terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O corpo, a origem e o sagrado no Cinema: uma introdução

 Inês Gil* 

Imagem
O cinema sempre teve uma relação particular com o sagrado por ser uma arte que parte da imagem do real para o desconstruir e que ao recria-lo com a sua própria ordem lhe dá um novo sentido. Enquanto sistema simbólico desenvolvido à volta da criação do mundo e da existência do homem o cinema representa uma excelente via de reflexão existencial e metafísica sobre o mistério da espessura da realidade

A filmologia analisou o problema da origem a partir da perspetiva da sala de cinema como fantasma uterino, como lugar iniciático que leva o espetador a um estado de regressão. Hoje, com as novas formas de percepção a partir do ecrã de televisão e do computador, essa possibilidade de retorno à origem desaparece, pelo menos é reduzida. Assim, a abordagem deste texto parte da forma como o cinema, enquanto objeto fílmico, representa o sagrado a partir da sua imagem do corpo} considerando que a origem do sagrado se situa no real. 

A representação do corpo evoluiu ao longo da história do cinema. O plano, nos primeiros filmes da história do cinema, tinha um enquadramento geral e fixo e por isso era chamado "plano-quadro" porque a câmara estava na plateia. As personagens atuavam como se estivessem num palco de teatro, gesticulando de forma exagerada, para que o espetador percebesse claramente qual era o sentimento ou a emoção expressos. Os rostos não se viam porque o enquadramento afastado dos corpos não permitia a percepção das suas expressões. Para mudar de ação, mudava-se o cenário, mas guardava-se o mesmo enquadramento. Quando D. W. Griffith aproximou a câmara dos corpos, cortou-o aos pedaços (escala de planos) mas o cinema ganhou uma nova linguagem fílmica e o ator encontrou uma nova forma de expressão. Já não precisava da pantomima para ser visto. Pelo contrário, com o grande plano, a expressão tinha que ser contida para não cair na caricatura.

Infelizmente, a imagem do corpo tornou-se rapidamente artificial e contribuiu para a criação de um star system que se servia do poder fotogénico da câmara para criar personagens idealizadas. Por outro lado, ao longo da sua história o cinema mostrou que teve sempre a preocupação de se renovar} encontrando novas formas estéticas e narrativas. Por exemplo, a força expressiva do grande plano permitiu-lhe desenvolver uma natureza sagrada, e revelar-se uma "arte espiritual" como o definiu Henri Agel em 1952.

Hoje, o cineasta francês Bruno Dumont fala de "místíca do cinema", que pode ser entendida como interrogação perante o mistério da existência humana e as suas contradições. Nesse caso, a câmara afasta-se dos corpos para os investir da atmosfera do espaço em que se encontram.

Rever o conceito de "sagrado"

Definir o conceito de sagrado revela-se particularmente importante porque vários cineastas contemporâneos ao afirmarem-se ateus, não deixam de procurar exprimir o sagrado ou a espiritualidade na sua obra. 

O que é o sagrado hoje? Definir o sagrado contemporâneo não é tarefa fácil, depois de uma secularização cada vez mais óbvia das sociedades. No entanto, o sagrado continua a ser procurado e expresso, em particular pela arte. E se o sagrado está a transformar-se, libertando-se da iconografia tradicional religiosa, ele está presente de forma implícita, em particular no realismo. A forma como alguns cineastas tratam a imagem do corpo permite ao espetador fazer a experiência direta do sagrado; é aliás um espaço de manifestação contemporânea do sagrado. 

Pode-se continuar a entender o sagrado como força transcendente? Será que hoje a experiência fílmica do sagrado pode ser feita sem a presença explícita do religioso, levando à criação de uma nova estética do corpo cinematográfico? Marie.José Mondzain define o sagrado como uma energia: 

«É uma energia e nada mais, mas uma energia específica porque paradoxal: é uma potência sísmica, um estrondo da natureza que pode ser destruidor como construtor. ( ... ) É a manifestação de intensidades contraditórias no coração do mundo, enquanto este mundo é primeiro uma experiência do real antes de ser a representação regulada de uma realidade simbolizável» (traduzido pela autora deste texto), Marie-José Mondzain, "De la sacralité d'une oeuvre profane. Quelques remarques sur les films de Tarkovski", Croyances et sacré au cinema, Paris, Charles Corlet, 2010, pp. 157-158. 

Pode-se acrescentar que o sagrado é uma "energia do real" constituído por uma série de pequenas forças que despertam o respeito, a distância, a admiração, a aversão, o medo e muito mais.

O grande plano e a origem do sagrado fílmico

Por exemplo, em A Paixão de Joana d'Arc de Carl Dreyer já não é o tema religioso que toca o espetador mas a expressão transcendente que se manifesta em todos os grandes planos do filme. Da força do Mal à fragilidade da inocência, nada escapa ao olhar háptico da câmara. O sofrimento de Joana d' Arc parece projetar-se para além da superfície do ecrã. O grande plano funciona como uma revelação da alma e como imagem do desejo. Joana d'Arc procura a voz divina e a Inquisição quer condená-la à morte, por heresia, ou simplesmente pela necessidade de sacrificar uma vítima para reencontrar um território pacífico (interior e exterior). O grande plano é o plano da presença e do contato direto com o espetador. Carl Dreyer criou uma imagem da natureza humana, no seu extremo sofrimento ou no seu gozo sádico, retirando o artifício estético para reforçar o realismo das emoções.

Fotograma 
A Paixão de Joana d'Arc, Carl Dreyer (1928)
 
A história de Joana d'Arc acaba por ser a revelação do sagrado, através da procura do divino. O grande plano representa o ponto de vista da jovem mártir de duas formas: Joana d'Arc transcende a realidade porque tem uma experiência mística com Deus, mas simultaneamente é particularmente sensível à presença do mal, porque está inocente. Os grandes planos acentuam a força ameaçadora dos seus acusadores e através da passagem de um rosto a um outro, o cineasta questiona a condição humana: o "rosto" do sofrimento entra em conflito com o "rosto" do mal que existe no ser humano. Se o grande plano dá origem à experiência do Sagrado, é porque apresenta uma imagem do invisível e revela uma realidade que transcende o espetador. O enquadramento frontal e aproximado como um ícone transfigura as personagens, cuja luz interior se encontra projetada à superfície do seu corpo.
Em A Paixão de Joana d'Arc, a origem do sagrado está na procura de Deus, mas é sobretudo a partir dos afetos e das emoções expressos pelo grande plano que o espetador faz a experiência do sagrado.

A ausência de Deus como origem do sagrado 

Ao contrário de A Paixão de Joana d'Arc que utiliza a forma estética, o neorrealismo italiano procura revelar a complexidade da experiência humana através da "imagem-fato", que André Bazin definiu como uma imagem sem pretensão semântica à priori, porque o espetador encontraria o seu significado quando fizesse a sua associação com outra imagem-fato. 

Fotograma 
Alemanha, Ano Zero, Roberto Rossellini (1948)

Para Bazin, o neorrealismo baseia-se na fenomenologia estética. Não existe uma relação de causalidade entre as imagens na narrativa do cinema neorrealista: tal como no mundo, as imagens não têm uma ordem predeterminada. Numa realidade regida pelo aleatório, o homem deve ir à procura da ordem para dar sentido à sua vida. No seu ensaio sobre espiritualidade e media,Ron Austin lembra que no cinema neorrealista, o caráter das personagens não é psicológico, mas é fundado a partir da sua expressão e dos seus gestos, e por isso reforça a "intuição de ser". Gilles Deleuze atribui-lhe uma temporalidade específica: a imagem-tempo remete para um cinema onde o tempo é privilegiado à ação e as suas personagens existem, simplesmente. Os corpos desligam-se cada vez mais da ação e estão apresentados na sua condição presente. 

Roberto Rossellini, em Alemanha Ano Zero procura exprimir o Sagrado através de um encontro entre a realidade exterior e o espaço interior (mental e emocional) do ser humano. Pode-se falar em "realismo fenomenológico" porque é um realismo que quer exprimir a totalidade do ser através do mundo das aparências. Por exemplo, Rossellini utiliza planos afastados para permitir uma interpretação da ação cinematográfica, não impondo a sua visão do mundo, porque mostrar o sofrimento, a tragédia} pode transformar um olhar observador num prazer voyeur, e acabar por cair num "fato-espetáculo". Em Alemanha Ano Zeroexiste uma "suspensão metafísíca", que nasce da relação que existe entre as personagens e o mundo visível: quando o pequeno Edmund atravessa as ruínas da cidade destruída antes do seu suicídio, existe uma decalagem entre a consciência e a paisagem que não se fundem mas entram em ressonância, uma com outra. 

É a aparente ausência de Deus na narrativa que reforça a presença invisível da transcendência. A atmosfera que se exprime da relação entre o corpo jovem e as ruínas urbanas cria uma "aura" na imagem. Esta atmosfera é composta por forças opostas: o sagrado da vida confronta-se com a violência da realidade. Em Alemanha Ano Zero,as atitudes das personagens são muitas vezes ambíguas porque são atitudes existenciais que não são predeterminadas. Quando Edmund dá o veneno a beber ao seu pai, ele acredita realmente que está a libertá-lo; é para o bem do seu pai. Rossellini procura o sagrado no mistério da existência, sem tentar explicar o porquê do absurdo e da desordem do mundo. É na graça que ele o encontra, porque é ela que constrói a liberdade do ser humano. Para o cineasta, a integridade é o que torna a alma mais forte, e é mais potente do que qualquer arma. O sagrado é a possibilidade que o homem tem de lutar contra o Mal e de sentir a força da vida, mesmo nos momentos mais dolorosos.

Pier Paolo Pasolini: o profano como origem do sagrado 

Na obra de Pasolini o sagrado ocupa um lugar particular: para ele, o princípio imanente do sagrado encontra-se no interior do real, isto é, o espetador deve descobrir o sagrado numa dimensão mais profunda da realidade, porque a sua natureza não é sensível. 

Fotograma 
O Evangelho Segundo Mateus, Pier Paolo Pasolini (1964)

A origem do sagrado está no homem e a melhor forma de o captar é mostrar o corpo do homem tal como é na vida. A câmara pode revelar a natureza sagrada do mundo a partir da imagem dos rostos e das suas expressões, afastando-se das formas plásticas convencionais. 

Quando, na cena da Adoração dos Magos em O Evangelho Segundo Mateus, Pasolini reenquadra em zoom o rosto de um jovem em vez de mostrar a oferta que esse tinha para o menino Jesus, ele manifesta o sagrado (que existe na humanidade) através da imagem de humildade e de inocência num rosto. É também uma forma de se afastar de um materialismo alienante que induz um falso encontro com o sagrado. O marxismo de Pasolini está patente na opção de filmar nos bairros pobres para voltar a uma origem, não conspurcada pelo capitalismo. 

A partir da técnica cinematográfica procura exprimir sinais reveladores do sagrado no mundo, como a presença de Jesus Cristo e a sua mensagem aos homens. Pasolini quebra com a estética clássica de representação do sagrado (como a que Dreyer utilizou em A Paixão de Joana d'Arc) para criar tensões e conflitos formais. É nessas rupturas que se exprime o sagrado como a suspensão temporal de um olhar silencioso: por exemplo, quando João Batista reconhece Jesus na cena do batismo, existe como uma ruptura no tempo e no espaço: o momento torna-se atemporal, porque transcende o real e o silêncio dos olhares manifesta a realidade e o sagrado do encontro. 

Pasolini recusa o enquadramento tradicional do ícone que pode levar à idolatria: Jesus nunca é divinizado, mas apresentado como um homem simples que procura compreender o mundo para o tornar mais próximo do sagrado. Os movimentos óticos da câmara são violentos e criam uma sensação de instabilidade no espetador. O filme abandonou a invisibilidade da montagem em raccord, deixando a técnica sensível. Pasolini apela a uma participação ativa da parte do espetador para que ele seja sensível à manifestação do sagrado presente no filme.
No cinema a questão do sagrado está mais próximo do humano do que do estereótipo do divino, para encontrar um lugar original onde o transcendente e o imanente coexistam, por exemplo no tempo. Vimos que o movimento neorrealista foi o primeiro a privilegiar a relação que o mundo tem com o tempo, que por sua vez investe a sua passagem no corpo das personagens. Com ou sem Deus, o homem atravessa a vida e as suas dificuldades} sendo o seu corpo a prova da sua presença no mundo real. O movimento do tempo leva-o por um caminho desconhecido que o obrigará a decidir se quer lutar com ou para a vida. 

Aurélien Liarte mostra que, hoje, a remanescência do sagrado está mais ligado ao espaço imaginário do corpo do que ao corpo propriamente dito. Roger Bastide fala de "sagrado selvagem", sem estrutura simbólica na sua metamorfose contemporânea . O sagrado esta hoje confuso e ainda não encontrou o seu território. É um "sagrado híbrido" que está "em trânsito", à procura de um reconhecimento para ser legítimo. No entanto} cada vez mais} o sagrado tende para o domínio do sensível ". 

Julia Kristeva interroga se o sagrado poderá ter uma temporalidade determinada: «O sagrado, passagem fora do tempo. está provado de começo e de fim. Quando começa o momento sagrado? Não se sabe bem» (traduzido pela autora deste texto. Julia Kristeva, Catherine Clément, Le féminin et le sacré, Paris, Tock, 2007, p. 252).O sagrado está sempre ligado à temporalidade, de uma forma finita ou infinita. A sua representação cinematográfica através da imagem dos corpos na obra de John Cassavetes, e em particular em Faces,marca uma nova reflexão sobre a relação do ser humano com a sua condição existencial.

O corpo que resiste 

Se Pasolini se serviu do "profano fílmico" para introduzir uma nova forma de exprimir o sagrado em O Evangelho Segundo Mateus, quatro anos mais tarde, em 1968} John Cassavetes propõe uma cinematografia dos corpos para revelar uma consciencialização do mundo através da expressão de emoções "puras", isto é, tornar visível os movimentos internos do homem. No capítulo "Cinema, corpo e cérebro, pensamento" do Imagem-Tempo,Gilles Deleuze diz: 

Fotograma 
Faces, John Cassavetes (1968)

«É a grandeza da obra de Cassavetes ter alterado a história, a intriga ou a acção, mas mesmo o espaço, para atingir as atitudes como as categorias que põem o tempo no corpo, assim como o pensamento na vida. Quando Cassavetes diz que as personagens não têm de vir da história ou da intriga, mas a história ser segregada pelas personagens, ele resume a exigência de um cinema dos corpos: a personagem é reduzida às suas próprias atitudes corporais, e o que tem que sair é o gestus, isto é, um "espectáculo", uma teatralização ou uma dramatização que vale para qualquer intriga. Faces constrói-se nas atitudes do corpo apresentadas como rostos indo até à careta, exprimindo a expectativa, o cansaço, a vertigem, a depressão». 

Em Faces,a utilização do grande plano permite novamente a expressão do invisível, do espiritual imanente ao homem, mas a câmara autonomizou-se em relação ao grande plano de Dreyer: já não serve para enquadrar o objeto, mas parece estar à procura dele (do rosto) na densidade do real. É na interioridade dos rostos que se encontra o sagrado, na sua busca de sentido no espaço cinematográfico da vida; a câmara tenta acompanhar os seus movimentos imprevisíveis, chamando por uma resposta no incomensurável caos das relações humanas. Em Faces,o movimento contínuo dos corpos perante uma câmara invasiva e instável provoca uma relação de imersão entre o espetador e a imagem. Os corpos parecem resistir à câmara, e ela está à procura deles; essas forças contrárias (entre a ótica e o real) criam um desfasamento, uma dessincronização entre a imagem e o seu assunto, que reforça a experiência do sagrado através da expressão emocional das personagens. 

Os jogos de luz permitem aos rostos encontrarem a sua verdadeira interioridade: ao atravessarem o claro-escuro no enquadramento, eles desvendam a essência paradoxal da existência humana, revelando inveja, desejo, ou um vazio existencial incontornável. O sagrado está presente no silêncio da imagem que mostra uma resistência dos corpos ao encontrar um mundo que não entende nem controla, prontos para se entregarem à vida mas retidos pela complexidade das forças emocionais da natureza humana. É nos rostos que resistem ao espaço da câmara que se encontra a origem da revelação do Sagrado, despojado de sentido religioso mas profundamente humanista.

Filmar a origem 

O grande plano pode também ser utilizado para criar uma sensação de "estranheza inquietante", para chegar ao sagrado, no meio da transgressão, a partir do olhar proibido (o sagrado induz também a questão do interdito).
Fotograma 
L'humanité, Bruno Dumont (1999)

Encontra-se uma forma de deslocação do sagrado no cinema de Bruno Dumont, que procura «um sagrado humanista, uma vida espiritual, uma transcendência, sem Deus e sem Igreja».Sendo ateu, ele afirma que Deus só lhe interessa na sua forma poética. No entanto o cineasta menciona o desejo e a necessidade de recuperar noções como a graça, a santidade e sobretudo a "metafísica da mística" e daí se falar de antropologia profana e teológica na sua obra.

Em L'Humanité, Bruno Dumont utiliza os corpos da suas personagens para exprimir o invisível (a origem) através da representação do mistério da humanidade, confrontada com o mal e o seu desejo de o transcender. Faraó, o protagonista, figura crística de amor, inocência e compaixão, depara-se com um corpo feminino abandonado no campo. Dumont inspirou-se da instalação Étant donnés de Marcel Duchamp, para tornar o olhar escópico do espetador numa experiência real. Mais à frente, é a partir da referência clara e assumida da "Origem do Mundo" de Gustave Courbet, que Dumont propõe uma definição icónica do sagrado na sua transgressão (não se deve mostrar o que é privado e profundamente íntimo) e profanação (o grande plano invade e exibe a intimidade visualmente proibida tornando-a obscena). 

No princípio do filme, após a sua horrível descoberta, Faraó caí na terra húmida de um campo gradado e Dumont faz um grande plano do seu rosto com os olhos abertos e fixos como se estivesse morto. Essa imagem representa a sua incapacidade de lidar com uma situação que o transcende (o horrível crime de uma menina) e o desejo de retorno à origem-mãe, a terra. Numa leitura bíblica podia-se acrescentar que é o desejo do retorno ao paraíso, antes da queda da humanidade e da sua exposição ao mal. Houve-se o mundo através do vento e do canto dos pássaros. 

Bruno Dumont mostra ainda vários planos de pormenor do corpo das várias personagens para as transfigurar (a imagem crua das dobras sujas e suadas do pescoço obeso do comissário é particularmente expressiva na sua banalidade). O plano de pormenor isola um fragmento do objeto da sua totalidade e do seu contexto; o resultado é a imagem puramente ótica de um detalhe (não é visível ao olho nu} a sua proximidade levando a uma inevitável percepção desfocada) que encontra uma nova configuração. O fragmento corporal transfigura-se e, ao separar-se do resto} desperta uma sensação de profundo desconforto no espetador, que através do seu olhar é obrigado a profanar o sagrado. 

Bruno Dumont mostra que o sagrado encontra-se na origem do ser humano e se manifesta quando a experiência de existir se torna mais densa. O cineasta procura o sagrado no homem, e para o exprimir serve-se do real para incluir o fictício, ou a experiência do transcendente. É na tensão que existe entre eles que se manifesta o sagrado. Será por exemplo a dissonância entre o som da natureza e o rosto sobrenatural de Faraó enfiado na terra; ou é o alongamento do tempo que as personagens levam a reagir que cria um "desajuste" estético na imagem. 

Se o cinema sempre se interessou em representar o sagrado, é na sua forma menos ilustrativa que melhor o conseguiu, sendo a experiência do sagrado uma experiência "superior" à realidade ou que procura ultrapassar a experiência do dia-a-dia. No entanto é a partir da realidade que o sagrado se encontra e o cinema com os seus meios formais, vai questionar o mundo e a condição humana. O sagrado exprime-se através do encontro entre várias forças que criam uma tensão visual ou sonora, positiva ou negativa, espacial ou temporal. 

A originalidade do cinema é de poder exprimir o sagrado a partir da imagem do real e do mundo interior do homem, utilizando o grande plano, o movimento da câmara ou outros meios técnicos que conseguem tornar visível o invisível, para o tornar imediato e presente na experiência do espetador.

Esta transcrição omite as notas de rodapé.

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* Professora na licenciatura em Cinema da Universidade Lusófona, Lisboa, Grupo de Cinema do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
In Didaskalia, 1/2012 
Fonte:http://www.snpcultura.org/o_corpo_a_origem_e_o_sagrado_no_cinema_introducao.html 28.01.13

É possível um relativismo absoluto?

 Pe. Anderson Alves*
 
Reflexões sobre o atual ateísmo relativista
Em um texto anterior[i], nos perguntávamos se fosse possível conciliar o relativismo e o ateísmo. E víamos que, segundo três famosos ateus (Nietzsche, Adorno e Horkheimer) o ateísmo, ao negar a origem do conhecimento e ao tomar como verdade a inexistência de Deus, cai numa contradição insuperável[ii]. De fato, quem nega a existência da verdade, não poderia coerentemente afirmar que Deus não existe. Entretanto, sabemos que há quem se esforce muito por conciliar relativismo e ateísmo, colocando um ateísmo indiscutível e dogmático como fundamento do relativismo e construindo um sistema de pensamento no qual se parte da negação de Deus e, a partir dessa verdade quase “divina”, afirma-se um relativismo moral e cognitivo radical.

Um pensador que colocou em íntima relação o ateísmo com o tema da verdade foi F. Nietzsche, autor que se considerava «ateu por instinto». De fato, seu ateísmo voluntarista tinha como consequência a afirmação de um forte relativismo e a verdade era considerada como «um exército de metáforas, metonímias», «ilusões das quais se esqueceu a sua natureza ilusória», «moedas nas quais as imagens foram consumidas»[iii]. Em outro texto famoso, ele fazia uma interessante observação: «receio que não possamos nunca afastar-nos de Deus porque ainda acreditamos na Gramática»[iv]. Desse modo, o ateísmo radical deveria conduzir a uma sociedade sem ciências, sem explicações últimas, na qual o homem só seria capaz de conhecer seus próprios estados de ânimo. Porém, tudo isso parte de uma afirmação com valor de verdade absoluta: «Deus morreu, Deus continua morto, nós o matamos»[v]. O “teomicídio” seria, pois, o ato supremo de uma vontade que busca uma autonomia absoluta, e não de uma demonstração racional. E aquele gesto traria consigo um relativismo radical, mas não certamente absoluto.

É certo que hoje muitos pensam que o relativismo seja o fundamento do ateísmo, mas isso se deve a um modo superficial de examinar o problema. Se o relativismo é total, se não há nenhuma verdade, jamais pode ser verdade que Deus não exista. De modo que, surpreendentemente, o ateísmo mesmo coloca limites ao relativismo. Em outras palavras, pode existir um ateísmo relativista, ou seja, um ateísmo a partir do qual se deduz o relativismo, mas não um relativismo ateu.

Então, é impossível um relativismo absoluto? Coloquemos de outro modo a questão: pode ser verdade que não existe nenhuma verdade? Só há duas respostas possíveis: “sim, é verdade que não existe nenhuma verdade”. Ora, quem diz isso, assume, talvez inconscientemente, que há alguma verdade; e se alguém disser “não, não pode ser verdade que não exista a verdade”, certamente estaria usando melhor a sua razão e teria encontrado a resposta lógica. De modo que, com uma resposta ou outra, a conclusão é sempre a mesma: não pode existir um “relativismo absoluto”, a verdade sempre faz parte do nosso pensamento e discurso.

A consequência disso é, que por incrível que pareça, o relativismo só pode ser relativo, uma vez que só pode ser parcial. Isso porque é sempre necessário aceitar que há alguma verdade, que algo pode ser conhecido. Certo tipo de relativismo pode ser aceito para as opiniões, que são afirmações de algo pouco fundamentado, de modo quando se opina se há receio de que a afirmação contrária seja a verdadeira. Mas nem tudo na nossa comunicação é simples opinião.

Aristóteles dizia que como a verdade é uma realidade primeira do nosso pensamento, quem nega a verdade, afirma a verdade. Ou seja, quem nega que ela exista, sabe já o que ela seja e supõe que é verdade a sua não existência, o que é uma contradição em termos. Outro modo de fugir ao compromisso com a verdade seria assumir a posição cética, ou seja, aquela postura de certos pensadores que dizem não ser possível nem afirmar, nem negar a verdade. Quem assume essa posição, certamente se livra da linguagem e da “Gramática”, mas isso traz consigo uma consequência nefasta: não negar nem afirmar algo, faz o ser humano se tornar semelhante a uma planta, com quem não é educado discutir.

O relativismo só pode, pois, ser relativo, ou seja, só pode ser aplicado a algumas afirmações e nunca a todas. A verdade não pode jamais ser excluída da vida e da linguagem humana, a menos que alguém se conforme em viver como uma planta. F. Nietzsche só pôde dizer que a verdade é «um exército de metáforas», uma «ilusão», uma moeda sem valor porque sabia perfeitamente o que é uma metáfora, uma ilusão, uma moeda com valor. Negar a verdade implica sempre aceitar a verdade, assim como negar Deus implica pressupor a sua existência.

Então, temos que colocar agora a incômoda questão: afinal de contas, o que é a verdade? Platão dizia que «verdadeiro é o discurso que diz as coisas como são, falso o que diz como as coisas não são»[vi]. E Aristóteles afirmou algo tão simples quanto essencial: «Negar aquilo que é, e afirmar aquilo que não é, é falso, enquanto afirmar o que é e negar o que não é, é a verdade»[vii]. A verdade se dá quando o nosso discurso expressa o que as coisas realmente são.

Em que sentido então pode ser aceito o relativismo? Já iniciamos aqui a resposta, mas a aprofundaremos numa outra ocasião. O que importa agora é deixar clara a conclusão a que chegamos: o relativismo não pode ser absoluto, só pode ser, por incrível que pareça, relativo.
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* Pe. Anderson Alves, sacerdote da diocese de Petrópolis – Brasil. Doutorando em Filosofia na Pontificia Università della Santa Croce em Roma.


[ii] M. HORKHEIMER e Th.ADORNO, Dialettica dell’illuminismo, Einaudi, Torino 1966, p. 125: «Percebemos “que também os não conhecedores de hoje, nós, ateus e antimetafísicos, alimentamos ainda o nosso fogo no incêndio de uma fé antiga dois milênios, aquela fé cristã que era já a fé de Platão: ser Deus a verdade e a verdade divina”. Sendo assim, a ciência cai na crítica feita à metafísica. A negação de Deus implica em si uma contradição insuperável, enquanto nega o saber mesmo».

[iii] Cfr. F. NIETZSCHE, Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, ed. Hedra, São Paulo 2007.

[iv] Cfr. Idem, Crepúsculo dos Ídolos, ed. Companhia das Letras, São Paulo 2006.

[v] Idem, A Gaia ciência, ed. Hemus, Curitiba 2002, p. 134.

[vi] PLATÃO, Crátilo 385 b; cfr. também Sofista, 262 e

[vii] ARISTÓTELES, Metafísica, IV, 7, 1011 b 26 e segs.

Fonte:  ROMA, 28 de Janeiro de 2013 (Zenit.org)
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A pior dor

J.J. Camargo*

 

As grandes tragédias nos comovem porque nos transportam para dentro delas. E ficamos lá, durante dias, embalados pela discussão dos detalhes, pela tentativa infrutífera de reparar e, quando nos convencemos por exaustão de que nada mais é remediável, nos vemos a discutir os culpados, a criminosa falta de responsabilidade na emissão dos alvarás e as penas que deveriam receber. E ficamos indignados porque nada muda e, quando se repetir, sairemos outra vez atrás de novos culpados.

Mas nada disso passa nem perto dos sentimentos dos que perderam, porque a dor da perda é única e indescritível. A perda verdadeira e definitiva.

No máximo, podemos imaginar a partir de retalhos capturados nas declarações, o tamanho do sofrimento, mas não o sofrimento coletivo, porque este é sempre passageiro, mas o sofrimento individual, de cada pai e de cada mãe, que foram despertados com o relato de uma tragédia e descobriram petrificados que as luzes embaixo das portas continuavam acesas, porque seus filhos amados não retornaram da noitada.

Imaginem a saída para a rua depois de dezenas de telefonemas inúteis e a descoberta de que havia três possibilidades: mortos estendidos no piso de ginásio municipal, feridos hospitalizados em Santa Maria, feridos mais graves encaminhados para Porto Alegre.

Por onde começar a investigar, no meio de um tumulto, onde estariam a Bruna, o Rafael ou o Eduardo, se todas as pessoas gritavam e ninguém tinha uma informação confiável?

Quando a imprensa acessou o ginásio, reportou que corpos acomodados na lona preta pareciam intactos, visto que a maioria morreu asfixiada e não por queimaduras. Mas o que mais impressionou foi o relato de que os celulares seguiam tocando incansavelmente nos bolsos dos mortos.

E, quando um repórter tomou um deles, havia um registro a documentar todo o desespero, a perseverança e a incredulidade: “103 chamadas não atendidas”.

E no alto da tela o nome mais previsível: MÃE.
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* Médico
Fonte: ZH on line, 29/01/2013
Imagem da Internet

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Se a tecnologia é um vício, quais são os efeitos colaterais?

Alexandre Matias*
 
Uma voz monótona repete frases sem emoção: "Viva mais. Conecte-se mais. Viaje mais. Compartilhe mais. Procure mais". Pessoas sorriem em situações cotidianas com seus tablets ou celulares. A iluminação é perfeita, a fotografia é de publicidade. Todos são lindos.

De relance, um outdoor eletrônico transforma empolgação em ameaça - "O futuro que você merece" - e seguem os imperativos: "Consuma mais. Pense mais. Experimente mais. Lembre mais. Veja mais. Compartilhe mais. Aprenda mais. Faça mais. Lute mais. Faça mais. Conecte-se mais". As imagens mudam, os sorrisos tornam-se falsos e celulares filmam cenas violentas - confrontos, espacamentos - vistas por uma criança debaixo de seu cobertor.

"Deixe de ser você", diz a voz robótica antes de surgir uma avenida tomada por pedestres que filmam, sem reação e com seus celulares, uma enorme nuvem de poeira que vem em sua direção. É inevitável a associação com a mórbida nuvem que tomou as ruas de Nova York depois da queda do WTC.

"O futuro está quebrado." É o trailer da nova temporada de Black Mirror (espelho preto), do jornalista inglês Charlie Brooker, anunciada semana passada. Eu já havia comentado sobre a série em uma Impressão Digital no fim de 2012, mas comentei mais a força de seu título do que seu tema.

Black Mirror não é um seriado, mas três pequenos filmes exibidos pela Canal 4 da BBC inglesa. Seu autor, Charlie Brooker, é um notável crítico de mídia conhecido por sua abordagem nada sutil e pela franqueza agressiva que usa para expor suas opiniões, uma espécie de Michael Moore menos bonachão. É um inglês cínico cujo sotaque é tão pesado quanto a forma como ele trata os temas que escolhe. Ele explora como burrice, vaidade, ganância e banalidade derretem nossa civilização ao tratar inteligência como excentricidade e aparência como lastro de confiança.

O que une os três primeiros episódios de Black Mirror, exibidos no fim de 2011, é um dos principais alvos das críticas de Brooker - a tecnologia. Sua abordagem é simples: a tecnologia é a droga mais consumida do mundo hoje e estamos todos viciados nela. Todo o ecossistema criado pela internet e novos aparelhos não apenas nos permite consumir conteúdo em qualquer lugar como também faz com que nossas vidas possam ser transformadas em conteúdo para ser consumido. A partir desta constatação, Brooker quer descobrir quais são os efeitos colaterais desse vício.

Em três episódios, três choques: no primeiro (Hino Nacional) o primeiro-ministro inglês é chantageado para fazer sexo com um porco em cadeia nacional. No segundo (15 Milhões de Méritos), um operário de uma fábrica do futuro - que parece uma academia de ginástica - tenta ajudar uma desconhecida a comprar sua vaga em um programa de reality show. No terceiro (Toda a História de Você), uma tecnologia permite que você grave e reveja as próprias lembranças e isso pode ser catastrófico para as nossas relações.

Black Mirror ainda é inédita no Brasil e o canal BBC HD, recém-lançado no País, poderia nos presentear com sua exibição (como já fez com a excelente série Sherlock, adaptada pelo bamba Steven Moffat), antes de os três episódios da próxima temporada - que começam a ser filmados no mês que vem e ainda não têm data de exibição - irem ao ar no Reino Unido.

Do pouco que se sabe dos próximos episódios, num deles o namorado de uma viciada em redes sociais consegue voltar a ter contato com ela depois de sua morte graças à internet; no outro, um personagem de programa infantil concorre a um cargo político e começa a soar menos estúpido que seus concorrentes; e no último, uma mulher acorda numa casa que não conhece para descobrir que as pessoas se tornaram voyeurs sem motivo, filmando os outros o tempo todo e não fazem mais nada.

Não parece tããããão diferente da nossa própria realidade...
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* ALEXANDRE MATIAS É DIRETOR DE REDAÇÃO DA REVISTA GALILEU - GALILEU.GLOBO.COM
matias@edglobo.com.br - http://blogs.estadao.com.br/alexandre-matias
Fonte:  http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,28/01/2013
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Financial Times: “Idiotia e Progresso”

 
“Idiotia e Progresso”. É esse o título de um artigo publicado hoje em um blog do Financial Times em relação ao drama de Santa Maria. As mortes no Sul do Brasil repercutiram em todo o mundo e artigos em diversos jornais passaram a questionar os progressos de fato realizados pelo País nos últimos anos.

Mas, para o jornal que serve de referência nas finanças internacionais, está claro que o incidente irá aumentar a pressão sobre o Brasil no que se refere a sua capacidade de realizar grandes eventos esportivos, como a Copa em 2014.

Assinado pelo jornalista Jonathan Wheatley, o artigo não poupa críticas ao Brasil. “Para um país que sobe em termos econômicos e está se preparando para mostrar seus progressos com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, a lista de erros e fracassos que levaram ao incêndio de sábado promove a pior das publicidades”.

O artigo chega a questionar se é justo culpar a administração de um país por conta de um ato de um “idiota isolado”. O FT também admite que outros países vivem a mesma sitação.
O artigo cita os diversos fatores da tragédia, inclusive o fato de que muitos morreram no banheiro, achando que era uma das portas de saída. “Regulamentos dos mais básicos, propriamente aplicados, teriam evitado a tragência e salvo a vida de 231 jovens. As autoridades enfrentarão questionamentos”, escreveu.

Descrevendo o membro da banda de “idiota” por ter usado pirotecnia dentro do local, o FT deixa claro que idiotas não existem apenas no Brasil e aponta para um desastre similar nos EUA em 2003.  “Idiotas existem em todo o mundo e é muito difícil de legislar contra eles. Até sábado, o Brasil não teve uma tragédia dessa escala por mais de meio século. Se o evento horroroso do fim de semana resultar em aplicações mais duras da lei, o Brasil terá feito mais progresso”, conclui.
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Fonte: http://blogs.estadao.com.br/jamil-chade/2013/01/28/financial-times-idiotia-e-progresso/
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Educação de qualidade obrigatória desde a base

Isaac Roitman*

Os tributos obrigatórios fazem parte da nossa história. No Brasil colônia, era obrigatório o pagamento de tributos à Coroa Portuguesa para financiar as expedições colonizadoras e proteger a costa brasileira contra saqueadores. Os impostos da metrópole recaíam sobre a comercialização do pau-brasil, das especiarias, do pescado, do ouro, da prata e das pedras preciosas.

Ao longo dos anos, dezenas de inúmeros tributos foram introduzidos. Cito alguns muito conhecidos: IR (Imposto de Renda), IE (Imposto de Exportação), IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), Cofins (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social), PIS (Programa de Integração Social), IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) e IPTU (Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana).

A imensa lista de tributos foi idealizada por diferentes governos, que utilizariam a arrecadação para beneficiar toda a sociedade. Infelizmente, isso quase nunca acontece. Os benefícios e serviços públicos nas áreas da saúde, da educação, da segurança, das moradias, da mobilidade urbana etc. são de baixa qualidade, devido à ineficiência administrativa ou por desvios de recursos públicos em um cenário cultural em que se dá mais importância aos interesses pessoais que ao coletivo.

A ideia que tentarei introduzir neste artigo é a de uma cobrança feita pela sociedade ao Estado para que possamos ter, no Brasil, uma educação de qualidade em todos os níveis de ensino (infantil, fundamental, médio e superior). Seria um tributo invertido, que não envolveria nenhum pagamento em moeda e no qual a sociedade cobraria do Estado o cumprimento de uma imposição constitucional.

O artigo 205 da Constituição diz que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família. O item VII do artigo 206 garante ao ensino um padrão de qualidade. Em vez disso, o que predomina é um ensino de massa, com número excessivo de alunos em sala de aula e professores com formação deficiente, com salários vergonhosos e desmotivados. As escolas carecem de infraestrutura mínima e são desprovidas de condições para aproveitar as tecnologias modernas de informação e de comunicação.

O que é preciso é a conquista da garantia, para todos os brasileiros, de uma educação que permita progressos dentro do contexto social, econômico e político, não um discurso teórico apregoado em nossas leis. Assim, a escola deveria assumir valores que estimulem a autonomia dos alunos e os oriente para o respeito a si mesmos e aos demais e para a solidariedade. Além disso, que os prepare para respeitar a natureza, compreender e conviver com a diversidade cultural e fazer o que estiver ao seu alcance para trabalhar pela paz e pela igualdade de seus semelhantes.

Os professores que só repetem o que leem seriam substituídos pelas tecnologias avançadas de informação e deveriam atuar como facilitadores e mediadores, estimulando a formação cultural e humanista dos estudantes. Como prega Edgar Morin, a educação deve favorecer a aptidão natural da mente de formular e resolver problemas essenciais e, de forma correlata, estimular o uso total da inteligência. Esse uso total pede o livre exercício da curiosidade, a faculdade mais expandida e mais viva durante a infância e a adolescência, que, com frequência, a instrução extingue e que, ao contrário, se trata de estimular ou, caso esteja adormecida, de despertar.

O não cumprimento dos preceitos constitucionais deveria resultar em penalidades a todos os responsáveis pelo insucesso educacional. É pertinente a construção de indicadores que possam avaliar a qualidade da educação como instrumento para punir os gestores públicos responsáveis por sua inadequação no nível federal, estadual e municipal. Assim como a população é punida quando não cumpre as regras dos tributos obrigatórios, os gestores deveriam ser também punidos quando cúmplices de um sistema educacional sem qualidade. O tribunal para julgar a improbidade administrativa seria a sociedade, por intermédio das entidades organizadas da sociedade civil, em um processo permanente de acompanhamento e a avaliação da qualidade do ensino.

É importante lembrar que a qualidade da educação do presente modelará o futuro do Brasil. É também importante lembrar o pensamento de Immanuel Kant: "O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele".
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*Isaac Roitman é professor emérito da Universidade de Brasília e membro titular da Academia Brasileira de Ciências) publicado no Correio Braziliense.
Fonte: http://www.jornaldaciencia.org.br/28/01/2013
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A dor que jamais terminará

 David Coimbra*

 A dor que jamais terminará Félix Zucco/Agencia RBS

O desespero foi o que restou para os familiares das mais de 200 vítimas do incêndio na boate Kiss

O horror, o horror. A frase que encerra um dos maiores clássicos da literatura universal, O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, bem serve para descrever o que ocorreu em Santa Maria a partir da noite de sábado para domingo, e que ainda não terminou, e que, para centenas de pessoas, não terminará jamais. 

Pelo menos 230 jovens (até a noite de ontem) morreram em um incêndio que destruiu a boate Kiss, no centro da cidade. Eram, quase todos, estudantes de diversos cursos da Universidade Federal. Até o meio da madrugada, estavam festejando a vida, rindo, dançando e se divertindo. Horas depois, quando o sol se ergueu sobre a cidade, jaziam no chão do ginásio municipal, o Farrezão, como se fossem vítimas de alguma guerra terrível.

Quem esteve no interior desse ginásio nunca esquecerá o que viu. Não poderá esquecer. As ruas do entorno foram bloqueadas pela polícia. Populares silenciosos se aglomeravam atrás dos cordões de isolamento. Só os familiares das vítimas podiam passar. Eram encaminhados para o primeiro prédio do ginásio, sentavam-se nas arquibancadas e esperavam. 

Pelo que esperavam aqueles pais e mães? Esperavam que o nome de seus filhos fosse anunciado pelo sistema de som. Então, se erguiam trêmulos dos bancos de pedra e eram encaminhados por funcionários para o prédio ao lado, para proceder à identificação dos corpos.

E ali, no prédio ao lado, uma grande quadra de futebol sete, nesse prédio habitava o pesadelo. Mais de duzentos corpos estavam deitados de costas, lado a lado, formando corredores macabros que se estendiam de uma ponta a outra da quadra. Caminhei por esses corredores. 

Vi os rostos daqueles meninos e meninas, muitos com expressões surpreendentemente serenas. Alguns estavam queimados e muito machucados, alguns ainda manchados de sangue, vários deles com as faces enegrecidas, mas quase nenhum carbonizado. Morreram de asfixia. Por causa da fumaça, não do fogo.

Os rapazes foram colocados na primeira metade da quadra, as moças na segunda. Todos sobre uma lona preta. As meninas foram pudicamente cobertas até a cintura por outra lona, já que muitas vestiam minissaias. As carteiras, documentos e celulares foram postos sobre o peito de seus donos. Durante boa parte da manhã, esses celulares tocavam sem parar. Os funcionários circulavam por entre os corpos e não sabiam o que fazer. Deviam atender? Deviam falar com os pais desesperados que queriam notícias dos filhos?

A identificação dos homens foi mais fácil, porque a maioria deles levava documentos nos bolsos das calças. As mulheres carregavam os documentos nas bolsas, obviamente esquecidas na confusão que se iniciou às 2h30min. Um dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentava no palco situado no fundo da boate, acendeu um sinalizador para incrementar o show. Uma faísca do sinalizador saltou para o teto de isopor e espuma, que, de imediato, pegou fogo.

As pessoas começaram a correr para a saída, mas foram barradas pelos seguranças, que acharam que se tratava de uma briga. Outros confundiram a porta do banheiro com a de uma saída de emergência e correram para lá. Foi a pior das decisões. 

Desesperadas, as pessoas tentavam sair pelas basculantes e acabaram se pisoteando umas às outras. Quando os bombeiros chegaram ao banheiro, encontraram os corpos empilhados.

É a maior tragédia da história do Rio Grande do Sul. Nunca, no Estado, houve um cenário como o do ginásio municipal de Santa Maria, com mais de 200 corpos dos filhos desse chão rojados sobre uma lona vulgar, deitados de olhos fechados, os membros já tomados pelo rigor da morte, alguns com os braços estendidos como se pedissem socorro, alguns com as mãos em garra, tantos outros parecendo calmos, como se dormissem. Muitas meninas lindas, muitos meninos de tênis e camiseta, todos tão jovens, tão jovens, tão jovens. O horror, o horror.
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* Colunista da ZH
Fonte: ZH on line, 28/01/2013
Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Nós que temos filhos

 Martha Medeiros*

 Nós que temos filhos Félix Zucco/Agencia RBS

“Quem não tem filhos sofre. 

Quem tem se arrebenta. 

Não é algo que se explique. 

Nenhum racionalismo conforta”

Por uma infelicidade tremenda, fui ler os comentários de um site sobre o acontecido em Santa Maria e dei com uma criatura funesta que falou coisas impublicáveis. Um só. Um único demente entre tantos solidários, e pensei: precisa mais que um para lamentarmos a falta de compaixão? Porque essa foi a palavra que me invadiu desde as primeiras horas de um domingo ensolarado lá fora e nublado aqui dentro: compaixão. 

Qualquer pessoa que tenha um filho ou uma filha não tem como não se colocar no lugar dos pais, dos avós, dos tios daquela garotada que saiu no sábado à noite para se divertir e que foi vítima do destino — poderíamos também chamar de descaso, insensatez, irresponsabilidade —, mas é cedo para diagnósticos precisos. Destino é uma palavra mais abrangente. 

 "A tragédia mostrou como somos
 todos vulneráveis diante da 
fragilidade da vida"

Tenho duas filhas que comumente saem à noite, dançam, se divertem em lugares fechados, e eu não faço vistorias prévias, não peço laudos, não investigo, simplesmente confio que elas estarão em segurança. Quem pode garantir? Alguém deveria, mas o destino não se responsabiliza. Nunca se responsabilizou.

Sei de dois irmãos e de um casal de namorados que tinham relações com amigos meus e que estão entre as vítimas. De íntimo, eu não conhecia ninguém. Isso me afasta da tragédia? Nada nos afasta dessa tragédia, a não ser que não tenhamos compaixão. Essa palavra não me sai da cabeça. Um mundo individualista como o nosso precisa abraçar esse conceito, esse sentimento: compaixão. Se colocar no lugar do outro. Dói, mas é necessário.

Quem não tem filhos sofre. Quem tem se arrebenta. Não é algo que se explique. Nenhum racionalismo conforta. É um soco que nos tira o ar e nos faz lembrar o que tanto buscamos esquecer: que somos todos vulneráveis diante da fragilidade da vida.
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* Escritora. Cronista da ZH
Fonte: ZH on line, 28/01/2013
Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

O retorno da religião, mas cada vez mais deslocada

 
"Deus? Eu não tenho uma resposta, eu reconheço o mistério. 
Certamente, valorizar a nossa espiritualidade 
nos ajuda a superar os obstáculos": essa é 
uma das afirmações mais conhecidas 
e intensas de Frédéric Lenoir, diretor da 
Le Monde des Religions, que recebeu 
nessa sexta-feria o Prêmio Carlo Arturo Jemolo.

O filósofo francês abordou na lectio da Universidade de Turim a relação entre fenômeno religioso e dimensão civil, concentrando a atenção no conceito de laicidade, "entendida como a separação da esfera política da religiosa, elemento fundamental da modernidade ocidental, que tende a se internacionalizar em virtude da pretensão dos indivíduos à sua própria liberdade de consciência, religiosa e de expressão".

Quais são as formas da laicidade hoje? Lenoir distingue dois modelos: "O regime de separação que confina a religião à esfera privada, perfeitamente representado pela França, e o 'caso' Estados Unidos que legítima a expressão religiosa dentro da dimensão pública. Neste segundo modelo, estão envolvidas sociedades que têm uma identidade coletiva profundamente ligada a uma referência religiosa. E é a esse tipo de laicidade, em que a fé dominante continua sendo a marca identitária coletiva que os países árabes estão se orientando, teatro das revoluções democráticas".

Ao contrário, os países europeus decristianizados (Espanha, Alemanha, Holanda) se aproximam mais do modelo francês, no qual, explica Lenoir, "as reivindicações das religiões que exigem mais visibilidade ou influência são hostilizadas por uma parte significativa da população".
Eis a entrevista.

Você acha que é fundamentada a teoria da dessecularização, segundo a qual a religião voltaria a aplicar as suas próprias normas coletivas às comunidades?

A globalização determinou na sociedade ocidental um retorno à religião por razões de natureza espiritual, porque a realidade desorienta e o mundo é percebido como excessivamente materialista. A perda dos pontos de referência morais e a presença de uma mistura cultural dão medo e provocam o retorno a identidades fortes e defensivas.

Ao mesmo tempo, porém, cresce a afirmação das liberdades individuais que certificam a incapacidade das Igrejas, apesar de todos os seus esforços, de se oporem à banalização das relações sexuais fora do casamento e da contracepção, ao divórcio, à legalização do aborto e agora ao casamento homossexual, e a impossibilidade da religião de influenciar sobre a evolução dos costumes e sobre as leis civis.

No dia 13 de janeiro, foi realizada em Paris uma grande manifestação contra a ampliação dos direitos individuais e o reconhecimento civil das uniões homossexuais, à qual aderiram católicos, mas também judeus, muçulmanos e alguns representantes seculares.

É a demonstração da ruptura presente na sociedade francesa. O governo entendeu o sentido desse protesto e agora se apressa para aprovar uma lei que reconhece os mesmos direitos às pessoas homossexuais e heterossexuais em matéria de união civil, postergando ao futuro as questões mais espinhosas no tema da reprodução.

Mas o reconhecimento do casamento homossexual não põe em discussão a própria concepção de casal?

O que antes era era dado como óbvio na idéia de casal, ou seja, que um homem se casa com uma mulher para ter filhos, hoje não há mais um consenso unânime. Houve uma mudança de mentalidade, ponto de chegada da revolução dos direitos individuais iniciada na Europa do século XVIII, que levou a antepor a aspiração dos indivíduos às leis da natureza. As religiões, que se fundamentam todas na lei da natureza, só podem estar cada vez mais deslocadas.
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 A entrevista é de Luca Rolandi, publicada no jornal La Stampa, 25-01-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: IHU on line, 28/01/2013
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O lado positivo do tédio


ANITA PATIL*

 
Recentemente, o presidente Obama passou a impressão de ter pena dele mesmo. Dias antes de sua segunda posse, o clima de emoção e enlevo que permeou a primeira cerimônia não estava presente. Em vez disso, havia o cansaço ou talvez até mesmo o tédio de um homem só, conformado com a perspectiva de enfrentar mais politicagem e disputas mesquinhas.

"Agora que minhas filhas estão crescendo, elas não querem passar muito tempo comigo. Então eu provavelmente vou ter que ficar telefonando para uns e outros, procurando alguém para jogar baralho ou algo assim", falou Obama à imprensa.

Como escreveu Maureen Dowd no "New York Times", "ele pareceu dar a entender que o cargo pelo qual lutou tanto e pelo qual superou tantos obstáculos para conquistar é cansativo ou até mesmo tedioso".

Mas um pouco de tédio talvez seja bom e até recompensador. No romance de 2012 "How Should a Person Be?"[Como uma pessoa deve ser], de Sheila Heti, uma personagem diz: "Gosto de pessoas enfadonhas. Acho isso uma virtude. As pessoas deveriam ficar um pouco entediadas".

Cada vez mais, especialistas concordam com ela, dizendo que o tédio força nosso cérebro a sair por tangentes interessantes e a ser criativo. "O tédio é a maneira de o cérebro comunicar que você deveria estar fazendo outra coisa", disse ao "NYT" Gary Marcus, professor de psicologia na New York University.

"Mas o cérebro nem sempre sabe a coisa mais apropriada a fazer. Se você está entediado e utiliza essa energia para tocar violão ou cozinhar, isso o deixará feliz. Mas se assistir à TV, isso pode deixá-lo feliz a curto prazo, mas não a longo prazo."

Quando estamos entediados, podemos aprender como nos divertir e ganhar mais autocontrole.Somos obrigados a ser imaginativos com coisas mais simples.

Mas as crianças são estimuladas constantemente com videogames, engenhocas e televisão. Pesquisadores dizem que a adolescência é o período de tédio máximo, e a indústria de brinquedos vem tentando sofisticar seus produtos para garantir engajamento máximo dos consumidores. A Lego, criadora dos blocos plásticos de construção com poucas instruções, tem visto a popularidade de seus produtos crescer outra vez, mas os pais lamentam que os legos de hoje estejam ligados a franquias bilionárias como "Star Wars" e "Senhor dos Anéis". Hoje os blocos vêm com instruções detalhadas e histórias prontas, privando as crianças da necessidade de criar.

O professor de sociologia Clifford Nass, da Universidade Stanford, na Califórnia, disse ao "NYT" que algumas qualidades essenciais dos legos perderam-se quando eles tornaram-se semelhantes a outros brinquedos. "Agora você fica parado e a Lego diz 'deixe que a gente faça o trabalho'", comentou.

As crianças podem ficar irrequietas com o tédio e a frustração, mas pesquisas mostram que isso, na realidade, as ajuda a aprender mais e a reter mais informações do que as crianças que são obrigadas a ficar sentadas sem se mexerem, disse ao "NYT" o professor de neurociência Mark J. Fenske, da Universidade de Guelph, em Ontario. Ficar contorcendo-se e fazer rabiscos, coisas vistas como sinal de tédio, podem na realidade ajudar as pessoas a ficar fisicamente alertas, disse ele.

Também é importante desligar os aparelhos da tomada e curtir o silêncio. Como disse Sheila Heti ao "NYT": "Acho que o estímulo é sobrevalorizado. É preciso ser banal e maçante às vezes -reduzir o ritmo, dar um descanso à cabeça." 
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Vargas Llosa faz crítica pesada ao mercado cultural


Em festival literário em Cartagena, Nobel de Literatura critica 'entretenimento barato' e 'palhaçada nas artes' 


Escritor peruano foi celebrado como rei na cidade-emblema da vida e obra do ex-amigo Gabriel García Márquez 
Gigante de pedra, o Centro de Convenções de Cartagena, numa península na saída da cidade histórica, estava tão cheio pouco antes da conferência de Mario Vargas Llosa que parecia que ia afundar. 

Uma hora antes da palestra, atração maior do Hay Festival Cartagena 2013, a fila se estendia até uma enorme escultura de dois pescadores, do outro lado da rua. 

O escritor peruano tem seu sorriso reproduzido em painéis eletrônicos, cartazes e leques que sua editora distribuiu para combater os 34°C do noroeste colombiano. 

As portas do auditório Getsemaní são abertas e, com um senso de urgência Fla-Flu, o público toma suas mais de 1.400 poltronas púrpuras. Mario, como todos se referem a ele, ainda vai demorar a falar. 

Antes há o senhor de gravata roxa falando sobre saídas de emergência (são seis), a lânguida mestre de cerimônia anunciando em tom cartorial que o Governo do Estado de Bolívar considera "o maestro Mario um dos grandes escritores da história". E depois o governador (aplaudido) e o prefeito (vaiadíssimo). 

Em Vargas Llosa penduraram uma faixa como a de presidentes empossados e afivelaram uma comenda. Deram-lhe o título de Hóspede de Honra e as chaves da cidade, além de três diplomas em pergaminho. Há um novo rei nessa cidade-emblema da vida e obra do ex-amigo de Mario, don Gabriel García Márquez. 

Quando por fim ouvimos a voz encorpada do autor, ela traz velhas lembranças do Colégio Militar Leoncio Prado, em Lima. Não à toa. Nessas vivências forjou seu primeiro romance, "A Cidade e os Cachorros", do qual hoje se celebram (bastante) os 50 anos. 

"A literatura me levou ao colégio militar e o colégio militar me levou à literatura", sentencia o bom frasista Vargas Llosa, 76, acrescentando que, assustado com as veleidades poéticas pouco viris do filho, seu pai decidiu interná-lo ali para que "se curasse". 

"A estratégia deu errado. Nunca escrevi tanto como no colégio militar. Nunca li tanto. E ler foi a coisa mais importante que aprendi." 

Já nessa época, descobriu três autores-bússola para sua ficção: Flaubert, com a busca incansável pela palavra exata; Faulkner, que lhe apontou como manipular vozes narrativas; e Sartre, que lhe mostrou como as palavras promovem transformações. 

 "Foi a literatura que me levou 
ao colégio militar e o colégio militar 
que me levou à literatura. 
A estratégia de meu pai deu errado. 
Nunca escrevi tanto como no colégio militar. 
Nunca li tanto.
E ler foi a coisa mais importante 
que aprendi na vida"
MARIO VARGAS LOLOSA
escritor, prêmio Nobel de Literatura


TRANSFORMAÇÕES
 
Sobre elas, as transformações, o escritor se ocupou na segunda parte da conferencia. 

Vargas Llosa não anda contente com as mudanças. Em seu recente "A Civilização do Espetáculo" (a ser lançado neste ano no Brasil pela Alfaguara), trata do processo da "frivolização da cultura". 

"Nas artes, a palhaçada chegou a termos grotescos, a ponto de museus importantes pagarem centenas de milhões por um tubarão no formol", sentencia, raivosamente. 

A julgar pela fala de Vargas Llosa, o que parece faltar na cultura é justamente formol. 

"Nada gera conformismo como o entretenimento barato. Podem dizer que a cultura se democratizou, que deixou de ser elitista, mas é um processo que gera conformismo." Este processo, diz ele, influencia até o sexo. 

"A civilização e a cultura refinaram o ato sexual, lhe revestiram de uma teatralidade. O erotismo é a desanimalização do sexo. Com o desaparecimento de uma certa cultura, degrada-se o erotismo. Estamos nos animalizando." 

Antes de concluir, don Mario diz que terminou há pouco um romance: se chamará "O Herói Discreto" e se passará no Peru contemporâneo. "Oxalá este sobreviva 50 anos, como 'A Cidade e os Cachorros'", concluiu o rei do Hay, para então colher minutos ininterruptos de aplausos.


Herta Müller virá ao Brasil para conferência
 
 Foto da Internet: Herta Müller
DO ENVIADO ESPECIAL A CARTAGENA
  De todos os presentes no Hay Festival Cartagena, ninguém parece mais diametralmente distinta de Mario Vargas Llosa do que sua companheira de Prêmio Nobel de Literatura, Herta Müller.

Se em sua ruidosa conferência o peruano tratou de temas "king size", como a defesa da cultura, a decadência da sociedade e os rumos da literatura, a escritora romena-alemã se ocupou do que há de mais individual e intimista.

Numa palestra no teatro colonial Heredia, Müller, 59, falou longamente sobre sua infância num povoado camponês da Romênia e de como as plantas foram suas babás.

"Meu pais trabalhavam no campo, não tinha irmãos nem ninguém para cuidar de mim, então passava a minha infância no jardim. Ficava olhando as plantas, indiferentes a minha presença, e pensava: sou feita de outro material."

Com uma fala repleta de pausas e silêncios ("Fui criada no silêncio"), os olhos azuis e melancólicos muitas vezes voltados para o chão, contou que comia as plantas "para ver se elas me aceitavam como uma delas".

No reino vegetal encontrava também seus brinquedos. "Eu pensava: esta planta vai se casar com esta outra. E esta vai sair para tomar chá."

Naturalmente, também suspeitava delas. Se sua vida e literatura são tatuadas pela experiência de ter crescido sob a áspera ditadura romena de Nicolae Ceaucescu (1918-1989), no jardim da sua infância já matutava a respeito: "Quando morria alguém do partido, via os cravos cobrindo o corpo e pensava: estas flores não têm caráter".

Nesta época, e até o fim da adolescência, diz Müller, ela mal sabia o que era literatura. "Em minha terra quase não havia livros. Eu tinha o sonho de ser cabeleireira."

Na saída do debate, Müller, que, como Vargas Llosa, não deu entrevistas, revelou à Folha que virá ao Brasil ainda neste ano, no ciclo Fronteiras do Pensamento. Antes disso, chega sua literatura: dois livros da autora estão saindo no país, o romance "Fera d'Alma" (Globo Livros) e a novela "O Homem É um Grande Faisão no Mundo" (Companhia das Letras).

(CEM)
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Reportagem por  CASSIANO ELEK MACHADOENVIADA ESPECIAL A CARTAGENA

Lincoln, Obama e Bono Vox

Luiz Felipe Pondé *

Lincoln está mais para Bibi Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, do que para Barack Obama 

Obama não tem nada a ver com Lincoln. Ele quer se vender como o Lincoln negro, mas é festivo demais para sê-lo. Ele é um Carter que tem a sorte de ser negro. 

Obama é um presidente fraco, demagogo e oportunista. O Chávez dos EUA (apesar de que Chávez tem mais "cojones" do que Obama). Compará-lo a Lincoln é uma piada. 

Obama está mais para Bono Vox, que ganha muita grana com fotos de crianças da África, dizendo coisas "legais" para gente que tem uma visão de mundo de 12 anos de idade -coisa em voga hoje. 

Lincoln foi um presidente que levou os Estados Unidos a uma guerra que matou cerca de 2 milhões de americanos, uma "sangueira patriótica", como dizia o crítico Edmund Wilson. A Guerra de Secessão, o Norte contra o Sul, não foi uma disputa ao redor da abolição da escravidão nos EUA. 

O que estava em jogo não era a escravidão acima de tudo, era o Sul querer sair da União. Era o Sul querer ser livre para seguir seu modo de vida pré-moderno. 

Mesmo se os confederados (o Sul) tivessem aberto mão dos escravos, Lincoln os teria devastado, porque o que estava em questão era o controle político e militar do território e a expansão do modo moderno de economia e sociedade. 

Incrível como o pensamento público cai nesse papo de Lincoln "liberal". Ser abolicionista na época não era ser liberal; no Brasil, o conservador Joaquim Nabuco foi abolicionista. A "inteligência liberal" deve deixar Lênin, Stálin e Fidel, nada festivos, muito irritados. 

Lincoln está mais para Bibi Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, do que para Obama. Lincoln invadiria os territórios palestinos e os anexaria. 

A guerra foi o modo pelo qual o Norte, industrializado, capitalista, cético, materialista, portanto, moderno, invadiu e destruiu a civilização aristocrática, rural, tradicional, pré-moderna sulista. Os "ianques" (o Norte) conquistaram o Sul, assim como espanhóis, portugueses, ingleses e franceses conquistaram as Américas e a África. Os confederados queriam a independência. Lincoln disse "não, o Sul também é nosso", e levou os EUA à guerra que fez do país definitivamente uma nação moderna. 

Lincoln era um cabra macho. Os "ianques" massacraram o Sul, roubaram suas terras, mataram seus homens, violentaram suas mulheres. Soldado sempre foi para guerra para ganhar dinheiro e violentar as mulheres dos vencidos. Foi nessa guerra que inventaram a metralhadora, para matar mais gente de modo mais eficaz. 

Obama não seria capaz disso porque ele gosta de coquetel beneficente e falar para jovens sobre música afro-americana. Ele jamais tomaria uma decisão como essa, ele é fraco demais (paralisou os EUA no Oriente Médio), preocupado em agradar o marketing liberal americano ("liberal" é "progressista" nos EUA) e passar para a história como o cara mais legal da América. 

O máximo que ele faria seria levar os americanos para um show do Bono Vox. Se Obama não fosse o primeiro presidente negro da história, não teria sido reeleito, e depois de 48 horas do término do seu mandato seria esquecido na lata de lixo da história. 

Sua relação com Lincoln é a ideia de que ele seria um presidente a deixar uma América "liberal", assim como Lincoln. Mas Lincoln não era "liberal", ele não queria que os EUA perdessem território e grana. 

Acho importante que as pessoas sejam iguais perante a lei, pouco importa se são héteros ou homos. 

Minha crítica ao Obama não está em seu possível legado "progressista" (que não é dele, mas dos Kennedy) em termos políticos, mas sim a sua ideia errada de que os EUA devam seguir um modelo europeu centralizador. 

Os EUA são o que são porque nunca foram centralizadores, e o governo nunca esmagou o cidadão comum fazendo dele um retardado mental econômico e moral como no Estado de bem-estar social europeu. 

O problema com Obama é sua têmpera "liberal". Esta têmpera, cozida em campus acadêmico, gosta de festa, greves de estudantes e professores (ninguém está nem aí para esse tipo de greve porque a sociedade no seu dia-a-dia passa muito bem sem alunos e professores universitários) e boa vida. 
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* Filósofo. Prof. Universitário. Escritor. Colunista da Folha.
Fonte: Folha on line, 28/01/2013
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