segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A erosão das fontes de sentido

 Leonardo Boff*
Já foi dito, com verdade, que o  ser humano é devorado por duas fomes: de pão e de espiritualidade. A fome de pão é saciável. A fome de espiritualidade, no entanto, é insaciável. É feita de valores intangíveis e não materiais como a comunhão, a solidariedade, o amor, a compaixão, a abertura a tudo o que é digno e sagrado, o diálogo e a prece ao Criador.

Esses valores, secretamente ansiados pelos seres  humanos, não conhecem limites em seu crescimento. Há um apelo  infinito que lateja dentro de nós. Somente um infinito real pode nos fazer repousar. A excessiva centralização na acumulação e no desfrute de bens materiais acaba por produzir grande vazio e decepção. Foi o que concluiram analistas da universidade Lausane. Algo em nós grita por algo maior e mais humanizador.

É nesta dimensão que se coloca a questão do  sentido da vida. É uma necessidade humana encontrar um sentido coerente. O vazio e o absurdo produzem angústia e  sentimento de estar só e desenraizado. Ora,  a sociedade industrialista e consumista, montada sobre a razão funcional, colocou no centro o indivíduo e seus interesses particulares. Com isso, fragmentou a realidade, dissolveu qualquer cânon social, carnavalizou as coisas mais sagradas e ironizou ancestrais convições, chamadas de “grandes narrativas”, consideradas metafísicas essencialistas, próprias de sociedades   de outro tempo. Agora funciona o “anything goes”, o vale tudo dos vários tipos de racionalidade, de posturas e de leituras da realidade.  Criou-se o relativismo que afirma que nada conta definitivamente.

A isso se chamou de pós-modernidade que para mim representa a fase mais avançada e decadente da burguesia rica mundial. Não satisfeita de destruir o presente, quer destruir também o futuro. Ela se caracteriza por um completo descompromisso de transformação e de um professado desinteresse por uma humanidade melhor. Tal postura se traduz por uma ausência declarada de solidariedade para com o destino trágico de milhões que lutam por terem uma vida minimamente digna, de poderem morar melhor do que os animais, de terem acesso aos bens culturais que lhes enriqueçam a visão do mundo. Nenhuma cultura sobrevive sem uma narrativa coletiva que confira dignidade, coesão, ânimo e sentido à caminhada coletiva de um povo. A pós-modernidade nega irracionalmente esta dado originário.

No entanto, por todas as partes do mundo, as pessoas  estão elaborando significados para suas vidas e padecimentos, buscando  estrelas-guias que lhes dêem   um norte e lhes abram um porvir esperançador. Podemos viver sem fé, mas não sem esperança. Sem ela se esta está a um passo da violência, da banalização da morte e, no limite, do suicídio.

Ora as instâncias que historicamente representavam a construção permanente do sentido, entraram modernamente em erosão. Ninguém, nem o Papa, nem Sua Santidade o Dalai Lama podem dizer seguramente o que é bom ou mau para esta quadra planetária da história humana.

As filosofias e outros caminhos espirituais respondiam por esta demanda fundamental do humano. Mas elas, em grande parte, se fossilizaram e perderam o impulso criador. Sofisticam-se cada vez mais sobre o já conhecido, sempre de novo repensado e redito mas desfibradas de coragem para projetar novas visões, sonhos promissores e utopias mobilizadoras. Vivemos um “mal-estar da civilização”, semelhante àquele do ocaso do império romano, descrito por Santo Agostinho em “A Cidade de Deus”.  Nossos  “deuses”  como os deles já não são mais críveis. Os novos “deuses” que estão despontando não são vigorosos o bastante para serem reconhecidos, venerados e lentamente ganharem os altares.
Estas crises só são superadas quando se fizer uma nova experiência do Ser essencial de onde se deriva uma espiritualidade viva. Vejamos alguns lugares onde os “novos deuses” se anunciam  e uma nova percepção do Ser aparece.

Por mais críticas que lhe devemos fazer no seu aspecto econômico e político, a globalização é, antes de tudo, um fenômeno antropológico que se expressaria melhor por planetização: a humanidade se descobre uma espécie, habitando uma única Casa Comum, o planeta Terra, com um destino comum. Tal fenômeno vai exigir uma governança global para gestionar os problemas coletivos. É algo novo.

Os Fórums Sociais Mundiais que a partir do ano 2000 começaram a se realizar a partir de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, revelam uma particularíssima irrupção de sentido. Pela primeira vez na história moderna, os pobres do mundo inteiro, fazendo contraponto às reuniões dos super-ricos na cidade suiça de Davos, conseguiram acumular tanta força e capacidade de articulação que acabaram aos milhares se encontrando primeiro em Porto Alegre, depois em outras cidades do mundo, para apresentar suas experiência de resistência e de libertação, para trocar experiências de como  criam microalternativas ao  sistema de dominação imperante, como alimentam um sonho coletivo para gritar:um outro mundo é possível, um outro mundo é necessário. É algo novo.

Nas várias edições dos Fóruns Sociais Mundiais, em níveis regional e internacional, se notam os brotos do novo paradigma de humanidade, capaz de organizar de forma diferente a produção, o consumo, a preservação da natureza e a inclusão de toda a humanidade num projeto coletivo que garanta um futuro de vida e de esperança para todos. Dai a sua importância: do fundo do desamparo humano está emergindo uma fumaça que remete a um fogo interior do lixo ao qual foram condenadas as grandes maiorias da humandiade. Esse fogo é inapagável. Ele se transformará numa brasa e num clarão a iluminar um novo sentido para humanidade. Oxalá.
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*Leonardo Boff teólogo e filósofo é autor de Tempo de transcendência, Vozes 2010.
Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2013/02/25/a-erosao-das-fontes-de-sentido/
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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Cachimbo e a religião

Rubem Alves*
Ano de 1965. Estava em Princeton fazendo um doutorado, fugido dos militares e dos poderosos da Igreja Presbiteriana do Brasil. Eram farinha do mesmo saco.

A maioria dos meus colegas de doutoramento fumava cachimbo. O cachimbo tem um charme intelectual, combina com sabedoria e filosofia... Eu gostava do ar perfumado das salas onde tínhamos nossas discussões. Respirava fundo. A fumaça dos cachimbos me fazia lembrar as cozinhas mineiras de fogo e fumaça. Mas nunca me passou pela cabeça fumar cachimbo.

Minha relação com a Igreja Presbiteriana da qual eu era pastor estava podre. Ela se aliara aos militares e estava ansiosa por mostrar subserviência entregando aos carrascos seus filhos subversivos. Instalara-se uma caça às bruxas. Eu era uma das bruxas. Tive de fugir para não ser queimado.

Em Princeton eu estava seguro. Mas já nada mais tinha a ver com a igreja. Eu a desprezava, desprezava os seus líderes, desprezava seu pensamento.
Foi então que, passando em frente a uma tabacaria vi cachimbos na vitrine. Eles me seduziram.

Um homem fumando, um homem pensando... Tantos, nas formas mais variadas... Entrei e comprei um cachimbo com todos os apetrechos que o seguem. Há de se ter uma pequena caixa de ferramentas para fumar cachimbo... Lembro-me do nome do fumo: Balkan Sobranie, que vinha numa lata branca e tinha um perfume delicioso. O dr. Julius, que iria morrer de melanoma no romance A Cura de Schopenhauer, também fumava Balkan Sobranie. Ficamos irmãos. Eu, feito de carne e osso e ele feito de imaginação. Aí o ser e o não ser se reuniram e fumaram o fumo perfumado.

 

Mas o que é que um cachimbo tem a ver com religião?

Karl Barth, professor na Suíça, lá pelos idos dos anos cinquenta, era considerado o teólogo mais famoso do mundo. Pelo menos era o que escrevia o maior número de livros... Alguns pastores brasileiros, em excursão pela Europa, resolveram visita-lo, só pelo prazer de poder dizer: “Encontrei-me com a fera.”

O teólogo, desejando ser gentil com os visitantes, abriu uma caixa de charutos e os ofereceu. Os pastores estremeceram. Protestantes brasileiros são puros, não fumam, não têm vícios, fumo é coisa do demônio... Um deles, o porta-voz do grupo, declinou do oferecimento e explicou: “Nós, pastores protestantes do Brasil, não fumamos...” Barth sorriu, acendeu o seu charuto, fez rodinha de fumaça, deu uma baforada e disse com humor: “Não importa. No céu há lugar até para os que não fumam...”

A fachada do protestantismo brasileiro se resumia em abstinência dos “vícios” sociais. Assim, a despeito do fato de Lutero e Melanchton serem grandes apreciadores de cerveja; a despeito do fato de Calvino receber parte do seu salário de pastor em litros de vinho; a despeito de a Escócia, berço do presbiterianismo, ser também o berço dos maravilhosos uísques; a despeito do fato de grandes teólogos protestantes se deleitarem com charutos, cachimbos e cigarros; a despeito do fato de Lutero, nosso pai, ter feito uma declaração escandalosa aconselhando, numa carta a Mellanchton, ousadia no pecar — “Seja um pecador e peque ousadamente” (Pecca fortiter, sed crede fortius) —, por aqui foi decretado que os protestantes deveriam ser mais santos que o próprio Deus...

Comprar um cachimbo e fumar foi uma forma de dizer a todos que eu era um herege...
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* Escritor. Teólogo. Educador.
Fonte:  http://correio.rac.com.br/_conteudo/2013/02/24
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Sede de vingança

Diana Lichtenstein Corso*

Não mais nos reunimos em praça pública para ver a cabeça dos culpados rolar ou pender. Mas, sempre que possível, fazemos isso no noticiário e, principalmente, nos cinemas. Nos antigos filmes de caubói, um catártico tiroteio garantia a punição dos bandidos e a saída incólume do herói. Duros de matar, esses homens a cavalo foram logo substituídos por policiais igualmente solitários. Final feliz requer o chão coberto de corpos dos maus. Em Django Livre, como já fizera em Bastardos Inglórios e em Kill Bill, o diretor Quentin Tarantino arma seu roteiro a partir da nossa sede de vingança contra escravocratas, nazistas e machistas violentos.

Sou uma vingativa confessa, quero ver sangue. Mas fique tranquilo, no sentido figurado. Nada de pena de morte e torturas. Sei que a civilização começou quando alguém abriu mão da retaliação. Na vida real, a morte só deve ocorrer quando inevitável. Porém exorcizo minhas pendências na ficção. Da II Guerra, onde meus antepassados e parentes foram assassinados, gosto de lembrar que existiu o Levante do Gueto de Varsóvia. Como eles, se fosse para morrer, gostaria de levar pelo menos um nazista comigo. Na fantasia sempre somos mais corajosos.

A vingança, seja histórica ou pessoal, funciona de forma parecida com o fim litigioso de um relacionamento amoroso. Sejamos sinceros, não queremos que o outro seja feliz, lhe desejamos a morte lenta e o ostracismo. Todo mundo sabe que odiar é outra forma de amar, às avessas, que o oposto do amor é a indiferença, que o melhor troco é ignorar, genuinamente. Mas isso leva muito tempo para ser possível e mesmo assim sofremos recaídas. A dor deixa cicatrizes e elas são lembretes lavrados na pele, para sempre.

Os protagonistas dos filmes de Tarantino carregam essa insígnia, assim como os judeus tatuados, os escravos marcados, o mesmo ocorre com o maior vilão nazista em Bastardos. Há coisas que não são passíveis de um desfecho elegante, como seria a superação. Nem tudo se consegue esquecer, mesmo porque precisamos garantir que nunca se repita.

Questiona-se a cantilena de afrodescendentes e judeus que estão sempre na defesa e não perdoam os maus-tratos sofridos. Em parte, ela é necessária: preconceitos estão sempre ressurgindo, é preciso ficar em guarda. Porém, nem os descendentes de alemães nem os brancos da atualidade têm culpa pelos absurdos cometidos pelos seus antepassados. O que fazer, então, com os restos desse ódio vingativo? Tratá-los com o mesmo preconceito que se sofreu seria indigno, igualmente vergonhoso. Mas como conviver com as cicatrizes que latejam, a mágoa que espreita pronta para pular sobre nós, a autocomiseração, que pode não nos orgulhar, mas compõe nosso lado sombrio?

Depurá-lo no cinema é uma forma de eliminar o excesso. É uma sangria do despeito, da tristeza, que permite manter o fluxo da civilidade. Não somos, nem nunca seremos, totalmente civilizados. Potencialmente, somos tanto algozes quanto vítimas vingativas. Haja matinê!
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*Psicanalista
Fonte: Zero Hora on line, 24/02/2013
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O discurso dá lugar ao verso

 

Ao lançar um livro de poemas, o vice-presidente da República, Michel Temer, expõe face inspirada de políticos que escrevem

“Serei eu no espelho / Ou serei aquele / Que a minha mente exibe?”

Os versos que abrem o poema Engano explicam um pouco as motivações do vice-presidente Michel Temer ao surpreender os brasileiros com um livro de poesia. Ao demonstrar que por trás daquele terno bate um coração, Temer toma a frente de colegas que também trocam o discurso pelo verso nas horas vagas.

Com o lançamento de Anônima Intimidade (Topbooks, 2012), Temer admite o desejo de desvencilhar-se da imagem “metálica” de sua persona pública. Os poemas ­– via de regra, breves e de temas leves – são um aparato de centenas de guardanapos e outros papeizinhos escritos na ponte aérea Brasília-São Paulo. “Cada escrito representava o meu interior se exteriorizando. E me davam a sensação de retorno aos meus 15, 16 anos, época em que sonhava ser escritor. A vida encaminhou-me para outros destinos”, diz o vice-presidente no prefácio.

Temer deixa clara a barreira entre o político e o poeta. “Qualquer semelhança comigo ou com terceiros é mera coincidência”, avisa na página 20. Distinção semelhante faz a deputada federal Manuela D’Ávila (PC do B), que desde 2008 declama no blog Bola de Meia, Bola de Gude. O espaço começou como um híbrido de reflexões e poesia. Hoje, é praticamente dedicado a poemas, escritos diretamente no teclado do iPhone de Manuela e publicados em tempo real no blog. O que explica algumas letras trocadas e o horário aleatório das postagens.

– Três da tarde, entra um poema e o pessoal diz: ‘Renan lá na tribuna e a Manuela em casa fazendo poesia’. Não é nada disso. Escrevo entre um compromisso e outro, viajando, deitada na cama. A hora que for... – explica a deputada.

É um hábito desde os oito anos. O primeiro deles, O Quadro (e que Manuela não declama nem sob intimação de CPI), está emoldurado na casa da mãe. Os temas “não necessariamente” têm relação com o momento da vida da deputada. Fica para o leitor interpretar, por exemplo, se os versos de Fantasmas (“Exorcizo fantasmas / Choro 2012. / Os vejo sair / Escolhas erradas / Caminhos tortos”) têm alguma relação com as eleições municipais. Manuela alerta que seguidamente a associação é descabida:

– Tem gente que lê e acha que é sobre mim. Ou sobre quem está lendo. Já estou acostumada. E dou graças a Deus de nunca ter tido vontade de escrever nada erótico – se diverte Manuela.

A referência é aos poemas do governador Tarso Genro, que, poeta na juventude, fez a festa de comentaristas irônicos com versos impróprios para qualquer tribuna.

Para Paim, poesia mudou eleição

Se até aqui política e poesia não se misturam, é o senador Paulo Paim (PT) quem une as duas coisas. Idosos, deficientes físicos, líderes do movimento negro, salário mínimo... Estas e outras bandeiras deram vazão a mais de 20 livros de poesia, publicados por meio da cota do Senado e distribuídos gratuitamente a cada Feira do Livro de Porto Alegre. Constantemente, ele os declama no plenário.

– Este que tu tens na mão (Cumplicidade, de 2004), já declamei quase todo na tribuna. Os autos do Senado já publicaram quase toda a minha obra – brinca Paim.

Pode parecer exagero, mas, para Paim, um poema teve papel fundamental na sua reeleição em 2010. Certo dia, amuado pela pesquisa que o apontava em quarto lugar para as duas vagas em disputa, Paim puxou um papel e começou a versar Onde eu errei.

– ‘Será que eu errei ao lutar pelo salário mínimo?’ E fui listando aquilo tudo, indignado. Ao final, vi o resultado, me emocionei, e achei que deveria ler no horário eleitoral. Um dia, o Pedro Simon me disse: ‘Sabe onde tu viraste aquela eleição? Foi naquele programa!’ – conta Paim, que terminaria em primeiro lugar.
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Fonte: ZH on line, 24/02/2013

caue.fonseca@gruporbs.com.brCAUE FONSECA | Brasília
TE LEVO COMIGO
(de Manuela D’Ávila)
Te levo comigo,
Em silêncios maiores do que os habituais,
No perfume que deixei de usar,
no salto a inaugurar.
Te levo comigo,
Na sensação de que não basta fazer tudo.
Se há quem prefira o nada.
Te levo comigo
Na coragem
saltei de paraquedas:
de minha vida para o chão,
caí de cara.
Te levo comigo na cicatriz.
COMENTÁRIO DO PROFESSOR FISCHER
“Parece um texto confessional, de desabafo, sem maior elaboração. Lembra aqueles poemas que qualquer um escreve aos 15 anos, com a mesma verdade e a mesma intranscendência do poema de 15 anos de qualquer um.”
IDOSO
(de Paulo Paim)
O idoso vive no futuro de cada um de nós
O idoso sorri, brinca, chora, respira e adormece,
e, tal qual a natureza, desperta.
O idoso sonha em cada novo amanhecer.
Sonha com os frutos que plantou
e com a realidade que vai colher.
Sonha com o que pode ainda realizar
pois está vivo, e a cada novo sol
há um ideal a comunicar,
uma experiência a espalhar.
COMENTÁRIO DO PROFESSOR FISCHER
“Faz crônica de tipo pensamentoso, edificante, moralista. As imagens são não apenas gastas, mas mecânicas mesmo. E o poema não faz qualquer força para tirar a linguagem de seus encaixes triviais, cotidianos.”
ENGANO
(de Michel Temer)
Serei eu no espelho
Ou serei aquele
Que a minha mente exibe?
Haverá coincidência
Entre a imagem no espelho
E eu próprio?
Na foto,
A desconformidade.
Não sou, nela,
Aquele que vejo
No espelho.
COMENTÁRIO DO PROFESSOR FISCHER
“O tema aqui é ‘mal secreto’ que os parnasianos tanto abordaram, dando um depoimento da hipocrisia burguesa e tal. Mas sem força, sem capacidade de mover o leitor minimamente, porque não tem uma faísca sequer de linguagem viva.”
O avaliador
Convidado por ZH, o professor de Literatura da UFRGS Luís Augusto Fischer avaliou poemas dos três políticos sem saber quem eles eram. Fischer é categórico:
– A julgar pela amostra, diria que, com toda a certeza, eu não teria o menor interesse de ler um livro desses poetas.
No entanto, faz questão de salientar:
– Não quer dizer que os poetas sejam más pessoas, ou que pessoalmente não possam ter atrativos intelectuais, mas sim que esses poemas são formas muito singelas, incapazes de ultrapassar a barreira do desabafo, legítimo pessoalmente, mas irrelevante socialmente.

Afinados

Martha Medeiros*

Uma vez, em uma conversa entre amigos, alguém comentou que jamais conseguiria casar com quem ouvisse Celine Dion. Casar? Eu não conseguiria pegar uma carona com alguém que ouvisse Celine Dion, retruquei, exagerando. E foi nesse tom de brincadeira que continuamos falando sobre nossos eu nunca poderia me relacionar com alguém que....

Puro blábláblá, pois, na hora em que a paixão se apresenta, nossos gostos se adaptam rapidinho, e a gente se pega dançando forró quando queria mesmo era estar num show do Pearl Jam. Ainda assim, essa questão de ter afinidade musical não é absolutamente tola. Gostar de gêneros musicais diferentes não impede um relacionamento, mas, quando há compatibilidade, dois amantes evoluem e transformam-se em dois cúmplices.

Tudo porque a música não é uma forma de ocupar o silêncio, simplesmente. Ela provoca uma experiência física e sensorial. Ela vai buscar você onde você se esconde. E compartilhar isso com quem amamos é roçar no sublime.

Se aquilo que gosto de ouvir estimula as mesmas sensações em quem convive comigo, cria-se um diálogo sem palavras, à prova de mal-entendidos. A música invade e captura o que há de melhor em nós, nossa essência primeira, a que não foi corrompida por racionalizações. E essa sensibilidade refinada, ao ser despertada simultaneamente em um homem e em uma mulher (ou numa plateia inteira, no caso de um espetáculo) gera uma comunhão tão rara quanto mágica.

Muitos filmes já demonstraram como a música pode ser um fator de aproximação entre casais. Para citar dois que concorrem ao Oscar neste domingo, no belíssimo Amor, os protagonistas idosos não eram apaixonados apenas um pelo outro, mas igualmente por música erudita, o que reforçava o laço. Em O Lado Bom da Vida, duas vítimas de perturbações psíquicas encontram uma forma de serenizar sua ansiedade descontrolada através da dança, fazendo com que seus corpos obedeçam a um ritmo, e sua alma também. A música facilita que identifiquemos um “igual”, ou alguém razoavelmente parecido conosco. E ajuda a fazer esse encontro perdurar.

Não que tenha sido descoberta a fórmula do sucesso das relações – elas se desfazem, mesmo quando há gostos afins. Mas, entre os momentos que ficarão na lembrança, estarão aqueles em que ambos sabiam com certeza o que o outro estava sentindo quando conectados pela música, uma música que, às vezes, nem estava sendo tocada, mas escutada por dentro, como na hora exata do parto do filho, em que se ouve internamente uma orquestra, ou na hora da decolagem de um voo, quando se ouve internamente uma ópera, ou durante o primeiro beijo, quando se ouve internamente... sinos? Humm, eu escolheria uma trilha sonora menos óbvia, mais inspiradora.

Coisa mais triste quando, ao recordar um amor, a gente tenta lembrar: qual era a nossa música? E não havia.
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* Escritora. Colunista da ZH
Fonte: ZH on line, 24/02/2013

Quarteto

Verissimo*

Senhoras e senhores, obrigado. Antes de mais nada quero pedir desculpas pelo atraso. Tivemos um pequeno problema nos bastidores, um desentendimento, e o resultado é o que veem aqui no palco, um quarteto de cordas reduzido a dois. Nosso violoncelista não concordou com a mudança do programa de hoje, parte do meu projeto de popularização da música de câmara, com a substituição do quarteto número 8 em si menor, opus 59 de Beethoven por um arranjo para cordas de Ai Se Eu Te Pego e se recusou a entrar no palco. O mesmo aconteceu com nosso segundo violino, que também não concordou com a mudança, e está neste momento a caminho de um hospital. Respeito democraticamente o direito de todos de discordarem de mim, apesar de ser o líder do grupo, mas não admito que insultem a minha mãe. No fundo, o que se discute é a adaptação da música erudita aos tempos modernos, já que o público para os clássicos tem diminuído assustadoramente e é preciso reagir. Os acontecimentos desta noite são apenas o, digamos assim, ápice - a erupção do furúnculo, se me permitem uma imagem nojenta - de uma situação que se prolonga desde que eu expus ao grupo meu plano para a renovação do nosso repertório e das nossas apresentações. Já tinha havido resistência à minha ideia de entrarmos os quatro no palco de bicicleta, com máscaras de macacos. Ninguém se manifestou então, mas sei que houve descontentamento e que começou uma campanha para me desmoralizar, inclusive me chamando de louco pelas costas. Houve até o acidente do violoncelo que caiu na minha cabeça, que o violoncelista jurou ter sido mesmo um acidente, o que não explica o fato de ele estar segurando seu instrumento como um tacape. Também foi mal recebido meu convite para a Ivete Sangalo dar uma canja conosco, tocando o instrumento que quisesse no quarteto numero 14 em sol maior de Mozart, desde que mostrasse as pernas. Mas não tínhamos tido um motim até esta noite. De certa forma, foi bom que isto acontecesse. Pelo menos as coisas agora estão às claras, as posições estão definidas e estamos livres de mesquinharias como a de espalharem o boato de que eu toco com playback enquanto os outros três tocam ao vivo, e minha suposta opção sexual pelo bestialismo, com preferência por galinhas. Também acabam as frases desaforadas e as ameaças escritas nas minhas partituras. Quero agradecer de público ao nosso violista - palmas para ele, por favor - que permaneceu fiel e está aqui no palco comigo. Sua lealdade se deve ao seu bom caráter e ao fato de que com a ausência dos outros a renda do concerto desta noite será dividida por dois e não por quatro, como acontece normalmente, e ele estar comprando uma lavadora.

Enfim, senhoras e senhores, obrigado pela sua paciência. As outras modificações no programa são menores. O Dvorak será tocado com ritmo de axé e reservamos uma surpresa para o final, quando receberemos no palco Ernani, o cachorro cantor, que se juntará a nós no Vivaldi. E vocês devem ter notado que tanto eu quanto o violista estamos nus, o que acrescenta um toque naturalista à nossa apresentação, em contraste com o costumeiro formalismo dos quartetos de cordas, que ninguém aguenta mais.

Então, vamos lá. Ai Se Eu Te Pego.
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* Luis Fernando Veríssimo. Escritor. Colunista do Estadão e ZH
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,quarteto,1000837,0.htm 24/02/2013
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A partícula profeta do apocalipse

Marcelo Gleiser*
 

O bóson de Higgs, às vezes chamado de 'partícula de Deus', tem o destino do Universo em suas mãos 
Como se já não bastasse a confusão causada quando chamam o bóson de Higgs de "partícula de Deus", eis que, recentemente, a mesmíssima partícula voltou à berlinda, agora como profeta do fim.

Isso mesmo, leitores, o destino do Universo está nas mãos dessa partícula ou, mais precisamente, no valor de sua massa.

Tudo começa na cozinha, que é um excelente laboratório. Como sabemos, as propriedades de uma substância, como a água, dependem de sua temperatura: muito frio, a água congela; muito quente, evapora. Essas mudanças são conhecidas como transições de fase.

Surpreendentemente, o próprio Universo -ou a matéria nele-passou por ao menos uma ou duas transições de fase. E talvez possa passar por mais uma.

A história cósmica começa no Big Bang, que marca o início do tempo. Logo após o "bang", o espaço começou a crescer feito um balão, e a matéria nele se resfriou.

Voltando à cozinha, vemos que a expansão do Universo funciona como uma geladeira, fazendo a temperatura baixar. Será que a matéria cósmica também pode passar por uma transição de fase?

Sabemos que sim. Logo no início, a temperatura era tal que as partículas não tinham massa. A única que tinha era o Higgs, mas ele não interagia com as outras partículas.

Quando a temperatura foi baixando, o Higgs passou a interagir com as partículas com maior intensidade, dando-lhes massa. Esse processo é uma transição de fase que ocorreu quando o Cosmo tinha um trilionésimo de segundo.

Em julho do ano passado, cientistas do laboratório europeu de partículas Cern (onde estarei durante toda a semana -podem esperar algo para domingo que vem) descobriram uma partícula com toda a cara do Higgs. Ainda não temos certeza se é o mesmo Higgs que dá massa para todo mundo, mas tudo indica que sim. O problema é a massa dele, que é entre 124 e 126 vezes maior do que a do próton.

Dependendo da massa do Higgs, o Universo pode passar por outra transição de fase, como a água, que pode ir do estado gasoso ao líquido e do líquido ao sólido.

Se isso for verdade, estaríamos na fase líquida e poderíamos cair na fase sólida. Quando muda a fase -por meio do surgimento de bolhas da fase nova na fase antiga-, muda toda a física e não sobra ninguém para contar essa história. Seria o fim do Universo, ao menos como o conhecemos hoje.

Antes de causar pânico total, algumas boas novas. Os cálculos indicando que a massa do Higgs é próxima da que causa a instabilidade baseiam-se na suposição de que nenhuma nova física (outras partículas ou forças) aparece até as energias vigentes perto do Big Bang. Possível, mas pouco provável. Também dependem de valores muito precisos das massas de certas partículas, que ainda contêm erros. Os mesmos cálculos indicam que o tempo para que o Universo mude para a nova fase é de bilhões de anos.

Resumindo, a possibilidade de transição existe, mas nada é conclusivo e, se ocorrer, deve demorar.

Na semana que vem, falarei com os físicos responsáveis pelo cálculo para ver se têm algo novo. Talvez eu mesmo adicione algo à conta, quem sabe ajudando a salvar o Universo. 
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A Igreja-instituição como “casta meretriz”

Leonardo Boff*
 
          Quem acompanhou o noticiário dos últimos dias acerca dos escândalos dentro do Vaticano, trazidos ao conhecimento pelos jornais italianos “La Repubblica” e o “La Stampa”, referindo um relatório com trezentas páginas, elaborado por três Cardeais provectos sobre o estado da cúria vaticana deve, naturalmente, ter ficado estarrecido. Posso imaginar nossos irmãos e irmãs piedosos que, fruto de um tipo de catequese exaltatória do Papa como “o doce Cristo na Terra” devam estar sofrendo muito, pois amam o justo, o verdadeiro e o transparente e jamais quereriam ligar sua figura a notórios malfeitos de seus assistentes e cooperadores.

         O conteúdo gravíssimo destes relatórios reforçaram, no meu entender, a vontade do Papa de renunciar. Ai se comprovava uma atmosfera de promiscuidade, de luta de poder entre “monsignori”, de uma rede de homossexualismo gay dentro do Vaticano e desvio de dinheiro do Banco do Vaticano. Como se não bastassem os crimes de pedofilia em tantas dioceses que desmoralizaram profundamente a instituição-Igreja.

         Quem conhece um pouco a história da Igreja – e nós profissionais da área temos  que estuda-la detalhadamente- não se escandaliza. Houve épocas de verdadeiro descalabro do Pontificado com Papas adúlteros, assassinos e vendilhões. A partir do Papa Formoso (891-896) até o Papa Silvestre (999-1003) se instaurou segundo o grande historiador Card. Barônio a “era pornocrática” da alta hierarquia da Igreja. Poucos Papas escapavam de serem depostos ou assassinados. Sergio III (904-911) assassinou seus dois predecessores, o Papa Cristóvão e Leão V.

         A grande reviravolta na Igreja como um todo, aconteceu, com consequências para toda a história ulterior, com o Papa Gregório VII em 1077. Para defender seus direitos e a liberdade da instituição-Igreja contra reis e príncipes que a manipulavam, publicou um documento que leva este significativo título “Dictatus Papae” que literalmente traduzido significa “a Ditadura do Papa”. Por este documento, ele assumia todos os poderes, podendo julgar a todos sem ser julgado por ninguém. O grande historiador das idéias eclesiológicas Jean-Yves Congar, dominicano, considera a maior revolução acontecida na Igreja. De uma Igreja-comunidade passou a ser uma instituição-sociedade monárquica e absolutista, organizada de forma piramidal e que vem até os dias atuais

         Efetivamente, o cânon 331 do atual Direito Canônico se liga a esta compreensão, atribuindo ao Papa poderes que, na verdade, não caberiam a nenhum mortal, senão somente a Deus: ”Em virtude de seu ofício, o Papa tem o poder ordinário, supremo, pleno, imediato, universal” e em alguns casos precisos, “infalível”.

         Esse eminente teólogo, tomando a minha defesa face ao processo doutrinário movido pelo Card. Joseph Ratzinger em razão do livro “Igreja:carisma e poder” escreveu um artigo no “La Croix”(8/9/1984) sobre o “O carisma do poder central”. Ai escreve:”O carisma do poder central é não ter nenhuma dúvida. Ora, não ter nenhuma dúvida sobre si mesmo é, a um tempo, magnífico e terrível. É magnífico porque o carisma do centro consiste precisamente em permanecer firme quando tudo ao redor vacila. E é terrível porque em Roma estão homens que tem limites, limites em sua inteligência, limites em seu vocabulário, limites em suas referencias, limites no seu ângulo de visão”. E eu acrescentaria ainda limites em sua ética e moral.

         Sempre se diz que a Igreja é “santa e pecadora” e deve ser “sempre reformada”. Mas não é o que ocorreu durante séculos nem após o explícito desejo do Concílio Vaticano II e do atual Papa Bento XVI. A instituição mais velha do Ocidente incorporou privilégios, hábitos, costumes políticos palacianos e principescos, de resistência e de oposição que praticamente impediu ou distorceu todas as tentativas de reforma.

         Só que desta vez se chegou a um ponto de altíssima desmoralização, com práticas até criminosa que não podem mais ser negadas e que demandam mudanças fundamentais no aparelho de governo da Igreja. Caso contrário, este tipo de institucionalidade tristemente envelhecida e crepuscular definhará até entrar em ocaso. Os atuais escândalos sempre houveram na cúria vaticana apenas que não havia um providencial Vatileaks para  trazê-los a público e indignar o Papa e a maioria dos cristãos.

         Meu sentimento do mundo me diz que  estas perversidades no espaço do sagrado e no centro de referencia para toda a cristandade – o Papado – (onde deveria primar a virtude e até a santidade) são consequência desta centralização absolutista do poder papal.  Ele faz de todos vassalos, submissos  e ávidos por estarem fisicamente perto do portador do supremo poder, o Papa. Um poder absoluto, por sua natureza, limita e até nega a liberdade dos outros, favorece a criação de grupos de anti-poder, capelinhas de burocratas do sagrado contra outras, pratica  largamente a simonía que é compra e venda de vantagens, promove  adulações e destrói os mecanismos da transparência. No fundo, todos desconfiam de todos. E cada qual procura a satisfação pessoal da forma que melhor pode. Por isso, sempre foi problemática a observância do celibato dentro da cúria vaticana, como se está revelando agora com a existência de uma verdadeira rede de prostituição gay.

         Enquanto esse poder não se descentralizar e  não outorgar mais participação de todos os estratos do povo de Deus, homens e mulheres, na condução dos caminhos da Igreja o tumor causador desta enfermidade perdurará. Diz-se que Bento XVI passará a todos os Cardeais o referido relatório para cada um saber que problemas irá enfrentar caso seja eleito Papa. E a urgência que terá de introduzir radicais transformações. Desde o tempo da Reforma que se ouve o grito: ”reforma na Cabeça e nos membros”. Porque nunca aconteceu, surgiu  a Reforma como gesto desesperado dos reformadores de fazerem por própria conta tal empreendimento.

         Para ilustração dos cristãos e dos interessados em assuntos eclesiásticos, voltemos à questão dos escândalos. A intenção é desdramatizá-los, permitir que se tenha uma noção menos idealista e, por vezes, idolátrica da hierarquia e da figura do Papa e libertar a liberdade para a qual Cristo nos chamou (Galatas 5,1). Nisso não vai nenhum gosto pelo Negativo nem vontade de acrescentar desmoralização sobre desmoralização. O cristão tem que ser adulto, não pode se deixar infantilizar nem permitir que lhe neguem conhecimentos em teologia e em história para dar-se conta de quão humana e demasiadamente humana pode ser a instituição que nos vem dos Apóstolos.

         Há uma longa tradição teológica que se refere à Igreja como casta meretriz,  tema abordado detalhadamente por um grande teólogo, amigo do atual Papa, Hans Urs von Balthasar (ver em Sponsa Verbi,  Einsiedeln 1971, 203-305). Em várias ocasiões o teólogo J. Ratzinger se reportou a esta denominação.

A Igreja é uma meretriz que toda noite se entrega à prostituição; é casta  porque Cristo, cada manhã se compadece dela, a lava e a ama.

          O  habitus meretrius da instituição, o vício do meretrício, foi duramente criticado pelos Santos Padres da Igreja como Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Jerônimo e outros. São Pedro Damião chega a chamar o referido Gregório VII de “Santo Satanás” (D. Romag, Compêndio da história da Igreja, vol 2, Petrópolis 1950,p.112). Essa denominação dura nos remete àquela de Cristo dirigida a Pedro. Por causa de sua profissão de fé o chama “de pedra”mas por causa de sua pouca fé e de não entender os desígnios de Deus o qualificou de “Satanás”(Evangelho de Mateus 16,23). São Paulo parece um moderno falando quando diz a seus opositores com fúria: ”oxalá sejam castrados todos os que vos perturbam”(Gálatas 5.12).

         Há portanto, lugar para a profecia na Igreja e para a denúncias dos malfeitos que podem ocorrer no meio eclesiástico e também no meio dos fiéis.

         Vou referir outro exemplo tirado de um santo querido da maioria dos católicos brasileiros, por sua candura e bondade: Santo Antônio de Pádua. Em seus sermões, famosos na época, não se mostra  nada doce e gentil. Fez vigorosa crítica aos prelados devassos de seu tempo. Diz ele: “os bispos são cachorros sem nenhuma vergonha, porque sua frente tem cara de meretriz e por isso mesmo não querem criar vergonha”(uso a edição crítica em latim publicada em Lisboa em 2 vol em 1895). Isto foi proferido no sermão do quarto domingo depois de Pentecostes ( p. 278). De outra vez,  chama os prelados de “macacos no telhado, presidindo dai o povo de Deus”(op cit  p. 348).  E continua:” o bispo da Igreja é um escravo que pretende reinar, príncipe iniquo, leão que ruge, urso faminto de rapina que espolia o povo pobre”(p.348). Por fim na festa de São Pedro ergue a voz e denuncia:”Veja que Cristo disse três vezes: apascenta e nenhuma vez tosquia e ordenha… Ai daquele que não apascenta nenhuma vez e tosquia e ordena três ou mais vezes…ele é um dragão ao lado da arca do Senhor que não possui mais que aparência e não a verdade”(vol. 2, 918).

         O teólogo Joseph Ratzinger explica o sentido deste tipo de denúncias proféticas:” O sentido da profecia reside, na verdade, menos em algumas predições do que no protesto profético: protesto contra a auto-satisfação das instituições, auto-satisfação que substitui a moral pelo rito e a conversão pelas cerimônias” (Das neue Volk Gottes,  Düsseldorf 1969, p. 250, existe tradução português).

         Ratzinger critica com ênfase a separação que fizemos com referencia à figura de Pedro: antes da Páscoa, o traidor; depois de Pentecostes, o fiel. “Pedro continua vivendo esta tensão do antes e do depois; ele continua sendo as duas coisas: a pedra e o escândalo… Não aconteceu, ao largo de toda a história da Igreja, que o Papa, simultaneamente, foi o sucessor de Pedro, a “pedra” e o “escândalo”(p. 259)?

         Aonde queremos chegar com tudo isso? Queremos chegar ao reconhecimento de que a igreja- instituição de papas, bispos e padres, é feita de homens que podem trair, negar e fazer do poder religioso negócio e instrumento de autosatisfação. Tal reconhecimento é terapêutico, pois nos cura de toda uma ideologia idolátrica ao redor da figura do Papa, tido como praticamente infalível. Isso é visível em setores conservadores e fundamentalista de movimentos católicos leigos e também de grupos  de padres. Em alguns vigora uma verdadeira papolatria que Bento XVI procurou sempre evitar.

         A crise atual da Igreja  provocou a renúncia de um Papa que se deu conta de que não tinha mais o vigor necessário para sanar escândalos de tal gravidade. “Jogou a toalha” com humildade. Que outro mais jovem venha a assuma a tarefa árdua e dura de limpar a corrupção da cúria romana e do universo dos pedófilos, eventualmente puna, deponha e envie alguns mais renitentes para algum convento para fazer penitência e se emendar de vida.
         Só quem ama a Igreja pode fazer-lhe as críticas que lhe fizemos, citando textos de autoridade clássicas do passado. Quem deixou de amar a pessoa um dia amada, se torna indiferente à sua vida e destino. Nós nos interessamos à semelhança do amigo e  de irmão de tribulação Hans Küng, (foi condenado pela ex-Inquisição) talvez um dos teólogos  que mais ama a Igreja e por isso a critica.

         Não queremos que cristãos cultivem este sentimento de  de descaso e de indiferença. Por piores que tenham sido seus erros e equívocos históricos, a instituição-Igreja guarda a memória sagrada de Jesus e a gramática dos evangelhos. Ela prega libertação, sabendo que geralmente são outros que libertam e não ela.

          Mesmo assim vale estar dentro dela, como estavam São Francisco, Dom Helder Câmara, João XXIII e os notáveis teólogos que ajudaram a fazer o Concílio Vaticano II e que antes haviam sido todos condenados pela ex-Inquisição, como De Lubac, Chenu, Congar,  Rahner e outros. Cumpre  ajuda-la a sair deste embaraço, alimentando-nos mais do sonho de Jesus de um Reino de justiça, de paz e de reconciliação com Deu e do seguimento de sua causa e destino do que de simples e justificada indignação que pode cair facilmente no farisaísmo e no moralismo.
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*Leonardo Boff. Teólogo. Escritor.
Mais reflexões desta ordem se encontram no meu Igreja: carisma e poder  (Record 2005) especialmente no Apêndice com todas a atas do processo havido no interior da ex-Inquisição em 1984.

A blogueira vinda do Céu

Blogueira

Paulo Ghiraldelli Jr. *

Uma pessoa inteligente e bem informada sabe que o socialismo ou, digamos, os regimes que se colocaram como comunistas, nunca conseguiram resolver um problema crucial da “sociedade sem mercado”: a circulação e distribuição dos bens de consumo e, por isso mesmo, o atraso tecnológico. Além desse defeito, o socialismo nunca conseguiu devolver as liberdades individuais tomadas de todos no período revolucionário. Onde e quando fez essa devolução, as pessoas se organizaram para voltar a viver sem o socialismo. Ora, se é assim, o que faz uma pessoa inteligente e bem informada, tendo consciência disso tudo, ainda poder dizer que é socialista, no sentido do que defendiam os partidos comunistas, mesmo aqueles que se dispuseram a “romper com Moscou”?

A resposta a essa pergunta é uma só: as pessoas inteligentes e bem informadas não querem de modo algum o comunismo, mas se ainda sobrou gente bem informado e inteligente que o deseja, é muito provável que sejam leitores de livros de filosofia. Trata-se daquela pessoa que acredita realmente que o objetivo que todo homem tem na vida, que é o de ser feliz, só faz sentido se o homem puder ver tudo sem qualquer tipo de véu. O homem feliz seria o homem não enganado, aquele que tivesse só um Deus, Nelson Rodrigues, e apenas um mandamento, ver “a vida como ela é”.

Esse homem seria aquele que saiu da Caverna e nunca mais viu sombras, só realidade. Estaria livre de ser ludibriado por qualquer traço de ideologia. Isso não por um dom especial dele próprio, ou seja, por capacidade crítica ou por uma vocação à autoiluminação, mas pelas condições sociais novas: uma sociedade sem mercado seria uma sociedade incapaz de produzir ideologia, uma vez que  a ideologia, por definição do marxismo, são os resultados da reificação e fetichismo (no mercado, a mercadoria assume o papel de sujeito e submete o homem, que vira objeto – o morto toma o lugar do vivo), próprios do mundo organizado nas regras da  vida da mercadoria. O homem autenticamente fora da Caverna seria aquele que andaria pela cidade sem se defrontar com o que chamamos de rua de comércio ou shoppings. A liberdade em relação a esse panorama material do capitalismo seria o correlato material da liberdade diante dos fenômenos sociais, mas de cunho metafísico, produtores de ideologia. Nada tomaria o lugar do homem como sujeito. Nada morto se poria no lugar do vivo. As relações entre o homem e a natureza e entre o homem e o homem se apresentariam em um grau de realismo de tal ordem que os processos de conhecimento se dariam de maneira muito facilitada. A “vida como ela é” se apresentaria a qualquer um, mesmo ao mais tolo dos homens.

Conhecer o mundo “como ele é” é tão importante para aquele comunista que se tornou comunista lendo filosofia que ele admite trocar a vida facilitada por bens de consumo e por liberdade individual pela vida que não se esconde como vida. Para esse homem, conhecer é tudo. Conhecer sem barreiras, sem enganos, sem que sombras na parede possam ser tomadas pelo real é, para esse homem, a felicidade. Esse ideal intelectualista e cognitivista é o ideal de felicidade do comunista leitor de filosofia. Por tal coisa, ele sacrifica tudo aquilo que durante milênios se colocou como passo para a felicidade. Diante desse ideal, ele fica revoltado com o pobre que desiste do comunismo porque a sociedade de mercado lhe deu uma vida um pouco melhor.

Pessoas assim são obcecadas pela verdade. Não passa pela cabeça delas que o erro não seja a ilusão. Não passa pela cabeça delas que a ilusão possa ser uma falsa ilusão.  Elas realmente estão convencidas do dogma metafísico marxista de que a sociedade de mercado envolve todos nós na inversão que é o fetichismo-reificação, a ideologia, porque desde sempre elas acreditaram que não há como não estarmos em uma Caverna platônica, vendo sombras ao invés do real.

É difícil para um leitor do manual Convite à filosofia, da Marilena Chauí, se ele gosta do livro e acha que a filosofia é aquilo mesmo definido pela professora, não se envolver com a diretriz que diz que cabe à filosofia nos tirar da Caverna. Ele se torna parecido com aquele professor de filosofia que toma sua disciplina como coadjuvante da redenção social, que no limite deve antes de trazer bem estar deixar as pessoas sem véus nos olhos. A Caverna moderna é a sociedade de mercado e então a redenção social deverá nos tirar de tal sociedade. Desse modo, o comunismo se tornaria ele próprio o realizador do ideal da filosofia. Não estou dizendo que Marilena Chauí reduz seu manual a isso, mas sua definição de filosofia implica nesse tipo de crença. Uma pessoa assim, seguidora do manual da professora Chauí, não dá a mínima para a social democracia, pois qualquer benefício social, uma vez dentro do capitalismo, não nos tirará do capitalismo, nos manterá ainda mais presos à “sociedade de mercado”. A filosofia é, então, para tal pessoa, um apetrecho de coadjuvante da revolução. A filosofia assim tomada clareia parte da vida, mas “a vida como ela é”, sem ideologia, virá quando organizarmos a produção e a circulação de mercadorias de outro modo, de um modo que nunca mais tenhamos shoppings porque eles são o modo material de clímax do modo espiritual chamado capitalismo.

Uma pessoa que toma a filosofia como sendo o elemento de detecção da equação Caverna = Mercado + Burguesia, e que deverá então, agir em favor da sociedade sem mercado, não pode nem ouvir falar em social democracia. Esta, produzindo bem estar, não seria o socialismo, mas o anti-socialismo. Pessoas assim terminam por se tornar dogmáticas, pois não têm coragem de admitir que a “sociedade sem mercado” fracassou. Seria como admitir que o Céu fracassou. Já imaginaram esse cristão?  Um cristão que, em uma manhã, recebe a notícia de que Jesus não está à direita do Pai e não virá julgar os vivos e os mortos. Essa pessoa envolvida com o Céu, está inebriada com a ideologia do desaparecimento da ideologia. E ela seguirá achando que a felicidade é conseguir viver no comunismo e que filosofia é o que a Marilena Chauí diz que é. Esse tipo de pessoa poderá então aparecer no aeroporto de chegada da blogueira cubana, para protestar. Pois o temor dela é que uma tal garota lhe diga o que todos disseram e vem dizendo há tempo: o Céu fracassou. Mesmo sendo inteligente e bem informada, essa pessoa, por tudo isso que eu disse até aqui, pode mostrar traços de senilidade e esclerose.

Por um azar você está no aeroporto de chegada da blogueira cubana e vê alguns protestando. Você os reconhece, eles são leitores de filosofia, de uma específica forma de divulgação da filosofia. Você abaixa a cabeça e sai de fininho, com vergonha, pois alguns deles podem reconhecer você como um amigo de juventude.
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* Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
PS: se a blogueira cubana for uma agente da CIA eu ficarei feliz, pois saberei que a CIA começou a falar coisas corretas sobre Cuba.
Fonte: http://ghiraldelli.pro.br/2013/02/a-blogueira-vinda-do-ceu/

O critério de classe!

Antonio Ozaí da Silva*

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Na minha juventude, eu tinha muitas certezas. Agora, cinquentenário,  sou repleto de dúvidas. O tempo passou, muros caíram, minhas ilusões se perderam e deram lugar ao ceticismo. Naquela época, tudo era mais fácil e simples. O mundo era dividido entre opressores e oprimidos, capitalismo e socialismo, burgueses e proletários, conscientes e alienados. A história estava ao alcance e nos cobria de razões. Não podíamos estar errados, pois estávamos do lado certo. Agíamos como demiurgos, anunciávamos a boa nova da utopia: a sociedade justa e igualitária, sem opressores nem oprimidos. Em nossa cruzada, tendíamos ao sectarismo, à simplificação da realidade, ao pensar dicotômico e maniqueísta.
Não obstante, tínhamos a verdade da história em nossas mãos. Pautávamos-nos pelo critério de classe. Não havia meio termo! Ainda hoje, divirto-me com a reação das crianças e dos jovens e adultos cândidos diante da pergunta: “Você é a favor ou contra o proletariado?!” Invariavelmente, mostram-se surpreendidos e reagem de maneira engraçada. Desde a mais tenra idade assumi a resposta considerada correta. Primeiro, enquanto manifestação de rebeldia e, como diria Marx, consciência de classe em si; depois, como consciência de classe para si.

Foi o critério de classe social, o assumir um dos lados, que definiu os caminhos e descaminhos da minha vida. A opção consciente e militante orientou e determinou o meu ser e viver. Como um crente que não abandona o símbolo que dá sentido à sua vida, permaneci fiel. Mesmo hoje, minha práxis como docente se orienta por esta escolha. O critério de classe é a lente pela qual vejo o mundo e a realidade na qual estou inserido. Não há como ser axiologicamente neutro. A visão de mundo, ideias e valores sobre o estar-no-mundo e ser-no-mundo influenciam nossas opções e ações. A docência, a pesquisa, as relações sociais, enfim, a vida pública e privada são demarcadas socialmente.

Contudo, o passar do tempo, a experiência prática e teórica me ensinaram que é insuficiente balizar a vida pelo critério de classe. Este não abrange todos os aspectos da vida! Nada me diz sobre os sentimentos humanos, sobre o amar, a amizade, o sofrimento, as dores que atormentam a alma, etc. Pouco me ajuda a compreender a natureza humana com profundidade. Ouso pensar que, para além dos contextos históricos e condições sociais e temporais diferentes, há algo de comum no humano que não pode ser apreendido unicamente pelo raciocínio classista.

O critério de classe estruturou a minha visão de mundo, mas aprendi que os trabalhadores não constituem uma classe homogênea. Um dia, há anos, assisti ao documentário “Além de trabalhador, negro” e percebi que a minha concepção de classe trabalhadora era restrita, branca e européia. Conclui que questões como a dominação masculina, a homoafetividade, raça e gênero não encontram respostas satisfatórias no critério de classe. De fato, permeiam os antagonismos de classe. Não me convence mais a ideia de que tudo será superado com a derrocada da sociedade burguesa.

O tempo é o melhor mestre! A vida me ensinou que os oprimidos também se revelam opressores. Aprendi que o discurso de classe dissimula práticas nada éticas e, sob as aparências altruístas, almeja interesses egoístas; vi que os sonhos utópicos, embora generosos, podem gerar monstros. Percebi que a vida real está para além das abstrações conceituais e que a sua complexidade não cabe em escaninhos ideológicos. O passar dos anos me fez ver que o melhor critério para pautar o viver não é as certezas que temos, mas as dúvidas. Como afirma certa peça publicitária, não são as respostas que movem o mundo, mas as perguntas. Duvidar sempre, até mesmo das minhas certezas. Eis o que a vida me ensinou! Tudo deve se submeter à reflexão crítica. Certezas absolutas geram sectários e fanáticos! Prefiro a insegurança e a angústia da dúvida!
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* Professor do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (UEM); editor da Revista Espaço Acadêmico, Acta Scientiarum. Human and Social Sciences e Revista Urutágua.
Fonte:  http://antoniozai.wordpress.com/2013/02/23/o-criterio-de-classe/

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

''Mais colegialidade. O papel do papa deve ser repensado''.

  Entrevista com Walter Kasper

"Que fique claro: o ministério petrino, o primado de Pedro, é um dom do Senhor à Igreja. 
Deve ser reforçado, e não prejudicado. 
Mas, no nosso tempo, no mundo globalizado, 
é muito importante refletir sobre a melhor 
maneira de fazer isso...".

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 20-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O cardeal Walter Kasper, por dez anos responsável pelas relações do Vaticano com as outras confissões cristãs e com os judeus, é um dos maiores teólogos vivos e uma das "grandes almas" do conclave, do qual volta a participar por um fio: ele completa 80 anos seis dias depois do início da "sede vacante", dia 5 de março.

No ano passado, foi publicado o seu livro Igreja Católica. Essência. Realidade. Missão (Ed. Unisinos, 2012), a reflexão de uma vida: o encontro com Karl Rahner, os anos como assistente universitário de Leo Scheffczyk e de Hans Küng, e depois do Concílio, a cátedra de teologia em Münster, onde conheceu o colega Ratzinger, 40 anos de amizade e de "duelos" intelectuais.

Eis a entrevista.

Eminência, a renúncia de Bento XVI muda a Igreja?


A Igreja é a mesma em todos os séculos e vive uma renovação na continuidade, como diz o pontífice. Ao contrário, o fato de ele ter renunciado, de que tenha renunciado livremente, lança uma nova luz sobre o papado.

Em que sentido?

A natureza, a essência do ministério petrino é dada por Jesus e não pode ser mudada. O que muda é a aura sacral em torno do papado, que foi sentida principalmente nos últimos dois séculos. Essa aura se perdeu um pouco. E esse fato totalmente inesperado, a passagem da possibilidade teórica para a realidade, deve nos fazer refletir sobre a situação da Igreja.

O senhor escreveu que, no futuro, o papa "deverá deixar muitas decisões às autoridades regionais, limitando voluntariamente o seu próprio poder", para intervir no que diz respeito a "toda a Igreja". O exercício do ministério petrino, do primado do papa, deve ser repensado?

O próprio João Paulo II nos pediu para aprofundar esse ponto na Ut unum sint. Ainda mais hoje, eu penso que é muito importante, no mundo globalizado, refletir sobre o tema. É uma questão central, nodal nas relações ecumênicas com os outros cristãos e em particular com as Igrejas ortodoxas, não só "sim" ou "não", mas "como" o papa governa concretamente a Igreja universal.

O senhor dizia que vocês, cardeais, devem refletir sobre a situação da Igreja. Sobre o que, em particular?

Vemos a crescente secularização da Europa, sabemos que a maioria dos católicos está do outro lado, no hemisfério Sul do planeta. É uma situação e um desafio novos.

 "Mas não é possível eleger o papa por 
um certo tempo. 
A eleição é para toda a vida."

Há também a exigência de reformar a Cúria Romana?

Certamente, é fundamental que ela seja organizada de um modo mais apto para enfrentar os desafios do nosso tempo. É preciso uma melhor coordenação entre os dicastérios, mais colegialidade e comunicação. Muitas vezes a direita não sabe o que a esquerda faz! E, depois, é preciso refletir também sobre o papel dos sínodos. Muitos bispos estão decepcionados da forma como estão.

E por quê?

Os bispos, por vezes, são reunidos sobre temas genéricos demais, não se fala da agenda concreta da Igreja. Da última vez, o sínodo era sobre a nova evangelização, uma questão decisiva. Mas o modo de realizá-la é diferente se você fala da Europa, Ásia, África, América Latina... Seria preciso para as situações concretas.

O exercício do primado, o papel dos sínodos...

O discurso sobre os sínodos não quer nem deve de algum modo prejudicar o primado do papa, ao contrário. Papado e sinodalidade não estão em contradição. Trata-se de repensar a relação entre a Cúria e as Igrejas particulares, como realizar a comunhão e melhorar a comunicação na Igreja.

De que papa a Igreja precisa hoje?

O pressuposto é que seja um homem de fé, espiritual. Um homem que tenha carisma e saiba como arrastar os fiéis. Um verdadeiro pastor para as pessoas, mas também um pastor que saiba guiar a Igreja. Acredito que hoje seja preciso o conhecimento, a experiência da Igreja universal. Não basta conhecer só um país ou uma diocese em particular.

Certamente, Bento XVI, com a sua renúncia, passará para a história...

No começo, eu fiquei sem palavras. Dizer: eu não tenho mais forças, abandonar o poder, retirar-se... Sinto um grande respeito e a mais alta estima pelo seu ato de grande coragem e humildade. Mas Bento XVI passará para a história por tudo o que fez. Ele confortou e consolidou a fé na Igreja. E deixa uma herança enorme, riquíssima. Provavelmente não teremos tão cedo outro papa desse nível intelectual e espiritual.

Há quem pense que, de agora em diante, será possível eleger um pontífice "temporário", que se aposentará a uma certa idade, assim como os outros bispos. É isso?

Não. Cada papa é eleito para toda a vida. Continua havendo, eventualmente, a sua livre decisão de renunciar, se quiser. A escolha de Bento XVI torna a questão mais próxima dos seus sucessores. Mas não é possível eleger o papa por um certo tempo. A eleição é para toda a vida.
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Fonte: IHU on line, 21/02/2013

'Falando de Amor'

Pasquale Cipro Neto*
 

Cá entre nós, a correlação, em segunda pessoa, entre 
'Se soubesses' e 'não negavas um beijinho...'
 é maravilhosa 

O incansável Wagner Homem (responsável pelo site de Chico Buarque, autor dos belos "Chico Buarque - Histórias de Canções" e "Toquinho - Histórias de Canções" e coautor, com Luiz Roberto Oliveira, do não menos belo "Tom Jobim - Histórias de Canções") me convida para o show de lançamento da obra relativa ao monumental Tom Jobim (nesta sexta, no Café Paon, em São Paulo).

Já li um bom pedaço do livro, encantador e repleto de belas histórias e informações a respeito da tecedura das canções de Tom, das que fez sozinho e das que fez em parceira (com Vinicius, Chico, Aloysio de Oliveira, Newton Mendonça, entre outros). Muitas dessas histórias têm relação com o cuidado de Tom e parceiros com a língua.

Pois isso tudo me fez aumentar a já enorme e antiga vontade de escrever sobre alguns dos fatos linguísticos presentes na delicadíssima "Falando de Amor". Vejamos estes versos, que integram a primeira estrofe da letra: "Se eu pudesse por um dia / Esse amor, essa alegria / Eu te juro, te daria / Se pudesse esse amor todo dia / Chega perto, vem sem medo / Chega mais meu coração / Vem ouvir esse segredo / Escondido num choro canção / Se soubesses como eu gosto / Do teu cheiro, teu jeito de flor / Não negavas um beijinho / A quem anda perdido de amor".

O caro leitor notou a correlação que Tom estabeleceu entre "pudesse" e "daria" ("Se eu pudesse.../...te daria...") e entre "soubesses" e "negavas" ("Se soubesses.../...não negavas...")? Enquanto você pensa e avalia, lembro o que me disse o Mestre a respeito de algumas das diferenças entre o nosso português e o de Portugal quando me concedeu a honra de entrevistá-lo, em 1993, para o "Nossa Língua Portuguesa", da TV Cultura: "Os portugueses dizem 'Eu gostava de estar consigo amanhã'; nós dizemos isso de outro jeito...".
É verdade. Embora em alguns dos registros do português brasileiro ocorra a forma "gostava" com o valor de "gostaria" ("Como eu gostava que chovia!", disse-me certa vez um sitiante, desolado com a falta de chuva), é mais comum entre nós a forma "gostaria" nesse e em outros casos análogos ("Como eu gostaria [de] que chovesse!"; "Eu gostaria de estar com você amanhã"), mas... Mas o uso do imperfeito do indicativo com o valor de futuro do pretérito, ou seja, o uso de "negavas" com o valor de "negarias", por exemplo, é mais do que comum, tanto na língua oral como nos registros literários, clássicos ou modernos.

Não foi por acaso que Tom, leitor contumaz de clássicos e modernos, passeou com tranquilidade pelas duas correlações. Primeiro, empregou o que é regra no texto científico, jurídico, filosófico ("Se eu pudesse por um dia / Esse amor, essa alegria / Eu te juro, te daria..." - por sinal, "daria" rima com "alegria"); depois, empregou o que é mais comum na oralidade e em muitos registros literários ("Se soubesses como eu gosto / Do teu cheiro, teu jeito de flor / Não negavas um beijinho..."). E cá entre nós, caro leitor, a correlação, em segunda pessoa, entre "Se soubesses" e "não negavas um beijinho..." é maravilhosa, tão maravilhosa que dói no peito e na alma. Note a importância do diminutivo "beijinho", cujo caráter afetivo praticamente impõe que o fecho da correlação se dê com a forma mais comum na linguagem espontânea, ou seja, com o imperfeito do indicativo ("negavas").

Tenho particular apreço por estes versos da segunda estrofe: "Quando passas, tão bonita / Nessa rua banhada de sol / Minha alma segue aflita / E eu me esqueço até do futebol". O leitor não tem ideia do que significa um par de olhos verdes a sonhar com esse esquecimento, sobretudo quando mal sabe a divina criatura que o futebol já foi mais do que esquecido...

E viva o grande Tom Jobim! É isso. 
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* Professor de língua portuguesa. Colunista da Folha.
Fonte: Folha on line, 21/02/2013
Imagem da Internet
 

Bilhar

L.F. Veríssimo* 
 

Da série “Poesia numa hora dessas?!”

E essa agora?

Se o que explodiu sobre a Rússia mostrou alguma coisa foi que meteoro não tem hora.”

O mais assustador do meteoro que cruzou o céu da Sibéria e explodiu no ar como várias bombas atômicas é que ele chegou sem ser anunciado. Com todas as atenções voltadas para o outro asteroide, o que passou de raspão, o asteroide da Sibéria entrou pela porta dos fundos sem ser detectado. A desculpa é de que era pequeno demais para chamar a atenção e por isso os alarmes não funcionaram. Nossa ilusão, até agora, era de que qualquer detrito espacial que se aproximasse de nós seria identificado e rotulado, e sua trajetória calculada até o último milímetro com grande antecedência, o que nos daria tempo para preparar o espírito – ou usar nossos cartões de crédito até o limite – no caso da colisão com a Terra ser inevitável. Agora sabemos que qualquer coisa menor do que meio campo de futebol pode chegar de surpresa e explodir sobre nossas cabeças. Só nos faltava essa.

Imagino que tenha gente pensando em como evitar a catástrofe, no caso de um asteroide gigante vir em nossa direção. O cinema já previu algumas soluções, como a de mandar um foguete com ogiva nuclear desintegrar o bólido antes que ele nos atinja. O problema é o asteroide grande se desintegrar em vários asteroides pequenos, como o que assustou a Sibéria, o que não seria vantagem. Outra dúvida é como nos comportaríamos se nenhum plano de defesa se mostrasse viável e nosso destino fosse, fatalmente, o dos dinossauros, que desapareceram depois que o choque de um asteroide mudou o clima da Terra. Como a perspectiva de uma morte coletiva, que não distinguisse classes, ricos e pobres, virtuosos e pecadores afetaria as relações humanas, nos nossos últimos dias de existência? Não tenho nenhuma vontade de descobrir. Se bem que a situação até daria uma boa crônica.

Corpos celestes se chocando no espaço lembram o que disse o Einstein sobre a aparente desorganização do Universo. Ele negou que fosse tudo aleatório e não seguisse nenhum plano. Deus, afirmou Einstein numa frase que ficou famosa, não joga dados com o Universo. Tinha razão. Não joga dados, joga bilhar.
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* Escritor. Cronista da ZH
Fonte: ZH on line, 21/02/2013
Imagem da Internet

DEUS é BELEZA...

 

Meditações do Cardeal Ravasi ( voto para ele ser papa) 
nos exercícios espirituais do Papa:




"A falta de estupor no homem contemporâneo é sinal de superficialidade",
denunciou o cardeal. O homem "se inclina somente
para a obra das suas próprias mãos,
incapaz de olhar para o céu, de ver em profundidade
os dois extremos do universo e do microcosmo.
O homem já não tem a percepção da terra como irmã".


É, portanto, necessário "redescobrir os poiemata,
as harmonias de Deus na criação",
criar "uma espiritualidade que, paradoxalmente,
 tenha a sua própria carnalidade".
Caso contrário, como pressagiava Chesterton,
 "o mundo não perecerá por falta de maravilhas,
 mas por falta de maravilhar-se".

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Quaresma: que eu procure mais amar, que ser amado

Leonardo Boff*

Fazei com que eu procure mais amar, que ser amado.


Sentir-se amado é mais gratificante que amar, pois basta apenas acolher o amor gratuito do outro, sem ser necessário conquistá-lo ou dar-lhe provas de amor. Sentir-se amado é sentir-se importante e precioso para alguém. Aumenta a auto-estima e reforça o sentido de ser.
 
De repente, sei que estou no coração e na mente de outra pessoa. Sou para ela um valor inestimável. Acompanha-me em cada gesto, procura saber cada pormenor da minha história, valoriza cada palavra minha e intui amorosamente cada intenção, por mais secreta que seja.

Aquele que ama vive num estado de consciência alterado. Perde o interesse por si mesmo e entrega-se a forças que o arrastam irrefreavelmente na direcção da pessoa amada. Esta aparece aos seus olhos como única e diferente de todas as demais no Universo. Experimenta um estado de arrebatamento e de potencialização de sentido que, em função da pessoa amada, reorganiza toda a vida.

Todos querem ser amados; pois todos anseiam ser únicos para alguém. A frase mais triste que ouvi foi de uma jovem assistente social, mulher simples do povo, sem grandes dotes de beleza, segundo as pobres convenções da nossa cultura material: "Eu nunca fui amada; nunca fui interessante para ninguém; ninguém até hoje olhou para mim." E os seus olhos traíam uma tristeza infinita. Uma mágoa profunda com a vida ingrata e cruel pesava em cada uma das suas palavras. O Universo parecia ter desabado sobre ela.

Sem amor, a vida perde significado e densidade. Tudo fica irrelevante e sem valor. É fundamental para o brilho da existência sentirmo-nos amados e acolhidos com enternecimento por aqueles que nos cercam. Por detrás do ateísmo, do gnosticismo e do indiferentismo talvez esteja essa experiência devastadora: a incapacidade de alguém se sentir acolhido como num útero, aceite como no seio de uma família e amado incondicionalmente por uma pessoa.

Porque temos esta necessidade inarredável de sermos amados? Porque nós, seres humanos, desde que nascemos mostramos a tendência para nos unirmos a algo que nos realize, a algo que nos transcenda. As ciências da Terra dizem que esse algo representa a acção da seta do tempo e do impulso da evolução a empurrar-nos sempre para a frente e para cima, de convergência em convergência, na direcção de uma culminância suprema. Os especialistas da psique humana aventam a ideia de que esse desejo de união representa a memória ancestral da nossa vida no útero materno. As religiões ensinam que esse algo é a ânsia por Deus como Alfa e Omega da nossa vida. Seja como for, o ser humano, ao sentir-se amado, vive a experiência de ter resgatado o paraíso terrestre ou ter chegado à Terra da Promissão.

Que significa procurar mais amar, que ser amado? É o convite para darmos o salto por cima de nós mesmos, para podermos propiciar amor ao outro e aos outros. Ao amar o outro, queremos que ele experimente uma absoluta realização - ser amado - e se sinta existencialmente o centro afectivo do nosso universo. Pois é exactamente essa a experiência que o amor nos permite fazer.

Amar mais do que ser amado é, então, a força de sairmos de nós mesmos e de nos centrarmos no outro por causa do outro - dando-lhe valor, cuidado, ternura, cordialidade e convivialidade. São Francisco conseguiu amar os leprosos e todas as criaturas como irmãos e irmãs muito queridos. Por isso o seu universo é cheio de unção, enternecimento e respeito, porque permite que todos se sintam amados.
Esta atitude de um amor maior pode resgatar a humanidade ameaçada e salvar a vida do planeta Terra. Quem tem este tipo de amor superabundante conquista tudo: o próprio coração, a salvação eterna e Deus mesmo.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais amar, que ser amor. 
Que eu acolha com generosidade e alegria o amor que me é dado,
 mas que me empenhe sobre tudo em fazer com que os que me cercam se sintam amados. 
Fazei que nos sintamos amados por Vós para experimentarmos 
a suprema felicidade concedida nesta vida. 
Amém.
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[Publicado em A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual. Ed. Sextante].
(*) NdE.: Português de Portugal.
Fonte:  http://www.adital.com.br/19/02/2013

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O mundo em cinco anos

Uma pesquisa da empresa Euromonitor International levantou as dez principais macrotendências no mercado consumidor em nível global nos próximos cinco anos. Entre as previsões está uma população mais velha e urbana, mais conectada em aparelhos móveis, mas com dificuldades econômicas.

A pesquisa destacou o aumento da classe média como um dos principais efeito do crescimento dos países emergentes. Essa população está cada vez mais exigente e sofisticada e, assim, a oferta de produtos precisará atender a esse público. Ao mesmo tempo, segundo o documento, permanecem desigualdades sociais ocasionadas principalmente por salários desproporcionais.

O envelhecimento da população – devido à maior expectativa de vida e à menor taxa de natalidade – é uma das tendências e também deve colaborar com disparidades econômicas, uma vez que a força de trabalho ativa diminuirá (como já se observa na Europa) e os gastos públicos com saúde
vão aumentar. (mais sobre o assunto na reportagem “Envelhecer”, da edição 56- http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/envelhecer/ )

A perspectiva da Euromonitor para 
os jovens de países que enfrentam crises econômicas, como Grécia e Espanha, não é muito otimista. O desemprego não deverá estar resolvido em meia década e eles continuarão desiludidos. Hoje, metade dos jovens com menos de 25 anos está sem trabalho nesses países.

Sobre os avanços tecnológicos, a tendência é de que as pessoas acessem 
a internet mais por dispositivos móveis, como celulares e tablets, do que pelos computadores. E, como cada vez mais as pessoas se conectam e interagem pelas redes sociais, a Euromonitor aconselha que grandes empresas tenham como prioridade estratégias de marketing e contato com os consumidores via web.
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Por  Thaís Herrero, da Página 22
Fonte: http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/o-mundo-em-cinco-anos/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=mercado-etico-hoje

O resgate da categoria "espírito”

Leonardo Boff *
Na cultura atual a palavra “espírito” é desmoralizada em duas frentes: na cultura letrada e na cultura popular.

Na cultura letrada dominante, “espírito” é o que se opõe à matéria. Matéria sabemos mais ou menos o que é, pois pode ser medida, pesada, manipulada e transformada, enquanto “espírito” cai no campo do intangível, indefinido, e até nebuloso. A matéria é a palavra-fonte de valores axiais da experiência humana dos últimos séculos. A ciência moderna se construiu sobre a investigação e a dominação da matéria. Penetrou até as suas últimas dimensões, às partículas elementares, até o campo Higgs no qual se teria dado a primeira condensação da energia originária em matéria: os tão buscados bósons e hádrions e a chamada “partícula de Deus”. Einstein comprovou que matéria e energia são equipolentes. Matéria não existe. É energia altamente condensada e um campo riquíssimo de interações.

Os valores espirituais, na acepção moderna convencional, situam-se na superestrutura e não cabem nos esquemas científicos. Seu lugar é o mundo da subjetividade, entregues ao arbítrio de cada um ou a grupos religiosos. Exprimindo-o de uma maneira um tanto grotesca, mas nem tanto, podemos dizer com José Comblin, grande especialista no tema:”quando se fala em ‘valores espirituais’, todo mundo imagina que está falando um burguês numa reunião do Rotary ou dos Lions Club depois de uma abundante ceia regada a bons vinhos e servida com comidas finas; para o povo em geral ‘valores espirituais’ equivale a ‘palavras belas mas ocas”. Ou então pertence ao repertório do discurso eclesiástico moralizante, espiritualizante e em relação hostil com o mundo moderno.

Em razão disso, a expressão “valores espirituais” surge com mais frequência na boca de padres e de bispos de viés conservador. Deles se ouve amiúde que a crise do mundo contemporâneo reside fundamentalmente no abandono do mundo espiritual: a não frequência da missa ou de qualquer referência explícita à Igreja hierárquica.

Mas com os escândalos havidos nos últimos tempos com os padres pedófilos e com os escândalos financeiros ligados ao Banco do Vaticano, o discurso oficial dos “valores espirituais” se desmoralizou. Não perdeu valor, mas a instância oficial que os anuncia conta com muito pouca audiência.

Na cultura popular, a palavra “espírito” possui grande vigência. Ela traduz certa concepção mágica do mundo à revelia da racionalidade aprendida na escola. Para grande parte do povo, especialmente os influenciados pela cultura afrobrasileira e indígena, o mundo é habitado por bons e maus espíritos que afetam as distintas situações da vida como a saúde e as doenças, a vida afetiva. os sucessos e os fracassos, a boa ou a má sorte. O espiritismo, codificou esta visão de mundo pela vida da reencarnação. Possui mais adeptos do que se suspeita.

No entanto, os últimos decênios nos demos conta de que o excesso de racionalidade em todas as esferas e o consumismo exacerbado geraram saturação existencial e também muita decepção. A felicidade não se encontra na materialidade das coisas; mas, em dimensões ligadas ao coração, ao afeto, às relações de amor, de solidariedade e de compaixão.

Por toda as partes, buscam-se experiências espirituais novas, quer dizer, sentidos de vida que vão além dos interesses imediatos e da luta cotidiana pela vida. Eles abrem uma perspectiva de iluminação e de esperança no meio do mercado de idéias e de propostas convencionais, veiculadas pelos meios de comunicação e também pelas assim chamadas “instituições do sentido” que são as religiões, as igrejas e as filosofias de vida. Elas ganharam força através dos programas de TV e dos grande shows religiosos que obedecem à lógica da espetacularização massiva e que, por isso mesmo, se afastam do caráter reverente e sagrado de toda religiosidade. Numa sociedade de mercado, a religião e a espiritualidade se transformaram também em mercadorias à disposição do consumo geral. E rendem muito dinheiro.

Não obstante a referida mercantilização do religioso, o mundo espiritual começou a ganhar fascínio embora, na maioria das vezes, na forma de esoterismo e de literatura de autoajuda. Mesmo assim ele abriu uma brecha na profanidade do mundo e no caráter cinzento da sociedade de massa. Nos meios cristãos emergiram as Igrejas pentecostais, os movimentos carismáticos e a centralidade da figura do Espírito Santo.

Estes fenômenos supõem um resgate da categoria “espírito” num sentido positivo e até antissistêmico. O “espírito” constitui uma referência consistente e não mais colocada sob suspeita pela crítica da modernidade que somente aceitava o que passava pelo crivo da razão. Ocorre que a razão não é tudo nem explica tudo. Há o irracional e aracional. No ser humano há o universo da paixão, do afeto e do sentimento que se expressa pela inteligência cordial e emocional. O espírito não se recusa à razão, antes, precisa dela. Mas vai além, englobando-a num patamar mais alto que tem a ver com a inteligência, a contemplação e o sentido superior da vida e da história. Em termos da nova cosmologia ele seria tão ancentral quanto o universo, este também portador de espírito. A era do espírito?
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*Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ. 
Fonte:  http://mercadoetico.terra.com.br/18/02/2013