quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Natal e anjos entre fé e arte

 

Mas é com a Natividade Mística de Botticelli (1502), conservada na National Gallery de Londres, que vemos o verdadeiro triunfo das presenças angelicais dominando toda a cena. No teto, três anjos de forte expressividade simbólica, um vestido de branco (a fé), um de vermelho (a caridade) e um de verde (a esperança), seguram um livro aberto. Abaixo, outros três anjos abraçam três homens. As imagens de Maria, de José, do Menino, do burro, do boi e dos pastores se encontram com as figuras celestiais dos coros de anjos. Nesta assimetria de figuras humanas e espirituais, em suspensão mística entre o céu e a terra, percebemos a dimensão transcendente e o mistério do nascimento do Filho de Deus. A obra é cheia de concretude comunicativa, de verdadeira espiritualidade, de símbolos éticos e mensagens reconfortantes para cada um de nós. (Por Bruno Brundisi)
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O que esperar (ou fazer) de novo

 Maria Clara Lucchetti Bingemer *

Difícil a inspiração ao pensar no novo ano que por aí vem.  Difícil porque se termina em geral o ano com o cansaço acumulado de tudo o que foi vivido, trabalhado, sofrido e frustrado, defraudado, perdido.  E, no entanto, é preciso tentar animar-se, reerguer-se, preparar-se.  Pois dentro de poucos dias ele estará aí... 2013, um ano a mais.  E haverá que vivê-lo. 

E como vivê-lo sem esperança?  Sem essa abertura de coração para a surpresa que deve caracterizar todo fim de ano?  Sem essa expectativa de que tudo será melhor, como enfrentar a longa sucessão de mais de 300 dias que se desdobra à nossa frente? Como acolhê-la, saudá-la, beber champanha à sua chegada? 

O fato é que, como dizia o poeta maior, Carlos Drummond de Andrade,

 “Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar que, por decreto de esperança, 
a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, 
recompensa, justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. 
Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, 
tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que 
o Ano Novo cochila e espera desde sempre”.  

Pois então, vamos lá.  Sigo o poeta e penso: em lugar de esperar que aconteça, o que devo fazer para que o ano seja novo?  O que em mim tem que nascer, renascer, ser recriado para que o ano tenha cheiro e gosto de manhã e não sabor murchado e dormido de anteontem? 

Creio que a primeira coisa é sacudir a poeira dos hábitos e acomodações instalados em meu interior.  Com a idade vamos ficando ranzinzas, acostumados a certas coisas, horários, atitudes, sequências...Tentarei deixar que os mais jovens – filhos, netos, alunos – baguncem minha vida e meus esquemas.  Que inventem e reinventem horários, prioridades, posição dos móveis, ordem de alimentos, programas.  Deixar-se surpreender e passar o bastão de comando deve ser bom.  Agora é a vez de eles inventarem a vida.  Quem sabe não a inventam melhor do que eu? 

Depois, em seguida, vem a atenção à minha renovação particular.  Já que o tempo passa e certo declínio é inevitável, é bom no Novo Ano fazê-lo ao menos mais trabalhoso.  Renovar-se fisicamente, com atenção, carinho e cuidado ao irmão corpo para que o mesmo não pife.  Alimentá-lo saudavelmente, movimentá-lo para que não chie com artrites e males afins.  Ou chie menos. Cuidar-se, respeitar os ritmos do corpo, ouvir suas queixas e clamores. Para oferecer aos outros uma presença mais tranquila e menos incômoda. 

Em seguida, e não digna de menos atenção, está a renovação interior, que anda muito descuidada e negligenciada.  O acúmulo de trabalho acaba sempre obstruindo veias e artérias da integridade intelectual e sobretudo espiritual. O ativismo é febril e chega a sufocar.  No cansaço que marca este fim de ano, quem sabe não tento no ano que vem discernir melhor os compromissos, separar tempo em quantidade adequada para a leitura, a oração, o lazer.  E, assim, não atravessar madrugadas ou passar noites insones para dar conta de tudo.  

Renovar igualmente o cuidado com as relações.  Refazer laços antigos que por alguma razão afrouxaram ou ameaçam romper-se.  Cuidar com especial atenção dos novos amigos que ainda são plantas frágeis no jardim da vida e merecem olhar mais profundo e comunicação mais intensa.  Incluir os distantes e os tristes, os sozinhos e os abandonados, aqueles que não percebemos que foram se afastando porque não podem mais participar das nossas circunstâncias por vários motivos: falta de forças, de dinheiro, de tranquilidade...enfim todas as faltas que cavam em nós abismos intransponíveis. 

E se tudo isso não conseguir ser feito, aportar ali onde sou sempre esperada e onde meus tantos anos já tão vividos são sempre renovados por um amor que jamais se desgasta, diminui ou envelhece.  Em Deus, que é sempre novo e que a cada manhã me desperta como um Pai, ou um noivo, ou um Amigo maior, dizendo-me que a vida me espera e que sou sempre convidada a vivê-la intensa e plenamente. Feliz 2013 para todos e todas! 
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* Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, é autora de 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) entre outros livros. - mhpal@terra.com.br  - http:agape.usuarios.rdc.puc-rio.br
Fonte: http://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2012/12/27/o-que-esperar-ou-fazer-de-novo/
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Réveillon em Buenos Aires

Eugênio Bucci*

 
Neste final de ano, a batalha espetacular sobre a regulação de mídia na Argentina ganhou cores intensas, contrastadas, com idas e vindas eloquentes, rodopios graves e pausas dramáticas, como se a vida fosse, com o perdão da metáfora clamorosamente óbvia, um tango de vida ou morte. De um lado da dança - que no fundo é um duelo fatal -, bate os pés o Grupo Clarín, que controla a enormidade de duas (há quem fale em três) centenas de concessões de rádio e televisão. Na outra ponta, a Casa Rosada ergue o salto pontiagudo e acusa o oponente de difundir mentiras. A contenda ritmada se acirra, enquanto sobem o suspense e o volume do bandônion.

Numa saga sem tréguas, que agora alcança as trincheiras do Judiciário, o governo pretende fazer valer a lei sancionada em 2009, obrigando o Clarín a se desfazer de suas concessões (ou licenças), num fim trágico. Em guerra aberta, Cristina Kirchner tem um argumento a seu favor, um argumento de grande apelo, tanto que angariou a adesão de Frank La Rue, relator de Liberdade de Opinião e Expressão das Nações Unidas. O relator foi cauteloso, é verdade. Teve a prudência de criticar o que chamou de intimidação das autoridades argentinas contra o Clarín, mas, ao mesmo tempo, apoiou os termos gerais da lei de 2009, cuja finalidade declarada é combater o monopólio privado dos meios de comunicação.

Nesse ponto, Frank La Rue não está sozinho. Dos Estados Unidos à França, da Alemanha ao Reino Unido, as legislações que regulam a mídia - em especial a radiodifusão, ou seja, as emissoras de rádio e TV - têm em comum o objetivo de impedir a formação de monopólios e oligopólios. Os parâmetros legais antimonopolistas são aceitos pelas diversas correntes políticas do mundo democrático, da esquerda à direita, pois está mais do que provado que eles protegem a concorrência comercial, a livre-iniciativa e a pluralidade de vozes numa sociedade que se pretende livre. Até aí, portanto, estamos todos de acordo. O Grupo Clarín, quando analisado sob o prisma de qualquer dos marcos regulatórios democráticos em vigência na América do Norte ou na Europa, cairia na tipificação de concentração de mercado (vertical ou horizontal), de propriedade cruzada e de outros sintomas que indicam a possível prática de monopólio. Não há muita controvérsia quanto a isso. É praticamente consenso que o mercado da mídia na Argentina precisa de um marco regulatório mais moderno e mais aberto.

O governo argentino soube tirar proveito desse déficit. No mais, fez tudo errado. A começar do começo. Os veículos do Grupo Clarín gozavam uma vida confortável sob a dinastia Kirchner até que começaram a publicar informações e opiniões que irritaram a Casa Rosada. A reação foi dura, impiedosa. A Ley de Servicios de Comunicación Audiovisual veio à tona num contexto de enfrentamentos polarizados, dando a entender que a motivação nuclear do novo marco legal não é regular de modo desinteressado as relações de mercado, mas punir uma empresa jornalística por ter sido crítica. Isso conturba e vicia o processo, mina inteiramente sua credibilidade. Fica no ar a impressão de que, se seguisse falando bem dos governantes, qualquer monopólio seria festejado pela presidência da República - e de que a lei de 2009 não nasceu para atender a razões de Estado, mas a caprichos partidários de um governo, o que reforça a sensação de incerteza jurídica.

Uma leitura um pouco mais detida dos artigos da Ley de Servicios de Comunicación Audiovisual levanta pontos preocupantes. Um desses pontos é a autorização, dada às emissoras estatais, de vender publicidade. Para que o leitor entenda, lembremos que o legislador argentino estruturou o sistema de comunicação audiovisual em três regimes distintos: o primeiro seria o das emissoras comerciais, aquelas que têm fins de lucro; o segundo, das emissoras sem finalidades de lucro, controladas por entes não governamentais, seria o regime das rádios e televisões públicas; e o terceiro seria o das emissoras estatais. O primeiro dependerá da venda publicidade para se financiar, evidentemente. Os outros dois contarão com apoios financeiros de natureza pública ou estatal, o que também é evidente. Problema: se um destes dois puder vender publicidade e ao mesmo tempo receber dinheiro público, fará concorrência desleal às emissoras privadas, já que poderá oferecer seus intervalos comerciais a preços menores, subsidiados. Pois o artigo 136 autoriza a Rádio y Televisión Argentina Sociedad del Estado a captar recursos de publicidade (alínea c), ameaçando entrar no mercado das emissoras comerciais.

Outro ponto de preocupação vem da presença cada vez mais proeminente do governo argentino no mercado anunciante. Como compradora de espaços publicitários, a Casa Rosada poderia, em tese, pressionar emissoras comerciais a adotar uma linha editorial simpática às autoridades. Não se trata de mero detalhe. A combinação entre um mercado de mídia fortemente regulado e um governo que gasta os tubos em publicidade comercial é catastrófica - para a democracia, bem entendido, não necessariamente para o governo. A explicação é simples: sobre o sistema estatal o governo teria acesso funcional, ainda que indireto; sobre o sistema dito público (o das emissoras controladas por entidades não governamentais, sem fins de lucro) o partido do governo poderia ter influência política, pela cooptação ideológica ou mesmo fisiológica; finalmente, sobre o sistema comercial o governo contaria com as verbas publicitárias para exercer pressão.

Se essa tendência (pessimista) se confirmar, o monopólio privado na Argentina seria substituído por um monopólio governamental subterrâneo, o que costuma ser ainda pior. O ano-novo em Buenos Aires vai se aproximando num horizonte sombrio, enfumaçado, incerto. Seus efeitos sobre o Brasil são mais incertos ainda.
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* JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP E DA ESPM 
Fonte:  http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,reveillon-em--buenos-aires-,978000,0.htm
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Burocratas, carrascos da inovação

Alexandre Barros*

 
O governo quer inovação, mas encarrega burocratas desse mister. Inovação não é mais uma excentricidade, é um negócio complexo, que exige agregação de cérebros. O Vale do Silício e a área de Boston, nos EUA, são grandes centros de inovação porque muitas mentes juntas se fertilizam mutuamente. Não é soma, é multiplicação.

Por que as pessoas inovam? Para resolver um problema delas ou para ganhar dinheiro, ou ambos. Nisso o sistema de registro de patentes e proteção de propriedade intelectual brasileiro está ultrapassado.

Currículos de escolas brasileiras tentam ensinar muitas matérias, quase todas irrelevantes para as escolhas que os estudantes já fizeram da estrada que vão seguir. Educação universal pode ser elegante, mas é improdutiva.

O carro mais inovador da atualidade, o Tesla (homenagem ao gênio da eletricidade) não está sendo desenvolvido em Detroit porque os cérebros dessa cidade americana só sabem fazer mudanças incrementais nos carros existentes. Foi criado no Vale do Silício. Elon Musk e seus cientistas pensaram "do zero" num carro completamente novo: sem caixa de mudanças, sem eixo de transmissão e totalmente elétrico. Lá isso foi possível porque as cabeças estavam abertas para criar coisas novas.

As primeiras ideias de carros sem motorista eram de que eles funcionassem em estradas, não em ruas urbanas. Mas isso demandava enorme despesa em infraestrutura: instalar tiras magnéticas por baixo do pavimento para "puxar" os carros na direção certa. Era incremental. Não vingou.

Os carros sem motorista hoje não fazem nada por baixo, tudo é por cima, comunicando-se com satélites e com outros carros. Tudo sem fio. Onde? No Vale do Silício, financiado pela Google, que nós conhecemos das buscas na internet.

Esses veículos já são legais no Estado de Nevada e em breve o serão na Flórida e na Califórnia. Por lei, ainda precisam de um motorista "de plantão" atrás do volante "para emergências". Como os contadores que refaziam à mão todas as contas das calculadoras eletrônicas para terem certeza que as máquinas as haviam feito certo.

Inovações enfrentam resistências. E ninguém é mais resistente que os burocratas. Os governamentais são piores, mas os privados não ficam atrás. 

Um ex-diretor da IBM, pouco antes da crise que quase a levou à falência, dizia que a empresa era "uma estatal privada que deu certo". Aí... parou de dar. Chamaram um presidente "de fora". Sua tarefa: jogar no lixo o entulho burocrático que não tinha mais função (Louis V. Gerstner, Quem Disse que os Elefantes não Dançam?, Editora Campus). Mas a IBM também tinha boas ideias. Jean Paul Jacob era um "olheiro" científico. Passava a vida fuçando pesquisas que estavam sendo feitas em inúmeras universidades para identificar o que era promissor e podia virar produto lucrativo de sucesso. Se passassem no teste, os pesquisadores receberiam auxílio da IBM. Em troca, uma fatia da renda das patentes resultantes.

Aqui começam pela burocracia. O governo faz convênios para mandar estudantes brasileiros para o que chamam de "bolsas-sanduíche". É o protecionismo na produção intelectual: o aluno tem de fazer tudo do seu mestrado ou doutorado no Brasil. Depois vai passar um ano numa universidade estrangeira para "ganhar uma bênção", do tipo folheada a ouro: por fora brilha, por dentro foi educado com todos os vícios da universidade brasileira anti-inovadora.
Um ano não dá para formar a cabeça de ninguém. Como o(a) aluno(a) vai ficar só um ano, não é tratado como alguém que está sendo formado naquela instituição, e sim como quem está ali para receber uns enfeites de retoque. Esse ano custa caro e rende pouco. Além disso, muitas universidades estrangeiras enxergam esses estudantes estrangeiros "para a bênção" como uma chuva de ouro: rendem muito (nosso dinheiro paga) e não implicam nenhum compromisso. Depois sumirão no mundo e não haverá ninguém para cobrar. E como não terão um diploma dessas instituições, elas "não se queimam".

Peter Thiel, cofundador do PayPal e um dos principais financiadores do Facebook, milionário várias vezes, olha as universidades americanas com desconfiança. Criou uma fundação que financia universitários que se pretendem criativos, com menos de 20 anos de idade, para largarem a universidade e passarem dois anos desenvolvendo suas inovações sob a supervisão não de professores, mas de empresários bem-sucedidos. Thiel sabe que as universidades americanas também podem ser matadoras de talentos. Acredita no "quem sabe faz, quem não sabe ensina".

Essa é a encruzilhada. Precisamos inovar. A presidenta apela para o instinto animal dos empresários, mas encarrega de descobrir e criar talentos animais burocráticos governamentais, que do instinto animal só têm um pedaço: o da sobrevivência.

Tive um amigo nomeado ministro há muitos anos. Antes de assumir o cargo ele fez uma reunião com os burocratas seniores do ministério e convidou-me para assistir a um pedaço dela. Entrei e presenciei: em 15 minutos, 17 ideias inovadoras do ministro (não importa se sensatas ou não) foram demolidas pelos burocratas profissionais. Nada podia. Tudo contrariava alguma regra. O ministro, ainda não empossado, assumiu o cargo já destroçado. Os burocratas sabiam que ele iria embora do ministério antes de aprender o caminho para o banheiro. Os burocratas ficariam.

A campeã de Prêmios Nobel de Economia é a Universidade de Chicago. Como ela seleciona seus professores? Pelo potencial de ganhar um Prêmio Nobel, ainda que em 20 ou 30 anos.
Neste artigo não pretendi ensinar como fazer inovação, mas apenas chamar a atenção para alguns dos pontos que a impedem. Que sirvam de alerta a quem quer inovar, de verdade.
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* CIENTISTA POLÍTICO (P.H.D. UNIVERSITY OF CHICAGO), É SÓCIO-GERENTE DA EARLY WARNING: RISCO POLÍTICO E POLÍTICAS PÚBLICAS. EMAIL: ALEX@EAW.COM.BR
Fonte:http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,burocratas-carrascos-da-inovacao-,977993,0.htm
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Comprar, comprar, malditos

Esther Vivas**

 
São as festas de Natal, o momento de nos juntarmos, comer, celebrar e, sobretudo, comprar. O Natal é, também, a “festa” do consumo, já que em nenhum outro momento do ano, para beneplácito dos mercadores do capital, compramos tanto como agora. Comprar para presentear, para vestir, para esquecer ou, simplesmente, comprar por comprar. 

O sistema capitalista precisa da sociedade de consumo para sobreviver, que alguém compre em massa e compulsivamente aquilo que se produz e, assim, o círculo “virtuoso”, ou “vicioso” conforme se olhe, do capital continue em movimento. Que o que compras seja útil ou necessário pouco importa. A questão é gastar, quanto mais melhor, para que uns poucos ganhem. E, assim, nos prometem que consumir nos vai fazer mais felizes, mas a felicidade nunca chega por aí.

Vendem-nos o trivial como imprescindível, o fútil como indispensável e criam-nos necessidades artificiais em permanência. Poderiam vocês viver sem um telefone móvel de última geração ou sem um televisor de plasma? E, sem mudar-se de roupa a cada temporada? Seguramente já não. A sociedade de consumo assim o impôs. Aliás, pouco importa a qualidade daquilo que compramos. Vendem-nos marcas, sonhos, sensações da mão de desportistas famosos ou estrelas de Hollywood. E por alguns euros compramos fiticiamente a fama, o glamour ou a atração sexual que a publicidade se encarrega de nos servir diariamente em bandeja.

E se resisto a comprar, o que acontece? Os produtos fabricam-se para morrer sempre antes do tempo, para se estragarem, deixarem de funcionar, o que se conhece como obsolescência programada, para que assim tenhas que adquirir outros novo. De que serviriam umas meias sem buracos, umas lâmpadas que nunca se fundissem ou uma impressora que não se avariasse? Para nós e para o meio ambiente seria bom; para as empresas do capital, seria mau, muito mau. E é que a sociedade de consumo está pensada, como magnificamente retrata Cosima Dannoritzer no seu documentário, para ‘Comprar, deitar fora, comprar’, o título de seu último trabalho. Aqui só ganha quem vende.

Pouco importam as milhares de toneladas de resíduos que gera a cultura do “usar e deitar fora”, desperdícios tecnológicos, roupa, alimentos que desaparecem depois da nossa porta, no lixo, ou que passam a engrossar as pilhas de lixo que se acumulam nos países do Sul, contaminando águas, terra e ameaçando a saúde de suas comunidades, enquanto nós assobiamos para o lado. Acostumamo-nos a viver sem ter em conta que habitamos um planeta finito, e o capitalismo se encarregou muito bem de nos habituar assim.

Associa-se progresso a sociedade de consumo, mas temos de nos perguntar para quê e para quem é este progresso, e às custas de quem. Se todo mundo consumisse como um/a cidadão/ã médio/a do Estado espanhol, precisaríamos de três planetas Terra para colmar a nossa voracidade, mas só temos um, enquanto noutros muitos países africanos apenas se consome o necessário para sobreviver. É também necessário recordar que, também, existe um Sul no Norte e um Norte no Sul.

Alguém dirá: “Se deixamos de comprar, a economia estancar-se-à e gerar-se-à mais desemprego”. A realidade é muito diferente da que nos contam. E é, precisamente, este sistema o que fomenta o desemprego, a pobreza e a precariedade, o que deslocaliza a indústria e a agricultura, o que explora a mão de obra, o que contamina o ecossistema e o que nos mergulhou numa crise econômica, social e climática com enormes proporções. Se queremos trabalhar com dignidade, cuidar do nosso planeta, e garantir um bem-estar faz falta outra economia, social e solidária. Satisfazer as nossas necessidades, tendo em conta que vivemos num mundo cheio, saturado, a ponto de explodir. Apostar na agricultura ecológica, nos serviços públicos, nas tarefas de cuidados

Trabalhar para viver e não viver para trabalhar. Porque ou mudamos, ou não sairemos desta crise “consumindo”, como nos querem fazer crer, muito pelo contrário, continuarão “nos consumindo”.

Outros também dirão “Há sociedade de consumo porque a gente quer consumir”. Mas, para além de nossa responsabilidade individual, ninguém, que eu saiba, tem escolhido neste tipo de sociedade onde nos calhou viver, pelo a mim não me perguntaram. É assim que nos têm educado na sociedade do “quanto mais melhor”. E não só nos têm impingido valores e práticas de um sistema que antepõe interesses particulares a necessidades colectivas, como o individualismo e a concorrência e competição que nos impõem desde muito pequenos/as, em determinados papeis em função de nosso gênero, na reprodução não só de uma estrutura capitalista mas também patriarcal.

Querem que compremos até morrer, como no filme ‘Dancem, dancem, malditos’ (1969) de Sidney Pollack, onde os participantes a um concurso de dança dançavam sem parar até a exaustão para o beneplácito de uns poucos abastados. Como dizia o apresentador da competição em frente aos últimos concorrentes a ponto de desfalecerem no final do filme:

 “Estes rapazes maravilhosos, estupendos que continuam resistindo, 
continuam esperando, enquanto o relógio fatal continua o seu tic tac. 
Continua a dança do destino, a alucinante maratona segue e segue e segue.
 Até quando aguentarão? Vamos, um aplauso.
 Há que os animar. Aplaudam, aplaudam, aplaudam”. 

Viva o circo.
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*Artigo enviado pela Autora e originalmente publicado, em 24/12/12, em blogs.publico.es
**Esther Vivas, Colaboradora Internacional do Portal EcoDebate, é ativista e pesquisadora em movimentos sociais e políticas agrícolas e alimentares, autora de vários livros, entre os quais “Planeta Indignado”. Esther Vivas é licenciada em jornalismo e mestre em Sociologia. Seus principais campos de pesquisa passam por analisar as alternativas apresentadas por movimentos sociais (globalização, fóruns sociais, revolta), os impactos da agricultura industrial e as alternativas que surgem a partir da soberania alimentar e do consumo crítico.
+info: http://esthervivas.com/portugues/
***Traduzido por Cassilda Pascoal.
Fonte:  http://www.ecodebate.com.br/2012/12/27/comprar-comprar-malditos-artigo-de-esther-vivas/
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Alguns dias depois do Natal

MARCOS INHAUSER*
 
Contrariamente à crença popular e de muitos “religiosos”, os magos não visitaram Jesus na estrebaria. O fato de que Herodes tenha pedido para matar as crianças com menos de três anos de idade é um indicativo de que, na conversa que teve com os magos, eles lhe disseram que o nascimento ocorrera há algum tempo.

No entanto, a história dos magos nos traz algumas lições para os dias subsequentes ao advento. A primeira é que eles estavam atentos aos sinais da presença de Deus na história. Perceberam que algo ocorrera e que isto tenha grande significado para eles e para a humanidade. Uma luz no céu entre tantas outras foi suficiente para reconhecerem o sinal da ação de Deus. Esta mesma vigilância e atenção aos sinais da ação de Deus na história devem estar presentes nas nossas vidas. Como bem disse Karl Barth, o cristão dever ter em uma das mãos a Bíblia e na outra o jornal. Ler a Bíblia sem buscar no palco da história os atos de Deus é perder parte da revelação. G. Ernest Wright disse que a Bíblia, mais que Palavra de Deus, é a coleção dos “Atos de Deus”. Oscar Cullmann também chamou a atenção para a história como palco das ações divinas.

A segunda coisa a ser notada é que, apesar de estarem atentos para os sinais de Deus na história, eles foram ao palácio real na esperança de lá encontrar o Rei nascido. Ledo engano. Confundiram as bolas. Tiveram que corrigir a rota e ir ao local humilde onde Jesus morava. Na história da cristandade, há uma infinita coleção de exemplos de pessoas que buscaram, ensinaram ou levaram outros a buscar Jesus não na manjedoura, não na casa simples, não no povoado humilde de Nazaré, mas na opulência dos palácios, das catedrais, dos “shows da fé”, das grandes concentrações, “Diante do Trono”, na boca das estrelas televisivas de um evangelho transformado em “gospel”, mais mercado que sacrifício, serviço e humildade.

A terceira lição que eles nos dão é que saíram de seus lugares, de suas casas, de seus povoados para ir adorar ao recém-nascido. Não há verdadeira adoração quando não há a disposição de se mover, de sair de onde se está, para, em companhia de outros (eram três), em comunhão, adorar ao Emanuel.

A quarta lição é que levaram do que de melhor tinham para ofertar. A excrecência apresentada nos templos da prosperidade trabalha o dar para receber, em uma negociata com o divino. Quando se dá, obriga-se Deus a retribuir na proporção do dado. Não se vê isto nos magos. Deram. Simplesmente deram. E deram com gratidão.

A quinta lição é que nem todos têm a verdadeira intenção de adorar ao Rei, mesmo que assim expressem. Herodes demonstrou desejo de também adorá-lo. Os magos foram alertados para a intenção perniciosa do rei. Ele queria reinar absoluto, sem conceder qualquer privilégio ao recém-nascido. Quando há pessoas que se apresentam em adoração e querem brilhar mais que o adorado, que trazem nas fachadas dos seus templos enormes fotos pessoais, que buscam estar na mídia para aparecer mais que o Rei, estão, como Herodes, mandando matar crianças menores de três anos para que seus brilhos não sejam apagados.
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* Colunista do Correio Popular
 Fonte:  http://correio.rac.com.br/26/12/2012
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O futuro está chegando

 CELIA FARJALATT*

 

Estamos começando a escalada. De você depende, de todos nós depende que os primeiros dias do ano marquem o início de uma nova era. Em poucos dias será um outro tempo. Claro nem tudo vai depender de nossos esforços, mas boa parte das realizações sim, apesar de nossa insignificância.

Sempre achei que o futuro começa nas escolas. Façamos escolas já. Não apenas prédios, estruturas de cimento e de tijolos. Façamos escolas com alma, entusiasmo, dedicação. Escolas onde o aluno seja o mais importante, e nele se concentrem todos os esforços, toda a energia para torná-lo um cidadão, e não uma criatura robotizada pensando pelo cérebro dos outros.

Acho que não basta construir escolas. E acho que é preciso consertar aquelas que existem, e que mal administradas arruinam-se, perdem sua identidade. Temos exemplos disso em muitas cidades do Brasil. Mas são bem poucos os políticos, que dispõem de dinheiro e queiram ajudar as escolas, já quase caindo aos pedaços...

 

Os pais são pobres e pouco podem fazer em benefício das reformas necessárias. Coitados deles que mal podem comprar material escolar, e remédios para curar seus próprios filhos quando adoecem....O Brasil espera que cada brasileiro cumpra seu dever de cidadão, ajude suas escolas com generosidade, como puder.

Para que o sentido do Novo Ano seja cumprido, nossa Terra precisa da atenção e ajuda de todos, desde o cidadão mais simples ao primeiro mandatário da Nação. “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país “. Estas palavras foram ditas pelo presidente Kennedy, dos Estados Unidos, e se acham no Monumento Kennedy, em Campinas, idealizado através de Campanha do Corrreio Popular. O Monumento foi erguido logo depois da morte do Presidente americano, cidadão do mundo...

E por falar nisso, nada me comove mais do que a Canção da Paz, escrita por Sire Lahalom escrita numa folha de papel, que foi achada no bolso do Primeiro Ministro de Israel, após de ter sido assassinado. Vejam :

” Deixem que o sol nasça/ que desperte a manhã/ A pureza das orações / não nos trará de volta / aquele cuja vela se apagou/ em cinzas // Cantem uma canção / num enorme brado // Não digam que o tempo chegará / Tragam - nos o dia e em toda as praças, cantemos a paz.”
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*Jornalista. Colunista do Correio Popular.
Fonte: http://correio.rac.com.br/_conteudo/2012/12/colunistas/celia_farjalatt/19619-o-futuro-esta-chegando.html
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Jornal britânico "Financial Times" chama Dilma de rena do nariz vermelho do Natal

 
O desempenho da economia brasileira foi satirizado no conto de Natal do blog beyondbrics, do jornal britânico "Financial Times", sobre os países emergentes. 

Estrelando o bate-boca com o próprio Papai Noel, apareciam a presidente Dilma Rousseff, caracterizada como a rena do nariz vermelho, e o ministro Guido Mantega (Fazenda), como "Guido, o "elfo vidente". 

No conto, o Papai Noel afirma que os personagens deste Natal são os mesmos de 2011, exceto pela mudança do representante da América Latina --sai Dilma e entra Enrique Peña Nieto, novo presidente do México-- e pelo novo líder chinês Xi Jinping. 

"Você não pode me rebaixar!", protestou Dilma. "O que me diz sobre meu maravilhoso nariz vermelho?" 

"É o seu nariz vermelho o problema. As crianças pensam que você é socialista. Quem confia em um socialista para trazer brinquedos?", responde o Papai Noel. 

Indignada, Dilma lembra que o líder chinês é ainda pior por ser comunista. 

"Mas ele diz as coisas certas", retrucou Papai Noel, ao lado do chinês que clamava a "luta contra a corrupção". 

Dilma retruca dizendo que seus "chifres" são os "sextos maiores" do mundo, quando é interrompida pelo premiê britânico David Cameron reivindicando a posição --o Brasil perderá o posto de sexta economia para a Inglaterra. 

Então, a presidente brasileira explode: "Por que motivo meus chifres não crescem mais rapidamente?" 

Nesse momento, entra o ministro Guido Mantega, caracterizado como o "Elfo vidente", garantindo que os chifres da presidente crescerão um metro em 2013. 

Dilma cobra explicação sobre como chegou à previsão. 

"Tive um estalo. Perguntei as previsões de todos os outros elfos e multipliquei por dois", respondeu Mantega. 

"Oh, Guido, por que será que eu não te demito?" 

"Não seria porque a revista 'Economist' pediu isso?", responde o ministro. 
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Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1206833-jornal-britanico-financial-times-chama-dilma-de-rena-do-nariz-vermelho-do-natal.shtml
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Um Deus anônimo

Leonardo Boff*
Como homem, Jesus é como todos os homens: um trabalhador, carpinteiro como seu pai, José e um camponês mediterrâneo. Nem super-herói nem um especialmente piedoso que chamasse a atenção.

Era um homem de vila, tão pequena, Nazaré, que nunca é citada em todo o Antigo Testamento, talvez com uns 15 casas, não mais. Participou do destino humilhante de seu povo, subjugado pelas forças de ocupação militar romana. Nenhum documento da época falou dele, fora dos evangelhos. Não era conhecido nas rodas nem de Jerusalém e muito menos de Roma. 

Como diz ironicamente o poeta Fernando Pessoa, Jesus não tinha biblioteca e não consta que entendesse de contabilidade. Ele é um anônimo no meio da massa do povo de Israel.
O fato de ter sido a encarnação do Filho de Deus não mudou em nada essa humilde situação. Deus quis se revelar nesse tipo de obscuridade e não apesar dela. E precisamos respeitar e aceitar esse caminho escolhido pelo Altíssimo.

A lição a se tirar é cristalina: qualquer situação, por humílima que seja, é suficientemente boa para encontrar Deus e para acolhermos a sua vinda nos labores cotidianos.

Jesus, disse São Paulo, não se envergonhou de ser nosso irmão. E efetivamente é nosso irmão, não só porque quis se revestir de nossa humanidade, mas é nosso irmão, principalmente por ter participado de nossa vida cotidiana, tediosa, sem brilho e renome, a vida dos anônimos.

Disso tudo tiramos essa singela lição: a vida vale a pena ser vivida assim como é – diuturna, monótona como o trabalho do dia-a-dia – e exigente na paciência de conviver com os outros, ouvi-los, compreendê-los, perdoá-los e amá-los assim como são.

Ele ainda é nosso irmão maior, enquanto dentro desta vida de luz e de sombra, viveu tão radicalmente sua humanidade a ponto de trazer Deus para dentro dela, um Deus próximo, companheiro de caminhada, energia escondida que não nos deixa desesperar face aos absurdos do mundo.

Por isso, precisamos, a despeito de tantos pensadores desesperados e céticos reafirmar: o Cristianismo não anuncia a morte de Deus. E, sim, a humanidade, a benevolência, a jovialidade e o amor incondicional de Deus. Um Deus vivo, criança que chora e ri e que nos revela a eterna juventude da vida humana perpassada pela divina.
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* Teólogo. Escritor.
Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2012/12/26/um-deus-anonimo/
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Qual foi o seu melhor presente?

Roberto DaMatta*
 
Passado esse Natal de fim de mundo, um jornalista perguntou: professor, em que festa natalina você recebeu o melhor presente?

Respondi:

Num Natal antigo eu ganhei uma bicicleta importada de uma impecável Suécia, conforme papai me falou com aquele tom de voz que situava tudo o que era estrangeiro como superior. Esse foi um presente importante - em Niterói íamos a todos os lugares de bicicleta -, mas, diz um lado meu, não foi o meu melhor presente.

De uma outra feita, moço e apaixonado, ganhei em plena Rua Dr. Romualdo, em Juiz de Fora, o beijo de uma namorada e com ele a promessa esquecida de ser amado para sempre. O beijo natalino foi um belo presente, mas não foi - diz novamente a voz dentro de mim - o meu melhor presente.

Num Natal na casa de meus avós, Raul e Emerentina, na Rua Nilo Peçanha, 31, recebemos todos um presente inesquecível: revólveres de espoleta que reproduziam, a nosso ver perfeitamente bem, a guerra entre o Bem e o Mal - entre os mocinhos e os bandidos que víamos no cinema. Lembro da felicidade de manusear o meu revólver, de nele colocar as espoletas e, ato contínuo, atirar "matando" meus irmãos. Não esqueço o fato de ter sido ferido e de ter morrido muitas vezes por outros tiros naquele calorento Natal numa Niterói sem água, mas com uma praia das Flechas de mar translúcido. Apesar dos tiros, das mortes e das ressurreições, esse também não foi o meu melhor presente.

Num outro Natal, eu ganhei as obras completas de Guy de Maupassant em muitos volumes, mais do que poderia ler. Ao receber os livros de um contista que eu amava - ao lado de gente como O. Henry, Hemingway, Graham Green e Monteiro Lobato do Urupês -, exultei. Jamais me esqueci da luminosidade de Maupassant. Foi um grande presente, mas não foi o meu melhor presente.

Doutra feita, recebi os almanaques do Globo Juvenil e do Gibi. Maravilhado, transformei a varanda onde estava sentado meu avô Raul numa nave especial na qual viajavam Flash Gordon, o Dr. Zarkov e Dale Arden, por quem eu fiquei imediatamente apaixonado. Até hoje eu me lembro da voz calma do Celso Scofield, meu melhor e querido amigo, lendo comigo os quadrinhos. Ficamos, ambos, intrigados com uma história de Brick Bradford na qual ele ia parar num planeta com três gigantes imortais. O que era ser imortal? Celso havia perdido o pai; eu vivia numa casa cheia dos fantasmas dos meus tios mortos. Titia Amália, que era uma grande contadora de histórias, via almas do outro mundo num corredor sem fim, no qual não ousávamos transitar sozinhos de noite. Nem de luz acessa. Foi um excelente presente, mas não foi meu melhor presente.

O meu primeiro Natal com data fixa e certa foi o de 1968 - em Cambridge Massachusetts, aonde fui levado como estudante de uma Harvard perfeita. Fomos para a casa dos Maybury-Lewis. David era o meu orientador e Pia, sua esposa dinamarquesa, preparou a festa como mandava o figurino daquilo que eu só havia visto em tecnicolor e na grande tela do Cinema Icaraí. Havia uma enorme mesa com folhagens se misturando a comidas doces e salgadas. Havia vinho e neve, itens desconhecidos. E havia o amor de Celeste e dos nossos filhinhos. Cantamos músicas de Natal. Eu pude dar presente para todos os meus filhos com o deleite do pai feliz por ter plantado as suas sementes no mundo, e foi assim que eu os vi rasgando o papel dos embrulhos para descobrir o que haviam recebido. Não ganhei nada, mas hoje sei que foi essa a festa.

A partir de um certo Natal, quem tem filhos passa a ser mais um doador do que um receptor de presentes. Comecei a sustentar a crença dos meus filhos em Papai Noel, embora piscando o olho. Afinal, o Natal é apenas na aparência uma festa para crianças. No fundo, ele é uma celebração da paternidade que tenta retribuir o peso indiscutível de sua autoridade distribuindo dádivas. Era maravilhoso ver a crença nos olhos das crianças com aquele brilho que os meus olhos haviam perdido.

Seria mesmo possível responder à questão do jornalista? Afinal de contas, qual foi o melhor presente que recebi em toda a minha vida? Vocês sabem como eu sou ingrato e difícil de satisfazer. Ademais, sejamos realistas, quem é que, na tal "melhor idade" (como é o meu caso), pode se lembrar de tudo o que recebeu ao longo de 76 Natais?

Em alguns, eu tenho agradecido a presença de pessoas queridas. Em todos, eu sofro pela ausência de outros entes amados e perdidos. Meu maior presente tem sido, sem nenhuma dúvida, os livros que me fazem ler e escrever e, pelo milagre da literatura, tentar desenhar dádivas e ter o privilégio de distribuí-las nesta coluna. Esperando, é claro, algum retorno.
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* Antropólogo. Escritor. Colunista do Estadão
Fonte:  http://www.estadao.com.br/26/12/2012
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‘A felicidade não se compra’ é eleito o melhor filme de Natal.

 Cena do filme ‘A felicidade não se compra’, de Frank Capra Foto: Reprodução
Cena do filme ‘A felicidade não se compra’, de Frank CapraREPRODUÇÃO

LOS ANGELES — Quando se fala sobre filmes de Natal, “A felicidade não se compra” ainda mexe com o coração dos críticos de cinema, quase 70 anos após ser lançado. Isso é o que sugere uma pesquisa feita pelo site Rotten Tomatoes para eleger o melhor filme de Natal de todos os tempos.

Na pesquisa, revelada nesta sexta-feira pelo site agregador de críticas, a história de redenção dirigida por Frank Capra em 1946 superou o musical “Duas semanas de prazer” (1942), com Bing Crosby e Fred Astaire, e a animação “O estranho mundo de Jack” (1993), de Tim Burton. O drama da Segunda Guerra “Inferno nº 17” (1953) e o clássico “De ilusão também se vive” (1947) fecham o top 5.

“A felicidade não se compra” subiu quatro posições em relação a lista de 2009, tirando o primeiro lugar de “O estranho mundo de Jack”. No filme, George Bailey (James Stewart), um homem desesperado pelos fracassos de sua vida, recebe a visita de um anjo, que mostra como o mundo seria se ele nunca tivesse existido.

O Rotten Tomatoes analisa resenhas escritas por críticos de várias publicações e atribui uma pontuação aos filmes. O resultado dessa pesquisa foi feito da mesma maneira, levando em consideração apenas produções de Natal, explica o editor-chefe do site, Matt Atchity. Longas que usam o feriado como pano de fundo para o enredo, como “Duro de matar”, sexto colocado na lista, também foram incluídos.

Segundo o editor, as pontuações foram medidas para refletir a quantidade de críticas recebidas, com o intuito de evitar desproporções. Filmes das décadas de 1960 e 1970 são uma notável ausência na lista. Atchity explica que nessa época os estúdios estavam mais preocupados em trabalhar com grandes diretores, deixando de lado os filmes sazonais.

Veja abaixo os 25 filmes incluídos na lista.

* "A felicidade não se compra" (1946), de Frank Capra
* "Duas semanas de prazer" (1942), de Mark Sandrich
* "O estranho mundo de Jack" (1993), de Tim Burton
* "Inferno 17" (1953), de Billy Wilder
* "De ilusão também se vive" (1947), de George Seaton
* "Duro de matar" (1988), de John McTiernan
* "Arthur Christmas" (2011), de Sarah Smith e Barry Cook
* "Uma história de Natal" (1983), de Bob Clark
* "Trocando as bolas" (1983), de John Landis
* "Papai Noel das cavernas" (2010), de Jalmari Helander
* "Máquina mortífera" (1987), de Richard Donner
* "A Midnight Clear" (1992), de Keith Gordon
* "Um conto de Natal" (2008), de Arnaud Desplechin
* "Enquanto você dormia" (1995), de Jon Turteltaub
* "Conto de Natal" (1951), de Brian Desmond Hurst
* "Um duende em Nova York" (2003), de Jon Favreau
* "Beijos e tiros" (2005), de Shane Black
* "Gremlins" (1984), de Joe Dante
* "Meu papai é Noel" (1994), de John Pasquin
* "Um anjo caiu do céu" (1947), de Henry Koster
* "Papai Noel às avessas" (2003), de Terry Zwigoff
* "8 mulheres" (2002), de François Ozon
* "Batman - O retorno" (1992), de Tim Burton
* "Natal branco" (1954), de Michael Curtiz
* "O árbitro" (1994), de Ted Demme
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Fonte:  PortalLuisNassif+%28Mensagens+de+blog+-+Portal+Luis+Nassif%29

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Saudades do Natal


Arnaldo Jabor*
 

‘Que estranho destino é esse da Humanidade se fechando como uma cobra mordendo o próprio rabo’



Eu já tive carnavais felizes, “sãos joões” felizes, mas não me lembro de uma grande “noite feliz, noite de paz”... O Natal perdeu a delicadeza antiga. Não temos mais chaminés nem ceias opulentas. Em vez do saco de presentes, temos as calamidades coloridas dos shopping centers. Hoje, no presépio de Belém, perto da manjedoura onde o menino Jesus recebeu os Reis Magos, nos lugares sagrados de Jerusalém, explodem os homens-bomba berrando “Feliz Natal, cães infiéis!”.

Que estranho destino é esse da Humanidade se fechando como uma cobra mordendo o próprio rabo, a morte no mesmo lugar no nascimento, o fim da civilização no mesmo lugar onde começou, ali entre o Tigre e o Eufrates, na Mesopotâmia.

Uma vez, Rubem Braga fez uma lista dos lugares-comuns jornalísticos que justificariam demissões sumárias. O sujeito que escrevesse que o “trem ficara reduzido a um monte de ferros retorcidos” ou que o “incêndio era o ‘belo-horrível’” estava despedido. Havia outras banalidades imperdoáveis, como: “Natal, Natal, bimbalham os sinos!”...

Lembro que no Natal, enquanto os sinos “bimbalhavam”, eu via as ceias do meu canto de menino: as ligações frágeis entre parentes, entre tios e primos, as antipatias disfarçadas pelos abraços frios e os votos de felicidades. Eu olhava as famílias viajando no tempo como um cortejo trôpego, eu via a solidão de primos medíocres, das tias malucas, dos avós já calados e ausentes, o eterno presunto caramelado, o peru com apito. O destino das famílias ficava evidente no Natal. Os pobres se conformando com o tosco prazer dos presentes baratos e os ricos querendo provar que seriam felizes a qualquer preço — egoístas o ano inteiro, esfalfavam-se para viver uma alegria compulsiva entre gargalhadas, beijos molhados de vinho e uísque, terminando nas tristes saídas na madrugada, com crianças chorando e presentes carregados com tédio por pais de porre, aos berros de “Feliz Natal”. Papai Noel sempre me intrigou. Quem era aquele sujeito que começava a aparecer no fim do ano, nas lojas, no radio, na TV? Papai Noel tem muitas conotações desde que foi inventado na Noruega, por causa de S. Nicolau, que ajudava as pessoas carentes nos finais de ano. Soube que no final do Estado Novo, lançaram uma campanha nacionalista para substituir o Papai Noel por um outro símbolo: o “Vovô Índio” — um velho silvícola seminu, com peninha na cabeça, que traria presentes para os “curumins” de verde e amarelo. Foi um tremendo fracasso, claro, numa época em que o cinema americano já mandava o Bing Crosby cantando “White Christmas” sem parar. Papai Noel era invencível, se bem que eu nunca gostei dele. Papai Noel sempre foi uma imagem de perdão e carinho.

Mas não para mim. Já contei isso uma vez, aqui. E repito, porque nos natais e carnavais nada muda. Nada mais parecido com um Natal do que outro.

Papai Noel me dava presentes, sim, mas sempre acompanhados de uma carta (escrita à mão, em tinta roxa) em que me fazia repreensões dolorosas: “Por que você desobedeceu sua mãe e matou a aula de piano? Por que você bateu na sua irmã com o espanador? Se fizer de novo... ano que vem tem castigo.” Para mim, Papai Noel era assustador, por causa desse estratagema educativo de meu pai, que usava o Natal para me dar lições de moral. Cada presente aberto me dava um sentimento de culpa. Daí, a conclusão infantil: Papai Noel gostava de todo mundo, menos de mim. Papai Noel foi meu superego de barbas brancas. Talvez por isso, comecei a criticar o mundo desde pequeno. Deu no que deu... Hoje sou esta pobre cabeça falante se esgoelando no rádio e na TV. Eu fui o primeiro de minha turminha de subúrbio a desconfiar que Papai Noel era uma fraude; comecei com ele e hoje tenho os mensaleiros e pizzas de CPI, neste país farto de mentirosos. “Papai Noel não existe!”, foi meu grito revolucionário. “Existe, sim! Ele me deu um velocípede!”, bradavam os meninos obstinados em sua fé. “Ah, é? Então, fica acordado para ver se não é teu pai botando os presentes na árvore!” Mas meus amigos lutavam contra essa desilusão, mais ou menos como velhos petistas que não desistem do paraíso comunista. Recorri a meu avô, conselheiro e aliado, e ele apoiou meu agnosticismo natalino: “Não existe, não. Você não é mais neném...”
Daí para a frente, não parei mais. Entrei de sola na lenda da cegonha e do bebê que “papai do céu mandou”. “Vocês pensam o quê? As mães de vocês ficam nuas e o pai de vocês bota uma coisa dentro da barriga delas pelo umbigo!” “A minha mãe, não!”, berravam os jovens édipos, partindo para a porrada de rua comigo. Daí para descrer de Deus foi um pulo, para o horror escandalizado dos colegas do colégio jesuíta.

“Deus é bom, padre?” “Infinitamente bom...” “Ele sabe de tudo?” “Sim...”, respondiam os padres já desconfiados. “Então, por que ele cria um cara que depois vai para o inferno?” Até hoje ninguém me respondeu isso.

E assim fui, até começar meu ódio ao “imperialismo norte-americano” dos anos 1960. Hoje, não tenho mais medo do Papai Noel; tenho até uma certa pena dele... e de nós.

Hoje, Papai Noel vem com as renas canibais de um Polo Norte que está derretendo pelo efeito estufa que os líderes mundiais se recusam a combater. O Natal é uma saudade do Natal. E hoje, com o futuro cada vez mais ralo, tenho saudades da precariedade de nossa vida antiga, da ingenuidade dos comportamentos, de um mundo com menos gente louca e má. “Ah! Você por acaso quer a volta do atraso?”, dirão alguns. Não, mas sonho com uma vida delicada que sumiu, dos lugares-comuns, dos chorinhos e chorões, de tudo que era baldio, dos valores toscos da classe média. E quando chega o Natal, tenho nostalgia das tristes ceias de minhas tias, sinto ainda o gosto dos panetones e rabanadas transcendentais do passado.
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* Cineasta. Escritor. Colunista do Estadão e do Globo.
Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/saudades-do-natal-7130322
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O segredo dos olhos do Zenit

Claudia Belfort*

Pode o preconceito se sobrepor à paixão? Essa foi a primeira questão que me veio quando li sobre o pedido da torcida organizada do Zenit, atual campeão do futebol russo para que a equipe tenha apenas jogadores brancos e heterossexuais. Apenas para lembrar lá joga o brasileiro Hulk.


Lembro bem de uma cena do filme O Segredo dos seus olhos, quando o personagem Sandoval pergunta ao detetive Benjamim “Qual a única coisa que não muda em uma pessoa? Não se muda de paixão”, ele mesmo responde. E assim Benjamin desvenda o paradeiro do assassino, sabendo que ele era fanático pelo Racing, o detetive vai a uma partida do time contra o Huracán, em Buenos Aires, lá se depara com o autor do terrível crime, que seguiu sua paixão, mesmo sob a ameaça de ser encontrado.

Nesse caso a paixão se sobrepôs até a liberdade. Difícil entender por que esse sentimento que cega os apaixonados pode ser lesionado por diferenças.  A torcida até tentou  se explicar, como se houvesse explicação, mas só piorou. Disse em nota que o pedido nada tem a ver com racismo ”Para nós, a ausência de jogadores negros no Zenit é só uma tradição importante, que realça a identidade do time e nada mais.

Ôpa, achei uma pista da coisa: identidade. Sou eu que estou lá, aquele negro artilheiro também sou eu, aquele lateral gay também sou eu. Vivo por eles, morro por eles, canto por eles, beijamos o mesmo brasão. No fundo no fundo eu me identifico com eles, na paixão, no time, no desempenho, na alegria, na tristeza. Então negros e gays saiam da minha minha frente que não quero que ninguém saiba que fazemos parte da mesma paixão, não quero que ninguém perceba que sou igual a você e que morro de medo disso.

Para terminar,  uma dúvida que me atormenta:  como a torcida do Zenit vai verificar se um jogador é hetero ou não?
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* Claudia Belfort é jornalista, pernambucana, editora-chefe de conteúdos digitais do Estadão. É autora de Aqueronte, o rio dos infortúnios e inferniza a vida dos vizinhos diariamente tentando tocar sax.
Fonte: http://blogs.estadao.com.br/sinapses/o-segredo-dos-olhos-do-zenit/

Retrato do pós-familismo


As fotos desta reportagem foram manipuladas por Herman Tacasey e Edson Sales. A inspiração foi otrabalho desenvolvido pelos fotopintores brasileiros. Comum no início do século 20, a fotopintura erausada para tornar mais "reais" os retratos em preto e branco dos álbuns de família: imperfeições eram corrigidas e roupas, inventadas
As fotos desta reportagem foram manipuladas por Herman Tacasey e Edson Sales. A inspiração 
foi otrabalho desenvolvido pelos fotopintores brasileiros. Comum no início do século 20, 
a fotopintura erausada para tornar mais "reais" os retratos em preto e branco 
dos álbuns de família: imperfeições eram corrigos e roupas, inventadas
 

Relatório global prevê o fim da família e a escalada do individualismo; brasileiros discordam 








O "Admirável Mundo Novo" imaginado por Aldous Huxley está perto de virar realidade para o demógrafo americano Joel Kotkin, autor do relatório internacional "A Ascenção do Pós-Familismo". 
 
Publicado em 1932, o livro de Huxley pintava uma era na qual laços de parentesco eram desencorajados e as palavras "pai" e "mãe", ditas com constrangimento. 

Para Kotkin, as mudanças demográficas das últimas décadas não deixam dúvidas: "Já vejo semelhanças com a ficção: a paternidade está desaparecendo e as pessoas se identificam mais com a classe a que pertencem do que com a família", disse o demógrafo à Folha. Ele define pós-familismo como uma sociedade centrada no indivíduo. 

Países ricos estão na dianteira desse fenômeno mundial de múltiplas causas: econômicas (o custo de ter filhos subiu), culturais (a mulher quer ter uma carreira antes de ser mãe) e políticas (falta de incentivos à maternidade). "O pós-familismo é crítico por resultar de muitas tendências. No Japão, o custo de vida é alto. No Irã, os filhos são um luxo", ilustra Kotkin. 

A maior parte do levantamento, que envolveu cinco pesquisadores, três centros de estudo e dados de todos os continentes, foi feita no leste asiático, região de culturas centradas na família. É bem lá que o pós-familismo cresce rápido. Segundo o relatório, um quarto das mulheres do leste asiático ficarão solteiras até os 50 anos e um terço delas não terão filhos.
A queda na fecundidade é uma tendência sem volta inclusive no Brasil. Hoje, as brasileiras têm, em média, 1,9 filho; em 1980, a média era 4,4. 

Mas, para especialistas brasileiros, o termo "pós-familismo" é apocalíptico demais. Se a família margarina (aquela com apenas pai, mãe e filhos) já não é mais dominante, novos arranjos proliferam. 

"Aumentaram as famílias monoparentais, com apenas pai ou mãe, e os casais sem filhos", diz José Eustáquio Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. 

A demógrafa Simone Wajnman, da UFMG, analisou dados do Censo 2010 recém-publicados e descobriu que a família estendida, a que inclui parentes além do núcleo principal, já corresponde a 26% dos domicílios. 

A família está longe de morrer, diz a socióloga Maria Coleta de Oliveira, da Unicamp. O que há é mais chance de escolha. "Não há um nome para esse momento. A diversidade será cada vez maior." 

VÍNCULO DE SANGUE
 
A futuróloga Rosa Alegria, pesquisadora de tendências da PUC-SP, acredita que se está no meio do caminho. "Ainda não há retrato revelado. Mas é certo que a família tradicional é passado", diz, arriscando sua definição: "Família foi vínculo sanguíneo; hoje é um grupo com interesses comuns. No futuro, pode ser um grupo de amigos". 

Para o IBGE, família ainda designa pessoas sob o mesmo teto. A classificação não contabiliza casos de guarda compartilhada ou de casais que moram separados. "Já há uma recomendação da ONU para que os critérios de contagem mudem. Pensamos nisso, mas talvez para os próximos cinco anos", diz Gilson Matos, estatístico do IBGE. 

Se o pós-familismo não é consenso, o crescimento do individualismo é. "As pessoas preenchem suas vidas com bens de luxo e alta escolarização. Há uma pressão social pelo investimento pessoal", diz Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Ipea. 

Esse individualismo é resultado do próprio modelo de família tradicional, segundo o antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte. "A família moderna tem a função de criar 'indivíduos' autônomos", diz. "Todos esses fenômenos atestam não a superação da família, mas a individualização. A família, no sentido amplo de rede de parentesco, está forte e ativa como sempre." 

Segundo a psicóloga Belinda Mandelbaum, professora da USP, as novas famílias são pressionadas a reproduzir práticas individualistas e ainda sofrem por não se encaixarem no modelo tradicional. 

"Há no imaginário social a ideia de que a família tradicional seria melhor. Não há melhor ou pior, o que importa é a qualidade dos laços." 

Para ela, muitas das novas famílias não têm nada de novo. "Diferem na composição, mas repetem o funcionamento tradicional. Em casais homossexuais pode haver violência como nos héteros. Nas famílias sem pai, um avô ou tio assume a função paterna." 

Não sem consequências, analisa Nilde Parada Franch, presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise-SP. "O pai ausente pode deixar o registro de uma falta importante." Ela diz que o desafio, nesse quadro de diferentes agrupamentos, é tolerar as novidades, mas sem banalizá-las e sem ignorar traumas e perdas resultantes da revolução. 

Análise 

Da família do futuro ao futuro da família

DARIO CALDAS* ESPECIAL PARA A FOLHA
 
Novos estudos colocam uma interrogação sobre o futuro da família. As tendências demográficas são inegáveis. Não é a primeira vez que ocorre nem será a última.

No cerne das mudanças está a mulher e a evolução de seus papeis. Ficou difícil equilibrar tantos pratos, ainda mais diante das dificuldades econômicas. Do lado masculino, o discurso nos últimos anos foi o de que ser homem não é mais prover e procriar. Ao homem moderno cabem os cuidados de si, as experiências na urbe sensorial etc. Some-se o individualismo galopante de vertente hedonista-narcisista e o juvenismo, que nos vendeu a ideia de que é possível e desejável viver em sempiterna adolescência.

Embora o retrato atual seja esse, há um excesso de pessimismo nas previsões sobre o fim da família.

Multiplicam-se sinais de sua renovação. Os jovens seguem expressando o desejo de união (não necessariamente de casamento, mas que importa?) e a maioria das mulheres, se a condição permite, quer filhos.

O anseio por família e casamento dos casais homoafetivos é especialmente relevante, já que essa é uma fatia da população cujo comportamento é tido como precursor.

E se a preservação da espécie continua sendo a pedra de toque do comportamento evolutivo, resta-nos perguntar: o futuro será pós-familiar, como pretendem alguns, ou moderno mesmo será conjugar a família em novos tempos e modos? 



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Reportagem por  JULIANA VINESDE SÃO PAULO
Foto; Lucas Lima/Folhapress
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/85576-retrato-do-pos-familismo.shtml




Como foi a vida do verdadeiro Pai Natal

Salvou uma família da ruína com parte da sua fortuna – e inspirou desta forma a tradição de dar presentes no Natal. Foi preso e torturado por causa da fé, mas nunca renegou o cristianismo

O vizinho fora em tempos um homem rico, mas de um momento para o outro ficara tão pobre que só via uma solução para salvar a família da ruína: prostituir as três filhas. Se pudesse, preferia casá-las, só que, sem poder garantir-lhes o dote, nenhum homem se aproximava delas. Sabia que a decisão faria dele um proscrito. Ainda assim, não via outra forma para evitar morrer na miséria.

Estava resignado quando alguém lhe deixou o primeiro saquinho com moedas de ouro junto à janela de casa durante a noite. O dinheiro era suficiente para casar a primeira filha. Tempos depois, apareceu o segundo, também de madrugada e de forma tão misteriosa como o anterior. Mais uma filha ficou a salvo. Como ainda faltava uma jovem, o vizinho, intrigado, passou a ficar de vigília junto à janela na esperança de descobrir a identidade do benemérito.

Quando o terceiro embrulho caiu, espreitou e pôs fim ao enigma. O benfeitor era alguém que conhecia bem: Nicolau, futuro bispo de Mira, o homem que ficaria para a história como o santo mais popular do mundo e que, muitos séculos depois, estaria na origem do Pai Natal, figura incontornável da quadra.

De acordo com Adam C. English, autor da recém-editada biografia The Saint Who Would Be Santa Claus (O santo que se tornaria o Pai Natal), terá sido este o episódio da vida de São Nicolau que deu origem à tradição de oferecer presentes às escondidas na noite de Natal, atribuindo a responsabilidade ao Pai Natal.

Calcula-se que o verdadeiro São Nicolau tenha nascido em Patara, na actual Turquia, por volta do ano 260 d.C., filho de um casal que vivia bem e que ocupava uma posição social de prestígio. Profundamente crentes, os pais educaram-no de acordo com os preceitos da fé católica. Ainda bebé, foi ensinado a cumprir os dias de jejum dos adultos e, por isso, à quarta e à sexta-feira só mamava uma vez.

No primeiro dia da semana, antes do nascer do sol, e nalguns outros, ao anoitecer, os pais levavam-no à Eucaristia, então celebrada em casa dos fiéis para contornar a perseguição movida por Roma aos cristãos.
Como vivia junto à costa, o mais certo é que, na infância, a dieta de Nicolau constasse de peixes como garoupa, tainha e atum, além de uvas, figos, tâmaras, grão, lentilhas e azeite. O facto de Patara ser um entreposto comercial permitia que os seus habitantes comessem trigo, milho, cevada e até queijo.

A morte prematura dos pais, provavelmente vítimas da peste que assolou a região da Lícia na segunda metade do século III, fez com que Nicolau herdasse uma fortuna considerável ainda muito jovem. Não demorou a decidir o que fazer com o dinheiro: escolheu partilhá-lo com os outros. Logo que soube a história do vizinho e das três filhas, percebeu por onde começaria a distribuir o ouro. Por desejo seu, ter-se-ia mantido incógnito, só que a sua generosidade extrema fez dele um homem famoso e adorado.

Para não ficar sozinho, Nicolau foi morar com um tio que geria o mosteiro isolado onde o sobrinho aprendeu as escrituras e se habituou à disciplina da vida monástica. Passado algum tempo, apanhou um barco egípcio e iniciou uma peregrinação solitária até à Terra Santa. Mergulhou nas águas do rio Jordão, onde Jesus fora baptizado, subiu ao monte onde o crucificaram e visitou o sepulcro onde depositaram o corpo do Messias.

A viagem mudou-lhe a vida e elevou-o a um patamar espiritual superior ao comum. Aos 19 anos, tornou-se padre e teria entre 30 a 35 quando recebeu, de uma forma invulgar, uma missão de grande responsabilidade. Os prelados de Lícia reuniram-se às escondidas em 295 para escolher um novo líder para a diocese de Mira e rezaram para que Deus os ajudasse a tomar a melhor decisão. De madrugada, um dos mais velhos disse ter tido uma visão e recebido uma ordem divina: “Vai para a casa do Senhor com os outros e esperem todos no átrio. A primeira pessoa que chegar será o bispo. O seu nome será Nicolau.” Já com a manhã a raiar, um jovem cruzou a porta da igreja. “Filho, como te chamas?”, perguntaram os eclesiásticos. “Senhor, sou o pecador Nicolau, um servo de vossa Excelência.” E assim se tornou bispo de Mira.

Assumiu as novas funções disposto a enfrentar todos os perigos que elas envolviam, num tempo em que ser cristão podia ser punido com a morte. Não tardou a ser preso e torturado. Escapou com vida, mas o mais provável é que lhe tenham cegado o olho direito e cortado os tendões do pé esquerdo, o castigo habitual para crimes de fé.

Nicolau ficou em prisão domiciliária pelo menos até 324, o ano em que Constantino se tornou imperador, dando origem a uma era de tolerância religiosa que libertou os cristãos feitos prisioneiros, permitiu que os exilados regressassem a suas casas e deu autorização para reconstruírem as suas igrejas.

A nova ordem permitiu a Nicolau dedicar-se ainda mais à pregação e à expansão do cristianismo, em luta feroz contra o paganismo. Aos 70 anos destruiu com as próprias mãos o templo da deusa Artemisa e expulsou os demónios que, segundo ele, lá viviam.

Nicolau terá também representado a diocese de Mira no famoso Concílio de Niceia onde, segundo a tradição, esbofeteou Ário, professor de cristianismo, por ele pôr em causa a Santíssima Trindade. A ousadia de se envolver num confronto físico na presença do imperador levou-o de novo à cadeia, onde os guardas lhe queimaram as barbas e o despojaram das vestes cor de sangue.

A punição terminou quando Constantino, alegando ter recebido instruções de Deus, o reconduziu no cargo de bispo. Nicolau passou o resto da vida a defender os fracos. Várias vezes enfrentou as autoridades para libertar inocentes encarcerados e, com isso, tornou-se o padroeiro dos prisioneiros. Os homens do mar também passaram a pedir-lhe protecção – séculos mais tarde, Cristóvão Colombo foi seu devoto.

Exames recentes Às ossadas de Nicolau revelaram que terá morrido velho e que sofria de artrite. Os especialistas atribuíram a fractura que encontraram nos ossos do nariz aos conflitos que o bispo teve durante a vida ou a torturas de que foi vítima. Entre 333 e 335, foi sepultado numa igreja de Mira e, pouco depois, o túmulo começou a libertar um líquido que os fiéis acreditavam ter poderes curativos. A Igreja canonizou-o.

Quando Mira caiu nas mãos do império persa, os cristãos temeram a destruição das relíquias do santo e uma comitiva de marinheiros de Bari apressou-se a resgatá-las. Trouxeram 75% dos ossos de São Nicolau, que até hoje são venerados numa basílica construída em sua homenagem em Bari, Itália. A sepultura continua a exalar o mesmo líquido. Análises feitas em 1925 concluíram que se tratava de água. Mas os crentes ainda acreditam que a substância é milagrosa. 
 
 Uma das figuras mais populares da infância é uma criação americana.
 
 
Imagem
A Coca-Cola encomendou a Haddon Sundblom as ilustrações do Pai Natal que usa até hoje. A figura é uma imagem registada da marca.

Coche
No livro 'A History of New York', Washington Irving descreve a chegada de São Nicolau à cidade a cavalo. Em 1812, alterou o texto: afinal, o santo voa sobre as árvores num coche.

Rena e trenó
Aparecem em 1921 no poema 'Santeclaus', de William Gilley. Segundo a descrição, São Nicolau traz um casaco de peles vestido.

Pólo Norte
Em 1949, a canção de Johnny Marks sobre Rudolfo, a rena de nariz vermelho, acrescentou mais um pormenor à tradição: o Pai Natal vinha do Pólo Norte. 
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Por Rita Garcia
Fonte Site de Portugal:  http://www.sabado.pt/Multimedia/FOTOS/-span--b-Sociedade-b---span--%281%29/Fotogaleria-%28696%29.aspx

Vamos ao que interessa

João Pereira Coutinho*
Existe a crença errônea de que o elitismo conservador se confunde com a atitude do mero antiquário 

O mundo está salvo: na última coluna, critiquei brandamente o último livro de Mario Vargas Llosa, "A Civilização do Espetáculo".

Alguns leitores inteligentes não concordaram e escreveram ao cronista. Com uma carta de apresentação importante: os críticos do presente crítico também se declaravam "conservadores", ou "liberais", ou até "conservadores liberais". Não estaria eu a ser demasiado ácido com uma vaca sagrada da família?

Agradeço todas as mensagens, mas começo por um esclarecimento: "vacas sagradas", que eu saiba, só na Índia. Vargas Llosa não é uma.

E, pensando melhor, não há razão para tratar brandamente um livro tosco, que reduz a cultura contemporânea a um espetáculo corrosivo e vazio.

Não que a cultura contemporânea não tenha exemplos abundantes desse espetáculo. Mas ela não se limita a isso.

Eu que o diga: escrevo de Oxford, a poucos dias do Natal. E hoje, em peregrinação quase religiosa, lá fui à livraria central da cidade, a velhinha e amada Blackwell.

Primeiras impressões: fiquei esmagado com a qualidade intelectual que continua a ser produzida por estas bandas. Uma "civilização do espetáculo"?

Só na cabeça de Vargas Llosa. Não na cabeça de Derek Parfit, Noel Malcolm ou Alan Ryan. Para citar apenas os três primeiros exemplares que me receberam logo à chegada.

Começo pelo fim. Alan Ryan é um dos mais notáveis teóricos do liberalismo e o herdeiro direto de Isaiah Berlin. Mas Ryan acaba de conseguir o prodígio que sempre escapou a Berlin: publicar uma monumental história das ideias políticas que será um dia lida e relida como hoje lemos e relemos os marcos de George Sabine, Quentin Skinner ou Leo Strauss.
Intitula-se tão simplesmente "On Politics" e os capítulos sobre Locke, Stuart Mill ou Tocqueville, paixões óbvias de Ryan, já valeriam todo o livro. Mas não só: nomes estranhos à família ideológica de Ryan, como Karl Marx e descendência, são tratados com uma seriedade (e profundidade) que eu não encontro em autores mais à esquerda.

Mas há mais: Noel Malcolm começou como jornalista em Londres. Mas uma paixão crescente por Thomas Hobbes levou-o a estudar o teórico do "Leviatã" em profundidade (a obra "Aspects of Hobbes" continua a ser a referência moderna na matéria).

Pois bem: Malcolm, um homem ainda relativamente jovem, oferece agora a primeira edição crítica integral do "Leviatã". Nunca essa obra tinha sido apresentada e interpretada como Noel Malcolm o faz: passo a passo, confrontando as versões inglesas do texto com as latinas, tudo coroado pela erudição insana de Malcolm sobre Hobbes.

Por último, o primeiro dos primeiros: Derek Parfit. Sempre que vinha a Oxford, perguntava a alguns autóctones o que seria feito do professor Parfit. Eles encolhiam os ombros e repetiam o que no passado se dizia de A.J. Ayer: poderia ter sido o maior filósofo da sua geração, mas o sexo o perdeu.

No caso de Parfit, não era o sexo: era um silêncio longo, inexplicável, temia-se que depressivo ou patológico. Um silêncio que chegou ao fim: Parfit publicou, em dois volumes, "On What Matters", uma tentativa assombrosa de conciliar três correntes éticas distintas (o kantianismo, o consequencialismo e o contratualismo) sob um único princípio convergente e normativo.

Não deixa de ser irônico que, no mesmo ano em que Vargas Llosa decretava a sua "civilização do espetáculo", Derek Parfit tenha publicado um tratado sobre ética que alguns especialistas consideram o mais importante dos últimos 130 anos.

Moral da história?

Existe a crença errônea de que o elitismo conservador se confunde com a atitude do mero antiquário (ou reacionário), medrosamente agarrado às glórias de um passado idílico que só existe na sua imaginação.

Lamento. Esse não é o meu conservadorismo. Como diria Michael Oakeshott, o conservadorismo não lida com o passado nem com o futuro. Lida com o presente. E com uma atitude de disponibilidade para desfrutar (e conservar) esse presente no que ele tem de mais precioso e belo.

Eis a minha resolução para 2013: pedir de empréstimo o belo título de Parfit e escrever mais vezes sobre aquilo que (ainda) interessa.

Feliz Natal, leitor exigente. 
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*  Jornalista português. Colunista da Folha.