico com sintomas típicos de muitos psicopatas: “Estão sempre a agredir-se uns aos outros, roubam e vivem à custa de oportunidades, nem que isso implique enganar os outros. Pior: riem-se e tiram prazer dos seus esquemas desonestos”, diz.

Os pinguins são o exemplo de como os grupos podem ser uma má influência. “Têm comportamentos psicóticos, em que há perda de contacto com a realidade.” No seu mundo de fantasia, são mentalmente desorganizados e põem os outros em risco. Glória, a hipopótamo-fêmea, é mais difícil de caracterizar. “É uma das poucas personagens femininas com destaque. O filme é dominado por personagens masculinas.” Apesar disso, percebe-se que é a mais ponderada e equilibrada do grupo. “É um dos raros elementos sensatos da história”, diz Ana Durão.

A psicóloga defende que este tipo de filmes é muito útil para ajudar as crianças e mesmo os espectadores adultos com problemas semelhantes. “Como é comum, a maioria dos filmes de animação tem um final feliz. E isso dá sempre pistas para ultrapassar várias fobias e problemas psicológicos”.
Alex o leão
Sintomas:
- tem medo de situações
- novas e da mudança, é vaidoso e não reage bem sob pressão

Diagnóstico: neurose fóbico-ansiosa
Melman a girafa
 
Sintomas:
- obsessão com o corpo e as doenças,  
- descoordenação motora

Diagnóstico: hipocondria histérica


Glória o hipopótamo
 
Sintomas:
- reage bem ao stresse
- calma e ponderada

Diagnóstico: personalidade equilibrada
Pinguins

Sintomas:
Formam um grupo disfuncional, dependem dos outros para tudo

Diagnóstico: psicóticos
Gia

É uma linda jaguar com bom senso e equilibrada que convence Alex a arriscar-se no trapézio, vencendo os seus medos.
Vitaly

Este tigre russo tem forte personalidade, mas é um típico quadro de stresse pós-traumático, com ataques de pânico.
Stefano
 
É um hiperactivo leão-marinho italiano que só vê o lado positivo das coisas. É típico de algumas neuroses: não medir os riscos.
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Fonte: http://www.sabado.pt/Multimedia/FOTOS/-span--b-Artes-b---span-/Fotogaleria-%28324%29.aspx

sábado, 28 de julho de 2012

O Menino Que Carregava Água na Peneira

Manoel de Barros*

by Jean dos Anjos

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.


O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.


A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.


Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.


No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.


O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!


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* Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, 19 de dezembro de 1916) é um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas européias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Recebeu vários prêmios literários, entre eles, dois Prêmios Jabutis. É o mais aclamado poeta brasileiro da contemporaneidade nos meios literários. Enquanto ainda escrevia, Carlos Drummond de Andrade recusou o epíteto de maior poeta vivo do Brasil em favor de Manoel de Barros [1]. Sua obra mais conhecida é o "Livro sobre Nada" de 1996.

‘Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge’, de Christopher Nolan

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Ficção e realidade se confundem na estética da barbárie

Assistir à pré-estréia de Batman depois dos do acontecido no Colorado é uma experiência de certo medo, onde qualquer movimento na platéia suscita apreensão; como se pudéssemos ser atingidos a todo momento pela violência implacável. O filme, uma obra totalitária, amparado na própria violência, se afina perfeitamente aos acontecimentos da vida real: Ficção e realidade se confundem através do terrorismo, com sangue, explosões, corpos dilacerados e gritos de terror.
A sensação é a de que voltamos outra vez a assistir o mesmo filme, totalmente decupado em planos minuciosos, que duram átimos de segundo, impedindo o espectador de pensar. O cérebro se contrai, um músculo tenso e entorpecido, vilipendiado pelas imagens que ferem como punhais – cada corte um pequeno eletrochoque, preparando aquele que assiste para viver a partir de um controle baseado na docilidade dos corpos. Ver para não agir? Ou seria o contrário?
As regras e códigos de conduta da dita civilização só precisam de um estímulo, o menor que seja, para serem perfuradas pela barbárie. Aquilo que é sublimado, permanece latente, até que explode em um rompante de violência. Benjamin estava certo quando apregoava a existência de uma estética da política e de uma politização da estética. O que vemos neste filme, que não acaba nunca, é a mistura da perspectiva dos senhores, os poderosos manipuladores das massas, vendedores de armas, traficantes de almas, com a burrice e idiotice da plebe, que necessita cada vez mais do mesmo: O famoso panis et circensis!
Quando mais uma escola for atacada, mais sangue dos inocentes for derramado, poderemos construir no lugar uma espécie de Shopping Center, um monumento moderno, povoado pelos fantasmas e gritos das criancinhas. Um lugar para ver e ser visto, controlado e vigiado; câmeras e – por que não? - um policial armado. Para onde ia mesmo aquele trem de Realengo?
Ao perceber que vida e “arte” se confundem no escurinho do cinema, penso que vivemos num umbral, uma espécie de semi-vida, onde a qualquer momento pode surgir o Cavaleiro das Trevas, aquele que virá nos levar. E vivemos na expectativa disto!
É como se a anarquia, um imaginário libertador que pregava a utopia de um homem livre da coerção do Estado, tivesse sido esmagada e enlatada pelas políticas e estéticas do próprio Estado. Esse ESTADO globalizado, empenhado e azeitado pela mediocrização das massas. Aqui o veneno e o antídoto se confundem, parecendo ecoar, como o Livro de Monelle, de M. Schwob, publicado em 1894:

Destrua, destrua, destrua, suplica Monelle.
Destrua em ti mesmo, destrua ao teu redor (…) Destrua todo o bem e todo o mal. Os escombros são semelhantes.
Destrua as antigas habitações dos homens e as antigas habitações das almas; as coisas mortas são os espelhos que deformam. (…)
E para imaginar uma nova arte, é preciso demolir a arte antiga. E desse modo a nova arte parece uma espécie de iconoclastia.
Pois toda construção é feita de cacos, e nada é novo neste mundo, a não ser as formas.
Mas é preciso destruir as formas.

 Veja o trailler: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=aXI0fyTbzqY
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Reportagem por  Francisco Taunay
Fonte:  http://opiniaoenoticia.com.br/27/07/21012

'Sou um missionário da ciência'



Entrevista com Daniel Shechtman, Prêmio Nobel de Química de 2011

O Globo: Hoje (ontem), outro laureado com o Nobel, Kurt Wüthrich, começa a trabalhar na Universidade Federal do Rio de Janeiro como pesquisador visitante pelo programa "Ciência sem Fronteiras". O senhor também consideraria vir ao Brasil fazer pesquisas e orientar estudantes?

Dan Shechtman: Não a curto prazo, simplesmente porque não tenho tempo. Mas conheço o programa e, do ponto de vista do Brasil, é uma excelente ideia e uma grande jogada por várias razões. A principal é que não existe uma ciência brasileira, e sim mundial. E se comunicar com o mundo é muito importante. A ciência progride por meio das descobertas, mas também da comunicação. Escrever e publicar artigos científicos é um dos aspectos desta comunicação, mas falar com as pessoas, visitar seus laboratórios, colaborar com outros cientistas pelo mundo em programas conjuntos também são extremamente importantes. A diferença entre Kurt e eu é que ele recebeu o Nobel há alguns anos, enquanto eu sou o atual laureado, então minha agenda ainda está muito lotada. Assim, embora considere o "Ciência sem Fronteiras" um programa maravilhoso do qual adoraria participar, não me vejo fazendo isso nos próximos dois anos. Mas no futuro certamente aceitaria com prazer fazer parte dele.
E algum cientista ou estudante brasileiro procurou o senhor interessado em ir fazer pesquisas no Technion?

Shechtman: Não tive chance de conversar com muitos estudantes brasileiros, mas o Technion está aberto a eles. Tive uma reunião com o ministro da Ciência (Marco Antonio Raupp) e outras autoridades brasileiras e me disseram que o intercâmbio com Israel no programa "Ciência sem Fronteiras" está em avaliação. Então ainda não temos uma colaboração oficial, mas me contaram que a papelada está correndo e quando estiver pronta poderemos começar um intercâmbio. Nós do Technion receberíamos com prazer os estudantes e cientistas brasileiros.

E como o senhor vê o estágio atual da ciência no Brasil?

Shechtman: Ainda estou aprendendo sobre a ciência feita no Brasil. Encontrei alguns cientistas e autoridades importantes e vou visitar alguns laboratórios, mas não acho que possa ter uma opinião abalizada sem saber mais. Só peço para o governo brasileiro continuar a investir em ciência de forma contínua e crescente. Se o Brasil quer ter ciência de ponta, tem que ter equipamentos de ponta e uma educação de qualidade. Tudo isso requer dinheiro, mas é um investimento no futuro do País e a melhor forma de gastá-lo.

Quando em 1982 o senhor se deparou com os quasicristais e anunciou a descoberta, enfrentou muitas críticas e ataques, alguns até pessoais, como o de Linus Pauling (americano duas vezes agraciado com o Nobel), que disse que não existiam quasicristais, apenas "quase-cientistas". Com o desenvolvimento deste campo de estudos, seu Nobel e a recente descoberta da ocorrência natural de quasicristais em um meteorito que caiu na Rússia, o senhor se sente vingado?

Shechtman: No começo realmente fiquei muito sozinho. Houve muitas críticas e o clima não era bom. Mas nem tudo eram críticas. John Cahn (químico americano que assinou com Shechtman o artigo que descreveu os quasicristais em 1984) me encorajou. Ele disse para mim: "Dan, este material está te dizendo alguma coisa e desafio você a descobrir o quê". Já Ilan Blech (colega de Shechtman no Technion, também coautor do artigo) foi o primeiro a colaborar comigo, propondo um modelo físico para explicar como esse material se comportava. Por fim, tive ajuda de Denis Gratias (cientista francês e quarto e último coautor do artigo). Então, não estava mais sozinho quando Pauling me atacou. Além disso, durante todo este período eu sabia que estava certo, pois tinha os dados e resultados experimentais, enquanto os que me criticavam eram todos teóricos. Os experimentalistas repetiram minha experiência e imediatamente provaram minha descoberta. O problema então eram os teóricos, como acontece em muitos campos da ciência. Hoje, olhando para trás, definiria aquele como um período interessante da minha vida. E embora o Nobel seja o maior prêmio que um cientista possa obter, não foi o único que ganhei. Já havia recebido outros reconhecimentos antes e nunca tive nenhum sentimento de vingança.

Seu caso então não seria a prova de dois ditados populares entre os cientistas, os que dizem que quando um velho e respeitado cientista diz que algo é possível ele quase sempre está certo, mas quando diz que é impossível ele muito provavelmente está errado. E que o sucesso é 10% inspiração e 90% transpiração?
Shechtman: Acredito que um bom cientista deve sempre se questionar e ser humilde. Ele deve ouvir novas ideias e examiná-las de forma objetiva. Na maior parte dos casos, essas novas ideias são realmente ruins e errôneas, mas em alguns poucos elas são reais e podem provocar uma mudança de paradigma, como no meu caso. O cientista deve confiar em si mesmo, e aqui tenho uma mensagem para os jovens: seja especialista em algo. Ache alguma coisa que você goste, torne-se um especialista nela e tente sempre ser o melhor no seu campo. Se você fizer isso, eu prometo, seu futuro será brilhante. E isso vale em qualquer campo, seja para um cientista ou para um pianista.

E suas pesquisas? Como o senhor está se dedicando a elas após o Nobel?

Shechtman: Minhas pesquisas estão sofrendo, mas por uma boa causa. O que mais faço hoje é promover a ciência e a educação pelo mundo. Viajo com a missão de levar a mensagem da importância do conhecimento e da inovação tecnológica como as únicas maneiras de trazer a paz para o mundo. Os países devem ser capazes de alimentar sua população e dar a ela uma boa qualidade de vida. São estes países que vão desenvolver inovações tecnológicas e não depender apenas de seus recursos naturais, e aqui está outro alerta para o Brasil. Sou como um missionário da ciência, mas voltarei com prazer a me dedicar a meu laboratório quando o momento for certo.
(O Globo)
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Fonte:  http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=83460
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Todos dizem eu te amo

 CLÁUDIA LAITANO*

 
No tempo em que instantâneo era só o Nescafé, visitar um país pela primeira vez era como... visitar um país pela primeira vez. Novidades tecnológicas eram assimiladas em ritmos diferentes, e o intercâmbio de hábitos e gostos, quando acontecia, processava-se de forma muito mais lenta e irregular. Hoje é possível viajar boa parte do mundo comendo sempre os mesmos sanduíches, frequentando os mesmos shoppings e ouvindo as mesmas músicas nos mesmos aparelhinhos – como se morássemos todos na mesma gigantesca aldeia fofoqueira e previsível.

Eu tinha 19 anos e não conhecia nem São Paulo quando, em 1986, fui passar uma temporada estudando inglês e trabalhando como babá em San Francisco, na Califórnia. Meu saco de espantos transbordou já na primeira semana. Traquitanas que quase ninguém tinha por aqui já eram acessíveis para a classe média de lá (CD player, videocassete, computador...) e havia no ar um último sopro de guerra fria que dava a todos a sensação de que o mundo poderia acabar a qualquer momento – perigo que por aqui nunca tirou o sono de ninguém.

Como babá, meu primeiro estranhamento foi descobrir que as crianças americanas sentavam-se sempre no banco de trás do carro – presas, vejam só, por cintos de segurança. No Brasil, cinto de segurança era aquele negócio que todos os carros tinham e ninguém usava – e crianças não só sentavam no banco da frente do carro como, durante o veraneio, costumavam ocupar também o porta-malas, de preferência dividindo espaço com mais 12 primos.

Outra coisa que me chamava a atenção é que pais e filhos diziam-se “eu te amo” o tempo todo: antes de dormir, na hora de ir para a escola, ao telefone ou mesmo por motivo nenhum. Venho de uma família de origem italiana, barulhenta e afetuosa, e desfrutei de todos os mimos reservados para a única menina da casa, mas não lembro de ter ouvido sequer um “eu te amo” do meu pai ou da minha mãe enquanto eles viveram, nem nos momentos mais sagrados e solenes. Nunca me ocorreu que eles me amassem mais ou menos por isso – provavelmente porque qualquer tipo de amor, e o de pais e filhos mais do que todos, aparece antes em gestos, pequenos cuidados e carinhos do que propriamente nas palavras. O “eu te amo” é um pleonasmo ou não é nada.

Mais de 25 anos se passaram desde aquela minha primeira e inesquecível viagem rumo à idade adulta. Nesse período, usar cinto de segurança e colocar as crianças no banco de trás virou hábito, o videocassete entrou e saiu das casas e até os brasileiros começaram a se preocupar com o fim do mundo (ainda que por outros motivos). Mas uma das mudanças mais sutis de comportamento talvez tenha sido essa de, no intervalo de apenas uma geração, o “eu te amo” ter saltado dos filmes românticos para o dia a dia da maioria das famílias brasileiras. Crianças que passam o dia com babás ou em creches, falando ao celular com a mãe ou o pai no trabalho, são amadas com a urgência da confissão diária – e muitas delas crescem achando que o “eu te amo” é tão banal quanto um “bom-dia” ou um “obrigado”.

É bonitinho e não faz mal a ninguém, e talvez alivie mesmo um pouco a culpa e a saudade dos pais, mas continua valendo o que sempre valeu: o amor que se sente não é necessariamente aquele que se ouve.
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* Jornalista. Escritora. Cronista da ZH
Fonte: ZH on line, 28/07/2012
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Um amigo patologista

 J.J. CAMARGO*
 
Fidel Camacho, o cirurgião torácico colombiano mais famoso do século XX – escalado para ser o presidente da sessão em que eu faria uma conferencia num Congresso na Cidade do México – entrou no salão à minha procura. Assim que nos encontramos e trocamos as primeiras palavras, ele confirmou uma história de dar inveja: tinha mesmo operado o câncer de pulmão do Gabriel Garcia Márquez, 12 anos antes. E se isso não bastasse, ainda tinha ficado amigo dele! Com esta introdução e uma paixão literária em comum, foi fácil perceber que ali estava um amigo em potencial.

Quando lhe contei que, apesar de menos conhecido, Ninguém Escreve ao Coronel era o meu livro preferido, ele ficou deliciado com a coincidência, e me contou que quando fizera esta mesma confidência ao mestre, ele rira dizendo: “Entonces, somos dos.”

Três anos depois, num congresso pan-americano em Cartagena de las Índias, Fidel me levou para jantar na casa de Gabriel Garcia Márquez. Fui apresentado como o brasileiro que diz que leu toda a sua obra e um “Además ahora somos trés”.

Dessa noite inesquecível, sempre vou recordar o brilho do olho do Gabo quando lhe disse que Úrsula Buendía, de Cem Anos de Solidão, era a minha personagem feminina preferida da literatura. Visivelmente emocionado ele me assegurou: “Sempre que um personagem é muito forte, ele é mais do que um personagem”, ficou a sensação de ele queria contar mais e não contou.

Na última vez que encontrei Fidel Camacho, ele estava contente com a formatura do filho médico e me contou que fora operado de um tumor de rim.

Passados dois anos, com uma tosse persistente, desceu ao subsolo da grande clínica em que trabalhava em Bogotá e fez uma tomografia que ele mesmo visualizou no computador, com incontáveis metástases pulmonares.

Voltou ao seu consultório e, durante quatro horas, atendeu nove pacientes. As evoluções nos prontuários foram muito extensas e minuciosas, encaminhamentos detalhados e recomendações com cara de despedida. Terminado o ambulatório, abriu a ampla janela do nono andar e saltou para a morte.

No receituário ele deixou o último recado: “Sou grato à vida porque sempre acertei nas minhas escolhas. Perdoem, mas prefiro morrer no comando”.

Quase compreendo seu desejo de morrer como um protagonista, mas perdi um amigo. Daqueles que marcam as nossas vidas, não pelo tempo de amizade, mas pela intensidade do convívio.
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* Médico.
Fonte: ZH on line, 28/07/2012

40 frases de escritoras famosas



Recentemente publiquei na seção web stuff uma seleção com 50 frases célebres de escritores clássicos. A ideia foi retirada de um ensaio publicado pelo jornal inglês “The Observer”. Embora a seleção tenha contemplado escritores de díspares perfis, nacionalidades e épocas, alguns leitores questionaram o fato de apenas três mulheres fazerem parte da seleção. Diante da indagação, fiz uma nova versão da lista, desta vez incluindo apenas escritoras. A autenticidade de cada  frase foi checada para não incorrer nos risco das falsas atribuições em meio a profusão de textos apócrifos e equívocos relativos à autoria.

Diferentemente do ensaio publicado pelo “The Observer”, não selecionei apenas frases ditas textualmente, mas também aquelas fictícias, que foram emprestadas às personagens e obras por intermédio de seus criadores. Além de frases fictícias, há também frases retiradas de entrevistas e textos ensaísticos. Abaixo, em ordem de alfabética, as 40 frases escolhidas, sem repetir autoras.
 
“Não pode ser seu amigo quem exige seu silêncio.”
(Alice Walker)


“Porque amei a vida, não terei nenhuma tristeza ao morrer.”
(Amelia  Burr)


“Ajusto-me a mim, não ao mundo.”
(Anaïs Nin)


“Um homem beijar a sua mão pode ser uma delícia, mas uma pulseira de safiras e diamantes dura para sempre.”
(Anita Loos)


“Toda dominação pessoal, psicológica, social e institucionalizada nessa terra pode ser remetida a uma mesma fonte original: as identidades fálicas dos homens.”
(Andrea Dworkin)


“A liberdade é incompatível com o amor: um amante é sempre um escravo.”
(Baronne De Staal)


“Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.”
(Cecília Meireles)


“Uma mente agitada faz um travesseiro inquieto.”
(Charlotte Brontë)


“Nossos companheiros perfeitos nunca têm menos de quatro patas.”
(Colette)


“Brevidade é a alma da lingerie”.
(Dorothy Parker)


“A minha vela arde nas duas pontas; não vai durar a noite inteira.”
(Edna St. Vincent Millay)


“O homem é uma fêmea imperfeita.”
(Elizabeth Gould Davis)


“Todo meu patrimônio são meus amigos.”
(Emily Dickinson)


“A vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos.”
(Jane Austen)


“Nada é tão bom como parece à primeira vista.”
(George Eliot)


“As pessoas que acreditam na inteligência, no progresso e no entendimento são as que tiveram uma infância infeliz.”
(Gertrude Stein)


“A verdade te libertará. Mas primeiro ela vai te enfurecer.”
(Gloria Steinem)


“Para que faças brilhar tua estrela não precisas apagar a minha.”
(Helen Keller)


“No amor existem duas coisas: corpos e palavras.”
(Joyce Carol Oates)


“A mulher que se preocupa em evidenciar a sua beleza anuncia ela própria que não tem outro maior mérito.”
(Julie de Lespinasse)


“Eu quero ser tudo que sou capaz de me tornar.”
(Katherine Mansfield)


“Trocar de marido é só trocar de encrenca.”
(Kathleen Norris)


“A vida é uma sacanagem de merda e cada segundo de lucidez é um suplício.”
(Lolita Pille)


“Me leia enquanto estou quente.”
(Lygia Fagundes Telles)


“Na vida você tem de escolher entre tédio e sofrimento.”
(Madame de Staël)


“Os homens gostam das mulheres que escrevem. Mesmo que não o admitam. Uma escritora é um país estrangeiro.”
(Marguerite Duras‬)


“É um erro ter razão cedo demais.”
(Marguerite Yourcenar)


“Humildade é ser invulnerável.”
(Marie Freifrau von Ebner-Eschenbach)


“Dormiu pouco, sente-se mal? Chocolate fará você reviver.”
(Marquesa de Sévigné)


“Se Deus é macho, então o macho é Deus. O patriarca divino castra as mu­lheres enquanto ele for autorizado a viver na imaginação humana.”
(Mary Daly)


“No fundo sabemos que o outro lado de todo o medo é a liberdade.”
(Marilyn Ferguson)


“Tudo o que perdemos, automaticamente dobra de valor.”
(Mignon McLaughlin)


“Não se nasce mulher: torna-se.”
(Simone de Beauvoir)


“Tenha até pesadelos, se necessário for. Mas sonhe.”
(Patrícia Galvão)


“Doer, dói sempre. Só não dói depois de morto. Porque a vida toda é um doer.”
(Rachel de Queiroz)


“Respirei fundo e escutei o velho e orgulhoso som do meu coração. Eu sou, eu sou, eu sou.”
(Sylvia Plath)


“O sucesso é o insucesso de alguém.”
(Ursula Kroeber Le Guin)


“Chamar a um homem de animal é lisonjeá-lo; ele é uma máquina, um vibrador com pernas.”
(Valerie Solanas)


“O pior sentimento que se pode oferecer a uma mulher é a piedade.”
(Vicki Baum)


“O que é uma mulher? Eu lhes asseguro, eu não sei. Não acredito que vocês saibam.”
(Virginia Woolf)

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Fontes:  http://www.revistabula.com/posts/web-stuff/40-frases-de-escritoras-famosas 
publicado em

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vida e Dignidade humana (parte I)

Entrevista com Dr. Ivanaldo Santos, filósofo, pesquisador e professor universitário
O atual debate sobre a Reforma do código penal brasileiro, com a proposta de descriminalização do aborto, etc, está mostrando que estamos vendo chegar ao Brasil propostas de leis contrárias à vida, à moral cristã, e, filosóficamente contrárias ao próprio desenvolvimento e progresso da nação. Para ajudar nesse debate ZENIT entrevistou o Dr. Ivanaldo Santos, doutor em filosofia e autor de inúmeros artigos em revistas especializadas de todo o mundo, perguntado-lhe o significado da vida, visto desde a filosofia.
O Dr. Ivanaldo Santos é filósofo, pesquisador e professor universitário. Publicou mais de 70 artigos em revistas científicas nacionais e internacionais e tem 8 livros publicados.
Publicamos hoje a primeira parte da entrevista. A segunda parte será publicada amanhã, dia 27 de Julho.

ZENIT: O que é a vida, filosoficamente falando?
DR. IVANALDO:Do ponto de vista estritamente da filosofia não é possível se construir um conceito fechado de vida. Vale lembrar que as tentativas de conceitos fechados de vida conduziram a experiências trágicas, como é o caso dos campos de concentração no regime nazista. Na verdade vida, podemos assim falar, é a grande manifestação do logos, que engloba, entre outras coisas, a dimensão biológica, cultural, familiar, psicológica, social e religiosa. Vida é o mais amplo e complexo movimento que o ser humano tem acesso.

ZENIT: A vida é propriedade do homem?
DR. IVANALDO:Nos últimos séculos, devido, em grande medida, as experiências oriundas do capitalismo e do estatismo socialista, tem se discutido muito a noção de propriedade. Fala-se, por exemplo, em propriedade privada, em propriedade intelectual e em propriedade do Estado. Nos últimos anos essa discussão chegou até mesmo a vida humana. Com isso, passou-se a discutir sobre a propriedade de medicamentos, tratamentos de doenças e até mesmo do genoma humano. Além disso, é preciso esclarecer que contemporaneamente o mundo vive um retrocesso nas relações trabalhistas e nos direitos humanos.  Por exemplo, temos o retorno da escravidão, a exploração de mulheres para fins sexuais, são as chamadas escravas do sexo, o trágico de sangue e órgãos humanos, uma política agressiva de legalização do aborto e do infanticídio, dentro do mercado de trabalho está sendo aceito largamente o trabalho precarizado e semi-escravizado, como o que acontece em muitas fábricas na China e em outros países que, são apresentados, como modelos de desenvolvimento econômico. Dentro desse triste quadro passa a haver uma visão reducionista que a vida é um simples objeto comercial, uma propriedade, que, como toda propriedade, é possível se vender e comprar. No entanto, a realidade ontoética do ser humano é bem diferente. O ser humano é a única espécie capaz de refletir filosoficamente sobre si mesma e sobre, a sociedade e o cosmo. Ele é capaz de construir a arte, a poesia e tudo mais que existe de belo e sublime na sociedade. Trata-se, por conseguinte, de uma grande responsabilidade. A vida humana é um patrimônio de Deus e de toda a sociedade. Por isso é preciso valorizar todas as formas e manifestações da vida humana, como, por exemplo, a vida das populações pobres, de regiões isoladas, de mulheres em risco de prostituição, dos deficientes físicos, e do feto, o bebê ainda no ventre da mãe. É por esse motivo que não se pode aceitar e incentivar a cultura da morte, uma cultura que tem como “comércio” a venda da morte para os seres humanos. Essa cultura, ou melhor uma anti-cultura, se manifesta, por exemplo, no retorno da escravidão, na exploração de mulheres para fins sexuais, na tentativa de legalização do aborto, da eutanásia, do infanticídio e de outras barbaridades. 

ZENIT: Em ordem de importância, qual vida é mais importante: a vida humana ou a vida animal?
DR. IVANALDO:Inicialmente é preciso esclarecer que todas às formas de vida devem ser valorizadas, preservadas e respeitadas. Sem dúvida que os maus tratos a animais selvagens e domésticos não devem ser aceitos. Nesse sentido tem havido no mundo, inclusive no Brasil, um avanço na legislação de proteção aos animais. Entretanto, é preciso esclarecer que a proteção aos animais passa pela proteção e valorização da vida humana. Em muitas ocasiões, o ser humano é o destruidor da natureza e da vida selvagem, mas também é o promotor da cultura, da arte e da própria preservação da vida animal. Do ponto de vista ontoético, a vida humana é mais sublime e mais especial do que a vida animal. É claro que devemos promover a defesa da vida animal, mas, por compromisso ético, temos que respeitar, promover e garantir as condições socioculturais de desenvolvimento da vida humana. Neste sentido a vida humana tem prioridade sobre a via animal. Isso não significa que vamos sair por aí matando animais, mas, pelo contrário, temos que garantir a, num primeiro plano, a dignidade da vida humana e, num segundo plano, a vida animal. Levando em conta o desenvolvimento econômico e científico do mundo, afirma-se que há condições técnico-científicas suficientes para a realização dessa tarefa.  
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Para mais informações: Ivanaldo Santos, doutor em filosofia. Email: ivanaldosantos@yahoo.com.br.
Reportagem  Por Thácio Siqueira
Fonte:  (ZENIT.org)- BRASILIA, quinta-feira, 26 de julho de 2012 
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quinta-feira, 26 de julho de 2012

A submissão da mulher está no olhar masculino. Artigo de Pierre Bourdieu

Inédito na Itália, o texto de Pierre Bourdieu do qual publicamos um trecho é um dos últimos escritos pelo sociólogo e filósofo francês, falecido há dez anos. Uma reflexão sobre a percepção feminina do próprio corpo como "corpo para o outro" em uma sociedade totalmente mercantilizada.

Ele foi publicado na última edição da revista Lettera Internazionale, totalmente dedicada à questão feminina. O texto foi publicado originalmente na revista Cahiers du Genre, 2002/2. O trecho foi republicado no jornal La Repubblica, 24-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há muitos trabalhos de antropologia comparada sobre a região mediterrânea que tendem a mostrar que a Cabília [região montanhosa do norte da Argélia], por razões históricas, funcionou como um lugar em que se preservou intacta uma espécie de inconsciência mediterrânea, aquele inconsciente rastreável tanto nos textos da Grécia antiga quanto nos da Grécia atual ou da Itália do Sul, mas também da Espanha ou, em geral, de todas as costas do Mediterrâneo. A Cabília conservou esse sistema ainda em funcionamento e, consequentemente, coloca diante dos nossos olhos o nosso próprio inconsciente cultural em matéria de masculinidade e de feminilidade. Isso se deve à constância das estruturas simbólicas sobre as quais se baseia a nossa representação da divisão do trabalho entre os sexos.

E se essa constância é atestada, coloca-se a questão das condições sociais que a tornam possível. Em outras palavras, o que deve haver de específico na lógica do simbólico da qual faz parte a representação da oposição masculino-feminino para que, além das mudanças econômicas, além das transformações tecnológicas, se possam captar semelhanças tão profundas entre estados tão diferentes da sociedade?

Se o domínio masculino pode se perpetuar, sem dúvida com alterações, mas menores do que se possa acreditar, apesar das mudanças tecnológicas e econômicas ocorridas, isso talvez tenha a ver com o fato de que a ordem simbólica, ou aquele que eu chamo de mercado dos bens simbólicos, constitui um âmbito relativamente autônomo com relação à ordem econômica e à ordem tecnológica.

Há uma lógica específica da economia dos bens simbólicos distinta da econômica, e essa lógica também pode funcionar em parte dentro da ordem mais estritamente econômica (e aqui eu poderia recordar um belo trabalho sobre as acompanhantes pagas que, no Japão, acompanham os homens às custas das grandes sociedades, trabalho que mostra como as burocracias modernas utilizam as estruturas mais tradicionais da divisão do trabalho entre os sexos para cumprir funções econômicas ultrarracionais).

A lógica específica da economia simbólica se perpetua, de fato, até mesmo nos âmbitos mais estreitamente econômicos, como o das empresas, e é observada principalmente em determinados universos, por exemplo o da produção cultural (não é por acaso que se trate de um dos campos mais feminilizados), da literatura, da arte, da televisão, da rádio ou o religioso (onde se encontram, e mais uma vez não por acaso, muitas formas de voluntariado feminino), e, finalmente, na ordem doméstica.

Também se deveria mostrar, mas isso também requer muito tempo e espaço, a lógica específica dessa economia e aquilo que faz com que ela se perpetue também a despeito de todas as necessidades econômicas nas sociedades mais permeadas pela lógica capitalista.

Mas, acima de tudo, é necessário mostrar que, na base da situação dominada da mulher e da sua perpetuação para além das diferenças temporais e espaciais, está o fato de que. nessa economia, a mulher é mais objeto do que sujeito. Devem ser lembradas, nesse ponto, as famosas análises de Lévi-Strauss sobre a troca de mulheres, reinterpretando-as de modo a poder nelas introduzir a dimensão política (penso no domínio que pressupõe a troca e que se realiza e se reproduz através dela).

Vou me deter por um instante sobre o papel passivo atribuído à mulher e que me parece se encontrar, ainda hoje, como fundamento da relação que as mulheres têm com o próprio corpo, uma relação que tem a ver com o fato de que o seu ser social é um ser-percebido, um “percipi”, um ser para o olhar e, se assim se pode dizer, um ser através do olhar, suscetível de ser utilizado, nesse título, como um capital simbólico.

A alienação simbólica à qual condenadas, visto que são destinadas a ser percebidas e a se perceber através das categorias dominantes, isto é, masculinas, se retraduz na própria experiência que as mulheres fazem do próprio corpo e do olhar dos outros que foi bem evidenciado e analisado por uma fenomenóloga norte-americana da qual, infelizmente, não terei o tempo para resumir as análises.

Pelo fato de eu temer muito ser mal entendido, vou tentar me explicar com um exemplo, remetendo-me a um belo artigo sobre as mulheres e o esporte. O artigo mostra que a prática intensiva de uma certa disciplina esportiva determina nas mulheres uma transformação da relação com o próprio corpo e lhes permite aceder a uma visão dele que se poderia definir como masculina; permitir-lhes, enfim, ter um corpo para si, em vez de serem um corpo para os outros, dá-lhes um corpo que é, em si mesmo, o próprio objetivo. O que, além disso, deixa emergir claramente o fato de que o corpo imposto em tempos normais é, portanto, um corpo-para-o-outro, um corpo habitado pelo olhar dos outros, um ser percebido.

A alienação ligada ao fato de ter um corpo visível e de se encontrar, portanto, sempre sob o olhar dos outros apresenta diversos graus: é ainda mais poderoso quanto mais se desce na hierarquia social, porque se tem mais oportunidades de ter um corpo pouco conforme aos cânones dominantes. E encontra o seu próprio limite justamente nas mulheres às quais a experiência do corpo como corpo para o outro se impõe com uma força particular por causa do papel que lhes é prescrito no mercado dos bens simbólicos, onde elas são objeto, ser percebido, capital simbólico, que devem gerir – e do qual são, de alguma maneira, as contabilistas – perante os homens.

A transformação da relação com o corpo através do esporte é acompanhada por uma transformação profunda das relações com os homens. As mulheres, nesse caso, deixam de parecer femininas, isto é, disponíveis, ao menos simbolicamente. A sua relação com o próprio corpo mudou a tal ponto que já não respondem mais às expectativas socialmente constituídas sobre o que é uma mulher. Sem dúvida, se poderiam fazer considerações semelhantes no que se refere à mudança da relação com o corpo relacionada às profissões intelectuais.

Uma última palavra para expressar uma saudade: eu recordei a existência de uma economia de bens simbólicos relativamente autônoma com relação às bases econômicas da sociedade – uma autonomia relativa, evidentemente –, mas eu não analisei sobre que se fundamenta tal autonomia e o modo pelo qual ela se radica na lógica da reprodução biológica e sobretudo social. Eu não mostrei como as novas tecnologias da reprodução biológica, por exemplo, podem contribuir para transformar a dicotomia produção/reprodução que é o fundamento da economia dos bens simbólicos. Ao longo desse caminho, eu poderia abordar o problema do nexo entre relações sociais entre os sexos e relações sociais entre as classes. Mas não posso fazer nada mais do que enunciar os títulos dos temas que eu gostaria de tratar e me deter.
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/26/07/2012
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Gabriel García Márquez dissecado

Gabriel García Márquez
publicado em
 
O ensaísta Enrique Krauze diz que obra do escritor colombiano falsifica a história de sua família, louva o ditador-tutor Fidel Castro e contribui para legitimar o regime comunista de Cuba
O nobelizado Gabriel García Márquez é uma espécie de Louis-Ferdinand Céline da esquerda. Mas há duas diferenças. Primeiro, o autor de “A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e Sua Avó Desalmada” não fez campanha para liquidar indivíduos ou povos. Segundo, se García Márquez usa subterfúgios para apoiar ditadores, escondendo-se atrás de textos e declarações às vezes ambíguos, Céline era preciso na sua crítica e combate aos judeus. Não sabia fingir. A anuência de Gabo com o regime serial killer de Fidel Castro e do escravo mental deste, Raul Castro, é conhecida. Quando escritores cubanos eram (e são) perseguidos pelo regime comunista, García Márquez silenciava, ao menos publicamente, como no caso do poeta Heberto Padilla. O autor colombiano diz que, em particular, “defendeu” algumas vítimas do regime. Quais, não esclarece, mas é possível que esteja dizendo a verdade. No campo estrito da literatura, não há dúvida que, se não é inventivo como James Joyce, Faul­kner, Guimarães Rosa e mesmo Julio Cortázar, e se não tem uma visão mais abrangente da sociedade, como Mario Vargas Llosa, é um excelente escritor tradicional, um Jorge Amado talvez um pouco mais raffiné ou imaginativo, um fabulista ao estilo de La Fontaine ou, quem sabe, Andersen. “Cem Anos de Solidão” e “O Amor nos Tempos do Cólera” são grandes romances, como “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, ainda que de escopo diferente — mais naif e menos intelectual — do livro do alemão. São clássicos que se tornaram uma espécie de imaginário coletivo. Vargas Llosa, filho de Flaubert que leu Faulkner, constrói sua obra literária com tanto refinamento que, às vezes, o leitor percebe as pilastras sólidas da arquitetura. García Márquez pratica uma literatura, digamos assim, mais “natural”, “espontânea”. Na verdade, um certo desleixo é apenas aparente, assim como a naturalidade. É fato que parece um escritor menos artificial e mais populista do que o peruano — o que agradou o historiador Perry Anderson. No ensaio “Lembranças tropicais: Gabriel García Márquez”, publicado no livro “Espectro” (prova que a esquerda pode ser inteligente e questionadora), o marxista britânico compara o autor de “Ninguém Escreve ao Coronel” a Vargas Llosa, tentando sugerir certa objetividade, mas desfavoravelmente ao criador de “Conversa na Catedral”. Para uma leitura perspicaz da prosa e do próprio García Márquez, recomendo o ensaio “Gabriel García Márquez — À Sombra do Pa­triar­ca”, inserto no livro “Os Reden­tores — Ideias e Poder na América Latina” (Benvirá, 606 páginas, tradução de Magda Lopes, Cecília Gouvêa Dourado e Gabriel Fe­dericci), do jornalista, ensaísta e historiador mexicano Enrique Krauze, parceiro de Octavio Paz na criação da revista “Vuelta” e professor convidado de Oxford. Como não leu Krauze, a análise das memórias de García Márquez feita por Anderson acaba por ser limitada.

Um dos “problemas” de Krauze é que, em função de seu objetivo — a desmitificação de García Márquez —, examina mais a política do que a literatura e “determina” esta por aquela. O romance “O Outono do Patriarca” não é apenas a história do coronel latino-americano arquetípico. É um exercício, decerto malogrado, de imitação da prosa de Joyce e, sobretudo, de Faulkner. Mas as conexões que descobre, ou refina a partir de outros autores, entre a obra e García Márquez são magníficas. De cara, afirma, com o máximo de elegância possível, que, longe de ser apenas um escritor inventivo, o autor de “Crônica de uma Morte Anunciada” é um mentiroso contumaz. Fica-se com a impressão de que o escritor mau caráter acaba por piorar a obra literária, o que nem sempre ocorre — a prosa de García Márquez continua forte e rica, apesar de sua canalhice pessoal, de sua adoração pelos ditadores, dos quais Fidel Castro é apenas a figura mais simbólica.

Krauze começa contando que, quando menino, seu avô, o coronel Nicolás Márquez Mejía, mostrou-lhe um dicionário e disse: “Não apenas este livro sabe tudo, ele é o único que nunca está errado”. O garoto indagou: “Quantas palavras estão aí dentro?” O avô redarguiu: “Todas elas”. Mejía percebia a linguagem como instrumento de poder, por isso deu um dicionário ao neto, a quem chamava de “meu pequeno Napoleão”. Nas suas belíssimas memórias, “Viver Para Contar” (Record, 476 páginas, tradução de Eric Nepomuceno), García Márquez escreve: “A vida não é o que uma pessoa viveu, mas o que ela se lembra e como se lembra dela, de forma a recontá-la”. O que se sabe é que o autor reforça a mentira como forma de enaltecer o avô, por exemplo. Mejía matou Medardo Pacheco “de forma desonrosa”, pois seu inimigo estava desarmado. Na versão do prosador, Medardo morreu, armado, num duelo. O escritor omite a prisão do avô devido ao crime. Não se está, no caso, fazendo literatura, e sim falsificando deliberadamente a história de dois indivíduos.

O anti-imperialista García Márquez trata a United Fruit Company quase que como um monstro tanto em “Cem Anos de Solidão” quanto em “Viver Para Contar”, mas omite, segundo Krauze, que seu avô, o coronel Márquez, “foi na verdade um dos primeiros beneficiários desse investimento estrangeiro”. A mãe do prosador, Luisa Santiaga, “ansiava pela época de ouro da companhia bananeira”, admite o autor, nas memórias. Santiaga avaliava que, com a empresa, havia um “paraíso”.

Em sua obra, García Márquez apresenta a Colômbia “como uma república de fachada”, o que, afirma Krauze, não corresponde à realidade. “Os colombianos não apoiavam golpes ou ditaduras. Talvez não seja exagero dizer que nenhum outro país da região experimentou de forma mais tenaz a democracia na segunda metade do século XX”. Krauze ressalva que, apesar da democracia, a Colômbia não conseguiu evitar a violência, resultado da “discórdia entre liberais e conservadores”. O ensaísta mexicano descobre aí o desconforto de García Márquez com as ideologias liberal e conservadora, por isso o escritor concorda com uma declaração de Simón Bolívar: “Estou convencido até a medula de meus ossos de que apenas um despotismo capaz pode governar na América”. Krauze ressalta: “Um déspota capaz, um bom patriarca, um novo e anti-imperialista Uribe Uribe se tornaria o ideal de Gabito”. Daí a Fidel Castro foi um passo.

Ao examinar a biografia “Gabriel García Márquez: Uma Vida” (Ediouro, 816 páginas, tradução de Cordélia Magalhães), Krauze diverge do inglês Gerald Martin, que “às vezes exagera a riqueza e a complexidade da educação literária de García Márquez, que parece ter sido limitada a Darío e ao Século de Ouro Espanhol, bastante Faulkner e Hemingway, um pouco de Kafka, um toque de Freud e menos ainda de Mann” (de fato, o índice remissivo da hagiografia apresenta poucos escritores respeitáveis). Martin percebe “Cem Anos de Solidão” como um espelho da América Latina, tese da qual discorda Krauze. “Pelo menos dois elementos essenciais faltam em seu relato fictício: os indígenas e a fé católica.” Octavio Paz não apreciou o romance: “A prosa de García Márquez é essencialmente acadêmica, é um compromisso entre o jornalismo e a fantasia. Poesia aguada. Ele é um continuador de uma dupla corrente latino-americana: o épico rural e o romance fantástico. Não carece de habilidade, mas é um divulgador ou, como chamava Pound, a esse tipo de fabricantes, um diluidor”.

Krauze nota que “O Outono do Patriarca” — sobre um ditador tropical — é o romance preferido de García Márquez. “Sempre acreditei que o poder absoluto é a mais alta e mais completa realização do ser humano”, disse o escritor. “Se ‘O Outono do Patriarca’ provou alguma coisa, é que o sujeito da tirania se encaixa bem com as expressivas exigências do realismo mágico”, nota Krauze. “Ao tornar indistinta a realidade do poder e transformar a ditadura em um melodrama, o romance desumaniza as vítimas e reumaniza o ditador. (...) Há espaço apenas para a consciência do ditador. Tudo acontece através, para e na percepção do patriarca. (...) Depois de retratar o patriarca na literatura, estava na hora de procurá-lo na vida. Martin confirma isso: foi ‘Fidel Castro, o único homem, a figura de seu próprio avô, a quem ele não poderia, não ousaria, nem mesmo desejaria, vencer’.”

García Márquez admitiu que “a lei que proibiu todas as obras criativas que se opõem aos princípios da Revolução” cubana é alarmante, mas sua explicação é igualmente alarmante: “Qualquer escritor que ceda à temeridade de escrever um livro contra a Revolução não tem por que tropeçar em uma pedra constitucional... a Revolução estará madura os suficiente para digeri-lo”. Deveria ter acrescentado: “literalmente”.

A hagiografia escrita por Martin às vezes acerta, aceita Krauze. O biógrafo sugere que “a descrição de Bolívar feita por” García Márquez “foi inspirada em características de Castro, e suas descrições de Castro por sua imagem de Bolívar”. A fusion Bolívar-Castro está no romance “O General em Seu Labirinto”. Fidel se tornou uma espécie de Deus, ou o substituto do avô que morreu cedo,  para o escritor colombiano, cuja canalhice política não diminui o valor estético de sua obra. É provável que, mais tarde, García Márquez se torne um personagem de “Cem Anos de Solidão”. Um Pinóquio criativo, talvez eterno.

Confirmando historiadores e jornalistas, como Andrés Oppenheimer, Krauze diz que o acordo entre Fidel e narcotraficantes colombianos foi estabelecido em 1986. Cuba havia se tornado um entreposto de um dos cartéis da cocaína produzida na Colômbia. No entanto, quando os serviços de inteligência americanos descobriram o fato e alertaram o governo de seu país, e este alertou o governo de Fidel, o ditador, que sabia de tudo, mandou prender os militares e agentes que supostamente cuidavam da relação com o tráfico. Mandou prender e executar o general Arnaldo Ochoa, o popular “herói da Revolução”, e Tony de la Guardia. Ochoa, no caso de uma transição, era o provável sucessor de Fidel, portanto uma ameaça para o anódino e, dizem, descerebrado Raúl Castro, o irmão do ditador. Os irmãos La Guardia, Patricio (condenado à prisão) e Tony, eram amigos íntimos de Fidel. Parentes dos La Guardia pediram proteção a García Márquez, que era íntimo de Tony, e o escritor “os aconselhou a não recorrer a nenhuma organização de defesa dos direitos humanos”. Mas o autor não escreveu ao coronel e Tony foi fuzilado.

A importância de Fidel para García Márquez é tanta que o ditador se tornou uma espécie de seu tutor literário. As palavras são do próprio escritor, assim insuspeitas: “Hoje em dia não publico um livro antes de o Comandante o ler”. A única crítica “literária” que importa, portanto, é a do Stálin do Caribe. George Steiner? Que nada! O realismo “socialite” de Gabo só admite um crítico: o ditador sabe-tudo.

A imprensa europeia sustenta, vez ou outra, que García Márquez (85 anos), imitando seu guru, Fidel, está senil. Sobretudo, por opção, é um gagá moral. Em 2003, quando o escritor não estava doente, surgiu, ou ressurgiu, em Cuba um movimento pelos direitos humanos mais consistente. Fidel, chefe do Judiciário, “sentenciou 78 dissidentes a penas que variavam de 12 a 27 anos de prisão”. Um dos presos “foi acusado de possuir um gravador Sony”. Não contente, Fidel mandou fuzilar “três meninos que tentaram fugir da ilha em uma balsa”. José Saramago, o stalinista português, estrilou: “Aí é até onde eu vou”. Depois, a serviço da “causa”, retirou a afirmação e seguiu apoiando a ditadura. A crítica e escritora americana criticou García Már­quez: “Ele é o maior escritor deste país [Colômbia] e eu o admiro muito, mas é imperdoável que não tenha se manifestado quanto às mais recentes medidas tomadas pelo regime cubano”. O escritor se tornou cúmplice de Fidel... seu outonal coronel-patriarca.

OBS. do Blog: Comentário feito por um leitor sobre o texto: Quanta porcaria alguém pode escrever! No caso, esse medíocre Enrique... o que?
 
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Fonte:  http://www.revistabula.com/posts/livros/gabriel-garcia-marquez-dissecado

A Morte, esse Lugar-Comum

Alexandre O'Neill*
 

É trivial a morte e há muito se sabe
fazer - e muito a tempo! - o trivial.
Se não fui eu quem veio no jornal,
foi uma tosse a menos na cidade...

A caminho do verme, uma beldade
— não dirias assim, Gomes Leal? —
vai ser coberta pela mesma cal
que tapa a mais intensa fealdade.

Um crocitar de corvo fica bem
neste anúncio de morte para alguém
que não vê n'alheia sorte a própria sorte...

Mas por que não dizer, com maior nojo,
que um menino saiu do imenso bojo
de sua mãe, para esperar a morte?...

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* Poeta português ( 1924-1986).
Alexandre O'Neill, in 'Abandono Vigiado'

Fonte: http://www.citador.pt/poemas/a-morte-esse-lugarcomum-alexandre-oneill 
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A arte de viver – você a conhece?

Paulo Ghiraldelli Jr.*

 

O filósofo italiano Giorgio Agamben escreve: “a arte de viver é (…) a capacidade de nos mantermos numa relação harmoniosa com aquilo que nos escapa”.[1] À primeira vista, trata-se de uma fórmula enigmática. Mas não é. Agamben explica que o conhecimento parece ter necessidade de um pressuposto, que é a existência de um campo no qual reina o que não é conhecido, um centro do qual emana a ignorância. Sem esse lugar da ignorância, como poderíamos falar de um espaço preenchido de conhecimento. O conhecimento então é conhecimento do conhecido e concomitantemente um saber do que se pode pressupor como existente, embora um campo cheio do que nada sabemos ou ainda não sabemos.
Ah! Mas como é difícil rapidamente deixar a harmonia de lado e acreditar que o campo do conhecimento, sozinho, é o que importa, e o que nos escapa é algo de menos valor. Podemos escapar disso e encontrar a harmonia entre ambos os campos, em favor da “arte de viver” de Agamben?
Na história da filosofia a relação entre Platão e Sócrates faz-me entender Agamben, mesmo que por uma via não indicada por ele.
Sócrates passou uma vida fazendo questões que não foram respondidas. As respostas, como não vinham, alimentavam o campo da ignorância. Ele perguntava, por exemplo, “o que é a coragem?”, e o que se pedia não vinha. Os interlocutores davam exemplos, relatando atos corajosos. Falam historicamente e não filosoficamente. A “natureza mesma da coragem”, pedida por Sócrates literalmente, definia um campo de ignorância. Poder-se-ia saber muitas coisas e ter como alguma coisa conhecida à medida que se soubesse o que era não saber alguma coisa, por exemplo, não saber o que é a coragem. Ora, talvez temeroso de ver seu mestre igualado aos sofistas pela consciência popular, em determinado momento Platão quis romper com esse limite de Sócrates. Em uma dada altura de seus escritos quis um Sócrates que dissesse que a coragem era a Coragem, a forma Coragem, o eidos existente em um campo que já não era o da ignorância, mas o campo em que a forma Coragem sempre compartilhou com as outras formas – matrizes epistemológicas e ontológicas  supra-sensíveis do existente no mundo sensível.
Platão quebrou com a harmonia necessária à “arte de viver”. Platão destituiu de seu status relativamente igualitário o campo do qual emanava a ignorância, transformando-o em um lugar de fonte do saber real, justamente o lugar em que, o que não se poderia ter mesmo era um tiquinho de produção de ignorância. A ignorância, então, ganhou o caráter de falta, carência, defeito ou mesmo produto do erro ou da ilusão – a opinião, então oposta ao conhecimento.
Enquanto Sócrates reinou em Atenas, o erro não era uma falta em si (ainda que o desconhecimento intelectual fosse responsável pela falta moral), mas a indicação de que de um lado havia o conhecimento e de outro um campo em relação aos quais vários emudeciam, o campo produtor da ignorância. A “arte do viver” era equilibrar-se entre saber e não saber. Sócrates não separava filosofia e vida, ou seja, ele inquiria todos procurando o saber que viria das respostas, isso era sua arte de viver e seu filosofar. Era o todo de sua vida. Sócrates nunca disse que só sabia que nada sabia. Ele disse que em relação às perguntas que fazia, ele não sabia a resposta. Mas sabia muito bem o que não sabia, então, sabia algo: sabia o tanto que era necessário para continuar a perguntar, a filosofar, a exercer a “arte do viver”. Ele tinha uma relação altamente inquietante entre saber e não-saber, mas jamais uma relação não harmoniosa.
Sócrates era pobre, feio e plebeu, no entanto, espalhava harmonia em sua “arte de viver”. Platão era rico, nobre e belo, mas, durante um tempo, não conseguiu viver harmoniosamente e, segundo o que se pode inferir de alguns historiadores helenistas e filósofos (de certo modo, a tese Vlastos-Davidson à frente), ao final da vida se arrependeu e tentou voltar a ser socrático.[2] Tentou voltar a acreditar que manter-se com o elenkhós, o método da refutação, e suportar as aporias, não era um negócio ruim, ao contrário, era bom à medida que era o possível dentro de uma razoável “arte de viver”. Arrisco dizer que Platão chegou a perceber que aí cabia uma harmonia que ele havia perdido ou havia desprezado. Ao fim e ao cabo, Platão teria, ao final da vida, abandonado o platonismo, se tomamos este como a confiança no Mundo da Formas como mecanismo para dar respostas às perguntas socráticas. Uma vez mais velho, ele teria, então, se voltado para a retomada de diálogos problematizadores e refutadores, até de si mesmo.
A “arte de viver”, no lema de Agamben, não é aceitar a ignorância. Longe dele a resignação do tipo “há ali um campo misterioso” e inexpugnável que deve ser idolatrado ou mistificado. A “arte de viver” não é isso, pois a harmonia de duas coisas não é simplesmente o aceitar de uma ou das duas. Harmonia é ter certo que dois campos podem se relacionar e devem se relacionar sem que um elimine o outro com bofetadas ou até mesmo com beijos sedutores ou o subsuma com discursos laudatórios. Sócrates não voltava para casa contente por não ter obtido respostas ao que perguntava, dizendo então que o campo da ignorância havia sido aceito. Ele voltava para casa contente, às vezes, quando via que ao não ter conseguido resposta, também não havia perdido as respostas que já possuía e nem se via impedido de colocar as mesmas perguntas, ou semelhantes, novamente.
Hannah Arendt nos lembra da necessidade que Sócrates sempre teve de concordar com aquele que vivia consigo, lá na sua casa. Este “aquele” nada seria senão alguém que nós, do nosso ponto de vista moderno, dizemos que seria ele próprio, Sócrates. O problema que Sócrates se punha era o da impossibilidade de viver com alguém, ele próprio, que não concordava com o que ele pensava e fazia. Manter-se assim, de modo possível e harmonioso no “dois em um”[3], era uma forma de harmonia e, de certo modo, de exercer uma boa “arte de viver”. O “dois em um” aparecia nos momentos em que o diálogo já não era com alguém exterior, mas aquilo que Platão chamava de uma “conversa silenciosa” interior à alma. Nesse sentido, Sócrates dizia mais ou menos assim: o que sei é, então, o que procuro refutar em mim para ver se sei mesmo e para me certificar que se sustenta como crença, ou se, diante de mecanismos de negação, vão me escapar. Essa é a regra da atividade do “dois em um”. Não posso falhar nisso, porque o que sei e acredito não pode ser desprezado como mera opinião, uma vez que moral é conhecimento. Quando não sei, erro, e erro moralmente; ora, como conviver com alguém, em nossa própria casa (nossa alma), que comete erros que não suportamos. Dormir sob o mesmo teto, por exemplo, com um assassino, não é algo bem incômodo?
Talvez essa atividade tão corriqueira que nos é exigida por estarmos vivos seja uma das mais difíceis: ter uma “arte de viver”. Como ter uma “arte de viver” e exercê-la se isso depende cotidianamente de mantermos os campos do saber e da ignorância sem que um colonize o outro? Fazer isso pressupõe não tomarmos o conhecimento como rei absoluto e absolutista e o não-conhecimento como pobre e pecador. O não saber não é plebeu, alguém pobre que, não raro, vai acabar fazendo alguma oposição ao rei ou à ordem (o que dá no mesmo) e, então, ser decapitado. O não saber não é pecador, alguém insensato que vai errar sabendo que assim o rei o punirá com a pena de morte e a própria sociedade salgará suas terras e amaldiçoará sua família até sei lá quantas gerações. Nada disso! O campo do não-saber pode muito bem ser apenas pressuposto para que o campo do saber seja o campo do saber. Uma educação baseada nesse tipo de ética ou de “arte do viver” pararia de fazer a apologia do acerto pelo acerto nas salas de aula, mas o tomaria, de modo melhor, como o que só tem sua existência pelo não-acerto, o erro, o desconhecimento, o que nos escapa.
Se a sala de aula quer ter alguma coisa a ver com a vida, no sentido da vida que quem a vive é quem precisa de uma “arte do viver”, ela tem de dar um estatuto ao não saber, ao que nos escapa, ao erro inclusive.

[1] Agamben, G. Nudez. Lisboa: Relógio d’Água, 2010.
[2] Ver Ghiraldelli Jr., P. A aventura da filosofia. Barueri-SP: Manole, 2011; e também Ghiraldelli Jr., P. Dossiê Platão. São Paulo: Universo dos Livros. 2010.
[3] Ver o capítulo sobre Sócrates em Arendt, H. A vida do espírito. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
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* Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ. Agora também como cartunista no http://gametas.blogspot.com
Fonte:  http://ghiraldelli.pro.br/2012/07/25/a-arte-de-viver-voce-a-conhece/

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Três visões sobre três tragédias

  Ricardo Galuppo*
 
São três fatos que têm a mesma gênese e consequências que até podem diferir na quantidade de vítimas - mas têm como ponto comum o fato de encontrar pela frente pessoas inocentes que pagam com a vida pela estupidez alheia.
O mais antigo dos três aconteceu um ano atrás, na Noruega, quando o atirador Anders Behring Breivik matou 77 pessoas em Oslo e na ilha de Utoya.
Outro aconteceu no último fim de semana no estado americano do Colorado, quando um idiota chamado James Holmes assassinou 12 e feriu dezenas de pessoas que assistiam à pré-estreia do último filme da série Batman.
Finalmente ontem, "ativistas" que se escondem atrás do anonimato e de um grupo de fanáticos, o Al Qaeda, espalharam o terror por 19 cidades do Iraque e deixaram atrás das explosões de suas bombas um rastro de 111 mortos.
Nenhuma das pessoas que morreram nas três tragédias estava engajada em ações contra seus assassinos. Foram colhidas de surpresa enquanto trabalhavam, se divertiam ou participavam de atividades pacíficas em torno da causa em que acreditavam - uma causa que inclui a paz e a democracia, como era o caso dos jovens que estavam no encontro do Partido Trabalhista, na Noruega.
Além da revolta pelas mortes e da covardia dos assassinos, o que chama atenção nesses episódios é o tratamento que os criminosos e suas vítimas recebem na imprensa internacional - inclusive a brasileira.
O norueguês Breivik é mostrado como um fanático e suas vítimas, como pessoas que deram a vida por uma causa nobre.
O americano Holmes foi descrito pelas agências internacionais como alguém de "olhar perdido e triste" e suas vítimas, como integrantes de uma sociedade cujos valores as expõem a esse tipo de circunstância.
Os iraquianos que morreram, por sua vez, perdem importância diante de mais uma reação da Al Qaeda, que, pela visão predominante, não luta pela destruição do Ocidente (conforme os próprios fanáticos estão cansados de afirmar), mas contra a ocupação do Iraque pelas tropas americanas que invadiram o país. É como se o destino das vítimas se justificasse pela ideologia de seus algozes.
A esta altura, deve ter leitor se indagando por que motivo escrever sobre um tema como esse num jornal dedicado a economia - e, ao escrever, por que deixar de fora o conflito que já custou milhares de vidas na Síria.
Ali, em que pese o fato de a guerra civil expor inocentes ao fogo cruzado, existe um conflito declarado que teve início com a revolta popular contra uma ditatura ridícula e sanguinária como qualquer outra ditadura (seja ela de direita, de esquerda ou do que quer que seja).
O mundo tem procurado se opor e já teria conseguido avanços mais significativos se alguns governos liderados pela Rússia e pela China (dois dos Brics, diga-se de passagem) não tivessem se oposto a uma intervenção. Isso significa que os interesses econômicos muitas vezes atropelam o bom senso.
Nos outros casos, a questão da economia seria mais difusa se não fosse pelo fato de a democracia (até prova em contrário) florescer apenas sob o regime capitalista. E ter na liberdade seu principal primado. Liberdade que inclui o direito à indignação.
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* Ricardo Galuppo é Publisher do Brasil Econômico
Fonte:  http://www.brasileconomico.ig.com.br/noticias/tres-visoes-sobre-tres-tragedias_119784.html
Imagem da Internet

Os solitários

 MARTHA MEDEIROS*
 
Mateus Meira, que disparou contra a plateia de um cinema de São Paulo, em 1999, era um cara sem amigos, não frequentava grupos. Wellington Moreira, que matou alunos de um colégio em Realengo, não tinha namorada e quase nunca saía de casa. Anders Breivik, o norueguês que matou 77 jovens na Ilha de Utoya, só se relacionava com alguns poucos fanáticos como ele, pela internet. James Holmes, que semana passada matou 12 pessoas durante a exibição do novo filme do Batman, nos Estados Unidos, era considerado um sujeito recluso.

Não significa que cada garoto trancado em seu quarto vá amanhã ter seu dia de psicopata, mas coincidência não é. Estudos revelam que grande parte dos que cometem essas atrocidades são depressivos e, por consequência, se isolam da sociedade. Muitos não buscam tratamento, consideram-se apenas “na deles”. E os pais acabam por respeitar seu jeito de ser. E os colegas não os chamam para as festas. E as garotas os rejeitam e namoram meninos mais populares. Apartados de todos, eles vão se confinando num cativeiro mental e social, passando a levar mais em conta a fantasia do que a realidade. Mas sofrem com a exclusão, ou não desenvolveriam uma personalidade tão vingadora.

Não se mata para brincar. Quem atira está atirando em inimigos imaginários, oriundos da conhecida “oficina do diabo”.

São tragédias de exceção, não acontecem todo dia, mas há solitários que, em grau bem menor de maluquice, também se transferem para universos paralelos e alimentam ideias absurdas que, por não serem discutidas com amigos e parentes, acabam fermentando e levando a desastres. No máximo, buscam na internet pessoas tão isoladas quanto eles, que confirmam suas sandices. Se discutissem com quem realmente os conhece, com quem os ama, seriam questionados e viveriam a experiência da troca de ideias e da orientação. Mas sozinhos, entre quatro paredes, correm atrás da veneração garantida de outros outsiders.

Sempre que um filho nosso está com algum problema (ou sofrendo porque uma garota não quis sentar a seu lado na aula, ou com notas baixas, ou com espinhas, sei lá), é preciso se perguntar: ele tem amigos? Ele é convidado para aniversários, viagens, churrascos, jogos esportivos? Ou ele é um esquisitão que não quer saber de ninguém e ninguém dele? Porque se ele tem amigos de fato, os problemas provavelmente são típicos da idade, e não sintomas de uma desadaptação crônica.

Ter um ídolo não é ter um amigo. Conhecidos virtuais tampouco formam uma turma de amigos. Dizer “oi, tudo bom?” é só um cumprimento. Relacionar-se é outra coisa: exige tempo, dedicação e abertura para conviver com pessoas variadas e diversas, o que ajuda a formar uma identidade saudável.

Quem não se relaciona com os outros, pensa que se basta sozinho, mas não se basta: dentro da cabeça, dá trela a seus demônios, os únicos a quem escuta.
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* Jornalista. Cronista. Escritora
Fonte: ZH on line, 25/07/2012
Imagem da Internet

terça-feira, 24 de julho de 2012

Útero, serviço à sociedade?

Marília Moskcovitch*

 
Por pressão das bancadas fundamentalistas, Brasil pode ter lei que reduz grávidas a objetos reprodutivos.
 É hora de barrar ameaça
Um mundo onde as mulheres férteis são corpos a serviço do Estado. Elas servem para gerar bebês, reproduzir a espécie. Seus corpos são assunto público. É dever delas e de toda a sociedade cuidar desses corpos, mantê-los em boas condições. Elas são um serviço. Atentar contra este serviço é crime: qualquer ameaça a sua integridade física é punida severamente, quer venha delas mesmas ou de outrem. Por isso, são confinadas em espaços ultra-seguros, numa rotina rígida que inclui todas as práticas que a medicina considera apropriadas antes, durante e depois de uma gravidez. A vida destas mulheres vale menos do que os óvulos ainda não fecundados em seus ovários, e menos ainda do que a existência da potencial pessoa, ainda em forma de feto enquanto estão grávidas.
O cenário de horror que descrevo foi inspirado no livro O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), de Margaret Atwood. Está longe da ficção, porém: a legislação brasileira pode instaurar o mesmo tipo de contexto se algo não for feito rápido. Muito rápido.
O Projeto de Lei 478/2007, “Estatuto do Nascituro” (acesse na íntegra aqui), tramita na Câmara Federal e deve ir a votação dentro de pouco tempo. Já em seus primeiros parágrafos define que “o ser humano” começaria “na concepção”. Um erro crasso, já que a própria legislação brasileira, que proíbe o aborto, permite a pílula do dia seguinte. A pílula do dia seguinte não permite que o óvulo fertilizado se fixe nas paredes do útero e, se esse óvulo fertilizado já é vida (segundo as correntes religiosas que endossam esse projeto de lei), a pílula do dia seguinte seria o equivalente a um assassinato. Ejaculação também. É neste tipo de distorção que o Estatuto do Nascituro se baseia. Uma discussão muito lúcida sobre essa suposta “defesa da vida” está no texto “Aborto: é possível ser pró-vida e pró-escolha ao mesmo tempo?” do conhecido cientista Carl Sagan (leia aqui).
O texto do PL defende que o “nascituro” (ou seja, algo que pode ser um embrião ou um feto em qualquer estágio de desenvolvimento, pois não há especificação alguma sobre isso no projeto) tenha direito à vida (antes de nascer estaria ele morto?), à educação (intra-uterina?), à saúde (porque, afinal de contas, a saúde da grávida não importaria tanto, se não fosse pelo embrião ali dentro), à alimentação (alguém já viu grávida fazer greve de fome? Seria crime então uma mulher que passa fome engravidar, se esse PL fosse aprovado?), entre outras barbaridades e incongruências. Ao fazê-lo, coloca o embrião e o feto enquanto sujeitos de direitos numa posição mais alta do que as próprias mulheres grávidas na hierarquia de quem “merece” mais direitos e proteção do Estado e da sociedade. A função da pessoa grávida passa a ser interesse público, como se ela estivesse prestando um serviço à sociedade.
No artigo 8º chega a ser ridícula a proposição de que seria dever do SUS tratar o “nascituro” em condições iguais às de uma criança. Os artigos 9º e 10º buscam enfatizar que todo embrião ou feto necessariamente tem que nascer, mesmo que não haja expectativa de vida fora do útero, como no caso dos anencéfalos cujo aborto já é entendido como legal no Brasil.
Mais à frente, o artigo 13º é o que talvez represente o retrocesso mais odioso de todo o PL: propõe que todo embrião ou feto concebido a partir de estupro (que eles têm a “delicadeza” de chamar apenas de “violência sexual” no texto) também tenha que nascer. Este artigo ignora completamente a situação de violência vivida pela pessoa grávida e oferece uma pensão durante o primeiro ano de vida. Um suborno estatal para que pessoas que foram estupradas não façam aborto.
O texto ainda é recheado de punições penais desproporcionais caso as pessoas grávidas (que, neste escopo, se tornariam menos pessoas ao se tornarem grávidas) não sigam essa cartilha do bom comportamento, que não apresenta sequer critérios específicos como parâmetro do que “causa mal” ao tal “nascituro”, do que seria “negligência”, etc. uma vez que nem mesmo na medicina há consenso sobre que práticas são melhores ou piores para um feto em gestação.
Há risco real de estas atrocidades serem aprovadas em breve. Por este motivo os movimentos de mulheres tomaram a dianteira em organizar um abaixo-assinado nacional que mostre, nas audiências públicas e gabinetes de políticos, que a sociedade brasileira desaprova essa tutela; que entende que um projeto de lei como esse é uma ameaça muito grave aos direitos humanos de mulheres. Embora uma assinatura num documento digital pareça pouco, vale lembrar que a opinião pública ainda tem algum peso (ainda bem) na atuação de vários representantes e instituições. É o mínimo, mas o mínimo precisa ser feito.
A declaração geral do abaixo assinado, mostrando pontos cruciais de retirada de direitos que essa legislação prevê, pode ser lida aqui. No mesmo endereço, você também pode contribuir com sua assinatura no documento.
O livro de Margaret Atwood é terrível. Terrível por ser verossímil, se não agirmos rápido para garantirmos direitos básicos que não deveriam sequer estar em disputa. Ela descreve, na distopia que nos horroriza, a relação que as aias, servas reprodutivas, têm com o sexo obrigatório oferecido aos Comandantes – homens em altas posições sociais, para quem trabalham.
“Minha presença aqui é ilegal. É proibido para nós ficarmos sozinhas com os Comandantes. Nós servimos para procriar: não somos concubinas, gueixas, cortesãs. Pelo contrário: o máximo possível foi feito para nos tirar destas categorias. Não deve haver nada de interessante em nós, não deve haver espaço para a luxúria; nenhum favor deve ser trocado, por nós ou por eles, e não deve haver brechas para o amor. Somos úteros com pernas, apenas: invólucros sagrados, cálices ambulatoriais.”[1]

[1] Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale (“O Conto da Aia”), capítulo 23, tradução livre.
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* Por Marília Moskcovitch, editora de Mulher Alternativa
Fonte:  http://www.outraspalavras.net/2012/07/23/utero-servico-a-sociedade/