segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Socialismo é barbárie

Luiz Felipe Pondé*

A esquerda está em pânico porque estava acostumada a dominar o debate público 

Se eu pregar que todos que discordam de mim devem morrer ou ficarem trancados em casa com medo, eu sou um genocida que usa o nome da política como desculpa para genocídio. No século 20, a maioria dos assassinos em massa fez isso. 

O Brasil, sim, precisa de política. Não se resolve o drama que estamos vivendo com polícia apenas. Mas me desespera ver que estamos na pré-história discutindo ideias do "século passado". Tem gente que ainda relaciona "socialismo e liberdade", como se a experiência histórica não provasse o contrário. Parece papo das assembleias da PUC do passado, manipuladoras e autoritárias, como sempre. 

O ditador socialista Maduro está espancando gente contra o socialismo nas ruas da Venezuela. Ele pode? Alguns setores do pensamento político brasileiro são mesmo atrasados, e querem que pensemos que a esquerda representa a liberdade. Mentira. 

A maioria de nós, pelo menos quem é responsável pelo seu sustento e da sua família, não concorda com o socialismo autoritário que a "nova" esquerda atual quer impor ao país. A esquerda é totalitária. Quer nos convencer que não, mas mente. Basta ver como reage ao encontrar gente inteligente que não tem medo dela. 

Ninguém precisa da esquerda para fazer uma sociedade ser menos terrível, basta que os políticos sejam menos corruptos (os da esquerda quase todos foram e são), que técnicos competentes cuidem da gestão pública e que a economia seja deixada em paz, porque nós somos a economia, cada vez que saímos de casa para gerar nosso sustento. 

Ela, a esquerda, constrói para si a imagem de "humanista", de superioridade moral, e de que quem discorda dela o faz porque é mau. Ela está em pânico porque estava acostumada a dominar o debate público tido como "inteligente" e agora está sendo obrigada a conviver com gente tão preparada quanto ela (ou mais), que leu tanto quanto ela, que escreve tanto quanto ela, que conhece seus cacoetes intelectuais, e sua história assassina e autoritária. 

Professores pautados por esta mentira filosófica chamada socialismo mentem para os alunos sobre história e perseguem colegas, fechando o mercado de trabalho, se definindo como os arautos da justiça, do bem e do belo. 

A esquerda nunca entendeu de gente real, mas facilmente ganha os mais fragilizados com seu discurso mentiroso e sedutor, afirmando que, sim, a vida pode ser garantida e que, sim, a sobrevivência virá facilmente se você crer em seus ideólogos defensores da "violência criadora". 

Ela sempre foi especialista em tornar as pessoas dependentes, ressentidas, iludidas e incapazes de cuidar da sua própria vida. Ela ama a preguiça, a inveja e a censura. 

Recomendo a leitura do best-seller mundial, recém publicado no Brasil pela editora Agir, "O Livro Politicamente Incorreto da Esquerda e do Socialismo", escrito pelo professor Kevin D. Williamson, do King's College, de Nova York. Esta pérola que desmente todas as "virtudes" que muita gente atrasada ou mal-intencionada no Brasil está tentando nos fazer acreditar mostra detalhes de como o socialismo impregnou sociedades como a americana, degradou o meio ambiente, é militarista (Fidel, Chávez, Maduro), e não deu certo nem na Suécia. O socialismo é um "truque" de gente mau-caráter. 

As pessoas, sim, estão insatisfeitas com o modo como a vida pública no Brasil tem sido maltratada. Mas isso não faz delas seguidores de intelectuais e artistas chiques da zona oeste de São Paulo ou da zona sul do Rio de Janeiro. 

A tragédia política no Brasil está inclusive no fato de que inexistem opções partidárias que não sejam fisiológicas ou autoritárias do espectro socialista. Nas próximas eleições teremos poucas esperanças contra a desilusão geral do país. 

E grande parte da intelligentsia que deveria dar essas opções está cooptada pela falácia socialista, levando o país à beira de uma virada para a pré-história política, fingindo que são vanguarda política. O socialismo é tão pré-histórico quanto a escravatura. 

Mas a esquerda não detém mais o monopólio do pensamento público no Brasil. Não temos mais medo dela. 
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* Filósofo.
Fonte: Folha online, 24/02/2014
Imagem da Internet

E se um beija-flor pousar na sua janela?

ista.edu

Zygmunt Bauman, em Vigilância Líquida, sua mais recente obra traduzida: "a história não vai destruir nossas esperanças - desde que escutemos seu aviso."

Depois de criar a consagrada expressão modernidade líquida para a vida contemporânea – fluida, inconstante, insegura e insatisfatória – e a mesma conceituação para a pós-modernidade, uma modernidade tardia e “perturbadora” como a que vivemos hoje; e após inscrever vários best sellers sobre o assunto (Modernidade líquida, Amor líquido, Vida líquida e Medo líquido) na sua vasta obra literária, o polonês Zygmunt Bauman, 83 anos de idade e sempre transbordando de energia, publicou no Brasil, há apenas um mês, mais um volume do que podemos chamar de série - ou de coleção.

Vigilância líquida (Ed. Zahar) é o resultado de recentes conversas de Bauman, professor emérito das universidades de Varsóvia e de Leeds, na Grã Bretanha, com o amigo David Lyon, professor da Universidade de Queens, no Canadá, que assim como ele também é sociólogo e estuda os mecanismos de controle e vigilância da sociedade, no caso a sociedade líquida, e as demandas de “segurança” crescentes – muitas delas artificiais, como as que procuram classificar como terrorismo determinadas manifestações políticas - estimuladas por empresas de tecnologia ou, com frequência, pelos interesses de ocasião de grupos e partidos políticos.

O objetivo do livro, segundo Bauman e Lyon, é a compreensão crítica da nossa sociedade pontilhada de câmeras de vídeo, por exemplo, que se multiplicam nos espaços públicos. É sobre a vigilância que aumenta sobre os indivíduos quando fazem suas compras mais rotineiras. O controle originado na participação nas redes sociais, no twitter, facebook (“o privado é público, é algo a ser celebrado e consumido tanto por incontáveis ‘amigos’ quanto por ‘usuários’ ocasionais”, lembram os autores) ou uma simples busca, uma pesquisa no google que resulta no monitoramento, sem o nosso conhecimento, da intimidade de cada um. Os “fragmentos de dados pessoais obtidos para um objetivo são facilmente usados para outro fim”.

Todo este imensurável material, arquivado em gigantescos bancos de dados de perfis, está prontos para ser usado e manipulado a qualquer momento. Em um aeroporto, durante uma inocente viagem de férias, em um check in de hotel ou numa abordagem policial. Bancos de dados que fazem dos mecanismos de controle daquele futuro pintado por Orwell um ameno refresco de laranja. Mas, ao mesmo tempo, assim como em 1984 estamos todos (ou estaremos) perfilados à revelia e controlados por um poder já hoje invisível.

David Lyon escreve: “Somos permanentemente checados, monitorados, testados, avaliados, apreciados e julgados.” E lembra: vigilância para proteção é uma coisa; vigilância para controle, outra.

Os acessos online, as senhas para ingressar em prédios comerciais e mesmo residenciais (esses, já há tempos de uso comum nas grandes cidades dos países centrais), os cartões de controle em código, o login, a leitura de impressões digitais em bancos, a apresentação de documento de identidade requerida com frequência cada vez maior, enfim, a “vigilância é uma dimensão central da modernidade”, diz Bauman, concluindo sobre essa invasão (des)controlada. E a própria invasão, líquida e fluida por sua vez, e por isto mesmo despercebida pelos ingênuos e pelos distraídos, exerce controle e vigilância permanente, se infiltrando e se espalhando em todas as áreas da vida líquida e “perturbadora”, no dizer de Lyon.

Mas além desse tipo de modernidade que tem se “liquidificado” (como define Bauman), em novas e diferentes maneiras, e para além do mantra de Marx e Engels do “tudo que é sólido se desmancha no ar” e do ambiente perigoso do deleto, desconecto, bloqueio, os dois sociólogos trazem suas reflexões, em Vigilância líquida, para um outro aspecto do controle/vigilância invisível - o político, tão ou mais perigoso da inquietante atualidade.

Mídias sociais e drones; a aterrorizante vigilância pan-ótica (no caso, pós-pan-ótica) criada na arquitetura de prisões de última geração; a (in) segurança no cotidiano; o consumismo e a classificação social (ser um árabe ou um muçulmano, hoje, pode ser um problema em qualquer aeroporto ou fronteira; e, dependendo do momento da chamada conjuntura, o mesmo ocorre para um latino-americano: um mexicano, um venezuelano, por exemplo, num aeroporto dos Estados Unidos). Estes são temas do livro publicado agora.

Concluindo a conversa entre Bauman e Lyon, considerações sobre Ética e Esperança. “A vigilância digital é uma espada afiada cuja eficiência ainda não sabemos como reduzir”, escreve o pensador polonês. “É uma espada com dois gumes que ainda não sabemos manejar com segurança.”

No aspecto político, evidentemente o 11 de setembro foi um marco fundamental para a expansão desordenada das novas tecnologias de espionagem e vigilância. No seu livro, Bauman sublinha “o aumento espetacular do número de drones reduzidos ao tamanho de uma libélula ou de um beija-flor confortavelmente empoleirado no peitoril de uma janela; ambos (drone e beija-flor) destinados, na saborosa expressão do engenheiro espacial americano Greg Parker, a ‘desaparecer em meio à paisagem’.

Ele relembra que mais de 1900 insurgentes nas áreas tribais do Paquistão foram mortos por drones americanos – os famosos predators – desde 2006.

Reduzidos agora ao tamanho de pássaros, mas preferivelmente de insetos - os designers militares já trabalham nesses drones mais avançados. Os movimentos de voo das mariposas, por exemplo, são mais fáceis para a tecnologia imitar do que o bater de asas dos pássaros.

Pergunta-se, enquanto as mariposas não entram em cena – ou melhor, na paisagem: o que você fará se, de repente, um dia, um beija-flor vier e pousar na sua janela?

Para Bauman, vive-se a época do divórcio entre o Poder e a Política – pelo menos na Europa onde, mesmo ainda eficiente comparado aos padrões nacionais, o sistema do bem-estar social está sendo desmantelado. “Poder e Política estão se separando (...) e a política parece irrelevante para os problemas e temores da vida das pessoas. O Estado perdeu Poder e não consegue manter e cumprir as promessas feitas há 50 anos; sem ele, oferece-se cada vez menos aos cidadãos.”

Para Zygmunt Bauman, a qualidade da democracia, que viveu sua época de ouro há meio século, está hoje em decadência. Uma visão eurocentrista a registrar o que se passava, na época, no velho continente europeu. O oposto do que vivemos, então, no Brasil e no continente sul-americano.

Na cena da realidade atual onde, segundo o sociólogo, “estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”, Bauman repisa dois dos conceitos básicos do seu pensamento – a segurança e a liberdade. Sem a segunda a primeira é “escravidão”, em suas palavras. Mas para alcançar a segurança é preciso entregar um pouco da liberdade. Ganha-se algo por um lado, perde-se pelo outro. “E ninguém encontrou ainda a fórmula de ouro da mistura perfeita,” diz ele.

O que não significa que, livre, o indivíduo encontre a forma suprema da segurança na (in)segurança.

Otimista, e criticando os falsos gurus de hoje que ganham fortunas escrevendo livros e dando cursos sobre como encontrar a felicidade, Bauman conclui em Vigilância líquida: “A história não vai destruir nossas esperanças – desde que escutemos seu aviso.”

Ou que o tal beija-flor não pouse, de repente, no peitoril da nossa janela.


Em tempo: esta semana, Edward Snodewn observou a propósito da questão da vigilância de massa digital:

"Hoje, uma pessoa comum não pode pegar o telefone , enviar e-mail a um amigo ou encomendar um livro sem  registrarem suas atividades que estão sendo criados em arquivos e analisados por pessoas com autoridade para colocá-lo na cadeia. Eu sei: eu sentei naquela mesa. Eu digitei os nomes.

Quando sabemos que estamos sendo observados nós nos impomos restrições sobre nosso comportamento - mesmo atividades claramente inocentes - da mesma forma como se nós fossemos obrigados a fazê-lo. Os sistemas de vigilância em massa de hoje, os sistemas que preventivamente automatizam a captura indiscriminada de registros privados, constituem uma espécie de vigilância do tipo máquina do tempo - uma máquina que simplesmente não pode funcionar sem violar nossa liberdade. E isto permite que os governos examinem cada decisão que você já fez, cada amigo com quem você já falou. Mesmo um erro bem-intencionado pode transformar uma vida de cabeça para baixo.

Para preservar as nossas sociedades livres temos de nos defender não só contra inimigos distantes, mas contra as políticas domésticas." (Ou seja, nacionais/N. R.)
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Reportagem por Léa Maria Aarão Reis  
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/23/02/2014

Sínodo sobre a Família: Kasper pede misericórdia em situações concretas.

Cardeal Walter Kasper

Cardeal Walter Kasper

“Vatican Insider” entrevista o cardeal alemão que apresentou o encontro de dois dias e falou sobre a beleza da família e do problema dos divorciados recasados. “O Papa me pediu para formular perguntas e agora é o momento de refletir”

 “Minha apresentação sobre a beleza da família teve um viés teológico. Precisamos tomar esse momento como um ponto de partida para lidar com tudo o mais, incluindo as questões candentes da atualidade. Também falei sobre a questão dos divorciados recasados, mas nesse contexto como um todo.” A pedido de Francisco, o Cardeal Walter Kasper, Presidente Emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade entre os Cristãos, fez a abertura do Consistório Extraordinário sobre a família, que começou hoje e termina amanhã. O cardeal alemão respondeu a algumas perguntas e deixou a Sala Nova do Sínodo no Vaticano.

Por acaso foram tomadas decisões com relação à possibilidade de administrar a Comunhão para divorciados recasados?
“Falei da necessidade de reflexão. Há algumas situações muito variadas, algumas regras gerais, mas também algumas situações concretas. O Papa falou sobre o trabalho pastoral corajoso e inteligente, que seja repleto de amor, e eu falei a respeito da reflexão sobre situações concretas: as pessoas não são simplesmente casos, elas têm uma dignidade que precisa ser respeitada.”

Qual é a sua opinião pessoal sobre esse assunto?
“Não se pode generalizar. Vou lhe dar um exemplo: Eu era bispo há dez anos e um dia um pároco veio a mim e me contou a respeito de uma mãe (que era uma divorciada recasada] cujo filho ele estava preparando para a primeira Comunhão. O filho ia receber a Comunhão, mas não a mãe. Então me pergunto: Como isso é possível? Temos o arrependimento, a misericórdia e o perdão de Deus. Será que podemos realmente negar a remissione peccatorum?

A posição tomada pelo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller, sobre esse assunto difere da sua …
“Não discuti sobre esse assunto com Müller, apenas apresentei o tópico. Porém, ele e eu concordamos em questões fundamentais. Certamente sou um pouco menos firme em questões concretas, mas eu não discuti com ele.”

 O senhor conversou com o Papa antes do Consistório Extraordinário?
“Sim, o Papa me pediu para fazer perguntas, não para propor soluções. E é correto que os fiéis façam perguntas. A situação [família] mudou muito na sociedade ocidental. Fiz perguntas, mas não estou tentando forçar minha posição. Não tenho uma solução, precisamos refletir e, em qualquer caso, o Sínodo [que o Papa convocou para o próximo mês de outubro] abordará essas questões. Com o Papa Jorge Mario Bergoglio, o Consistório Extraordinário de hoje transcorreu em uma atmosfera muito tranquila, o que é muito importante. O Papa abriu a discussão, que, a princípio não prevê quaisquer decisões, precisamos apenas refletir.”

Existe um risco de dissensão dentro do Colégio Cardinalício sobre as questões relacionadas à família?
“Não, este é um contexto sinodal; precisamos chegar a um consenso, precisamos de troca de ideias, discussões e orações.”

A Igreja é uma democracia?
“Não, ela não é uma democracia; a Igreja toma decisões que são fruto de um processo sinodal. Democracia é outra coisa.”
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 Por Vatican Insider | Tradução: Fratres in Unum.com

REDESCOBRIR

 Joaquim Clotet*
O início da vida universitária ou do exercício de uma profissão comporta, entre outros fatores, o redescobrimento de si próprio. Habilidades e talentos estão presentes em todas as pessoas, porém de modo diverso em qualidade, quantidade e, às vezes, até ocultos. A companhia Gallup realizou a pesquisa Clifton Strengths Finder com uma amostra de 1,7 milhão de pessoas para examinar a relevância do redescobrimento das habilidades e competências que caracterizam e de certo modo definem cada sujeito. Ficou comprovado que o conhecimento de si próprio ou a recuperação dos talentos constitui um passo firme para o sucesso acadêmico, econômico e profissional.

O redescobrimento em questão resulta impossível aos robôs autônomos criados recentemente na Universidade de Harvard. Trata-se de máquinas eficientes para a construção de prédios complexos. Esses gigantes da técnica operam de acordo com uma programação alheia previamente estabelecida.

Mark Zuckerberg, fundador do Facebook com outros três colegas universitários e hoje presidente da empresa, que recentemente anunciou a compra de WhatsApp, desenvolve de modo certo as próprias competências. Do mesmo modo, os engenheiros e arquitetos da Companhia Network Rail idearam e levaram a cabo a construção da maior ponte solar do mundo, que facilitou a entrada à estação Blackfriars. É, sem dúvida, um verdadeiro ícone da ecologia londrina, fruto do preparo dos seus inspirados construtores.

Os futuros e bem-sucedidos cientistas e profissionais já estão em nossa sociedade. Precisam, porém, estar cientes das suas capacidades e limitações. Assim, como afirma Mary McAleese, presidente da Comissão sobre a Modernização do Ensino Superior da União Europeia, a educação nutre os talentos e o potencial das pessoas com conhecimentos de vanguarda e capacidades flexíveis, alicerçadas em valores compartilhados, para a própria realização e para o crescimento econômico, social e solidário. Em se tratando da solidariedade e do voluntariado, que frequentemente a acompanha, cabe dizer que são valores imprescindíveis, nesse caso, de forma paradoxal, tanto em nossa sociedade de ecossistemas de informação, quanto na sociedade marginalizada. Conquistar o reconhecimento individual e coletivo dessa sensibilidade social, que existe exuberante em alguns e latente em outros, é uma meta a ser perseguida por acadêmicos, profissionais e demais integrantes da nossa sociedade globalizada. O rumo é exigente, mas não menos desafiador, instigante e esperançoso.
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*Reitor da PUCRS
Fonte: ZH online, 24/02/2014
Imagem da Internet

domingo, 23 de fevereiro de 2014

'Humor não serve mais para nada', diz Jaguar, em sua 'última entrevista'

 Abstêmio por causa de um tumor no fígado, cartunista mais escrachado do país diz que profissionais 
da área desaprenderam a fazer rir.
Com 60 anos de ofício, ele confessa que ainda 
tem medo de perder o emprego.
 
RIO - O título acima pode dar a entender que Jaguar, o cartunista mais escrachado do país, está amargurado. Afinal, aos 82 anos, teve que parar de beber, um duro golpe. Mas, em quatro horas de conversa, ele emenda uma piada na outra sem perder o fôlego, ri como criança, chama a fotógrafa Ana Branco de ditadora e, quando ela deixa o local para fotografar um bueiro que explodiu, sugere que gazeteie a pauta: “Bueiro estourado e Jaguar, dá no mesmo”. Sem medo de patrulha, o fundador do “Pasquim”, hoje chargista do “Dia”, dispara contra todo mundo. E desenha, bebe cerveja sem álcool, canta e, apesar da amnésia abstêmia que às vezes interrompe sua fala, passa a limpo, ou a sujo, uma vida que daria livro, filme ou ópera. De vanguarda...

No próximo dia 29 você faz 82 anos. Acontece que fevereiro de 2014 só tem 28 dias. Como é que fica?
Só faço aniversário de quatro em quatro anos. Na prática, tenho 20 anos e meio. Mas ando alquebrado. Este olho esquerdo está caído. Eu ia hoje ao médico dar uma levantada, mas tinha esta entrevista. Estou cansado de entrevistas. Outro dia me ligou uma menina da revista “F,” eu achei que era “S”, aí ela disse: “É ‘F,’ de foda-se”. Eu respondi: “Que modos são esses? Eu sou um velhinho!” Quando chegou aqui, era uma garota de 18 anos, olhos azuis, uma santa. Trouxe 20 pessoas. Veio também o (desenhista e roteirista) Arnaldo Branco, que eu respeito muito. E o Allan Sieber, que dizem que é o maior cartunista do mundo. Bom, o mais tatuado tenho certeza de que é. Mas chega! Esta é minha última entrevista. Ou não... mas é, sim. Depois de sair no GLOBO, só falo para o “New York Times”.

Há dois anos você levou um susto. Com a bebida. Parou mesmo?
Tive um carcinoma no fígado. Um “Che”. Segundo os exames, está extinto. Fiz muito turismo hospitalar em São Paulo. Agora só vou lá para comer, porque no Rio atualmente se come mal e caro. Se parei de beber? Parei. Agora, só cerveja sem álcool. Quer dizer, tem 0,5% de álcool. Ou seja, de 0,5 em 0,5 a gente pode chegar a um resultado expressivo! Como disse aquele comediante Marcelo Adnet, que também está abstêmio, “é zero, mas pelo menos não é usada”. Boa, né? Mas para quem tomava Underberg depois do café... eu até ganhei uma placa deles, a bebida foi criada no ano do meu nascimento: “Pelos serviços prestados desde 1932”. Na época, fiquei indignado: eu só comecei a beber Underberg com 10 anos!

 "Só sofre quem espera alguma coisa. 
Mas isso não me deprime. Eu sofro só se 
não tiver dinheiro para o chope."

Essas oito décadas foram bem loucas, não? Para quem quis servir ao Exército e sonhava comandar navio...
Eu entrei para a tropa porque tinha asma e era tão mimado pela minha mãe que achava que ia virar bicha. Meu número, para piorar, era 4-24. Depois, passei para a Marinha Mercante. Quando ia fazer minha primeira viagem, gamei numa guria e larguei tudo. Minha vida sempre foi assim. Como no filme “Match point”, do Woody Allen: a bola no filete da rede. Eu cometi todos os crimes possíveis — pode ser até que já tenha matado gente —, mas acho que já prescreveram. Cometi crimes ecológicos terríveis. No início dos anos 1950, saí do Exército muito doidão e fui dar um rolezinho na Amazônia. Passava os dias tomando cachaça, comendo as índias e dando tiro de chumbinho em macaco-prego. Mas eles não eram inocentes. Invadiam a palafita, roubavam tudo. Rádios, gravadores, comida. Eram alcoólatras. Bebiam nossa cerveja e à noite desabavam na mesa de sinuca, chapadões.

Como anda o Brasil na sua opinião? E o humor, tão importante durante a ditadura?
O Brasil continua uma merda, graças a Deus. Se não, o que seria de mim e dos meus colegas? Mas o humor não serve mais para nada. Quando uma charge, hoje, vai ser um acontecimento? O mundo e a internet assimilaram o humor de uma maneira que virou cocô de mosca. Pode xingar a mãe, falar o que quiser que não faz a menor diferença. E a gente ainda tem que concorrer com os grafiteiros, que agora os críticos chamam de artistas, mas só fazem emporcalhar a cidade e impôr-se. Isso me faz lembrar aquele polvo psicodélico da Tomie Ohtake na Lagoa. O Marcos Vasconcellos, meu amigo, compositor, desenhista, arquiteto, um radical, comprou bananas de dinamite e me chamou para a gente pegar um pedalinho de cisne e explodir aquilo. Declinei. Ainda bem, pois ia matar os mendigos que moravam naquele horror. Mas, voltando ao humor, ele anda muito sério, muito inteligente, sofisticado, mesmo quando é bom. O pessoal não se preocupa em fazer rir. A gente se sente feliz da vida quando consegue entender a piada. Por isso eu mudei. Detestava os Três Patetas. Hoje, adoro aquela coisa de martelada na cabeça, panelada na cara, dente arrancado. É o suprassumo. Mesmo assim, como hoje colaboro com um jornal popular, “O Dia”, sou reconhecido por taxistas e mendigos. Uma caixa de supermercado outro dia viu minha assinatura e perguntou: “Jaguar, o cartunista?” Eu disse: “Como é que você sabe?” E ela: “Eu posso ser humilde, mas me interesso por cultura.” Eu achei tão bonitinho!

Passados os acidentados anos Sarney/Collor/Itamar, tivemos três presidentes: Fernando Henrique, Lula e Dilma. Qual o seu olhar sobre eles?
São todos muito fraquinhos. Está faltando um estadista. Dilma é atrozmente medíocre. “Estresse hídrico” é o cacete. Lula eu conheci levado pelo Henfil, camisa de malha, jeans e Conga. Nunca acreditei nele. É um cara rancoroso. Uma vez me entregou um prêmio no Municipal. Olhou com uma raiva que nunca superei. Fernando Henrique eu entrevistei e depois ele me pediu para acompanhá-lo ao aeroporto. Estava orgulhoso de um relógio que tinha tudo. Dava para ver hora em Marte. Ele disse: “Olha, faz cálculos, tábuas, o diabo. Pode perguntar o que quiser.” Aí eu perguntei: “Que horas são?” Ele ficou pasmo. Não respondeu até hoje.

Quem foi nosso último estadista? Você tem candidato para as eleições?
Eu? Candidato? Eu não voto! A última vez em que votei foi no Brizola. E me arrependi. Sobre último estadista, não sei. Todo político tem um passado sórdido, que vem à tona ou não. Pensando bem, todo mundo. Só sofre quem espera alguma coisa. Mas isso não me deprime. Eu sofro só se não tiver dinheiro para o chope. Como no tempo em que morei num cubículo na Lapa, lado a lado com Madame Satã. Eu vivia com uma filha de santo. Um dia, baixou nela uma entidade que falava grosso como um monstro. Madame Satã veio acudir e cantou pro santo subir. Depois, a mulher me botou para fora. Fiquei na pior até conhecer a Celia (Regina Pierantoni), no Lamas, naturalmente. Ela arrumou minha vida. São 25 anos de casados. Tomou conta de mim. O que eu acho ótimo. É formidável, doutora, referência mundial em saúde pública. Estamos vivendo muito bem.

 "Fui um fiasco nas escolas de desenho. 
Houve um instituto onde eu tinha que 
desenhar um busto de Voltaire e aí pus 
uma mosca no nariz dele. 
Fui expulso."

Você foi muito criticado pela indenização que recebeu do governo, em 2008, por perseguições durante a ditadura. Ficou com dilemas éticos?
Eu não. Eu achei ótimo. Foi o que salvou minha vida. A ditadura me ferrou, perdi emprego, fiquei no miserê. Foi uma iniciativa da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), eu topei. Nunca tive dinheiro, plano de saúde, carteira assinada. Tem gente que é rica e recebeu o triplo. Faço charges há 60 anos e ganho pouco. Nunca saí com pastinha no braço, como o Mauricio de Sousa, nem tenho a energia produtiva do Ziraldo, de quem sou fã. Nunca tiro férias por medo do bilhete azul. No caso da indenização, o que estragou foi o Ziraldo. Tem horas em que é melhor ficar na moita. Ele foi à ABI e fez um auê, esculhambou todo mundo, disse que quem era contra estava botando o rabo entre as pernas. Aí saiu a maior pancadaria, o Elio Gaspari dando porrada em todo mundo. Só podia ser, não é?

Como você se avalia?
Sou um bom cronista de situações. Mas não sei desenhar. Nunca soube. Se tenho que fazer caricatura, copio do Chico, do Angeli, e as pessoas acham que é um estilo. No Brasil, qualquer um que dure dez anos num ofício é considerado grande profissional. Fui um fiasco nas escolas de desenho. Houve um instituto onde eu tinha que desenhar um busto de Voltaire e aí pus uma mosca no nariz dele. Fui expulso.

Bom, mas a mosca é sua essência. O seu gênio...
É a minha deformação profissional. O.k., faço bons cartuns. Hoje a palavra cartunista ficou importante. Todo mundo é cartunista, mesmo os quadrinistas. Só que tudo podia ser diferente. Houve um tal de Brandão, que fez concurso comigo pra substituir o Borjalo na “Manchete”. Ele era meu colega no Banco do Brasil, onde trabalhei. Meu pai era inspetor lá. O Brandão virou bancário... Eu fiquei só um tempo. Bebia a noite toda, chegava às três com minha lambreta. Assinava a “New Yorker”. Entrei por aí, “A notícia”, “Senhor”, “Pasquim”. Fiz até quadrinhos para O GLOBO. Podia ter virado quadrinista e ganhar tutu, mas dá trabalho... O Quino fazia legendas que eram poesia nas charges. Mas “Mafalda” é uma merda. Eu disse isso a ele, e a chata morreu. Sei lá se foi por isso...

 "O futebol nacional está muito ruim. Eu morei em Santos 
no tempo de Pelé... Acho que a Copa vai ser 
um desastre de organização. E não vejo 
o Brasil batendo os europeus."

O “Pasquim” foi o auge?
Foi o auge do sucesso. Mas a revista “Senhor” tinha mais qualidade. Paulo Francis, Scliar, Glauco Rodrigues, Bea Feitler. Turma da pesada. Já o “Pasquim” foi só diversão. Até a censura era um barato. Era feita pelo Coronel Juarez, um bonitão, sósia do Gary Cooper. Recebia a gente na garçonnière dele. Pegava o material e riscava a lápis. A gente argumentava. Havia diálogo. O pessoal torcia para chegarem as garotas. Ele apresentava: “Esses são meus amigos do famoso ‘Pasquim’.” Aí liberava as maiores atrocidades! Ele tinha uma turma de coroas na praia, a gente contratou uma loura espetacular de biquíni. Ela levava o material, e ele censurava na praia! E ela, alisando o velho, dizia: “Ah, meu bem, não faz isso, os meninos vão ficar tão tristes...” Ele ficava orgulhoso e liberava.

Já o tempo na prisão (em 1970) não deve ter sido tão divertido...
O quê? Fiquei três meses na Vila Militar. Nunca bebi tanto. Não é piada: foi a fase mais feliz da minha vida. Acordava e pensava: “O que tenho para fazer hoje? Porra nenhuma!” Subornava os guardas para ter cachaça. Bebia do gargalo e jogava num matagal atrás da cela. Consegui ler 60 páginas de “Ulisses”. Depois não retomei. “Ulisses” ou você lê na prisão ou não lê. O Paulo Francis e o (fotógrafo) Paulo Garcês vinham com uns pedaços de pau e apontavam para mim, imitando colonizadores: “Look... this is almost human!” (Olhe... isto é quase humano!) Quando fomos soltos no réveillon de 1970, fui espiar o matagal, e tinha uma pirâmide de garrafas. O coronel responsável vinha perguntar se eu estava sendo bem tratado, eu tinha que tampar a boca por causa do bafo. “O que houve?”, ele perguntava, e eu dizia que era dor de dente. Ele oferecia dentista e eu recusava, explicando que preferia a dor ao dentista. Era tão divertido! Depois o coronel foi exilado para Goiânia porque tinha tratado bem os intelectuais. Coitado.

De que maneira você passa hoje seus dias?
Já li muito, principalmente poesia. Ouço bastante jazz. E fico em casa vendo futebol inglês, espanhol, italiano. O futebol nacional está muito ruim. Eu morei em Santos no tempo de Pelé... Acho que a Copa vai ser um desastre de organização. E não vejo o Brasil batendo os europeus.

 "Minha carreira de ator são nove palavras! 
Mas foram grandes atuações."

O que você gostaria de ter feito e não fez?
Lamento a burrice dos diretores de cinema brasileiros, que não perceberam que sou um grande ator. Em “Natal da Portela”, do (Paulo Cesar) Saraceni, fiz uma ponta, no papel de um comerciante judeu. Só me falaram: Você tem que dizer “Bom-dia, seu Natal!” Procurei um velho judeu e perguntei como ele falava “Bom-dia, seu Natal”, e ele repetiu, com aquele sotaque, até eu aprender. Na hora de filmar, eu digo a fala com um ar servil de estereótipo, e o Milton Gonçalves responde: “Bom-dia é o caralho!” Eu não sabia. Fiz uma cara de espanto. Porra, eu bebia com o Milton e ele me ofende? Depois, fiz em “Tanga (Deu no New York Times?)” o papel de um correspondente americano no país de um ditador, e minha fala era: “E se os marines chegarem?” Minha carreira de ator são nove palavras! Mas foram grandes atuações.

Para terminar, uma análise do jornalismo de hoje.
No meu tempo de redação, de “A notícia”, eu trabalhava com a garrafa de uísque do meu lado, passava a mão na bunda das moças e dormia em cima da mesa. Hoje é cada um fechado na sua mesa, aquele silêncio total, todo mundo olhando para as telinhas... Fico meio pasmo. Agora, o jornalismo? Sou muito velho. Sou viciado em jornal de papel. Leio três por dia. Gosto de tudo. Dizem que vai acabar, mas não enquanto eu viver.
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Reportagem por Arnaldo Bloch (Email)
Fonte: Jornal O GLOBO online, 23/02/2014

"Eu nasci em país errado!"

 
"No banco, dona Noêmia entregou ao caixa um cheque de 200 reais, nominal. Assim que o caixa pediu a carteira de identidade dela, a confusão se formou"*, 

Eis a crônica.

Fiquei sabendo que o nome completo dela é Noêmia Pereira Lins. Fiquei sabendo também que tem 74 anos e um filho chamado Júlio, tamanha a confusão que ela aprontou naquela manhã de segunda-feira numa agência bancária da Rua Clélia, na Lapa.

Dona Noêmia era a segunda da fila de prioritários e quando chegou a sua vez, entregou ao caixa um cheque de 200 reais, nominal. Assim que o caixa pediu a carteira de identidade dela, a confusão se formou. Ela tinha esquecido o documento em casa e disse que por nada nesse mundo iria voltar até a Rua Aurélia para buscar a carteirinha verde dela.

- Alguém aqui duvida que eu me chamo Noêmia Pereira Lins?

Para um motoboy que olhou meio enviesado, ela encarou.

- Eu tenho 74 anos de idade, meu filho!

Ela olhou um a um naquela fila enorme e ninguém teve a coragem de abrir a boca. Quem era eu para duvidar que aquela senhora nervosa não era a Dona Noêmia? O ambiente que já estava quente, sem ar condicionado, piorou ainda mais.

O caixa, sem saber muito o que fazer, apenas franzia a testa na certeza de que sem a carteira de identidade aquela senhora prioritária não descontaria o cheque nominal, assinado por seu filho Júlio, que ela fez questão de anunciar em alto e bom tom.

- O cheque está assinado por Júlio, meu filho legítimo!

Depois de olhar novamente um a um na fila, perguntou:

- Eu tenho cara de querer roubar 200 reais desse banco?

Dona Noêmia ensaiou falar com a gerente mas, não sei por que cargas d’água se deu por vencida. Não sei se ela foi até a Rua Aurélia buscar o documento, mas sei que saiu furiosa repetindo três vezes a frase:

- Eu nasci em país errado!

Mas antes de sair, quase que trombou na porta giratória porque, nervosa, não percebeu que estava querendo sair por onde as pessoas entram.

Como ainda faltavam seis pessoas para eu ser atendido, fiquei ali na fila imaginando em que país poderia ter nascido a Dona Noêmia, já que ela disse ter nascido em país errado?

Na França, com seus crepes de Grand Marnier, seus croissants au beurre e suas madeleines?

No Japão, onde até os policiais fazem curso de arranjos florais?

Na Síria, das paredes perfuradas por balas perdidas e destruída pela guerra?

Na Noruega, com suas ruas geladas e suas casas de jazz onde se apresentam os músicos da ECM?

Na Costa do Marfim, com suas sopas apimentadas servidas no meio da rua na hora do almoço?

Na Turquia, com seus engraxates luxuosos lustrando sapatos em cada esquina?

Na Inglaterra de Jamie Oliver? No Quênia de Paul Tergat? Na Colômbia de Gabriel Garcia Márquez? Na Argentina de Messi?

Em que país poderia ter nascido Dona Noêmia? Na Alemanha de Günter Grass? Na República Checa de Václav Ravel? Na Polônia de Lech Walesa? Na Rússia de Vladimir Putin? Ou na República dos Camarões de Roger Milla?

Tenho certeza que Dona Noêmia saiu do banco, pegou a Rua Clélia e dobrou na Aurélia. Não sei se ela foi pensando por que não nasceu na Finlândia, na Holanda ou no Zâmbia. Se essa fila demorar muito, tenho certeza que daqui a pouquinho ela estará aqui de volta com o cheque e o documento na mão. Que figura, essa Dona Noêmia do Brasil.
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* Escreve Alberto Villas, escritor, jornalista e ex editor do programa Fantástico, da Rede Globo, em crônica publicada na revista Carta capital, 20-02-2014.
Fonte: IHU online, 23/02/2014
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A TRADUÇÃO, ESSA FAMINTA QUIMERA

LUCIANA VILLAS-BOAS*
 
Para quem escreve o autor local?

 
RESUMO Propelida por programas de apoio à tradução, obsessão do autor nacional por reconhecimento no exterior mascara desprestígio da ficção brasileira no mercado local. Pouco e mal editados no país, escritores que não venham de carreiras de sucesso em jornal ou TV dependem em larga medida de compras do governo. 


O autor brasileiro é vidrado numa tradução. Tradução de sua própria obra, bem entendido. Não há prêmio, elogio de leitor nem sequer boas vendas no Brasil que se comparem à validação de seu texto por uma editora estrangeira. Se possível, a tradução para o inglês, mas servem versões exóticas, como para o sérvio ou o romeno, edições sem significado monetário e que atingem uns 300 leitores. Dão a impressão que se está chegando longe. 

Por isso, passado quase meio ano da homenagem ao Brasil na Feira do Livro de Frankfurt, percebe-se uma amargura entre muitos escritores: "Não disseram que a homenagem iria escancarar as portas do mercado internacional para o autor brasileiro?", perguntam. Que eu saiba, ninguém disse isso. Se disse, era um ingênuo falando do que não conhece. 

Este artigo não quer criticar ou ridicularizar a participação do Brasil em Frankfurt. Nem elevá-la a momento de gala da nossa literatura. A homenagem se ressente por não ser pensada como uma instância da política do Ministério da Cultura visando à exportação da criação literária brasileira. Avaliar o projeto do governo é relevante porque ajuda a elucidar a situação da literatura no Brasil e põe em perspectiva a quimera da tradução, que tanto persegue e é perseguida pelos escritores. 

Não existe tabulação do número de autores brasileiros hoje traduzidos no exterior em comparação com dez anos atrás. Mas o multiplicador é altíssimo. Naquela época, até nossos clássicos estavam em baixa, como Jorge Amado, tão popular nos EUA e Europa na década de 70 do século passado. Hoje, além de estarem aparecendo novas traduções de Amado, Clarice e Machado, muitos escritores não canônicos podem ser lidos em inglês, francês, alemão, espanhol, italiano, em alguns desses idiomas, ou em todos eles e outros. 

Essa relativa capilarização da literatura brasileira no exterior é resultado quase exclusivo do programa de tradução da Biblioteca Nacional reinventado em 2011. O programa já existia, mas não honrava seus compromissos, as bolsas prometidas não eram pagas, e sua credibilidade era zero. Foi difícil recuperar a confiança do editor estrangeiro. Fábio Lima, da Biblioteca Nacional, informa que, entre 2011 e 2013, foram concedidas 390 bolsas de tradução para 181 autores. 

POMPA Além de cumprir o combinado, o programa deslanchou graças ao pacote que foi montado: anúncio com pompas em Paraty e gancho com homenagens em várias feiras, não só a de Frankfurt --mas esta sempre mencionada com destaque. Foi naquele momento e com essa função que a homenagem na Alemanha teve importância. A crise econômica prestou sua contribuição: até editoras internacionais da primeira divisão viram com ótimos olhos a possibilidade de publicar autores de qualidade pagando adiantamentos baixos e recebendo uma injeção de grana antes de incorrer nos custos do processo editorial. 

Diante das planilhas da BN, fica difícil compreender por que nossa literatura não ganhou mais impulso. Mesmo considerando as bolsas que foram para a não ficção, é muito livro brasileiro no panorama internacional. Mas, sem cobrar do pessoal da Biblioteca o que eles não podem saber, os profissionais do mercado entendem que esse número deve ser ponderado. 

O primeiro problema que se pode supor é a concentração de bolsas beneficiando poucos ficcionistas. O segundo problema é que a maioria delas foi para editoras mínimas em mercados insignificantes --países africanos ou do Leste europeu. Não vamos defender que não se contemplem essas editoras, porque a lógica do Estado é outra e, para o Brasil, pode ser estratégico ter sua literatura na África ou entre vizinhos sul-americanos. Mas houve casos de gente com o olho só no dinheiro da Biblioteca, sem intenção de lançar dignamente os livros contratados. O problema mais grave é o terceiro, que escapa ao controle do ministério. 

Se os gastos do governo em Frankfurt foram excessivos, ou se a delegação não era representativa, não importa agora. A discussão aqui é mais ampla. Seria desejável que o programa continuasse, talvez com mais atenção ao detalhe, mas que não fosse ameaçado por novas administrações. A literatura nacional ainda não anda com as próprias pernas no mercado internacional; e, depois dos escritores, o principal interessado numa imagem literária da nossa cultura é o Estado brasileiro. Não se leva a sério um país que se reduz a samba e futebol; espera-se que sejamos alfabetizados, e a literatura seria nosso melhor testemunho. 

Comparado com outros programas de projeção da imagem do Brasil, o da BN parece apresentar boa relação custo x benefício. O governo só não pode gastar mais do que gasta, e o programa não deve ser ampliado enquanto o setor editorial não somar esforços. Há dois anos, o governo faz a sua parte, e está de bom tamanho. 

FARRA Em sua coluna da Folha, às vésperas da inauguração da Feira de Frankfurt, Elio Gaspari afirmou que a homenagem era uma "farra" com o dinheiro da Viúva para beneficiar os editores brasileiros. "Se os empresários do mercado editorial precisassem de homenagem na feira poderiam recebê-la com o dinheiro deles." 

A verdade é que os editores jamais investiriam um centavo na participação do Brasil em Frankfurt não porque contassem com tirar vantagem do governo, mas porque a maioria estava se lixando para a homenagem, não tinha o menor interesse nela, assim como, com raríssimas e notáveis exceções, se lixa para a literatura brasileira. Se houve farra, não foi promovida por ou para eles, estão inteiramente inocentes. Mas o desinteresse dos editores é mais de se lamentar do que de elogiar. 

Não há dados da porcentagem de livros brasileiros entre o que se publica de ficção no país. No perspicaz artigo "Tendências do mercado de livros no Brasil: um panorama e os best-sellers de ficção nacional 2000-2009" (revista "MATRIZes", 2012), Sandra Reimão não divulga esse número, mas consegue denunciar a inexpressividade do ficcionista brasileiro nas listas de mais vendidos.
Na primeira década do século, os autores que conseguiram furar o bloqueio estrangeiro foram: Luis Fernando Verissimo, Jô Soares, Chico Buarque, Paulo Coelho, João Ubaldo Ribeiro, Letícia Wierzchowski, Luiz Eduardo Soares e Orlando Paes Filho. 

À exceção de Paes Filho, autor do gênero fantasia, todos são nomes que vinham de carreira de sucesso em jornal, TV ou música (Verissimo, Jô e Chico), ou que se consagraram como escritores antes da última década do século 20, chegando ao novo milênio já com ampla presença na mídia (João Ubaldo e Paulo Coelho), ou que tiveram o apoio de TV ou cinema para seus seus romances (Wierzchowski com "A Casa das Sete Mulheres" e Luiz Eduardo Soares com "Elite da Tropa"/"Tropa de Elite"). 

Há exemplos recentes que ilustram a tese da professora: textos ótimos que, assinados por um autor desconhecido, estariam longe das listas. E esses autores e mais todos os outros brasileiros publicados não representam 5% das obras de ficção lançadas anualmente --essa é minha chocante projeção do alto de 20 anos de trabalho no meio editorial, acompanhando carteiras de lançamento das editoras, como jornalista, editora ou agente. 

MULETAS Esse é o grande obstáculo para a internacionalização da ficção brasileira: nossa literatura não anda com as próprias pernas em seu país. Precisa das muletas de outro veículo ou forma de comunicação. Não temos volume ou variedade. Entre os autores traduzidos nos últimos dois/três anos, alguns tiveram desempenho razoável no exterior, foram reeditados, mas nenhum causou impacto semelhante ao do sueco Stieg Larsson, que expôs para o mundo a literatura de toda a Escandinávia. 

Principalmente, nenhum autor brasileiro chegou a terras estrangeiras com um histórico inequívoco de consagração nacional. A não ser Paulo Coelho, cuja literatura não foi percebida lá fora como brasileira, ao mesmo tempo que o Brasil tolamente não a reivindicou, incluindo aí a crítica e os colegas escritores. Sua popularidade intercontinental não teve como abrir portas para outras obras brasileiras --um caso excepcional. 

O divórcio entre literatura nacional e sociedade é uma vergonha para o Brasil. Não é preciso recorrer a parâmetros de mundo desenvolvido; fiquemos na América Latina. Argentina, Chile, México e Colômbia consomem a ficção local muito mais do que nós. Comparemos a literatura brasileira à do Chile, que tem menos habitantes do que a Grande São Paulo. 

Em viagens pela Europa, ou em Nova York, eu costumava fazer de brincadeira uma pesquisa sobre a presença brasileira e de outros países nas livrarias que visitava. Aconteceu na Fnac, na Feltrinelli, Bertrand, na livraria do El Corte Inglés, Barnes & Nobles, La Hune. Pegava um atendente de jeito e perguntava se saberia me dar, sem recorrer ao computador, um nome de escritor brasileiro.
Quando ele conhecia a nacionalidade de Paulo Coelho, era o que vinha. Se não conhecesse, não vinha nada. Tenho curiosidade de fazer a brincadeira este ano. Algo pode ter mudado na Alemanha, mas o quadro não deve ter se alterado significativamente. 

A mesma brincadeira feita com o Chile era uma humilhação. Em 100% das vezes o nome que primeiro saiu foi de Isabel Allende, mas, se esse fosse "hors-concours", os atendentes ofereciam como segunda opção Roberto Bolaño, Marcela Serrano, Jorge Sepúlveda, Hernán Rivera Lettelier e Alberto Fuguet: autores reconhecidos como chilenos, que alcançaram sucesso nos Estados Unidos e Europa por iniciarem carreiras internacionais com o lastro da popularidade primeiro no Chile e depois na América Hispânica, para então ganhar o mundo. 

DIVÓRCIO Quando ocorreu o divórcio entre literatura e sociedade no Brasil? Nos anos 1960, Erico Verissimo, Rachel de Queiroz, Dinah Silveira de Queiroz, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, José Mauro de Vasconcelos e outros escritores, caídos ou não no esquecimento (quem se lembra de Amando Fontes?), constavam do cardápio de assuntos da classe média como hoje só figuram os atores da TV Globo. Os personagens de romances, e não os das telenovelas, inspiravam os pais na hora de dar nome aos filhos. Quantos Rodrigos com mais de 45 anos não se chamam assim por causa do capitão de Erico? 

Era uma sociedade polarizada politicamente e muito mais literária. De minha infância no seio de uma família politizada mas não de intelectuais --o pai jornalista, leitor de marxismo e reportagens, a mãe dona de casa com boa leitura dos clássicos e de tudo que lhe caísse nas mãos--, lembro de discussões furiosas com as tias lacerdistas sobre a posição de Rachel de Queiroz frente ao golpe de 64, ou sobre a conveniência de Guimarães Rosa assumir a cadeira da Academia Brasileira de Letras quando a ditadura fechava o cerco sobre a instituição. 

Os pais não problematizavam como incutir nos filhos o hábito da leitura. Ler era "default". Sem priorização consciente do nacional (eu adorava Mark Twain e Laura Ingalls Wilder), antes dos dez anos, minha irmã e eu lêramos, com gosto, todo Monteiro Lobato, Viriato Corrêa, muito José Lins do Rego, José Mauro de Vasconcelos, José de Alencar, o jovem Machado, "A Moreninha", "A Bagaceira", "Os Corumbas", "Capitães da Areia", "O Cortiço". Era literalmente o que caísse nas mãos, e o que caía era muito mais brasileiro do que tradução. Os pais problematizavam a idade adequada para ler "Dona Flor e seus Dois Maridos", licença que penei para ter. 

Chegaram os anos de chumbo, e a competição estrangeira se fez sentir, mas nada que impedisse o brasileiro de devorar "Bar Don Juan", de Antonio Callado, e "Sargento Getúlio", de João Ubaldo, de 1971. O primeiro romance de Rubem Fonseca, "O Caso Morel", chocou em 1973, mesmo ano em que "Água Viva", de Clarice, intrigou e deslumbrou; "Galvez, o Imperador do Acre", de Márcio Souza, e "Essa Terra", de Antônio Torres, encantaram os leitores em 1976; e "Zero", de Ignácio de Loyola Brandão, publicado primeiro na Itália, provocou ondas de indignação quando foi recolhido pela censura, para retornar em 1979. 

Diga-se que na década de 70 não era só Jorge Amado que conquistava edições no exterior. O trabalho de José J. Veiga angariou tal respeito e admiração no Brasil que chegou ao inglês pela prestigiosa Knopf, com a publicação de "A Hora dos Ruminantes" e "A Estranha Máquina Extraviada". "Galvez" e "Zero" foram muito traduzidos, assim como, na primeira metade dos anos 80, "Viva o Povo Brasileiro", de João Ubaldo, consagração crítica e estouro de vendas do autor. 

DÉCADA PERDIDA Os 80, a notória "década perdida", viram o reconhecimento da autoficção de Marcelo Rubens Paiva e Fernando Gabeira, e dos romances de Caio Fernando Abreu e Ana Miranda, mas a relação entre sociedade e literatura já estava esgarçada. Em 1987, saiu "O Diário de um Mago", mas vimos a excepcionalidade de Coelho. Para a ficção brasileira, a década perdida foram os anos 90.
O que permitiu que o imaginário brasileiro fosse tão absolutamente sequestrado pela televisão? A ditadura começou solapando o sistema de ensino e a rede escolar; desvalorizando a crítica, o saber humanístico, o hábito da leitura, e agigantando a TV Globo. Mas o fator determinante foi a inflação, pondo desafios incomensuráveis à atividade do editor e fazendo com que ele buscasse a facilidade da literatura traduzida. 

Ao estrangeiro, em geral, só se presta contas uma vez por ano, algo inviável no tratamento com o escritor brasileiro, diante do quadro inflacionário. Os investimentos em marketing eram mais difíceis de recuperar quando se tratava de revelar um talento nacional; o autor estrangeiro chegava consagrado, bastando mandar para as redações fotocópias da crítica no país de origem para garantir o destaque da imprensa. 

A oferta anglo-saxônica era ampla e variada bastante para abastecer as editoras em atividade --baixa concorrência que permitia, até a virada do milênio, a aquisição dos direitos por somas razoáveis. E a literatura americana desenvolvera largamente um tipo de ficção deglutível por um leitor menos contumaz e sofisticado do que aquele da geração anterior --e viciado na linguagem televisiva. Uma ficção que não havia no Brasil. 

Motivos suficientes para o editor se acomodar na publicação de estrangeiros. Os brasileiros sumiram das carteiras de lançamento. Quando havia lugar para o nacional, era uma tiragem de 2.000 exemplares, sem visibilidade, que não vendia nem arranhava a lista de mais vendidos. A perfeita profecia autorrealizável: leitor gosta mesmo é da literatura americana. 

EXPANSÃO Veio o real, e a moeda estabilizada permitiu a expansão do negócio editorial. Dezenas de novas editoras se somaram à indústria do livro; a concorrência por direitos de publicação e espaço na livraria profissionalizou as práticas do mercado. 

O baixo nível educacional da mão de obra já consternava até o meio empresarial. Com a democracia consolidada, setores do empresariado e opinião pública (por exemplo, novelas da Globo) e campanhas do governo começaram a valorizar o hábito de leitura. 

A distribuição da renda permitiu a entrada de novos leitores no mercado, nem sempre apreciadores da melhor literatura, mas leitores. Os números de vendas de Dan Brown, J.K. Rowling, Khaled Hosseini, E.L. James e Suzanne Collins --alguns milhões no mercado nacional-- documentam isso de maneira lapidar. 

Só não foi convidado para a festa o escritor brasileiro. Nem de longe se beneficiou da nova conjuntura do mercado mais simpática ao livro. (Exceção feita àqueles voltados para o leitor jovem, que souberam usar os recursos da internet para construir seu público e se impor às casas editoriais.)
O editor se esquecera de por que não publicava literatura brasileira e não via por que mudar de atitude. Nem a explosão de feiras literárias projetando autores locais (secundariamente aos estrangeiros) o impressionou muito. 

Quem veio em socorro do autor foi o bom e velho Estado brasileiro, a quem os escritores devem infinitamente. Se no século 20 o Estado os sustentava com sinecuras, nos últimos anos garantiu a sobrevivência da categoria aumentando as compras dos governos federal e estaduais para bibliotecas e escolas, nas quais a literatura nacional ainda compete com vantagem em relação às obras traduzidas. 

As compras do governo permitiram que as editoras mantivessem uma fresta de porta aberta à ficção local. A preferência voltou-se para os clássicos, depois de alguns terem atravessado longo ostracismo, mas vêm sendo feitas apostas em autores menos consagrados na esperança de que os prêmios literários que também surgiram desde a virada do século possam ungi-los com a boa crítica que conduz à rampa das aquisições governamentais. 

No entanto, já ouvi de muito editor estrangeiro e de "scouts", os olheiros do mercado editorial, a queixa quanto a certa mesmice no que apresentamos, um "mais do mesmo" que inviabiliza apostas ousadas nos lançamentos. E, sem apostas ousadas, pode-se dar adeus ao sonho de um grande estouro de vendas e popularidade. Sem estouro de vendas ou clara consagração com prêmios internacionais, "bye-bye" ao nosso sonho de visibilidade global. 

 "Vá cuidar de seus leitores aqui, caro escritor, 
vá para a internet falar com eles, 
vá cobrar distribuição dos seus editores, 
vá conversar com jornalistas, 
vá ver se o que você está escrevendo é realmente bom 
-antes de cultivar o sonho colonizado e aprisionador do "sucesso no Primeiro Mundo".

EIXO Uma possibilidade de ação editorial seria tentar diluir o poder cultural concentrado no eixo Rio-São Paulo, com esporádicas esticadas ao Rio Grande do Sul, buscando originais em um espectro mais amplo do país. 

Um livro médio de autor que trabalhou no jornal "O Globo" ou na Folha, que fez estágio no Instituto Moreira Salles ou no Itaú Cultural, que atuou em editoras do eixo, que já entrevistou escritores renomados e conhece as pessoas certas tem muito mais possibilidade de encontrar uma casa que o publique do que um original novo, diferente e excelente de um profissional liberal sem esse capital social e que esteja escrevendo de alguma cidade média ou grande desse Brasil, que não Rio, São Paulo ou Porto Alegre. 

É compreensível que a ideia de separar joio do trigo nas pilhas de originais não solicitados chegados de todo o país desanime o editor. Encontram-se textos de valor, mas há muito joio. Desanima até o agente literário, em si figura escassa no mercado. Os profissionais da edição andam sobrecarregados, o trabalho com livro é infinito. 

Mas é um desperdício. O Brasil hoje é uma sociedade complexa, e há talentos literários de norte a sul, da fronteira continental à costa atlântica, recriando experiências mais diversificadas do que as que temos mostrado ao exterior. 

Editores no exterior buscam autores consagrados em seus países de origem, cujos livros sejam objeto de escolha dos leitores, não que tenham sido comprados para bibliotecas. Se o Brasil quer que sua ficção seja reconhecida, o escritor brasileiro precisa urgentemente reocupar o seu espaço na livraria.
O editor precisa buscar os novos autores e publicá-los com esse objetivo: a vitrine da livraria. O jornalista literário tem que se aliar ao editor e --além de ler e priorizar o autor brasileiro-- deve jogar fora as muletas teóricas da faculdade e desenvolver parâmetros críticos mais próximos do gosto do bom leitor médio, que os professores e acadêmicos não têm por que reconhecer. O crítico não universitário tem que aprender a apreciar um texto por sua qualidade intrínseca, pelo seu poder encantatório, e não pelo charme intelectual da editora ou de quem apresenta o autor. E o leitor tem que se despir de preconceitos tolos, como está fazendo quanto ao cinema nacional. 

PRIORIDADES Para o escritor, sobram tarefas? A primeira é refazer sua lista de prioridades, percebendo que o importante é passar a ser bem publicado no Brasil e que 20 leitores locais são mais preciosos que uma edição na Bulgária. Estou farta de ser abordada por autores mal publicados, com vendas na ordem de mil exemplares, que, após uma conversa sobre expectativas de carreira, dizem: "Mas meu sonho mesmo é ser traduzido para o inglês ou para o francês". 

Em qual lugar do mundo um autor de mil leitores sonha com tradução? Qual autor americano chegou ao Brasil (que traduz quase toda e qualquer porcaria publicada nos EUA) com esse histórico de vendas? Vá cuidar de seus leitores aqui, caro escritor, vá para a internet falar com eles, vá cobrar distribuição dos seus editores, vá conversar com jornalistas, vá ver se o que você está escrevendo é realmente bom --antes de cultivar o sonho colonizado e aprisionador do "sucesso no Primeiro Mundo". 

A prioridade da literatura brasileira é sua valorização no Brasil. É preciso retomar o espaço perdido no imaginário das pessoas. Nunca mais será como antes, mas TV e cinema jogam hoje a favor da literatura, bebendo cada vez mais em contos e romances para compor suas dramaturgias. Tradução é importante, mas vem depois. 

Vamos continuar a batalhar por nossos autores no exterior, sabendo que o próximo livro brasileiro a ganhar espaço nas estantes das casas e livrarias, nas listas de mais vendidos, nas páginas da internet, nas conversas dos leitores --pela qualidade, força e magia de seu texto-- é que será o principal responsável pela entrada do Brasil no mapa literário internacional. 
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* Editorialista.
Fonte: Folha online, 23/02/2014
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A pátria de ponteiros

Antonio Prata* 
 
Quando o brasileiro diz 'tô chegando!', em quanto tempo, exatamente, o brasileiro chega?
Numa demonstração de abertura e inequívoca coragem, Fritz pediu uma feijoada. Eu comentei que, aparentemente, ele não estava tendo dificuldades de adaptação. O alemão disse que não. Por conta do seu trabalho --instala e conserta máquinas de tomografia computadorizada--, viajava o mundo todo. A única coisa que lhe incomodava, no Brasil, era nunca saber quando as pessoas chegariam aos encontros. O problema era menos o atraso, confessou, do que nossa dificuldade em admiti-lo: "O pessoa manda mensagem, diz tô chegando!', eu levanta do minha cadeirrra e olha prrro porrrta da restaurrrante, mas pessoa chega só quarrrenta minutos depois". Então me fez a pergunta que só poderia vir de um compatriota de Emanuel Kant: "Quando a brrrasileirrro diz tô chegando!', em quanto tempo brrrrasileirrro chega?". 

Pensei em mentir, em dizer que uns atrasam, mas outros aparecem rapidinho. Achei, porém, que em nome de nossa dignidade --ali, naquela mesa, eu era a "pátria de ponteiros"-- o melhor seria falar a verdade: "Fritz, é assim: quando o brasileiro diz tô chegando!' é porque, na real, ele tá saindo". Tentei atenuar o assombro do alemão: veja, não é exatamente mentira, afinal, ao pôr o pé pra fora de casa dá-se início ao processo de chegada, assim como ao sair do útero se começa a caminhar para a cova. É só uma questão de perspectiva. 

"Mas e quando o pessoa diz tô saindo!'?" Expliquei que as declarações do brasileiro, no que tange ao atraso, estão sempre uma etapa à frente da realidade --são uma manifestação do seu desejo. Se a pessoa diz que está chegando, é porque tá saindo, e se diz que tá saindo, é porque ainda precisa tomar banho, tirar a roupa da máquina e botar comida pro cachorro. 

Fritz ficou pensativo. Uma morena entrou no bar e percebi certa reverberação nos hormônios teutões. Era a chance de mudar de assunto, mas eu havia sido mordido pela mosca da sinceridade e resolvi ir até o fim: revelei que, além do "tô chegando!" e do "tô saindo!", ele teria de aprender a lidar com "chego em 15!" e "cinco minutinhos!". 

"Chego em 15!" é sinônimo de "tô chegando!": quer dizer que o patrício está saindo. Quinze minutos é o tempo mágico que o brasileiro acredita gastar em qualquer percurso --a despeito da experiência, da Sulamérica trânsito e do Waze. Da Mooca pra USP? "Chego em 15!" De Santo Amaro pra Cantareira? "Quinze!" Mais uma vez, não é propriamente mentira. Se pegássemos todos os faróis abertos e todos os carros saíssem da nossa frente, em tese, vai que...? 

Já o "cinco minutinhos!" é um pouco mais vago. Pode significar tanto que o brasileiro está a cem metros do destino quanto a 27 quilômetros. Às vezes, cinco minutinhos demoram muito mais do que quinze, mais do que uma hora: há casos, até, menos raros do que se imagina, em que a pessoa a cinco minutinhos jamais aparece. 

Fritz ficou olhando o chope, contemplativo, imaginando, talvez, na espuma branca, a tomografia multicolor desses cérebros tropicais. Senti que, agora sim, era o momento de mudar de assunto, de mostrar ressonâncias, digamos, mais magnéticas do nosso país. Chamei o garçom. "Chefe, a gente pediu uma feijoada, já faz um tempinho..." "Tá chegando, amigo, tá chegando!" 
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* Escritor. Roteirista.
Fonte: Folha online, 23/02/2014
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O FUTEBO E A GEOMETRIA

 Rubem Alves*
A esfera é o sólido perfeito. É o único que a natureza faz natural e perfeitamente com a ajuda de uma criança que sopra bolhas de sabão... Não sei de nenhum poeta que tenha escrito um poema dedicado ao cubo ou ao cone. Mas sei de filósofos e poetas que escreveram sobre essas esferas diáfanas e transparentes. Vejam a sensibilidade de Nietzsche: “Quanto a mim, gosto da vida: borboletas e bolhas de sabão e todas as coisas que, entre os homens, se assemelhem a elas, parecem conhecer mais sobre a felicidade. Vendo flutuar essas almas leves, tolas, moveis, pequenas – isso seduz Zaratustra a lágrimas e canções”. E Alberto Caeiro: “As bolas de sabão que esta criança se entretém a largar de uma palhinha são translucidamente toda uma filosofia...”

A esfera foi objeto de espanto filosófico. Pensavam os primeiros filósofos que o universo é formado por esferas de cristal concêntricas girantes onde estão as estrelas. Deus é um geômetra. Como poderia ter ele criado o universo a não ser a partir da figura geométrica perfeita? O espantoso é que essas esferas, no seu giro, produzem música... Se o universo tivesse sido construído à semelhança do cubo ele seria cheio de planos, linhas retas e ângulos. Na esfera não há ângulos. E a expressão musical dessa perfeição é o canto gregoriano onde os encadeamentos estão todos em equilíbrio.

A se acreditar no místico Jacob Boehme, que dizia que a única coisa que Deus faz é brincar, compreende-se que a esfera, objeto geométrico perfeito, seja o que mais se presta a ser transformado em brinquedo. Bolhas de sabão, bolas de gude, de boliche, de bocha, bilhar, sinuca, basquete, bexigas coloridas, vôlei, beisebol, futebol... Lembrei-me de uma tela em que o Menino Jesus, no colo de sua mãe, tem nas mãos uma esfera: o Deus-criança brinca com o mundo! Que jogo ele jogará?

As crianças, em virtude de sua mania de ir andando e chutando o que encontram pelo caminho, logo perceberam que os melhores objetos que se prestam ao chute são os objetos esféricos. É melhor chutar uma laranja que um galho. É melhor brincar de jogar laranjas que brincar de jogar pedras. Depois de grandes as crianças continuaram. E foi assim, sob a inspiração da esfera, que surgiu esse jogo chamado futebol, cerca de 3 mil anos antes de Cristo, na China.

Era um jogo de guerreiros. Na ausência de informações históricas o escritor pode valer-se de sua imaginação para reconstituir o que acontecia. Tratava-se de celebrações religiosas, oferecidas aos deuses pelas vitórias contra os exércitos inimigos. Minha imaginação vê a cena. De um lado, o time dos Tigres. Os nomes tinham de ser ferozes. Do outro, os Águias. O estádio cheio, os torcedores aos gritos como hoje, os reis, os sacerdotes, os militares. Lá estão os jogadores no campo, à espera do início. O juiz faz soar o gongo. Como o apito ainda não havia sido inventado e o gongo sabidamente é um instrumento da China, o juiz, ao invés de ter um apito na boca, tinha um minigongo nas mãos que fazia soar sempre que a ocasião aparecesse. Estabelecia-se um silêncio absoluto. Aí então ele dizia em alta voz: “Boleiro, produza uma bola”. A função de produção de bolas em campo não mais existe posto que as bolas agora são feitas em fábricas. O boleiro se encontrava assentado num banco ao lado de dez homens. Esses homens eram prisioneiros de guerra que seriam homenageados pela sua bravura. Até mesmo os inimigos merecem respeito. O boleiro, que trazia à cintura uma espada reluzente, adiantava-se com um dos prisioneiros, conduzia-o até o meio do campo. Chegado ao meio do campo, o prisioneiro se curvava em ângulo reto e o boleiro, com um golpe perfeito, cortava a sua cabeça que caía no chão. O público explodia em urros. Aí quatro sacerdotes tomavam o corpo sem cabeça e o conduziam a uma pira que ardia e ali o colocavam como holocausto, oferenda aos deuses. Que gloriosa maneira de morrer! Por aquele ato sagrado o prisioneiro era libertado das correntes que o prendiam e transformado num pássaro que ascendia aos céus sob a forma de fumaça. Terminados os preliminares sagrados, iniciava-se o jogo. Chutes para lá, chutes para cá, a cabeça do guerreiro tinha pouca duração. O juiz fazia soar o seu gongo, chamava o boleiro, e tudo se repetia. Os jogos não eram medidos por tempo, posto que os cronômetros ainda não haviam sido inventados. Os jogos eram medidos por número de cabeças a serem cortadas. Enquanto todas as cabeças ao fossem cortadas o jogo não terminava.

Aí veio um tempo de paz. Cessaram as campanhas bélicas. Houve escassez de cabeças. O jogo experimentou um lamentável declínio, com consequências tristes para a alma do povo. A guerra faz bem à alma. A guerra faz emergir os instintos mais fortes que moram nos homens. Um torcedor possuído é um guerreiro! O povo ficou triste. Imaginem essa idéia louca, impossível: que, de repente, por um ato mágico demoníaco, desaparecessem todas as bolas! Desapareceriam também os times de futebol. Desapareceriam os campeonatos. Sobre o que os homens iriam falar? Que paixão os faria vibrar? Durante a semana não haveria o que esperar! Pois não é a espera do próximo jogo que dá sentido à vida? Seria o tédio.

Esgotadas as cabeças decapitadas a solução salvação veio de um menino. Ele estava num matadouro vendo um boi sendo estripado. Notou a sua bexiga, abandonada no chão. Curioso, aproximou-se. Era um bolsa vazia. Ele pegou a bexiga, lavou-a, e encheu-a de ar. Percebeu então que ela era um brinquedo divertido, boa para ser chutada, pulava. E foi assim que o objeto lúdico do jogo foi transferido das cabeças cortadas para a bexiga dos bois, graças a um menino! A bexiga bovina cheia de ar é o ancestral mais antigo da atual bola de futebol. Assim, ao ver a bola rolando no campo, deixe-se levar pela fantasia. O juiz toca o gongo. “Boleiro, produza uma bola...” E assim se inicia o jogo mais apaixonante do mundo!
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*Teólogo. Escritor. Colunista do Correio Popular
Fonte: Correio Popular online, 23/02/2014
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O MISTÉRIO DA SANTIDADE

 Carlos Heitor Cony*
 
Abordei, tempos atrás, de maneira bastante ligeira, em uma crônica, o problema da santidade. Isso me valeu algumas descomposturas de damas e mães de família, pressurosas em espinafrar um homem "que não entende nada de santidade" e que se mete, com imprudente constância, a falar no assunto. 

Todas as espinafrações vieram de pessoas católicas. Creem elas que só por meio do catolicismo é possível a santidade, como se houvesse um único e imutável tipo de santidade. 

Não estou aqui para gastar latim à toa, ensinando os princípios mais elementares do problema. Mas gostaria de acentuar, mais uma vez, o caráter existencial do santo, independente de qualquer ascese, de qualquer mística. Há santos na Antiguidade clássica, na pré-história, no Tibete, nas regiões mais bárbaras da África. 

Há santos que praticaram a antropofagia e há santos que comeram gafanhotos, como são João Batista --um santo autêntico, independente de sua consanguinidade com o Redentor. Por falar em Redentor, este foi um santo existencialmente completo, independente também de qualquer credo religioso ou filosófico. No mesmo caso está o hedonista Maomé, o materialista Lênin, e muitos outros vultos pomposos ou não da História Universal ou da nossa história particular. 

Há a santidade sem-Deus, que Albert Camus descreveu com abundância de princípios, e há a santidade com-Deus, cujo maior exemplo, para mim, é a do Cura d'Ars. E há, sobretudo, a santidade com-o-Homem, cujo protótipo seria Francisco de Assis. 

Enfim, há mil tipos de santidade e todos eles só têm em comum o caráter existencial (ou até mesmo existencialista) da santidade, da pureza, da reta intenção. 

Não desejei insultar ninguém que pensa diversamente, mas bem que poderiam dispensar o insulto ao adversário. 
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* Jornalista. Escritor. Colunista da Folha
Fonte: Folha online, 23/02/2014
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SOMOS TODOS ESCRITORES

Martha Medeiros*
 
Através do artigo de Antônio Goulart, Literatura Enganosa?, publicado na Zero Hora de 08/02, fiquei sabendo de uma opinião que o escritor norte-americano Ben Greenman tem alardeado: a de que a literatura de ficção não deveria se basear em fatos reais, sob pena de estar enganando o leitor. Segundo ele, ficção é uma prosa que trata sobre eventos e pessoas imaginárias, e fim de papo. Greenman resolveu processar escritores e editoras que não cumprem essa definição básica.

Só pode ser brincadeira. Em tudo – e em todos – há uma porcentagem de invenção. Inventamos não só o nosso amor, mas inclusive a nossa dor. Somos seres perplexos tentando encontrar nosso lugar no universo e procurando viver de um jeito civilizado e sensato, o que exige alguma elaboração intelectual. Usar apenas o instinto nos conduziria à selvageria. Temos que nos narrar – para os outros e para nós mesmos – a fim de sermos compreendidos. Quando eu conto algo que aconteceu comigo para uma amiga, estou criando uma história, é a minha versão daquele fato, é a maneira que encontrei de expressar o que vivi. Tivesse acontecido a mesmíssima coisa com outra pessoa, seria contada de forma e intensidade diferentes.

Somos todos escritores, só que uns escrevem e outros não, já dizia José Saramago.

Assim como pessoas reais podem experimentar emoções fantasiosas, o inverso se dá na literatura: tudo o que parece inventado flerta com a verdade. É ingenuidade acreditar que um personagem de romance possa ser totalmente fictício, sem considerar a bagagem psicológica de quem o criou, sem levar em conta a pulsão interna que estimulou o escritor a dedicar-se dias, meses ou até anos àquele projeto. Ele não está escrevendo sobre ele mesmo em sentido literal, seus personagens não são autobiográficos por definição, mas é claro que quem escreve se revela de alguma forma, velada ou nem tanto.

“Madame Bovary sou eu”, dizia Flaubert. Então não era ficção? Ora.

Em defesa de Ben Greenman, reconheço que os livros andam bastante umbilicais, reflexo de um mundo voltado para o próprio ego. Nenhum crime nisso. Dramas intimistas possuem o mesmo valor artístico das aventuras de suspense, das sagas épicas, das ficções científicas, independentemente de serem inspirados por algo que aconteceu. O leitor não deve se preocupar com essa ligação, e sim entregar-se ao livro sem dar a mínima para o escritor. O que interessa é se o livro é bom ou ruim. O conteúdo fala por si. O escritor é apenas um ser obscuro que dá entrevistas para divulgar seu ofício, mas sua vida privada não importa nada. O que importa é o resultado de suas fantasias, sejam elas totalmente inventadas ou inventadas mais ou menos ou descaradamente inspiradas no que ele pensa que foi real.
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* Escritora
Fonte: ZH online, 23/02/2014

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Roubar livros

ROSANA COELHO*
 
O filme A Menina que Roubava Livros revisita o Holocausto, período tenebroso da história mundial. Guiados por um narrador sui generis a Morte , adentramos o mundo de Liesel, cujo primeiro livro roubado é guardado como um tesouro secreto e inacessível, pois ela não sabe ler. Auxiliada pelo pai adotivo, inicia uma íntima relação com as palavras. Em tempos difíceis também para a literatura, a menina vai a um comício e observa inquieta o fogo consumir preciosas letras. Mais tarde, retorna e resgata um chamuscado livro. Nesse momento, é observada por uma mulher, dona de uma biblioteca onde a menina tem a oportunidade de ler alguns livros, até ser proibida de fazê-lo. O livro roubado no dia do comício sela a bonita amizade com Max, um jovem judeu escondido em sua casa. Max está muito doente e a menina busca, na leitura em voz alta ao seu lado, oferecer-lhe um sopro de vida. Terminada a leitura desse livro, Liesel retornará à biblioteca proibida, roubará e lerá outros livros até que o amigo volte a viver.

Aqui, o ato de roubar toma a dimensão de um ato político de primeira grandeza. Em meio à experiência totalitária, sustenta-se em uma ética que valoriza a vida do outro, faz da literatura o esteio de uma política que permite ao sujeito “ler o mundo” com suas palavras, como na bela cena em que Max, confinado no frio e impenetrável sótão, pede a Liesel que descreva, com suas palavras, como está o dia do lado de fora. A literatura, lembra Ana Maria Portugal, tem por característica “deformar” a linguagem: ela intensifica, condensa, reduz, amplia, inverte, em um processo de estranhamento e desautomação, no qual o cotidiano se torna “não-familiar”. O desejo de (re)inventar formas de vida que escapassem a um cotidiano em que predominava a fabricação de mortes aparece em uma das cenas finais. Nela, Liesel conta para um grupo de homens, mulheres e crianças, amontoados em um abrigo subterrâneo durante um bombardeio, uma história cujo fio condutor é a solidariedade e o desejo de viver. “As palavras são fonte de vida”, diz Max, ao presentear a menina com um livro em branco, no qual Liesel escreverá sua história.

Neste momento, em que o mundo convulsa sob fortes embates políticos, o reencontro com a experiência do Holocausto não nos deixa esquecer que a luta que travamos no terreno político é, sobretudo, a luta para desconformarmos linguagens petrificadas por poderes que impõem formas hegemônicas, insistem em perpetuar uma ética que desconhece a “incômoda” diferença que a presença do outro suscita. Em vários momentos do filme, o sinistro narrador nos diz que ninguém vive para sempre. Mas, diante do perene embate entre o desejo de democracia e a intolerância que se presentifica na eliminação do outro, nada mais oportuno que lembrar a potência da palavra como fonte de vida. Nada mais oportuno do que roubar livros.
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*Psicanalista
Fonte: ZH online, 22/02/2014
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