segunda-feira, 29 de julho de 2013

Que papa é esse?

 jmvaggione
Quis a Providência Divina, diriam alguns, que a primeira visita do primeiro papa latino-americano da história fosse ao Brasil, maior país católico do mundo. E o papa Francisco fez jus à singularidade desse acontecimento. Em imagens que encheram os olhos de fiéis de todas as partes do mundo, o pontífice argentino Jorge Mario Bergoglio desfilou em um carro simples de passeio, carregou a própria mala e se comunicou em linguagem afetuosa e coloquial, pontuada por expressões locais. "Deus é brasileiro e vocês ainda queriam um papa?", disse Francisco, brincando até com a proverbial 
rivalidade nacional com os hermanos.

À poderosa carga simbólica dessa aparição, o papa agregou um conteúdo a um só tempo renovador e austero. Reafirmou a opção preferencial pelos pobres, até outro dia considerada subversiva na região e passível de decretação de "silêncios obsequiosos" por parte da Igreja. Condenou a corrupção de autoridades, empresários e cidadãos. Criticou os "ídolos passageiros" do dinheiro, do consumo e do prazer. E exorcizou o discurso em voga sobre a liberalização do uso de drogas.

"Até o momento, o papa Bergoglio começa a construir uma linha simbólica de alteridade, reposicionando a Igreja na direção do Concílio Vaticano II e devolvendo a pobreza ao centro das preocupações do Vaticano", analisa o sociólogo Juan Marco Vaggione, conterrâneo do papa e estudioso das intersecções entre a religião e os direitos sociais e civis no mundo. Ainda não se sabe, porém, como e quanto o novo gestual do papa "vai impactar as políticas concretas da Igreja Católica".
Pesquisador da Universidade Nacional de Córdoba e do Instituto Conicet, na mesma cidade, Vaggione formou-se em direito na Argentina, obteve Ph.D. em sociologia na New School for Social Research de Nova York e atua há anos junto à ONG Católicas pelo Direito de Decidir. Na entrevista a seguir, o sociólogo mostra como a eleição – e as escolhas – de um papa podem ser entendidas no contexto mais amplo dos embates de uma instituição global e sua inserção no mundo moderno. E sugere que o atual pontífice adotará uma postura moderada, entre o conservadorismo da cúria romana e anseios progressistas manifestados pela própria comunidade católica.

Eis a entrevista.

Nos anos 1980, quando João Paulo II esteve no Brasil, 89% da população se dizia católica. Hoje, o número não chega a 57%. Que significados isso traz à visita?
A visita de um papa precisa ser lida em um duplo registro: ela é, ao mesmo tempo, a visita de um líder religioso e de um ator político. Do ponto de vista estritamente religioso, é a visita do líder de uma instituição que vê em crise a influência e a legitimidade que tinha na América Latina, e no Brasil em particular. A própria eleição de Bergoglio como papa expressou, entre outras coisas, essa necessidade da Igreja Católica em reconquistar fiéis nessa parte do mundo. Trata-se também da visita de um papa que é também chefe de Estado do Vaticano, que de alguma maneira revela as fissuras dos nossos sistemas políticos frente à influência do religioso como lugar de encantamento. Ou seja, o êxito de uma figura religiosa e a atração política que ela exerce deixam evidentes as dificuldades do sistema político em manter seu próprio encanto e legitimidade.

Teólogos não alinhados com Bento XVI, como o alemão Hans Küng, manifestaram entusiasmo com o novo papa, ressaltando a escolha do nome ‘Francisco’ e seu despojamento como sinais de ruptura. São mesmo?
Concordo, em um plano simbólico. Até o momento, o papa Bergoglio começa a construir essa linha simbólica de alteridade, reposicionando a Igreja na direção do Concílio Vaticano II e devolvendo a pobreza ao centro das preocupações do Vaticano. E é indiscutível o efeito poderoso que isso tem tido. Resta saber como esse plano simbólico, que é muito importante e eu não subestimo de forma alguma, vai impactar as políticas concretas da Igreja Católica como instituição religiosa.

Em um artigo no Le Monde Diplomatique o sr. sustenta que tanto João Paulo II quanto Bento XVI ocuparam-se em ‘criticar a modernidade para reinserir nela uma Igreja Católica poderosa, visível e ativa que amplie suas estratégias de intervenção política’. Como se deu isso e qual é o cenário hoje?
Quando se analisa as eleições dos papas sob uma perspectiva histórica, não como ações da vontade do Espírito Santo, a Igreja emerge como uma das instituições mais globalizadas que existem. Desse ponto de vista, a eleição de um papa implica na eleição de um líder político global que responde a momentos determinados. A chegada de João Paulo II ao topo da hierarquia católica pode ser lida como a eleição de um papa polonês que respondeu à tensão geopolítica forte entre capitalismo e comunismo. É o momento em que a Polônia se converte em pedra central para o desmantelamento da ex-União Soviética. De maneira semelhante, o papa alemão que o sucedeu é aquele que se volta para a Europa laica, como símbolo de um fenômeno também global da retirada do sentido religioso da política e da esfera privada dos cidadãos. Bento XVI é aquele que vem para recompor a esfera de influência da religião na Europa Ocidental, ressaltando as raízes cristãs da constituição europeia. Agora também, com a chegada de um papa latino-americano, não devemos ignorar a dimensão geopolítica dessa escolha – que se explica, por um lado, pela quantidade de fiéis existentes nessa parte do mundo e, de outro, pelo avanço de outras denominações religiosas na região. O fato de sua primeira visita ocorrer no Brasil coloca isso tudo ainda mais em evidência.

O sr. diz que três fenômenos da modernidade foram combatidas pela Igreja nos últimos anos: o ateísmo, o laicismo e o relativismo moral. Francisco vai travar as mesmas batalhas?
Creio que Francisco não poderá ficar de fora dessas batalhas. Sobretudo daquela contra o que a Igreja chama de relativismo moral e compreende questões reprodutivas e de gênero. A doutrina católica está muito entranhada pela ideia de uma moral única sobre essas questões. A sensação que tenho é de que vai haver uma continuidade entre Ratzinger e Bergoglio no que diz respeito a uma moral sexual conservadora. E ocorrerá a dupla articulação de que falamos em relação à América Latina, região tão caracterizada pela desigualdade social: a reaproximação da pobreza não só em nível doutrinário, mas em termos de estratégia para recuperar um rebanho que vem se perdendo especialmente nos setores mais pobres da população.

Há poucos dias, uma pesquisa encomendada pela ONG Católicas pelo Direito de Decidir mostrou que católicos brasileiros têm visões às vezes opostas à da Igreja. 82% deles apoiam o uso da pílula do dia seguinte, 56% defendem a união entre pessoas do mesmo sexo, 72% aprovam o fim do celibato para padres e 62% são à favor da ordenação de mulheres. A Igreja leva isso em conta?
O hiato entre a doutrina oficial da Igreja Católica e as convicções dos fiéis detectado pela pesquisa é característico da forma de ser católico na América Latina. Há uma distância abissal entre o que a doutrina exige e a forma de se viver as crenças entre nós. Convivem na região uma identificação ainda forte com o catolicismo e um posicionamento mais aberto para a liberdade e a diversidade sexual. Uma mudança política e social que afeta, inclusive, a hierarquia religiosa. É um desafio importante com o qual o papa Francisco terá que se defrontar. Pessoalmente, não acredito na possibilidade de que ele faça grandes mudanças na postura doutrinária nessa direção. Há quem fale de uma maior flexibilidade da Igreja em relação aos recasamentos e divórcios heterossexuais, mas não tenho expectativas de que esse papa possa acomodar muito mais que isso.

Em seu discurso no Brasil o papa sinalizou mais diálogo com outras religiões, mas manifestou rigidez em temas como a liberalização do uso de drogas – defendida pelo ex-presidente Fernando Henrique. Francisco será mais ou menos conservador que Bento XVI?
Para responder à pergunta, temos de considerar o papel de Bergoglio no debate sobre o casamento gay em 2010 na Argentina. Na ocasião, ele demonstrou o que alguns chamaram de "posição moderada" – até flexível em relação a mudanças na legislação estatal, mas claramente conservador no que concerne à moral. Ele não encarnou naquele momento a figura de alguém capaz de promover mudanças na hierarquia religiosa. O que o desempenho de Bergoglio na Argentina deixa ver sobre seu perfil é uma reconexão com o carisma de João Paulo II, com a Igreja dos pobres do Concílio Vaticano II, aliadas à defesa de uma moral sexual conservadora.

Não é curioso que, no mesmo discurso, o papa tenha criticado o culto ao prazer, no exato momento em que o representante por ele indicado para o Banco do Vaticano, monsenhor d. Battista Salvatore Ricca, é acusado de ter um caso com um capitão da guarda suíça – no primeiro escândalo de seu pontificado?
Totalmente. E, nesse sentido, mesmo as hierarquias católicas da ala mais formal da Igreja vêm mostrando esse paradoxo. O ponto é: como a Igreja pode sair dessa contradição? Mantém o discurso de uma moral posta em dúvida por boa parte dos fiéis e até por representantes da instituição ou flexibiliza os dogmatismos sobre o comportamento e a sexualidade? E aqui não falamos só de temas delicados como o casamento gay ou a interrupção da gravidez, mas dos mais correntes, como o sexo antes do casamento e o uso de anticoncepcionais. Entretanto, a Igreja Católica tem sabido manejar o duplo discurso de proibir em público o que se faz em privado. Exemplos disso são os recentes escândalos que atingem a instituição.

Em sua opinião, a polêmica sobre a suposta colaboração do então bispo Bergoglio com a ditadura militar argentina foi esclarecida?
Esse é um tema complexo. O que a mim me surpreendeu foi a forma como, Bergoglio eleito papa, houve a necessidade imediata de esclarecer o episódio, de se afirmar sem demora que não houve tal colaboração. Ao orgulho nacional de termos um papa argentino sucedeu-se uma tentativa de "branqueamento" do passado por parte de setores os mais diversos. Então, "Bergoglio não foi tão conservador no debate sobre o casamento igualitário", "o que se diz dele durante a ditadura tampouco é real", etc. Parecia ser preciso tornar imaculado o papa argentino. O que mostra o quanto as classes políticas ainda sustentam seu prestígio em posicionamentos religiosos. Mais do que especular se Bergoglio colaborou ou não com a ditadura, o que me espanta é a dificuldade que a Igreja Católica Argentina ainda tem de realizar uma autocrítica sobre seu papel no apoio e legitimação do regime militar.

O teólogo brasileiro Leonardo Boff viu na ‘Igreja pobre, humilde, que dialoga com o povo’ de Francisco a reabilitação da Teologia da Libertação, que vicejou na América Latina nos anos 1950 e 60. O sr. acredita nisso?
Creio, como disse, que o papa Francisco tenha a intenção real de voltar a situar a pobreza como sujeito da prédica e da intervenção da Igreja Católica no mundo. E que Leonardo Boff e outros teólogos progressistas têm razão ao identificar nisso um novo sentido para a instituição. Cabe perguntar, no entanto, qual será a construção simbólica feita em torno da pobreza. Ao redor de um conceito podem estar os mais distintos conteúdos ideológicos. Parece-me que a limitante de Bergoglio e da forma como vai armando o seu papado segue sendo um "corpo da pobreza" que não é reconhecido nas dimensões que se conectam com a sexualidade, a reprodução e a liberdade desse corpo. A Teologia da Libertação foi, sem dúvida, uma das tradições mais ricas e justas que a Igreja Católica já produziu. Mas se ela não for pensada em suas intersecções com as novas teologias feministas, terá caráter limitado. A velha Teologia da Libertação também pode ser patriarcal e homofóbica, uma vez que nos anos 1960 tais questões não estavam inseridas da mesma maneira na agenda política. Reinscrever a pobreza como sujeito histórico é um grande avanço, mas para que ele seja mais justo não se devem desconsiderar as desigualdades de um sistema patriarcal que priva de direitos as mulheres e nega autonomia e liberdade aos corpos.
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A reportagem e a entrevista é de Ivan Marsiglia e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 28-07-2013.
Fonte: IHU on line, 29/07/2013
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“Quando só o papa salva”

Marcelo Barros*


“Só o papa salva” é a manchete de primeira página do O Globo deste sábado, 27 de julho, penúltimo dia da Jornada Mundial da Juventude. Essa manchete do jornal carioca joga propositalmente com a ambiguidade de sentidos. Quem lê a notícia descobre que se está tratando da desorganização da jornada a qual o prefeito do Rio deu nota zero. No caos que a jornada provocou na cidade, o papa é o único elemento que deu certo, tanto em sua comunicação direta e simpática, como por sua disponibilidade e energia em cumprir pontualmente todos os compromissos e agradar a todos os que o esperavam e queriam encontrá-lo.  De todos os modos, por falar em salvação, o título não parece  distante daquilo que é proposto e acreditado pelos organizadores e pela maioria dos/das participantes da Jornada Mundial da Juventude. É um evento criado pelo papa João Paulo II em 1985 para atrair a juventude do mundo para a Igreja Católica tradicional, para não dizer tradicionalista, no sentido de volta à velha Cristandade dos séculos medievais com algumas pinturas de nova (alguns falam em neo-cristandade): Cristandade centralizada e simbolizada pela figura monárquica do papa. Conforme o desejo de João Paulo II e o pensamento do Vaticano, o papa é a única estrela do evento. Se não fosse o papa, nunca a Jornada da Juventude reuniria um milhão e meio de pessoas. Por outro lado, a novidade desta Jornada do Rio é o papa Francisco. A pergunta que muita gente se faz é o que significa esse papa com seu estilo simples e simpático nessa estrutura monárquica, absolutista e, ao mesmo tempo, fossilizada e em grave crise do Vaticano e da hierarquia eclesiástica católico-romana. 
 
Não podemos esquecer: a própria figura do papa, como ele se apresenta hoje, chefe de Estado e sumo-pontífice, é de Igreja Cristandade. Ele pode falar no evangelho e pedir fé em Jesus, mas, seja quem for o papa, a centralização que provoca em sua pessoa e em cada gesto seu (mesmo se for simpático e evangélico), no lugar de ajudar as pessoas a se aproximarem do evangelho, como pede justamente o papa Francisco, acaba reforçando a estrutura eclesiástica e patriarcal e não o testemunho do Cristo simples, pobre e libertador. Enquanto o papa não renunciar a ser chefe de estado e monarca absoluto da cristandade medieval, pode fazer esses gestos simpáticos de deixar papamóvel e andar de jipe ou querer estar mais perto do povo. Entretanto, será sempre um rei, como rei será visto e como rei, mesmo rei humilde e simpático, mas rei, se comportará.
A Jornada fala em missão. Seu lema é “Ide e anunciai. Fazei discípulos em todas as nações”. No entanto, a compreensão sobre missão é estritamente religiosa e espiritualista. Não há nenhuma abertura para a missão do jovem na escola e na universidade ou no trabalho. Nada ecumênico, nenhuma referência a outras Igrejas, outras religiões ou simplesmente à juventude do mundo que não acampa em nenhuma catedral religiosa. E mesmo a concepção dessa missão religiosa é estritamente tradicional, baseada em devoções dos tempos de nossos avós  e anterior à renovação da Igreja promovida pelo Concílio Vaticano II. 
 
Durante a semana, ligada à Jornada, o pessoal mais ligado às pastorais sociais e CEBs, organizaram a Tenda dos Mártires, implantada em uma paróquia da zona norte do Rio, com debates e celebrações no estilo da caminhada da Igreja dos mártires e da libertação. Longe de Copacabana e dos principais eventos, só foi lá quem já estava ligado.
 
Sem dúvida, nesses dias, companheiros/as mais ligados à Igreja das bases, tentamos aproveitar uma ou outra palavra de Francisco, aqui e ali, para ressaltar o seu apoio aos empobrecidos e seu desejo de um mundo mais justo e igualitário. E o papa disse palavras assim. Mas, como transpor a própria cultura na qual isso é dito e assim essas palavras se tornarem mais eficazes? 
 
Na Via Sacra encenada na Jornada, de um lado liam textos da profecia do Servo Sofredor de Isaías (sobre o messias humilhado e oprimido) e, ao mesmo tempo, embaixo do palco, a Cruz peregrina tinha uma guarda de honra da marinha brasileira ou do exército marchando militarmente ao seu lado, enquanto os atores da Globo recitavam os textos.
 
Nessa jornada, ao inserir-se nessa Igreja tão tradicional e fechada, o papa ajudou porque, através de seus gestos e palavras, propôs que ela se torne mais humana e próxima das pessoas. O papa exortou os cristãos a não perderem a esperança, a manterem a alegria e a não cederem à cultura do individualismo. Tomara que ao menos isso fique como proposta do papa durante essa semana e padres e bispos obedeçam a esse conselho. 
 
Ontem, entrei em uma farmácia para comprar uma aspirina e ouvi a discussão de dois homens na fila do caixa. Um protestava pelo fato de um evento particular de uma Igreja causar tanto dano ao trânsito à vida da cidade (dois dias de feriado municipal). E o outro respondeu: “Tem paciência porque isso é o canto do cisne de uma Igreja que está morrendo e não aceita reconhecer isso”. Ouvi aquilo, mas discordei. Justamente, ao contrário, minha impressão ao ver essa semana toda centrada em devocionalismos baratos ou meio vazios e em uma papolatria superficial e inútil, uma coisa me impressionou: a teimosia da fé de muita gente, (tanto pessoas jovens, como adultas), que, apesar de tudo e contra tudo, se mantém como base para comunidades de fé, mais sólidas e autônomas, centradas na liberdade do Espírito que “sopra onde quer, ouvimos a sua voz, mas não sabemos de onde vem, nem para onde vai” (Cf. Jo 3, 7).

sexta-feira, 26 de julho de 2013
 
Estou acabando de acompanhar pela rede Globo a via sacra com o papa e a multidão de um milhão de jovens (1.500.000?). 
 
A via sacra é uma devoção que me lembra minha infância e um catolicismo mais fixado na cruz e na morte de Jesus do que na Páscoa e na ressurreição (não estou com isso querendo separar a morte e a ressurreição, mas superar o isolamento no aspecto doloroso e sacrificial). É popular e por isso compreendo que pastoralmente a Igreja a preserve. Mas, justamente o que achei dessa que está acabando de se realizar na praia de Copacabana é que não tem nada de popular e tem alguns aspectos contraditórios com a mensagem que deseja passar. Em primeiro lugar, a tal Cruz peregrina, que na Jornada representa Jesus, é ladeada por um batalhão da marinha ou de algum outro grupo militar, devidamente fardado e marchando militarmente. Que forma estranha de honrar a cruz de Jesus que morreu para trazer ao mundo paz e reconciliação. 
 
Além disso, entre os jovens que carregaram a cruz durante toda a via sacra, nenhum/a negro/a, nenhum com cara de pobre. Todos vestidos de bata, mas alvos ou brancos e cara de classe média alta... Posso estar enganado. Todas as pessoas que proclamaram textos bíblicos (curtos e bem escolhidos) o fizeram de longo, ou de paletó e gravata... A maioria artistas da Globo (Ana Maria Braga, Eriberto Leão, Cássia Kiss, Elba Ramalho, etc). As que faziam oração representavam um seminarista de batina e fala bem alienada, uma freirinha - coitada - suspirando piedade. E para não ser tudo assim, havia em uma das estações alusões à pastoral carcerária, mas sem dizer nada sobre ela Parece que havia carcerários diante do cenário, Não percebi porque estavam todos de terno e gravata... Algumas orações faziam alusão a problemas de hoje (evangelizar o mundo virtual da internet, vencer a opressão econômica sobre o jovem, o problema dos doentes terminais, mas tudo tinha um tom individualista de alguém que expressava sua piedade e a multidão de juventude em nenhum momento foi convidada a participar de nada. Só olhar e admirar. 
 
A Via Sacra teve uma dramatização artística de bom gosto, com música clássica tocada por uma orquestra maravilhosa, textos musicais belíssimos e atores excelentes. Mas, em termos de oração, me pareceu nada participativa. E a própria grandiosidade e majestade do cenário - um palco para mil pessoas e que colocava o papa sentado em uma cátedra a oito metros de altura, tudo isso tornava difícil conciliar o que se falava sobre entrega da vida e amor de Jesus e aquilo que se via - o palco tomado por bispos e cardeais vestidos de preto e vermelho - o papa parecia de todos o mais simples - com sua batina branca - e em algumas imagens que o mostravam durante a via sacra - posso estar enganado - tive a impressão de que ele tirava um cochilo - o que fazia muito bem - que ninguém é de ferro. 
Agora estou escutando a homilia do papa Francisco. Uma palavra profunda e como sempre afetuosa. Tocou em vários problemas concretos. Propôs uma oração pelos jovens, vítimas do incêndio da boate de Santa Maria. Falou dos pais e mães que têm filhos e filhas dominados pela droga. Falou da juventude decepcionada com a política oficial e a corrupção. Fez um apelo à esperança e à sairmos de nós mesmos e sermos solidários. 
Foi a homilia mais viva e mais direta que eu senti dele nessa semana. 
Conversa, sexta feira, 26 de julho 2013

Uma primeira lição que tiro dessa minha participação (mesmo indireta) na Jornada Mundial da Juventude não diz respeito à jornada como tal e sim ao país em que vivo. Se eu puder, fugirei do Brasil nos dias da próxima copa de futebol em 2014. Meu Deus, que desorganização e falta absoluta de estruturas para acolher muita gente. Ontem, pelo fato de que na praia de Copacabana, se reuniria a multidão dos jovens (há quem diga que chegam a um milhão e meio) junto com o papa Francisco, no Rio, ninguém mais fazia nada nem nada funcionava. Metrô parado das 16 h até às 21 h. Não havia ônibus nem mesmo taxi podia entrar em Copacabana. Eu voltava do meu trabalho no morro de Sta Marta, já mais cedo para evitar isso e fiquei de 18 às 21 horas esperando em Botafogo que abrissem o metrô e eu pudesse embarcar. Assim mesmo, não podiam parar na estação mais próxima de onde estou hospedado e com isso tive de descer na estação seguinte e percorrer cinco ruas absolutamente lotadas de gente (todos muito pacíficos e sem nenhum problema), mas hoje decretei que não tenho condições de passar pelo mesmo problema. Trabalho aqui e não vou sair para fazer gravações. 
 
Até aqui, sinto que a simpatia e a simplicidade do papa Francisco não o levaram a nenhuma atitude ou palavra profética. Ele diz que devemos fazer uma sociedade solidária, mas nenhuma palavra sobre como seria isso. Por que não falar da economia solidária ou mesmo que fosse da tal economia de comunhão proposta pelo grupo católico dos folcolarinos? Nada. Tudo vago e genérico. Esteve na favela de Manguinhos, falou no campo de futebol, onde na parede em frente a qual ele estava falando tinha uma grande foto de Dom Oscar Romero. Poderia ter feito uma alusão ao arcebispo mártir. Nada.
 
Foi a uma capela da favela onde não é paróquia e ali se reune uma comunidade eclesial de base. Seria a oportunidade para apoiar as Cebs. Nada. 
 
Será que isso é uma estratégia de começo de ministério para não bater de frente com a cúria romana e com o papa emérito? Não sei.
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* Monge beneditino. Escritor.
Fonte:  http://www.marcelobarros.com/
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Jornada Internacional da juventude: celebração e compromisso

 Leonardo Boff*
 
Há um dado pre-reflexo que subjaz à existência de fé: a confiança na bondade fundamental da vida. 
Por mais absurdos que haja e os há quase em demasia,
 o ser humano crê que vale mais a pena
 viver do que morrer.

No pensamento social e filosófico a questão da  fé não está em alta. Antes pelo contrário, a maioria dos pensadores tributários dos mestres da suspeita e filhos da modernidade, colocam a fé sob suspeita, considerada como pensamento arcaico e mítico ou como cosmovisão do povo supersticioso e falto de conhecimento, na contramão do saber científico.

         Como quer que interpretemos a fé, o fato é que ela está ai e mobiliza milhões de jovens vindos de todo mundo para a Jornada Mundial da Juventude, além de outros milhares que acorreram para ver o novo Papa Francisco. Suspeito que nenhuma ideologia, causa ou outro tipo de lúder que não religioso consiga trazer para as ruas tão numerosa multidão. Pode-se dizer responsavelmente que ai vigora alienação e arcaismo?

         Tal fato nos leva a refletir sobre a relevância da fé na vida das pessoas. O conhecdido sociólogo Peter Berger mostrou em seu Rumor de anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural (1969) a falácia da secularização que pretendeu ter banido do espaço social a religião e o sagrado. Ambos ganharam novas formas mas estiveram sempre ai presentes, porque estão enraizados profundamente nas damandas fundamentais da vida humana.

         Imaginar que um dia o ser humano abandone totalmente a fé é tão inverossímil quanto esperar que nós para não ingerirmos alimentos quimicalizados ou transgênicos deixemos uma vez por todas de comer. Quero abordar a fé em seu sentido mais comezinho, para aquém das doutrinas, dogmas e religiões, pois ai aparece em sua densidade humana.

         Há um dado pre-reflexo que subjaz à existência de fé: a confiança na bondade fundamental da vida. Por mais absurdos que haja e os há quase em demasia, o ser humano crê que vale mais a pena viver do que morrer. Dou um simples exemplo: a criança acorda sobressaltada em plena noite; grita pela mãe  porque o pesadelo e a escuridão a encheram de medo. A mãe toma-a no colo, no gesto da magna mater, enche-a de carinho e lhe diz: “querida, não tenhas medo; está tudo bem, está tudo em ordem”. A criança, entre soluços, reconquista a confiança e dentro de pouco, adormece tranquila. Estará a mãe enganando a criança? Pois nem tudo está bem. E contudo sentimos que a mãe não mente à criança. Apesar das contradições, há uma confiança de que uma ordem básica perpassa a realidade. Esta  impede que o absurdo tenha a primazia.

         Crer é dizer:”sim e amém” à realidade. O filósofo L. Wittgenstein podia dizer em seu Tractatus logico-philosophicus: “Crer é afirmar que a vida tem sentido”. Este é o significado bíblico para fé –he’emin ou amam – que quer dizer: estar seguro e confiante. Daí vem o “amém” que significa:“é isso mesmo”. Ter fé é estar seguro no sentido da vida.

         Essa fé é um dado antropológico de base. Nem pensamos nele, porque vivemos dentro dele: vale a pena viver e sacrificar-se para realizar um sentido que valha a pena.

         Dizer que este sentido da vida é Deus é o discurso das religiões. Esse sentido pervade a pessoa, a sociedade e o universo, não obstante nossas infindáveis interrogações. Escreveu  o Papa Francisco na encíclica Lumen Fidei:”A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas mas é uma lâmpada que guia nossos passos na noite e isto basta para o caminho”.

         Dizer que esse sentido, Deus, se acercou de nós e que assumiu nossa carne quente e mortal em Jesus de Nazaré é a leitura da fé cristã. Em nome desta fé em Jesus morto e ressuscitado, se reuniram esses milhares de jovens e acorreram mais de dois milhões de pessoas em Copacabana.

         Entre outros traços do carisma do Papa Francisco é sua fé cristalina que o torna tão despojado, sem medo (o que se opõe à fé não é o ateismo mas o medo) que busca proximidade com as pessoas especialmente com os pobres. Ele inspira o que é próprio da fé: a confiança e o sentimento de segurança. É o arquétipo do pai bom que  mostra direção e confiança.

         Fez uma conclamação importante, verdadeira lição para muitos movimentos no Brasil: a fé tem que ter os olhos abertos para as chagas dos pobres, estar perto deles e as mãos operosas para erradicar as causas que produzem esta pobreza.

         Na Jornada houve belíssimas celebrações e canções cujo tom era de piedade. Entretanto, não se escutaram as belas canções engajadas das milhares comunidades de base. Não se ouviram também  suas belas canções que falam do clamor das vítimas, dos indígenas e camponeses assassinados e do martírio da  Irmã Dorothy Stang e do Padre Josimo. O Papa Francisco enfatizou uma evangelização que se acerca do povo, na simplicidade e na pobreza. Repetiu muito:”não tenham medo”. O empenho pela justiça social cria conflitos, vítimas e suscita medo, que deve ser vencido pela fé.

         Voltemos ao tema da fé humana. Quantos são aqueles que se apresentam como ateus e agnósticos e no entanto possuem essa fé como afirmação do sentido da vida e se empenham para que seja justa e solidária. Talvez não a confessam em termos de Deus e de Jesus Cristo. Não importa. Pois a base subjacente a esta fé em Deus e Cristo está lá presente sem ser dita.

Esta fé básica impõe limites à pós-modernidade vulgar que se desinteressa por uma humanidade melhor e que não tem compromisso com a solidariedade pelo destino trágico dos sofredores. Outros, vendo o fervor da fé dos jovens e a comoção até às lágrimas sentem talvez saudades da fé da infância. E ai podem surgir impulsos que os animam a viver a fé humana fundamental e quem sabe se abrem até à fé num Deus e em Jesus Cristo. É um dom. Mas o dom de uma  conquista. E então um sentido maior se abre para uma vida mais feliz.
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* Teólogo. Filósofo. Escritor.
Fonte:  http://leonardoboff.wordpress.com/2013/07/28/jornada-internacional-da-juventude-celebracao-e-compromisso/
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Como tornar-se mais resiliente

 Mustafá Ali Kanso*
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Aprendendo a ser

Como vimos no artigo da semana passada, a resiliência psicológica caracteriza a nossa capacidade de enfrentar problemas, superar obstáculos e resistir à pressão de situações adversas sem que haja abatimento significativo de nosso ânimo ou mesmo dano permanente à nossa psicologia, de forma que possamos restituir integralmente nosso estado de equilíbrio emocional original.

Vimos também que a resiliência é apontada pelos especialistas como uma competência – tanto de indivíduos quanto de organizações – e como tal, pode ser ensinada e aprimorada.
Assim cabem duas perguntas determinantes:

Como faço para tornar-me mais resiliente? Como aprimorar minha resiliência para uma resposta mais rápida?

Vamos à primeira pergunta:

É consenso entre especialistas que existem características comuns entre os indivíduos com ampla capacidade de enfrentamento das adversidades, denominados, por esta razão, fatores de resiliência tais como: vontade de viver, autoestima, amor próprio, respeito próprio, esperança, crença, autonomia, iniciativa pessoal, autodeterminação, busca de significado para a vida, autoafirmação, preservação da identidade, curiosidade e capacidade de estabelecer bons relacionamentos.

Se eu quiser me tornar mais resiliente, devo procurar incrementar cada um desses fatores.

Evidentemente é um processo que se inicia na infância e avança muitas vezes de forma natural, reunindo consciência, atitudes e habilidades ativadas nos processos de enfrentamento de situações em todos os campos da vida.

Na vida adulta a resiliência se comporta como uma tomada de decisão quando alguém se depara com um contexto entre a tensão do ambiente e a vontade de vencer.

Essas decisões propiciam desenvolvimento de forças no indivíduo, forças essas arregimentadas com o objetivo claro de se efetuar o enfrentamento das adversidades.

Numa analogia grosseira, poderia se dizer que o indivíduo arregimenta valores morais durante a vida, como alguém que organiza um kit de sobrevivência na selva. No momento de emergência pode fazer uso desses componentes para resolver as contingências.

Cabe também salientar, que apenas o fato de possuir tal kit, já tua como um elemento tranquilizador no momento em que ocorrem as tensões. Daí o sangue frio de um indivíduo resiliente no momento de enfrentamento das adversidades.

Num outro exemplo, o motorista que ao efetuar uma viagem de carro, prepara-se com antecedência, efetuando a revisão no veículo, conferindo o kit de segurança, etc., viaja com maior tranquilidade.

Assim entendido, pode-se considerar que a resiliência é uma combinação de fatores que propiciam ao ser humano condições para enfrentar e superar problemas e adversidades.

Daí, no instante do enfrentamento não faltarem “soluções” em seu “kit de sobrevivência”.

É fácil entender também o porquê de muitos indivíduos resilientes não ficarem “destroçados psicologicamente” antes, durante ou depois do enfrentamento de um grande problema:
  • Primeiro, por que confiam em si mesmos e em sua capacidade de resolver problemas.
  •  
  • Segundo, por que sempre dão o melhor de si nesse enfrentamento da adversidade (não cabendo, a posteriori, nenhuma forma de arrependimento ou remorso).
  •  
  • Terceiro, por que possuem a consciência de seu verdadeiro tamanho.
Nessa constatação fica evidente que existem problemas cuja solução é coletiva e/ou depende de habilidades muito além de sua capacidade, daí a necessidade de capacitação e do trabalho em equipe.

Fórmulas mágicas  x  aprendizado

Também é evidente que não existem fórmulas mágicas ou receitas milagrosas para que um indivíduo se torne resiliente da noite para o dia.

Aliás, a maioria das pessoas peca exatamente nesse quesito:

- Procura por uma chave mestra capaz de resolver todos os problemas da vida.

Muitos descobrem às duras penas que isso não existe, e assim perdem as esperanças, tornando-se amargos, pessimistas e derrotados.

Outros, atemorizados perante a vida,  se entregam a toda sorte de crendices e superstições, tentando delegar a outros aquilo que é unicamente de sua responsabilidade.

O determinante, a meu ver, é buscar o esclarecimento, como diz Immanuel Kant em seu idealismo transcendente.

Algo como aprender a fabricar chaves.

O esclarecimento, nesse viés, é aprender a fazer uso de seu próprio entendimento. De sua própria capacidade de resolver problemas.

Afinal, essa é uma das razões de nossa razão. Resolver problemas. Afinal, para que serve nossa inteligência?

Para Kant, os maiores problemas nesse enfrentamento, no desenvolvimento dessa capacidade do ser humano de “caminhar com as próprias pernas” é a preguiça e a covardia.

Para a maioria dos seres humanos é bastante cômodo permanecer na área de conforto e delegar a outros que pensem, que decidam e que façam por ele aquilo que nega a si mesmo.

(Eis aí o método de fabricar chaves: pensar, decidir e fazer – enquanto muitos usam o: delegar, postergar e fugir).

Preparar-se para a vida e enfrentar as adversidades exige esforço – por isso muitos se perguntam:  para quê se esforçar?  Porquanto ainda existam outros a quem se possa delegar a solução de nossos problemas? Ou, senão, pelo menos inferir a culpa de nossas desgraças.

Segundo Kant, os seres humanos quando permanecem nessa “menoridade”, são incapazes de tomar suas próprias decisões e de fazer suas próprias escolhas.

Daí serem derrotados e destroçados perante a menor dificuldade.

É importante frisar que o direito de tomar suas próprias decisões denomina-se liberdade – essa capacidade de ser causa e não apenas efeito.

Assim, se alguém me pede uma dica de como nos tornarmos mais resilientes eu respondo que o primeiro passo é refletir sobre esse questionamento Kantiano e colocar, a cada dia, mais coragem e mais vontade em nossa caminhada pela vida.

E como reza a sabedoria popular toda grande caminhada se inicia com um primeiro e decisivo passo.
E os demais passos que se sucedem e que sustenta a caminhada?

Bem, esse já é um assunto para um próximo artigo. Não perca!
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*  Mustafá Ali Kanso é escritor, professor, engenheiro químico, empresário da mídia educacional e divulgador científico em programas culturais da TV.
 mustafa@hiperciencia.com
  Site
Fonte: http://hypescience.com/

O voto do Papa

Paulo Brossard*

 

Havia escrito artigo em que analisava as chamadas reformas para mostrar que os empreendimentos humanos sempre admitem reformas ou que outro nome recebam, dado que nunca são perfeitos; é natural que se corrija o corrigível para aperfeiçoar e não para piorar, o que é óbvio, e o que escrevi a respeito era exatamente isto, procurei mostrar que algumas medidas anunciadas como aprovadas pelo Congresso chegavam a ser ineptas, ineptas no sentido jurídico, que nada tem de ofensivo, por dizer apenas que não são aptas a corrigir um defeito ou suprir uma deficiência.

Mas acabando de ler o que o Papa proferira no Teatro Municipal do Rio endereçado a políticos e empresários ou para dirigentes como também ele disse, devo dizer que a passagem de Sua Santidade pelo Brasil, a meu juízo extraordinária, rica em termos espirituais e sem esquecer questões profanas, cada qual de maneira adequada; basta dizer que ele não deixou de enfrentar o mundo da política, talvez o mais profano, porque a um tempo agrupa todas as grandezas e misérias de que o homem é capaz e o papa Francisco, como se autodenominou, pediu a reabilitação da política.

Desde estudante até o dia em que vesti a toga de juiz, exerci atividade política inclusive partidária, ou seja, de 1945 a 1989, durante mais de 40 anos, frequentei o mundo cuja reabilitação é pedida pelo Papa; nessa longa peregrinação tive a fortuna de privar com as melhores figuras que me foi dado conhecer e outras que comporiam o polo contrário; pensei de imediato na importância da sentença de alguém como o Papa em relação a um setor da vida brasileira que deveria ser o mais qualificado da sociedade. Seja por esta, seja por aquela razão, a verdade é que todas as opiniões têm curso nesse setor, e o mais raro é o que permanecesse na linha média, nem das excelências, nem das fraquezas, razão pela qual me parece que de ordinário é um setor malvisto e mal compreendido e, por conseguinte, também mal apreciado. De modo que, ao ler o que dissera o papa Francisco a respeito da reabilitação da política, senti mais uma vez a marca da profundidade da observação papal ante a singeleza da palavra reabilitação. Reabilitação diz muito, mais do que parece.

Desde que conheci a Raul Pilla, nele vi um homem cuja vida pública, política, funcional, profissional e pessoal formavam uma unidade. Mostrou mais de uma vez sua capacidade de transigir, de ceder, de contemporizar, mas mantendo-se sempre fiel ao norte fixado. Ao ser promulgada a Constituição de 1946, o centro acadêmico dos universitários da então Universidade de Porto Alegre, hoje do Rio Grande do Sul, prestou uma homenagem a dois constituintes professores da universidade: um da Faculdade de Direito, Elói José da Rocha, outro da Faculdade de Medicina, Raul Pilla. No discurso que este proferiu agradecendo a homenagem, ele disse: É a política ao mesmo tempo a mais bela e a mais feia, a mais nobre e a mais desprezível das atividades humanas, tanto mais desprezível e feia nas suas deformações, quanto mais nobre e bela na sua pureza originária. Porque, se ela se pode definir a arte do bem comum, converte-se na arte do mal supremo, quando se deixa tomar da paixão do poder e esquece os seus altos objetivos. Tenho para mim que a denominada classe política com ou sem razão decente, desfruta de mau conceito; é verdade que a função dos parlamentos tradicionalmente é vista com malquerença, mas hoje esta nota está agravada, o que me faz pensar que nunca foi tão oportuna a súplica papal quanto à reabilitação da política. É um trabalho a ser feito, à maneira de Tácito, sine ira et studio.
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*Ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal
Fonte: ZH on line, 29/07/2013
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“Jovem que não protesta não me agrada”

Papa Francisco concedeu primeira entrevista após eleição ao Fantástico, da TV Globo (Crédito: Reprodução TV Globo)

O programa Fantástico da Rede Globo exibiu ontem à noite 
uma entrevista exclusiva com o Papa.

O repórter Gerson Camarotti, da GloboNews, foi recebido na quinta-feira por Francisco, na residência Assunção, no Morro do Sumaré, onde o Pontífice ficou hospedado durante sua passagem pelo Rio de Janeiro. Confira os principais pontos da conversa:

Indisciplinado com a Segurança 

“Eu não sinto medo. Sei que ninguém morre de véspera. Quando acontecer, o que Deus permitir, será. Eu não poderia vir ver este povo, que tem um coração tão grande, detrás de uma caixa de vidro. As duas seguranças (do Vaticano e do Brasil) trabalharam muito bem. Mas ambas sabem que sou um indisciplinado nesse aspecto.”

Por mais simplicidade

“Nosso povo exige a pobreza de nossos sacerdotes. O povo sente seu coração magoado quando nós, as pessoas consagradas, estamos apegadas a dinheiro. Realmente não é um bom exemplo que um sacerdote tenha um carro de último tipo, de marca. É necessário que o padre tenha um carro, mas tem de ser um carro modesto. O carro que estou usando aqui é muito parecido com o que eu uso em Roma. Simples, do tipo que qualquer um pode ter. Penso que temos que dar testemunho de uma certa simplicidade – eu diria, inclusive, de pobreza.”

A moradia do Papa no vaticano

“Quanto à decisão de viver em Santa Marta, não foi tanto por razões de simplicidade. Porque o apartamento papal é grande, mas não é luxuoso. Mas a minha decisão de ficar em Santa Marta tem a ver com o meu modo de ser. Não consigo viver só, não posso viver fechado. Preciso de contato com as pessoas, então, fiquei em Santa Marta ‘por razões psiquiátricas’. Para não ter de estar sofrendo essa solidão que não me faz bem. É para estar com as pessoas. Santa Marta é uma casa de hóspedes em que vivem uns 40 bispos e sacerdotes que trabalham na Santa Sé. Tem uns 130 cômodos, mais ou menos. Sacerdotes, bispos, cardeais e leigos que se hospedam em Roma ficam lá. Eu como no refeitório com todos. E a gente sempre encontra gente diferente, e isso me faz bem.”

Perda de fiéis pela igreja

“Não saberia explicar esse fenômeno. Vou levantar uma hipótese. Para mim é fundamental a proximidade da Igreja. Porque a Igreja é mãe, e nem você nem eu conhecemos uma mãe por correspondência. A mãe... dá carinho, toca, beija, ama. Quando a Igreja, ocupada com mil coisas, se descuida dessa proximidade, se descuida disso e só se comunica com documentos, é como uma mãe que se comunica com seu filho por carta. Não sei se foi isso o que aconteceu no Brasil. Não sei, mas sei que em alguns lugares da Argentina que conheço isso aconteceu.”

Globalização da indiferença

“Hoje em dia há crianças que não têm o que comer no mundo. Crianças que morrem de fome, de desnutrição. Há doentes que não têm acesso a tratamento. Há homens e mulheres que são mendigos de rua e morrem de frio no inverno. Há crianças que não têm educação. Nada disso é notícia. Mas quando as bolsas de algumas capitais caem três ou quatro pontos, isso é tratado como uma grande catástrofe mundial. Esse é o drama do humanismo desumano que estamos vivendo. Por isso, é preciso recuperar crianças e jovens, e não cair numa globalização da indiferença.”

Corrupção no Vaticano

“Agora mesmo temos um escândalo de transferência de 10 ou 20 milhões de dólares de um monsenhor. Belo favor faz esse senhor à Igreja, não é? Mas é preciso reconhecer que ele agiu mal, e a Igreja tem de dar a ele a punição que merece, pois agiu mal. No momento do conclave, antes temos o que chamamos congregações gerais – uma semana de reuniões dos cardeais. Naquela ocasião, falamos claramente dos problemas. Falamos de tudo. Porque estávamos sozinhos, e para saber qual era a realidade e traçar o perfil do novo Papa. E dali saíram problemas sérios, derivados em parte de tudo o que vocês conhecem: do Vatileaks e assim por diante. Havia problemas de escândalos. Mas também havia os santos. Esses homens que deram sua vida para trabalhar pela Igreja de maneira silenciosa no Conselho Apostólico.”

Protestos dos jovens

“Com toda a franqueza lhe digo: não sei bem por que os jovens estão protestando. Esse é o primeiro ponto. Segundo ponto: um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre ruim. A utopia é respirar e olhar adiante. O jovem é mais espontâneo, não tem tanta experiência de vida, é verdade. Mas às vezes a experiência nos freia. E ele tem mais energia para defender suas ideias. O jovem é essencialmente um inconformista. E isso é muito lindo! É preciso ouvir os jovens, dar-lhes lugares para se expressar, e cuidar para que não sejam manipulados.”

Idolatria ao dinheiro

“Esse mundo atual em que vivemos tinha caído na feroz idolatria do dinheiro. E há uma política mundial muito impregnada pelo protagonismo do dinheiro. Quem manda, hoje, é o dinheiro, e isso significa uma política mundial economicista, sem qualquer controle ético. Um economicismo autossuficiente que vai arrumando os grupos sociais de acordo com essa conveniência.”

Descarte de jovens e idosos

“Quando reina esse mundo da feroz idolatria do dinheiro, se concentra muito no centro, e as pontas da sociedade, os extremos, são mal atendidos, não são cuidados e são descartados. Vimos muito claramente como se descartam os idosos. Não servem, não produzem. Os jovens também não produzem muito. É uma ponta em vias de ser descartada. O alto percentual de desemprego entre os jovens na Europa é alarmante. Para sustentar esse modelo político mundial, estamos descartando os extremos: os que são promessa para o futuro e os idosos, que precisam transferir sabedoria para os jovens. Descartando os dois, o mundo desaba.”

Diferentes religiões

“Creio que é preciso estimular uma cultura do encontro em todo o mundo. Acho que é importante que todos trabalhemos pelos outros, podar o egoísmo. Um trabalho pelos outros segundo os valores de sua fé. Cada religião tem suas crenças. Se há uma criança que tem fome, que não tem educação, o que deve nos mobilizar é que deixe de ter fome e que tenha educação. Se essa educação virá dos católicos, dos protestantes, dos ortodoxos ou dos judeus, não importa. O que me importa é que o eduquem e que saciem a sua fome. Temos de chegar a um acordo quanto a isso. Hoje a urgência é de tal ordem que não podemos brigar entre nós à custa do sofrimento alheio. Sobretudo, hoje em dia, urge a proximidade.”
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Fonte:  ZH on line, 29/07/2013
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O poder do papa

Luís Fernando Veríssimo* 
 
Os papas já tiveram o poder de reis. A história da Europa é, em grande parte, a história desta divisão de poder e da luta entre os dois absolutismos, o dos papas e o dos monarcas. O Geoffrey Barraclough (historiador favorito do Paulo Francis quando este ainda era de esquerda e escrevia no “Pasquim”) tinha uma tese segundo a qual a rivalidade de Roma com os reis explicava a superioridade da Europa sobre as sociedades orientais, que já eram civilizadas quando a Europa ainda era terra de bárbaros, mas governadas por dinastias antigas, rígidas e incontestadas, e por isso paradas no tempo. Na Europa, quem não quisesse se submeter a uma monarquia tinha a opção de se submeter à Igreja. A troca era de um império teocrático por outro, claro, mas criou-se o hábito de dissidência e de pensamento dialético, prólogo para o desenvolvimento científico que viria depois, apesar do obscurantismo da Igreja. E a opção determinou que a Europa não fosse um império monolítico, e sim uma coleção de pequenos Estados. Acima de tudo, o pluralismo reforçou a independência e a importância das cidades comerciais – Milão, Palermo, Gênova, Veneza, Marselha, Barcelona, Antuérpia, Southampton, Lisboa, as cidades da Liga Hanseática (o primeiro ensaio de um mercado comum europeu) etc., – cuja competição impulsionaria as descobertas e a expansão colonial. Tudo isto porque os papas eram iguais aos reis, inclusive na pretensão de representarem a vontade de Deus na Terra, com exclusividade.

Dizem que certa vez o Stalin reagiu à notícia de que o Vaticano o teria reprovado, por alguma razão, com a pergunta desdenhosa: “E quantas divisões tem o papa?” Desde que perdeu seu poder que rivalizava com o dos reis, o papa só tem a seu dispor a Guarda Suíça, e assim mesmo para fins decorativos. Mas o Vaticano é o grande exemplo de um Estado cuja potência não se mede com armas – pelo menos não com armas convencionais. Atualmente, a julgar pela recepção que ele teve no Brasil, o arsenal do Vaticano se resume no sorriso simpático de um homem. A Igreja não tem mais a relevância política e histórica que teve antigamente, e sacrificou muito da sua autoridade moral com posições retrógradas e escândalos financeiros e sexuais. Mas a emoção das multidões que ele mobilizou serviria como uma resposta ao Stalin.
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* Jornalista. Escritor. Colunista da ZH.
Fonte: ZH on line, 29/07/2013
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O guia da elegância de Balzac

Camila Nogueira*

"A elegância é a a ciência que nos ensina a não fazer nada como os outros, mas aparentando fazer tudo como eles."
“A elegância é a a ciência que nos ensina 
a não fazer nada como os outros, 
mas aparentando fazer tudo como eles.”

Numa conversa fictícia, o escritor francês nos ensina os princípios básicos da vida elegante.

Monsieur de Balzac, em seu “Tratado da Vida Elegante” o senhor divide a humanidade em três segmentos. Quais são eles?
A civilização, eu suponho, realmente dividiu os homens em três únicos segmentos – o homem que trabalha, o homem que pensa e o homem que não faz nada. Daí, pode-se dizer que há três tipos de vida – a vida ocupada, a vida de artista e a vida elegante.

O senhor poderia explicá-las mais detalhadamente, focando na vida elegante?
Sim. Devemos começar com a vida ocupada. O tema da vida ocupada não tem variantes. Ao ocupar as mãos, o homem abdica de todo um destino; ele se torna um meio e, apesar de toda a nossa filantropia, apenas os produtos de seu trabalho se tornam merecedores de nossa admiração – afinal das contas, os operários não passam de espécies de correias de transmissão e confundem-se com os carrinhos de mão, as pás e as picaretas.

Acho que o senhor está sendo injusto.
Na verdade, não estou. Semelhantes às máquinas a vapor, os homens arregimentados para o trabalho são todos produzidos da mesma forma e não tem nada de individual. O homem instrumento é uma espécie de zero social.

Mas e a vida de artista?
O artista é uma exceção: sua ociosidade é um trabalho e seu trabalho, um repouso; ele é, alternadamente, elegante e desleixado; veste-se, a seu bel-prazer, a camisa do operário, e decide-se pelo fraque trajado do homem da moda; não está sujeito a leis: ele as impõe. O artista é sempre a expressão de um pensamento que domina a sociedade. E também é sempre grande, tendo uma elegância e uma vida própria. Neles a moda não deve ser imposta: esses seres indomáveis moldam tudo a seu gosto.

E, por fim, a vida elegante?
A vida elegante é a perfeição da vida exterior e material, ou antes a arte de despender as suas rendas como homem de espírito. Ainda podemos chama-la de “a ciência que nos ensina a não fazer nada como os outros, mas aparentando fazer tudo como eles.” Principalmente, digamos que ser elegante é saber orgulhar-se de sua fortuna.

O senhor considera a vida elegante louvável ou frívola?
Eu a considero louvável, embora reconheça que há suas desvantagens. Na doutrina de Saint-Simon, a vida elegante é considerada a maior doença que uma sociedade poderia sofrer, partindo do princípio de que uma grande fortuna é um roubo. E, segundo Chodruc, ela é um tecido de frivolidades e palavras ocas. Mas a verdade é que a elegância dá um aspecto mais pitoresco a um país e melhora a agricultura. Ela é maravilhosa.

E há, consequentemente, uma diferença entre as classes sociais e um tipo de segregação, não é? Afinal, nem todos desfrutam dos mesmos privilégios monetários.
De fato, uma vez que um povo constituído apenas de ricos é um sonho político impossível de ser realizado. Uma nação compõe-se necessariamente de pessoas que produzem e de pessoas que consomem. Como se explica que aquele que semeia, planta, rega e colhe é precisamente aquele que menos come?

Como é que se explica?
Explica-se da seguinte maneira: Desde que as sociedades existem, um governo tem necessariamente sido, sempre, um contrato de segurança concluído entre os ricos contra os pobres. É do desejo de não pertencer à classe sofrida e humilhada e da paixão geral pela fortuna que derivam a nobreza, a aristocracia, as distinções, etc.

E como surgiu a vida elegante?
Quando reconheceu-se que é infinitamente agradável, para um homem ou uma mulher, pensar, olhando seus concidadãos: “Estou acima deles; eu os deslumbro, os projeto e os governo.” Foi então que surgiu a vida elegante, aumentada e ressuscitada por esse monólogo maravilhosamente moral, religioso, monárquico, literário, constitucional, egoísta: “Eu deslumbro, eu protejo, eu…” etc, pois os princípios segundo os quais se conduzem e vivem as pessoas que tem talento, poder e dinheiro não se assemelharão jamais aos da vida vulgar.

Qualquer pessoa rica pode viver a vida elegante?
É claro que não. Não basta ter nascido ou ter se tornado rico para levar a vida elegante; é preciso ter o sentimento disso. “Não pose de príncipe”, disse Sólon, “se você não aprendeu a sê-lo.” Ou, melhor dizendo, um homem torna-se rico, mas nasce elegante.

Monsieur de Balzac, o senhor considera que a Revolução Francesa diminuiu as diferenças entre os pobres e os ricos, guilhotinando vários aristocratas?
Querida, a Revolução Francesa apenas deixou ainda mais claras todas essas diferenças. Em nossa querida França, um nobre poderia fazer dívidas, viver nos cabarés, não saber escrever ou falar, ser ignorante, estúpido; prostituir seu caráter ou corpo, dizer besteiras, e continuar nobre. O carrasco e a lei distinguiam-no de todos os pobres, cortando-lhe a cabeça em vem de enforcá-lo. Mas, apesar do progresso evidente dado à ordem social pelo movimento de 1789, o abuso necessário que constitui a desigualdade das fortunas recriou-se sob novas formas.

Bem, isso é discutível. Mas vamos passar para o próximo ponto. O que distingue o homem ocioso do homem ocupado?
Os ociosos não são mais fetiches, mas verdadeiros deuses. O saber viver, a elegância de maneiras, o não sei o quê, fruto de uma educação completa, forma a única barreira que separa o ocioso do homem ocupado. Se existe um privilégio, ele provém da superioridade moral.

Nós reconhecemos o ocioso no momento em que o encontramos?
Diz-se, meu bem, que o espírito de um homem adivinha-se pela maneira como ele porta sua bengala.

Boa frase! Mas, nos dias de hoje, quase ninguém usa bengala só por considera-la elegante…
Nesse caso, vamos simplificar as coisas. Digamos apenas que a toalete é a expressão da sociedade. E quando digo toalete, veja bem, estou me referindo tanto ao ato de se lavar, pentear, maquiar e vestir quanto ao conjunto de peças de vestiário, adereços, enfeites, cosméticos, etc.

Ok. Mas o que significa que a toalete é a expressão da sociedade?
Você veste um gorro verde? Você é um homem sem honra.

Risos.
Brummell tinha razão em ver a toalete como o ponto culminante da vida elegante; pois ela domina as opiniões, ela as determina, ela reina! É talvez uma desgraça, mas assim funciona o mundo. Onde há muitos tolos, as tolices se perpetuam. O descuido com a toalete é um suicídio moral.

Uma pessoa pode se tornar elegante? Eu digo, com bastante esforço e perseverança?
Essa não é uma pergunta fácil. Mas acho que sim. Embora a elegância seja menos uma arte do que um sentimento, ela provém tanto de um instinto quanto de um hábito.
"O descuido com a toalete é um suicídio moral."
“O descuido com a toalete é um suicídio moral.”

Há alguma coisa que impeça uma pessoa de ser elegante? Isto é, além do que falamos até agora?
Sim. Primeiro, estão fora da vida elegante os varejistas, os homens de negócios e os professores de humanidade. Depois, o banqueiro que chegou aos quarenta anos sem ter declarado falência, ou que tem mais de trinta e seis polegadas de cintura, é o camarada que verá o paraíso sem nunca aí entrar. E há o mais importante…

O que é o mais importante?
A criatura que não vem frequentemente a Paris jamais será completamente elegante.

Um dos sete pecados capitais do Cristianismo é a luxúria. Isso parece meio tolo, não é?
Muito tolo, mas a verdade é que há perfeições revoltantes. Mas analisemos a questão de modo imparcial. A Igreja reconhece sete pecados capitais e não admita mais que três virtudes teologais. Temos, pois, sete princípios de remorso contra três fontes de consolação – o bem não tem senão o modo; o mal tem mil. Nenhuma criatura humana, sem excetuar Santa Teresa nem São Francisco de Assis, conseguiu escapar às consequências dessa proposição fatal.

Entendo. Bem, nós já conversamos sobre as origens da vida elegante. E, agora, acho que seria conveniente falarmos sobre os pilares dela. Sob quais princípios e ideias a vida elegante se sustenta?
O princípio constitutivo da elegância é a unidade. Não existe unidade possível sem o esmero, sem a harmonia, sem a simplicidade relativa. Mas não é a simplicidade antes da harmonia, nem a harmonia antes do esmero, que produz a elegância: ela nasce de uma concordância misteriosa entre essas três virtudes primordiais.

Hmmm…
É por isso que, na vida elegante, uma única cadeira deve determinar toda uma série de móveis. Uma certa maneira de vestir-se anuncia uma certa esfera de nobreza e de bom gosto. Cada fortuna tem sua base e seu cume. Os Georges Cuviers da elegância nunca se expõem a formular juízos errôneos: eles lhe dirão a qual quantidade de zeros, na cifra das rendas, devem pertencer as galerias de quadros, os cavalos de pura raça, os tapetes da Savonnerie, as cortinas de seda diáfana, as lareiras de mosaico, os vasos etruscos e os relógios encabeçados por uma estátua saída do cinzel dos Davids. Tragam-lhe, enfim, apenas uma patera: deduzirá daí todo um toucador um aposento, um palácio.

Eu entendi tudo o que o senhor disse, Monsieur, e o considero genial. Mas, de qualquer modo, não consigo compreender como essa gente consegue manter hábitos tão horrivelmente caros. Eu digo, por mais ricos que possam ser, poucas fortunas aguentam sustentar cavalos de pura raça, galerias de quadros, vasos etruscos e assim por diante.
O efeito mais essencial da elegância consiste em ocultar os meios. Tudo o que revela uma economia é deselegante. Com efeito, a economia é um meio. É o nervo de uma boa administração, mas assemelha-se ao óleo que fornece a flexibilidade e a suavidade às engrenagens de uma máquina: não deve ser vista nem sentida.

Só para encerrarmos, Monsieur de Balzac, tenho uma pergunta. A vida elegante produz criaturas perfeitas?
Deus, não! As mulheres deveriam compreender que um defeito pode lhes dar enormes vantagens. A Srta. De la Vallière mancava com graça e conquistou um rei. Na verdade, o homem perfeito ou a mulher perfeita são os mais vazios dos seres.
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 * Camila Nogueira, nossa correspondente de literatura, tem a impressionante capacidade de ler romances de 600 páginas em dois dias -- e depois citar frases inteiras da obra. Com apenas 16 anos, ela já leu as obras completas dos maiores mestres da literatura - como Balzac, Dumas, Fitzgerald e Dickens.
Fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-guia-da-elegancia-de-balzac/#top

Por que os filósofos recomendam que nos calemos

Paulo Nogueira*

Montaigne achava que devíamos ouvir mais que falar
O silêncio não causa sede e 
é um traço de nobreza.
Montaigne achava que devíamos
 ouvir mais que falar

Como se expressar, seja escrevendo, seja falando? Essa é uma das questões presentes desde sempre para a humanidade.

Na vida profissional ou amorosa, numa apresentação de trabalho a seus chefes na empresa ou numa mera conversa de bar, comunicar-se faz bem faz toda a diferença.

Muitos sábios se detiveram nesse tema. Quase todos condenaram a verborragia, a eloqüência desmedida, a suntuosidade verbal.

A opção é pela simplicidade e pela brevidade. Uma pessoa afetada na maneira de falar ou escrever é afetada em outras esferas.

“A verdade precisa falar uma linguagem simples, sem artifícios”, escreveu um filósofo da Antigüidade.

Montaigne dedicou linhas brilhantes ao assunto em seus Ensaios.

Montaigne conta duas histórias instrutivas e divertidas. Numa delas, os embaixadores de uma cidade grega tentavam convencer o rei de Esparta a aderir a um esforço de guerra.

O Espartano deixou-os falar longamente. Depois disse: “Não lembro do começo nem do meio da argumentação de vocês. Quanto à conclusão, simplesmente não me interessa”.

Na outra história, dois arquitetos atenienses disputavam a honra de construir um grande edifício. A platéia à qual cabia  a escolha ouviu um extenso discurso do primeiro arquiteto.

As pessoas já se inclinavam por ele quando o segundo disse apenas: “Senhores atenienses, o que este acaba de dizer eu vou fazer”.

Montaigne cita seu pensador predileto, o romano Sêneca, segundo o qual nos grandes arroubos da eloqüência há “mais ruído que sentido”.

Escreveu Montaigne: “Gosto de uma linguagem simples e pura, a escrita como a falada, e suculenta, e nervosa, breve e concisa, não delicada e louçã, mas veemente e brusca. Uma linguagem  sem afetação, expressiva em todos os seus aspectos, não uma linguagem pedante, fradesca, ou de advogado, mas de preferência soldadesca como Suetônio qualifica a de Júlio César, embora eu não perceba muito bem por quê”.

Os espartanos eram admirados por Montaigne pela simplicidade com que  viviam e se expressavam.
Ele conta que uma vez perguntaram a uma autoridade de  Esparta por que não colocavam por escrito as regras da valentia para que os jovens pudessem lê-las.

A resposta foi que os espartanos queriam acostumar seus jovens antes aos feitos que às palavras. “O mundo é apenas tagarelice e nunca vi homem que não dissesse antes mais do que menos do que devia”, disse Montaigne.

Outro mestre de Montaigne, Plutarco, autor de Vidas Paralelas, mostrou que falar demais pode ser perigoso. “A palavra expõe-nos, como nos ensina o divino Platão, aos mais pesados castigos que deuses e homens podem infligir”, disse Plutarco. “Mas o silêncio jamais tem contas a dar. Não só não causa sede como confere um traço de nobreza.”

Não falar nada é, não raro, a melhor coisa que temos a dizer, mas uma força irresistível parece sempre nos empurrar para o “mundo da tagarelice” tão bem definido por Montaigne.

E então, estamos condenados a produzir “mais ruído que sentido”, para lembrar a grande tirada de Sêneca.
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* O jornalista Paulo Nogueira, baseado em Londres, é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
Fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-os-filosofos-recomendam-que-nos-calemos/26/07/2013

domingo, 28 de julho de 2013

Igreja Católica vive o espírito da revitalização com Papa Francisco

 

Teóloga Maria Clara Bingemer faz uma análise da passagem do pontífice na JMJ

Desde o momento em que pisou no solo brasileiro, Papa Francisco deixou evidente para o mundo o perfil do papado, não permitindo que protocolos interfiram no que ele mais preza como líder mundial da Igreja Católica: estar perto dos fiéis. Em sua primeira viagem internacional, Jorge Bergoglio surpreendeu jovens e adultos de todas as religiões com atitudes simples,  discursos diretos e firmes, gestos sinceros e, principalmente, a quebra de regras oficiais para estar tão próximo ao seu “rebanho” a ponto de tocá-lo, o que para muitos católicos representou um “verdadeiro milagre”. 

A coerência naquilo que prega e pratica no cotidiano é uma marca de Bergoglio desde o tempo em que era cardeal em Buenos Aires. A sua passagem pelo Brasil despertou nos religiosos e teólogos o sentimento que antes se distanciava do mundo, o da certeza que a Igreja Católica conseguirá reconquistar os fiéis de se “desgarraram” ao longo dos últimos anos. Papa Francisco chegou à Santa Sé com uma missão que parecia complicada, mas a sua visita ao Brasil mudou os pensamentos dos mais incrédulos e a Igreja Católica sai da Jornada Mundial da Juventude com um saldo positivo e animador, apesar de tantos “tropeços” provocados pelo não cumprimento de um protocolo estabelecido pelo Vaticano.

A teóloga Maria Clara Bingemer é autora do livro O Mistério e o mundo – Paixão por Deus em tempos de descrença, que avalia a crise das religiões provocadas por mudanças culturais em todo mundo. Ela avalia pontos importantes da visita do Papa Francisco ao Brasil na entrevista que concedeu ao Jornal do Brasil

Jornal do Brasil – Vaticano passa atualmente por profundas transformações. A senhora acha que o Papa Francisco chegou à Santa Sé para mudar, de imediato, a imagem da Igreja Católica?   
Maria Clara Bingemer - Acho que isto é um fato que ninguém pode negar. O Papa Francisco mudou a imagem da igreja em dias, já pouco depois de sua eleição. Instaurou um estilo mais casual, mais próximo, mais pessoal, que fala muito mais ao coração das pessoas. Com os jovens então é surpreendente o sucesso de sua comunicação. A gente sente que os jovens entendem o que ele fala, sintonizam com seu estilo de ser e de atuar. Acredito que isso pode ter uma influência benéfica para o futuro imediato da Igreja Católica, que perdeu tantos fiéis. Sobretudo, o que acho melhor de tudo é  a insistência dele em uma igreja mais pró-ativa, que não fique trancada na sacristia, que saia para a rua e vá ao encontro das pessoas. Sua declaração em um dos discursos no Rio: "quiero lío en las diocesis...”. Ou seja, "quero agito nas dioceses...". É original e fantástica para animar o espírito missionário.

Jornal do Brasil – Pelo pouco tempo de pontificado, dá para arriscar como será a postura do Papa Francisco na missão de mudar o Vaticano? 
Maria Clara Bingemer  - Acho que dá para avaliar que ele fará uma reforma séria e não superficial, só para constar. Creio, porém, que não devemos nos iludir. Há pontos muito difíceis de serem modificados e mexer. Há muita gente a quem não interessa muito que as coisas sejam mudadas ou reformadas. Mas  ele tem demonstrado que as coisas que acha que devem ser feitas, ele as fará. Por isso, acredito que uma boa parte das coisas será feita. 

Jornal do Brasil - Os teólogos criaram uma expectativa enorme com a vista do Papa, inclusive prevendo muitas surpresas. E o Papa realmente chegou quebrando protocolo, esbanjando simplicidade, criando polêmicas. Daquelas expectativas dos teólogos, o que se confirmou e o que mudou com a passagem do Papa Francisco pelo Rio? 
Maria Clara Bingemer- Para os teólogos realmente a impressão é das melhores.  Até este momento ele só tem dado mostras que quer voltar à boa teologia do Vaticano, que estava muito esquecida nos pontificados anteriores.  Ele tem uma visão de igreja muito positiva, realmente igreja como povo de Deus e não piramidal, sociedade perfeita. Além disso, tem reabilitado muito a teologia da libertação, com a ênfase que está dando à justiça social e à opção pelos pobres. 

Jornal do Brasil -  Vendo de tão perto, aqui do Brasil, qual a imagem do Papa Francisco que deve ficar para os católicos brasileiros, turistas no Rio e para o mundo, considerando que esta é a primeira viagem internacional do pontífice? 
Maria Clara Bingemer- Fica um perfil de carinho, proximidade, simpatia.  Gestos diretos, de proximidade, simplicidade. E um discurso claro, inteligível, ressaltando todo este aspecto missionário da igreja, que tem que sair e ir até as pessoas. Os católicos brasileiros estão agora com orgulho de ser católicos e sem medo de demonstrá-lo e apregoá-lo aos quatro ventos. 

Jornal do Brasil – E considerando que esse fato histórico aconteceu na Jornada Mundial da Juventude, qual a mensagem que a Papa deixou para os jovens de todas as nacionalidades? 
Maria Clara Bingemer - Para os jovens fica uma mensagem de esperança, de encorajamento para assumir com coragem sua missão de testemunhas do evangelho. E um alerta contra os ídolos que lhes esvaziam o sentido da vida e os mercadores da morte, que lhes oferecem as substâncias químicas que os matam. 

Jornal do Brasil – A quebra de protocolo surpreendeu. O que esse fato pode representar na comunicação do Papa com a comunidade católica no mundo e as expectativas que ficam para as próximas viagens a outros países. Ele deve manter essa postura em outros lugares?
Maria Clara Bingemer  - Isso eu acho que é o melhor dele. Esse dom de surpreender todo mundo com simplicidade, gentileza, amabilidade, simpatia e alegria. E algo que eu acho que ele não deixará de fazer, que aliás eu espero que ele não deixe de fazer. Porque dá uma nova imagem ao papado e a igreja católica. Vai ser muito importante nestas viagens que ele fará pelo mundo. 

Jornal do Brasil – No seu último livro, “O mistério e o mundo”, a senhora avalia de alguma forma a missão do Papa e a nova Igreja Católica? 
Maria Clara Bingemer  - Neste livro eu não analiso a missão do Papa.  Faço sim, uma analise da situação da religião e do Cristianismo nesta sociedade secularizada e plural. E justamente constato que o Cristianismo e a religião, em geral, foram perdendo espaço. Mas ao mesmo tempo, a sede de Deus não desapareceu do coração humano e os místicos contemporâneos são uma prova disso, com suas experiências de união com o mistério divino que gera atitudes éticas, transformadoras, impressionantes e profundas, ainda que não dentro dos moldes normalmente oficializados pela instituição. 

Jornal do Brasil - Pelos discursos do Papa no Rio, nos eventos da JMJ, o que podemos esperar de seu governo no Vaticano? 
Maria Clara Bingemer  - Penso que ele vai se esforçar para, além das reformas internas, reforçar esse novo rosto externo do Vaticano e da igreja. Vai relativizar tudo que é burocrático, institucional rígido, fora de moda e afastado da vida real das pessoas, para mostrar que o evangelho é libertador. Vai insistir na simplicidade e no despojamento como sinais reais que devem revestir àqueles que são testemunhas de Jesus Cristo no mundo de hoje. 

Jornal do Brasil – E as manifestações populares e até atos que vandalismo que ocorreram pelas ruas do Rio de Janeiro enquanto o Papa Francisco visitava a cidade, de alguma forma atrapalharam a participação dele na JMJ? 
Maria Clara Bingemer  - Penso que as especulações de alguns de que as manifestações tinham o objetivo de desestabilizar a visita do papa não procedem. Acho que o papa aprovaria muito as manifestações e suas revindicações. Não certamente os atos de vandalismo e violência. Depois da missa em Copacabana, foi bonito ver manifestantes e peregrinos confraternizando e estando juntos de certa maneira. No fundo, lutam por um mundo melhor e este sempre foi uma das vertentes mais fundamentais do evangelho.
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Reportagem por  Claudia Freitas
Fonte: Jornal do Brasil, 28/07/2013
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