segunda-feira, 28 de julho de 2014

Os dez conselhos do Papa para alcançar a felicidade

A felicidade segundo o Papa Francisco
A felicidade segundo o Papa Francisco / Getty
 O Papa Francisco revelou as dez chaves que considera essenciais para a felicidade do ser humano.

Viver e deixar viver, jogar, ajudar os outros, cuidar da natureza, respeitar os outros e esquecer rapidamente o que é negativo são alguns dos dez conselhos para alcançar a felicidade que o papa dá numa entrevista a uma revista argentina.

"Viver e deixar viver, é o primeiro passo para a paz e para a felicidade", disse o papa Francisco, numa entrevista à Viva, revista dominical do diário argentino Clarín. Como parte do decálogo para a felicidade, Francisco recomendou ajudar os outros, pois se "um fica estagnado, corre o risco de ser egoísta" e "a água estagnada é a primeira que se corrompe".

Também aconselhou a mover-se "remansadamente", uma expressão que utilizou de um clássico da literatura argentina. "Em 'Don Segundo Sombra' há uma coisa muito linda, de alguém que relê a sua vida. Diz que em jovem era uma corrente rochosa que levava tudo à frente; em adulto era um rio que andava para a frente e que na velhice se sentia em movimento, mas remansado. Eu utilizaria esta imagem do poeta e novelista Ricardo Guiraldes, este último adjetivo, remansado. A capacidade de se mover com benevolência e humildade, o remanso da vida", sustentou. 

"Jogas com os teus filhos?" 

Outra das chaves está na "sã cultura do ócio", disfrutar a leitura, a arte e os jogos com as crianças. "Agora confesso pouco, mas em Buenos Aires confessava muito e quando via uma mãe jovem perguntava: Quantos filhos tens? Jogas com os teus filhos? E era uma pergunta que não se esperava, mas eu dizia que jogas com as crianças é a chave, é uma cultura sã. É difícil, os pais vão trabalhar e voltam às vezes quando os filhos já dormem, é difícil mas há que fazê-lo", acrescentou o papa.

Na mesma linha, aconselhou que os domingos sejam partilhados com a família. "No outro dia, em Campobasso, fui a uma reunião entre o mundo universitário e mundo trabalhador, todos reclamavam que o domingo não era para laborar. O domingo é para a família", disse. 

Sobre os jovens, o papa afirmou que é precisou arranjar uma forma criativa para que estes consigam um emprego digno. "Temos de ser criativos com esta franja. Se faltam oportunidades, caem na droga. E é muito elevado o índice de suicídios entre os jovens sem trabalho. No outro dia li, mas não me fio porque não é um dado científico, que havia 75 milhões de jovens dos 25 anos abaixo desocupados. Não chega dar-lhes comer, há que inventar cursos de um ano de canalizador, eletricista, costureiro. A dignidade de levar o pão para casa", explicou.

"A necessidade de falar mal do outro indica uma baixa autoestima" 

Também recomendou cuidar da natureza e esquecer rapidamente o mal que afeta a vida de cada. "A necessidade de falar mal do outro indica uma baixa autoestima, é dizer: sinto-me tão em baixo que em vez de subir rebaixo o outro. Esquecer rápido do negativo é são", disse.

Na entrevista, o papa Francisco convidou a deixar de lado o proselitismo religioso para espalhar a fé. "Podemos nos preocupar com o outro", mas "a pior coisa que se pode fazer é o proselitismo religioso, que paralisa: 'Eu dialogo contigo para te convencer', não. Cada um dialoga sobre a sua identidade. A Igreja cresce por atração, não por proselitismo", assegurou.

O seu último conselho foi buscar ativamente a paz. "Estamos a viver uma época de muita guerra. Em África surgem guerras tribais, mas são algo mais. A guerra destrói. E o clamor pela paz é preciso ser gritada. A paz, às vezes, dá a ideia de quietude, mas nunca é quietude, é sempre uma paz ativa", acrescentou. O papa Francisco acrescentou ainda que a sua nomeação para o Nobel da Paz não faz parte da sua "agenda".
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Fonte site de Portugal: http://expresso.sapo.pt/27/07/2014

Breve crônica sobre futilidades contemporâneas

Mauro Santayana*

140727-George
Vasta cobertura midiática aos “primeiros passos seguros do futuro rei da Inglaterra” revela sociedade que, além de desigual, escorrega para o ridículo

Por Mauro Santayana, em seu blog

O príncipe George, filho de Catherine Midleton e do príncipe William, da Inglaterra, completou ontem um ano de vida.

Segundo a agência France Presse “em comemoração à data, a coroa britânica divulgou imagens exclusivas do menino de cabelo louro, vestindo um macacão azul e uma camisa azul marinho”, registradas, há alguns dias, em um museu londrino. “ao qual o duque e a duquesa de Cambridge levaram seu filho para ver uma exposição sobre borboletas”. Em uma das imagens George aparece andando, cena saudada como “Os primeiros passos seguros do futuro rei da Inglaterra”, pelo Sunday Telegraph.

É triste. Mas devemos cumprir o doloroso dever de informar, que, segundo um último balanço, também publicado ontem, 143 crianças palestinas, 80 delas com menos de 12 anos de idade, não poderão ver as borboletas do museu britânico, nem nenhuma outra que estiver voando por aí, por terem perecido, segundo a Unicef, desde que começou a ofensiva israelense na Faixa de Gaza.

Nem elas poderão fazê-lo, nem o pequeno bebê de onze meses, que morreu no hospital, depois de ter ficado trinta e cinco horas, soterrado, com sua família, sob um prédio em construção que desabou em Aracaju.

A humanidade está – infelizmente – cada vez mais fútil. Incapazes de revestir sua própria vida de maior interesse, enriquecendo-a com um pouco de cultura, ou dos sentimentos de justiça e solidariedade, milhões de pessoas mergulham no culto a “celebridades”, às vezes tão efêmeras e descartáveis como lâminas de barbear, e acompanham suas peripécias pelas publicações disponíveis nas salas de espera e nos salões de cabeleireiro.

O pequeno príncipe britânico, herdeiro da opulência de um império que cresceu pela exploração de dezenas de colônias e povos como os indianos, ou os aborígenes canadenses e australianos, acaba de entrar na lista – tão ridícula como absurda – das “dez crianças mais poderosas do mundo”.

O pequeno sem-teto brasileiro, um mês mais novo que ele, morreu de frio e inanição, no escuro, debaixo das ruínas do prédio em construção – no qual sua família dormia por não ter outro lugar para ir – porque sua mãe não conseguia se mover para aquecê-lo e amamentá-lo.

Os meios de comunicação noticiaram os dois fatos, cada um, naturalmente, em sua correspondente seção. Uma, festiva, perto das notas de variedades ou editoriais de moda. A outra, nas notícias de polícia, ou de cidades, lamentando, como não poderia deixar de ser, o desabamento do prédio e as vítimas do acidente de Aracaju.

Faltou alguém somar os dois meninos, e pensar, ao menos por um segundo, em seus diferentes destinos. Perguntando-se, porque, em pleno Século XXI, algumas crianças ainda nascem em suntuosos palácios, enquanto outras continuam morrendo debaixo de bombas em Gaza, ou sob os escombros de uma marquise, porque não tinham – como certo menino que nasceu em uma manjedoura – outro lugar para se abrigar.
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* Jornalista
Fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=18041

A acumulação do horror e o horror da acumulação | Uma entrevista com Silvia Viana

14.07.24_Silvia Viana_A acumulação do horror e o horror da acumulação 


A socióloga Silvia Viana, autora de Rituais de sofrimento concedeu uma entrevista a Mauricio Duarte para a Revista da Cultura de julho. Elaborada na efeméride dos 100 anos da Primeira Guerra Mundial, a matéria convidava três pensadores brasileiros (Silvia Viana, Luis Felipe Pondé e Maria da Graça Marchina Gonçalves) a refletirem sobre nossa relação com o horror e o sofrimento. Na matéria publicada, intitulada “A sangue frio“, as considerações de Silvia Viana aparecem polemizando com um lugar comum expresso em uma afirmação de Pondé – “Há um sadismo humano e um fascínio pelo sofrimento. Às vezes erótico, outras vezes metafísico” – e em seguida em um comentário sumário sobre a normalização e a comercialização do sofrimento nos reality shows contemporâneos. A entrevista completa, contudo, é muito mais extensa que o espaço disponibilizado pela revista. Publicamos, abaixo, o texto integral enviado pela autora ao Blog da Boitempo:

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1. Por que o ser humano é atraído pelo horror ou por situações macabras, que geralmente envolvem o sofrimento alheio?
O fato de sempre imputarmos aos outros a atração pelo sofrimento alheio já é indício de que essa afirmação, tida hoje como fato inelutável, deve ser questionada. Podemos facilmente contrapor esse pressuposto pétreo à repulsa que, em tantos, e em nós mesmos, tais situações são capazes de gerar. Então, a questão que nos devemos fazer não é o que nos atrai, mas o que nos leva a crer que tal atração é constitutiva do ser humano.

Não é fácil, aliás, muito pelo contrário, é agoniante assistirmos passivamente à agonia: ela respinga sua própria substância ao redor. À exceção dos psicopatas – cuja incapacidade de refletir sofrimento é mesmo excepcional –, a indiferença diante do horror não é algo natural e sim o resultado de uma construção social. Tanto assim que a mesma sociedade que enxerga nas manifestações de rua, e seu saldo de vidros quebrados, uma violência inaceitável, é capaz de destilar a demanda por mais pernas quebradas; uma exigência que pode, do mesmo modo, arrefecer ou virar de cabeça para baixo quando o terror estatal e espetacular, sabe-se lá mediante qual contra poder subterrâneo, toca os juízos; então se faz necessário um novo dispositivo para a dupla produção, de indiferença diante das pernas e de compaixão pelas vitrines: “há uns e outros, e os outros merecem…”. O outro sempre merece, não obstante ser objeto infinitamente intercambiável, tornando-se passível de ser machucado ao sabor da dominação. Até que, de vez em quando, ele morre na contramão e o olhar do mundo torna-se capaz de se desviar do tráfego, pois sua última agonia transborda a contrapelo: Amarildo e Douglas não são exceções, o fato de sua dor ser socialmente sentida, sim. Então, mais uma vez, como uma maldição, o mecanismo de distanciamento é reativado: “mas eles eram trabalhadores, já os outros…”.

Há uma lógica social que calibra os campos da indiferença e do intolerável. Apesar de se tornar mais explícita em momentos de viravolta insurgente, ela permanece despercebida por ser segunda natureza. É dessa perspectiva que devemos abordar as infindáveis provas e contraprovas desse nosso suposto “fascínio” pelo horror: que lógica o materializa?

2. O fascínio que esse tipo de situação causa nas pessoas não é um fenômeno novo. Porém, existe alguma particularidade referente ao modo como ele é percebido atualmente?
Antes de qualquer coisa, precisaríamos definir o tipo de situação à qual nos referimos. Se pensarmos nas situações cruéis e/ou bizarras levadas a cabo em reality shows, por exemplo, a questão a ser posta é: até que ponto os programas são socialmente sentidos como tal. Não que a brutalidade não esteja explícita, pelo contrário ela é propalada pela própria propaganda, que nos promete embates violentos a cada temporada, que sublinha o sofrimento dos participantes a cada rodada, que enaltece o sangue frio dos “vencedores” etc. Contudo, a paixão pelo horror não passa disso: propaganda de um produto cujo consumo não pode ser tido como atestado de fascinação. Pelo contrário, os programas são tão descartáveis quanto seus participantes, e a compulsão febril cessa assim que é encenado o último “paredão”.

Contudo, tal constatação é, ou deveria ser, ainda mais assustadora que o pressuposto de sua questão, pois se trata de uma brutalidade perpetrada e acompanhada mecanicamente. A novidade está nisso, na “banalização do mal”, entendida aqui em seu sentido original. Ou seja, não se trata da mera proliferação da crueldade, mas no fato dela ocorrer desprovida de qualquer paixão – política, guerreira, estética, sádica etc. – afinal, “é só um jogo”. O escândalo causado por Hannah Arendt, ao cunhar o termo, estava precisamente na percepção de que Eichmann não era um monstro, mas apenas um funcionário ordinário cumprindo suas funções ordinárias, no caso, a logística ferroviária. Arendt nada mais fez que traduzir a ética profissional específica do III Reich que, logo em seus primeiros anos, expulsou de suas fileiras todos aqueles que gozavam com o sangue alheio, substituindo-os por técnicos e gestores competentes. Como essa ética voltou a funcionar, ainda que com outro aspecto e novas facetas, é a questão que devemos nos fazer caso ainda consideremos o horror horrível.

3. Qual é o papel da imprensa e da mídia em geral nisso tudo?
Não há nada na transmissão televisionada da crueldade que já não tenha sólido assentamento em nossa reprodução social. Então a questão jamais deve ser posta, em primeiro lugar, do lado de lá da tela. Se a “banalidade do mal” não tivesse se tornado estrutural, nada disso seria palatável – em casos como os reality shows, não seria sequer compreensível. A eliminação aleatória de pessoas que concorrem ferozmente entre si por uma única vaga só faz sentido na TV quando as relações de produção tomam exatamente a mesma forma. Também nós “batalhamos” cotidianamente para “sobrevivermos” em um mercado de trabalho cada vez mais seleto – ou pelo menos assim rezam nossos rituais cotidianos, sejam eles espetacularizados ou não. A mídia reafirma e reforça essa lógica, o que não é pouco, mas jamais será o suficiente caso não haja uma estrutura social que a sustente. Por exemplo: a aflição de uma senhora entrevistada no ponto de ônibus, graças a uma manifestação, não é uma manipulação ideológica banal, ela só adquire peso coercitivo por estar pautada na coerção real de um “paredão” que parece mais próximo em dias de atraso. Nessa entrevista-chavão podemos vislumbrar a baliza que separa a crueldade ignorada daquela vivenciada como insuportável: as horas de vida desperdiçadas em posição estressante em um trem lotado para que se alcance nada mais que a possibilidade de continuar sobrevivendo são “parte da vida”, não nos parecem horripilantes. O adjetivo cabe, ao contrário, para a violência política posta na ação de frear esse movimento brutal e autopropulsionado.

A partir dessa cena, que de “macabra” aparentemente não tem nada, talvez possamos começar a entender a comiseração diante de vidros quebrados que, ao mesmo tempo, brada por mais pernas quebradas. A imprensa pode ninar cuidadosamente tal ressentimento, mas foi a precarização, do trabalho e da existência que gira a seu redor, que o pariu. A violência aceitável é a que toma a vida inteira, ela é ordinária, cotidiana, profissional: é aquela do participante de programa de TV que não quer ser eliminado; do gestor que precisa demitir mais e melhor; do porteiro que recusa a entrada de alguém com quem compartilha a cor da pele; do policial que nada mais faz senão “cumprir o seu dever” – e há aqueles que creem poder realizar essa tarefa de modo mais eficiente, acorrentando o outro da vez ao poste, pelo pescoço, com uma trava de bicicleta. À âncora do jornal não cabe muito mais que aplaudir o “trabalho bem feito”.
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* Professora de sociologia da FGV-SP. Graduada em ciências sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Além de corintiana, é autora de Rituais de sofrimento, pela coleção Estado de sítio da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.
Fonte: http://blogdaboitempo.com.br/2014/07/28/a-acumulacao-do-horror-e-o-horror-da-acumulacao-uma-entrevista-com-silvia-viana/

Crises na idade adulta...

José Ramón F. de la Cigoña*
 
A vida adulta tem fases que se não forem bem vivenciadas, podem frustrar. Lembro de um amigo carioca e igrejeiro que, na sabedoria dos seus sessenta anos, dizia-me com picardia: O senhor sabe que já casei três vezes?... Percebendo meu espanto, acrescentou: Três vezes, mas com a mesma mulher!

Numa sociedade hipermoderna como a nossa os pais perdem facilmente os seus referenciais e não desempenham satisfatoriamente o seu papel com os filhos. Com a exacerbação do individualismo, encontramos gerações sem compromisso com a tradição e incapazes de reconhecer o exercício da autoridade. Tudo e em pouco tempo é descartável!

O Qohélet, aquele pregador do Antigo Testamento que viveu crise semelhante, quando a cultura grega invadiu a fé judia, dizia: “Tudo tem o seu momento e cada coisa o seu tempo...” Este homem pessimista viu desmoronar por todo lado os valores que pregara e praticara.

Toda autoridade seja política, familiar ou Transcendente, não é bem aceita. Somos muito individualistas! As pessoas se sentem livres, mas lhes faltam códigos validos que facilitem a convivência. Quando tudo é valido, então nada é importante.

Dividamos a vida adulta em 3 fases. Em qual delas você se encontra e como a vive?

· Vida adulta jovem (20 a 40 anos)

· Vida adulta média (40 a 65 anos)

· Vida adulta avançada (65 em diante)

Como você define sua idade? Partilha com alguém a sua intimidade?... Na idade adulta, cada fase tem sua especificidade positiva e negativa. Lembra dos “três casamentos” do meu amigo carioca? Finalizou uma fase? Comece outra!

Quando jovem você sonhou com uma felicidade completa, que provavelmente ficou distante e inalcançável. Dificuldades encontradas, relacionamentos frustrados trouxeram cansaço e decepção.

Lembro da tristeza de um pai ao me confidenciar que os filhos não o amavam! 

Nesse meio-dia realístico da vida, quando a luz é mais intensa e o conhecimento mais objetivo, precisamos de novas formas de relacionamento, para que o encantamento não termine.

1. Primeira fase da vida adulta (dos 20 aos 40 anos aproximadamente). Quando começa a fase adulta: No casamento?... Quando se tem um trabalho bem remunerado?... Não há um tempo certo nem um rito próprio que indiquem o início desta etapa: Uns a antecipam; outros a postergam, mas para muitos ela começa quando se deixa o lar familiar.

Esta primeira fase da vida adulta é a de tomar decisões. As fantasias se burilam com os relacionamentos reais e, estes desafiam e educam. É tempo de buscas, discernimento e decisão. Momento de paixão e encantamento. Tempo de felicidade e força vital que permitem o risco e a tomada de decisões importantes: “Com quem estarei e partilharei a minha vida?...” Surge o peso da responsabilidade familiar e profissional, pois algumas escolhas são para o resto da vida!

As crianças nunca tomam decisões importantes, pois outros o fazem por elas. O adulto, pelo contrário, define o que e como fazer ou as circunstâncias, por desgraça, o farão por ele. Os compromissos de matrimônio ou de vida consagrada se concretizam. Nesta fase somos capazes de abraçar por inteiro uma vocação, uma causa ou uma pessoa, pois somos movidos pelo Amor.

Aprendemos muito, com o passar do tempo e alguns sofrimentos. Descobrimos que as pessoas nem sempre são maravilhosas e que os relacionamentos, muitas vezes, não suportam o desgaste do tempo.

 Os conflitos surgem e por vezes fazem duvidar. Incompreensão, abandono ou traição fazem parte da vida de alguns. Estupidamente desencantamos e, de repente voltamos a nos encantar. As feridas dos relacionamentos frustrados se curam quando o amor e a compreensão voltam a renascer.

2. Idade adulta média (dos 40 aos 65 anos). Nesta fase, o tempo passa com maior rapidez. A vida, provavelmente, não foi como a sonhamos. Será que o marido se parece mais com o príncipe encantado ou com aquele sapo nojento dos contos de fadas? E a esposa será que é aquela mulher maravilha sedutora e encantadora ou uma simples cinderela a serviço da casa? A realidade é bem mais pobre do que a fantasia, contudo o viver sem máscaras possibilita uma maior intimidade. Dizia-me uma velha senhora: Os desamores só se curam com outros amores!

A realidade se impõe. Crises e decepções surgem por toda parte e os entendidos a definem como “Idade da loba” ou “Crise do demônio meridiano”. Provavelmente, os valores religiosos de outrora foram deixados de lado ou, quem sabe, se purificaram. É tempo de crescimento!

Se na primeira metade da vida nos preocupamos sobre tudo pelo mundo exterior (profissão, moradia, etc.) nesta outra metade nos orientamos mais para o mundo interior, buscando maior qualidade nos relacionamentos e significados verdadeiros naquilo que somos e fazemos.

Nessa fase nada parece extraordinário ou maravilhoso, contudo é na constância que o importante se consolida e o transitório desaparece.

Quando se chega aos 40 anos, os preconceitos ficaram mais objetivos. Sabemos quão frágil é a amizade e pesada a solidão! É tempo de se reconciliar com a vida, pois nada é eterno... Quem tem fé provavelmente enfrenta melhor a morte de seres queridos.

3. Vida adulta avançada (dos 65 anos em diante...). Entramos na Terceira Idade com a consciência de que “não podemos viver o entardecer da vida com o programa do amanhecer”. A aposentadoria permite se centrar mais nos relacionamentos significativos familiares e sociais. A vida saudável e os exames médicos retrasaram positivamente os efeitos negativos desta fase.
Uma das experiências mais completas da vida adulta é a de ser dono do próprio nariz. Contudo, essa plenitude experi6encia é novamente confrontada com os contratempos que aparecem.
A idade adulta avançada é uma oportunidade para lembrar e nomear com carinho e gratidão as nossas perdas. Muitas coisas e pessoas foram ficando pelo caminho! Essa memória histórica cura velhas feridas e sentimentos do passado. Viver positivamente o presente, liberta de culpas passadas. A terceira idade é a melhor idade para experimentar a ternura e a compaixão. “No entardecer da vida seremos julgados sobre o amor...”

Algumas perguntas: 1. Como mudaram suas respostas às grandes perguntas com o decorrer dos anos? 2. Você realmente cortou o cordão umbilical ou ainda está preso a coisas e pessoas do passado? 3. Há perdas inevitáveis “necessárias” e outras “desnecessárias”... Como você elaborou as primeiras e se enrolou nas últimas?
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* Nasceu em Vigo, Espanha em 01/AGO/1942. Estudou no Colégio Apóstol Santiago/Vigo. Aos 22 anos foi para o Brasil como jesuíta. Estudou: Filosofia e Pedagogia em São Paulo, e Teologia em Roma. É sacerdote desde 1972. Naturalizou-se brasileiro em 1989. Hobbies: Ler e escrever.
Fonte:  http://blogs.periodistadigital.com/terra-boa.php/2013/12/18/acerca-de-jose-ramon-f-de-la-cigona

domingo, 27 de julho de 2014

A FÓRMULA das cidades

ENTREVISTA GEOFFREY WEST

Por meio da matemática, o físico Geoffrey West diz que as propriedades das cidades – a riqueza, a taxa de criminalidade, a mobilidade e muitos outros aspectos – podem ser deduzidas a partir de um único número: a população. Ao comparar os conglomerados urbanos com organismos vivos, o próximo palestrante do ciclo Fronteiras do Pensamento afirma que as soluções para os problemas dos grandes centros encontram-se neles próprios. West deposita nas ideias inovadoras, nas redes sociais e nas lideranças técnico-políticas a confiança para um mundo mais sustentável.

O senhor costuma dizer que os problemas encontrados nas cidades são também suas próprias soluções. Onde está o ponto de virada?

Geoffrey West – Os problemas encontrados nas cidades de todos os lugares são os mesmos. Saúde, poluição, água, energia, recursos naturais. São todos problemas ligados à mudança de clima, que se originam no comportamento e no consumo de quem vive nas cidades, porque nossa presença é o que gera esses impactos. As cidades têm os problemas e também as soluções porque é nelas que as pessoas vivem. É lá que estão as pessoas mais espertas e inovadoras para resolver essas questões. Os problemas e as soluções estão juntos, e o desafio é como achar as soluções certas. Há muitos problemas ligados à condição das pessoas que vivem na pobreza, nas favelas, com degradação. Isso também é uma grande questão ligada com o futuro do planeta. E a solução se encontra nas ideias inovadoras.

Se as cidades são manifestações físicas das interações humanas, o que nós, como sociedade, podemos fazer pela melhoria da nossa saúde coletiva?

West – Primeiro de tudo, uma das coisas mais interessantes das cidades é que, enquanto geramos os impactos, geramos ao mesmo tempo as alternativas de resposta. A grande questão é que temos um crescimento exponencial da população. Somos 7 bilhões de pessoas vivendo nas cidades. Nos anos 2050, seremos 10 bilhões de pessoas no planeta. Como as pessoas podem melhorar a qualidade de sua própria vida é uma grande questão. O maior desafio é saber como poderemos manter toda essa população em nosso planeta vivendo com qualidade. Eu moro nos Estados Unidos, onde temos alto padrão de vida. Mas o que acontece no Brasil, Zimbábue, Austrália, impacta a nossa vida aqui no Novo México, onde vivo, em Santa Fé. Nós estamos todos conectados, gostemos ou não.

O senhor disse que a inovação traz a solução para os problemas das cidades. Que tipos de ideias novas podem salvar o sistema urbano de um colapso? As irreverentes têm mais chance de prosperar?

West – As cidades devem facilitar as interações humanas e as redes sociais entre as pessoas. Ideias loucas, inovadoras, costumam colocar as pessoas juntas, em maior interação. Isso pode estimular ideias empreendedoras. Mas as interações sociais podem trazer coisas ruins também – doenças, violências, crime. Outra coisa que acontece nas grandes cidades é a vida em comunidade. Não é preciso sair muito de um bairro para comprar itens como gasolina, comida. Quero dizer, pode-se usar a força e a infraestrutura da comunidade. Isso fortalece o desenvolvimento. Por isso as cidades continuam crescendo rápido, porque têm espaço para tudo. O desafio mundial é fazer isso de uma forma legal. A gente precisa buscar a inovação na mesma velocidade para manter o nível de qualidade elevado para todos – o que seria a tal sustentabilidade do planeta.

O senhor fala nas interações humanas dentro da cidade, mas o desenvolvimento acelerado, o trânsito, cada um em um carro, morando em apartamentos, não cria isolamento entre as pessoas?

West – Muitas pessoas ficam isoladas nas grandes cidades. Por isso a administração municipal é um grande desafio para o mundo inteiro. Como fazer as interações sociais, como fomentá-las, como melhorar as relações nas redes sociais. As pessoas ficarem mais isoladas é uma tendência dos grandes centros, que é combatida pela revolução de tecnologia de informação. As redes de internet podem ajudar a resolver isso.

O senhor criou uma fórmula que associa o ritmo da vida biológica com o tamanho das cidades. Essa equação do crescimento urbano poderia ser usada pelos governantes em um contexto real?

West – Sim, essa é a ideia. Se você quer lidar com os problemas das cidades, precisa entender as cidades. Não há como resolver sem entender. É importante conhecer a dinâmica do crescimento. Desenvolvi uma fórmula matemática para as cidades em que você pode fazer previsões médias para as questões de crescimento de acordo com a população. No Instituto Santa Fé, onde trabalho, discutimos como aplicar essa fórmula na nossa cidade e traduzir essa lógica para resolver os problemas de nossa cidade. Estamos discutindo a questão por enquanto. Uma cidade de 1,5 milhões de pessoas tem quase a mesma dinâmica de uma cidade com 10 milhões de pessoas, porque elas são fundamentadas nas interações sociais, nas redes e na infraestrutura. Quem vier à palestra em Porto Alegre vai entender mais sobre isso.

O ritmo da vida urbana aumenta com o tamanho da cidade, em contraste com o ritmo da vida biológica. Cidades e florestas têm ritmos de vida inversamente proporcionais?

West – Sim. O ponto é que, na biologia, quanto maior você é, mais devagar as coisas acontecem. O tempo se torna mais longo. Animais vivem mais quanto maiores são. A sistemática previsível vai mais devagar de acordo com o ritmo de vida, com o tempo e a escala de crescimento. Tudo isso nós discutimos nas dinâmicas físicas e nas redes de vida. Nas cidades, temos o efeito oposto, quanto maior a cidade, maior o ritmo da cidade. Nós estamos em uma cidade, as pessoas caminham rápido, as transações são rápidas, sentimos que o ritmo é mais veloz. Temos esses dois efeitos contrários, não é inversamente proporcional, mas o efeito é controverso. A vida biológica é mais lenta do que a vida nas cidades.

Em artigo publicado pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, o senhor diz que cidades são como entidades biológicas: consomem energia e devolvem artefatos, informações e resíduos. Onde está o ponto de equilíbrio de um ecossistema urbano?

West – As cidades são como organismos vivos. Elas crescem, desenvolvem, metabolizam e usam informação e energia. Mas têm diferenças e é isso o que quero discutir – o ritmo de vida é mais rápido e produz diferentes efeitos. Em organismos nós temos o que se chama economia de escala. Quanto maior você é, menos energia você precisa. Só que o que acontece nas cidades é que em vez de precisar menos per capita – menos estradas, menos estações de gasolina, menos infraestrutura em geral – você precisa mais per capita. Quanto maior você é, mais interativo e atraente você se torna. As cidades grandes têm mais boates, shoppings, lugares legais, mas isso tem um preço, que é ter mais crime, poluição, doenças. Não há um nível ótimo. Essa é a grande questão do século, o crescimento em aberto e o quanto ele pode ser suportado.

O que faz com que metrópoles de diferentes partes do mundo tenham regras que se repetem apesar das diferenças culturais ou socioeconômicas?

West – Uma das coisas que descobrimos é que, em todos os lugares no mundo, as regras praticadas nas redes sociais são parecidas. Os dados coletados nessas redes mostram isso. Redes sociais nos fornecem as escalas certas para medir essas informações. Reflexo das redes universais são as ideias contidas nos discursos das pessoas ao redor do mundo, e elas são parecidas. Ha certas coisas que são genéricas e outras que transcendem as culturas, a geografia e as leis locais. Há características que são do homem em sua natureza, apesar da superficialidade das aparências. No final das contas, nós somos todos um. O ser humano se parece muito.

Como essas regras podem ser utilizadas para frear os impactos da superpopulação? Na sua opinião, o que estará diferente quando dobrar a população mundial?

West – As regras emergem das interações humanas. A questão é: a gente poderá ter uma vida mais desenvolvida dentro de anos com o crescimento da população? Podemos barrar o ciclo das pessoas e das redes sociais? Uma grande revolução seria necessária em termos de relacionamento interpessoal, cultural e com o ambiente para essas mudanças significativas poderem barrar os impactos da superpopulação. Não podemos esperar apenas das ciências, temos que depositar mais esperança nas lideranças políticas. Essa mudança só irá acontecer se tivermos lideranças políticas que irão modificar as ciências. Essa mudança será encampada por líderes que quebrem paradigmas. Tudo precisa continuar crescendo, em nível local e das cidades. O problema é político. As pessoas nas cidades são as fontes de todos os problemas, mas são também as soluções. É nas cidades que as soluções são desenhadas e levadas à pratica. É nas cidades que a sustentabilidade global acontece e começa a tomar forma.
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Reportagem POR LARA ELY | lara.ely@zerohora.com.br
Fonte: ZH online, 27/07/2014
Imagem da Internet

El dinero como Dios

 




















"El capitalismo es una religión sólo de culto: sin dogmas ni moral". Nuestro sistema es incapaz de crear empleo y reparte injustamente la riqueza y los ingresos"

Hace casi cien años, Walter Benjamin redactó una nota titulada “Capitalismo como religión”: el capitalismo funge religiosamente porque se presenta como “experiencia de la totalidad”. Pero es una religión sólo de culto: sin dogmas ni moral. Ese culto se lleva a cabo mediante el consumo, empalmando con la tesis marxiana de la mercancía convertida en fetiche mientras al trabajador se le convierte en mercancía. Es además una religión de culto continuo en la que todos los días son “de precepto”. Y de un culto culpabilizador (en alemán Schuld significa a la vez deuda y culpa: por eso, según Benjamin, vivir con una deuda equivale a vivir con una culpa. Curiosamente en el arameo de Jesús sucedía algo parecido: la palabra schabq significa a la vez el perdón de los pecados y la remisión de las deudas). 

2.- Toda religión tiene un dios. Hacia 1936, Keynes, en su Teoría general del empleo, el interés y el dinero, habló del dinero como dios: todas las funciones que antaño desempeñaba Dios las desempeña hoy el dinero. Keynes subraya que no habla simplemente de la riqueza sino del dinero contante y sonante (la liquidez), que permite la disponibilidad inmediata y la especulación. Ese dinero: a) da seguridad y garantiza el futuro: valen de él aquellas palabras del salmista: “te amo, Señor, tú eres mi roca, mi fortaleza”. b) Da seguridad porque es todopoderoso y omnipresente: no hay nada que no pueda conseguirse sin él Finalmente c) el dinero es fecundo: en el capitalismo financiero el dinero ya no se usa como medio para crear riqueza sino que él mismo produce más dinero: “especular resulta entonces más lucrativo que invertir” (por eso los Bancos ya no dan créditos). A todo ello podríamos añadir d) que hoy que el dinero también es invisible, como Dios, a pesar de su poder y su omnipresencia. Resumiendo: si el dinero es el último punto de referencia, bien se puede hablar de él como “el ser necesario” (clásico término metafísico para designar a Dios).

3.- Todo eso pone de relieve la no-neutralidad del dinero que ya no es un mero instrumento práctico de intercambio, como pretenden los teóricos neoliberales. Plantea además una pregunta muy seria sobre la legitimidad del préstamo a interés, cuya historia tiene tres etapas: a) Tanto en la Biblia como en el mundo grecolatino era considerado inmoral: Aristóteles calificaba la usura como el más bajo de los vicios, comparándola al proxenetismo que aprovecha la necesidad del otro para el enriquecimiento propio. Si pido prestado un kilo de patatas no es lícito que me obliguen a devolver kilo y medio. ¿Por qué habría de ser lícito si pido dinero en vez de patatas? 

b) En los albores del capitalismo, el dinero se convierte en una ocasión para crear riqueza: si te presto un dinero evito comprarme con él un campo que podría cultivar, o montar una pequeña industria. En ese sentido el préstamo me priva de un beneficio y parece legítimo que, al devolverlo, se me dé alguna compensación por esa ganancia perdida. 

c) Con la economía especulativa financiera, la cosa vuelve a cambiar: el dinero ya no es una oportunidad para que yo cree riqueza, sino que él mismo es fecundo: con menos riesgos y con porcentajes de ganancia más altos. Eso será una gran mentira, pero “funciona” hasta que estalle la crisis. Pues bien: así como, en los comienzos del primer capitalismo no se vio que el préstamo a interés cambiaba de significado y siguieron prohibiendo, así ahora tampoco se ve que, en el capitalismo financiero, el interés vuelve a cambiar de significado, y se lo sigue permitiendo. Según la tesis de Benjamin del capitalismo como religión de culpa, ahora el interés viene a ser respecto del préstamo lo que es la penitencia respecto de la culpa. 

Dejemos ese problema para el futuro y volvamos a Keynes. De lo antedicho deduce él que nuestro sistema tiene dos grandes defectos: es incapaz de crear empleo y reparte injustamente la riqueza y los ingresos. ¿Dos defectos o dos desautorizaciones totales?.

4.- Todo lo antedicho nadie lo percibió con tanta claridad como Lutero, cuando ya iba amaneciendo el capitalismo. Creer en Dios es confiar en Él, pero nosotros hemos sustituido la confianza por el culto: confiamos nuestro futuro al dinero, y a Dios le hacemos procesiones y templos que “no llegan hasta el cielo”. Por eso, en su Gran Catecismo, Lutero trata del dinero al comentar no el séptimo mandamiento sino el primero: porque el dinero es “el ídolo más común en la tierra”. Según Lutero, la comunidad cristiana debería ser un ámbito donde no rigen las leyes de la economía monetaria. Los cristianos deberían manifestar al Dios verdadero con su conducta en cuestiones económicas. Por eso añade: “siempre he dicho que los cristianos somos gente rara en la tierra”. Pero esa rareza permite comprender que la frase de Jesús (“no podéis servir a Dios y al dinero”) tiene una traducción laica bien clara: no podéis servir al hombre y al dinero. 
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Texto de:  José I. González-Faus sj
Fonte: http://blogs.periodistadigital.com/miradas-cristianas.php/2014/07/25/el-dinero-como-dios



 TRADUÇÃO DO TEXTO EM ESPANHOL.


 

O dinheiro como Deus

“Acreditar em Deus é confiar Nele, mas nós temos substituído a confiança pelo culto: confiamos nosso futuro ao dinheiro”, é o que trata José Ignacio González Faus, jesuíta, professor Emérito de Teologia em Barcelona e em vários países latino-americanos, em artigo publicado no seu blog Miradas Cristianas, 25-07-2014. A tradução é do Cepat.
Fonte: http://goo.gl/1bmyQb
Eis ao artigo.
Há quase cem anos, Walter Benjamin escreveu um artigo intitulado “Capitalismo como religião”: o capitalismo atua religiosamente porque se apresenta como uma “experiência da totalidade”. Contudo é uma religião apenas de culto: sem dogmas nem moral. Esse culto é realizado mediante o consumo, integrado a tese marxista da mercadoria convertida em fetiche enquanto o trabalhador é convertido em mercadoria. Também é uma religião de culto contínuo, no qual todos os dias são “de preceito”. E de um culto de culpa (em alemão Schuld significa tanto dívida como culpa: por isso, de acordo com Benjamin, viver com uma dívida equivale a viver com uma culpa. Curiosamente no aramaico de Jesus acontecia algo parecido: a palavra schabq significava perdão dos pecados e a remissão das dívidas).
1 – Toda religião tem um deus. Por volta de 1936, Keynes em sua Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro, falou do dinheiro como deus: todas as funções que eram então desempenhadas por Deus são desempenhadas hoje pelo dinheiro. Keynes destaca que não se trata simplesmente da riqueza, mas do dinheiro duro e frio (a liquidez), que permite a disponibilidade imediata e a especulação. Esse dinheiro:
a) dá segurança e garante o futuro: equivalem aquelas palavras salmistas: “te amo, Senhor, Tu és minha rocha, minha fortaleza”.
b) dá segurança porque é o todo-poderoso e onipresente: não se pode conseguir nada sem ele. Finalmente,
c) o dinheiro é fecundo: no capitalismo financeiro o dinheiro já não é usado como meio para criar riqueza, mas ele mesmo produz mais dinheiro: “especular se torna então mais lucrativo que investir” (por isso os Bancos já não dão créditos).
E, a tudo isso poderíamos acrescentar:
d) que hoje em dia o dinheiro também é invisível, como Deus, apesar de seu poder e onipresença. Resumindo: se o dinheiro é o último ponto de referência, também se pode falar dele como “o ser necessário” (clássico termo metafísico para designar a Deus).
2 – Tudo isso coloca em destaque a não neutralidade do dinheiro, que já não é um mero instrumento prático de intercâmbio, como querem os teóricos neoliberais. Também levanta uma questão muito séria em relação à legitimidade do empréstimo a juros, cuja história tem três etapas:
a) Tanto na Bíblia quando no mundo Greco-romano era considerado imoral: Aristóteles qualificava a usura como o mais baixo dos vícios, comparando-a ao proxenetismo que aproveita a necessidade do outro para o enriquecimento próprio. Ao pedir emprestado um quilo de batatas não é justo que obriguem a me devolver um quilo e meio. Por que haveria de ser lícito se peço dinheiro ao invés de batatas?
b) No alvorecer do capitalismo, o dinheiro torna-se uma oportunidade para criar riqueza: se te empresto um dinheiro evito de comprar com ele um campo onde poderia cultivar, ou montar uma pequena indústria. Nesse sentido, o empréstimo me priva de um benefício e parece legítimo que, ao devolvê-lo, me dê alguma compensação pelo lucro perdido.
c) Com a economia especulativa financeira, a coisa volta a mudar: o dinheiro já não é uma oportunidade para que eu crie, mas ele mesmo é fecundo: com menos riscos e com porcentagens de lucros mais altas. Isso pode ser uma grande mentira, mas “funciona” até que se instale a crise. Pois bem: assim como, no início do primeiro capitalismo não se viu que o empréstimo a juros mudaria de modo significado, de forma que continuaram o proibindo; agora nem se vê que, no capitalismo financeiro, os juros voltam a mudar de significado, e continua-se o permitindo. Segundo a tese de Benjamin sobre o capitalismo como religião de culpa, agora o juros se relacionam com o empréstimo, o que é a penitência em relação à culpa.
Deixemos esse problema para o futuro e voltemos a Keynes. Do que foi dito anteriormente deduz-se que o nosso sistema tem dois grandes efeitos: é incapaz de criar emprego e reparte injustamente a riqueza e os lucros. Dois efeitos ou duas desautorizações totais?
4 – Tudo o que foi dito anteriormente nada foi percebido com tanta clareza como o fez Lutero, quando já havia amanhecido o capitalismo. Acreditar em Deus é confiar Nele, mas nós temos substituído a confiança pelo culto: confiamos nosso futuro ao dinheiro, e a Deus fazemos procissões e templos que “não chegam até o céu”. Por isso, em seu Grande Catecismo, Lutero trata do dinheiro ao comentar não o sétimo mandamento, mas o primeiro: porque o dinheiro é “o ídolo mais comum na terra”.
Segundo Lutero, a comunidade cristã deveria ser um âmbito onde não regeriam as leis da economia monetária. Os cristãos deveriam se manifestar ao Deus verdadeiro com sua conduta em questões econômicas. Por isso acrescenta: “sempre disse que os cristãos são pessoas raras na terra”. Contudo essa raridade permite compreender que a frase de Jesus (“não podeis servir a Deus e ao dinheiro”) tem uma tradução leiga bem clara: não podeis servir ao homem e ao dinheiro.
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FONTE: IHU online, 30/07/2014

As ameaças da Grande Transformação(I) e (II)

 Leonardo Boff*
A Grande Transformação consiste na passagem de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado. Ou em outra formulação: de uma sociedade com comercado para uma sociedade só de mercado. Mercado sempre existiu na história da humanidade, mas nunca uma sociedade só de mercado. Quer dizer, uma sociedade que coloca a economia como o eixo estruturador único de toda a vida social, submetendo a ela a política e anulando a ética. Tudo é vendável, até o sagrado.

Não se trata de qualquer tipo de mercado. É o mercado que se rege pela competição e não pela cooperação. O que conta é o benefício econômico individual ou corporativo e não o bem comum de toda uma sociedade. Geralmente este benefício é alcaçado às custas da devastação da natureza e da gestação perversa de desigualdades sociais. Nesse sentido a tese de Thomas Piketty em O capital no século XXI é irrefutável.

O mercado deve ser livre, portanto, recusa controles e vê o Estado como seu grande empecilho, cuja missão, sabemos, é ordenar com leis e normas a sociedade, também o campo econômico e coordenar a busca comum do bem comum. A Grande Transformação postula um Estado mínimo, limitado praticamente às questões ligadas à infra-estrutura da sociedade, ao fisco, mantido o mais baixo possível e à segurança.Tudo o mais deve ser buscado no mercado, pagando.

O gênio da mercantilização de tudo penetrou em todos os setores da sociedade: a saúde, a educação, o esporte, o mundo das artes e do entretenimeno e até grupos importantes das religiões e das igrejas. Estas incorporaram a lógica do mercado: a criação de uma massa enorme de consumidores de bens simbólicos, igrejas pobres em espírito, mas ricas em meios de fazer dinheiro. Não raro no mesmo complexo funciona um templo e junto a ele um shopping. Enfim, se trata sempre da mesma coisa: auferir rendas seja com bens materiais seja com bens “espirituais”.

Quem estudou em detalhe este processo avassalador foi um historiador da economia, o húngaro-norte-americano Karl Polanyi (1886-1964). Ele cunhou a expressão A Grande Transformação, título do livro escrito antes do final da Segunda Guerra Mundia em 1944. No seu tempo a obra não mereceu especial atenção. Hoje, quando suas teses se vem mais e mais confirmadas, tornou-se leitura obrigatória para todos os que se propõem entender o que está ocorrendo no campo da economia com repercusão em todos os âmbitos da atividade humana, não excluida a religiosa. Desconfia-se que o próprio Papa Francisco tenha se inspirado en Polaniy para criticar a atual mercantilização de tudo, até do ser humano e órgãos.

Essa forma de organizar a sociedade ao redor dos interesses econômicos do mercado cindiu a humanidade de cima a baixo: um fosso enorme se criou entre os poucos ricos e os muitos pobres. Gestou-se uma espantosa injustiça social com multidões feitas descartáveis, consideradas óleo gasto, não mais interessante para o mercado: produzem irrisoriamente e consomem quase nada.

Simultaneamente a Grande Transformação da sociedade em mercado criou também uma iníqua injustiça ecológica. No afã de acumular, foram explorados de forma predatória bens e serviços da natureza, devastando inteiros ecossistemas, contaminando os solos, as águas, os ares e os alimentos, sem qualquer outra consideração ética, social ou sanitária.

Um projeto desta natureza, de acumulação ilimitada, não é suportado por um planeta limitado, pequeno, velho e doente. Eis que surgiu um problema sistêmico, do qual os economistas deste tipo de economia, raramente se referem: foram atingidos os limites fisico-químicos-ecológicos do planeta Terra. Tal fato dificulta senão impede a reprodução do sistema que precisa de uma Terra, repleta de “recursos” (bens e serviços ou ‘bondades’ na lingugem dos indígenas).

A continuar por esse rumo, poderemos experimentar, como já o estamos experimentando, reações violentas da Terra. Como é um Ente vivo que se autoregula, reage para manter seu equilíbrio afetado através de eventos extremos, terremotos, tsunamis, tufões e uma completa desregulação dos climas.

Essa Transformação, por sua lógica interna, está se tornando biocida, ecocida e geocida. Destrói sistematicamente as bases que sustentam a vida. A vida corre risco e a espécie humana pode, seja pelas armas de destruição em massa existentes seja pelo caos ecológico, desaparecer da face da Terra. Seria a consequência de nossa irresponsabilidade e da total falta de cuidado por tudo o que existe e vive.


As ameaças da Grande Transformação (II)


Analisamos no artigo anterior, as ameaças que nos traz a transformação da economia de mercado em sociedade de mercado com a dupla injustiça que acarreta: a social e a ecológica. Agora quermos nos deter em sua incidência no âmbito da ecologia tomada em sua mais vasta acepção, no ambiental, social, mental e integral.

Constatmos um fato singular: na medida em que crescem os danos à natureza que afetam mais e mais as sociedades e a qualidade de vida, cresce simultaneamente a consciência de que, na ordem de 90%, taisdanos se tributam à atividade irresponsável e irracional dos seres humanos,mais especificamente, àquelas elites de poder econômico, político, cultural e mediático que se constituem em grandecorporações multilaterais e que assumiram por sua conta os rumos do mundo. Temos, com urgência, fazer alguma coisa que interrompa este percurso para o precipício. Como adverte a Carta da Terra: “ou fazemos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscamos a nossa destruição e a da diversidade da vida”(Preâmbulo).

A questão ecológica, especialmente após o Relatório do Clube de Roma em 1972 sob o título “Os Limites do Crescimento” tornou-se tema central da política, das preocupações da comunidade científica mundial e dos grupos mais despertos e preocupados pelo nosso futuro comum.

O foco das questões se deslocou: do crescimento/desenvolvimento sustentável (impossível dentro da economia de mercado livre) para a sustentação de toda a vida. Primeiro há que se garantir a sustentabilidade do planeta Terra, de seus ecossistemas, das condições naturais que possibilitam a continuidade da vida. Somente garantidas estas pré-condições, se pode falar em sociedades sustentáveis e em desenvolvimento sustentável ou de qualquer outra atividade que queira se apresentar com este qualificativo.

A visão dos astronautas reforçou a nova consciência. De suas naves espaciais ou da Lua se deram conta de que Terra e a Humanidade formam uma única entidade. Elas não estão separadas nem juxtapostas. A Humanidade é uma expressão da Terra, a sua porção consciente, inteligente e responsável pela preservação das condições da continuiade da vida. Em nome desta consciência e desta urgência, surgiu o princípio responsabilidade (Hans Jonas), o princípio cuidado (Boff e outros), o princípio sustentabilidade (Relatório Brundland), o princípio interdependência, o princípio cooperação (Heisenberg/Wilson/Swimme/Morin/Capra)e o princípio prevenção/precaução (Carta do Rio de Janeiro de 1992 da ONU), oprincípio compaixão (Schoppenhauer/Dalai Lama) e o princípio Terra (Lovelock e Evo Morales).

A reflexão ecológica se complexificou. Não se pode reduzi-la apenas à preservação do meio ambiente. A totalidade do sistema mundo está em jogo. Assim surgiu uma ecologia ambiental que tem como meta a qualidade de vida; uma ecologia social que visa um modo sustentável de vida e uma sobriedade compartida (produção, distribuição, consumo e tratamento dos dejetos); uma ecologia mental que se propõe erradicar preconceitos e visões de mundo, hostis à vida e formular un novo design civilizatório, à base de princípios e de valores para uma nova forma de habitar a Casa Comum; e por fim uma ecologia integral que se dá conta que a Terra é parte de um universo em evolução e que devemos viver em harmonia com o Todo, uno, complexo e perpassado de energias que sustentam a vitalidade da Terra e carregado de propósito.

Criou-se destarte uma grelha teórica, capaz de orientar o pensamento e as práticas amigáveis à vida. Então se torna evidente que a ecologia mais que uma técnica de gerenciamento de bens e serviços escassos representa uma arte, uma nova forma de relacionamento com a vida, a natureza e a Terra e a descoberta da missão do ser humano no processo cosmogênico e no conjunto dos seres: cuidar e preservar.

Por todas as partes do mundo, surgiram movimentos, instituições, organismos, ONGs, centro de pesquisa, cada qual com sua singularidade: quem se preocupa com as florestas, quem com os oceanos, quem com a preservação da biodiversidade, quem com as espécies em extinção, quem com os ecossistemas tão diversos, quem com as águas e os solos, quem com as sementes e a produção orgânica. Dentre todos estes movimentos cabe enfatizar o Greenpeace pela persistência e coragem de enfrentar, sob riscos, aqueles que ameaçam a vida e o equilíbrio da Mãe Terra.

A própria ONU criou uma série de instituições que visam acompanhar o estado da Terra. As principais são o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), a FAO (Organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura), a OMS (Organização Mundial para a Saúde), a Convenção sobre a Biodiversidade e especialmente o IPPC (Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas) entre outras tantas.

Esta Grande Transformação da consciência opera uma complicada travessia, necessária para fundar um novo paradigma, capaz de transformar a eventual tragédia ecológico-social numa crise de passagem que nos permitirá um salto de qualidade rumo a um patamar mais alto de relação amistosa, harmoniosa e cooperativa entre Terra e Humanidade. Se não assumirmos esta tarefa o futuro comum estará ameaçado.
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Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escreveu Proteger a Terra-cuidar da vida: como escapar do fim do mundo, Record 2010.
Fonte:  http://leonardoboff.wordpress.com/2014/07/26/as-ameacas-da-grande-transformacaoi/

sábado, 26 de julho de 2014

Jornalista e escritor francês conta em livro sua intensa relação com Michel Foucault


 

Mathieu Lindon frequentou apartamento do filósofo, onde descobriu a liberdade e uma amizade íntima e amorosa

PARIS — A vida do jovem Mathieu Lindon mudou aos 23 anos, em 1978. Naquele ano, conheceu e se tornou amigo do pensador Michel Foucault (1926-1984), celebridade francesa de reputação mundial por meio de obras como a “História da sexualidade” e “As palavras e as coisas”. No apartamento da Rua de Vaugirard, endereço parisiense de Foucault, Lindon descobriu a liberdade de uma amizade íntima, fraterna e amorosa, distante dos modelos aos que estava habituado. Seu pai, Jérôme Lindon (1925-2001), era igualmente um personagem do cenário intelectual francês — como diretor da prestigiada Éditions de Minuit, havia editado autores como Samuel Beckett e Marguerite Duras.


O pai e o amigo célebre são o centro narrativo de “O que amar quer dizer”, em que Lindon conta como Foucault lhe “salvou” a vida com “inteligência e bondade”. À margem, mas não menos importantes, emergem meia dúzia de personagens que compõem o grupo que frequentava o apartamento da Rua de Vaugirard. Lindon faz do leitor um voyeur privilegiado ao acompanhar curiosos jovens em busca de novas sensações, em aventuras e desventuras em torno do amor, sexo, homossexualidade, literatura, amizade, família, sonhos, afeto e fraternidade. O cotidiano na Rua de Vaugirard incluía escutar Mahler, jogar mikado, assistir a filmes dos Irmãos Marx e mergulhar em sessões coletivas de ácido, LSD, heroína ou ópio.


Lindon decidiu compartilhar este crucial período de sua vida quase dez anos após a morte de seu pai e vinte e cinco anos depois do desaparecimento de Foucault, morto em consequência da Aids, como um tipo de homenagem e de reconhecimento, em um livro premiado e elogiado pela crítica. Na Flip destre ano, o escritor, e também cronista do jornal “Libération”, participa de uma mesa com Silviano Santiago, autor de “Mil rosas roubadas”, no qual celebra sua amizade com o crítico e produtor musical Ezequiel Neves (1935-2010).


A única forma honrada de se “livrar” desse importante período de sua vida, em que conheceu Michel Foucault, e de abordar sua relação com seu pai era por meio de um livro?

E pelo reconhecimento que tinha em relação a Michel Foucault. A relação que tinha com ele é simbolizada pelo apartamento da Rua de Vaugirard, que é o centro do livro. Quando contava o que havia vivido lá para amigos, todo mundo achava formidável. Mas desde que começava a escrever, achava que não tinha nenhum interesse, e mesmo me incomodava. E me dei conta de que era preciso incluir esse apartamento no imenso território da minha educação. O personagem do meu pai foi introduzido no livro, o que não era minha ideia no início, e a partir daí as coisas se organizaram e pude trabalhar de outra forma.


A descoberta do texto em que a escritora Willa Cather (1873-1914) narra seu encontro com a sobrinha de Gustave Flaubert, em 1930, em um hotel no Sudeste da França destravou a escrita do livro. Por quê?

Não sabia muito bem como escrever. Às vezes queria fazer como uma autobiografia que não falasse de mim. Gostaria de aparecer como o narrador de romances ou de contos de Henry James, que ao mesmo tempo é um personagem secundário e principal na trama. Num momento não conseguia mais avançar no livro, abandonei. E aí me deparei com um livro em inglês que havia comprado há muito tempo, de textos de Willa Cather, escritora americana que adoro. Ela encontrou a sobrinha de Gustave Flaubert, que tinha 80 anos. Ela adorava Flaubert, não esperava encontrar essa mulher, ficou transtornada. E eu também fui tocado, achei magnífico, achei que tinha a ver comigo, guardadas todas as proporções. Meu pai era um editor muito importante na França, de escritores como Samuel Beckett, Marguerite Duras, Alain-Robe Grillet, Claude Simon... E me dei conta de que o livro que queria fazer era uma história de encontros. Me identifiquei com a forma do encontro delas, algo que me definia. Esse livro teve uma importância considerável para que eu pudesse escrever o meu.


Você tinha receio de que a história fosse desinteressante para o leitor...

Por muito tempo, me desencorajei, por achar que me encontrava num situação especial, de ter crescido em meio a todas essas pessoas, e depois conheci Michel Foucault, era algo demasiado singular, não interessaria a ninguém. Foi preciso que uma amiga me dissesse: “Você não está falando de Michel Foucault e Jérôme Lindon, você vai contar sobre um amigo, seu pai e suas relações, e isso é universal”.


Em seu livro, se vê o Foucault amigo, o homem. Como você percebe o intelectual e filósofo?

Tento não me meter no que diz respeito ao seu trabalho propriamente dito. Tenho uma posição privilegiada para falar dele. Já havia lido toda sua obra antes de encontrá-lo, era um dos intelectuais que mais admirava. Mas não tenho competência particular para falar sobre isso. Porém observo que o que se passa para os 30 anos de sua morte não tem nada a ver com o que ocorreu nos 20 anos. Ele estava muito menos na moda há dez anos. Penso que cada vez mais há um reconhecimento da importância de seu trabalho.


Michel Foucault mudou sua vida. Houve outros encontros na sua vida que tiveram semelhante impacto?

Tento falar de todos no livro. São as pessoas que mais contaram na minha vida. Michel tinha algo de especial. Quando o encontrei, em 1978, já era Michel Foucault, célebre mundialmente, tinha 52 anos, e eu 23. Ele representava algo nobre culturalmente, e para mim, sobretudo, um equilíbrio, porque meu pai trazia com ele a imagem de Beckett, de Deleuze, Duras. Era preciso alguém forte para contrabalançar isso. Ele foi um fator de equilíbrio considerável. E construiu meus afetos no futuro. Ele que me proporcionou esses encontros.


Como reagiu à sua morte?

Quando ele morreu, fui para o buraco. Veio a ideia de que isso não aconteceria nunca mais outra vez, de que deveria ser menos ambicioso em relação à minha vida. Ele simbolizou minha juventude. E quando ele morre... Há essa frase no livro: “Pensava que era a vida, mas era a juventude”. Hoje posso dizer que minha juventude terminou naquele dia. Me lembro muito bem, dois dias depois era a final do campeonato europeu de futebol de 1984, entre a França e a Espanha. Era a primeira vez que a França ganhava, meu amigo gritou “gol!”, mas eu me dizia que havia coisas mais importantes. Me lembro muito bem do dia de sua morte, quando Daniel (Defert, companheiro de Foucault) me telefonou, fui até o hospital. Era uma outra época. Hoje a Aids não é mais o que era na época de sua morte.


Vários de seus amigos morreram de Aids. Você escapou da doença e também saiu incólume de um período de dependência de drogas ditas duras, como a heroína...

Milagrosamente. Sou um sobrevivente. Por vezes com uma má consciência. Tenho um lado pragmático em relação às coisas, eu me cuidava em relação à Aids. Mas após a morte de Michel passei a ter um cuidado especial. Nunca mais fiz amor sem preservativo. Isso me salvou. Ele foi uma das primeiras pessoas a morrer de Aids na França. Há um livro de Hervé Guibert sobre ele intitulado “O amigo que não me salvou a vida”, e as pessoas que não o leram pensam que se trata de Michel Foucault, o que não é o caso. E no primeiro artigo que saiu aqui sobre meu livro colocaram como título “Um amigo que me salvou a vida”. Isso me comoveu.
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Reportagem  por

Carta: A mi compañero y hermano Rubén Alves


Cochabamba, Bolivia, 22 de Julio de 2014
 
No te conocí en persona, pero te conocí en tus pensamientos, en tu fe y espíritu. Fueron tus escritos que permitieron conocerte, compañero de la vida.En la lectura acompañada por una música andina, donde los sonidos de la quena, las zampoñas y el bombo me servían de fondo, me llenaba del espíritu de tus reflexiones,que estoy seguro que estaban iluminadas por la luz de vida de Dios.

Tus pensamientos sobre los hijos/as del mañana, que nos desafiaban a seguir soñando y no dejar que nos maten nuestra imaginación, nuestros sueños de ver nuestra tierra (Pachamama) llena de vida, amor y relaciones en equidad y justicia, es decir en armonía, equilibrio y reciprocidad entre seres vivos y la creación de Dios. Al leerte, me llenaba de esperanza. ¡Cuántas veces te cité en mis sermones y charlas, diciendo que la esperanza: “…es el presentimiento de que la imaginación es más real y que la realidad es menos real de lo que parece. La esperanza es la convicción de que la abrumadora brutalidad de los hechos que la oprimen y la reprimen no han de tener la última palabra”. En esta seguridad de tus pensamientos, seguí caminando, comprometiéndome en la lucha por la construcción de otras realidades.

Aprendí que podía vencer los límites que me ponía la “realidad” y me afirmaba en tu pensamiento:”la vida está preparando el acontecimiento creador que abrirá el camino a la libertad y a la resurrección”.

Cuántas veces, firme en tu pensamiento y en la fe de la victoria de nuestro Señor Jesucristo sobre la muerte, invité a las hermanas y hermanos a moverse al hechizo de la melodía misteriosa y el ritmo que llegaba del mundo que soñábamos para nuestros pueblos y que todos/as tomados/as de la mano bailábamos, porque teníamos fe que íbamos a lograr el triunfo de la vida, la verdad y la vida en su plenitud.

Viviendo en pueblos llenos creencias  que determinan su acción y ética en la totalidad de sus vidas individuales y comunitarias y siendo parte de un pueblo creyente, donde en la montañas, los lagos, los valles y las llanuras, Dios camina y se entrelaza en la vida, podía entender tus pensamientos y reflexiones sobre ese Dios que, a pesar de la racionalidad occidental y su ateísmo, estaba caminado con nosotros y nosotras en nuestros pueblos.

Y  hoy podemos decir que Dios sigue con nosotros y con su hijo Rubén Alves,  quien con su ministerio y sus reflexiones permitió que el pueblo de Dios siga haciendo camino hacia el triunfo total de la vida en plenitud.

Tu amigo y hermano, que te conoció en las profundidades de tu espíritu y pensamiento. Te voy a extrañar, pero tengo la seguridad que estarás caminado otros caminos y algún día, espero caminar esos caminos contigo.

Gustavo
Hermano Iglesia Metodista de Bolivia.
gustavolozam@gmail.com
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Fonte:  http://amerindiaenlared.org/biblioteca/5896/rubem-alves-teologo-de-la-alegria

sexta-feira, 25 de julho de 2014

ESPERO TER SIDO PERDOADO

 
Sabe aquele amigo que você convidou para almoçar em casa e se esqueceu? Chega o dia marcado, ele aparece. O que fazer? Chama a cozinheira, pede que ela faça qualquer coisa. Mas e se ela reclama que não foi avisada e o tempo é pouco para preparar a refeição? Seu amigo está ali. E aí? Oferecer um chá com biscoitos, um cafezinho? Dizer-lhe que venha outro dia? Durante alguns instantes, pareceu que o almoço marcado com o rabino Henry Sobel para este "À Mesa com o Valor" havia naufragado.

Um mal-entendido provocara a confusão que deixaria muito anfitrião de cabelo em pé. Mas Sobel, ficaria evidente ao longo desta entrevista, não é desse tipo. Sentado em uma das poltronas da sala de seu apartamento em Higienópolis, em São Paulo, deixou que convidados, assessores, secretário e cozinheira se entendessem. Limitou-se a informar que seu prato favorito era macarrão com molho de tomate. Em minutos, internet, telefone e "delivery" resolveram o almoço, encomendado ao Jardim de Napoli, uma das mais tradicionais cantinas paulistanas. Só então, observando a movimentação do secretário particular, João Paulo, da assessora Fernanda Arantes, da fotógrafa Ana Paula Paiva e de Ju, a cozinheira, que arrumam toalha, guardanapos de linho rendados, louça e talheres, o rabino comenta: "Vai ser um almoço chique".

A fragilidade imposta pelos 70 anos, que completou em janeiro, não chegou a descaracterizar a figura conhecida de Sobel. Algumas mudanças, porém, acabaram sendo inevitáveis. Os óculos de aro de tartaruga foram substituídos por uma armação moderna e leve. Os fios do cabelo longo e liso, assentados pela quipá bordô, estão completamente prateados. A voz está mais vacilante. Mas, tão logo ligamos o gravador, ele se anima e conta que, nos últimos meses, prepara sua aposentadoria e o casamento da filha, Alisha. "Acho que é o momento mais importante de minha vida."

A aposentadoria será vivida em Miami. No paraíso da terceira idade dos americanos, Sobel pretende ler e ter mais tranquilidade: "Quero ser um espectador. Aqui, sou um participante. Estou um pouco cansado". O casamento de Alisha, em novembro, será celebrado na Hebraica São Paulo com uma festa para mil convidados. "O bom é que é o clube judeu para todos de todas as alas, ortodoxos, conservadores, liberais. Teremos um rabino liberal celebrando o casamento [ele mesmo] e outro que vem dos Estados Unidos, ortodoxo. Vamos celebrar a união de Alisha e Luiz nesse ambiente de pluralismo judaico."

Eles [palestinos] merecem os mesmos benefícios
 que os israelenses temos

Essa divisão entre as correntes do judaísmo sempre esteve presente na vida de Sobel. O único filho do polonês Lazar e da belga Bella, nascido em Portugal e criado em Nova York, abandonou a faculdade de odontologia para ser rabino. Não quis, porém, seguir os passos ortodoxos do pai, respeitadíssimo na comunidade pelos seus estudos do "Talmude", livro sagrado do judaísmo. Escolheu um seminário teológico liberal, o Hebrew Union College de Nova York. Mas não escapou completamente da influência familiar. No doutorado, o calhamaço com 800 páginas de sua tese tratava de um tema tão complexo quanto profundo e digno do pai erudito: "O não existente na lei talmúdica", em hebraico "Davar she ló ba lá olam".

Em linguagem mais simples para leigos, seria uma discussão sobre algo que não existe no presente, mas pode estar aqui no futuro. "Sempre acreditei que havia opções para escolher. Nunca falei isso, mas é mais difícil ser um judeu liberal do que ser um ortodoxo. Existe uma única Torá e há judeus de todos os tipos. Mas na Torá há uma só religião, não duas. O ortodoxo simplesmente segue a Torá. No entanto, o judeu liberal deve escolher o que vai praticar e o que não vai. Deve decidir por si só o que é importante."

Sobel tinha 26 anos quando, já formado e preparado para trabalhar, começou a buscar alguma congregação nos EUA onde pudesse estabelecer-se. O primeiro convite que surgiu, no entanto, oferecia um lugar num país que desconhecia. "Eu, um típico norte-americano ignorante em geografia, nem sequer tinha ideia de onde o Brasil ficava no mapa." A proposta de trabalho numa comunidade judaica tão sólida quanto a que existia em São Paulo e o fascínio pelo desconhecido foram irresistíveis. E, em alguns meses, o rabino-assistente da Congregação Israelita Paulista (CIP), que mal articulava uma frase em português, desconcertava jovens e velhos em sua nova casa.

Com o trabalho resolvido, Sobel precisava de uma casa para viver. Logo encontrou. É o apartamento, comprado há 44 anos, de dois andares no subsolo de um prédio, onde mora até hoje. No primeiro pavimento, vários ambientes, decorados com bom gosto, mas bastante austeridade, compõem a sala. Ao fundo, uma porta de vidro de correr separa um pequeno "living" do jardim. E é ali que será servido o almoço, na mesa de ferro, com tampo de vidro redondo e quatro lugares.
Sentado em uma das poltronas, Sobel continua acompanhando a movimentação provocada pelo almoço improvisado. "Gosto quando vocês tomam conta. Podem fazer o que quiserem." A essa altura, a fotógrafa e a assessora, com a ajuda de Ju, andam pela cozinha, arrumando travessas e escolhendo acessórios. Nada demorou muito. A campainha toca e os pratos chegam. São três porções de linguine ao sugo, um polpettone, pão italiano, queijo ralado e três fatias de torta de limão para a sobremesa. Fernanda busca as quentinhas e "voilà!", como diria Sobel no francês que aprendeu com a mãe. O almoço está pronto e as histórias que Sobel se dispõe a relatar numa conversa de longas pausas e fala vagarosa seguem nessa tarde um pouco fria e bastante cinzenta. "Devo comer agora? Ou continuar respondendo?", pergunta ao ocupar seu lugar à mesa. É comer e contar.

E ele começa pelo telefonema que transformou por completo sua vida. Haviam se passado cinco anos desde que Sobel chegara a São Paulo. Era a manhã de 27 de outubro de 1975. Anos de chumbo da ditadura militar. Na linha, Erich Lechziner, funcionário do serviço funerário da CIP, a Chevra Kadisha, informava ao rabino, que na ocasião estava no Rio, que militares tinham entregado um caixão com o corpo de Vladimir Herzog. O jornalista fora preso e, afirmavam os soldados, se suicidara na cela que ocupara no DOI-Codi, na rua Tutoia, no Paraíso. Segundo a tradição, Herzog deveria ser enterrado na ala dos suicidas do cemitério, voltado de costas para os demais túmulos. Segregado, para sempre, por atentar contra a própria vida. Sobel, que conhecia o filho de dona Zora e marido de Clarice, não quis acreditar na história contada pelos militares. Examinado e arrumado o corpo, também como manda a tradição, Kadisha descreveu que tinha muitas marcas e sinais de tortura.

O rabino afasta os talheres, o prato e relata o ocorrido naquele momento como se tivesse acontecido poucas horas antes: "Era evidente que Vladimir, o Vlado como todos o conheciam, não havia cometido suicídio. Fora assassinado. Como eu poderia permitir que sua família, além do sofrimento com a perda, passasse pela vergonha de enterrá-lo como suicida?" Naquela mesma segunda-feira, Vlado foi enterrado na quadra 146 do Cemitério Israelita do Butantã. Nem perto dos suicidas. Dessa humilhação a família Herzog foi poupada. Mas carregou até março do ano passado a certidão de óbito de Herzog que determinava ter sido o "enforcamento por asfixia mecânica" a causa de sua morte. Para atender ao pedido da Comissão Nacional da Verdade, novo atestado foi lavrado com a verdadeira: "Lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório nas dependências do Segundo Exército DOI-Codi".

A missão do judeu não é tornar o mundo mais judaico. 
É torná-lo mais humano. Judaísmo é um meio 
para um fim maior. 
 Assim como qualquer religião

A decisão do jovem rabino americano fez dele, no dia seguinte ao enterro, um opositor ao regime. E ele desejava fazer mais. Foi procurar d. Paulo Evaristo Arns. A Cúria Metropolitana de São Paulo, sob o comando do arcebispo, era abrigo seguro para presos políticos, cidadãos perseguidos e caçados pela violência do regime. Desse encontro saiu a ideia de realizar um ato ecumênico na Catedral da Sé em homenagem à memória de Herzog. Os celebrantes seriam d. Paulo, o rabino Sobel e o pastor da Igreja Presbiteriana reverendo James Wright.

Às 15 horas da sexta-feira 31 de outubro, milhares de pessoas compareceram ao ato. Parentes, amigos, colegas jornalistas da vida inteira e da TV Cultura, onde Vlado dirigia o departamento de jornalismo quando foi preso, pessoas comuns se misturavam na catedral e na praça da Sé. Sobel narra, com detalhes, em seu livro de memórias "Um Homem. Um Rabino" (Ediouro, 2008), tudo o que se passou naquela tarde: "Quando o ato terminou, a sensação geral era de que todos havíamos sido cúmplices de alguma coisa muito importante para o país. Conseguimos fazer um ato ecumênico pacífico que mobilizou a opinião pública brasileira e marcou uma posição firme: ninguém aguentava mais. A memória de Vlado Herzog e de tantas outras vítimas da barbárie dos militares estava honrada. O regime acusou o golpe".

O ato pacífico marcou profundamente a alma de Sobel. E suas reflexões sobre a paz, a necessidade de buscar uma forma de conciliação entre os homens passaram a ser os objetivos que o mobilizariam nos anos seguintes. "Infelizmente não mobilizam a humanidade", admite, ao falar sobre a última crise que deflagrou nova guerra entre israelenses e palestinos. Àquela altura, sexta-feira passada, o combate já deixara 300 mortos. No começo desta semana, passavam de 600, a maioria civis palestinos e mais de 20 soldados de Israel. "Para que haja paz é preciso recuar. Não existe a paz que desejamos sem recuo. Nós, os judeus, devemos compreender que os palestinos são filhos de um único Deus. Eles merecem os mesmos benefícios que os israelenses temos."

Para o rabino, a origem deste último confronto está no radicalismo cultivado por Benjamin "Bibi" Netanyahu, chefe do partido conservador, o Likud, e primeiro-ministro de Israel, e por Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina. Numa terra disputada palmo a palmo há milênios, com Jerusalém encravada no meio, o fanatismo, aponta Sobel, vira uma tragédia. "Temos que deixar esse radicalismo de lado. A missão do judeu não é tornar o mundo mais judaico. É torná-lo mais humano. Judaísmo é um meio para um fim maior. Assim como qualquer religião. O fim maior é fazer este mundo melhor."
Ana Paula Paiva/Valor 
Sobel em casa: “Para que haja paz é preciso recuar. 
Não existe a paz que desejamos sem recuo”
 
Embora tenha dito que o espaguete com molho de tomate era seu prato preferido, o rabino mal toca na comida. A assessora Fernanda preferiu não almoçar. Fotógrafa e repórter também comem pouco. Já a torta de limão, encomendada para a sobremesa, faz sucesso. Sobel bebe um pouco do refrigerante, fixa os olhos azuis no interlocutor e prossegue falando sobre os obstáculos a uma paz duradoura na região. Lembra-se das conversas que teve com o papa João Paulo II. "Tive com João Paulo II longas e produtivas conversas." Sobel foi o único representante brasileiro a participar da comitiva dos 14 rabinos que elaboraram o texto que permitiu à Santa Sé reconhecer o Estado de Israel.

Amanda, a mulher de Sobel, está em casa, mas prefere deixar o marido sozinho na entrevista. Quando se conheceram, nos EUA, o rabino já morava no Brasil. Ele gosta de contar que a viu, pela primeira vez, numa piscina. Amanda vestia um biquíni laranja e foi, como se costuma dizer, amor à primeira vista. Estão casados há 38 anos. Nos últimos meses, ela, entre outras tarefas, se dedica a escrever os mil convites que serão enviados para o casamento da filha, Alisha. "Por motivos óbvios estou muito feliz e apreensivo. Mas Luiz, o noivo, é um ótimo rapaz. É tranquilo", diz Sobel.

A refeição propriamente dita acabou. Sobel volta para a poltrona e fala do livro que acabou de lançar pela editora Alaúde. São textos de palestras, artigos e prédicas reunidos sob o título "Sobel - 40 anos de Liderança Espiritual". Também fala entusiasmado do documentário "Henry Sobel, Luz e Sombras de um Rabino", que será lançado no dia 5, na Congregação Brasileira. Realizado pela Rede Cultura e dirigido por Helio Goldsztejn, o documentário mostra a vida do rabino e depoimentos de pessoas que fizeram e fazem parte da vida dele. Entre elas, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, vizinho de prédio e amigo de longuíssima data.

O rabino não costuma tomar café depois do almoço. Fará uma exceção nessa tarde. Faltam poucas horas para o começo do "shabat". Na religião judaica, esse é o nome do dia dedicado ao descanso semanal. Começa no pôr do sol de sexta-feira e termina no anoitecer do sábado. Durante esse período, os judeus não podem fazer quase nada que signifique trabalho. Nem mesmo tarefas singelas ou cotidianas como apertar o botão do elevador no prédio. "Meu pai me perguntou muitas vezes qual era a razão de eu ser liberal. A ortodoxia dos meus pais era bonita, linda. Morávamos em Nova York ao lado do rio Hudson, num bairro judaico. Já naquele tempo eu percebi que queria fazer as coisas como eu achava, não como meu pai achava. E se eu não quisesse usar um chapéu? Eu via judeus ortodoxos com chapéu irem à sinagoga três vezes por dia. A ortodoxia era uma imposição", comenta. "Nunca quis isso. Dou muito valor à autonomia. Por isso virei um rabino liberal. Não apertar o botão do elevador na sexta ou no sábado não era meu mundo. A vida é muito maior do que apertar ou não o botão do elevador no 'shabat'", afirma o filho único do comerciante de diamantes.

Nunca escondeu certa rebeldia. Protestou contra a Guerra do Vietnã, na década de 60, esteve em Woodstock e sempre gostou de manifestar suas opiniões e de viver tudo intensamente, sujeito aos ganhos e perdas.

E, em meio a tanta intensidade, Sobel não escapou de armadilhas. Em março de 2007, o homem que presidiu o rabinato da Congregação - a maior autoridade no país em assuntos da religião judaica - foi preso em flagrante pelo furto de cinco gravatas numa loja da grife Louis Vuitton, em Palm Beach. Tratar do assunto ainda é constrangedor. Condenado pela Justiça americana, cumpriu a sentença de trabalhos comunitários e hoje está quite com a justiça dos homens. Mas ainda paga uma pena consigo mesmo e com membros da comunidade que o excluiu do cargo quando o furto se tornou público. "O rabino é humano, portanto falível. Mas confesso que até hoje não sei exatamente o que me aconteceu. Tenho certeza de que eu estava fora de mim mesmo, provável que fosse por causa dos remédios para a depressão que eu tomava naqueles tempos. Pedi perdão e espero ter sido perdoado."

Foram dias cruéis para Sobel. Paparicado pelos salamaleques de autoridades e poderosos, passou a ser ignorado, evitado e desconvidado. Sobel está emocionado e, é visível, cansado. De repente, lembra que nessa sexta-feira, 18 de julho, seu pai completaria mais um aniversário. As reminiscências o levam para os tempos do menino Henry, em Nova York. "Sinto muita falta dos meus pais."

E, como eram esses pais, além da religião sobre a qual tanto se havia falado no almoço? "Meu pai era muito sério. Minha mãe, não. Era charmosa, alegre. Gostava de cantar, dançar. Você sabe que eu era o parceiro de dança dela?" A repórter, então, quer saber quais músicas eram as preferidas. Sobel pensa uns instantes e diz que gostava muito dos salmos. Para mais um pouquinho, volta a pensar e começa a cantar: "Non... rien de rien. Non... je ne regrette rien. Ni le bien... qu'on m'a fait. Ni le mal, tout ça m'est bien égal".

A sensação é de que, naquele instante, é possível ouvir os acordes da canção imortalizada na voz de Edith Piaf, "Non, Je ne Regrette Rien". Sobel e a mãe ouviam o disco e cantavam a música todas as sextas no começo do "shabat". Diferentemente do que diz a letra, o rabino afirma arrepender-se de muitos atos. "Não só das gravatas. Mas vou tentar só lembrar do bem que me fizeram. Do bem que eu fiz. O restante será tudo igual."
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Reportagem Por Monica Gugliano | Para o Valor, de São Paulo
Fonte: Valor Econômico online, 25/07/2014