segunda-feira, 26 de maio de 2014

O dinheiro no futebol produziu mercenários, mas não craques

  Scott Moore*
 Jogo sofrível

Ladies & Gentlemen:

Foi uma das piores partidas da temporada a que deu o título da UEFA para o Real Madrid.

Não fossem as arquibancadas repletas e coloridamente lindas e o gramado impecável, parecia um jogo do campeonato brasileiro.

Ficou claro para mim: o futebol hoje é universalmente fraco, se comparado ao passado. A diferença está no chamado “entorno” – o que você vê nos arredores do gramado. Um estádio lotado, com torcidas vibrantes, faz toda a diferença.

O dinheiro que jorra no futebol como uma cachoeira de superprodução de Hollywood produziu mercenários, mas não craques.

Qual a diferença entre o Atletico de Madrid e o São Paulo, por exemplo?

O Chelsea, com meia seleção brasileira e mais jogadores caríssimos, tem uma impotência lancinante de fazer gols que lembra o Corinthians. (Mourinho é um treinador que tem muito mais pose que talento.)

Boss me conta que Rivellino disse que nenhum jogador da seleção brasileira atual estaria na seleção de 1970. Boss completou, exaltado: “Nem entre os reservas, nem entre os reservas.”

O único time que vi jogar um futebol de alto nível, nesta temporada europeia, foi meu Manchester City.

Isto porque temos o maior jogador do mundo, ao lado de Messi: Yaya Touré. Touré tem a chamada visão de campo de arquibancada: parece ver e administrar o jogo lá do alto, com um olhar privilegiado.

Teremos, logo mais, uma Copa.

Não dá para esperar futebol de alto nível, infelizmente. Que o resto funcione: a tecnologia da transmissão das partidas, por exemplo, que dá uma sensação de cinema para o futebol.

Como os estádios estarão cheios e vibrantes, a ausência de brilho futebolístico será compensada pelo “entorno” do campo.

Me darei feliz se, em minha torcida pelo English Team e em minha cobertura do torneio como um todo, desfrutar momentos de emoção que mesmo jogos ruins trazem, por conta da importância da situação.

Grande futebol dificilmente você verá.

Sincerely.

Scott
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Tradução: Erika K. Nakamura
*Aos 53 anos, o jornalista inglês Scott Moore passou toda a sua vida adulta amargurado com o jejum do Manchester City, seu amado time, na Premier League. Para piorar o ressentimento, ele ainda precisou assistir ao rival United conquistando 12 títulos neste período de seca. Revigorado com a vitória dos Blues nesta temporada, depois de 44 anos na fila, Scott voltou a acreditar no futebol e agora traz sua paixão às páginas do Diário.
Fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/26/05/2014

domingo, 25 de maio de 2014

Parados no tempo e no espaço

 Passageiros buscam saída para o caos. ‘É uma massa solitária, que deixou de ter desejos' - LEO EELOY/SELVASP

Passageiros buscam saída para o caos. ‘É uma massa solitária, que deixou de ter desejos'

Para filósofo italiano, a metrópole é um corpo em constante movimento. Quando paralisa de repente, entra numa órbita de irracionalidade pura

A cidade que nunca para parou. E por falta de aviso prévio, por inércia ou por desatino, milhares continuaram em movimento, na determinação de chegar aonde iam ou de voltar ao ponto de partida. Foi um transtorno atroz na visão dos paulistanos, e um caos tempo-espacial na perspectiva do italiano Mauro Maldonato, que acompanhou o vaivém insano do povo atrás de condução. Depois de rodar pelo interior de São Paulo em eventos que tratavam do corpo e do tempo, o filósofo estacionou na capital no auge da greve para lançar seu novo livro. Da Mesma Matéria que os Sonhos se junta a A Subversão do Ser, Raízes Errantes e Passagens do Tempo, todos publicados pelas Edições Sesc. Desta vez ele trata de consciência, racionalidade e livre-arbítrio. 

Maldonato nasceu na piccola e aprazível Sapri, distante 140 quilômetros de Nápoles, na qual vive hoje. Já passou bons anos em Londres, onde estudou na London School of Economics; morou em Paris, onde frequentou a École des Hautes Études em Sciences Sociales; foi professor visitante da PUC-SP e da USP; e hoje dirige o Cognitive Science Studies for the Research Group, na Universidade Duke. Também é professor no Departamento das Culturas Europeias e do Mediterrâneo na Universidade Della Basilicata e acaba de chegar de Dubai. Foi dar mais uma conferência sobre o tempo, que parece se multiplicar em suas mãos.

Nesta entrevista, feita no mezanino envidraçado de um hotel nos Jardins, Maldonato falou do que via lá fora: a metrópole desencarnada. “Esses corpos são desmaterializados, fruto de uma massa doida que deixou de ter relações significativas sob o efeito ilusório da grande lente imaginária sustentada pela internet.” Além disso, diz ele, a velocidade urbana, mais acelerada, não casa com a velocidade da biologia, infinitamente mais lenta. Não há mais sintonia. “Vivemos a era do instantâneo, e é muito provável que nos deparemos com novas patologias provocadas por essa assimetria.” Seria esse napolitano um ser apocalíptico? Aos 54 anos de idade, pai de um adolescente de 15, ele garante que não. Apenas gosta de pensar: “Falta a paciência da espera, e hoje o efeito antecipa a causa. É um tema que instiga, intriga, interpela, porque é o tema do nosso futuro”.

Quando uma cidade estressada como São Paulo é obrigada a parar, ela parece ainda mais estressada do que quando está em movimento. Como explicar isso?
Para responder à sua pergunta, é interessante pensar numa metáfora. Uma cidade é um corpo. Não um corpo orgânico no sentido tradicional, mas um corpo no formato de um sistema nervoso, que tem a sua consciência e a sua parte inconsciente. Esse sistema nervoso funciona por meio de inputs e outputs, movimentos de entrada e saída. Imaginemos um número infinito de pessoas como as que vivem em São Paulo, que vêm e vão. Quando qualquer coisa, um objeto, uma situação, uma greve interrompe esse fluxo, um corpo como a cidade entra numa espécie de paralisia. A greve interrompe esse fluir, a cidade entra numa órbita de irracionalidade pura, na qual até os direitos primários, mais básicos, como as relações entre as pessoas, se interrompem. Isso naturalmente produz alterações em uma metrópole que convive ao mesmo tempo com realidades pós-modernas e pré-modernas, como São Paulo. A paralisação adoece o imaginário, a expectativa, a vitalidade.

Mas seria uma característica típica de São Paulo? Ou comum a todas as metrópoles?
Por muito tempo vivi em Londres, também no Oriente Médio, no Extremo Oriente, visitei Hong Kong, Dubai, e naturalmente cidades mais antigas, como Nova York e São Paulo. Sim, elas têm algo em comum. São todas imensos navios com um grande depósito de corpos. Esses corpos parecem não pertencer a eles mesmos. São desmaterializados, fruto de uma massa doida, de uma massa solitária, que deixou de ter desejos, de ter relações significativas, sob o efeito ilusório da grande lente imaginária suportada pela internet. Como se isso produzisse um aumento das relações...

Não é uma visão exatamente otimista da internet e das redes sociais.
Não tenho um visão pessimista quanto a isso, mas as redes sociais são um fenômeno evolutivo que a humanidade ainda não processou. Houve uma época em que a cidade tinha um sentido tradicional. Ele se alargou com o advento da metrópole e depois com a megalópole. É como se a cidade deixasse de ter sua evolução natural, como todas as coisas da vida. Seu estágio atual é o da velocidade. Falta a paciência da espera, e hoje o efeito antecipa a causa. Se tenho esse telefone e o deixo cair no chão, tenho uma relação de causa e efeito, certo? Mas parece que a relação é ao contrário. E isso, do ponto de vista evolutivo da mente humana, não foi elaborado, porque nossas estruturas cerebrais são ainda muito arcaicas. Há uma diferença entre o tempo da sociedade, da velocidade urbana, e o tempo da nossa biologia, que é muito lento. É muito provável que nos deparemos com novas patologias provocadas por essa assimetria. Porque a coisas não estão mais juntas, não há mais sintonia. Nossa expectativa quando aguardávamos uma carta era uma. Agora existe a impaciência de ler um e-mail. 

Que patologias seriam essas? É possível antecipá-las?
Patologias urbanas. Está previsto um crescimento da depressão e outros fenômenos de ansiedade, um fenômeno que aumentou exponencialmente. É impressionante. Se você vai à farmácia e pergunta qual é o medicamento mais vendido, certamente são aqueles para o coração e os antidepressivos. 

Mas a pessoa fica deprimida porque não consegue se adequar a esse tempo? Ou ela é deprimida, e o tempo não se adapta a ela?
São duas coisas diferentes: uma é a depressão endógena, orgânica, e as causas estão no nosso cérebro. Outra é a depressão como consequência da incapacidade de se adaptar à velocidade e à complexidade do mundo em que vivemos. Mas os sintomas convergem: uma pessoa deprimida vive um tempo congelado, imóvel, interrompido, sem esperança, estéril, paralisado. É como uma cidade que, entre altos e baixos, é obrigada a parar repentinamente. Fica inquieta, nervosa, agressiva. É uma heteroagressividade, contra o outro, que pode se transformar numa autoagressividade. Porque a depressão tem essa inquietude, essa laceração interior, que provoca dor. 

No ócio criativo, postulado pelo italiano Domenico de Masi, o tempo livre seria fundamental. Diante da escassez de horas vagas, estaríamos menos criativos?
O que significa uma apologia do tempo livre, do ócio criativo no panóptico social pós-moderno? Que sentido teria uma liberdade dentro de um nicho não contaminado pelo pecado social da obrigação? Não há nenhuma intenção polêmica nisso, mas me parece que esse achado se sustenta na convicção de que existam espaços de liberdade puros, incontaminados e imunizados. Além disso, o elogio incondicional do ócio degrada o trabalho. Ele seria nada mais que labuta necessária, forçosa. Para mim não é assim. Eu me divirto muito trabalhando. Tenho receio de que a defesa entusiasmada do tempo livre retome o tema aristocrático da liberdade como superioridade elitista, aristocrática, que torna a ser proposta, mas agora com tempero democrático. Mas não há nada de democrático nessa liberdade, porque lhe falta o caráter da universalidade. É uma liberdade que desistiu de lutar por ela mesma. 

Você usa o filme Wall Street: Poder e Cobiça como metáfora do tempo da modernidade. Que filme representaria a pós-modernidade?
Blade Runner é pós-moderno. Talvez eu não seja original, mas ele parece profético, representa o tema que todos temos diante de nós, ou seja, a consciência de que as máquinas um dia terão sentimentos. Olho com extremo interesse a inteligência artificial. O verdadeiro desafio intelectual é imaginar se essa máquina vai assumir sua autonomia com pequenos fragmentos de livre-arbítrio. 

O que achou do filme Ela? Não lhe pareceu atual, apesar da proposta futurista?
Ela é absolutamente fascinante. É um olhar agudo sobre nosso presente. Por trás de uma história de amor ao silício, simples mas profunda e original, indagam-se a natureza e as implicações da intimidade e das relações humanas no mundo contemporâneo. Sem lições morais. O diretor, Spike Jonze, entra na mente e no coração da máquina, tentando eludir as diferenças. Quem amamos quando nos apaixonamos pelo computador? É nossa projeção, nosso desespero ou um outro ser? A câmara prefigura a sociedade que seremos em breve. Sobretudo apresenta-nos a tecnologia não como uma inimiga insidiosa, mas sem preconceitos e sem evocar emoções obscuras. Uma visão inovadora, nada inquietante, uma pesquisa estética, sedutora.

A extrema velocidade do mundo seria um recurso para nos afastar da nossa humaníssima morte?
A morte é o tornassol do frágil arcabouço do moderno. Todas as imagens da mídia são imagens que celebram a beleza, o corpo sadio e juvenil. Rejeitam tudo o que nos remete à condição mortal. A morte continua sendo o único verdadeiro escândalo da modernidade. Embora a espetacularizem, os meios de comunicação de massa se imunizam contra a morte porque ela contradiz seus valores: o consenso e o consumo. Não por acaso, para exorcizar a morte na internet, há uma ampla oferta de lóculos de cemitério com imagens, vozes e sons; tarifários para a mumificação; empresas que lançam em órbita as cinzas; e assim por diante. Mas as coisas são ligeiramente mais complicadas do que isso. A morte verdadeira por envelhecimento precoce de Dolly, a simpática ovelhinha criada eugeneticamente, foi um golpe duro para aqueles que, além da própria imagem de preferência tridimensional, queriam manter em vida também o corpo.

Mauro Maldonato é filósofo, psiquiatra, autor de 'Da mesma matéria que os sonhos' (Sesc)
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Reportagem por  Mônica Manir - O Estado de S. Paulo
Foto: LEO EELOY/SELVAS
Fonte: Estadão online, 24/05/2014

“É difícil encontrar uma pessoa feliz entre os ricos”: uma conversa com Bauman, um dos intelectuais mais importantes do nosso tempo.

 Bauman
Se uma pessoa no alto dos seus 90 anos comparece a uma entrevista às 8h45, é porque está em forma. Longe do seu inseparável cachimbo, este extraordinário dissidente do capitalismo e hipercrítico com o comunismo, polonês com passaporte britânico, tem aspecto de homem que sabe mais pelo que não diz do que pelo que diz. E disse muito.

Nascido em Poznan em 1925, Zygmunt Bauman (foto) é um dos intelectuais europeus vivos mais importantes, Prêmio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades 2010, junto com Alain Touraine. Acredita que a desigualdade se instalou entre nós para ficar e que a elite política há décadas não fala a mesma linguagem que as pessoas comuns. Essa chamada por ele “modernidade líquida” já é modernidade liquefeita e, se duvidar, evaporada…

De ascendência judaica, seus pais fugiram do país após a invasão alemã, em 1939, e se instalaram na União Soviética. Expulso em 1968 da Universidade de Varsóvia por razões políticas, Bauman retomou seu trabalho docente nas universidades de Tel Aviv e Haifa. Desde 1971 é professor emérito de Sociologia na Universidade de Leeds.

A lucidez, sua perspicácia e, talvez, acima de tudo, sua experiência de vida, fizeram-no ser uma referência mundial fundamental, um pensador a quem nada é alheio. Considera a nossa sociedade uma das mais desiguais desde que, um dia, os europeus, com o estado de bem-estar social, acreditaram ter resolvido tudo.

Gostaríamos de saber mais de você que de suas ideias, embora não sei se são indissociáveis. É muito ou pouco consumista?
Não se pode escapar do consumo: faz parte do seu metabolismo. O problema não é consumir; é o desejo insaciável de continuar consumindo… Desde o paleolítico os humanos perseguem a felicidade… mas os desejos são infinitos. As relações humanas são sequestradas por essa mania de apropriar-se do máximo possível de coisas.

Nas manhãs de domingo as famílias britânicas não vão à missa, mas ao shopping. É esse o nosso novo templo?
Sou muito cauto na hora de comparar consumismo e religião. A religião é uma transgressão, te leva para além da tua vida. Na América, antes, a tradição era que se reunisse a família ao redor da mesa para comer e conversar. Nos últimos anos, apenas 20% das famílias fazem isso.

Rompeu-se essa ideia nuclear de família?
Sim, era uma interação física. Agora, ao contrário, cada qual pega a sua comida, senta-se na frente do computador e come. O ser humano de hoje passa sete horas e meia diante de algum tipo de tela. Se a interação com alguém na rede não te interessa, aperta um botão e adeus.

Nas relações humanas não é tão fácil desconectar.
O corpo a corpo te obriga a te confrontar com a diferença. Administrá-la com os sentimentos, elaborá-la. Um efeito colateral dessa dissociação é que se perdeu a vontade do trabalho “bem feito” também nas relações. Perdemos a capacidade de nos relacionarmos com esmero.

Qualquer coisa que alguém escolhe modifica o contexto.
Porque resitua a liberdade de outros. O importante é ter a oportunidade de exercê-la. Neste momento, só há um grupo muito reduzido de homens livres e uma grande massa que fica fora do jogo.

As classes médias perdem terreno e parte delas estão se convertendo em proletariado, uma classe que você chamou de “precariado”.
Lamento não ter lido o último livro de Thomas Piketty antes de escrever o meu, porque cita coisas interessantes. Por exemplo, que os direitos humanos são algo que herdamos da Revolução Francesa. Nosso horizonte – que marca a distribuição da riqueza – deveria ser o bem comum. Os ricos agem com toda essa riqueza – a maioria a herdaram – com absoluta impunidade. Acreditam que eles nunca poderão falir.

As 85 pessoas mais ricas do mundo acumulam uma riqueza equivalente aos quatro bilhões de pessoas mais pobres. Qual é a pessoa pobre mais feliz que conheceu e a rica mais infeliz com que já se encontrou?
É muito difícil encontrar uma pessoa feliz entre os ricos.

 Certa vez, o grande poeta Goethe – quando tinha quase a minha idade – foi entrevistado por Eckermann. 
 “Diga-me, você teve uma vida feliz?”, perguntou-lhe. E Goethe respondeu: “Pois, olhe, sim, tive uma vida feliz. 
Mas não me pergunte se tive 
uma só semana feliz”.


Bom, então comecemos pelos que não têm nada.
Uma pessoa pobre que consegue tomar café da manhã, almoçar e, com sorte, jantar… é automaticamente feliz. Nesse dia conseguiu seu objetivo. O rico – cuja tendência obsessiva é enriquecer mais – costuma meter-se numa espiral de infelicidade enorme. A grande perversão do sistema dos ricos é que acabam sendo escravos. Nada os sacia, entram em colapso, uma catástrofe!

Você participou da Segunda Guerra Mundial, combateu com o Exército polonês, trabalhou para os serviços de informação militares… Qual foi o pior momento da sua vida e como conseguiu recuperar-se?
Ao final, a vida não é um campeonato de futebol, onde podes dizer “olha, aquele jogo foi o pior”. Mas lhe responderei com uma anedota que pode parecer evasiva, mas não é. Certa vez, o grande poeta Goethe – quando tinha quase a minha idade – foi entrevistado por Eckermann. “Diga-me, você teve uma vida feliz?”, perguntou-lhe. E Goethe respondeu: “Pois, olhe, sim, tive uma vida feliz. Mas não me pergunte se tive uma só semana feliz”.

Então, a felicidade não é a soma de momentos de felicidade, como dizem alguns?
Não, a felicidade é o gozo que dá ter superado os momentos de infelicidade. Ter conseguido transformar teus conflitos, porque sem conflitos as nossas vidas, a minha vida, teriam sido uma verdadeira chatice.

Terá visto tantas circunstâncias que se repetem ciclicamente – sociedades cheias de esperança, outras devastadas, as que ficam destruídas, as que logo se recuperam… Isso o tornou mais cético?
Eu prefiro identificar-me com o “homem esperançado”. Há uma dinâmica da história que te leva ao ceticismo como atitude, porque o otimista diz “estamos no melhor dos mundos” e o pessimista pensa “bom, tanto faz se o otimista tem razão”. Sobre isso, recomendo-lhes “Generativi di tutto il mondo, unitevi!”, de M. Magatti e Ch. Giaccardo, um manifesto publicado este ano e que nos apresenta um conceito novo: a sociedade generativa.

O que significa esse conceito que acaba de ser cunhado: sociedade generativa?
A sociedade de consumo é uma montagem que consiste em que colhas tudo o que há ao teu redor para te preencher. O manifesto gerador propõe o contrário: tudo o que tu podes dar à sociedade, é a única coisa que pode nos salvar.

Como explicaria sua “modernidade líquida” – definição perfeita da sociedade pós-moderna, consumista e banal – a uma criança?
Ensinaria isto (Bauman pega um biscoito em forma de estrela) e diria: “Se isto fosse uma pedra, mesmo que eu a girasse, a virasse… não seria afetada por nada. Depois lhe mostraria este copo cheio de água e lhe diria: “isto, simplesmente decantando, vês?, se modifica”. E se agora não estivéssemos no Hotel Majestic, além disso, derramaria a água sobre a mesa…

Adiante, adiante.
Bom, bastaria para explicar a essa criança que a sociedade onde vive é flexível e extraordinariamente móvel. Antes, se você dava um soco na realidade, a realidade não se movia. Tente fazê-lo agora! Antes se sonhava poder trabalhar durante décadas na mesma fábrica, agora a Meca dos jovens é trabalhar no Vale do Silício… E, quando muito, ficam oito meses.

Quando analisa dois totalitarismos – o nazismo e o comunismo – conclui que os nazistas eram criminosos, mas não hipócritas. Executavam o que proclamavam. “O comunismo, ao contrário – acrescenta –, foi uma fortaleza de hipocrisia”. Já não é comunista, segue sendo de esquerda?
Sou socialista. Efetivamente, os nazistas eram transparentes: queriam infligir o mal e o fizeram. Sem espaço para dúvidas. O comunismo foi uma grande farsa, nos enganou. Albert Camus já chamou a atenção para esse fato: o comunismo é o mal sob slogans de ‘buenismo’. Por isso, nas fileiras comunistas surgiu a real rebelião intelectual.

O desencanto, então, foi consequência dessa grande farsa comunista?
Absolutamente. Trouxe a decepção e a dissidência. Igualdade? Bem, foram alcançadas algumas cotas. Mas, e a liberdade? Nada. E a fraternidade? Ainda menos! Essa foi sua grande contradição.
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Publicado originalmente no La Vanguardia. 
Fonte:http://www.diariodocentrodomundo.com.br/25/05/2014

Sobre o presente

Marcelo Gleiser*


O aqui e o agora não existem de forma concreta: são uma representação criada a partir de um truque cognitivo 
Como já disse Gilberto Gil, "o melhor lugar do mundo é aqui e agora". Todo mundo sabe exatamente o que isso significa, "aqui" e "agora". Mas se paramos para pensar sobre o assunto, descobrimos que nenhum dos dois existe, ao menos de forma concreta. O que existe é uma representação do aqui e do agora em nossas mentes, criada a partir de um truque cognitivo. 

No fim das contas, o aqui e o agora são invenções do nosso cérebro, e não entidades que existem, como você ou a cadeira em que você se senta. 

A nossa percepção do real, da realidade, é produto de uma integração extremamente complexa feita por nossos cérebros. São incontáveis estímulos sensoriais, imagens, sons, cheiros, tato, que são recolhidos pelos nossos órgãos, transferidos por impulsos nervosos ao nosso cérebro e lá, em regiões diversas, integrados para criar o que chamamos de realidade. O aqui e o agora são exemplos dessa integração, aproximações que criamos para que seja possível funcionar no mundo: sem uma noção do "aqui", como nos posicionarmos no espaço? Sem uma noção do "agora", do "presente", como ligar passado e futuro? 

Que o cérebro constrói a realidade não deve ser surpresa para ninguém. Basta alterar seu funcionamento, após algumas cervejas, uma noite sem dormir ou com o uso de drogas, que nossa percepção do "real" é profundamente afetada. Ninguém dá muita bola para isso, até que acontece alguma coisa. Num caso mais extremo, a demência leva à destruição do indivíduo, do que chamamos de "eu". Quem você é e como você se relaciona com o mundo externo depende exclusivamente de como o seu cérebro integra informação sensorial e as memórias registradas do passado. 

O presente, em particular, é uma construção cognitiva fascinante. O tempo flui continuamente, ou assim o percebemos. Mas não temos um relógio dentro das nossas cabeças; o que temos são impulsos externos, estímulos que vêm de fora para dentro, aliados a mecanismos internos, como o bater do coração. Quando vemos algo, fótons de luz são recebidos pela retina de nossos olhos, e um impulso é transmitido pelo nervo óptico até a região posterior do cérebro, onde é analisado e transformado numa imagem. Vemos o mundo de dentro para fora de nossas cabeças! E o que chamamos de presente é uma ilusão. 

Quando olhamos em torno, vemos objetos a distâncias diferentes ao mesmo tempo. Mas sabemos que a luz tem uma velocidade finita: o tempo que demora para viajar de um objeto mais distante é maior. Portanto, quando olhamos, por exemplo, para uma árvore e uma nuvem no céu, e vemos os dois objetos ao mesmo tempo, estamos, na verdade, vendo a árvore antes da nuvem; objetos mais distantes estão num passado mais longínquo. Mesmo o seu laptop ou o jornal que você lê não estão sendo vistos agora, mas um bilionésimo de segundo no passado, que é aproximadamente o tempo que a luz demora para ir da tela até os seus olhos. 

Quando nos referimos ao presente, estamos, na verdade, nos referindo a uma ilusão construída por nossos cérebros. Nunca vemos nada como é "agora". O presente existe apenas em nossas cabeças. 
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O pavor dos abastados: a desigualdade e a taxação das riquezas

Leonardo Boff* 
 
Está causando furor entre os leitores de assuntos econômicos, economistas e principalmente pânico entre os muito ricos um livro de 700 páginas escrito em 2013 e publicado em muitos países em 2014. Tranasformou-se num verdadeiro best-seller. Trata-se de uma obra de investigação, cobrindo 250 anos, de um dos mais jovens (43 anos) e brilhantes economistas franceses, Thomas Piketty. O livro se intitula O capital no século XXI (Seuil, Paris 2013). Aborda fundamentalmente a relação de desigualdade social produzida por heranças, rendas e principalmente pelo processo de acumulação capitalista, tendo como material de análise particularmente a Europa e os USA.

         A tese de base que sustenta é: a desigualdade não é acidental mas o traço característico do capitalismo. Se a desigualdade persisitir e aumentar, a ordem democrática estará fortemente ameaçada. Desde 1960, o comparecimento dos eleitores nos USA diminuiu de 64% (1960) para pouco mais de 50% (1996), embora tenha aumentado ultimamente. Tal fato deixa perceceber que é uma democracia mais formal que real.

         Esta tese sempre sustentada pelos melhores analistas sociais e repetida muitas vezes pelo autor destas linhas, se confirma: democracia e capitalismo não convivem. E se ela se instaura dentro da ordem capitalista, assume formas distorcidas e até traços de farça. Onde ela entra, estabelece imediatamente relações de desigualdade que, no dialeto da ética, significa relações de exploração e de injustiça. A democracia tem por pressuposto básico a igualdade de direitos dos cidadãos e o combate aos privilégios. Quando a desigualdade é ferida, abre-se espaço para o conflito de classes, a criação de elites privilegiadas, a subordinação de grupos, a corrupção, fenômenos visíveis em nossas democracias de baixíssima intensidade.

         Piketty vê nos USA e na Gran Bretanha, onde o capitalismo é triunfante, os países mais desiguais, o que é atestado também por um dos maiores especialistas em desiguldade Richard Wilkinson. Nos USA executivos ganham 331 vezes mais que um trabalhador médio. Eric Hobsbown, numa de suas últimas intervenções antes de sua morte, diz claramente que a economia política ocidental do neoliberalismo “subordinou propositalmenet o bem-estar e a justiça social à tirania do PIB, o maior crescimento econômico possível, deliberadamente inequalitário”.     
  
         Em termos globais, citemos o corajoso documento da Oxfam intermón, enviado aos opulentos empresários e banqueiros reunidos em Davos nos janeiro deste ano como conclusão de seu “Relatório Governar para as Elites, Sequestro democrático e Desigualdade econômica”: 85 ricos têm dinheiro igual a 3,57 bihões de pobres do mundo.

         O discurso ideológico aventado por esses plutocratas é que tal riqueza é fruto de ativos, de heranças e da meritocracia; as fortunas são conquistas merecidas, como recompensa pelos bons serviços prestados. Ofendem-se quando são apontados como o 1% de ricos contra os 99% dos demais cidadãos, pois se imaginam os grandes geradores de emprego. 

         Os prêmios Nobeis J. Stiglitz e P. Krugman tem mostrado que o dinheiro que receberam do Governo para salvarem seus bancos e empresas mal foram empregados na geração de empregos. Entraram logo na ciranda financeira mundial que rende sempre muito mais sem precisar trabalhar. E ainda há 21 trilhões de dólares nos paraísos fiscais de 91 mil pessoas.

         Como é possível estabelecer relações mínimas de equidade, de participação, de cooperação e de real democracia quando se revelam estas excrecências humanas que se fazem surdas aos gritos que sobem da Terra e cegas sobre as chagas de milhões de co-semelhantes?

         Voltemos à situação da desigualdade no Brasil. Orienta-nos o nosso melhor especialista na área, Márcio Pochmann (veja também Atlas da exclusão social – os ricos no Brasil, Cortez, 2004): 20 mil famílias vivem da aplicação de suas riquezas no circuito da financeirização, portanto, ganham através da especulação. Continua Poschmann: os 10% mais ricos da população impõem, historicamente, a ditadura da concentração, pois chegam a responder por quase 75% de toda riqueza nacional. Enquanto os 90% mais pobres ficam com apenas 25%”(Le Monde Diplomatique, outubro 2007).

         Segundo dados de organismos econômicos da ONU de 2005, o Brasil era o oitavo país mais desigual do mundo. Mas graças às políticas sociais dos últimos dois governos, diga-se honrosamente, o índice de Geni (que mede as desigualdades) passou de 0,58 para 0,52. Em outras palavras, a desigualdade que continua enorme, caiu 17%.

         Piketty não vê caminho mais curto para diminuir as desigualdades do que a severa intervenção do Estado e da texação progressiva da riqueza, até 80%, o que apavora os super-ricos. Sábias são as palavras de Eric Hobsbown: “O objetivo da economia não é o ganho mas sim o bem-estar de toda a população; o crescimento econômico não é um fim em si mesmo, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas”.

         E como um gran finale a frase de Robert F. Kennedy:”o PIB inclui tudo; exceto o que faz a vida valer a pena.”
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* Teólogo. Escritor. Filósofo.
Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/25/05/2014
Imagem da Internet

Por que amamos odiar o Facebook?

 Paulo Gleich*
 
Se você tem Facebook, provavelmente já viu – ou até mesmo compartilhou – postagens criticando as interações virtuais e/ou exaltando a vida e as relações fora da Internet. A cada tanto, surge um novo vídeo ou texto que pretende nos abrir os olhos para a vida “de verdade”, condenando o uso do celular e das redes sociais. Tenho dúvidas quanto à eficácia dessas mensagens para além de um efeito nostálgico passageiro: caso funcionassem, não estaria em ascensão o uso desses aparelhos e das formas de comunicação à distância.

Outro alvo frequente de críticas é o conteúdo postado (sempre pelos outros, claro!), como se o Facebook fosse responsável por uma suposta mediocrização do mundo. Há uma fantasia de que se não existisse (ou se não o usássemos), poderíamos estar nos dedicando a atividades mais construtivas, lendo os clássicos, mudando o mundo. De fato, esses comportamentos “nobres” são pregados timeline afora, mas suspeito que em muitos casos para expiar a culpa por estar fazendo exatamente o mesmo que os demais: jogando conversa fora, compartilhando coisas de que gostamos e vendo o que os outros estão fazendo.

Vários estudos têm mostrado que no mundo virtual não somos tão diferentes da vida pública, diminuindo a distância imaginária que insistimos em manter entre ambos. Tanto na vida cotidiana quanto no Facebook nos empenhamos em mostrar aos outros nossa versão preferida de nós mesmos. Ser ignorado no Facebook é similar a ser ignorado fora dele: gera tristeza e efeitos negativos sobre a percepção de si mesmo. Curtidas e comentários positivos levantam o moral, assim como elogios ou outras formas de aprovação que recebemos no convívio.

Por mais independentes que acreditemos (ou desejemos) ser, estamos fadados, de nascença, a depender do olhar e da aprovação do outro. Precisamos nos sentir amados para garantir que tem sentido aquilo em que acreditamos – enfim, que a vida vale a pena. Mesmo o asceta mais solitário não é imune a isso: sente-se reconhecido por seu deus por sua renúncia ao convívio e aos prazeres da vida mundana. No mundo virtual não é diferente: defendemos nossas certezas, mas precisamos de outros que as reconheçam como válidas.

Num mundo cada vez mais privado de espaços públicos de encontro e convivência, o Facebook e as redes sociais se tornaram a ágora contemporânea à qual (quase) todos têm acesso. Na vida “lá fora” limitamos nossa convivência a pessoas em número e variabilidade menor, mas nessa praça pública virtual nos encontramos com um espectro mais amplo de formas de ser e pensar. Não será a bronca com o Facebook em parte por nos lembrar que muita gente pensa e vive de forma diferente de nós? Por outro lado, o prazer embutido por quem critica os demais também revela sua função essencial para garantir nossa identidade – o que seria dos gremistas sem os colorados?

As críticas às redes sociais e aos vínculos que nelas estabelecemos podem ser uma tentativa de minimizar o medo do desamparo que as mudanças no mundo atual trazem consigo. Mas talvez as coisas não sejam tão diferentes assim: também no mundo virtual, dependemos dos laços que tecemos com os outros, alguns mais consistentes que outros. Talvez amemos tanto odiar o Facebook por odiar admitir que, no fundo, o amamos: precisamos dele para nos sentirmos conectados com o próximo. Mesmo que venhamos nos isolando na vida “lá fora”, seguimos sendo, através das redes virtuais, seres sociais.
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*  Jornalista. Escritor
Fonte: ZH online, 25/05/2014

ALAIN de BOTTON: DUAS PERGUNTAS

O suíço Alain de Botton popularizou a “filosofia para o dia a dia”. Além de escritor, é produtor e apresentador de televisão. De Londres, onde mora, aceitou sem pensar duas vezes a provocação do Informe Especial.

O senhor já esteve no Brasil. Como definiria, filosoficamente, essa experiência?

O Brasil é a terra da esperança e da melancolia constantes. Eu nunca estive em um lugar tão cheio de promessas e tão amaldiçoado com tristeza. Eu adorei.

O que é mais importante: encontrar as respostas ou fazer as perguntas certas?

Acho que nós precisamos achar respostas, não só perguntas. As respostas podem não ser para todos, ou para sempre, mas elas precisam funcionar para você – e nós não podemos passar a vida simplesmente perdidos, simplesmente gostando de não saber...
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Fonte: ZH online:INFORME ESPECIAL | Tulio Milman - 25/05/2014

O significado do ceticismo

Calvin e a Matematica
O termo ceticismo foi tão largamente utilizado que adquiriu vários significados distintos, alguns até conflitantes entre si, através do tempo. Numa acepção coloquial, ceticismo tem como sinônimos impiedade, postura crítica, cientificismo, e outras coisas que exprimem uma atitude de desconfiança em relação a certas crenças ou pretensas verdades. Seu significado original, contudo, embora mantenha alguma relação com esses termos, fica um pouco obscurecido por eles na medida em que possui especificidades que eles não discriminam.
 
Sendo assim, sem pretender corrigir a maneira coloquial de entender o conceito, eu gostaria de apresentá-lo de maneira mais estrita, mais próxima desse sentido original ao qual aludi. Minha intenção aqui será expor brevemente o ceticismo filosófico, uma maneira de filosofar criada na Antiguidade que tem grande força ainda hoje. Aliás, é pensando nas correntes mais recentes do ceticismo que escrevo aqui.

Dividirei este texto em três partes: a princípio, apresentarei o ponto de partida do ceticismo, depois o modo como ele se firma, tentando delinear de maneira bem introdutória o que ele seria, por fim, concluirei ressaltando como ele está ligado à vida comum. Obviamente, como este é um texto de divulgação, minha exposição será singela e evitará grandes aprofundamentos e argumentações, tentando mais expor o que está envolvido no assunto que realizar uma defesa ou questionamento da posição cética.

I
Verdade e dogmatismo

O ceticismo se inicia com uma das discussões mais antigas da Filosofia: a busca pela verdade. No período em que surgiu, o movimento cético já concorria diretamente com diversas outras correntes filosóficas as quais acreditavam já tê-la encontrado e que sustentavam bons argumentos para tal. Pirro, o alegado patrono do ceticismo, compunha sua filosofia no mesmo período em que o gigante Aristóteles fazia o mesmo, consequentemente, debatia com os seguidores de diversas filosofias do período, fossem estas inspiradas em autores anteriores, ou mesmo em contemporâneos. Sua maneira de filosofar, contudo, diferia dos demais na medida em que problematizava não as verdades que afirmavam, meramente, mas a própria possibilidade de sustentá-las da maneira como esses filósofos faziam. Vou explicar melhor. 

Quando algum filósofo não-cético produz um discurso filosófico e chega a alguma verdade, ele pretende que ela seja válida em qualquer tempo, em qualquer circunstância e independentemente de ser pensada ou percebida. Se Platão diz que a matéria é eterna, ou que existe um fundamento para a beleza – o Belo em si – do qual todas as coisas belas participam, por exemplo, ele pretende expressar realidades absolutamente verdadeiras e não verdadeiras somente do seu ponto de vista, de sua própria opinião. Tais coisas seriam sempre válidas e por isso não dependeriam de quem as pensasse.
 
Esse entendimento da verdade, como se pode notar, é bastante diferente dos usos comuns que fazemos dessa palavra, de modo que quando afirmamos, por exemplo, que nosso time do coração é o melhor do mundo, ou que não ficaremos satisfeitos com a próxima pessoa a presidir o Brasil, não estamos tratando do mesmo tipo de verdade a que eles se referem, embora, é claro, tais afirmações possam ser verdadeiras. As verdades filosóficas transcenderiam esse discurso comum das opiniões para alcançar algo mais elevado e universal. 

Segundo esses filósofos, seria possível chegar a verdades fundamentais por meio dessa atividade fantástica que é a Filosofia e, por pensarem assim, tais filósofos foram denominados pelos céticos com o nome de dogmáticos. Bem, mas o que é um dogmático (segundo o ceticismo)? Basicamente, é um filósofo que sustenta duas posições:

1. ele acredita ter encontrado uma ou mais verdades absolutas – quaisquer verdades: o mundo não é somente uma criação de minha mente, verdade é dizer o que corresponde aos fatos, o mundo é composto de duas ou mais substâncias e assim por diante. 
 
2. ele acredita ser capaz de provar tais verdades absolutas, quer dizer, o dogmático possui argumentos e justificativas que mostram porque sua verdade absoluta é absoluta e como ela pode ser reconhecida, por qualquer um, como tal. 

Convém dizer que o termo dogmatismo é tão amplo e vulgarizado quanto o próprio termo ceticismo, mas como estamos discutindo posições filosóficas bastante específicas, só importa dizer que, embora céticos diferentes tenham designado o dogmatismo de maneiras diversas também, o dogmatismo costuma expressar essa confiança numa verdade e em certa capacidade de prová-la filosoficamente. 
 
II
A posição cética: suspender o juízo
Os dogmáticos disputaram entre si por séculos para saber quem tem razão em diversos pontos: deuses, realidade, o fundamento do conhecimento e muitas outras coisas, de modo que eles são, efetivamente, a corrente filosófica predominante no mundo. Há e sempre houve muito mais dogmáticos que céticos em qualquer departamento de Filosofia, em qualquer faculdade, em qualquer estado, país ou época, pois o conflito em que eles estão inseridos não os destrói, mas os atiça a desenvolver novas formas de dogmatismos que venham derrotar os demais. 

No entendimento dos céticos, porém, o grande problema das filosofias dogmáticas é que, embora elas creiam ter encontrado a verdade e seu caminho, elas são muitas e contraditórias. Os céticos lhe dirigem uma suspeita natural: se uma filosofia diz ter a verdade e outras também, qual das duas tem razão? Mais ainda: com base em quê podemos criar um critério para julgar qual delas tem razão? Se eu utilizar um critério para julgar a verdade absoluta, não estarei também usando um critério absoluto e entrando em conflito com outros critérios absolutos e, consequentemente, outras filosofias? Como resolver essa diafonia? Aos olhos do ceticismo, a descoberta da verdade por parte das filosofias dogmáticas é também uma batata quente que elas tem que carregar sem poder jogar às demais. 

Diante disso, considerando a profusão de disputas e discursos contrários, os céticos creem que, pessoalmente, ainda não encontraram a Verdade entre as filosofias disponíveis. Não que eles creiam que seja impossível encontrá-la, que as verdades defendidas pelos outros sejam falsas ou qualquer coisa assim, eles apenas acham que, eles mesmos, ainda não a encontraram e que a disputa em torno dela, enquanto dissidência irresolvível, lhes aparece, por ora, como irresolvível. Falta-lhes uma solução para essa bagunça toda. 

Trata-se, portanto, de uma experiência particular: de julgar uma aparência que pode ou não ser verdadeira e sobre a qual eles continuam céticos, ou seja, que eles continuam a investigar. O próprio termo ceticismo vem daí: investigador.

O que fazer, contudo, com os milhares de dogmas disponíveis? Que posição tomar em relação a eles? Posso estar investigando a verdade, mas o que devo pensar sobre as pretensas verdades alegadas pelos outros? 

Segundo os céticos, enquanto investigamos a verdade, é preciso suspender o juízo em relação àquilo que não conseguimos opinar ainda, em outras palavras, é preciso não dar assentimentos à verdade ou à falsidade absoluta das coisas. Os céticos não entram na disputa para dizer quem tem ou não razão. Eles mesmos não sabem quem tem razão ou se eles mesmos tem razão, apenas tomam uma atitude que lhe parece conforme com os meios que dispõe.

III
Ceticismo e vida comum
Pelos séculos através dos séculos os céticos tem sido conhecidos como filósofos que duvidam de tudo, que defendem uma filosofia maluca e insustentável. Descartes (1596-1650), convém dizer, ajudou muito a popularizar essa imagem, embora ele mesmo não fosse nada cético. 

Ocorre, porém, que, se as filosofias dogmáticas requerem critérios absolutos para a verdade, uma vez que ela mesmo deve ser absoluta, isso implicaria, na maneira de entender do ceticismo, num afastamento filosófico da vida comum. Para os céticos, os dogmáticos constroem castelos abstratos e impenetráveis, onde se isolam de uma vida com as demais pessoas, sendo o ceticismo uma maneira saudável de questionar os critérios absolutos, a exigência de uma verdade que transcenda o tempo e o espaço, e manter nossos pés bem presos ao chão. 

Segue-se disso uma proposta de vida que siga aquilo que nos aparece como confiável segundo nossa própria experiência, mas que não se prenda demasiadamente – dogmaticamente, aliás – nem a ela, nem aos nossos delírios filosóficos. O ceticismo, portanto, seria uma espécie de purgação filosófica, um remédio para os excessos da razão, que nos manteria em uma constante reforma íntima de nossas opiniões encardidas, de nossos dogmas mais arraigados. O cético poderá, inclusive, deixar de ser cético um dia caso, numa de suas investigações, tope com a Verdade absoluta numa das esquinas da vida. Nem mesmo essa impossibilidade está excluída definitivamente de seu horizonte, ela está apenas suspensa junto às outras, a todas as outras.

Adendo: algumas indicações de leitura

Smith, Plinio Junqueira. Ceticismo. Rio de janeiro: Zahar, 2004. 
Um livrinho simples e barato (uns R$10,00 em livrarias), escrito por um dos maiores especialistas no assunto. Smith traça um perfil geral do ceticismo tal como ele é discutido atualmente, principalmente na filosofia analítica e na epistemologia contemporânea. O capítulo sobre ética e vida comum, contudo, é uma das melhores partes do livro. 

Pereira, Oswaldo Porchat. Rumo ao ceticismo. São Paulo: Unesp, 2006.
Um dos poucos clássicos da filosofia brasileira, este livro reúne os artigos de um dos filósofos mais importantes do país (felizmente ainda vivo). Porchat mudou os rumos dos estudos sobre ceticismo no Brasil, fundou a corrente filosófica conhecida como neopirronismo, formou uma geração de filósofos de alto nível – como o próprio Plinio Smith, citado acima – e se tornou uma referência latinoamericana de como é possível, não sendo grego, europeu, ou estando morto, fazer boa filosofia.
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Fonte: http://ceticosblog.wordpress.com/24/05/2014

Vladimir Putin diz que nova Guerra Fria é improvável

Vladimir Putin
 Putin culpou o Ocidente pela violência e a instabilidade política ucraniana e afirmou esperar que a Europa e os Estados Unidos estejam dispostos a ceder

O presidente russo, Vladimir Putin, disse neste sábado que uma nova Guerra Fria, em consequência à crise da Ucrânia, é improvável, e afirmou que não está tentando reconstruir a União Soviética ao anexar a ex-península ucraniana da Crimeia.

Em entrevista a várias agências de notícias, incluindo a agência inglesa de notícias Reuters, Putin culpou o Ocidente pela violência e a instabilidade política ucraniana e afirmou esperar que a Europa e os Estados Unidos estejam dispostos a ceder.

- Não gostaria de pensar que esse é o começo de uma nova Guerra Fria. Não é do interesse de ninguém e acho que não acontecerá – afirmou Putin, sentado em uma grande mesa ao lado de jornalistas no ambiente externo de um palácio em São Petersburgo.

Ele negou que os planos de formar um bloco de comércio com duas ex-repúblicas soviéticas, Cazaquistão e Belarus, tenham a intenção de reconstruir a União Soviética, dissolvida em 1991.

- Eles tentam colocar um rótulo na gente, um rótulo de que estamos tentando restaurar um império, a União Soviética, subordinar todo mundo. Isso absolutamente não corresponde à realidade – afirmou Putin. “É uma arma de guerra midiática.”

A crise na Ucrânia fez as relações entre Ocidente e Oriente chegarem ao seu pior patamar desde o fim da Guerra Fria, ocorrida há duas décadas, com o fim da União Soviética.

Putin também disse a um grupo de jornalistas estrangeiros, nos bastidores do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, que a Rússia representa os interesses de mais países, e que não pode concordar em ser tratada sem igualdade.

Criticando as sanções impostas pelos Estados Unidos e a Europa devido à crise ucraniana, ele afirmou que a Rússia não será isolada internacionalmente por conta da crise.

- Acho que a ideia de isolar um país como o nosso só pode ser temporária. É impossível – afirmou. A Rússia assinou nesta semana um acordo de 30 anos para prover gás natural para a China, no valor de US$400 bilhões.
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Por Redação, com Reuters - de São Petersburgo
Fonte:http://correiodobrasil.com.br/24/05/2014

sábado, 24 de maio de 2014

Família: diferença e complementaridade

 Carlos “Catito” Grzybowski*
 Quadro "A Família" (1925), de Tarcila do Amaral
Sociólogos, antropólogos e outros estudiosos da área de ciências humanas têm debatido, sem chegar a um consenso, sobre a definição de família. Desde definições que limitam o conceito aos vínculos consanguíneos envolvendo várias gerações até definições modernas que denominam de família unicelular as pessoas que vivem sozinhas – embora no censo norte-americano, tais pessoas são denominadas de “não-família”. Por aí vemos a complexidade do tema.

A “família” brasileira, segundo o censo do IBGE, tem muitas configurações nas quais inclui as “produções independentes”, casais com várias uniões cujos filhos de distintas uniões vivem sob o mesmo teto e os pares homoafetivos, entre outros.

Entretanto a ideia moderna de família está fundamentada sobre o conceito existencialista do século 17 de indivíduo, em torno do qual gira toda a construção da modernidade e desemboca no superlativo do “individualismo”, que norteia desde a economia do consumo até os atualmente denominados “direitos humanos”.

Seguir uma discussão nessa perspectiva nos leva a um beco sem saída, pois do ponto de vista psicológico, família é uma unidade de unidades tão entrelaçada que é impossível distinguir este conceito de indivíduo nestas relações. Gregory Bateson, antropólogo construtor dos conceitos fundantes da teoria sistêmica, afirma que não consegue perceber a realidade como possuindo algo que seja independente de outro algo, sendo difícil conceber o conceito de indivíduo.

Assim, viver em família, ou tornar-se família, pressupõe dois elementos essenciais: diferença e complementaridade. O crescimento de um organismo só se dá “em relação a” e isso pressupõe a diferença. Dois elementos iguais em tudo não promovem crescimento ao conjunto e, por conseguinte, se o conjunto não cresce, a parte que o compõe também não cresce. A complementaridade se dá no reconhecimento da incompletude e limitação do “indivíduo” e é sempre simétrica. Em outras palavras, eu só me constituo a partir do outro: só me torno marido diante de uma esposa; só me torno pai diante de um filho.

Concluindo: viver juntos debaixo de um mesmo teto, mesmo passando por rituais, civis ou religiosos, não nos constitui família. Família transcende estes conceitos e, como cita o filósofo francês Gabriel Marcel, faz parte do que não pode ser problematizado – é um mistério! E como tal só pode ser contemplado.

Eu só me constituo como família quando participo em uma relação com o outro que é diferente e complementar, que me proporciona crescer na relação a partir desta diferença e complementaridade.
Nossa sociedade moderna estimula vínculos baseados no individualismo, onde o outro deixa de ser o que me constitui e passa a ser objeto para o meu desfrute individualista, logo descartável quando o desfrute chega ao fastio ou esbarra nas limitações de minha humanidade. Esses vínculos são essencialmente não-família, independente da forma que possui. Por exemplo: o divórcio fácil é resultado da não vinculação real, pois em tal união jamais está presente a possibilidade de frustração a partir das diferenças. Uniões como estas são pseudo-relações, que, como outras similares, hoje em dia se denominam equivocadamente de “família”!
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*Sou psicólogo clínico com especialização em Terapia Familiar Sistêmica, professor e coordenador dos cursos de especialização em Terapia Familiar Sistêmica e de Aconselhamento Pastoral Familiar da Associação Brasileira de Assessoramento e Pastoral da Família – EIRENE do Brasil.em parceria com a FLT (Faculdade Luterana de Teologia – São Bento do Sul/SC) e também do curso de pós-graduação em Dependência Química e Comunidade Terapêutica na mesma faculdade. Além disso sou professor convidado do IATES – Instituto de Aconselhamento e Terapia do Sentido do Ser, do CEM – Centro Evangélico de Missões e do Instituto da Família da Faculdade Sul Americana. Também coordeno as atividades administrativas do Instituto Phileo de Psicologia, onde exerço minhas atividades de terapeuta familiar.
Fiz minha graduação superior em Psicologia na UFPR. Fiz minha especialização em Terapia Familiar Sistêmica no Centro de la Família EIRENE em Quito/ Equador, sob a orientação do Dr. Jorge Maldonado. Ingressei no Mestrado em Psicologia da Infância e da Adolescência na UFPR, trabalhando com a questão do Conflito conjugal e o uso de drogas no adolescente.e posteriormente fiz doutorado em Lingüística Aplicada, também na UFPR.
Tenho vários livros publicados, além de artigos científicos em periódicos especializados e sou articulista da Revista Ultimato, juntamente com minha esposa.
Tenho também como ‘hobbie’ a literatura infanto-juvenil, vários livros publicados e a criação de personagens que receberam prêmios nesta categoria, sendo um deles a formiga ‘Smilingüido’ e outro a “Tribo Selvação”.
Quadro “A Família” (1925), de Tarsila do Amaral
Fonte:  http://ultimato.com.br/sites/casamentoefamilia/2014/05/14/familia-diferenca-e-complementaridade/

A ciência da meditação

A ciência da meditação
  Mais do que só relaxar e combater o estresse, cientistas vêm mostrando que a meditação tem a capacidade de mudar
 a estrutura e as funções cerebrais, favorecendo a atenção plena e a habilidade de foco. 
(foto: Michell Joyce CC BY-NC 2.0)

Em entrevista à CH, a bióloga Elisa Kozasa e o neurocientista Luiz Eugênio Mello apresentam seus resultados de pesquisa sobre a ação do estado meditativo no cérebro e falam sobre a aplicação dessa prática no sistema público de saúde. 
 
Originalmente ligada às práticas religiosas orientais, a meditação é hoje objeto de estudo da ciência e recomendada como terapia complementar para muitas condições médicas. No Brasil, é oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2006. Muito mais que apenas relaxar e combater o estresse, cientistas vêm mostrando que a prática meditativa tem a capacidade de mudar a estrutura e as funções cerebrais, favorecendo a atenção plena e a habilidade de foco.

Pesquisas desenvolvidas no Brasil investigam esses efeitos da meditação e tentam entender suas vantagens. Nesta entrevista, a bióloga Elisa Kozasa, do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, e o neurocientista Luiz Eugênio Mello, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), à frente desses estudos, falam sobre seus resultados mais recentes na busca por compreender a ação do estado meditativo no cérebro e discutem a aplicação dessa prática no sistema público de saúde.

Ciência Hoje: Vocês vêm estudando os efeitos da meditação sobre o cérebro humano há mais de 10 anos. O que têm observado de mais interessante?
Elisa Kozasa 
Kozasa: Publicamos um estudo na NeuroImage, bastante citado, em que comparamos pessoas que meditam com regularidade e pessoas que não meditam durante uma tarefa de atenção sustentada. Os dois grupos foram pareados por escolaridade, idade e gênero. Não diferenciamos o tipo de meditação que eles praticavam. Eram pessoas que meditavam há pelo menos três anos, três vezes por semana por meia hora no mínimo.

Havia pessoas que meditavam todos os dias, mais de uma hora. Esse critério mínimo foi estabelecido a partir de conversas com meditadores experientes. Observamos que quem não medita precisa ativar mais áreas cerebrais do que quem medita para ter o mesmo desempenho em uma tarefa de atenção. Enxergamos bem essa diferença em exames de neuroimagem funcional feitos nos dois grupos no Hospital Israelita Albert Einstein. É como se as pessoas que meditam regularmente tivessem um cérebro mais eficiente para desempenhar atividades que requerem atenção.

Quando falam de meditação, a que se referem exatamente? O que caracteriza a meditação? Basta sentar e prestar atenção na respiração?
Kozasa: Não há consenso na literatura sobre o que é meditação, mas basicamente são práticas em que se treina a atenção sustentada e se desenvolve certo nível de relaxamento físico e mental autoinduzido. O grande ganho das práticas de meditação é treinar a atenção, mas não a ‘atenção tensa’ e sim uma ‘atenção relaxada’, que permite ao indivíduo poder sustentar esse estado por longos períodos de tempo.

Então, outras práticas que envolvam atenção, como fazer origami, por exemplo, podem ter o mesmo efeito que a meditação clássica?
Luiz Eugênio Mello 
Mello: Há várias evidências que sugerem existir outras formas de meditar. Quando se está fazendo crochê ou pescando, por exemplo, concentrado numa dada atividade e a desempenhando conscientemente, há uma analogia com o processo de meditação. Mas não chegamos a fazer um estudo para comparar pessoas que meditam com aquelas que fazem esse tipo de atividade para saber se o efeito é o mesmo.

Kozasa: Há muitas questões ainda a ser analisadas. Uma delas é saber as diferenças entre práticas meditativas variadas. Os leigos podem pensar que meditar é só sentar de pernas cruzadas e prestar atenção na respiração, mas não é só isso. Existem diferentes técnicas de meditação. Hoje se fala, inclusive, no conceito de meditação informal, ou de práticas de mindfulness (atenção plena), que têm sido trazidas ao Ocidente. São estratégias que saem da meditação formal, sentada, e envolvem atividades cotidianas, mantendo a atenção naquela ação. As pessoas as praticam mesmo sem saber o que é mindfulness. Uma coisa é meditar e outra, o estado meditativo, que talvez possa ser atingido por meio dessas outras práticas informais.

O que acontece em nível fisiológico no cérebro de quem medita? Algum hormônio é liberado, alguma área específica é ativada?
Kozasa: Isso varia de acordo com o tipo de meditação. Fizemos um estudo em que tentamos ver se havia diferenças estruturais no cérebro das pessoas que meditam e não apenas diferenças funcionais, como observamos antes. Para isso, usamos um programa de computador desenvolvido pelo João Ricardo Sato, da Universidade Federal do ABC, que nos permitiu classificar os cérebros de meditadores e não meditadores com base em imagens estruturais cerebrais obtidas por ressonância magnética. Para nosso espanto, verificamos, com quase 95% de acurácia, que era possível distinguir o cérebro de uma pessoa que meditava do de outra que não o fazia. Foram considerados os volumes de 121 regiões do cérebro; algumas das regiões que mais se diferenciaram foram tálamo, giro pré-central, giro frontal inferior e o córtex entorrinal.

O que representam essas alterações cerebrais?
Kozasa: O tálamo é um ‘relê’ sensorial, que deixa passar ou bloqueia as informações enviadas pelos sentidos. Uma das habilidades desenvolvidas no processo de meditação é aprender a direcionar a atenção para um foco mais específico, em vez de receber de forma automática os dados sensoriais e responder a eles do mesmo modo. Em um estudo, usamos um teste de atenção e controle de impulsos. Mostramos aos voluntários palavras referentes a cores, mas pintadas de outra cor, como ‘vermelho’ escrito em azul, e as pessoas tinham que dizer a cor que viam e não a palavra. Essa tarefa exige atenção e controle de impulsos, habilidades desenvolvidas à medida que se treina a prática meditativa. Ao contrário do que parece, ficar sentado mantendo um foco de atenção não é um processo passivo, é ativo e exige aprendizado.

Mello: A questão do tálamo é muito importante. Nosso sistema nervoso é bombardeado com informações de toda natureza a todo instante. Essas informações podem ou não ganhar acesso ao córtex cerebral e despertar uma reação. Se ouço o barulho de uma bomba, como ele é intenso e eu o catalogo de um modo específico no meu cérebro, tenho que prestar atenção. Se me for infligido um estímulo nocivo que provoque dor, ele também tem que chamar a atenção. Há um experimento fascinante para explicar a atenção. Imagine uma audiência sentada para assistir a uma aula. Se forem crianças de dois anos, elas não ficam sentadas por muito tempo. Se forem adolescentes, vão ficar um pouco mais. Se forem adultos jovens, mais ainda. Isso tem a ver com o amadurecimento do sistema nervoso.

Mello: A capacidade de atenção não nasce pronta, vai se desenvolvendo naturalmente
A capacidade de atenção não nasce pronta, vai se desenvolvendo naturalmente. Se a aula for interessantíssima, essa população de adultos jovens ficará imóvel por manter atenção completa na aula. Mas, à medida que o tempo passa, mesmo que a atenção seja completa, as pessoas começarão a se mexer e a se distrair. Isso acontece porque, quando ficamos imóveis em cima do corpo, ocorre o que chamamos de escara de decúbito. Qualquer paciente que ficar deitado no hospital tem que ser virado, senão surgem escaras. Assim também é conosco: quando sentados ou deitados nos mexemos porque os receptores do nosso corpo começam a enviar sinais ao tálamo avisando que a circulação sanguínea não está adequada.

Mesmo inconscientemente, o nosso tálamo filtra a informação e a envia para o córtex, que toma a decisão de se mover. O tálamo é esse filtro que controla a informação que chega ao sistema nervoso. A única informação que não passa pelo crivo do tálamo para chegar ao córtex é a olfativa. Todas as outras informações sensoriais passam por ele.
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Reportagem Por: Sofia Moutinho, 
Fonte: Ciência Hoje/ RJ Publicado em 20/05/2014 | Atualizado em 20/05/2014
Você leu apenas o início da entrevista publicada na CH 314. Clique aqui para acessar uma versão resumida da revista e ler o texto completo.

‘Gelo de fogo’ escondido em permafrost é fonte de energia do futuro?

 
 Produção comercial do gás metano ainda deve demorar

O mundo é viciado em combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural), e é fácil entender o por que: baratos, abundantes e fácil de extrair, eles alimentam o desenvolvimento da indústria mundial.

Cada vez mais, porém, os governos vêm buscando alternativas aos hidrocarbonetos tradicionais – seja porque são altamente poluentes ou porque sua extração tem se tornado mais difícil, à medida que algumas reservas vão se esgotando.

Um substituto potencial – em enormes quantidades – foi encontrado e repousa profundamente sob permafrost (solo gelado do Ártico) ou os leitos dos oceanos: o hidrato de metano.

Apesar de potencialmente menos poluente que petróleo e carvão, porém, sua extração apresenta enormes riscos ambientais.

Reservas gigantes

Conhecido como “gelo que arde”, o hidrato de metano consiste em cristais de gelo com gás preso em seu interior. Eles são formados a partir de uma combinação de temperaturas baixas e pressão elevada e são encontrados no limite das plataformas continentais, onde o leito marinho entra em súbito declive até chegar ao fundo do oceano.

Acredita-se que as reservas dessa substância sejam gigantescas, observa Chris Rochelle, do Serviço Geológico Britânico. A estimativa é de que haja mais energia armazenada em hidrato de metano do que na soma de todo petróleo, gás e carvão do mundo.

Ao reduzir a pressão ou elevar a temperatura, a substância simplesmente se quebra em água e metano – muito metano.

Um metro cúbico do composto libera cerca de 160 metros cúbicos de gás, o que o torna uma fonte de energia altamente intensiva. Por causa disso, da sua oferta abundante e da relativa facilidade para liberar o metano, um número grande de governos está cada vez mais animado com essa nova fonte de energia.

Desafios técnicos

O problema, porém, é extrair o hidrato de metano. Além do desafio de alcançá-lo no fundo do mar, operando sob altíssima pressão e baixa temperatura, há o risco grave de desestabilizar o leito marinho, provocando deslizamentos.

Uma ameaça ainda mais grave é o potencial escape de metano. Extrair o gás de uma área localizada não é tão complicado, mas prevenir que o hidratado se quebre e libere o metano no entorno é mais difícil.

E isso tem consequências sérias para o aquecimento global – estudos recentes sugerem que o metano é 30 vezes mais danoso que o CO2.

Por causa desses desafio técnicos, ainda não há escala comercial de produção de hidrato de metano em qualquer lugar do mundo. Mas alguns países estão chegando perto.

Os Estados Unidos, o Canadá e o Japão já investiram milhões de dólares em pesquisa e já realizam alguns testes, desde 1998. Os mais bem sucedidos ocorreram no Alasca em 2012 e na costa central do Japão em 2013, quando, pela primeira vez, houve uma exitosa extração de gás natural a partir de hidrato de metano no mar.

Os Estados Unidos lançaram um programa de pesquisa e desenvolvimento nacional já em 1982 e, em 1995, tinham terminado a sua avaliação dos recursos disponíveis do gás de hidratos no país. Desde então, têm realizado projetos-piloto na costa da Carolina do Sul, no norte do Alasca e no Golfo do México. Cinco ainda estão em execução.

 O metano hidratado fica abaixo de muitas camadas de gelo ou no fundo do mar

Exploração comercial

O interesse do Japão é óbvio, assinala Stephen O’Rourke, da empresa de consultoria energética Wood Mackenzie: “Japão é o maior importador de gás do mundo”.
No entanto, ele ressalta que o orçamento anual do Japão para pesquisa na área é relativamente baixo – US$ 120 milhões (cerca de R$ 270 milhões). Os planos do país de produzir em escala comercial no fim desta década, portanto, parecem muito otimista. Mas mais à frente, o potencial é enorme.
“O gás metano pode mudar o jogo para o Japão”, diz Laszlo Varro, da Agência Internacional de Energia (IEA).

Em outros países, porém, os incentivos para explorar o gás comercialmente são menores por enquanto. Os Estados Unidos estão priorizando suas reservas de gás de xisto, recurso que também é abundante no Canadá. Já a Rússia ainda tem enormes reservas de gás natural.

A China e a Índia, com sua feroz demanda por energia, são uma história diferente. No entanto, eles estão muito atrás em seus esforços para explorar o recurso.

“Houve alguns progressos recentes, mas não prevemos produção comercial antes de 2030″, afirma O’Rourke.

De fato, a IEA não incluiu gás hidratado nas suas projeções globais de energia para os próximos 20 anos.

Riscos

Mas se essa fonte for explorada, o que parece provável no futuro, as implicações ambientais podem ser extensas.

Apesar de ser menos poluente que o carvão ou o petróleo, continua sendo um hidrocarboneto e, portanto, emite CO2. E há ainda o risco mais sério da liberação direta de metano na atmosfera.

Alguns argumentam, porém, que pode não haver alternativa, na medida em que o aumento da temperatura global pode provocar a liberação do gás “naturalmente”, devido ao aquecimento dos oceanos e ao derretimento das calotas polares.

“Se todo o metano for liberado, nós vamos ver um cenário de filme Mad Max”, diz Varro. “Mesmo usando estimativas conservadoras sobre as reservas de metano, isso faria todo o CO2 de recursos fósseis parecer uma piada”, destacou.

“Por quanto tempo o gradual aquecimento global pode prosseguir sem liberar o metano? Ninguém sabe. Mas quanto mais ele avança, mais perto chegamos de jogar roleta russa”, acrescentou.
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Fontes: BBC Brasil.
http://www.portaldomeioambiente.org.br/energia/8553-gelo-de-fogo-escondido-em-permafrost-e-fonte-de-energia-do-futuro