quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A insônia da razão (Caderno Mais! – 12/02/1995)

Cioran: o pensador da amargura (Mais! - 12/02/1995)

"Ser desconhecido é uma volúpia"

Cioran: o pensador da amargura (Mais! - 12/02/1995)

Entrevista indefinida publicada no extinto suplemento cultural Mais!, da Folha de São Paulo (12/02/1995)

Foi assim que consegui resolver o meu problema e tudo isso foi necessário para viver sem exercer uma profissão. Mas tudo isso acabou, os moços, hoje, não têm mais essa possibilidade. Tem moços que vêm me visitar e que me dizem que gostariam de viver como eu. Mas é tarde demais. Tudo isso desapareceu, está acabado agora.

Pergunta - Mas o sr. continuou a trabalhar, a escrever ainda assim, o sr. publica bastante na Nouvelle Revue Française.
Cioran - É verdade. Não se pode viver totalmente no paraíso —quer dizer, na parasitagem. Eu compreendi que era preciso escrever e isso certamente correspondia a uma necessidade. Assim, publiquei meu primeiro livro em francês, Précis de Décomposition (Breviário de Decomposição).
Depois disso, tinha algumas vagas intenções e já me perguntava na época por que multiplicar livros. Por quê? De todo modo, das pessoas só restam algumas frases, não é? Mas é preciso dizer ainda que os dias são longos demais, e depois havia certamente também uma forma de vitalidade em jogo, uma necessidade de manifestação. Fui totalmente desconhecido por 30 anos, meus livros não tinham a menor saída. Eu aceitei muito bem essa condição e ela correspondia também à minha visão das coisas, até o momento em que vieram os livros de bolso. Acho que essa é a única maneira de tocar de verdade os leitores que se interessam por você.
E depois é o mecanismo de toda carreira literária; mas os únicos anos importantes são os de anonimato. Ser desconhecido é uma volúpia; tem lados amargos às vezes, mas é um estado extraordinário. Durante anos, fui apresentado nos salões —porque teve um tempo em que gostava de beber uísque e, como não podia comprar, ia às recepções— como o amigo de Ionesco e de Beckett. Aceitava muito bem essa condição. Por que não? Por que ser conhecido?
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Pergunta - Por que resolveu de repente escrever em francês?
Cioran - Eu tinha tomado a decisão de não voltar mais para a Romênia. Para mim, estava acabado, tudo isso, na verdade, me parecia fazer parte do passado, no sentido absoluto do termo. Eu estava num lugar perto de Dieppe, no litoral, em 1936, e tentava traduzir Mallarmé para o romeno. E, de repente, disse para mim mesmo: Não tenho o menor dom para isso, e foi subitamente que tomei a decisão de escrever em francês.
Até então, curiosamente, eu tinha negligenciado o francês, enquanto que estudava bastante o inglês, cheguei até a seguir o curso para a agrégation na Sorbonne. A decisão de escrever em francês —decisão tomada num minuto— revelou-se muito mais difícil de realizar do que eu pensava. Foi realmente um suplício. Escrevi quatro vezes meu primeiro livro, o que me deu até enjôo de escrever. Depois de escrever o Breviário de Decomposição, me dizia portanto que não valia a pena continuar a me atormentar. Publiquei os Silogismos da Amargura por cansaço. Não vale a pena fazer frases etc.
Depois, o processo continuou, apesar de tudo, e é preciso dizer também que Jean Paulhan me pedia o tempo todo para colaborar na Nouvelle Revue Française. Eu prometia, para depois me arrepender, depois queria cumprir minha promessa e foi assim que entrei numa espécie de engrenagem. Aceitava perfeitamente ficar na periferia.
Era totalmente desconhecido, mas isso não tem nada de desagradável, no fim das contas. São esses os anos de vida de um escritor, o escritor sem leitor —que conhece algumas pessoas e mais nada; isso tem lados desagradáveis no plano prático, mas é a época da verdadeira escritura, porque você tem a impressão de escrever para você mesmo.

Pergunta - Houve também uma motivação política que o levou a se desligar do romeno, da Romênia?
Cioran - O que é que eu vou fazer com o meu romeno em Paris? Eu tinha rompido com a Romênia: ela não existia mais para mim. Eu tinha prometido, na Romênia, que faria uma tese —coisa que nunca fiz. De todo modo, a Romênia para mim só representava o passado. Então para que escrever em romeno? E para quem?
E depois, o que eu escrevia nunca teria sido aceito pelo regime. Hoje eles aceitam os meus escritos e publicam o tempo todo meus artigos nas revistas.

Pergunta - É verdade que o sr. foi aberta e fanaticamente antidemocrata no fim dos anos 40?
Cioran - Sabe, a democracia na Romênia não era uma verdadeira democracia. Eu era antidemocrata porque a democracia não sabia se defender. Ataquei a democracia por causa da sua debilidade. Era um regime que não tinha instinto de conservação. E eu ataquei alguém por quem tinha a maior estima, Juliu Maniu, o chefe dos democratas romanos. Escrevi um artigo em que dizia que Maniu, que é o maior democrata do mundo, devia ter sido chefe de partido na Suécia, no país dos nórdicos. Mas não num país como a Romênia.
A democracia tem que se defender com todos os métodos e dar provas de vitalidade. Mas Maniu só lutava com conceitos puros e esses conceitos não têm nenhuma chance nos Balcãs. A democracia foi realmente deficiente na Romênia, não esteve à altura da situação histórica. Não se pode seguir gente assim, é a utopia encarnada nos Balcãs, não é possível. Houve democracia na Romênia, o partido liberal de Maniu, mas nas situações difíceis esse tipo de partido não aguenta, eles foram completamente ultrapassados pela história.

Pergunta - E a democracia ocidental?
Cioran - Há um certo automatismo no Ocidente, seja como for, porque a democracia nasceu aqui, ela pode sobreviver a si mesma. Mas pode desmoronar, nunca se sabe. O drama do liberalismo e da democracia é que nos momentos graves eles estão perdidos! Já se viu isso. A carreira de Hitler é o resultado da fraqueza democrática. A sua história é muito simples.

Pergunta - Qual é a ponte no seu pensamento entre o indivíduo e a história?
Cioran - Ela se fixa muito mal, pelo mal-estar. Não há ponte e o mal-estar se torna a solução. Temos que ser lúcidos como indivíduos sabendo, ao mesmo tempo, que o excesso de lucidez torna a vida insuportável. A vida só é suportável se não formos às últimas consequências.

Pergunta - Isso é o pensamento indiano que penetrou, para dizer assim, a sua obra? É o sr., de que o sr. fala sempre? Isso marca uma renúncia com relação à lucidez e à nostalgia de uma filosofia adormecida?
Cioran - Eu estou além disso também, mas o budismo desempenhou, realmente, há uns dez anos, um papel muito importante para mim. Eu sempre fui um pouco budista, se é possível ser um pouco. Para lhe dizer a verdade: se tivesse escolha, se pudesse optar por uma religião entre todas, seria budista. Deixando de lado alguns pontos, o budismo me parece aceitável e até confortável.

Pergunta - Mas é possível escolher lucidamente uma religião?
Cioran - É por afinidade secreta, apesar de tudo, que essa escolha é feita; há pontos muito precisos como a visão do sofrimento, que eu aceito; mas a transmigração ou outros aspectos do budismo, como aceitá-los?
É preciso pertencer a uma tradição para poder subscrever esse tipo de coisa, é preciso partilhar de um certo tipo de pensamento, de concepção do mundo. Como acreditar na metempsicose, nas etapas da vida, por exemplo? Os dogmas não são aceitáveis, mas o espírito é, perfeitamente. Tudo o que o budismo constata sobre o sofrimento, sobre a morte etc., é aceitável, o lado negativo. E foi esse lado que levou Buda a deixar o mundo.
E depois disso, é a religião que demanda menos fé. O cristianismo e o judaísmo exigem coisas muito precisas e se você se recusa a acreditar nelas está perdido, acabou; o budismo não, aceita compromissos. As razões que levaram Buda a deixar o mundo, podemos aceitá-las sem dificuldade, com a condição de ter a coragem de ir às últimas consequências. O budismo não lhe pede nenhum voto, nenhum reconhecimento, e é por isso que ele está a ponto de ultrapassar o cristianismo.

Pergunta - O sr. ainda passeia muito?
Cioran - Sim, claro.

Pergunta - E vai sempre aos cemitérios?
Cioran - Não só aos cemitérios. Eu tenho, é verdade, um fraco por cemitérios; mas hoje em dia os cemitérios não são mais bonitos, estão sobrecarregados. Quando vejo amigos, mas também desconhecidos passarem por momentos de abatimento, de desespero, só tenho um conselho a dar: Passe 20 minutos num cemitério, vai ver que a sua tristeza não vai desaparecer, mas vai ser quase superada.
Outro dia, encontrei uma moça que eu conheço, desesperada por causa de um problema amoroso, e lhe disse: Você não está muito longe de Montparnasse, vá lá, passe por ali meia hora, vai ver que a sua tristeza lhe parecer tolerável.
É muito melhor do que ir no médico. Um passeio no cemitério é uma lição de sabedoria quase automática. Eu mesmo sempre pratiquei esse tipo de método; não parece muito sério, mas é relativamente eficaz. O que é que você vai dizer a alguém que está num desespero profundo? Nada ou mais ou menos nada. A única maneira de suportar realmente esse tipo de vazio é ter consciência do nada. Sem isso, a vida não é suportável.
Se você tem consciência do nada, tudo o que lhe acontece é de proporção normal e não assume as proporções dementes que caracterizam o exagero do desespero.

Pergunta - É uma espécie de solução catártica que o sr. está recomendando?
Cioran - Certamente. Precisamos ver o que somos. Eu conheci, por exemplo, muitos jovens escritores que queriam se suicidar por não ter sucesso, o que eu compreendo, a rigor. Mas é muito difícil acalmar alguém que chegou nesse ponto. O que é terrível na vida é o fracasso, e isso acontece com todo mundo...

Pergunta - Mas se tira alguma coisa do fracasso? Quando se sobrevive...
Cioran - - É uma lição extraordinária; mas tem muita gente que não a suporta, e isso em todos os níveis, empregados e gente importante. No fim das contas, a experiência da vida é o fracasso.
São principalmente os ambiciosos, os que fazem um plano de vida que ficam tocados, os que pensam no futuro. É por isso que eu mando as pessoas para o cemitério. É a única maneira de minimizar uma situação trágica.

Pergunta - O sr. disse que agora não escreve mais. Acha que isso vai durar?
Cioran - Eu não sei de nada, mas é muito possível que não escreva mais. Tenho horror de ver todos esses livros que saem... esses autores que publicam pelo menos um livro por ano... é doentio. Eu acho que não se deve escrever mais, que é preciso saber renunciar.
Hoje isso já não me diverte mais, num certo sentido. É preciso um mínimo de entusiasmo, é preciso que haja uma expectativa. E depois eu me digo que já chega de imprecar contra o mundo e contra Deus, não vale a pena...

Pergunta - Mas, em pensamento, o sr. continua a imprecar?
Cioran - Forçosamente. Há uma espécie de resignação que é o fruto da idade e o cansaço é agora um estado muito real que é preciso levar em conta. Podemos sempre escrever e dizer tudo, mas se esse ato não corresponde mais a uma necessidade interior, não passa de literatura.
E isso é o que eu não quero, talvez porque sempre acreditei —é o meu lado ingênuo— no que escrevia. Isso não é bom, vai mesmo contra a minha visão das coisas, mas tanto pior! É evidente que, se temos consciência do nada, é absurdo escrever um livro, é até ridículo. Por que escrever e para quem? Mas há necessidades interiores que escapam a essa visão, elas são de outra natureza, mais íntimas e mais misteriosas, irracionais; levada ao extremo, a consciência do nada não é compatível com coisa nenhuma, com gesto algum; a idéia de fidelidade, de autenticidade etc, tudo desaparece.
Mas, ainda assim, existe essa vitalidade misteriosa que o leva a fazer alguma coisa. E talvez, no fundo, a vida seja isso: fazemos coisas às quais aderimos sem acreditar —é, é mais ou menos isso...
Tradução de LEDA TENÓRIO DA MOTA
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Fonte:  http://emcioranbr.wordpress.com/2013/11/27/insonia-da-razao-mais/

Anti-neomalthusianismo ou pró-natalismo disfarçado?

José Eustáquio Diniz Alves

população

A questão populacional sempre foi um tema de disputa ideológica, religiosa e científica. No início da Revolução Industrial e Energética, que começou na segunda metade do século XVIII, as questões demográficas foram debatidas na polêmica entre o pessimista Thomas Malthus e os otimistas William Godwin e o Marquês de Condorcet. 

Malthus, que se tornou o primeiro professor de economia, era contra o desenvolvimento econômico e, para argumentar a favor da renda da terra e dos interesses dos latifundiários do antigo regime, defendia um salário de subsistência que funcionasse como um “freio positivo” para controlar a população via aumento das taxas de mortalidade. O pastor anglicano era também contra o “livre cambismo” (a liberação da importação de cereais) e contra a ajuda aos pobres e desvalidos da Inglaterra. Ao contrário do que muita gente pensa, Malthus não era a favor dos métodos contraceptivos, da esterilização, do aborto, nem dos filhos fora do casamento, pois defendia a virgindade antes do matrimônio e o sexo com finalidade generativa entre os casais heterossexuais. Só aceitou a ideia de adiamento do casamento – como “freio preventivo” – na segunda edição do seu Ensaio e depois de muita relutância.

William Godwin e o Marquês de Condorcet foram precursores da ideia da transição demográfica. Eles consideravam que o progresso humano – possibilitado pela aplicação da racionalidade da ciência e da tecnologia e pela “perfectibilidade do ser humano” – levaria à redução das taxas de mortalidade e natalidade. Ou seja, eles não viam que o crescimento populacional desregrado iria ser um entrave ao progresso. Mas eles também nunca defenderam um crescimento populacional irracional.

A história se encarregou de mostrar os equívocos de Thomas Malthus e demonstrou que, em diversas circunstâncias, é possível erradicar a pobreza, a fome, as epidemias, as guerras, etc. Em especial, os dados dos últimos 200 anos mostram que foi possível reduzir a taxas de mortalidade em geral, da mortalidade infantil, em particular, assim como o aumento da esperança de vida da população mundial que, de maneira inédita, dobrou durante o curto espaço de um século, passando cerca de 30 anos em 1900 para 66 anos no ano 2000.

Porém, os ganhos de esperança e qualidade de vida são tanto maiores quanto menores forem as taxas de fecundidade. A história também mostra que não existe país com alto índice de desenvolvimento humano e, ao mesmo tempo, com alta fecundidade. A redução do número médio de filhos por mulher é uma condição para a melhoria do padrão de vida da população. Famílias menores possibilitam maiores investimentos em saúde e educação das crianças e maior autonomia para as mulheres. Isto é particularmente mais verdadeiro depois que se inverte o fluxo intergeracional de riqueza. Ou seja, a fecundidade era alta quando a mortalidade também era alta e quando predominava a economia rural, de subsistência, com alta percentagem de analfabetismo e grande desigualdade de gênero.

Hoje em dia é fácil reconhecer os ganhos da transição da fecundidade. Mas nos anos de 1950 e 1960 esta discussão estava muito ideologizada. Os neomalthusianos, ao contrário de Malhtus, defendiam o controle da natalidade, alguns defendiam métodos voluntários, outros defendiam a queda da fecundidade até por meio de medidas coercitivas e autoritárias. Alguns defendiam também o aborto. Os neomalthusianos consideravam que a redução do ritmo de crescimento da população era essencial para o “take off” (decolagem) do desenvolvimento, pois não haveria crescimento da renda per capita sem a redução do denominador da equação que define a renda nacional agregada. 

Ficou famosa a frase do presidente dos Estados Unidos, Lyndon Jonhson: “Mais vale 5 dólares investidos em planejamento familiar do que 100 dólares investidos em desenvolvimento”. Este tipo de postura fez os neomalthusianos serem execrados no Terceiro Mundo, pois eram vistos como as pessoas que queriam controlar a população em vez de promover o desenvolvimento. A Conferência de População de Bucareste, em 1974, para se contrapor ao neomalthusianismo, lançou a seguinte palavra de ordem: “O desenvolvimento é o melhor contraceptivo”. Com isto, os países subdesenvolvidos (ou do Terceiro Mundo, ou em desenvolvimento, ou emergentes, ou do Sul Global, etc.) e as forças ditas de esquerda passaram a dar prioridade ao processo de crescimento econômico e não à redução do ritmo do crescimento demográfico. Assim, o neomalthusianismo passou a ser um anátema entre os países pobres do mundo. 

Todavia, a China comunista que se opunha ao neomalthusianismo na década de 1960 – especialmente durante a Revolução Cultural – passou a promover o neomalthusianismo voluntário durante a década de 1970 (quando a fecundidade caiu de 6 filhos para 3 filhos por mulher) e passou a aplicar o neomalthusianismo mais draconiano da história mundial a partir de 1979, quando entrou em vigor a política autoritária do “filho único” (quando a fecundidade caiu de 3 filhos para 1,5 filho por mulher entre 1980 e 2012). Recentemente, o ativista cego Chen Guangcheng se notabilizou mundialmente por defender as mulheres forçadas a realizar abortos e esterilizações impostas pelo governo chinês de partido único e, por conta disto, recebeu apoio dos Estados Unidos, onde mora hoje em dia.

No Brasil, o neomalthusianismo foi muito combatido na década de 1960 e início da década de 1970 quando se formou a aliança política e ideológica mais esdrúxula da história brasileira. Para combater o neomalthusianismo se aliaram a igreja católica, os militares, a esquerda e as femininistas.

As posturas pró-natalistas da Igreja Católica foram reforçadas pelo lançamento, em 1968, da Encíclica Humanae Vitae pelo Papa Paulo VI. Os militares que tomaram o poder em 1964 adotaram posturas demográficas expansionistas, expressas no Programa Estratégico de Desenvolvimento (1968-1970) e na política de ocupação dos “territórios de vazio demográfico”, com o objetivo de garantir a “segurança nacional” e o desenvolvimento, como ficou claro nos documentos de lançamento da construção do maior símbolo do desperdício financeiro e da agressão ambiental que é a rodovia Transamazônica. As forças de esquerda eram contra o neomalthusianismo com o argumento de que o controle da natalidade era uma estratégia do imperialismo para manter a iníqua ordem econômica internacional que pretendia manter subdesenvolvidos os países da periferia do sistema capitalista. As feministas eram contra o neomalthusianismo por considerar que as políticas controlistas desrespeitavam a autonomia das mulheres e promoviam práticas invasivas de redução da fecundidade.

Evidentemente, esta aliança espúria não tinha muito tempo de vida. A igreja católica continuou a defender a ordem tradicional das famílias heterossexuais com muitos filhos, mas os militares abandonaram o radicalismo pronatalista depois do fracasso da colonização da Amazônia, da constatação que não havia perigo de invasão do país e do agravamento dos problemas ambientais. A esquerda começou a chegar ao poder a partir de 1982 e viu que o combate à pobreza e ao inchaço sem planejamento das cidades era impossível num regime de alta fecundidade. As verdadeiras feministas (não atreladas aos partidos) romperam com a igreja, os militares e a esquerda ao defender o direito à livre sexualidade (inclusive a união homossexual), a autonomia das mulheres e ao passar a defender os métodos contraceptivos dentro do Programa de Assistência Integral à Saúde das Mulheres (PAISM).

O fato é, contra tudo e contra todos, as taxas de fecundidade caíram de forma acelerada no Brasil e já estão abaixo do nível de reposição, desde 2005. Isto aconteceu sem que o país tivesse uma política explícita de controle da natalidade. De fato, as taxas de fecundidade são tanto menores quanto maiores são os níveis de cidadania e inclusão social. São os setores de baixa renda e baixo nível de escolaridade que ainda possuem fecundidade pouco acima do nível de reposição. Isto ocorre mais pelo “efeito perverso”, definido por Vilmar Faria, e pela falta de acesso às políticas de saúde sexual e reprodutiva, do que por desejo de um maior número de filhos.

Mas, mesmo fora de moda, o neomalthusianismo continua sendo uma palavra maldita. Diversos setores do dogmatismo religioso, representantes do conservadorismo moral e forças do fundamentalismo de mercado continuam praticando uma política anti-neomalthusiana, embora o neomalthusianismo não faça mais sentido na realidade brasileira do século XXI. Os defensores do desenvolvimentismo também costumam combater o neomalthusianismo, pois querem o crescimento da oferta de mão de obra para o crescimento econômico.

Na verdade, hoje em dia, o xingamento neomalthusiano serve para disfarçar as verdadeiras intenções dos defensores de políticas pró-natalistas e anti-ambientais. Os defensores do meio ambiente e os críticos do processo de desenvolvimento são, volta e meia, acusados de serem neomalthusianos ou de “neomalthusianismo verde”. Nos Estados Unidos, por exemplo, as forças pró-natalistas estão concentradas no Partido Republicano e, em especial, nas alas do conservadorismo moral, do dogmatismo religioso e nas fileiras direitistas do Tea Party. São exatamente estas forças que defendem a exploração sem restrições dos combustíveis fósseis, são céticos em relação ao aquecimento global, não se preocupam com a biodiversidade e querem um crescimento econômico sem limites.

Se é certo de que ainda existem pessoas que culpam a população por todos os males do mundo, não resta dúvidas de que as correntes anti-neomalthusianas de hoje estão mais concentradas nas alas conservadoras e direitistas da sociedade ou entre a ideologia desenvolvimentista. Mas este conservadorismo atual se esconde atrás de uma palavra pejorativa – que é o neomalthusianismo – para defender interesses escusos e fortalecer a ideia de que o desenvolvimento econômico é a solução para todos os males da humanidade e a maneira de corrigir a degradação do meio ambiente (explicitado na Curva de Kusnetz). Seguidores de Ester Boserup e Julian Simon defendem o crescimento populacional em nome do crescimento econômico, mas, em geral, ignoram os custos ambientais destas posturas populacionistas e desconsideram que a ideia de “desenvolvimento sustentável” é muito mais um oximoro do que uma realidade prática.

O desenvolvimento econômico mundial encontra-se em um impasse, pois a humanidade já ultrapassou os limites das fronteiras planetárias e a pegada ecológica está 50% acima da biocapacidade da Terra. Os países ricos – que possuem alto nível de consumo e taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição – já podem iniciar o processo de declínio da população e da demanda agregada, começando pelo declínio dos produtos de luxo e das atividades mais poluidoras. Diversos países em desenvolvimento também já possuem taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição e, em breve, terão redução da população e podem fazer com mais facilidade a transição para uma economia de baixo carbono e de baixa exploração dos recursos naturais. Os países muito pobres – com alta fecundidade – precisam fazer a transição para uma sociedade com baixo crescimento demo-econômico, dando menos ênfase para o aumento da produção quantitativa e mais valor para as atividades de melhoria qualitativa da população e do meio ambiente.

De acordo com a Conferência Internacional de População e Desenvolvimento (CIPD) devemos superar o conflito natalismo versus controlismo e adotar a prática dos Direitos Sexuais e Reprodutivos, buscando a universalização das informações e dos serviços de saúde sexual e reprodutiva. Não faz mais sentido nem as posturas do neomalthuasinismo e nem do anti-neomalthusianismo. O dístico “População & Desenvolvimento” tem que ser repensado. A população humana tem que ser posicionada em um quadro de sustentabilidade ecocêntrica e o desenvolvimento econômico só faz algum sentido se abandonar o modelo consumista, respeitar a saúde dos ecossistemas e garantir a livre evolução da biodiversidade.

Referências:

ALVES, J. E. D. As politicas populacionais e o planejamento familiar na América Latina e no Brasil. Textos para Discussão. Escola Nacional de Ciências Estatísticas, v. 21, p. 1-50, 2006. Disponível em:
ALVES, J. E. D. CORREA, S. Demografia e ideologia: trajetos históricos e os desafios do Cairo + 10. R. bras. Est. Pop., Campinas, v. 20, n. 2, p. 129-156, jul./dez. 2003. Disponível em:
ALVES, J. E. D. Políticas populacionais e direitos reprodutivos: o Choque de civilizações versus progressos civilizatórios. In: CAETANO, Andre J., ALVES, Jose. E. D., CORRÊA, Sonia. (Org.). Dez anos do Cairo: tendências da fecundidade e direitos reprodutivos no Brasil. 1 ed. Campinas: ABEP/UNFPA, 2004, v. 1, p. 21-47. http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/outraspub/cario10/cairo10alves21a48.pdf
ALVES, J. E. D. The context of family planning in Brasil. In: CAVENAGHI, S. Demographic transformations and inequalities in Latin America, ALAP, 2009. http://www.alapop.org/ebooks/sin8/online/index.htm
ALVES, J. E. D. O Planejamento familiar no Brasil. Ecodebate, Rio de Janeiro, 01/06/2010
ALVES, J. E. D. O Programa Bolsa Família incentiva a fecundidade no Brasil? Instituto Braudel. São Paulo, 07/11/2011. http://www.brasil-economia-governo.org.br/2011/11/07/o-programa-bolsa-familia-incentiva-a-fecundidade-no-brasil/
ALVES, JED. CAVENAGHI, S. O Programa Bolsa Família, fecundidade e a saída da pobreza. In: ARILHA, M et al. (orgs). Diálogos Transversais em Gênero e Fecundidade. Articulações contemporâneas. Campinas: Librum Editora, Associação Brasileira de Estudos Populacionais, 2012
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*Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
Fonte:  http://www.ecodebate.com.br/2013/11/27/anti-neomalthusianismo-ou-pro-natalismo-disfarcado-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Lord Dunsany

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Um dos pais da fantasia juntamente com Edgar Allan Poe e autor de mais de 80 obras publicadas, Lord Dunsany teve uma vida semelhante aos personagens de histórias fantásticas. Nobre, herói de guerra e morador do castelo mais antigo da Irlanda, ele é o elo esquecido que inspirou J.R.R. Tolkien, C. S. Lewis e Neil Gaiman. 
 

Entre as décadas de 20 e 50 o mercado editorial brasileiro foi comandado por intelectuais heroicos como Monteiro Lobato e o próprio José Olympio que, com tradutores da lavra de Carlos Drummond de Andrade, selecionavam as publicações em um espectro canônico, mas excessivamente acanhado em minha opinião pernóstica. Assim, por alguma razão que me escapa, mas que suspeito tem a ver com uma predileção ideológica por uma escritura mais “realista”, muitas obras importantes da literatura fantástica ou, como chamam hoje, de fantasia, custaram a aparecer por aqui.
A leitura precoce de Borges e das Histórias Extraordinárias de Poe me fez ir pescando aqui e ali um conto do Hawthorne, do Wells, uma novela gótica, um livro do Haggard, mas só recentemente o mercado foi oferecendo, timidamente, mais opções.
Em parte por isto, só ouvi falar em Lord Dunsany há cerca de uns quatro anos quando comprei uma coletânea organizada pelo Bráulio Tavares na qual li o conto Carcassone. Agora, na Antologia da Literatura Fantástica de Borges, Bioy Casares e Silvina Ocampo editada pela Cosac Naify li Uma Noite na Taberna, uma espécie de micropeça em um ato, e resolvi ir atrás dele.

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Lord Dunsany: Nobreza e imaginação influenciaram Borges e Lovecraft

O que me surpreendeu de pronto foi o fato de um escritor que publicou mais de 80 obras em estilos como o conto, a poesia e o teatro e gozou de um sucesso relativamente alto em vida seja hoje praticamente desconhecido – e, pelo que li, isso não se aplica apenas ao Brasil; o espírito do tempo por alguma razão fantástica não o privilegiou.

Inspiração para Tolkien, Lewis e Gaiman

Lord Dunsany (1878 – 1957) nasceu Edward John Moreton Drax Plunkett no último quadrante do século XIX de uma família irlandesa cuja genealogia é anterior às invasões normandas. Décimo oitavo Barão de Dunsany foi o herdeiro do segundo título de nobreza mais antigo da Irlanda e habitava um castelo do século XII que é considerado a moradia habitada mais velha do país. Lutou como oficial na Guerra dos Bôeres e na I Guerra Mundial e foi exímio atirador, caçador, desenhista e um gênio do xadrez: chegou a empatar com o Grão-Mestre Capablanca. Além de tudo tinha porte de príncipe: era muito alto e muito bonito.

As lendas e o folclore irlandês, celta e do Norte Europeu, a mitologia grega e oriental, os romances de cavalaria e os contos de fadas dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen foram sua inspiração. Mas, ao ler seus contos e histórias curtas logo se nota que a imaginação de Dunsany era uma fonte com manancial próprio. A força simbólica, a prosa, ora lírica, ora bem humorada, e a vivacidade de suas atmosferas o tornam um escritor cujo estilo aliava o dom para a criação de enredos maravilhosos com a elegância da escrita.
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Edição de The King of Elfland’s Daugther com introdução de Neil Gaiman

Dunsany não é apenas considerado um dos pais da fantasia, juntamente com Poe, Willian Morris e Henry Rider Haggard; ele foi uma influência basilar para mitos como J.R.R. Tolkien e C. S. Lewis. Estes eram admiradores não só de seus contos, reunidos em livros como The Gods of Pegana (1905) e The Sword of Welleran and Other Stories (1908), mas também de seu romance mais famoso, The King of Elfland’s Daugther, que conta a história de um casamento entre um homem mortal e uma princesa elfo. A inspiração de Lord Dunsany iluminou também as páginas de Arthur C Clarke, Neil Gaiman, Jorge Luis Borges, Ursula Le Guin e H. P. Lovecraft, todos credores confessos de sua magia.
Acesse aqui obras de Lord Dunsany em inglês 

Abaixo duas histórias de Lord Dunsany traduzidas por mim. Ambas falam do divino; uma não poderia ser mais diferente da outra.

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After the Dance do pintor pré-rafaelita J. W. Waterhouse,1876

UM MILAGRE

Publicado originalmente em Selections from the Writings of Lord Dunsany

Existe em Roma uma estrada que atravessa um templo antigo em que outrora os deuses foram amados; ela se estende ao longo do cume de uma grande muralha e o chão do templo, em mármore rosa e branco, encontra-se muito abaixo dela.

Por sobre o chão do templo contei treze gatos famintos.

“Às vezes”, os ouvi sussurrar, “Foram deuses que viveram aqui, outras vezes homens, e agora gatos. Então vamos aproveitar o sol sobre o mármore quente antes que outro povo venha”.

Eu estava, pois, naquela hora de uma tarde quente em que minha fantasia é capaz de ouvir vozes silenciosas. E a magreza terrível de todos os treze gatos me impeliu a entrar em uma peixaria nas cercanias e lá comprar certa quantidade de peixes. Depois retornei e os arremessei sobre o parapeito no topo da grande muralha e eles caíram por trinta pés e atingiram o mármore sagrado com um tapa
Ora, em qualquer outra cidade que não Roma, ou na mente de quaisquer outros gatos, a visão de peixes caindo do céu teria certamente provocado assombro. Levantaram-se lentamente, e se alongaram; então se dirigiram preguiçosamente em direção aos peixes. “É só um milagre”, diziam em seus corações.

Tradução de Ana Calazans

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Oferenda ao Deus Pã do pintor brasileiro Pedro Weingärtner, 1894

O TÚMULO DE PÃ

Publicado originalmente em Fifty-One Tales

“Vejam”, disseram eles, “o antigo Pã está morto, vamos agora fazer um túmulo e um monumento para que seu terrível culto ancestral possa ser lembrado e rejeitado por todos.[1]”.

Assim falaram os povos das terras esclarecidas. E eles construíram um poderoso túmulo de mármore branco. Lentamente, ele levantou-se sob as mãos dos construtores e brilhava a cada noite após o poente com os raios do sol moribundo.

Muitos choraram por Pã enquanto os construtores erguiam a tumba; muitos os injuriavam. Alguns clamaram que cessassem a obra e chorassem por Pã e outros para que eles não legassem a um deus [da natureza] tão infame memorial. Mas os construtores seguiram com a obra.

E um dia tudo acabou e o túmulo lá estava como um íngreme penhasco sobre o mar. E nele Pã foi esculpido com a cabeça humilhada sob o peso dos pés dos anjos em seu pescoço. E quando a tumba foi concluída o sol já havia se deitado, mas o brilho do entardecer permaneceu róseo no imenso tronco de Pã.

E hoje todas as pessoas esclarecidas vieram e viram o túmulo e lembraram Pã, que foi morto, e lastimaram-no e também à sua época ímpia. Alguns, porém, choraram afastados sua morte.

Mas à noite quando saiu furtivamente da floresta, e deslizou suavemente como uma sombra ao longo das colinas, Pã viu o túmulo e riu.

Tradução de Ana Calazans
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[1] O autor faz referência ao célebre trecho da obra De Defecto Oraculorum (A Obsolescência dos Oráculos) do historiador Plutarco no qual um viajante diz ter ouvido um grito “O Grande Pã está morto”, “Pan ho megas tethneken” em grego. A expressão é uma espécie de símbolo e síntese da mudança cultural e do inconsciente latino na época do fim do paganismo. Séculos depois Nietzsche a atualizaria na célebre frase “Deus está morto”.
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* Escritora.
Texto publicado em artes e ideias por
Fonte:  http://lounge.obviousmag.org/ordem_no_ruido/2013/11/

Giorgio Agamben: a crise sem fim como instrumento de poder


Filósofo italiano sustenta: em nome de projeto míope, liderado pelos alemães, Europa renega seu passado e destroi instituições que poderiam preservá-lo

Entrevista a Dirk Schümer, no Diálogo Sul

Professor Agamben, em março desencadeou-se a ideia de uma “soberania latina” contra o domínio alemão na Europa. O senhor poderia imaginar a grande repercussão que isso teria? Enquanto isso, o ensaio foi traduzido para muitos idiomas e apaixonadamente discutido na metade do continente
Giorgio Agamben: Não, não esperava isso. Mas acredito no poder das palavras, quando são chamadas no momento adequado.

A brecha na União Europeia é na realidade entre as economias e estilos de vida do norte “germânico” e o sul “latino?”

Quero dizer antes de mais nada que minha tese foi exagerada pelos meios de comunicação e, portanto, distorcida. Seu título, “O império latino, deveria lançar um contra-ataque” foi criado pelos editores do Liberacion e assumida pelos meios de comunicação alemães. Não foi algo que eu disse. Como poderia opor a cultura latina à alemã, quando um europeu inteligente sabe que a cultura italiana do Renascimento ou cultura da Grécia clássica já estão plenamente integrados à cultura alemã, que a repensou e dela se apropriou?

Portanto, nenhum “império latino” dominante? Nenhum alemão inculto?

Na Europa, a identidade de cada cultura ainda reside em suas fronteiras. Um alemão como Winckelmann ou Hölderlin, poderiam ser mais gregos que os gregos. E um florentino como Dante, assim como um alemão, podia sentir-se como o imperador Frederico II da Suábia. Isto é precisamente o que faz com que a Europa tenha uma característica que volta e meia ultrapassa as fronteiras nacionais e culturais. O objeto de minha crítica não é a Alemanha, e sim a forma como se construiu a União Europeia, sobre uma base puramente econômica. Portanto, não apenas nossas raízes espirituais e culturais foram ignoradas, como também nossas políticas e de nossas jurisprudências. Se isso foi entendido como uma crítica à Alemanha, é só porque a Alemanha, devido a sua posição dominante apesar de sua destacada tradição filosófica, atualmente parece incapaz de imaginar uma Europa baseada em algo mais do que o euro e a economia.

De que maneira a UE negou suas raízes políticas e legais?

Quando falamos da Europa de hoje, enfrentamos o enorme peso de uma dolorosa e, no entanto, evidente verdade: a chamada Constituição Europeia é ilegítima. O texto criado desde cima jamais  foi votado pelo povo. Ou então, quando foi posto em votação, como na França e nos Países Baixos em 2005, foi repudiada frontalmente. Legalmente falando, portanto, o que temos aqui não é uma constituição, e sim um tratado entre governos: do direito internacional, não do direito constitucional. Mais recentemente, o mais respeitado e erudito o jurista alemão, Dieter Grimm, lembrou que a Constituição Europeia carecia do elemento democrático fundamental, já que não foi permitido aos europeus decidir. E agora, todo o projeto de ratificação pelo povo foi silenciosamente congelado.

Na realidade, o famoso “déficit democrático” do sistema europeu
Não se pode perder isso de vista. Os jornalistas, sobretudo na Alemanha, me criticaram por não entender a democracia, mas devem considerar em primeiro lugar que a União Europeia é uma comunidade baseada em tratados entre estados tendo apenas uma constituição democrática para disfarçá-los. A ideia da Europa como potencia constitucional é um fantasma que ninguém se arrisca invocar. No entanto, só tornando válida a constituição é que as instituições europeias poderiam recuperar sua legitimidade.

Isso significa que a União Europeia é vista como uma organização ilegal?

Não é ilegal, mas é ilegítima. A legalidade é a questão das normas de exercício do poder, a legitimidade é o princípio que é a base destas normas. Tratados legais não são certamente só as formalidades, pois refletem uma realidade social. Portanto, é compreensível que uma instituição sem uma constituição não possa seguir uma política original, porém cada estado europeu continua agindo de acordo com seus próprios interesses o que hoje significa, obviamente, acima de tudo os interesses econômicos. O mínimo denominador comum de unidade é alcançado quando a Europa emerge como um vassalo dos Estados Unidos participando de guerras que em nenhum caso são de interesse comum, para não falar da vontade das pessoas. Vários dos países fundadores da UE – como a Itália, com suas numerosas bases militares estadunidenses – estão mais no campo de protetorados do que de Estados soberanos. Em politica e militarmente, há uma aliança atlântica, mas certamente não é uma aliança da Europa.

Na União Europeia, portanto, é preferível uma “soberania latina” como caminho de vida e os “alemães” deverão se adaptar.
Não, talvez eu tenha tomado o projeto de “soberania latina” de Alexandre Kojève por provocação. Na Idade Média, as  pessoas pelo menos sabiam que a unidade das diferentes sociedades políticas deve ser mais que uma sociedade puramente política. Naquela época, o vínculo que unia (os estados) era o cristianismo.  Hoje em dia, acredito que é preciso buscar a legitimidade na história e nas tradições culturais da Europa. Diferentemente dos asiáticos e dos americanos, para quem a história significa algo completamente diferente, os europeus ainda confrontam sua verdade em diálogo com seu passado. O passado significa para nós não apenas à herança e a tradição cultural, como também uma condição antropológica fundamental. Se tivéssemos ignorado nossa própria história, só poderíamos penetrar na passado por meio da arqueologia. O passado para nós é como uma forma distinta de vida. A Europa tem uma relação especial com suas cidades, seus tesouros artísticos, suas paisagens. É nisso que consiste realmente a Europa. E é aí que está a sobrevivência da Europa.

A Europa é sobretudo uma forma de vida, um sentido histórico da vida?

Sim, foi por isso que em meu artigo, destaco incondicionalmente que devemos preservar nossas distintas formas de vida. Quando os aliados bombardearam cidades alemãs, sabiam que com isso poderiam destruir a identidade alemã. Do mesmo modo, os especuladores de hoje em dia estão destruindo a paisagem italiana com concreto e rodovias. Isto significa não apenas a perda de nossa propriedade, mas de nossa identidade histórica.

De modo que a UE deveria focar nas diferenças, em vez da harmonização?

Pode ser que fora da Europa não exista outro lugar no mundo em que a grande variedade de culturas e formas de vida – pelo menos em seus momentos preciosos – seja notável. Anteriormente, na mina opinião, a política se expressava com a ideia do Império Romano, depois, a do império romano-germânico. No entanto, no conjunto ainda mantem intacta as característica dos povos. Não é fácil dizer o que poderia surgir hoje no lugar disso. Mas, certamente, uma entidade política chamada Europa não pode surgir senão a partir desta consciência do passado. É precisamente por esta razão que a crise atual parece tão perigosa. É preciso imaginar a unidade pela primeira vez como uma tomada de consciência das diferenças. Mas muito ao contrário disso, nos países europeus, as escolas e as universidades, as mesmas instituições que deveriam perpetuar nossa cultura e criar um contato vivo entre o passado e o presente, estão sendo destruídas e comprometidas financeiramente. Esse trabalho furtivo se faz junto a uma cada vez maior museificação do passado. Temos muitas cidades que começam a se converter em áreas históricas, onde os habitantes se veem obrigadas a sentir-se turistas no mundo de suas próprias vidas.

Museificação desenfreada que é a contrapartida de uma pauperização progressiva?

GA: É evidente que não só estamos diante de problemas econômicos, mas da existência da Europa em seu conjunto – a partir de nossa relação com o passado. O único lugar onde o passado se pode viver é o presente. E se isto já não é eleger seu próprio passado como algo vivo, então as universidades e os museus se convertem em um problema. É óbvio que há forças no trabalho na Europa de hoje que tratam de manipular nossa identidade, rompendo o cordão umbilical que ainda nos conecta com nosso passado. Nivelam-se as diferenças. Só a Europa não pode ser nosso futuro se deixamos claro que significa, antes de mais nada, todo nosso passado. Mas o passado está sendo cada vez mais liquidado.

Isso significa que a crise, presente em todos os aspectos, a forma de expressão de tudo um sistema de regulação dirigindo nossa vida diária?
O conceito de “crise” de fato transformou-se em uma palavra de ordem da política moderna, e durante muito tempo, ela era parte da normalidade em todos os segmentos da sociedade. A palavra expressa duas raízes semânticas: uma médica, em referência à evolução de uma doença e a outra teológica, do Juízo Final. Os dois significados, no entanto, sofreram uma transformação atual, que eliminou sua relação com o tempo. Na medicina antiga, “crise” significava um julgamento, quando o médico se referia ao momento determinante se o paciente poderia sobreviver ou morrer. A compreensão atual da crise, por outro lado, refere-se a um estado sustentável. Portanto, esta incerteza estende-se indefinidamente no futuro. Este é exatamente o mesmo que no sentido teológico, o Juízo Final é inseparável do fim dos tempos. Hoje, no entanto, o julgamento se divorciou da ideia de resolução e se apresenta em várias ocasiões. Assim, a perspectiva de uma decisão é cada vez menor, e o processo infinito de decisão nunca termina.

Isso significa que a crise da dívida, a crise das finanças estatais, a moeda, a União Europeia, são infinitas?

Atualmente, a crise se transformou em um instrumento de dominação. Serve para legitimar decisões políticas e econômicas que privam os cidadãos de toda possibilidade de decisão. Na Itália, é muito claro. Aqui, um governo foi formado em nome da crise e Berlusconi está de volta ao poder apesar de que ser radicalmente contra a vontade do eleitorado. Este governo é tão ilegítimo quanto a chamada Constituição europeia. Os cidadãos europeus devem deixar claro seus próprios olhos que esta crise sem fim – tanto como o estado de emergência – é incompatível com a democracia.

Que perspectivas restam agora para a Europa?

É preciso começar por restabelecer o sentido original da palavra “crise”, como um tempo de julgamento e de escolha. Não podemos postergá-lo a um futuro indefinido para a Europa. Há vários anos, o filósofo Alexandre Kojève, alto funcionário da embrionária União Europeia propôs que o homo sapiens tinha chegado ao fim da história e que só havia duas possibilidades restantes. Ser o “american way of life” que Kojève viu um acordo pós-histórico. Ou, o esnobismo japonês, simplesmente continuar a a celebração de rituais vivos da tradição, agora privada de significado histórico. Creio, no entanto, que a Europa poderia realizar a alternativa de uma cultura que seja ao mesmo tempo humana e vital, tanto porque se encontrará em um diálogo com sua própria história, ao mesmo tempo que adquiriria uma nova vida.

A Europa, entendida como cultura, não só como espaço econômico, poderia dar uma resposta à crise?

Por mais de duzentos anos, as energias humanas se concentraram na economia. Muitas coisas indicam que talvez tenha chegado o momento para o homo sapiens de organizar uma nova ação humana além desta única dimensão. A velha Europa pode fazer com precisão uma contribuição decisiva para o futuro aqui.
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(*) Publicado originalmente em “Bitácora” do Uruguai
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Fonte:  http://hannaharendt.wordpress.com/2013/11/26/giorgio-agamben-a-crise-sem-fim-como-instrumento-de-poder/
Imagem da Internet

Adquirir a sua alma na paciência

Kierkegaard*
 
 "Que o caminhante, que se dirige para o seu longínquo destino, não se apresse no começo, mas, de cada vez que cai a noite, pacientemente descanse para poder continuar o caminho no dia seguinte; que aquele que carrega um pesado fardo não se esgote excessivamente no começo, mas, de vez em quando, deponha o fardo no chão, sentando-se ele mesmo ao seu lado, a fim de ganhar novas forças para o carregar;"
Adquirir a sua alma na paciência. Não é este enunciado, certamente sempre inoportuno, capaz de matar, de um só golpe, toda a audaciosa expectativa que anseia por um feito de renome, por ações entusiasmadas, por luta e conflito, onde a recompensa é incerta, mas também magnífica? Não é este enunciado, para o velho, o mesmo que a voz do pai para a criança, quando a chama do jogo barulhento, onde era rei e imperador, para a tranquila ação da paciência – sim, não é este enunciado ainda mais angustiante quando pretende estender-se a toda a vida, não admitindo que se brinque com ele, como se só de vez em quando fosse a sério? Se, porém, aquele que disse isso sabia aquilo que é proveitoso para um homem; se ele – como é bem o caso – o disse na mesma ocasião em que recorda que a abominação da desolação haveria, com o seu sorvedouro, de revolver a vida desde a sua mais funda raiz e, justamente assim, ser ocasião para grandes feitos e obras de renome, então, quando pensamos estar certos de que o enunciado não nos aproveita – sim, que ele oprime a nossa alma –, que tenhamos, pelo menos, paciência para acreditar que o erro consiste em não compreendermos corretamente o enunciado, e que é erro nosso se o efeito do enunciado parece tão pequeno que, em vez de dar a cada homem a sua alma e todo o mundo em retribuição do seu anseio e do seu esforço, pelo contrário, lhe tira todo o mundo e a sua glória, como algo que ele nunca terá; sim, lhe tira até mesmo a sua alma, para o fazer adquiri-la na paciência.

Tenhamos, então, pelo menos, paciência para acreditar no enunciado; paciência para não protelar a ponderação para um tempo mais oportuno; para não pedir ao enunciado – faltando-nos a nós esta capacidade – que tenha paciência, paciência para separar, a fim de voltar a unir, aquilo que está inseparavelmente unido.

"Adquirir a sua alma". Não possui um homem a sua alma? E pode ser essa a verdadeira instrução para ser feliz, aquela que, em vez de ensinar um homem a adquirir, por meio da sua alma, o mundo inteiro, antes o ensina a empregar a sua vida para adquirir a sua alma? Nasce nu o homem e nada traz consigo para o mundo e, quer as condições para a sua vida estejam dadas como figuras amigáveis que tudo têm à disposição, quer ele tenha penosamente de as descobrir por si – qualquer homem tem, no entanto, de um modo ou de outro, de adquirir as condições para a sua vida. E, mesmo se esta consideração torna alguém impaciente e, assim, incapaz de tudo, os melhores, pelo contrário, compreendem-na e conformam-se com isso – que a vida deve ser adquirida e que deve ser adquirida na paciência. E para isso, exortam-se a si mesmos e aos outros, porque a paciência é uma força da alma necessária a cada homem para alcançar aquilo que deseja na vida. 
 Citação
Que o caminhante, que se dirige para o seu longínquo destino, não se apresse no começo, mas, de cada vez que cai a noite, pacientemente descanse para poder continuar o caminho no dia seguinte; que aquele que carrega um pesado fardo não se esgote excessivamente no começo, mas, de vez em quando, deponha o fardo no chão, sentando-se ele mesmo ao seu lado, a fim de ganhar novas forças para o carregar; que aquele que trabalha pacientemente o seu campo espere pela chuva tardia e pela temporã até chegar a colheita; que aquele que adquire o seu sustento pelo comércio se sente junto às suas mercadorias e espere pacientemente até que chegue o comprador e até que este venha pagar; que aquele que estende a sua armadilha para os pássaros espere todo o dia até ao fim da tarde e se sente pacientemente junto à sua armadilha, sem se mexer, até que eles venham; que aquele que vai buscar o seu alimento ao fundo do mar espere pacientemente com a sua linha durante todo o dia; que a mãe que quer obter alegrias com o seu filho não deseje que ele cresça depressa, mas espere pacientemente em noites de insónia e dias inquietos; que aquele que quer ganhar o favor dos homens trabalhe dia e noite e não deite tudo a perder por impaciência; que aquele que quer falar aos homens acerca do que lhes parece indiferente não se precipite ao princípio, e depois desista, mas continue a falar e espere pacientemente – tudo isto os homens compreendem: compreendem que seja assim e conformam-se com isso, que é bom e proveitoso que assim seja, e deixam-se formar por isso e, na sua visão da vida, preferem este modo de atuar à selvagem e indomável ebulição que não leva a nada, antes causa apenas perturbação e dano. 

A condição de que se fala é exterior ao homem e a condição para, por meio disso, alcançar aquilo que deseja é a paciência, de sorte que ele não conquista propriamente a paciência, mas sim o desejado. Há, assim, muitas e muito diferentes condições, mas constitui a alma uma condição desta ordem? Diz-se, então, demasiado pouco ao dizer que o homem vem nu ao mundo e que não possui nada no mundo, quando nem mesmo possui a sua alma? Se as considerações anteriores já eram de molde a tornar um indivíduo impaciente e incapaz de viver – sim, como é que esta outra consideração não haveria de tornar qualquer pessoa impaciente como que desde a raiz? Para que é que se há-de viver, se em toda a vida se tem de adquirir o pressuposto que é, no seu mais profundo fundamento, o pressuposto da vida? Sim, que significa isto? 
 Citação
A paciência ajuda-nos ao ponto de este enunciado – que na sua brevidade parecia ser tão desencorajante, tão insignificante, a custo merecedor de consideração – se mostrar agora, na sua brevidade, tão cheio de significado que antes produz tentação de outra forma – como se fosse insondável. E não é angustiante entrar por este caminho onde bem depressa e a cada instante se vê a meta, mas nunca se vê a meta alcançada – ao contrário do que sucede com o caminhante, que chega à meta, e com aquele que carrega o fardo, que chega ao seu destino? Caminho onde, por assim dizer, nunca se sai do sítio – ao contrário do caminhante, que agora vê uma região e depois outra, e ao contrário daquele que carrega o fardo, que perde de vista uma parte do caminho e depois outra. Caminho onde nunca se vê nenhuma mudança – ao contrário do mercador, que tão depressa vê um homem como outro, ao contrário daquele que persegue pássaros ou peixes, que agora vê capturados uns e depois outros, antes [acontece que cada um] se vê sempre só a si mesmo. Caminho onde – ao contrário daquele que pretende ganhar o favor dos homens (que às vezes ouve o louvor, outras vezes a desaprovação, às vezes muitas vozes, outras, vozes isoladas) – se ouve apenas uma única voz, perante cuja verdade quase se estremece, pois é como se, uma vez ouvida, nunca mais se lhe escapasse, nem no tempo nem na eternidade. Caminho onde, por assim dizer, nunca se adquire nada: nem alcançar a meta, nem descarregar o fardo, nem a rica colheita, nem a riqueza, nem a magnífica captura, nem a felicidade do filho, nem o favor dos homens, nem o ter aproveitado a outros – antes se adquire apenas a si mesmo (uma recompensa que é tão pobre que mesmo a criancinha que morre no instante do nascimento aparentemente a possui). Caminho onde nada se conquista que possa convidar os homens a compartilhá-lo alegremente – porque apenas se adquire a si mesmo, isto é: que se está a ser enganado, como de facto o mercador o seria, se ninguém viesse à sua loja durante todo o dia e se lhe quisesse dizer "aprendeste a paciência", ou como [o seria] o pescador que todo o dia tivesse estado à pesca e nada apanhasse. Ou não será semelhante revolução no pensamento e na linguagem algo mais estranho do que o mais estranho – que a vida se transforme de tal modo para um homem que aquilo que é tangível, aquilo que para ele era o mais certo de tudo, se torne duvidoso, e o espiritual, que o enganava pela sua distância, se torne o mais certo, infinitamente mais certo do que o tangível?
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* Soren Kierkegaard (Copenhague, 5 de Maio de 1813 — Copenhague, 11 de Novembro de 1855) foi um filósofo e teólogo dinamarquês.
In Adqurir a sua alma na paciência,. ed. Assírio & Alvim
Fonte: http://www.snpcultura.org/adquirir_a_sua_alma_na_paciencia.html 25.11.13

Viver plenamente

Valerio Albisetti*
 Árvore de fruto
 No fundo, somos nós quem escolhe a vida 
que estamos a viver.
Viver plenamente significa abandonar a lógica de dobrar o mundo, tudo aquilo que nos rodeia, à nossa vontade; viver plenamente significa procurar integrarmo-nos, nele da melhor maneira. Devemos aprender a partilhar, a participar, a unirmo-nos, e não a dividir ou a dominar ou a controlar o outro. 

A história de cada um de nós é aproximarmo-nos do invisível, do espiritual. 

Existe um plano de Deus, preparado para cada um de nós, ainda antes de nascermos; compete a cada um de nós aderir-lhe ou não, procurá-lo ou não. 

Como reconhecer uma pessoa que vive verdadeiramente? 

Pelos seus frutos. 

Sobretudo, é preciso dar bons frutos. 

«Porventura podem colher-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Toda a árvore boa dá bons frutos e toda a árvore má dá maus frutos. A árvore boa não pode dar maus frutos nem a árvore má, dar bons frutos. Toda a árvore que não dá bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Pelos frutos, pois, os conhecereis» (Mt 7,16~20). 

O meu homem sente, dentro de si, que deve fazer alguma coisa nesta terra, completar um desígnio, realizar um projeto, alcançar um objetivo.

Mas, se não formos conscientes, se não tivermos em conta a nossa componente psicoespiritual, acabaremos por viver o mundo como lugar de competição, de agressão, onde o único objetivo é sobreviver, é pensar no nosso interesse pessoal e, consequentemente, viver o outro como coisa ou objeto, sempre em nosso proveito.

A espiritualidade revela-nos que o mundo não é nosso, que o outro não é nosso, que a natureza, que o mundo em que vivemos não são nossos. 

Nada é nosso. 

Nem sequer o corpo em que vivemos. Somos apenas hóspedes. 

Porque tudo é de Deus. 

Por outro lado, quando não nos sentimos realizados, satisfeitos com as nossas existências; quando não temos sentido espiritual, experimentamos um sentimento de mal-estar, 

Sentimo-nos inúteis, anónimos, confusos. 

É o modo como vivemos a vida que é importante. 

É o modo e a atitude como e com que enfrentamos cada momento do dia, cada encontro, que faz toda a diferença. 

Só teremos sucesso, quando deixarmos de nos preocupar com o nosso sucesso pessoal. 

Quando já não nos preocuparmos com possuir, é que começaremos a ter. 

Quando não nos preocuparmos com controlar, seremos livres. 

A nossa vida é como um campo infinito de possibilidades, de oportunidades. 

Por isso, quanto mais nos separarmos de ideias preconcebidas, de preconceitos, tanto mais nos abrimos à possibilidade de mudar, de nos transformarmos. 

Ou melhor, permitimos que a nossa pessoa atraia a si coisas, pessoas, situações que ajudarão a realizar os seus objetivos. 

Tenta imaginar, por exemplo, como seria a tua vida sem medos, sem complexos de culpa ou de inferioridade (...).

Quase todas as nossas vidas rodam, sem que nos apercebamos disso, ao redor da neurose, dos nossos complexos, dos nossos medos. 

Por isso, por exemplo, estamos sempre à defesa ou preferíamos agredir. 

Só com a espiritualidade, com a criatividade podemos sair das prisões invisíveis que criamos para nós. 

- A rigidez não é um valor.
- Quanto mais rígido fores, tanto mais negativo serás.
- Quanto mais rígido fores, tanto mais fechado serás.
- Quanto mais rígido fores, tanto mais limitado serás.
- Quanto mais rígido fores, tanto mais ciumento serás.
- Quanto mais rígido fores, tanto mais invejoso serás.
- Quanto mais rígido fores, tanto mais perigoso serás.
- Quanto mais rígido fores, tanto mais incapaz serás  de compreender os outros. 

Pelo contrário, uma pessoa criativa, espiritual, é uma pessoa aberta, disponível, otimista, flexível e generosa.

Frequentemente, é a nossa educação, são os usos e costumes do nosso ambiente que nos bloqueiam.
Mas, quando se vive coerentemente o motivo, o objetivo por que viemos ao mundo, quando estamos no percurso de crescimento psicoespiritual, já nada mais é impossível. 

O conhecimento das nossas verdades funda-se no nível de maturidade, no conhecimento de nós mesmos. 

Se descobrirmos verdadeiramente quem somos, também reconheceremos as nossas potencialidades e respeitar-nos-emos a nós próprios. 

Além disso, cada ação realizada para satisfazer uma necessidade começa com a atividade de pensamento. Cada um de nós deve tomar, se responsável não somente pelas suas ações, mas também pelos seus pensamentos, pelas suas emoções. 

No fundo, somos nós quem escolhe a vida que estamos a viver.
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 * Escritor. Valerio Albisetti - In Felizes apesar de tudo, ed. Paulinas
Fonte: http://www.snpcultura.org/viver_plenamente.html 25.11.13