sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A CINEFILIA NA ERA DA INTERNET


O que têm em comum o fechamento da videolocadora da esquina de casa, em São Paulo, e o lançamento nos EUA daquela que será a última edição do mais popular dicionário de filmes do planeta? Primeiro, a mesma razão: ambos modelos de negócio foram transformados em cinzas pela internet.

Localizada em Higienópolis, a HM Home Video já fazia parte do cotidiano do bairro quando para cá me mudei no começo dos anos 2000, em dois movimentados endereços, de um total de quatro lojas da rede. A matriz que eu frequentava reunia cerca de 15 mil títulos, com um perfil diferenciado, apostando tanto nos últimos grandes lançamentos dos estúdios hollywoodianos quanto numa coleção de clássicos do cinema, filmes de arte, documentários e títulos nacionais. O único similar paulistano é agora a 2001 Video.

Com suas amplas coleções de Buñuel e Kurosawa, Bergman e Fellini, John Ford e Billy Wilder, para ficar em poucos exemplos, era natural encontrar rotineiramente na HM Home Video com cinéfilos como o diretor Carlos Reichenbach (1945-2012). O fechamento da segunda locadora do bairro, há seis meses, já acendera o sinal amarelo. Um mês atrás, uma placa de “Passa-se o Ponto” jogava a toalha.

“Mantivemos aberto muito além do limite”, confessou-me na semana passada um dos sócios, Hermínio Paschoal Filho, em meio à liquidação de cópias que levou compradores a esvaziar num par de dias as estantes meticulosamente preenchidas durante 27 anos. “Foi como uma nuvem de gafanhotos”, me disse a gerente, Magali Hamaoka.

Em 2007, o fim das atividades em lojas físicas da sucursal brasileira da gigante americana Blockbuster, o que no final do ano passado repetiu-se nos EUA, foi o primeiro grande símbolo do fim de uma era. Uma nova forma de consumo impôs-se rapidamente no mercado, por meio de operadoras de streaming digital de filmes como a Netflix e a multiplicação dos canais de TV por assinatura e suas crescentes plataformas digitais.

No fecho de uma bela crônica na “Folha” em 18 de agosto passado, Leão Serva foi certeiro em destacar uma dimensão para além da cinematográfica do fechamento da locadora: “como será a vida sem locadoras, esse espaço público de afeto que se esvai”? Seu texto lembrou-me um comentário com a sensibilidade habitual de Fernando Gabeira num de seus primeiros livros após a volta ao Brasil, quando indagava quem faria, no balanço da repressão e do exílio, o inventário dos afetos perdidos, dos encontros, beijos e abraços para sempre brutalmente inviabilizados.

No incessante cotidiano das metrópoles contemporâneas, com a esfera do trabalho invadindo ininterruptamente o cotidiano privado por meio da vida 24 horas online dos smartphones e tablets, somado ao severo agravante no caso brasileiro da violência urbana disseminada, videolocadoras e livrarias representam oásis de sociabilização. Reencontros casuais e interações com desconhecidos quebram a rigidez das agendas e dos restritos círculos de amigos, familiares e colegas de trabalho. Com a progressiva desativação destes pontos de encontro, impera cada vez o enclausuramento em torno do novo totem: as grandes e pequenas telas frente às quais nos isolamos dentro de casa.

Do ponto de vista da cultura cinematográfica, sem temer soar como um dinossauro reclamão, tampouco sou otimista frente a aparentemente avassaladora oferta online. Creio que perdemos tanto em diversidade quanto em qualidade.

Nem mesmo a Netflix americana, que desembarcou na França nesta semana, apresenta um cardápio minimamente comparável a de uma videolocadora antenada com o público mais cinéfilo. Não apenas por razões legais, éticas e estéticas, o acervo online de cópias piratas tampouco representa uma alternativa. Além disso, por melhor que seja sua conexão com a internet e mais avançado seu “home theater”, tenho dúvidas de que a curto prazo teremos por aqui uma experiência como espectador tecnicamente próxima a hoje possível com as cópias em blu-ray.

Deve-se também à internet a extinção do “Movie Guide” anual do crítico americano Leonard Maltin. Aquela que será sua última edição, com 1632 páginas e cerca de 16 mil resenhas breves, acabada de ser lançada nos EUA (Signet, US$ 16,44). Sua primeira edição datava de 1969, quando Maltin contava apenas 18 anos. Em 1978, seu dicionário de filmes tornou-se bienal e, em 1986, um evento editorial a cada começo de outono americano.

“Uma geração inteira cresceu acostumada a buscar toda sua informação em seus celulares ou computadores”, explicou Maltin em entrevista a Pete Hammond, um dos tradicionais colaboradores do guia, publicada sintomaticamente no site “Deadline Hollywood”. “Não são estes os consumidores potenciais de livros físicos de referência. Nossas vendas declinaram radicalmente nos últimos anos”.

Nada que surpreenda, com a facilidade de pesquisas online em sites especializados como o IMDb, gerais como Wikipedia e numa infinita blogosfera. Maltin já adiantou que não incluirá o “Movie Guide” nesta onda, pois seu estilo de “resenhas e informações concentradas” foram desenvolvidas para o formato livro. “A internet tem um imperativo diferente e regras distintas”.

São mais sutis as as razões para lastimar-se o fim do “Movie Guide”. Como espectador cotidiano e crítico profissional, eu preferiria continuar combinando os dois modelos de pesquisa, somando a hierarquização subjetiva do guia de papel à multiplicidade informativa da internet. Perde-se online, por outro lado, uma vantagem colateral: a leitura aleatória, com o correr dos olhos pela mesma página impressa, dos verbetes para outros filmes que não aquele especificamente pesquisado.

Uma última razão, reconheço de pronto, é eminentemente pessoal: a bibliofilia. Sou fascinado pela fisicalidade do objeto livro, pelo contato tátil com o papel, pelo ritual da virada de páginas. As videolocadoras podem estar condenadas mas espero que se cumpra uma profecia do crítico americano Harold Bloom: “Não acho que apenas a conveniência, mas a aura que envolve o livro impresso jamais desaparecerá”.
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 * É um crítico de cinema, jornalista, curador e escritor brasileiro.
Imagem da Internet
Fonte: http://etudoverdade.com.br/br/noticia/1414-A-Cinefilia-na-Era-da-Internet

A FRONTEIRA DE OUTUBRO


Folhapress 
"Marina tem repetido a ideia de governar com 
os homens de bem. 'Homens de bem' é um 
conceito ingênuo, mas também perigoso"
 
Liderada por candidatas que fizeram carreira política longe das máquinas partidárias dos Estados, a corrida eleitoral pode marcar uma inflexão importante no presidencialismo, avalia o cientista político e historiador Luiz Felipe de Alencastro. Se Aécio Neves não reverter a queda em intenções de votos, o segundo turno não terá candidato tucano pela primeira vez desde 1989, e o único candidato formado na política dos Estados (após a morte de Eduardo Campos, que também tinha essa origem) estará fora da disputa. Alencastro observa que Marina Silva se formou politicamente na luta ambientalista e no período em que foi ministra do governo Lula. Em sua opinião, aquela possibilidade tenderia a reforçar o federalismo no país, reduzindo o peso dos Estados mais importantes na formação de futuros eventuais presidentes, e abriria caminho para uma renovação política.

Em entrevista ao Valor, Alencastro criticou a ausência da política externa como tema de debate entre os candidatos à Presidência. Após o empenho do governo de Luiz Inácio Lula da Silva para expandir a presença do Brasil na geopolítica global, sua sucessora recuou, disse e deu-se um "apagão". Também falou sobre a ascensão de Marina Silva nas pesquisas, o significado de episódios de racismo e as manifestações de rua do ano passado.

Alencastro retornou ao país neste mês, após uma carreira como professor de história do Brasil na Universidade Sorbonne (Paris IV). O Centro de Estudos do Brasil e do Atlântico Sul, que dirigia, associado à sua cátedra, está sendo transferido para o Brasil. Terá sede na Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, onde Alencastro é professor titular. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: Temos a perspectiva, pela primeira vez desde 1989, de um segundo turno sem o PSDB. O que isso significa?
Luiz Felipe de Alencastro: O presidencialismo no Brasil mudou. O presidencialismo paradigmático é aquele em que os presidentes costumam sair de uma base estadual. É assim nos EUA e foi assim no Brasil antes da ditadura. Juscelino foi prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas Gerais. Jânio Quadros, prefeito e governador de São Paulo. Aécio Neves é de Minas, base regional. Se ele ficar fora do segundo turno, teremos Marina Silva e a presidente Dilma Rousseff, que não vêm desse paradigma. Os Estados desapareceriam como centro da política, algo que vem desde a formação do Brasil como Estado nacional. A contrapartida será abrir o quadro para uma renovação muito forte da política brasileira, como já se vê pelo fenômeno extraordinário de termos duas mulheres disputando a Presidência, uma delas negra. Isso dá prova do dinamismo da política brasileira.

Valor: Além da subida de Marina, um efeito da morte de Eduardo Campos foi a redução drástica do índice de indecisos.
Alencastro: Dilma vai para o segundo turno sem reserva de votos. Se, no quadro anterior, a eleição fosse para o segundo turno, uma parte dos votos de Campos ia para Dilma. Agora, os votos do Aécio vão todos para Marina. Não ter essa reserva é um problema grave para Dilma. Quanto a Aécio, os estragos em sua campanha, com o descolamento de cabos eleitorais no interior e a rarefação das fontes de financiamento, me parecem irreversíveis, apesar da recente melhora em intenções de voto.

Valor: Depois do impulso inicial, a subida de Marina parece ter estagnado, reabrindo o leque de possibilidades.
Alencastro: É importante ter um segundo turno. O Brasil é um país complicado e merece essa discussão. No primeiro turno, como se diz, candidatos são eliminados. O presidente é escolhido no segundo. Marina promete reduzir o Estado, mas também se empenharia na política social, o que é contraditório. Mas me preocupa o fato de ela não ter sido capaz de montar um partido político. Ela vem de um fiasco inicial que o destino mudou de maneira espetacular, o que certamente reforçou nela a ideia da mão do destino, mas sua própria base política, e agora a organização do programa de governo, está mostrando que há contradições.

Valor: Marina tem sido criticada por voltar atrás em várias posições. Isso afeta o eleitorado?
Alencastro: Marina tem repetido a ideia de governar com os homens de bem. "Homens de bem" é um conceito ingênuo, mas também perigoso. De repente, durante o governo, ela descobre que seus assessores não são homens tão de bem como pensava, porque ninguém sabe bem o que é isso. O que Marina vai fazer? Essa expressão passa também a ideia de um país sem conflito, sem grupos sociais com visões profundamente divergentes. É despolitizante. Ela vai ser presidente de um país dividido, com interesses conflitantes. Isso é normal num país complexo. Um país onde os interesses não se exprimam no jogo institucional ou é ditadura ou é um país passivo diante do Estado.

Valor: Não haveria uma despolitização anterior? Dilma, por exemplo, foi eleita como gerente, e não por causa de habilidades políticas.
Alencastro: Por que Lula decidiu sozinho, impôs, não teve convenção, nem nada. É claro, já tem uma despolitização. O PT foi decapitado também. Hoje, o puxador de voto do PT em São Paulo é o Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians. Não tem liderança política. O mensalão decapitou o partido. Não surgiu outra liderança com experiência política. A única liderança que apareceu foi o [Fernando] Haddad, e ainda dando cotovelada para abrir espaço dentro do PT.

Valor: Ainda assim, a conquista da Prefeitura de São Paulo é considerada uma grande vitória para o PT.
Alencastro: A eleição de Haddad em 2012 desequilibrou a política nacional, porque está ligada a uma mudança. Imediatamente, colocou Eduardo Campos na corrida sucessória, rompendo com o PT. Campos viu que vinha uma nova geração e ele não seria o candidato natural à sucessão de Lula. Se Haddad fizer dois bons mandatos de prefeito, ganha notoriedade nacional. Por isso o cerco em cima dele, as ações nos tribunais contra o IPTU progressivo.

"O puxador de voto do PT em São Paulo é o ex-presidente do Corinthians. Não tem liderança política. 
O mensalão decapitou o partido"

Valor: O eleitorado conservador parece ter visto em Marina Silva uma tábua de salvação quando o PSDB entrou em crise.
Alencastro: É um desastre para o Brasil a derrocada do PSDB, um partido de governo, que tem a experiência do Estado. É por isso que nunca houve aliança entre PT e PSDB. A polarização, que parece arcaica, expressa o fato de que os dois partidos têm uma concepção diferente do Estado, e por isso não se aliam. O PMDB e outros partidos se alinham com todo mundo porque não têm concepção nenhuma.

Valor: Por que o eleitor conservador precisa de tábua de salvação? Não tem um quadro próprio capaz de gerir o país?
Alencastro: Isso é exemplarmente demonstrado na declaração do Agripino Maia (DEM-RN), coordenador da campanha de Aécio, quando diz que o principal objetivo é levar o tucano ao segundo turno e, se não puder, tudo contra o mal maior, que é o PT. Essa frase é rústica, uma forma primária de fazer política. Qual é seu programa de governo? É tudo contra o PT. O Clube Militar expressou um sentimento semelhante recentemente.

Valor: Marina pode ser classificada como anti-PT?
Alencastro: Marina diz que não faz política tradicional, mas foi muito hábil. Logo que saiu candidata, ela disse: "Não vou me candidatar a um segundo mandato". Essa foi a regra que Aécio tinha exigido de Campos. Os dois se declararam contra a reeleição e foram criticados, mas para eles era fundamental. Era a chance de um herdar os votos do outro no segundo turno e depois passar a chance ao fim do mandato.

Valor: Não seria um acordo fácil de romper?
Alencastro: Sim, mas o interessante é que Marina fez o mesmo acordo sem dar declarações tonitruantes contra a reeleição. Fez a politicagem mais eficaz, e com toda a razão. Mas não se recusa ao jogo político de jeito nenhum.

Valor: Pelo que o senhor está dizendo, ela anunciou que seu mandato vai ser um tampão.
Alencastro: O que é uma grande ilusão, porque, fora do governo, o PT vai ser um grande partido de oposição. Vai desabar aqui e lá, mas vai se reestruturar. Marina é uma liderança carismática vinda de um partido tão pequeno que não conseguiu se viabilizar. Ela se instalou num partido maior, que não é seu. Esses ingredientes estavam presentes nas crises de 1961 e 1992. Por isso, não me parece absurdo lembrar Jânio Quadros e Fernando Collor.

Valor: O governo Dilma mexeu em vários pontos da economia, como a redução dos juros, as concessões na infraestrutura e a desoneração da indústria, sem que houvesse progressos reais. O arsenal se esgotou?
Alencastro: A política de juros falhou e isso foi fundamental para o resto afundar. Mas algumas coisas estão andando, como o pré-sal. Fala-se muito da Petrobras, mas a produção aumenta regularmente. A ferrovia Norte-Sul vai destravar o interior, que terá acesso ao mar. Vamos, finalmente, ter ferrovias. Os aeroportos deram certo. O governo errou muito com a taxa de retorno das rodovias. Travou tudo. Quando soltou, nos aeroportos, foi adiante. Outro erro é que Dilma continua na política anticíclica, que era boa quando os preços das exportações estavam altos. Não podia continuar, muita gente avisou, e agora o ministro Guido Mantega, que perdeu a credibilidade há tempos, transmite mensagens de otimismo inapropriadas. O papel do ministro não é fazer "wishful thinking".

Valor: A política externa tinha ganhado em importância com Lula, que se esforçou para elevar a posição internacional do Brasil. O governo Dilma parece ter voltado atrás nessa estratégia.
Alencastro: Dilma provocou um apagão na política externa. Colocou como ministro das Relações Exteriores alguém com quem ela não se entendia, o [Antonio] Patriota. Quando foi aos EUA, em abril de 2012, chegou lá e o Congresso estava em recesso. Fechado. Nem a imprensa brasileira, que era contra Dilma, se deu conta de que ela foi lá durante um recesso: como o Itamaraty organizou a visita assim? É como chegar a Brasília no mês de janeiro. Por outro lado, ela reagiu muito bem ao não ir na visita de Estado americana. Dilma reagiu nesse embalo, mas não tem uma política articulada. Coisas como a criação do banco dos Brics, por exemplo, já eram questões antigas. Dilma nunca deu uma entrevista coletiva para correspondentes estrangeiros sobre política externa, separando os grandes assuntos, como fazem em outros países.

Valor: Correspondentes estrangeiros têm manifestado estranheza com a ausência da política externa nos debates presidenciais. O senhor tem a mesma impressão?
Alencastro: A grande lacuna do debate é a política externa. O primeiro parceiro comercial do Brasil é a China e ninguém aqui sabe nada sobre a China. Há poucos especialistas em China no Brasil. Demorou 40 anos para aparecer o ensino da África aqui, quando já estava na cara que os portugueses iam dar com os burros n'água no começo dos anos 1960 e que esses países lusófonos estariam em contato com o Brasil de novo. Espero que não demore tanto para estudarmos a China.

Valor: Como lhe parece a política externa nos cálculos políticos dos candidatos?
Alencastro: Não conta nada. Mas o presidente da República é chefe da sexta maior economia do mundo, está no G20 e toma decisões inclusive sobre casos como o da Argentina, país que está acuado por um juiz de segunda instância nos EUA. Aécio, por exemplo, não tem a menor noção do tema, nunca abriu a boca a respeito, não fez uma viagem ao exterior. Fernando Henrique Cardoso tinha uma rede internacional por causa da universidade e Lula, por causa do movimento sindical. Naturalmente, há jornais e aparelhos políticos europeus querendo se aliar a conservadores brasileiros e dariam espaço para alguém que chegasse lá. Não há uma foto de Aécio com conservadores europeus.

Valor: E quanto a Marina?
Alencastro: É a mesma ausência de articulação. A bandeira do meio ambiente, em que o Brasil tem posição de destaque, com a defesa da Amazônia, é um tema de interesse mundial e ela é uma militante de base. Foi convidada na Olimpíada de Londres para desfilar, foi a única brasileira. Há gente no mundo todo interessada no que ela tem para dizer, mas ela não coloca em debate a política externa.

Valor: O eleitor não se interessa por política externa, os candidatos tampouco, o governo menos ainda...
Alencastro: O país sofre com isso. É uma questão de desinteresse e incompreensão. Dilma tinha um posto-chave no governo Lula, não podia ter deixado o tema tomar esse rumo. Quando [o embaixador] Roberto Azevedo foi eleito presidente da Organização Mundial do Comércio, vários países votaram nele porque era o Brasil de Lula, e houve gente que reclamou porque ela não ligou para agradecer. O Brasil arrancou a presidência da FAO, da OMC, Olimpíada, Copa do Mundo, por quê? Porque estava presente e ativo.

Valor: Uma crítica diz respeito à recusa em fechar tratados bilaterais de comércio.
Alencastro: Isso é para ser comido em fatias. Os tratados, hoje, se organizam em bloco. O Brasil é muito pequeno, viraria aperitivo de grandes. A Europa e os EUA estão organizando o Tratado do Atlântico Norte. A China está organizando a Ásia e engole parte da América Latina. O Brasil podia jogar no Atlântico Sul, na África, destravar o Mercosul. A alternativa de acordo bilateral é boa para o México, uma economia reflexa da economia americana.

Valor: O senhor fez uma célebre defesa das cotas raciais nas universidades, no STF, em 2010. Como avalia o que ocorreu de lá para cá?
Alencastro: Na época, argumentava-se que as cotas criariam conflitos. E não há conflito. Há mais conflito com o trote do que com alunos negros. Os estudantes receberam essa novidade pacificamente. Tem sido um sucesso. A coisa mais visível para quem não morava no Brasil, progressivamente, é a presença da população negra em postos de classe média.

Valor: Como interpreta o xingamento racista ao goleiro Aranha, do Santos, e a expulsão de estudantes mineiros que protagonizaram um trote racista?
Alencastro: Isso é típico. Indica que a sociedade aceitou que o conflito racial existe. Como no romance "Gabriela, Cravo e Canela", de Jorge Amado. O marido mata a mulher por adultério e não é inocentado: vai preso. Isso é uma ruptura na cultura jurídica machista. Fazer um insulto racista e ser posto diante das consequências penais do ato é novidade. E choca. Cria-se a ruptura na história do direito civil. Como o motorista que pegou 92 anos de cadeia por dirigir bêbado e matar três pessoas. A estupefação da família da moça que fez o insulto racista reflete isso.

Valor: Vivendo em Paris na época, como o senhor acompanhou o que ocorria no Brasil em junho de 2013?
Alencastro: Estamos entrando no pós-colonialismo. A polícia colonial é essa que se conhece, porque quando é para bater em pobre e negro, é pancada pura. A polícia está tendo que aprender, como a África do Sul depois do apartheid. Recentemente, dois policiais militares que se recusaram a atacar uma manifestação, porque poria vidas em risco, foram absolvidos pela Justiça Militar. Tinham sido presos por desobedecer aos comandantes e foram inocentados. Isso é um debate típico do pós-colonialismo., e me lembra [Nelson] Mandela com a polícia do apartheid, dizendo: "Não atirem mais"! Em maio de 1968, isso foi uma virada na França. As manifestações lá são violentas e as pessoas diziam: "A polícia não atira nos filhos da burguesia". Sete anos antes, em 1961, a polícia matara centenas de argelinos durante uma manifestação em Paris, muitos deles afogados no Sena. Era uma polícia colonialista.

Valor: O senhor está dizendo que há um movimento consistente de superação da violência policial no Brasil?
Alencastro: Acho que sim. É um momento histórico, de ruptura. Ter uma polícia que não sai mais atirando é um contraste que deve ser cada vez mais marcado. Diante do Masp [Museu de Arte de São Paulo, na avenida Paulista, lugar usual de manifestações] não morre ninguém, mas dez quilômetros adiante morrem três ou quatro.

Valor: A mudança histórica não viria quando dez quilômetros adiante também não morressem?
Alencastro: Claro, mas criar o contraste nítido é importante. Pense, por exemplo, na emenda constitucional que estendeu os direitos trabalhistas dos trabalhadores domésticos. O substantivo já diz tudo. As domésticas têm sido há séculos sinônimo de exploração de trabalho adolescente, feminino, de negação de direitos sociais. A mudança na lei marca uma etapa de civilização pós-colonial, como a educação dos PMs para controlarem manifestações sem brutalidade.
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Reportagem  Por Diego Viana | Para o Valor, de São Paulo
Fonte: Valor Econômico online, 26/09/2014

Eduardo Sá: “Os bons filhos são aqueles que nos trazem problemas”

 
Para Eduardo Sá, o ideal seria um sistema educativo onde 
as crianças fugissem para as escolas 
AFP/Getty Images

No novo livro, o psicólogo Eduardo Sá faz uma crítica às escolas e aos pais. Avisa que "errar é aprender" e que as crianças não devem ser educadas para se tornarem 
"modelos normalizados".

“Hoje não vou à escola!”, quantas vezes já ouviu o seu filho dizer isto, logo pela manhã, acabado de sair da cama? No início de mais um ano letivo, o psicólogo clínico e psicanalista Eduardo Sá lança um livro cujo título toma emprestado o protesto infantil. A ideia é explicar que as crianças saudáveis são afoitas, curiosas e que, às vezes, não têm vontade de ir às aulas. “Hoje não vou à escola!“, da editora Lua de Papel, chega esta quinta-feira às livrarias.

Porque “a família é mais importante do que a escola e brincar é, pelo menos, tão importante como aprender”, Eduardo Sá fala dos excessos cometidos no ato de educar uma criança e aponta o dedo tanto a pais como a professores. Defende que, depois de um longo dia de trabalho, é obrigatório que a criança brinque (em vez de se lançar aos trabalhos de casa ditos “XXL”). E, antes de um pai exigir boas notas, deve ensinar ao filho valores como honestidade e humildade.

A crítica às escolas é clara, ao Ministério da Educação também: “Os diversos governos, desde há vários anos — e com todo o respeito — têm gozado com os pais. Fala-se de uma educação para todos e os jardins-de-infância conseguem ser mais caros do que as universidades privadas”. Mas também destaca os longos períodos de aulas e a pouca importância que é dada a disciplinas como educação física e musical. A solução passa, pois, por criar, em conjunto, um sistema educativo onde as crianças fujam para a escola em vez de fugir dela.

Mas o também professor da Universidade de Coimbra e do ISPA, além de autor de livros virados para a saúde familiar e educação parental, deixa ficar ainda o aviso: os pais não devem viver em função da agenda social dos filhos. A consequência pode resvalar para um divórcio a prestações, até porque o mais importante na vida, diz, são as relações pessoais. “Pais mal-amados, por melhores pessoas que sejam, são sempre piores pais”.

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Capa do livro – D.R.

A escola é, como diz no livro, “o mundo secreto onde os nossos filhos habitam”. O que quer dizer com isso?
Eu tenho medo que estejamos a fazer das crianças uma super produção dos pais, mais do que propriamente dar espaço para elas possam crescer. Preocupa-me, em primeiro lugar, que não tenhamos uma ideia precisa da mais-valia que representa o jardim de infância. Que os pais imaginem que se trata de uma espécie de atelier de tempos livres, das 9 às 17h, e não o vejam como instrumento indispensável a todo o crescimento: tem mais-valias a nível do corpo, da sensibilidade, da expressão… Um bom jardim-de-infância é meio caminho andado para uma escolaridade tranquila. Depois, as crianças não precisam de estar tanto tempo na escola para aprenderem. Mais tempo de escola não é, obrigatoriamente, melhor tempo. Pelo contrário, as crianças precisam de muito mais tempo de recreio. Crianças mais empanturradas em conhecimento são crianças que pensam menos. Temos de perceber o que queremos, efetivamente, da escola. Se queremos, ou não, uma linha de jovens tecnocratas de sucesso. Acho ótimo que possamos ir por aí, mas jovens assim não são pessoas singulares, são produtos normalizados. E era muito bom que as pessoas percebessem que aquilo que se fala aí pomposamente como mercado vai escolher as pessoas singulares, criativas.

Trata-se de conhecimento em detrimento do pensamento?
Continuamos a favorecer um sistema educativo que premeia fundamentalmente os miúdos que repetem aos que recriam. É um bocado esquizofrénico, quase, porque nós castigamos os que copiam e premiamos os que repetem como se as duas coisas não fossem faces de uma mesma moeda. Temos de pensar muito bem que tipo de estratégia queremos para que as crianças, ao mesmo tempo que aprendem, sejam capazes de ser afirmativas e sensíveis. Depois, é fundamental que se perceba que a família é mais importante do que a escola e que brincar é, pelo menos, tão importante como aprender.

Que equilíbrio sugere entre brincar e trabalhar?
A partir do momento em que as crianças chegam a casa, estão obrigadas a brincar. Brincar faz bem à saúde e é obrigatório brincar todos os dias. É natural que, se as crianças chegam tarde a casa, os pais queiram despachar os trabalhos e utilizem a fórmula “primeiro fazes os trabalhos de casa, depois brincas”. Devia ser ao contrário, porque assim descontraem.

Qual o papel do pai na aprendizagem de um filho?
Os pais deviam ser a verdadeira entidade reguladora das escolas. Há pais que se anulam perante algumas atitudes muito pouco sensatas de professores, seja em relação aos trabalhos de casa, a comentários ou até estratégias pedagógicas. Não gosto de pais que se intrometem de forma abusiva na vida da escola, mas também parece grave que haja aqueles que se anulem. É importante que nós assumamos que a escola tem um tempo que deve ser gerido, no essencial, pelos professores e deve ter nos pais uma entidade reguladora fantástica. Depois, é preciso fazer o resto: porque à parte de todos aqueles tempos, para além do razoável, muitas vezes as crianças chegam a casa e ainda têm não sei quantas atividades extracurriculares; muitas têm trabalhos de casa em formato XXL.

É uma crítica tanto ao professor como ao pai?
Também. Trabalhos de casa em formato XXL, que se fazem entre o banho e o jantar, já com as crianças muito cansadas…pergunto-me qual será a mais-valia ou o objetivo deles. A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola. Não sou radicalmente contra os trabalhos de casa, mas era bom que o trabalho fosse ir ao supermercado com a mãe, ou com o pai, e fazer os trocos (e outras coisas do género). Ou seja, trazermos a escola da vida para dentro da escola. Acha que as crianças vão aprender com os trabalhos de casa aquilo que não aprenderam na escola?

Nestas circunstâncias, o que pode um pai exigir de um filho?
O pai deve começar por exigir que o filho seja honesto e humilde, algo que, muitas vezes, não o faz. A humildade é uma coisa que faz muito bem à saúde, porque ajuda-nos a aprender com os erros. Tenho medo que estejamos a criar um mundo francamente batoteiro, que torna as crianças debilitadas em relação à frustração. Nós, às vezes, somos poucos tolerantes para com os erros das crianças e esquecemo-nos que errar é aprender. Depois de as crianças serem honestas e humildes, acho importante que elas sejam afoitas, mas que, ainda assim, estejam autorizadas a errar. Uma criança que não erra não é um bom aluno, é uma criança que se vai fragilizando à conta de boas notas.

O que seria, então, uma escola ideal?
Não é preciso ser uma escola ideal. Uma escola onde as crianças tivessem, sobretudo, aulas de manhã, seria uma boa escola (somos animais com ritmos biológicos muito precisos e aprendemos em função deles; somos mais inteligentes de manhã do que a seguir à hora de almoço). Uma escola que tivesse, inevitavelmente, recreios maiores e onde a parte da tarde fosse preenchida com atividades que ajudem as crianças a serem expressivas, como educação física ou expressão dramática. Se as crianças não forem expressivas, não sabem pensar. É muito bom que as pessoas tenham noção disso, que vivemos num mundo estranho onde o número é mais credível do que a palavra; a nossa saúde mental depende do bom uso que fazemos da palavra.

Eu adoraria que nós fossemos capazes de, em conjunto, organizar um sistema educativo onde as crianças fugissem para a escola. Os diversos governos, desde há vários anos — e com todo o respeito — têm gozado com os pais. Fala-se de uma educação para todos e os jardins-de-infância conseguem ser mais caros do que as universidades privadas. E os livros, os livros, custarem aquilo que custam… Só governos que andam absolutamente distraídos face à realidade e que não têm noção do que é ter filhos entre os zero e os dez anos.
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Eduardo Sá – D.R.

Porque razão escreve que os bons filhos não são os que tiram melhores notas?
As crianças saudáveis não têm 5 a tudo. Ao contrário do que os pais pensam, as crianças saudáveis são acutilantes, curiosas, têm a vista na ponta dos dedos e perguntam “porquê”. É tão estranho que as crianças, até entrarem nas escolas, estejam constantemente na idade dos “porquê” e, assim que entram, parecem sair precipitadamente dela — a escola devia ser quem mais incentiva o “porquê”. Os pais devem, no fundo, ter a noção de que as crianças saudáveis podem não perceber de uma matéria, gostar dela ou até não gostar de um professor. Eles não podem aceitar a ideia de que crianças saudáveis são as que têm sempre um comportamento irrepreensível. Isso não é razoável, nada na vida é assim. Os bons filhos são aqueles que nos trazem problemas, porque nós aprendemos à medida que os resolvemos. Às vezes, os pais parecem criar os filhos na expetativa que estes não lhes deem problemas — crianças que não o fazem são, invariavelmente, adultos infelizes. Não tenho nada contra os alunos que tiram boas notas, mas gostava que os pais fossem igualmente exigentes. Isto é, que quisessem muito que os filhos tivessem boas notas na escola, como filhos, como colegas, irmãos, netos…

Costumo dizer, tentando ser provocatório, que tornamo-nos pais com o segundo filho. Com o primeiro mistura-se tudo: a infância que tivemos e a que queríamos ter tido. Os filhos mais velhos passam sempre muito, porque, às vezes, os pais colocam expetativas exorbitantes sobre eles — mais parecem viver confinados a um guião. Se calhar não é por acaso que os filhos mais velhos são os “certinhos oficiais” de uma família e os mais novos são os rebeldes. Preocupa-me que não se dê espaço para ser-se filho e ser-se criança. É inquietante e estúpido. Crescer é uma receita razoavelmente simples: dar o mais possível de colo, um q.b de autoridade e o mais possível de autonomia.

As crianças estão cada vez menos autónomas?
Sim, estão. E as crianças autónomas são expeditas, afoitas, sentem, pensam e fazem. Passividade e paixão não casam.

Os pais sofrem por antecipação pelo facto de os filhos irem para a escola?
Sofrem, porque eles dão mais importância à escola do que esta merece. A escola é fantástica, mas os pais têm de perceber que é fantástica por vários motivos: pelo que se aprende nas aulas, no recreio e no caminho para a escola. Há pais que, cada vez mais, preferem que os filhos entrem na escolaridade obrigatória aos sete anos para que os meninos tenham mais um ano para serem crianças; acham que a infância acaba quando os filhos entram na escola, o que diz tudo. Portanto, as crianças saudáveis são aquelas que, às vezes, se levantam e dizem “hoje não vou à escola”.

Qual a importância da vida social para uma criança?
Acho uma delícia quando os pais recomendam aos filhos (mais velhos) para ter cuidado com os namoros. Primeiro está o namoro e, depois, a escola. A vida ocupa espaço. Namorar é das coisas que ocupa mais tempo, bem como as relações de amizade; aquilo que é importante na vida são as relações pessoais. É ótimo que os pais deem importância à vida social dos filhos, mas que não se intrometam nela. É grave quando os pais, à custa da vida social dos filhos, não tenham fins de semana. Mais importante são as relações amorosas dos pais. A agenda social dos filhos ajuda a que, muitas vezes, estes se divorciem. E pais mal-amados, por melhores pessoas que sejam, são sempre piores pais.

Há pais que se anulam neste processo?
Há. Claro que a fatura vem logo a seguir. Isto é como na política, nunca há almoços grátis. Há pais que prescindem de uma vida para serem unicamente pais. É um divórcio a prestações.

Voltando à sala de aula, o que é uma criança hiperativa?
Acho que a Direção-Geral de Saúde devia fazer uma campanha pública porque parece existir uma epidemia atípica. Acho importante que constatemos as dificuldades das crianças, mas que não nos ponhamos a medicar com mão leve como se elas tivessem de ser irrepreensíveis.  Uma criança com várias horas de aulas, poucas de recreio e pouca atividade física é seguramente mais distraída. Isso significa que ela tenha algum defeito ou que, na sua ingenuidade, os pais e os professores, pela má gestão que fazem, vão contribuindo para essa dificuldade? Preocupa-me muito que, em Portugal, as crianças tenham cada vez menos atividade física e preocupa-me ainda mais que haja ministros da Educação e ministérios que achem que a educação física seja uma disciplina de classe B, quando comparada com a matemática ou o português — não me choca nada que se possa reprovar o ano com negativa a educação musical e a educação física. Acho que estas pessoas não deviam ser ministros da Educação. O Ministério da Educação, nestas circunstâncias, devia fechar para balanço. As crianças que têm mais atividade física pensam melhor e são mais atentas. Há turmas em colégios de Lisboa em que se contam pelos dedos das mãos as crianças que não estão medicadas, como se isto não tivesse efeitos secundários.

Que tipo de consequências estamos a falar?
Aquilo que parece uma mais-valia, a longo prazo é uma limitação.
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Reportagem por Ana Cristina Marques
Fonte: Site de Portugal: Observador, 25/09/2014

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Media: «Uma rede de pessoas» nas Jornadas Nacionais de Comunicação Social

Cónego João Aguiar Campos (AE)
Cónego João Aguiar Campos (AE)
O diretor do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais explica o tema das Jornadas Nacionais da Comunicação Social - “Uma rede de pessoas” – que resulta da mensagem do Papa Francisco para o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais (01 de junho 2014) e destaca o que na sua opinião se pode esperar dos dias 25 e 26 de setembro de 2014, na casa Domus Carmelli, em Fátima, que vão ser enriquecidos com o testemunho do diretor do Centro Televisivo Vaticano, o monsenhor Dario Edoardo Viganò.

Agencia ECCLESIA (AE) – “Uma rede de pessoas” é o tema que este ano é a proposta para o encontro anual de profissionais da comunicação social. Que tema é este e o que é que se pode esperar de um tema e de dois dias também de proximidade?
Padre João Aguiar (JA) – O tema consiste em glosar no fundo a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que já vivemos.

O Papa Francisco diz-nos que as redes não são única e exclusivamente um conjunto de fios, não são meramente nem fundamentalmente uma tecnologia mas precisam de ter pessoas que falam, pessoas que se calem para que o outro fale portanto, pessoas que escutam, pessoas que se aproximam para ouvir a confidência e pessoas que se aproximam confidentes. Por isso, ele faz o sublinhado da ternura, diz-nos que precisamos de ter ternura nas redes.

Eu espero uma participação significativa e ativa, não apenas de comunicadores do âmbito da comunicação da Igreja mas comunicadores em geral porque isto de estar próximos, porque isto de irmos ao encontro, de não explorar mas ouvir, porque isto de ajudar a refletir não é uma questão religiosa mas de humanidade.
 
AE – No primeiro dia estão destinados dois painéis, um sobre jornalismo descartável e outro sobre média e cultura de encontro. Este primeiro painel talvez seja algo polémico?
JA – Se repararmos no modo como estamos a praticar o jornalismo digital, o jornalismo na rede, há algum conforto e algum desconforto. Conforto pela velocidade, pela abrangência e universalidade mas, na minha perspetiva, também há algum desconforto: notamos que hoje qualquer pessoa que tenha possibilidades de comunicar já pensa que está a fazê-lo e o jornalista profissional também cai muitas vezes numa tentação de desvalorizar a sua própria capacidade de interpretação, de leitura, de mediação. O que queremos no futuro é uma informação sem mediação.

O que queremos no futuro é este caldeirão de efervescência - onde parece que tudo vale o mesmo, onde se afirma e desmente no mesmo segundo -, ou continuamos a considerar que tem de haver reflexão, que tem de haver capacidade de leitura, que tem de haver interpretação, se quisermos dizer isto de outra maneira, que tem de haver profissionalismo.

É muito fácil dizer: ‘mande-nos os vídeos das suas férias, mandem-nos fotografias da tempestade, mandem isto e aquilo’. Depois também é preciso perceber se o que nos mandam é realmente objetivo, se é desta tempestade ou é de outra e se aquele concerto que emocionou multidões afinal não tem mais de 10 anos.
 
AE – Existe aqui um fator que há uns anos no jornalismo não era tão premente e que agora se vê que é o tempo. A velocidade a que as coisas acontecem e as fotografias/vídeos aparecem quase no segundo a seguir…
JA – Há uma frase que é muitas vezes afirmada: “a presa é inimiga da profundidade”. De facto, hoje sabemos eventualmente muitas coisas, saboreamos muito poucas. O direto é efetivamente uma paixão, mas é preciso saber o que é que deu origem a isto que estamos a viver e que consequências pode ter.
Por exemplo, um jogo de futebol - estamos a vivê-lo em direto e podemos estar a discutir se foram ou não corretos os critérios da convocação; a seguir, de acordo com a evolução do próprio resultado, somos capazes de estar em cima da temperatura efervescente do acontecimento a debater se o treinador merece ou não merece continuar. Tudo isto é efetivamente análise e se nos pronunciarmos à medida que as situações vão acontecendo podemos ter opiniões gasosas ou líquidas, mas dificilmente teremos opiniões sólidas, consistentes.
 
AE – As Jornadas Nacionais de Comunicação Social são dois dias para parar e para refletir e para ajudar. No segundo dia vem a Fátima o monsenhor Dario Edoardo Viganò, diretor do Centro Televisivo Vaticano, com o tema “Papa Francisco e a cultura do encontro: o poder das imagens”. O que é que se espera?
JA – Espero essencialmente um testemunho de proximidade. Nesta cultura do encontro, e aliás em toda a comunicação do Papa Francisco, há uma insistência na proximidade, sair ao encontro do outro, estar vizinho.
Como diretor do Centro Televisivo Vaticano, este homem é uma testemunha privilegiada desta forma de comunicação do próprio Papa Francisco. Eu acho que o Papa não tem uma teoria da comunicação, é ele próprio comunicação, no que diz, no que cala, nos gestos, nos sorrisos, nas prioridades, nas metáforas e por isso tenho muita curiosidade em ouvir alguém que vive este dia-a-dia do Papa.
Desmontar e ao mesmo tempo ajudar a compreender esta simplicidade franciscana de Francisco, que não quer dizer nem pobrezinha, nem desprezível, mas que quer dizer uma transparência muitíssimo grande: não é o que diz, ele é essencialmente o que faz. E, nesse estilo de comunicação, o testemunho e alguma confidência ou inconfidência, o monsenhor Viganò poderá ser para nós todos um privilégio de revelação e de leitura.
 
AE –Fala-se em diálogo, encontro, solidariedade, o Papa escreveu tudo isto na sua mensagem. Olhando para o futuro, são estes os sentimentos que fazem falta na comunicação, quer na Igreja em Portugal, quer na própria sociedade?
JA – Sendo um desafio para todos, é essencialmente também um desafio para os crentes, para os cristãos, para os católicos: pôr ética na comunicação, pôr alma na rede, sentimentos nas palavras. Temos de pôr amizade, futuro e esperança em tudo aquilo que dizemos. Não nos basta dizer as coisas, temos de explicar e mostrar aos outros as razões, as causas da nossa alegria, do nosso acreditar no homem, no nosso acreditar que a história tem um sentido, na nossa falta de medo ao corpo, ao toque, ao abraço, ao olhar porque tudo isto e a comunicação dos gestos e das palavras que não perguntam outra coisa se não como estás e não, às vezes, porque é que vieste aqui.

Reparemos que na mensagem o Papa Francisco apresenta como modelo de proximidade e de trato o samaritano. O samaritano não perguntou aquele homem caído na margem da estrada: “Então, como é que chegaste a este estado? Correu-te mal o assalto?”. Porque podia ser um salteador a quem correu mal, o outro ser mais forte do que ele. Não perguntou o que é que se passava, viu o que se passava. Talvez essa conversa fosse para ter dali a oito dias, quando ele já estivesse em condições de contar, se quisesse contar qualquer coisa. Nós enchemos o outro normalmente de perguntas ou de perguntas inquisitoriais e poucas vezes perguntamos ao outro: ‘O que é que tu gostarias de me dizer? Então, fala que eu escuto’.
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FONTE: SITE DE PORTUGAL - SN/CB

O COLAPSO DAS SOCIEDADES COMPLEXAS

 José Eustáquio Diniz Alves*

The Collapse of Complex Societies
O livro “The Collapse of Complex Societies” (Colapso das sociedades complexas), de Joseph Tainter, descreve o processo de ascensão e queda das civilizações e mostra que os colapsos ocorrem quando os custos da complexidade superam os benefícios. O livro demonstra que o colapso das sociedades ocorre baseado em quatro axiomas:

1) Sociedades humanas são organizações voltadas para a solução de problemas;

2) sistemas sociopolíticos necessitam de energia para a sua manutenção;

3) aumento da complexidade traz consigo o aumento dos custos per capita; e

4) Investimento em complexidade sociopolítica – como uma resposta à resolução de problemas complexos – atinge um ponto de retornos marginais decrescentes.

Para Tainter, o sistema tende a colapsar quando a introdução de um acréscimo de complexidade em um sistema exige um custo superior ao benefício que ele produz. No caso do Império Romano, o autor verificou que o maior problema enfrentado foi quando os romanos tiveram de sustentar custos muito elevados, apenas para manter o “status-quo”. Tinham de investir enormes somas para resolver problemas de manutenção do Império, sem retorno positivo. Isto reduziu a vantagem de ser uma sociedade complexa. Desta forma, o colapso pode ser definido como “uma rápida redução da complexidade”.

Tainter considera que os estudos arqueológicos possuem implicações contemporâneas, pois sociedades complexas, historicamente, são vulneráveis e podem fracassar. Este fato por si só é perturbador para muitos. Embora o rápido declínio da complexidade tenha sido um ajuste econômico no passado, atualmente, pode ter um efeito devastador, já que nas sociedades altamente industrializadas um colapso implicará em grandes rupturas e perdas, para não mencionar um padrão significativamente mais baixo de vida para todos os sobreviventes .

Na verdade, esta preocupação deve ser estendida para a própria sobrevivência da espécie humana, pois os cenários de colapso contemporâneos, traçados por Tainter em 1988, incluiam:

a) guerra nuclear e mudanças climáticas associadas;

b) aumento da poluição atmosférica, levando à destruição do ozônio, mudanças climáticas, etc.

c) saturação dos padrões de circulação global;

d) esgotamento dos recursos industriais críticos;

e) colapso econômico geral, provocada por uma grande crise financeira;

f) dívidas internacionais, interrupções na disponibilidade de combustível fóssil , hiperinflação e coisas semelhantes.

Embora o livro de Joseph Tainter tenha sido escrito em 1988 ele permanece atual em vários aspectos na medida em que aumentou o grau de complexidade da sociedade atual e há um processo de redução dos retornos econômicos devido ao esgotamento dos recursos naturais, ao aumento da violência e dos conflitos gerados pela desigualdade social. Também diminuem os retornos econômicos em decorrência da depleção do meio ambiente, perda de produtividade do trabalho devido ao processo de envelhecimento populacional e crise financeira devido à redução da taxa de lucro. O pior é que quanto maior é o grau de complexidade maior tende a ser a queda.

A sociedade urbano-industrial, que teve início no final do século XVIII, com o uso intensivo de combustíveis fósseis e a exploração de matérias primas da natureza, se encaixa neste tipo de sociedade complexa. Segundo Ugo Bardi, esgotamento é um termo relativo. Nada desaparece da crosta terrestre totalmente: tudo o que foi extraído ainda existe, mas uma vez extraído é amplamente disperso – em produtos, nos fluxos de resíduos e mesmo na terra, no ar e na água. O problema que estamos enfrentando é que a maioria dos minerais tornam-se gradualmente mais caros para extrair porque os materiais de alto teor foram progressivamente esgotados.

O resultado final é que estamos entrando em uma era de diminuição dos retornos da produção de commodities minerais. O problema é especialmente crítico para os minerais que são o verdadeiro “calcanhar de Aquiles” da sociedade industrial: o petróleo e o gás. Eles são minerais relativamente comuns na crosta da Terra, mas sua extração está se tornando cada vez mais cara, o que provoca a criação de um círculo vicioso de retornos decrescentes. Isso tende a colocar uma carga excessiva sobre o sistema econômico do mundo e é provável que, no futuro, não vamos ser capazes de produzir combustíveis fósseis às mesmas taxas de hoje. Esta é a essência do conceito de “pico do petróleo” que pode trazer junto o colapso da sociedade urbano-industrial, provocando uma grande crise econômica, ecológica e social.

pirâmide de recursos

Segundo Richard Heinberg, lucros decrescentes do petróleo aparecem nos dados financeiros das companhias petrolífera. Entre 1998 e 2005, a indústria investiu US$ 1,5 trilhão em exploração e produção e esse investimento rendeu 8,6 milhões de barris por dia (mb/d) na produção de petróleo adicional no mundo. Mas entre 2005 e 2013, os investimentos da indústria passaram de US$ 3,5 trilhões em exploração e produção, mas este investimento (mais do que o dobro) produziu apenas 4 mb/d. A Energia Retornada por Enegia Investida (EROEI) era de 100 para 1 e caiu para 10 para 1 nos EUA, mostrando que a sociedade complexa dos combustíveis fósseis entrou na fase dos rendimentos decrescentes, caminho que, no passado, levou outras sociedades complexas ao colapso.

Como mostrou Chris Martenson (2014) os próximos 20 anos serão muito diferentes dos 20 anos passados. O ritmo de crescimento econômico deve diminuir muito e os problemas sociais e ambientais devem se agravar de forma crítica. Há vários indícios de que o modelo de sociedade consumista de alta complexidade pode entrar em colapso por redução dos ganhos de produtividade econômica, por agravamento da luta entre pobres e ricos e por uma rápida depleção dos recursos naturais e agravamento das mudanças climáticas.

Infelizmente, diversos forças políticas no Brasil tentam passar a ideia de que o pré-sal é o “passaporte para o futuro” do país. Mas na realidade o pré-sal é o reforço de uma dependência aos combustíveis fósseis que é uma fonte de energia que deve ter seu consumo reduzido, para o bem do meio ambiente e do clima. Os custos da exploração do pré-sal são muito elevados e o Brasil e a Petrobrás estão se endividando para fazer uma aposta muito arriscada e poluidora. Como disse o senador Cristóvam Buarque (20/09/2014):

“Se tudo der certo, em 2036 a receita líquida prevista do setor petrolífero corresponderá a R$ 100 bilhões, aproximadamente R$ 448 por brasileiro, quando a renda per capita será de R$ 27,8 mil, estimando crescimento de 2% ao ano para o PIB. Apesar da dimensão da sua riqueza, o pré-sal não terá o impacto que o governo tenta passar. Explorá-lo é correto, concentrar sua receita na educação é ainda mais correto, mas é indecente usar o pré-sal como uma ilusão para enganar a Nação e como mecanismo para justificar o adiamento de investimentos em educação”.

Desta forma, o Brasil corre o risco de embarcar numa canoa furada. O futuro deve ser pensado em termos de energias alternativas e limpas para minorar os riscos de catástrofe ecológica. Pensando as dificuldades do futuro, William Rees (2014), diz que para evitar o Colapso, é preciso seguir uma agenda de decrescimento sustentável e de relocalização da economia. Mas o mundo está obnubilado pela noção de progresso alimentado pelos combustíveis fósseis. Porém, embora o mito do desenvolvimento ainda seja hegemônico, há cada vez mais pessoas pensando em uma vida mais simples, substituindo a competitividade e o consumismo por um ideal de prodigalidade, como propõe o modelo de simplicidade voluntária.

Como mostrou Christopher Paterson, no blog Nova Economia, existem alternativas de mobilização como a Marcha do Povo pelo Clima organizada por mais de 1.000 organizações que se uniram-se para promover o maior evento da história contra o aquecimento global. No dia 21/09, a mobilização em Nova Iorque reuniu centenas de milhares de pessoas e foi acompanhada por manifestações em grande número de cidades, em mais de 150 países, inclusive no Rio de Janeiro, debaixo de chuva. Por falar em aquecimento global, a Agência Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) divulgou em 19/09 que a temperatura média mundial combinada das superfícies dos solos e dos mares em agosto de 2014, foi de 16,35° C, sendo a maior já registrada para esse mês nos últimos 134 anos. Essa medida superou em 0,75° C o recorde anterior de agosto de 1998. O ano de 2014 caminha para ser o mais quente desde o início da Revolução Industrial e Energética.

A catástrofe climática é um dos fenômenos mais visíveis, mas é apenas um fenômeno que faz parte de um conjunto de problemas complexos provocados pelo modelo de desenvolvimento econômico hegemônico no mundo. No longo prazo, quanto maior é o progresso humano, maior é o regresso ambiental. Os direitos da natureza estão sendo violados com a degradação se tornando irreversível.

Como diz Chomsky: “É a primeira vez na história humana em que temos a capacidade para destruir as condições mínimas para sobrevivência decente. Já está acontecendo. Há espécies que estão sendo destruídas. Estima-se que vivemos destruição equivalente à de há 65 milhões de anos, quando um asteroide colidiu com a Terra, extinguiu os dinossauros e grande número de outras espécies. A destruição, hoje, é de nível equivalente àquele. De diferente: o asteroide somos nós. Se alguém nos está vendo do espaço, deve estar atônito. Há setores da população global tentando impedir a catástrofe global. Outros setores tentam apressá-la. Veja bem quem são uns e outros: os que tentam impedir a catástrofe total são os que nós chamamos de primitivos, atrasados, populações indígenas – as Nações Originais no Canadá, os aborígenes australianos, pessoas que ainda vivem em tribos na Índia. E quem acelera a destruição? Os mais privilegiados, os chamados ‘avançados’, os letrados, as pessoas cultas e educadas do mundo” (Chris Hedges, 2014).

Ou seja, o progresso e o desenvolvimento humano tornaram-se as maiores ameaças à natureza e à biodiversidade. O rumo atual da civilização é insustentável e a complexidade do atual modelo está aumentando os custos e reduzindo os benefícios, jogando a economia em uma grande armadilha sem bases ambientais e sociais de sustentação.

Referências:

Joseph Tainter, The Collapse of Complex Societies, Cambridge University Press, 1988
Ugo Bardi. The Age of Diminishing Returns, Resilience, 18/04/2014
William Rees. Avoiding Collapse: An agenda for sustainable degrowth and relocalizing the economy, CCPA, 06/2014
Robert W. Merry. Rome and America: A Shared Fate? July 4, 2014
Chris Hedges. Noam Chomsky, Sócrates dos EUA, 20/06/2014
Ron Patterson, Collapse is Inevitable. Peak Oil. July 19, 2014
Cristovam Buarque. O tamanho do pré-sal, O Globo, 20/9/2014

*José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
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Fonte: EcoDebate, 24/09/2014

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

99 doses de Nietzsche

 99 doses de Nietzsche
Publicado no Brasil pela editora Sextante, “Nietzsche para Estressados” é um pequeno manual que reúne 99 máximas do gênio alemão e sua aplicação a várias situações do dia a dia. No livro, cada capítulo é iniciado por um aforismo de Nietzsche, seguido de uma interpretação atual feita por Allan Percy, autor da compilação.

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 1844, na cidade alemã de Röcken. Escreveu centenas textos críticos sobre religião, moral, cultura contemporânea, filosofia e ciência, exibindo uma predileção por metáfora, ironia e aforismo. Seu legado filosófico até hoje não perdeu o poder de inspirar.

“Aos 25 anos Nietzsche já era professor de filologia clássica. No entanto, sua atividade docente foi interrompida em 1870, quanto estourou a Guerra Franco-Prussiana. Nietzsche participou do conflito como enfermeiro, mas foi obrigado a abandonar Guerra por causa de uma disenteria, da qual nunca se recuperou totalmente. Obrigado a se aposentar prematuramente por conta de sequelas da doença, Nietzsche viveu na Riviera francesa e no norte da Itália, lugares que considerava ideais para pensar e escrever. Sozinho e frustrado por suas obras não alcançarem o sucesso desejado, foi vítima de seus primeiros acessos de loucura em 1889, quando morava em Turim e estava praticamente cego. Morreu em 1900, depois de longas temporadas em clínicas psiquiátricas.”

Neste post, reunimos os 99 aforismos compilados por Allan Percy.

1 — Quem tem uma razão de viver é capaz de suportar qualquer coisa.
2 — O destino dos seres humano é feito de momentos felizes e não de épocas felizes.
3 — Nós nos sentimos bem em meio à natureza porque ela não nos julga.
4 — Precisamos pagar pela imortalidade e morrer várias vezes enquanto estamos vivos.
5 — O valor que damos ao infortúnio é tão grande que, se dizemos a alguém “Como você é feliz!”, em geral somos contestados.
6 — Nossos tesouro está na colmeia de nosso conhecimento. Estamos sempre voltados a essa direção, pois somos insetos alados da natureza, coletores do mel da mente.
7 — A palavra mais ofensiva e a carta mais grosseira são melhores e mais educadas que o silêncio.
8 — Nossa honra não é construída por nossa origem, mas por nosso fim.
9 — O homem que imagina ser completamente bom é um idiota.
10 — As pessoas que nos fazem confidências se acham automaticamente no direito de ouvir as nossas
11 — Precisamos amar a nós mesmos para sermos capazes de nos tolerar e não levar uma vida errante.
12 — Só quem constrói o futuro tem o direito de julgar o passado.
13 — Alegrando-se por nossa alegria, sofrendo por nosso sofrimento — assim se faz um amigo.
14 — Não devemos ter mais inimigos que as pessoas dignas de ódio, mas tampouco devemos ter inimigos dignos de desprezo. É importante nos orgulharmos de nossos inimigos.
15 — O sucesso sempre foi um grande mentiroso.
16 — O homem é algo a ser superado. Ele é uma ponte, não um objetivo final.
17 — Falar muito de si mesmo pode ser uma forma de se ocultar.
18 — As pessoas nos castigam por nossas virtudes. Só perdoam sinceramente nossos erros.
19 — O reino dos céus é uma condição do coração e não algo que cai na terra ou que surge depois da morte.
20 — O homem é, antes de tudo, um animal que julga.
21 — A melhor arma contra o inimigo é outro inimigo.
22 — Os maiores êxitos não são os que fazem mais ruído e sim nossas horas mais silenciosas.
23 — O indivíduo sempre lutou para não ser absorvido por sua tribo. Se fizer isso, você se verá sozinho com frequência e, às vezes, assustado. Mas o privilégio de ser você mesmo não tem preço.
24 — Quem é ativo aprende sozinho.
25 — Nossas opiniões são a pele na qual queremos ser vistos.
26 — Não há razão para buscar o sofrimento, mas, se ele surgir em sua vida, não tenha medo: encare-o de frente e com a cabeça erguida.
27 — A razão começa na cozinha.
28 — O futuro influi no presente da mesma maneira que o passado.
29 — Não deveríamos tentar deter a pedra que já começou a rolar morro abaixo; o melhor é dar-lhe impulso.
30 — A maneira mais eficaz de corromper o jovem é ensiná-lo a admirar aqueles que pensam como ele e não os que pensam de forma diferente.
31 — Toda queixa contém em si uma agressão.
32 — No amor sempre existe algo de loucura e na loucura sempre existe algo de razão.
33 — Quem deseja aprender a voar deve primeiro aprender a caminhar, a correr, a escalar e a dançar. Não se aprende a voar voando.
34 — Quem luta contra monstros deve ter cuidado para não se transformar em um deles.
35 — São muitas as verdades e, por esse motivo, não existe verdade alguma.
36 — A mentira mais comum é a que o homem usa para enganar a si mesmo.
37 — Deveríamos considerar perdido o dia em que não dançamos nenhuma vez.
38 — Há mais sabedoria no seu corpo do que na sua filosofia mais profunda.
39 — Se ficar olhando muito tempo para o abismo olhará para você.
40 — As posições extremas não são seguidas de posições moderadas, e sim de posições contrárias.
41 — Preciso de companheiros, mas de companheiros vivos, não de cadáveres que eu tenha que levar nas costas por toda parte.
42 — Eis a tarefa mais difícil: fechar a mão aberta do amor e ser modesto como doador.
43 — A arrogância por parte de quem tem mérito nos parece mais ofensiva que a arrogância de quem não o tem: o próprio mérito é ofensivo
44 — Todos os grandes pensamentos são concebidos ao se caminhar
45 — Quem não sabe guardar suas opiniões no gelo não deveria entrar em debates acalorados.
46 — Dois grandes espetáculos são muitas vezes suficientes para curar uma pessoa apaixonada.
47 — Quem declara que o outro é idiota fica chateado quando, no final, descobre que isso não é verdade.
48 — Amigos deveriam ser mestres em adivinhar e calar: não se deve querer saber tudo.
49 — Usar as mesmas palavras não é garantia de entendimento. É preciso ter experiências em comum com alguém.
50 — Estava só e não fazia outra coisa além de encontrar-se consigo mesmo. Então, aproveitou sua solidão e pensou em coisas muito boas por várias horas.
51 — A potência intelectual de um homem se mede pelo humor que ele é capaz de manifestar.
52 — Gosto dos valentes, mas não basta ser um espadachim: também é preciso saber a quem ferir. E, muitas vezes, abster-se demonstra mais bravura, reservando-se para um inimigo mais digno.
53 — De que vale o ronronar de alguém que não sabe amar, como um gato?
54 — Para chegar a ser sábio, é preciso querer experimentar certas vivências. Mas isso é muito perigoso. Mais de um sábio foi devorado nessa tentativa.
55 — O cérebro verdadeiramente original não é o que enxerga algo novo antes de todo mundo, mas o que olha para coisas velhas e conhecidas, já vistas e revistas por todos, como se fossem novas. Quem descobre algo é normalmente este ser sem originalidade e sem cérebro chamado sorte.
56 — Quem não dispõe de dois terços do dia é um escravo.
57 — O melhor meio de ajudar pessoas muito confusas e deixá-las mais tranquilas é elogiá-las de forma veemente.
58 — O homem amadurece quando reencontra a seriedade que demonstrava em suas brincadeiras de criança.
59 — Ninguém é tão louco que não possa encontrar outro louco que o entenda.
60 — Na maior parte das vezes que não aceitamos uma opinião, isso acontece por causa do tom em que ela foi manifestada.
61 — Acredito que os animais veem o homem como um ser igual a eles que perdeu, de forma extraordinariamente perigosa, a sanidade intelectual animal. Ou seja: veem o homem como um animal irracional, um animal que sorri, que chora, um animal infeliz.
62 — Antes de se casar, pergunte a si mesmo: serei capaz de manter uma boa conversa com essa pessoa até a velhice? Todo o resto é passageiro num matrimônio.
63 — É muito difícil os homens entenderem sua ignorância no que diz respeito a eles mesmos.
64 — Pobre do pensador que não é o jardineiro, mas apenas o canteiro de suas plantas.
65 — Um poeta escreveu em sua porta: “Quem entrar aqui me honrará. Quem não entrar me proporcionará um prazer”.
66 — A verdade é que amamos a vida não porque estamos acostumados a ela, mas porque estamos acostumados com o amor.
67 — O homem é a causa criativa de tudo o que acontece.
68 — Seus maiores bens são seus sonhos.
69 — Quem não sabe dar nada não sabe sentir nada.
70 — As ilusões são certamente prazeres dispendiosos, mas a destruição delas é mais dispendiosa ainda.
71 — A essência de toda arte bela, de arte grandiosa, é a gratidão.
72 — Não é raro encontrar cópias de grandes homens. E, como acontece com os quadros, a maior parte das pessoas parece mais interessada nas cópias do que nos originais.
73 — Quem não teve um bom pai deve procurar um.
74 — Os poços mais profundos vivem suas experiências lentamente: esperam um bom tempo até saberem o que caiu em suas profundezas.
75 — Quando temos muitas coisas para guardar nele, o dia tem 100 bolsos.
76 — Uma alma delicada se sente mal quando sabe que receberá agradecimentos. Uma alma grosseira se sente mal quando sabe que precisa agradecer a alguém.
77 — Não se ode odiar enquanto se menospreza. Não se pode odiar mais intensamente um indivíduo desprezado do que um igual ou superior.
78 — Quantos homens sabem observar? E, desses poucos que sabem, quantos observam a si próprios? “Cada pessoa é o ser mais distante de si mesmo.”
79 — A guerra emburrece o vencedor e deixa o vencido rancoroso.
80 — Cada mestre não tem mais que um aluno e esse aluno lhe será infiel, pois está predestinado a ser mestre também.
81 — O mundo real é muito menor que o mundo da imaginação.
82 — Se você for magoado por um amigo, diga a ele: “Eu o perdoo pelo que me fez, mas como poderia perdoá-lo pelo que fez a si mesmo?”
83 — A esperança é muito mais estimulante que a sorte.
84 — O que não nos mata nos fortalece.
85 — Quem vê mal sempre vê pouco. Quem escuta mal sempre escuta demais.
86 — Toda vez que me elevo, sou perseguido por um cachorro chamado Ego.
87 — Todo idealismo perante a necessidade é um engano.
88 — Você tem o seu caminho. Eu tenho o meu. O caminho correto e único não existe.
89 — Toda convicção é uma prisão.
90 — Nossa vida nos parece muito mais bonita quando deixamos de compará-la com as dos outros.
91 — As pessoas esquecem de seus erros depois de confessá-los ao outro, mas o outro normalmente não se esquece.
92 — Eis a fórmula da felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma meta.
93 — A melhor maneira de começar o dia é se comprometer a fazer feliz ao menos uma pessoa antes de o sol se pôr.
94 — A simplicidade e a naturalidade são o objetivo supremo e último da cultura.
95 — A vida não é muito curta para que fiquemos entediados?
96 — Não atacamos apenas para machucar o outro, para vencê-lo, mas, algumas vezes, pelo simples desejo de adquirir consciência de nossa força.
97 — Nossas carências são os melhores professores, mas nunca mostramos gratidão diante dos bons mestres.
98 — Quem fica remoendo alguma coisa se comporta de maneira tão tola quanto o cachorro que morde a pedra.
99 — O amor não é consolo — é luz.
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Por Carlos Willian Leite em Colunista
Fonte: http://www.revistabula.com/3127-99-doses-de-nietzsche/

Stephen Hawking: "No hay ningún Dios, los milagros no son compatibles con la ciencia"

 

"No hay ningún aspecto de la realidad fuera del alcance de la mente humana"

El científico mantiene su visió crítica ante la religión

No se puede animar a los jóvenes a estudiar carreras científicas con recortes en el campo de la investigación


Hawking, con su hija Lucy./>

Hawking, con su hija Lucy.

  • Stephen Hawking.
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  • Hawking, con su hija Lucy.
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  • Hawking, con su hija Lucy.
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El científico británico Stephen Hawking ha subrayado en España la importancia de contar con "licenciados con formación científica para garantizar el desarrollo económico" y ha advertido de la dificultad de que los jóvenes opten por carreras científicas si siguen los recortes.

No se puede animar a los jóvenes a estudiar carreras científicas con recortes en el campo de la investigación En un encuentro con el diario El Mundo, Hawking, que esta semana interviene en el Festival Starmus de Tenerife, deja un mensaje para el Gobierno español: "No se puede animar a los jóvenes a estudiar carreras científicas con recortes en el campo de la investigación".

El prestigioso físico inglés, que sufre una enfermedad neurodegenerativa (Esclerosis Lateral Amiotrófica, ELA) desde los 21 años, señala en la entrevista que le gustaría ser recordado por su trabajo en la cosmología y los agujeros negros. Hawking también deja clara su postura sobre la religión: "Antes de que entendiéramos la ciencia, lo lógico era creer que Dios creó el Universo, pero ahora la ciencia ofrece una explicación más convincente (...) no hay ningún Dios. Soy ateo. La religión cree en los milagros, pero estos no son compatibles con la ciencia".

En esa línea, el científico confía en que el hombre terminará entendiendo el origen y la estructura del Universo: "De hecho, ahora mismo ya estamos cerca de lograr este objetivo. En mi opinión, no hay ningún aspecto de la realidad fuera del alcance de la mente humana". Sobre la exploración espacial, Hawking considera que "continuará impulsando grandes avances científicos y tecnológicos" porque representaría un seguro de vida para la supervivencia del ser humano: "Podría evitar la desaparición de la Humanidad gracias a la colonización de otros planetas", opina.

El prestigioso científico, que usa un complejo sistema para comunicarse que activa con sus mejillas, tiene previsto intervenir en dos ocasiones en el Festival Starmus: para explicar su teoría acerca de cómo el Bosón de Higgs podría causar la destrucción del Universo y para hablar de agujeros negros.

(RD/Agencias)
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Fonte:http://www.periodistadigital.com/religion/mundo/2014/09/21/