terça-feira, 24 de junho de 2014

HÁ DOIS ANOS, NUM DIA FRIO COMO HOJE

 Alessandro Martins*
 
Há dois anos, num dia frio como hoje, perdi um pedaço. Não uma fatia, não um naco. Não um ventrículo, não um átrio do coração. Nenhuma sístole ou diástole foi negligenciada. Não perdi uma das suas muitas válvulas, ou veias, ou artérias, feixes musculares. Não o vazio da escura caverna fibrosa, não o oco quando o sangue falta, não o som surdo quando o sangue flui, não o oxigênio, o ferro e a glicose que nutrem o órgão na sua continuidade involuntária. Ou mesmo a resultante química e física do processamento orgânico dessa combustão, nem isso perdi. 

Há dois anos, num dia frio como hoje, perdi um pedaço e não sangrei. Não explodi em hemorragia que colorisse as paredes do aposento. Não caí e não me joguei. Foi mais como ruir para dentro. Ainda funciono, como um relógio funciona. Um relógio funciona, ainda que sem ponteiros. Mas não perdi ponteiros. Apenas não quero ver as horas. 

Num dia frio, como hoje, elas passam do mesmo modo como nos dias quentes. E não há novidade nisso. Perdi um pedaço e a conta dos pedaços que restaram não bate na contabilidade entre o que havia e o que, agora, há. Desmontei todas as peças, tudo se encaixa, nada sobrou e está tudo perfeito. Ao colocar na balança, falta algo e, ainda assim, o conjunto pesa mais do que no início. O que me faz concluir: seja lá o que perdi, era mais leve que o ar. Planava no peito, no sutil equilíbrio de correntes ascendentes, sem bater asas, sem propulsão. Deslizava em si mesmo, caudaloso. Não uma parte que existia, mas uma que, do nada, surgiu. Não congênita, mas adquirida, brotada, vital e viçosa, se enroscando por dentro com gavinhas e buscando o sol, enraizando-me no mundo, no lado de fora, nos outros. Ligando o ponto A interno com o ponto B externo. Como se, então, eu tivesse de aprender a andar sobre essa corda bamba imaginária com um par de pernas novo em folha e isso não fosse mau. Pois era o movimento do encontro. E, de repente, piso em falso. 

Não perdi, há dois anos, num dia frio como hoje, nada que eu de início tivesse, mas aquilo que passei a ter e, agora, não tenho mais. Não sou apenas a presença, mas também as lacunas, os trechos, os pontilhados, os vazados, o caule despetalado, a ponte levada pelas águas, os nomes omitidos, as pedras que não serviram para construir e voltaram para o rio, silenciosas sob as águas, a toca de bicho, abandonada, a órbita vazia sob o tapa-olho, o cômodo lacrado, a pele que sai com o curativo, tudo o que em mim também é ausência, tudo o que é silêncio, tudo o que era, não é mais e não mais será.
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* Escritor. Cronista.
Fonte: http://alessandromartins.me/ 23/06/2014
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Rakan Ben Zolof 25

fotografia


O meu ver­da­deiro nome é Rakan Ben Zolof 25 e eu nasci nou­tro pla­neta. Algo que sem­pre des­con­fiei embora os meus pais adop­ti­vos, cheios de amor, sem­pre o tenham negado. Quando, em pequeno, lhes afir­mava cheio de cer­teza que não era daqui, respondiam-me tratar-se de deva­neios de uma cri­ança ima­gi­na­tiva que acre­di­tava na exis­tên­cia de naves espa­ci­ais e de outras civi­li­za­ções nou­tras galá­xias, mas ape­nas isso, ima­gi­na­ção; um dia pas­sa­ria. Diziam-me, ao con­trá­rio, que era daqui, como toda a gente, e que pre­ci­sava de pôr os pés no chão e concentrar-me em coi­sas con­cre­tas: como os tra­ba­lhos de casa, deus e o diabo.

Foram que­ri­dos, os meus pais adop­ti­vos, e quase me con­ven­ce­ram. Mas cedo se tor­nou apa­rente que os habi­tan­tes daqui eram seres muito dife­ren­tes de mim: super-homens e mulhe­res dota­dos de talen­tos e pode­res que me esca­pa­vam por com­pleto e que eu só podia admi­rar.

A pri­meira vez que per­cebi que não era daqui foi quando fiz dezas­sete erros numa cópia. Tinha dez anos. Todos os meni­nos me olha­ram com estra­nheza e a pro­fes­sora partiu-me uma régua de plás­tico na palma da mão. Quando che­guei a casa e disse aos meus pais adop­ti­vos que não era deste pla­neta, eles, con­des­cen­den­te­mente, passaram-me a mão pelo cabelo. Mas à noite, quando pen­sa­vam que eu estava a dor­mir, ouvi-os falar com pre­o­cu­pa­ção do assunto. Era ver­dade: eu tinha pro­ble­mas, diziam, não me adap­tava. Mais tarde, já cres­cido, os meus pais adop­ti­vos mos­tra­ram os docu­men­tos que vinham junto comigo no saco de lixo galác­tico que uma nave Vogon lhes tinha dei­xado à porta do quin­tal. Era ver­dade: não era daqui.

No meu pla­neta natal, que hoje sei estar numa galá­xia em anel situ­ada a 600 milhões de anos luz, a que vocês cha­mam de Objecto de Hoag, os habi­tan­tes falam pouco. Emi­tem alguns sons arti­cu­la­dos mas não têm o dom, ou melhor, o super­po­der da pala­vra. Não são mes­tres de voca­bu­lá­rio nem pro­du­zem tanto texto como os mag­ní­fi­cos espé­ci­me­nes deste pla­neta. No meu pla­neta natal não há muito a dizer, a memó­ria é coisa curta, a con­versa directa ao assunto e, tal­vez por isso, os habi­tan­tes andam quase sem­pre sor­ri­den­tes e pouco zan­ga­dos. Nada, ou quase nada, lhes lem­bra tris­teza por­que não se lem­bram de quase nada; e por­que não dei­xam que as pou­cas pala­vras que usam (por sabe­rem pou­cas) lhes enre­dem os pen­sa­men­tos em para­do­xos e con­tra­di­ções; a maior parte deles, dos pen­sa­men­tos, não são gran­des e sole­nes, como os dos super-homens e mulhe­res daqui, são antes peque­ni­nos pen­sa­men­tos e por isso pen­sa­men­tos muito livres e feli­zes.

Mas a grande dife­rença entre este pla­neta e o meu pla­neta natal é a memó­ria. Os habi­tan­tes do meu pla­neta natal têm pouca memó­ria. Quiçá por serem menos pro­li­xos, por terem menos léxico, no meu pla­neta natal cita-se pouco. A memó­ria, coisa a que nada escapa, é outro dos super­po­de­res deste pla­neta. No meu há menos memó­ria, inventa-se mais. Inventam-se vidas, his­tó­rias, pas­sa­dos. É um pla­neta onde não há His­tó­ria, só há fic­ção. Todos os dias a His­tó­ria é dife­rente, rein­ven­tada.

Quando eu era menino, as pro­fes­so­ras diziam que eu era inven­tivo. Ser inven­tivo era uma coisa que dava más notas. Os super­me­ni­nos e meni­nas não eram inven­ti­vos. Ale­gre­mente copi­a­vam e imi­ta­vam tudo o que era pre­sente e pas­sado; e pare­ciam feli­zes.

Mas estou agra­de­cido, mui­tís­simo agra­de­cido, aos meus pais adop­ti­vos por me terem encon­trado, reco­lhido e ensi­nado a estar aqui. Mesmo que de um modo desa­jei­tado, con­se­gui viver entre super-homens e mulhe­res e, às vezes, pas­sar por um deles. Claro que os ócu­los, que escon­dem a minha iden­ti­dade secreta, aju­da­ram muito.

Rakan Ben Zolof 25
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Texto: Publicado em por Pedro Bidarra
Fonte: http://www.escreveretriste.com/2014/06/rakan-ben-zolof-25/

segunda-feira, 23 de junho de 2014

INOVAR PARA MELHORAR

Joaquim Clotet*

A educação, a ciência, as artes, as tecnologias da informação e da comunicação esforçam-se em melhorar continuamente, transformando em possível o que era tido por impossível. Corroboram essa marcha ascendente, nas tecnologias da informação, as iniciativas de Antonio Meucci e Graham Bell, superadas pelos trabalhos de Bill Hewlett, David Packard e Steve Jobs. Nas neurociências, os trabalhos de William P. van Wagenen, aperfeiçoados pelo prêmio Nobel Roger Sperry.

A inovação é, portanto, em nossa sociedade, o selo que garante a qualidade dos mais diversos empreendimentos e das realizações focadas no progresso e no bem-estar. Tal atitude difere do posicionamento egocentrista e atual expresso no mundo anglófono pelo vocábulo Yolo, You only live once – só se vive uma vez.

Um notável projeto de inovação em nossos dias é a MedCity, ou cluster das ciências da vida, formado por universidades, pesquisadores e instituições públicas e privadas de Londres, Oxford e Cambridge. Trata-se de um triângulo promissor, radicado na capital britânica, que integra pesquisa, desenvolvimento, produção e comercialização focados nas ciências da saúde. O projeto criará empregos, atrairá investimentos e incentivará a transferência de conhecimento visando a uma população sadia.

A inovação precisa também estar presente no sempre revisitado e insubstituível tema da educação, desde a básica até a superior, estendendo-se, ao longo da vida, na educação permanente. Educação que não se limita apenas à ciência, à tecnologia, à economia, ao empreendedorismo, mas que está alicerçada nas humanidades, na transcendência e no exercício diário da cidadania. Essa é a célula-mãe ou pluripotente que deve gerar e nutrir todo plano de governo.
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*Reitor da PUCRS
Fonte: ZH online, 23/06/2014
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domingo, 22 de junho de 2014

A LITURGIA DA MORTE

 Rubem Alves*
Seus olhos procuravam no rosto do médico uma resposta para a pergunta que ele fazia sem palavras. Mas o médico esquivava-se do seu olhar e virou o seu rosto para as radiografias presas no visor iluminado.
 
Na verdade ele representava, fingia estar examinando as radiografias. Ele não precisava examiná-las porque sabia o que elas diziam. Ele olhava para as radiografias para fugir da pergunta que morava no olhar do homem assentado à sua frente.
Eram radiografias de um cérebro. Quando ele parasse de fingir e olhasse direto nos olhos do homem ele teria de dar a notícia.
 
“Há um tumor maligno no seu cérebro”, ele disse. “É um tumor inoperável...” Depois de um longo silêncio o homem lhe perguntou com voz tranquila: “Quanto tempo me resta, doutor?”
 
“Não é possível dizer ao certo”, respondeu o médico. “Mas penso que uns seis meses...”
 
O homem voltou-se para sua esposa assentada ao seu lado e lhe disse: “Chegou a hora de viver a liturgia da morte...”
 
Eu o conhecia. O seu nome era Alexander Schmemann, teólogo da Igreja Ortodoxa Russa. Essa igreja tem uma maneira peculiar de ver o mundo. As igrejas cristãs do ocidente veem o mundo como um vale de lágrimas colorido pela culpa e pelo medo. A Igreja Ortodoxa Russa vê o mundo como um espetáculo estético. Tudo é belo. Tudo é harmonioso. Deus é um esteta, um artista que vive para produzir a beleza. É a beleza que nos salva.
 
Essa harmonia cósmica, a Igreja a oferece aos homens através da liturgia. A liturgia é a beleza do universo oferecida aos sentidos: os carrilhões, o incenso, os cânticos, os vitrais, os gestos coreográficos. Participar da liturgia é unir-se ao universo e gozar da sua beleza, da mesma forma como um músico se une à sinfonia e goza da sua beleza ao tocar seu instrumento.
 
“Chegou a hora de viver a liturgia da morte...” Em outras palavras: chegou a hora de salvar a morte do seu horror para torná-la parte da beleza cósmica.
 
Deus é um esteta que ama a beleza. O homem é um esteta que ama a beleza: foi criado à imagem e semelhança de Deus. O homem, qualquer homem, sem o saber, compõe a sua vida como uma peça musical. O fim tem que ser belo, ainda que trágico.
 
No seu livro 'O Mito de Sísifo', Camus sugeriu que os suicidas preparam sua morte como uma obra de arte a ser contemplada. Como os samurais que, antes de praticar o sepuko, escreviam um hai-kai. Por que escrever um hai-kai? Para retirar o terror da morte pela magia da poesia.

Acho que esse é o desejo oculto de todas as pessoas: que a morte não seja o terror mas, como sugeriu Mário Quintana, “um céu que pouco a pouco anoitecesse e a gente nem soubesse que era o fim...”
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* Educador. Escritor.
Fonte:  http://correio.rac.com.br/_conteudo/2014/06/colunistas/rubem_alves/183895-a-liturgia-da-morte.html
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A escritora Fernanda Pacheco: escrevo quando quero

Marcelo Vinicius*
 
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Um dia desses estava lendo uma entrevista da escritora Fernanda Pacheco. Para quem não a conhece, é autora do livro "A culpa é do Chet Baker" (Editora Patuá). E, enquanto lia a tal entrevista, eu pensava: "até que enfim encontrei alguém, dessa novíssima geração, que usa a escrita como eu."

Uns dos relatos dela são até universais, como: “o que conforta, acomoda e traz sossego não faz parte da minha escrita. Não é algo que eu busque pra escrever até porque não me instiga nem um pouco.”

Isso me fez lembrar de uma entrevista que realizaram comigo para o site Mais Bahia, em 2012, em que eu disse: “para mim, a produção de um livro é sempre desgastante, não só porque a escrita em si lhe exige certas habilidades, mas também porque quando escrevo sempre advêm de uma inquietação.”

E, entre outros dizeres, eu continuei: “e quando me perguntam o que eu quero falar, eu respondo sempre: o absurdo, e digo também que eu quero articular com todos que se estabelecem além das agruras de simplesmente viver, que procuram se desenvolver, se perguntar ‘Por quê?’. Nesses meus escritos estão sempre os problemas últimos da existência: a angústia, o desejo, a perplexidade, o amor, o temor da morte e o anseio de eternidade, a revolta diante do absurdo da existência.”

O famoso poeta Ferreira Gullar também comentou, sobre sua própria escrita, algo semelhante:

 “a poesia só existe quando nasce de um acontecimento existencial. Se não for assim, não me interessa [...] eu afirmei aqui que, de um modo geral, minha poesia nasce do espanto. Platão diz que o conhecimento nasce do espanto. É isso, pelo menos, o que acontece comigo…”

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Escritor Ferreira Gullar

Outro ponto interessante numa entrevista com Fernanda Pacheco é sobre a inspiração para escrever, e que, para mim, foi bem mais singular, pois a maioria escreve constantemente, entra na síndrome do papel em branco, jamais deve parar de escrever e deve ficar ali esperando a inspiração aparecer, etc. Só que antes de comentar o que ela pensa a respeito disso, esse tema faz me voltar a um trecho, até longo, que escrevi para um livro meu, mas que nunca publiquei; esse deixei na gaveta (apesar de tê-lo postado na internet em 2010, as suas partes devem ainda estar navegando por aí…), que dizia sobre essa questão da falta de imaginação. O pedaço da história contava:

"[...] por estar um pouco agoniado, se levantou da cadeira e se sentou ao lado de suas anotações organizadas, flertando com a idéia de que, talvez, esses seus escritos poderiam esperar, porém logo mudou esta opinião:

“Sim, eu considero essa premissa muito forte: deixar para escrever depois. Mas não, tenho que terminar o que comecei. Apesar da doce noite de sono que chegará me pedindo, como crianças abandonadas e cães de rua, para que eu vá me deitar, eu resistirei. Eu me nego a dormir até que o trabalho seja feito… Mas como está o trabalho que eu tenho realizado até agora? Certamente que ele iria me inspirar a terminar isto tudo? Eu olho para o que eu tenho criado com esforço. No entanto, sinto-me como um bicho-preguiça: hesitante e lento. Até agora, a minha iniciativa incipiente se provou frustrante, para mim, e minha vontade está lentamente desaparecendo por causa do estresse incessante dessa frustração” — refletiu Michael.

Ainda tentando escrever algo, ele entrelaçou as suas pernas debaixo de si mesmo em uma postura que visava reforçar a sua vontade. Mesmo assim, os demônios da falta de imaginação se insinuavam. Ele tentou agitar a fluidez da sua mente e olhou para a uma lâmpada do quarto, que projetava uma considerada iluminação. “Como seria bacana escrever no escuro” — disse Michael em voz alta — “a escuridão traz idéias esplêndidas, se comparada com as luzes quando permanecem brilhando”.

Mas mesmo o incômodo persistindo, por causa daquela claridade, ele procurou ignorá-lo da melhor maneira possível, pois precisava terminar o seu trabalho. Tinha que desbloquear a prisão dos seus pensamentos e permitir a concepção do seu mundo para começar a escrever.

Michael “raspou” as entranhas da sua mente e encontrou apenas folhas em branco, desprovidas de inspiração. Os pensamentos permaneceram estagnados. Olhou perplexo para o pedaço de papel em branco. As linhas permaneceram perfeitamente em seu curso reto. O poço de sumidouros no seu estômago o fez sentir um peso decepcionante que crescia, manifestando-se em algum canto escuro da sua consciência.

Até o momento, a sua mente tinha sido obscurecida por distrações desnecessárias: uma mente excêntrica desvendada pelos encargos de um monstro, aquele monstro que tanto aparece na mente de um escritor: o Demônio da procrastinação, que é uma besta alimentada pela dúvida e pela incerteza; sustentada pelo perfeccionismo que afeta, em horas intermináveis, a mente inquieta, travando uma batalha inacabável do perfeccionismo com as próprias imperfeições do escritor. Esta besta sorriu para Michael, o qual olhou de volta para ela com espanto.

Na verdade, Michael estava perplexo com a subsistência desta besta e assim tornou-se fascinado por ela. Estudou seu rosto enigmático, tentando sufocar a sua aflição, mas sabia que não poderia sufocá-la. “Por que você não me deixa?” — perguntou Michael para tal besta e se manteve em silêncio aguardando a sua resposta, mas nada o respondeu.

Michael estava preso pelas pressões da sua situação e trancado em seu desejo de escapar de tudo isso. Por causa do seu estado, ele gritou de frustração para a tal besta: “apenas me deixe ser!”. Mas ele sabia que era inútil. A luta seria para sempre e sempre iria lutar para escapar dela.

Então, de repente, as idéias pareciam que estavam queimando dentro da sua mente com entusiasmo apaixonante. Suas pernas tremiam de emoção. Sua mente dificilmente poderia manter seus pensamentos frenéticos.

Colocando a ponta da caneta sobre a página, ele sorriu. Ele disse para si mesmo as primeiras palavras que iria cometer ao papel: “e assim eu…”. Mas sua mão hesitou. Ele tremeu. Deste modo, ele tentou jogar fora a sua invisível preocupação em relação a sua mão. Ele moveu a ponta da sua caneta para trás rapidamente, tentando quebrar esse feitiço. Mas não havia tinta sobre a superfície branca do papel. Por isso, irritado, atirou a caneta ao chão.

Em um mundo onde os artistas lutam e os humanos lutam para viver, Michael se viu olhando para o papel em branco com nenhum texto de sua autoria. No entanto, mesmo quando a besta, o monstro ou o demônio, como queira chamar a falta de inspiração, “comia” Michael e o distraía do seu propósito, não havia mais nada que ele preferiria estar fazendo, isso é o que ele é: um escritor com a maldição de ser um escritor e por isso só podia se sentar e esperar o monstro deixá-lo. Ele só podia se sentar com as suas páginas em branco.

A cada dia os artistas lutam para encontrar a imagem perfeita, a palavra perfeita para a frase perfeita, o enredo perfeito que irá abalar as nossas emoções como o guitarrista ao tocar as suas cordas ao ritmo do coração de um artista. Não há cura ou solução definitiva para isso, só há busca de inspiração.

“Nossa, o que é que eu estou fazendo? Esfregando minha caneta contra meus lábios e suspirando em silêncio, esperando que algo aconteça? Eu penso sobre minhas palavras, uma a uma… Eu acho que o monstro ainda está me olhando… Eu penso sobre o ‘Estranho da Madrugada’, agora… Porra…” — pensou Michael, confuso e que certamente se convenceria de que a sua inspiração não surgiria…"

É incrível saber que o drama dessa história, aqui contada, com o meu personagem Michael ao tentar, sem sucesso, escrever algo, não se tornaria em um problema para escritora Fernanda Pacheco, ela tiraria isso de letra, pois em uma situação dessas, simplesmente Pacheco agiria da forma como respondeu a uma entrevista: “não forço verso. Posso enlouquecer com a cabeça a mil por hora, mas se a caneta não consegue rabiscar uma palavra, então eu largo e sei lá, tomo uma cerveja, assisto desenho animado russo, tiro a cutícula. Volto ao poema só quando tiver que ser.”

Assim, toda minha historinha que contei aqui e o meu personagem Michael se tornariam desnecessários, isso se Fernanda Pacheco fosse minha personagem, ao invés do próprio Michael.

E o engraçado é que, apesar de ter escrito o drama do protagonista Michael com sua tormenta devida a falta de inspiração para escrever, eu sou como a Fernanda Pacheco disse sobre ela mesma na entrevista e que também me faz lembrar, de novo, do poeta Ferreira Gullar, quando este comentou: “entende agora por que demoro 10, 12 anos para lançar um novo livro de poesia? Porque preciso do espanto. Não determino o instante de escrever: ‘Hoje vou sentar e redigir um poema’. A poesia está além de minha vontade. Por isso, quando me indagam se sou Ferreira Gullar, respondo: ‘Às vezes.’”
Como diz outra escritora, Cristina Lasaitis: “já há muito ruído de fundo no mundo, então escrevo quando tenho algo importante a dizer.”

Enfim, como expressou o grande jornalista, autor, cientista Benjamin Franklin: “ou escreves algo que valha a pena ler, ou fazes algo acerca do qual valha a pena escrever.” No mais, meu caro escritor, é melhor não perder seu tempo olhando para o papel em branco, porém, digo isso porque não funciona comigo. Não é à toa que eu disse, logo no início, que o pensamento de Fernanda Pacheco é tão singular. O escritor que espera um momento ideal para escrever, vai morrer com papel em branco.
Mas, se você, leitor, pensa diferente, ótimo; a historinha do Michael aqui contada, então, lhe cairá muito bem. Digo isso sem moralismo e sem ironia, eu acho ótimo mesmo, acredite…
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* Marcelo Vinicius é um fotógrafo e escritor de olhar inquieto e apaixonado pelo novo. É amante da arte, seja fotografia, cinema ou literatura. Participou de jornais regionais, escreve para o portal Obvious e é colunista do site Homo Literatus. É graduando em Psicologia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Faz parte da equipe editorial da Revista IDEAÇÃO, do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em Filosofia; é integrante do grupo de estudo em Filosofia da Arte de Arthur Danto e do grupo de estudo em Filosofia Contemporânea; participou também do projeto de extensão sobre cinema e produção de subjetividade (Sala de Cinema) e do grupo de pesquisa em Psicologia Social na UEFS. Além disso, é certificado pelo curso de fotografia do CUCA – Cento Universitário de Cultura e Arte.
 

sábado, 21 de junho de 2014

John Lennon: Julian Lennon revela ódio pelo próprio pai

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Segundo informações do jornal italiano “La Stampa”, em matéria de junho de 2009, o cantor Julian Lennon, filho do ex-BEATLE John Lennon com sua primeira esposa, Cynthia Powell, afirmou ter chegado à conclusão de que "a raiva e o ódio são uma grande perda de tempo" e que abraçaria o pai se hoje Lennon ainda fosse vivo.

Julian estava inaugurando uma exposição em Liverpool com objetos que pertenceram ao seu pai chamada “White Feather Exhibition” e explicou que "converteu em energia positiva" todo ódio que sentia por ter sido abandonado por Lennon.

Durante muitos anos, o filho mais velho de John Lennon atacou a imagem do pai. No 20º aniversário da morte de Lennon, em 2000, Julian disse que ele "podia falar de paz e amor ao mundo, mas nunca os mostrou para as pessoas mais próximas".

Porém, desde então, se reconciliou com Yoko Ono, a segunda esposa de seu pai e que considerava como a ruína de sua família. "Se meu pai entrasse agora por aquela porta, nos abraçaríamos e choraríamos juntos", diz Julian.
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Fonte: Em 18/06/2009 | http://whiplash.net/materias/news_874/090982-johnlennon.html?refredir=205556#ixzz35Ha0Fepo

O futebol como bolha financeira – Robert Kurz*

Em tempos de Copa do Mundo um artigo muito atual de Robert Kurz sobre a indústria do futebol 

O futebol como bolha financeira

Geralmente, a alma do povo ferve de forma especialmente espumante, quando se trata de coisas sem importância. As coisas essenciais no entanto são tabus, porque disso depende também a própria identidade. Àquele que recebe um salário médio, parece impensável, criticar o sistema capitalista do ganho de dinheiro; em vez disso excita-se tão alegre como inconsequentemente sobre os falhados de fato, os super-bonzos, especuladores e outros vencedores de guerra da economia de concorrência, que ganham dinheiro sem esforço e apesar disso nunca ficam satisfeitos.

Nem sempre, mas cada vez mais frequentemente, entra aí em mira a coisa secundária mais bela do mundo, a saber o desporto. Melhor dito: o circo do desporto profissional, que explora o corpo de alta competição como mercadoria num negócio lucrativo em grande escala. Os mesmos amigos de copos e grupos de adeptos, que celebram as suas estrelas como familiares tornados famosos, também celebram a desgraça na falta de sucesso, e insultam os despromovidos de milionários saturados, que já não querem suar as estopinhas à maneira alemã. Na interdependência de combates de gladiadores e interesse passivo das massas, tolos adolescentes em botas de exército, médias primitivos populistas e vendedores de tapetes novos-ricos chegados a presidentes de clubes, criou-se um complexo desportivo-mediático com as áreas de referência futebol profissional, Fórmula 1, boxe, ténis, circo do esqui e numerosos suportes. Este complexo fornece pseudo-eventos sociais e compromete uma parte da consciência colectiva, ao oferecer opções de identificação, que ao mesmo tempo servem de válvulas para o ódio aos concorrentes e a tranquilização do medo social. Tradicionalmente trata-se de um foco de tendências nacionalistas e racistas (a história do DFB (1) é uma mina no que respeita a isto), onde também pulula um ébrio anti-semitismo latente com impulsos contra o “capital financeiro rapinante”: é que o desporto deve ser o género de uma continuação do trabalho ariano no relvado verde, na pista ou no ringue.

Com isto combina, como o punho de Klitschko no olho do adversário, que o próprio complexo mediático-desportivo representa um produto especialmente bizarro do capitalismo financeiro mais elevado e opaco. Enquanto esta relação, na era das indústrias fordistas de grande escala, era apenas fracamente desenvolvida, ela tem evoluído desde o início da terceira revolução industrial micro-electrónica até à perfeição. As possibilidades tecnológicas dos novos médias tiveram aí apenas um papel secundário. Essencial foi muito mais o carácter da revoluçaõ micro-electrónica de assassino global de postos de trabalho, que não pode originar uma nova acumulação real do capital. A “New Economy” sem substância definida daí tinha inevitavelmente que aparecer como bolha financeira.

Deste capitalismo de bolhas alimentava-se também o progresso comercial do complexo desportivo-mediático até dimensões astronómicas de rendimentos. O que antigamente era reservado a sectores derivados da indústria cultural como Hollywood e os seus grandes do cinema alastrou-se agora também ao desporto de alta competição. Entretanto os valores de passe e os rendimentos anuais das estrelas do topo atingiram a dimensão de orçamentos nacionais de países mais pobres, e os clubes de futebol são negociados na bolsa como companhias de automóveis ou grandes bancos. Esta transposição absurda dos critérios remete para que se trata do fenómeno marginal de uma insuflação do “capital fictício”. A verdadeira representação desportiva e o seu público directo já só são o ponto de partida e o ornamento para uma máquina de dinheiro, em cujo centro estão empreendimentos mediáticos como os de Rupert Murdoch, Sílvio Berlusconi e Leo Kirch.

O primeiro pilar da exploração mediática é a economia publicitária: Com publicidade nos equipamentos, publicidade nas vedações e blocos de publicidade durante a transmissão de acontecimentos desportivos move-se uma grande roda. Para optimizar quantitativamente este nível da comercialização, os czares dos médias impuseram um inflaccionamento de eventos: Os dias de jogos das ligas de topo são distribuídos pela semana inteira, os intervalos de verão e de inverno são preenchidos com copas adicionais, os inícios são adiantados, com vista à eficácia geral. O segundo pilar é constituído pelos canais codificados: Por taxas horrendas pode-se vender como mercadoria exclusiva a transmissão completa de eventos desportivos então mediaticamente já não públicos. Fundamento para as duas formas são os direitos de transmissão, que foram adquiridos aos clubes e associações desportivas por biliões de euros. A capitalização de bolsa tanto dos grupos televisivos como dos próprios clubes constitui o último nível da corrente de valorização fictícia.

No entanto o complexo desportivo mediático pertence aos sectores mais sensíveis do capitalismo de bolhas. A grande baixa da bolsa e a daí resultante queda da conjuntura mundial, poderiam levar à grande bancarrota, aqui mais rapidamente. Enquanto as empresas mediáticas assim como os clubes se endividaram até ao pescoço em antecipação de ganhos futuros, os rendimentos de publicidade caiem fora. Na RFA os canais pagos revelam-se um fracasso, e o populismo vulgar reivindica o direito absoluto a uma satisfação sucedânea. O boss alemão dos média de olhos esbugalhados tornou-se um espantalho e não só o Borussia Dortmund é negociado na bolsa abaixo do valor de emissão. Uma inteiramente possível queda da casa Kirch seria não só o início do fim da magnificência bilionária no desporto profissional, mas também um Menetekel (2) para o capitalismo financeiro na sua totalidade.

(1) Deutscher Fussball Bund , liga de futebol alemã.

(2) Expressão bíblica (Daniel, 5,25-25) que profetiza a dissolução do reino de Baltasar e sua divisão entre os medos e os persas. Aqui como “ameaça de perigo” ou “destino fatídico” (N. T.).

Original alemão Fussball als Finanzblase. Publicado originalmente em Neues Deutschland, Berlin, 17.08.2001

Tradução de Nikola Grabski
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* Robert Kurz (Nuremberga, 24 de dezembro de 1943 - 18 de julho de 2012) foi um filósofo e ensaísta alemão.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

UM VOO COM MARY POPPINS

Fotos Luis Ushirobira/Valor / Fotos Luis Ushirobira/Valor

"... uma afronta ao clichê social de que a infância termina. "Não termina. Não na maioria das pessoas. 
Ela pode estar escondida, ser posta dentro do armário, 
mas permanece como um estado místico"

O que faz que um livro seja considerado um clássico? A resposta imediata a essa pergunta passa, certamente, por sua capacidade de se preservar, permanecendo vigente e renovando nada mais que sua legião de fãs leitores ao longo do tempo. Mas, na verdade, pode ser exatamente o contrário: um clássico parece ser aquele que se presta a mudanças sem deixar de ser o que é. Em outras palavras, um exemplar cidadão do mundo: viaja, carimba o passaporte, mas orgulha-se de suas origens e tem dentro de si a própria casa.

"Mary Poppins", um dos grandes clássicos produzidos no Reino Unido ao redor da virada do século XIX para o XX (época de ouro da literatura infantojuvenil do país), ganhou recentemente uma nova versão no Brasil a partir dos olhares do poeta e romancista Joca Reiners Terron e do estilista Ronaldo Fraga, que assinam a tradução e a ilustração da obra concebida em 1934. O resultado, lançado pela Cosac Naify, é uma harmoniosa conjunção de talentos que não ofusca a genialidade da autora australiana P.L. Travers - pseudônimo de Helen Lyndon Goff [1889-1996] - e ainda assim renova o brilho de uma babá que chegou ao sabor do vento para mudar a vida de duas crianças fisgadas pelo mundo adulto, mas finalmente libertadas pelo poder da imaginação.

A ideia de encarar essa viagem veio da própria editora, mas encontrou em Terron e em Fraga um ineditismo favorável a uma descoberta quase inédita: nenhum dos dois havia lido a história na íntegra antes e convivido com ela de perto quando crianças. A experiência de recriar o clássico - ou "dar uma opinião própria sobre ele", como define Ronaldo Fraga - se presta a um debate sobre os processos de interpretação e de criação em literatura, um campo em que os nomes dos autores são impressos em letras cada vez maiores nas capas dos livros.

"Todo clássico exige um esforço de interpretação", diz Joca Reiners Terron. "É normal e ao mesmo tempo terrível que seja assim, porque ao ler o texto original você percebe justamente aquela riqueza que não passa pelo olhar de outro. Meu esforço foi manter o texto integral, sem adaptações. A única interferência que houve foi mudar o esquema de diálogos, usando travessão em lugar de aspas." Para o escritor, que já publicou romances, contos e poemas e realizou uma série de traduções ao longo de sua carreira, há algo em "Mary Poppins" que dispensa intermediações: uma afronta ao clichê social de que a infância termina. "Não termina. Não na maioria das pessoas. Ela pode estar escondida, ser posta dentro do armário, mas permanece como um estado místico", afirma.

Na seara dos desenhos, Ronaldo Fraga se valeu justamente desse misticismo para dar rosto e roupagem a uma Mary Poppins que, em 1934, foi descrita em traços somente na capa do original, com uma silhueta em pleno voo. "A meu ver, era impossível tirar da história de P.L. Travers o peculiar humor inglês que perpassa a história e criar algo 'abrasileirado'. Sobrou para mim a própria babá, que eu desenhei como se fosse uma mestiça. Uma pessoa árabe, brasileira, indiana ou talvez do Leste Europeu que foi trabalhar como babá na Inglaterra, trazendo mágica de outros lugares."
Fraga valeu-se de seu repertório como estilista, criando ilustrações que posteriormente foram trabalhadas por bordadeiras de Itabira (MG), para então ser fotografadas e tratadas graficamente até chegar ao livro. Ele esclarece o impulso por trás dessa ideia um pouco complexa para o que é normalmente um processo editorial: "Trata-se de uma história muito feminina e também muito têxtil. Mas, de maneira alguma, ela é rasa. Eu queria que os bordados estivessem sempre por um fio, para que a permanência da personagem estivesse justamente sobre essa impermanência. Por isso, os fios ficam soltos".

Nada mais "Mary Poppins" - essa soltura que mexe com o vento, mas não se desprende da página. Um embate entre o mundo infantil e o dos adultos, que há 80 anos encantou leitores, mas na verdade foi mais popularizado pelo filme de Robert Stevenson, protagonizado por Julie Andrews e produzido por Walt Disney, do que pela obra de P.L. Travers. "Uma pena", opina Ronaldo Fraga, que só assistiu ao filme depois de ler o original em inglês e de tomar contato com os primeiros capítulos traduzidos por Terron. "O filme é muito ruim, porque elimina as nuanças da personagem, que, ao mesmo tempo que defende a imaginação infantil, é capaz de impor limites - coisa muito bem-vinda em um mundo tão permissivo como o nosso."

Criar com limites: aí poderia residir a diferença entre uma obra que é pensada por um autor desde o começo e de outra desenvolvida a partir de um original. Mas, em qualquer caso, Terron e Fraga desconfiam da originalidade pura e simples. "Nada surge do nada. É um pouco ilusório falar que não se trabalha com referências. Aqui se trata de uma tradução, tem o limite do respeito etc. Mas tenho a impressão de que tanto o trabalho literário como a moda operam dentro de uma tradição antiga", insiste Terron. Fraga concorda: "Na verdade, de um projeto para outro o que vai variar é o espaço de manobra. Mas, basicamente, a minha opinião sobre 'isso' é isso".

A sintonia entre os dois tem algo a ver com a mágica da criação ou talvez da própria Mary Poppins, já que eles não se conheciam antes da ocasião em que concederam esta entrevista. O fato é que ambas opiniões - plasmadas em palavras e traços - se complementam para dar vida a uma história fresca, que é nossa velha conhecida. E diz em alto e bom tom: criatividade é aquilo que fazemos com nossa imaginação, um lugar livre, porém conectado com o mundo, e que existe, basicamente, para fazer-nos voar - sejamos crianças ou adultos.
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Reportagem por  Camila Moraes*
FOTO: Fraga (à esq.) e as ilustrações (também ao lado) trabalhadas por bordadeiras e Terron, diante da nova edição: curiosamente, nenhum dos dois havia lido "Mary Poppins" na íntegra na infância
Fonte: Valor Econômico online, 20/06/2014

MAQUIAVEL ou doutor PANGLOSS?

 Carlos Eduardo Soares Gonçalves*
Quando ensino aos meus alunos do curso de introdução à economia que tarifas elevadas de importação são algo ruim para o desenvolvimento econômico, que elas prejudicam o consumidor e até mesmo produtores que usam insumos importados, e a partir daí explico os canais por meio dos quais o comércio internacional impulsiona o nível de renda por habitante dos países, invariavelmente um deles ergue o braço e pergunta, com semblante indignado: "Mas, professor, por que então existem essas tarifas, se elas são prejudiciais? Ninguém lá no governo sabe disso"?

De fato, por quê?

Note que podemos estender a lista: "Se inflação é ruim, por que nos assolou por tantos anos?" "Se subsídios distorcem a alocação de recursos, por que o governo dá subsídios para certos setores da economia?" "Se a reforma da previdência é tão urgente, por que não fazê-la logo?" Melhor parar por aqui e começar a oferecer respostas.

A ciência econômica por muito tempo se preocupou com questões do tipo: "Isso gera aquilo? Como?" Por exemplo, "comércio gera mais crescimento, através de quais canais?", "expansão monetária excessiva gera mesmo inflação?" ou "quando é ideal expandir gastos públicos?" A busca concentrava-se em entender o funcionamento da máquina da economia, seus defeitos e belezas, e averiguar como ela reagiria a mudanças na calibragem de certas alavancas.

Dos anos 1980 para cá, contudo, presenciamos também um vertiginoso - e bem-vindo - crescimento de perguntas associadas ao porquê de as alavancas serem acionadas do jeito que o são por seus operadores. É a pergunta do meu aluno - "Por que o governo impõe altas tarifas de importação?" - subindo de status no mundo acadêmico.

São duas as classes de resposta. A primeira, que os economistas não apreciam tanto, tem a ver com o desconhecimento puro e simples a respeito do jeito correto de a máquina econômica funcionar. E, claro, entendimento equivocado das engrenagens leva a ações de politica econômica equivocadas: as tais tarifas elevadas. A segunda classe de resposta é de viés mais maquiavélico, cínico, estratégico: não, não se trata de desconhecimento; os desvios do ideal se dão porque alguns agentes econômicos não têm interesse em que a máquina econômica funcione bem, ou funcione melhor, e lutam para mantê-la capenga.

Mexidas nas alavancas - alterações na politica econômica, reformas estruturais - raramente são indolores, e uma economia mais saudável após uma reforma pode vir ao custo de perdas para alguns participantes do jogo. Justamente esses alguns se reunirão para formar lobbies que impeçam as mudanças - essa tese é a favorecida pelos economistas modernos, a propósito. Por que alguns industriais não querem abertura da economia e integração comercial aqui em Pindorama? E por que agricultores nos Estados Unidos e na Europa resistem ao comércio livre com países como Brasil, e insistem em subsídios para seus produtos? Pura proteção de interesses particulares. Lobby - do tipo ruim.

Onde está a verdade? Como diria o príncipe Sidarta, no meio do caminho. Creio haver um pouco das duas coisas: lobbies maquiavélicos e ingenuidades/desconhecimentos panglossianos.

Convenhamos, não dá para comprar 100% a hipótese de que as pessoas - políticos e eleitores - entendem com clareza as nuanças teóricas que sugerem ser o comércio internacional algo necessariamente bom para a sociedade e que, portanto, desvios do ideal de tarifas baixas são pura e simplesmente causados por lobbies maquiavélicos. Por exemplo, meus alunos, que são pessoas de elevadíssimo capital humano, ao chegarem à universidade não pensam assim sobre o comércio. Acham que o produtor nacional precisa ser protegido. Por que, então, seria uma boa hipótese assumir que o eleitor mediano, que nunca estudou economia, entende a questão com clareza, mas no fim é impedido de ver sua politica econômica preferida implementada pela influência maligna de poderosos lobbies?

Mais ainda, olhando para a história do debate econômico no Brasil e na América Latina, para as raízes profundas que plantaram a tradição cepalina e suas congêneres, parece-me óbvio que a crença entortada de que para desenvolver uma economia é necessário fechá-la ao comércio, fartá-la de incentivos creditícios e praticar politicas fiscais incabíveis, era genuína. Não, não me tomem por Pangloss. As pessoas acreditavam nisso e, infelizmente, algumas ainda creem, em que pese toda evidência contrária. Vejam bem, não estou falando do lobista da indústria X, estou falando de cientistas políticos, elites intelectuais, e até mesmo de alguns economistas.

Aliás, note que o lobista da indústria X teria bem mais dificuldade de "convencer" certos congressistas sobre a importância de sua indústria receber proteção especial se a massa dos eleitores e formadores de opinião entendesse quem ganha e quem perde com essa medida. O congressista teria mais medo de assegurar favores para grupos de interesse específicos.

Mas não me entendam mal: é claro que o lobby de certos grupos é componente importante na explicação de distorções crassas de politica econômica. Eles têm força, de fato, pois interesses concentrados se defendem mais facilmente de mudanças que os atingem, têm maior capacidade de organizar um ataque a reformas que beneficiam a sociedade como um todo, mas que os prejudicam. Isso é fato. Ainda assim, insisto: a força desse canal de influência diminui à medida que as pessoas na rua passam a entender que as demandas dos lobistas lhes são prejudiciais, que elas perdem com tarifas à importação.

E por que as pessoas não se informam mais sobre esses importantes temas econômicos?

Porque cada um, individualmente, não tem incentivo a fazer isso. Infelizmente para o conjunto da sociedade, individualmente é racional permanecer irracional. Faça a conta do ponto de vista de um dado indivíduo, o cidadão X. Qual a consequência para ele, em termos de benefícios privados, do esforço de tentar entender o funcionamento da macroeconomia corretamente e não votar em políticos que fazem e falam barbeiragens nessa área? Esse indivíduo, sozinho, não faz verão: seu voto individual não muda os rumos da eleição, e sua opinião individual não afeta a plataforma do candidato à Presidência. Como gostam de dizer os economistas, um cidadão é atomístico nesse mundão de milhões de cidadãos. Para piorar, ele pode achar que defender publicamente teses liberais é algo socialmente complicado; mais legal é vestir camisa do Che e malhar os ricos e o capitalismo mundial. Ah, sim, se fosse apenas o cidadão X a escolher nossos governantes, ele não seria tão desleixado na análise, mas como o voto dele conta zero, ou melhor, conta 1/milhões de eleitores, ele não se importa tanto em fazer as contas certas.

Veja que esse mesmo indivíduo que vota num populista econômico muito provavelmente não pratica populismo econômico na sua casa: não gasta acima da sua restrição orçamentária indefinidamente, por exemplo. Por quê? Porque nesse caso sua ação irresponsável afetaria muito diretamente sua situação, seu bem-estar. Aí então ele se policia. Mas para que se policiar na hora de entender a macroeconomia, se o seu voto é apenas mais um em não sei quantos milhões?

Cada vez que penso nesse assunto, me convenço mais e mais da necessidade de ensinarmos noções básicas de economia já no segundo grau. Geraria externalidades positivas para toda a sociedade, pois em alguns anos teríamos politicas econômicas melhores.

Alguém do MEC me lê?
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*Carlos Eduardo Soares Gonçalves, professor titular de economia da FEA-USP e autor de "Economia Sem Truques" e "Sob a Lupa do Economista" (Campus), escreve neste espaço quinzenalmente
E-mail: cesg73@usp.br
Fonte: Valor Econômico online, 20/06/2014

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Os pés e as mãos

 MÁRIO CORSO (Interino)*
 
Quem quiser saber por que o futebol se tornou o esporte mais popular do planeta terá que rebolar. Certamente a causa é multifatorial, mas arrisco uma teoria.

O futebol é o reverso do mundo do trabalho. É o território do ócio, do esforço não produtivo, da competição brincalhona. No mundo prático, quem governa são as mãos, e elas são o símbolo do trabalho. Não dizemos: mão de obra, dar uma mão, botar a mão na graxa? A mão é produção e nobreza. É ela que escreve, opera máquinas e aperta botões. Os pés nos levam de um lado a outro, mas são meros coadjuvantes, estão a serviço das artes das mãos.

No mundo do avesso, são os pés que mandam, são eles que dançam, que jogam bola. No campo, a mão não vale, não entra no jogo, a não ser a de Deus, como naquele dia em que, entre tantos dos seus nomes, Ele resolveu usar Diego. Pudessem tirá-la, os demais jogadores o fariam, elas estão ali só para dar graça e harmonia à corrida. Para não dizer que são completamente inúteis só servem para saída lateral, a cobrança mais rasa e insignificante do futebol. Quem pode usá-las é o goleiro, mas ele é a exceção e é o masoquista do time. Ele é o mediador entre esses mundos, é o único que não pode correr pelo campo, está fixo como um trabalhador no seu setor. Brinca mas não tanto, está no pior lugar. Indispensável, mas excêntrico ao grupo.

No fim de semana as mãos tiram folga e quem entra em campo são os pés. Nesse momento, eles são valorizados e podem mostrar sua força, sua pontaria, sua destreza. Enquanto a motricidade das mãos é essencial para qualquer diligência prática, a dos pés nunca é treinada. Mão é cultura, pé é natureza. Poderíamos ter duas pernas esquerdas que ninguém perceberia. Já no futebol, é a inteligência motora dos pés que vale. O pé, como parte mais baixa do corpo, está ligado à terra, e recebe seus encantos pela sua condição animal, sua força indomada. No campo, os pés estão livres para chutar, para correr, driblar, mostrar ao mundo e às mãos seu valor.

As mãos quase falam, os pés são mudos. As mãos são imperialistas, não basta trabalharem, são elas que afagam, que selam pactos. São elas que deslizam pelo corpo do ser amado. Os pés querem sua parte, seu quinhão de importância, para isso ganharam os gramados de domingo.

A cabeça encontra razão motora apenas no futebol, na vida não damos cabeçadas. Usamos a cabeça para pensar a vida, mas ela fica quieta sobre os ombros e no máximo segura um chapéu e ganha um afago. Só no futebol, ela pode ser animal e desferir um golpe fatal no inimigo. Com o futebol, e o uso lúdico dos pés e da cabeça, a democracia corporal se estabelece, o corpo se integra e vive a felicidade de um feriado com sol.
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* Psicanalista. 
Fonte: ZH online, 18/02/2014
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quarta-feira, 18 de junho de 2014

Cangurus e tamancos

Martha Medeiros*

Nesta quarta-feira foi preciso decidir entre acordar holandesa ou australiana – não concebo presença num estádio sem torcer para alguém. Estarei às 13h no Beira-Rio, e mesmo não sendo meu time que entrará em campo, torcerei. Mas para quem? Holanda ou Austrália? Com que roupa eu vou?

Eu tinha pouca idade – quatro, cinco anos? – e já sentia fascínio pela Holanda, um país do qual eu nada sabia, a não ser que tinha nome de mulher e sobrenome de Chico Buarque. Assim iniciou minha simpatia. Holanda, 1 x 0.

Aí ganhei de uma tia um par de tamancos de madeira. Ela havia retornado de uma viagem por aquele país que parecia tão feminino na minha imaginação, enquanto que da Austrália eu ainda não tinha notícias. Holanda, 2 x 0.

Então, virei adolescente e comecei a trocar cartas (cartas!) com uma neozelandesa que, por ser vizinha dos australianos, poderia ser considerada como tal. Foi por causa dela, da Michelle, minha primeira amiga além-mar, que comecei a simpatizar com cangurus também. 2 x 1.

Mas a Holanda tinha tulipas, e desde muito cedo desenvolvi o apego por flores, por todas elas – um apego que se mantém até hoje – e a Holanda marcou de novo: 3 x 1.

A Austrália tinha praias, era um país jovem, a longa distância me induzia a pensar que era um destino para quem não tinha outro objetivo a não ser a boa vida. Mas, afora esse saudável oba-oba, me fazia falta alguma informação mais consistente. Eu seria capaz de citar um pintor australiano? Àquela altura, já havia aprendido a gostar de arte e uma reprodução caprichada de Van Gogh inspirava a família na parede de casa. Holanda, 4 x 1.

E chegou o dia de viajar para o Exterior pela primeira vez. Europa, meu foco. Quando desembarquei em Amsterdã, aluguei uma bicicleta, tomei algumas Heineken e me entortei a fim de homenagear a bebedeira arquitetônica das casas que margeiam seus canais, umas escoradas nas outras, como quem volta de uma noitada forte. Pirei com (e em) Amsterdã. Já era uma goleada: 5 x 1.

Quando a Austrália parecia irremediavelmente humilhada, eis que assisto a um filme com um ator australiano que eu nunca vira antes. Ele se chamava Hugh Jackman e me causou boa impressão. A Austrália descontou com categoria: 5 x 2.

Eis a lógica matemática da Copa. Ao menos a lógica de uma fan (farrona) do esporte, que não entrou em nenhum bolão, não entende profundamente de futebol nem de nada, que não sabe muito bem para quem torcer quando não é a seleção do seu país que está em campo, mas que faz questão de acompanhar o entusiasmo da festa com a irreverência permitida pela ocasião. Para quem torcer, Van Gogh ou Wolverine? E para qual resultado?

5 x 2. É justo. Afinal, o que se quer é gol para tudo que é lado. E Van Gogh gostava de girassóis.
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* Escritora. Cronista da ZH
Fonte: ZH online, 18/06/2014
Imagem da Internet

Camaleandra

Jovem, moderna, politizada, divertida e desafiadora. Esses são alguns adjetivos que cabem à atriz e produtora cultural Leandra Leal, 31 anos, que pode ser vista, atualmente, no filme O lobo atrás da porta, dirigido por Fernando Coimbra. O longa é inspirado nas diferentes versões da história real de uma jovem que se relaciona com um homem casado e se envolve em um caso criminal. Em breve, ela poderá ser vista também na próxima novela das nove da TV Globo, Falso brilhante, escrita por Aguinaldo Silva, na qual interpretará a mocinha batalhadora Cristina; e nos filmes O Rio nos pertence, de Ricardo Pretti; Éden e O uivo da gaita, ambos dirigidos por Bruno Safadi e realizados pelo coletivo de cinema Operação Sonia Silk.

Para viver mulheres que, em comum, são fortes, determinadas e femininas, Leandra Leal gosta de se transformar, inclusive fisicamente, no que denomina ser seu processo de criação. “Ator é um bicho que muda tanto”, brinca. Desse modo, a rotina parece não fazer parte de sua vida. Filha da atriz Ângela Leal e neta do produtor cultural Américo Leal, ela é uma das três sócias da produtora Daza e gosta de tomar a dianteira em seus próprios projetos: entre eles, a administração – ao lado da mãe – do Teatro Rival, criado pelo avô e que completa agora 80 anos; e a realização do documentário Divinas divas, a respeito da primeira geração de artistas travestis do Brasil, que atuam há 50 anos, e para o qual arrecadou verba por meio do sistema de crowdfunding.

A Leandra, da entrevista a seguir, é ainda aquela que tem um fascínio imenso por sambar, sendo, há cinco anos, a porta-estandarte do Cordão do Bola Preta, que, a cada ano, reúne milhões de pessoas no Rio de Janeiro; e também a que diz sentir falta de filmes que retratem a história do Brasil.

O lobo atrás da porta é um filme muito intenso, que revela como o desejo pode muitas vezes nos levar a atitudes extremas. De que modo podemos encarar a violência que o filme aborda?
No filme, são apresentadas duas versões e você pode escolher em qual delas acredita. Na versão da Rosa, existe um grau de machismo bem alto, que é o cara ter uma amante e achar que isso é natural e que é normal esconder dela que é casado. A versão do Bernardo é outra. Ele já tinha falado tudo desde o início. A grande qualidade do filme é apresentar as personagens, sem vilanizá-las e vitimá-las. Todos foram, de certa forma, agentes daquela situação. Uma coisa que me angustia é que, a qualquer momento, a Rosa pode não fazer o que fará. Tem um plano do filme que acho muito legal que é quando ela está em uma encruzilhada, pega outra direção e fica olhando. É como se pudesse dar mais uma volta e, a qualquer momento, o desfecho pode não acontecer. E, na verdade, o filme trata de como uma pessoa aparentemente normal pode ser levada a cometer um crime. Mas acho que tudo é fruto de uma relação amorosa doente, patológica mesmo.

E como você avalia a maneira de o filme tratar a violência contra a mulher?
Na versão da Rosa, apenas por ela falar que não se arrepende e que é culpada, existe um machismo muito grande. O Bernardo é um cara que a envolveu. Ela não sabia e, quando viu, estava apaixonada, sem volta. E o cara, para segurar a família em uma hipocrisia, comete uma violência brutal contra ela. É muito forte. Agora, isso não justifica o que ela faz e a escolha dela. Olho por olho, dente por dente. Ela é louca. Muito selvagem. Ela poderia ter denunciado ele.

Nos seus dois próximos filmes, que estão para estrear, também há personagens femininas que nos parecem bem fortes, como em Éden, no qual, com oito meses de gravidez, a personagem perde o marido assassinado. Que mulheres são essas que você escolhe para interpretar?
Éden é um projeto mais antigo do Bruno [Safadi, diretor]. O filme é sobre uma situação real, de extermínio de jovens negras nas periferias. E a personagem tem uma família que vai sendo formada. O marido morre e ela tem que cuidar sozinha daquela criança. No processo de luto, acaba acolhida por uma igreja evangélica da comunidade onde vive. O que me parece muito lindo no filme é que ela descobre a salvação não na religião, mas no próprio filho, na própria continuidade. Houve um final de semana de intervalo entre Lobo e Éden. Foi um período de trabalho muito intenso, porque eram duas energias muito diferentes. Era um filme sobre o luto, a perda. Aí, depois do Éden, me envolvi também como produtora e não só como atriz, em um coletivo de cinema, que se chama Operação Sonia Silk, que tem dois filmes de ficção e um documentário sobre o processo de realização deles – O Rio nos pertence e O uivo da gaita. Eles foram feitos com o mesmo elenco e a mesma equipe. Filmamos os dois em duas semanas no Rio de Janeiro.

E sobre o que são exatamente?
São dois filmes que se relacionam com a cidade e tiveram a proposta de ser feitos de uma forma realmente radical, de testar essa forma de produção, e reuniu uma equipe que já está trabalhando em cinema há muito tempo. O uivo da gaita é um triângulo amoroso de uma mulher que é casada com um cara e se apaixona por outra mulher. É um filme supersensível, que tem pouquíssimos diálogos. É uma viagem. Lindo. E fala sobre esse amor contemporâneo. Um amor líquido. Essa dificuldade nossa de escolha, de estar em um lugar e, ao mesmo tempo, querer outra coisa. E o outro é O Rio nos pertence, que apresenta um Rio de Janeiro sombrio, angustiado, sobre o retorno de uma pessoa que está fora há dez anos e volta para a cidade em busca de entender a história da família dela. É uma história suburbana.

E quem é, em sua opinião, a mulher brasileira? Você se sente uma representante?
Se acho que represento a mulher brasileira? Ai, meu Deus, não sei. São tantas mulheres brasileiras às quais a gente acaba dando voz. Sou uma mulher brasileira, jovem. Uma atriz que produz as próprias coisas. Corro atrás dos meus sonhos. Acho que a mulher do Brasil, cada vez mais, segundo as estatísticas, está liderando as suas famílias. Ainda não temos uma equiparação de salário com os homens, mas estamos em um caminho de liderança. Agora, não sei que mulher brasileira eu represento, não (risos).

Você falou sobre ir à luta por seus projetos, e o Teatro Rival, criado pelo seu avô, está completando 80 anos. Como é seu envolvimento com esse teatro?
O meu envolvimento é total. Realmente, agora completa 80 anos e foi mais uma ficha que caiu. Ter um espaço de cultura. De eu ter essa herança. Não é você ter um negócio. É ter uma missão, porque um espaço cultural é algo para a cidade, para as pessoas, para o artista, e isso é muito lindo na história do meu avô, da minha mãe e da minha avó também, que era uma figura superforte. As mulheres da minha família são muito fortes. Isso é uma coisa dessa mulher brasileira. Penso que é uma referência. Sempre falam isso lá de casa. É um exército de mulheres. São mulheres muito batalhadoras. Não se dão por vencidas. Minha mãe é muito assim. Ela enfrentou várias adversidades. Passou por várias crises no Rival mesmo e continuou. Não fechou a casa. O Rival tem uma história de vanguarda, da qual me orgulho muito, lançando vários nomes da música popular brasileira, dando espaço para diversos artistas, para o resgate e o lançamento. O Rival é a minha casa de infância. Minha memória mais antiga.

E como surgiu a ideia de produzir o documentário Divinas divas? Você já era fã do trabalho dessas artistas?
Divinas divas é um documentário que conta a história da primeira geração de artistas travestis do Brasil. Eu as conheci através do Rival, que foi um dos primeiros palcos que abrigou homens vestidos de mulher ainda na ditadura, quando era proibido. E eu cresci as vendo e sou totalmente fã do trabalho delas, da coragem e da história de vida. E, quando o Rival fez 70 anos, a minha mãe convidou elas de novo para fazerem um espetáculo. A Jane Di Castro tomou a frente disso e colocou esse nome. Eu, começando a conviver com elas de novo ali no Rival, fazendo esse espetáculo, comecei a achar muito interessante a história delas, de pioneirismo, revolucionária. Comecei a estranhar como é que as pessoas não sabem, como não é divulgado, como não tem o reconhecimento que merecem. E aí começou a surgir a ideia de fazer um documentário sobre a vida delas. Mas ele ganhou também outra forma que, além de contar a história por meio de entrevistas e imagens de arquivo, era muito importante mostrá-las em cena, porque a vida delas gira muito em torno desse momento de estar em cena. O palco tem importância muito grande, o que é algo que me atrai muito nelas. A relação romântica com a arte, pura. Elas fizeram vários sacrifícios na vida. A própria questão da ação corporal delas foi muito motivada para estar em cena, e o rompimento com a família. Estamos correndo para terminar o filme neste ano.

Uma parte do orçamento foi captada por crowdfunding, certo?
Entrei com o crowdfunding no final do ano passado, que era para a filmagem de um show. Produzi um espetáculo das Divinas Divas, com toda a estrutura e produção que elas mereciam, e ficou lindo. Chamei o Gustavo Gasparani para dirigir e filmamos o processo do ensaio e o espetáculo. Foi lindo. Na verdade, tivemos muita dificuldade de captação. Existe uma resistência muito grande para falar desse tema, para as empresas se associarem a ele no Brasil. Então realmente falamos: “Vamos abrir a produção até para discutir mesmo”. E acho que o crowdfunding é uma coisa que fora do Brasil já está superestabelecida e cada vez mais tem pessoas fazendo aqui também.

Você fez alguns trabalhos na televisão que retratam a realidade do Brasil – Pantanal, A muralha, Um só coração e Cheias de charme. Como é representar essa diversidade brasileira?
Pantanal é covardia (risos). Eu entrei ali aos 46 do segundo tempo, porque era filha da Ângela Leal e estava ali – e era uma criança. Mas A muralha é algo que acho importantíssimo termos feito para registrar a história do nosso país. Recontar e registrar na ficção são coisas em que ainda estamos atrasados e podemos investir na nossa cinematografia. Temos que correr, porque é muito importante. Constrói a memória do povo também. Os Estados Unidos já contaram e recontaram a história deles como queriam. E A muralha é um trabalho belíssimo de reconstituição histórica. Sou muito fã da minissérie. Acho incrível. Trata do início de São Paulo, com os jesuítas e os bandeirantes. Tem o início dessa alma paulista. Eu estava na escola ainda (risos) e foi muito divertido de fazer, com um elenco incrível, com um núcleo de TV que eu amo – o da Denise (Saraceni). Um só coração já é um salto, mas é outro fato superimportante na história de São Paulo – a Semana de Arte de 1922. Um momento determinante para a definição e a caracterização dessa alma paulista empreendedora e criativa. E Cheias de charme se passa no Rio e fala sobre a revolução que a internet traz e a democratização de a pessoa postar um vídeo, ter milhões de views e começar uma carreira. Claro que isso não acontece com todo mundo. Tem vários vídeos que são postados e não acontece isso. E também fala sobre a ascensão da classe C, que é um fenômeno que a gente está vivendo, em que três mulheres, cada uma com história de vida muito diferente, representa a chefe da família. As três se realizaram através da arte e da internet.

Você é uma pessoa conectada? Como vê a questão da liberdade e da cultura com a internet?
Acho que é positivo, porque existem muitas possibilidades na relação da arte com a internet. Agora, eu uso minimamente. Uso para facilitar a minha vida (risos). O Twitter é uma rede social que adoro e que me mantém superinformada. Sigo diretamente pessoas que acho legais e gosto muito também de ser uma forma de divulgação dos meus projetos. Uma forma de as pessoas que querem saber o que você pensa poderem ler diretamente. Agora, esse é um tema que a gente pode discutir por três horas. Nome próprio [filme de Murilo Salles, que ela estrelou em 2007] é sobre a exposição da sua vida e qual é o limite para isso. O que você coloca ali e que pode ser transformado em arte? O que é apenas uma viagem do seu ego? Enfim, essa é uma questão bem complexa dos dias atuais. É uma ferramenta muito nova que, como toda ferramenta, tem seu lado positivo e negativo, e que só vamos aprender utilizando.

Além de falar da nossa história, do que mais você sente falta no cinema nacional?
Protagonistas femininas, principalmente que não sejam putas e loucas (risos). Não dá nem para falar essa frase desse jeito. Puta e louca. Mas figuras femininas, heroínas, no cinema são uma coisa muito rara. E acho que também precisa ser contada a nossa história através de figuras femininas. A muralha tinha protagonistas femininas. Mas tem um fator muito sério nos filmes de época, que é o orçamento alto. Reconstituição de época não é fácil.

Como está sua preparação para interpretar a mocinha Cristina, na telenovela Falso brilhante, de Aguinaldo Silva?
Ela é uma mocinha que sofre, porque acontecem realmente coisas que tiram o chão de qualquer pessoa. Ela perde a mãe, o irmão é preso, descobre que é filha de outro cara que, a princípio, a rejeita. São mil coisas que acontecem no início da trama que a deixam desestabilizada. Só que não abaixa a cabeça. É uma lutadora. Fala: “Essa família depende de mim agora. Tenho que resolver essa situação. Tenho meu sobrinho, minha tia, meu irmão que está preso”. Ela é uma mulher forte e feminina.

Pelo que sentimos, a cada trabalho você não impõe barreiras a você mesma. Você mergulha profundamente e se permite viver as experiências mais diversas, é isso mesmo?
É. Acho que faz parte do meu processo. Cada um tem um. Faz parte do meu, como atriz, construir uma máscara para o meu personagem, que é esse visual todo. E é maneiro. Já te adianta o processo, eu acho, quando você faz a troca de roupa, vê tudo e muda tudo. Já vai para outro lugar. É divertido. Acho melhor que o meu personagem seja mais forte do que a minha figura. Esse é o objetivo.

E como é organizar todos esses projetos nos quais você se envolve?
O meu trabalho é a minha vida. Então, não tem tanta separação. Se eu não trabalhasse, seria muito infeliz. Graças a Deus, tenho a possibilidade de trabalhar e viver do meu trabalho. Quer coisa melhor? Então, não tenho do que reclamar. Só agradeço. Tem que ter força para fazer tudo o que quer e aí também tem escolhas. A vida também é assim. Você vai se dedicar a cuidar, primeiro, de tal coisa e depois de outra. E, olha, também não faço nada sozinha. A vida é feita de parceria. Não acredito que sou a melhor do mundo em tudo. Tem poucas coisas na minha vida que eu falo que sei fazer bem. Uma delas é sambar. Acredito que tem coisas que a gente sabe fazer bem, outras que não, e outras ainda que vai ter que juntar gente para realizar. E é maravilhoso quando você junta várias pessoas e faz do seu sonho o delas também. É incrível. Na Daza [produtora da qual é sócia], não estou em todos os projetos de frente. Tenho mais duas sócias, com os projetos delas. Estamos juntas em tudo, mas há uma divisão do trabalho.

Por falar em samba, você tem um envolvimento forte com o Carnaval, sendo porta-estandarte do Cordão do Bola Preta. Como começou essa relação?
Minha mãe é muito carnavalesca. Minha avó era também. Desde criança, frequento Carnaval. Então, quem puxa aos seus não degenera. Eu já sou há cinco anos porta-estandarte do Bola Preta e é realmente um dos dias mais felizes do ano para mim. É muito intenso. É uma energia muito vibrante. Eu saio do Bola Preta e fico elétrica. Não consigo parar.



Você também é muito engajada e gosta de política...
Adoro política, porque é algo que impacta muito na nossa vida. O meu trabalho com cultura também é algo que exige se envolver minimamente. Não ser politizado é uma atitude política. Tudo é política. Então, realmente, não tem como você não se envolver minimamente.

E você leva isso para o seu trabalho também?
Não. Não acredito que todo trabalho tenha que ser político, mas talvez os que produzo, que são, em sua maior parte, autorais, tenham mais essa veia.

Em quais causas você está envolvida agora?
Sempre são causas que têm a ver com liberdade. Acho que o grande norte da vida para mim é esse. Essa é a grande bandeira. Liberdade e cultura.

Como você analisa o atual momento da Copa do Mundo e de uma eleição para presidente muito próxima?
É tão complicado. Confesso que ainda estou formando opiniões sobre isso. Acho que a falta de transparência em todo o processo da Copa é algo que realmente danifica muito a imagem do mesmo torneio. Eu não sou contra. Ainda mais dias antes. Pode ser superpositivo, mas existe uma falta de transparência e de democracia em todo o processo. A discussão do legado e dessas obras todas que estão ficando prontas. É o que está aí para acontecer. Acho que a gente tem que realmente aprender. Ainda temos outro grande evento que acontecerá daqui a dois anos, com várias obras em curso. É preciso cobrar desse outro evento essa transparência e ter uma discussão maior do legado das mudanças que estão ocorrendo nas cidades. A gente não pode não aprender com essa experiência, porque são vários investimentos altos que estão sendo realizados e que podem beneficiar, se tiver discussão democrática.
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Reportagem por: Clariana Zanutto e Guilherme Bryan  /   02/06/2014
FOTOS RODRIGO BRAGA/3FILMGROUP
Fonte:  http://www.revistadacultura.com.br/entrevistas/conversa/14-06-02/Camaleandra.aspx

domingo, 15 de junho de 2014

OLHAR PARA A VIDA

José Tolentino Mendonça*
Paisagem
                                             Konstantin Yuon

A dada altura percebemos que o mais importante não é saber se a vida é bela ou trágica, se, feitas as contas, ela não passa de uma paixão irrisória ou se a cada momento se revela uma empresa sublime. Certamente está-nos reservada a possibilidade de a tornar em cada um desses modos, só distantes e contraditórios na aparência.

A mistura de verdade e sofrimento, de pura alegria e cansaço, de amor e solidão que no seu fundo misterioso a vida é, há de aparecer-nos nas suas diversas faces. Se as soubermos acolher, com a força interior que pudermos, essas representarão para nós o privilégio de outros tantos caminhos. Mas o mais importante nem é isso, aprendemos depois. Importante mesmo é saber, com uma daquelas certezas que brotam inegociáveis do fundo da própria alma, se estamos dispostos a amar a vida como esta se apresenta.

A dada altura compreendemos que falar sobre o ar, como faz o poeta Tonino Guerra, não tem de ser uma deriva, mas um chamamento à construção concreta que a vida é, confirmada (ou não) pelo nosso sim: «O ar é esta coisa ligeira/ que te gira em torno à cabeça/ e torna-se mais clara/ quando ris». Ou que quando Simone Weil repete que «a atenção é uma prece», ela mais não faz do que mobilizar-nos para a aliança com o agora, porque se não formos prudentes e generosos para manter os olhos maximamente abertos sobre o presente, que ciência poderá o futuro constituir para nós?

O viver tem esta simplicidade, que precisamos de redescobrir, despojando-nos do muito que nos atravanca, relançando-nos no seu obstinado fluxo. Estamos muitas vezes alienados da vida, separados dela, por uma muralha de discursos, de angústias, de confusas esperanças. Precisamos de perfurar esse muro até ao fim.

É necessário decidir, portanto, entre o amor ilusório à vida, que nos faz adiá-la perenemente, e o amor real, mesmo que ferido, com que a assumimos. Entre amar a vida hipoteticamente pelo que dela se espera ou amá-la incondicionalmente pelo que ela é, muitas vezes em completa impotência, em pura perda, em irresolúvel carência. Condicionar o júbilo pela vida a uma felicidade sonhada é já renunciar a ele, porque a vida é dececionante (não temamos a palavra). 

Com aquela profunda lucidez espiritual que por vezes só os homens frívolos atingem, Bernard Shaw dizia que na existência há duas catástrofes: a primeira, quando não vemos os nossos desejos realizarem-se de forma alguma; a segunda, quando se realizam completamente. Há um trabalho a fazer para passar do apego narcisista a uma idealização da vida, à hospitalidade da vida como ela nos assoma, sem mentira e sem ilusão, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Esse que é, em grande medida, um trabalho de luto, um caminho de depuração, sem renunciar à complexidade da própria existência, mas aceitando que não se pode demonstrá-la inteiramente.

A vida é o que permanece, apesar de tudo: a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. A sabedoria é a vida mesma: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade.

Não se trata apenas de viver o instante, tarefa inútil, pois a vida é duração. Aquilo que nos é dado dura, e nós dentro dele, com ele, por ele. Não é a flor do instante que nos perfuma, mas o presente eterno do que dura e passa, do que dura e não passa.
 
E quando é que chega a hora da felicidade?, perguntamo-nos. Chega nesses momentos de graça em que não esperamos nada. Como ensina o magnífico dito de Angelus Silesius, o místico alemão do século XVII: «A rosa é sem porquê, floresce por florescer/ Não se preocupa consigo, não pretende nada ser vista».
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* Teólogo. Escritor português.
In Expresso, 13.6.2014
Fonte: http://www.snpcultura.org/olhar_para_a_vida.html14.06.14

sábado, 14 de junho de 2014

SLENDER MAN: medo e mitologia na era dos memes


A figura longilínea e sem rosto de Slenderman evoluiu de forma colaborativa na web
Foto: Reprodução
 Temido depois de inspirar crimes recentes nos EUA, personagem é o primeiro mito nascido na internet

Desde 2009, ele assombra a internet. Corpo delgado, brancura cadavérica, terno sóbrio e rosto vazio, Slender Man apareceu pela primeira vez em uma foto-montagem em um fórum virtual de histórias de terror. Depois de ser inserida em uma foto “normal”, onde pode ser vista escondida entre crianças em um parque, sua figura misteriosa se espalhou pela rede. Virou protagonista de lendas e contos, foi representada em fan arts e até video games. Para muitos especialistas, trata-se do primeiro mito nascido na web, com diversos autores montando um pedaço de sua aparência e história.

Há exatamente duas semanas, porém, a criação extrapolou o imaginário digital para ganhar as páginas policiais. Em uma pequena cidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, duas meninas de 12 anos esfaquearam 19 vezes uma colega. A vítima sobreviveu milagrosamente (“Por uma questão de milímetros”, informaram os médicos), mas a maior surpresa estava na motivação do crime. Interrogadas pelos investigadores, as duas menores contaram que haviam planejado o assassinato para provar ao mundo a existência do personagem. “Muitos não acreditam que o Slender Man é real e (nós) queríamos provar que os céticos estão errados”, teria dito uma delas à polícia. Alguns dias depois, foi a vez de uma mãe de Ohio ser atacada pela própria filha com uma faca. Ferida no braço, a mulher disse a uma rádio local que a menina “parecia outra pessoa” e que era obcecada pelo personagem. “Ela falava em matar”, relatou a mãe.

Chocada com os acontecimentos recentes, a opinião pública americana ainda tenta entender o que há por trás do fenômeno. Ameaça ou não para a sociedade, o fato é que o “Homem Delgado” fascina porque resgata um tipo de criação coletiva até então perdida, tanto em sua construção quanto em sua difusão. Trata-se de uma transfiguração das antigas lendas orais, que passavam de geração em geração ganhando novas camadas. Agora, a obra em progresso é redimensionada pelas novas possibilidades digitais, que lhe permitem se manifestar sob diferentes mídias (hiperlink, vídeo, imagem, blog ou hashtag). É a mitologia se adaptando à era dos memes.

— O que aconteceu em Wisconsin foi trágico. Os pânicos morais que se abateram em torno do Slender Man, no entanto, eclipsaram o fato de que o personagem foi construído em espaços colaborativos, onde os indivíduos encontram recursos criativos e podem fazer trocas entre eles para criar arte — diz a pesquisadora americana Shira Chess, PhD em comunicação e retórica pelo Instituto Politécnico de Rensselaer, e autora de um estudo sobre o personagem. — E isso é algo totalmente novo e excitante. As pessoas estão contando histórias e leitura de histórias. É importante não ficar tão preso na tragédia a ponto de renegar o potencial que a internet oferece para facilitar este processo.

Shira lembra que, no passado, os folclores tradicionais levavam séculos para se desenvolver até chegar à forma ou às formas que conhecemos hoje. As histórias de vampiro, por exemplo, tiveram muitas variações em seu início antes que finalmente se estabelecesse um determinado conjunto de características que hoje entendemos como “vampiro”. Com Slender Man, aconteceu algo muito parecido, só que via crowdsourcing online e num ritmo muito mais acelerado.

Outra característica importante do personagem é ter desafiado o conceito do copyright. Nos tempos atuais, os mitos sofrem dificuldade de se propagar livremente, bloqueados pelos direitos autorais. Embora tenha um criador original (um certo Victor Sturge), Slender Man nasceu e evoluiu como uma obra aberta. Só depois de ser difundido entre internautas é que se tornou um produto cultural (aparecendo em filmes e jogos, por exemplo), e não o contrário.

— O que realmente me fascina na evolução do Slender Man é que o gênero foi sendo negociado organicamente por muitas pessoas — acrescenta Shira. — Assim que Victor Sturges lançou a primeira versão online do personagem, o poder comunitário tomou conta da história, permitindo que ela fosse desenvolvida de forma orgânica. Isso significa que ninguém mais tem controle sobre os mitos. Eles têm vida própria e sempre há um risco de que um indivíduo, ou indivíduos, possam interpretar ou reinventar a história de maneiras diferentes da ideia original.

Para a cientista social Simone Pereira de Sá, o fenômeno Slender Man também traz à tona uma vocação para o sobrenatural que tentou ser sufocado pelo racionalismo.

— A cultura moderna da razão tentou instaurar um modelo que quer explicar tudo, sem deixar espaço para o mistério — explica Simone, professora da UFF e doutora em comunicação e cultura. — O Slender Man faz aflorar um imaginário do medo, da lenda e do terror que sempre esteve aí, provando que a cultura letrada não acabou com ele. Não surpreende que aconteça na internet, que sempre teve uma linha direta com essa construção da oralidade. Desde cedo, o imaginário da internet é marcado por mitos, como o bug do milênio.

Por ser uma história de muitos mediadores, ela foge da autoridade dos especialistas, lembra Simone. O rosto do personagem, aliás, não é indefinido por acaso: nele cabem muitos outros arquétipos arcaicos e contemporâneos, que o personagem não cansa de reprocessar. Sua figura pode fazer eco tanto ao Der Großmann do século XVI, um monstro do folclore alemão que atacava crianças na floresta, quanto ao Pedobear, um meme dos dias atuais que retrata um urso pedófilo. Para Shira, o Slender Man representa uma série de ansiedades culturais, como a perda do senso de realidade (o que explicaria a espécie de transe das meninas americanas), o diferencial de poder, além do medo de identidade e anonimato.

— Por diferencial de poder, entendo que as histórias mostram como as vítimas estão desempoderadas en relação ao Slender Man — opina Shira. — Suas vítimas enfrentam a incapacidade de comunicar seus medos a uma cultura que não os entende. Em termos de “identidade e anonimato”, creio que não é uma coincidência o fato de a história emergir em um tempo e espaço semelhante ao do Anonymous e do movimento Occupy.
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Reportagem por
A figura longilínea e sem rosto de Slenderman evoluiu de forma colaborativa na web - Reprodução