segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Como se desperta o pior que há em nós

Paul Verhaeghe*
141021-Greed
 Sociedades meritocráticas de mercado corroem autoestima. Estimulam, como defesa, superficialidade, oportunismo e mesquinhez. Tornam-nos “livres” porém impotentes. 
Saberemos reagir?
Temos a tendência de enxergar nossas identidades como estáveis e muito separadas das forças externas. Porém, décadas de pesquisa e prática terapêutica convenceram-me de que as mudanças econômicas estão afetando profundamente não apenas nossos valores, mas também nossas personalidades. Trinta anos de neoliberalismo, forças de livre mercado e privatizações cobraram seu preço, já que a pressão implacável por conquistas tornou-se o padrão. Se você estiver lendo isto de forma cética, gostaria de afirmar algo simples: o neoliberalismo meritocrático favorece certos traços de personalidade e reprime outros.

Há algumas características ideais para a construção de uma carreira hoje em dia. A primeira é expressividade, cujo objetivo é conquistar o máximo de pessoas possível. O contato pode ser superficial, mas como isso acontece com a maioria das interações sociais atuais, ninguém vai perceber. É importante exagerar suas próprias capacidades tanto quanto possível – você afirma conhecer muitas pessoas, ter bastante experiência e ter concluído há pouco um projeto importante. Mais tarde, as pessoas descobrirão que grande parte disso era papo furado, mas o fato de terem sido inicialmente enganadas nos remete a outro traço de personalidade: você consegue mentir de forma convincente e quase não sentir culpa. É por isso que você nunca assume a responsabilidade por seu próprio comportamento.

Além de tudo isso, você é flexível e impulsivo, sempre buscando novos estímulos e desafios. Na prática, isso gera um comportamento de risco, mas nem se preocupe: não será você que recolherá os pedaços. Qual a fonte de inspiração para essa lista? A relação de psicopatologias de Robert Hare, o especialista mais conhecido em psicopatologia atualmente.

Esta descrição é, obviamente, uma caricatura exagerada. Contudo, a crise financeira ilustrou em um nível macrossocial (por exemplo, nos conflitos entre os países da zona do euro) o que uma meritocracia neoliberal pode fazer com as pessoas. A solidariedade torna-se um bem muito caro e luxuoso e abre espaço para as alianças temporárias, cuja principal preocupação é sempre extrair mais lucro de uma dada situação que seu concorrente. Os laços sociais com os colegas se enfraquecem, assim como o comprometimento emocional com a empresa ou organização.

Bullying era algo restrito às escolas; agora é uma característica comum do local de trabalho. Esse é um sintoma típico do impotente que descarrega sua frustração no mais fraco. Na psicologia, isso é conhecido como agressão deslocada. Há uma sensação velada de medo, que pode variar de ansiedade por desempenho até um medo social mais amplo da outra pessoa, considerada uma ameaça.

Avaliações constantes no trabalho causam uma queda na autonomia e uma dependência cada vez maior de normas externas e em constante mudança. O resultado disso é o que o sociólogo Richard Sennett descreveu com aptidão como a “infantilização dos trabalhadores”. Adultos com explosões infantis de temperamento e ciúme de banalidades (“Ela ganhou uma nova cadeira para o escritório e eu não”), contando mentirinhas, recorrendo a fraudes, rogozijando-se da queda dos outros e cultivando sentimentos mesquinhos de vingança. Essa é a consequência de um sistema que impede as pessoas de pensar de forma independente e que é incapaz de tratar os empregados como adultos.

Porém, o mais importante é o dano à autoestima das pessoas. O autorrespeito depende amplamente do reconhecimento que recebemos das outras pessoas, como mostraram pensadores desde Hegel a Lacan. Sennett chega a uma conclusão parecida quando percebe que a questão principal dos funcionários hoje em dia é “Quem precisa de mim?” Para um grupo cada vez maior de pessoas, a resposta é: ninguém.

Nossa sociedade proclama constantemente que qualquer pessoa pode “chegar lá” caso se esforce o suficiente. Isso reforça os privilégios e coloca cada vez mais pressão nos ombros dos cidadãos já sobrecarregados e esgotados. Um número crescente de pessoas fracassa, gerando sentimentos de humilhação, culpa e vergonha. Sempre ouvimos que até hoje nunca tivemos tanta liberdade para escolher o curso de nossas vidas, mas a liberdade de escolher algo fora da narrativa de sucesso é limitada. Além disso, aqueles que fracassam são considerados perdedores ou bicões, levando vantagem sobre nosso sistema de seguridade social.

Uma meritocracia neoliberal quer nos fazer acreditar que o sucesso depende do esforço e do talento das pessoas, ou seja, a responsabilidade é toda da pessoa, e as autoridades devem dar às pessoas o máximo de liberdade possível para que elas alcancem essa meta. Para aqueles que acreditam no conto das escolhas irrestritas, autonomia e autogestão são as mensagens políticas mais notáveis, especialmente quando parece que prometem liberdade. Junto com a ideia do individuo perfeito, a liberdade que acreditamos ter no Ocidente é a grande mentira dos dias atuais e de nossa época.

O sociólogo Zygmunt Bauman resume perfeitamente o paradoxo de nossa era como: “Nunca fomos tão livres. Nunca nos sentimos tão incapacitados.” Realmente somos mais livres do que antes no sentido de podermos criticar a religião, aproveitar a nova atitude laissez-faire com relação ao sexo e apoiar qualquer movimento político que quisermos. Podemos fazer tudo isso porque essas coisas não têm mais qualquer importância – uma liberdade desse tipo é movida pela indiferença. Por outro lado, nossas vidas diárias transformaram-se em uma batalha constante contra uma burocracia que faria Kafka tremer. Há regulamentos para tudo, desde a quantidade de sal no pão até a criação de aves na cidade.

Nossa suposta liberdade está ligada a uma condição central: precisamos ser bem-sucedidos – ou seja, “ser” alguém na vida. Não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos. Uma pessoa muito bem qualificada que decide colocar a criação de seus filhos à frente da carreira certamente receberá críticas. Uma pessoa com um bom trabalho, que recusa uma promoção para investir mais tempo em outras coisas é vista com louca – a menos que essas outras coisas garantam o sucesso. Uma jovem que deseja ser uma professora de primário ouve de seus pais que ela deveria começar obtendo um mestrado em economia. Uma professora de primário, o que será que ela está pensando?

Há lamentos constantes com relação à chamada perda de normas e valores em nossa cultura. Ainda assim, nossas normas e valores compõem uma parte integral e essencial de nossa identidade. Portanto, não é possível perdê-las, apenas mudá-las. E é exatamente isso que aconteceu: uma mudança de economia reflete uma mudança de ética e gera uma mudança de identidade. O sistema econômico atual está revelando nossa pior faceta.
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*Paul Verhaeghe, é PhD e professor sênior da Universidade de Ghent. Ocupa a cadeira do departamento de psicanálise e aconselhamento psicológico. Já publicou oito livros, com cinco traduzido para o Inglês. Sua mais recente, What About Me? A luta pela identidade em uma sociedade baseada no mercado.
Tradução Eduardo Sukys
Fonte:  http://outraspalavras.net/capa/como-se-desperta-o-pior-que-ha-em-nos/

domingo, 26 de outubro de 2014

“Le mythe de la jeunesse porteuse d’avenir s’émousse”, Ludivine Bantigny, historienne

Ludivine Bantigny
Ludivine Bantigny - Photo Jérôme Bonnet pour Télérama 
 
Entretien | Individualistes, peu politisés, en conflit avec leurs aînés… autant de préjugés sur les jeunes dénoncés par l'historienne Ludivine Bantigny. Un entretien qui vient éclairer l'excellent documentaire de David André, 
“Chante ton bac d'abord”.


Propos recueillis par Michel Abescat - Télérama n° 3379
 
Diffusé dimanche 19 octobre 2014 sur France 2 (et en salles mercredi 22), Chante ton bac d'abord, drôle de documentaire en partie chanté, signé David André, saisit cinq lycéens en classe de terminale, durant cette année charnière où l'avenir se dessine. Leurs histoires singulières dressent un attachant portrait de groupe et nous ont donné l'envie de prolonger la photographie, d'explorer à notre tour, au fil de plusieurs numéros, la génération des moins de 25 ans.

Première de ces étapes, notre rencontre avec Ludivine Bantigny, historienne, spécialiste des phénomènes générationnels, qui s'attache à battre en brèches les préjugés accolés à cette jeunesse tantôt portée aux nues, symbole d'espoir et de renouveau, tantôt vouée aux gémonies, inquiétante et dangereuse, à l'instar des « jeunes des banlieues ». La fracture entre les générations n'aurait jamais été aussi grande qu'aujourd'hui. Les jeunes seraient foncièrement individualistes, enfermés dans le monde virtuel, peu engagés, à distance du débat politique. Mais, au fait, pour commencer, parler de « la » jeunesse a-t-il un sens ?

Comment définir la jeunesse ?
C'est difficile, car il n'y a pas de définition universelle de la jeunesse, catégorie fluctuante qui n'existe ni de tout temps ni dans toutes les sociétés. Certaines d'entre elles préfèrent, par exemple, distinguer les « initiés » des « non-initiés », la différence entre les deux groupes n'étant pas forcément fondée sur un critère d'âge. D'un point de vue social, c'est tout aussi compliqué, car la jeunesse n'est pas une notion homogène. C'est pourquoi je préfère parler « des » jeunes pour insister d'emblée sur leur diversité sociale, socioprofessionnelle ou socioculturelle.

Cela dit, on peut avancer quelques critères de définition. La biologie, par exemple, critère apparemment simple et naturel, qui permettrait de situer la jeunesse entre la puberté et le moment où le corps a fini de grandir. Encore faut-il avoir conscience que l'âge de la puberté a beaucoup varié historiquement. Au XVIIIe siècle, les premières règles apparaissaient vers l'âge de 16 ans en moyenne. Aujourd'hui, c'est environ 12 ans. Les rituels sociaux peuvent également permettre de définir la jeunesse. Longtemps, le certificat d'études ou la communion solennelle marquaient le passage de l'enfance à la jeunesse, qui se terminait avec le mariage ou le service militaire. Mais ces passages rituels ont beaucoup évolué, certains ont même disparu.

Définir la jeunesse n'est décidément pas simple. D'autant plus que nous assistons aujourd'hui à des évolutions sociologiques qui compliquent encore la question. L'effet Tanguy, par exemple, du nom du film d'Etienne Chatiliez, un phénomène d'extension de l'adolescence, observé depuis les années 80-90, provoqué par la massification et le prolongement des études et les difficultés d'entrée sur le marché du travail. Du point de vue de l'âge, aujourd'hui, la jeunesse commencerait ainsi vers 12-13 ans et se terminerait vers 22-25 ans, selon les individus.

“La jeunesse n’existe
vraiment que depuis
les années 60.”


Vous disiez que la jeunesse n'avait pas existé de tout temps…
Elle naît véritablement au moment où elle peut se vivre comme telle, quand les jeunes ne sont plus plongés, dès la sortie de l'enfance, dans le monde des adultes. En particulier dans le monde du travail comme c'était encore le cas dans les années 50, quand les jeunes devenaient ouvriers ou employés à 14 ans. La jeunesse n'existe vraiment que depuis les années 60, quand la scolarité se prolonge, que les jeunes se retrouvent entre eux et partagent une culture de pairs, qui leur est propre, via des supports qui leur sont consacrés.

Les jeunes, socialement, sont divers, mais la précarisation ne les concerne-t-elle pas tous ?
Depuis les années 70 et les crises économiques successives, les jeunes sont la catégorie la plus touchée par le chômage, qui apparaît plus tôt qu'on ne le dit généralement. La crainte de ne pas trouver de travail, la peur du déclassement existaient déjà en 1968, l'ANPE [Agence nationale pour l'emploi, ndlr] a d'ailleurs été créée en 1967, ce n'est pas anodin. Mais la situation depuis s'est aggravée, pour en arriver à ce que j'appelle le « préjudice de l'âge », c'est-à-dire ce moment où l'on finit par considérer comme normal que les jeunes, en raison même de leur âge, soient précaires, voués aux stages à répétition, à l'intérim, à la flexibilité, aux horaires singuliers comme ceux de la restauration rapide ou des plates-formes téléphoniques, qui en emploient beaucoup.

Aujourd'hui, seuls 25 % des salariés de moins de 25 ans bénéficient d'un CDI [contrat à durée indéterminée, ndlr]. La précarité est généralisée et même intériorisée par cette génération. Reste malgré tout la diversité des situations, selon l'effet de diplôme lié à l'appartenance sociale. Qui a un diplôme demeure à peu près assuré, à terme parfois long, de trouver un emploi. Et qui appartient aux classes favorisées a plus de chance d'obtenir ce diplôme. Soixante-dix pour cent des enfants de cadres et professions libérales passent un bac général. Les enfants d'ouvriers ne sont que 16 %. Le sociologue Pierre Merle et l'historien de l'éducation Antoine Prost parlent à cet égard de « démocratisation ségrégative » : l'école a été démocratisée, mais la distinction sociale est toujours à l'œuvre.

On peut aussi définir la jeunesse par le regard qui est porté sur elle.
Il est double et constant dans son ambivalence, comme deux serpents de mer qui se croisent parfois, mais cheminent le plus souvent en parallèle. Le premier est lié au mythe de la jeunesse régénératrice, qui va redonner de l'espoir, des projets, un avenir à la société. Ce mythe était très puissant, par exemple, sous la Révolution française, on le retrouve tout au long de l'Histoire. Mais il est concurrencé par un autre, celui d'une jeunesse inquiétante, une jeunesse qui mettrait à mal l'ordre social, en cause les valeurs communes de la société. Ce mythe est très présent au XIXe siècle et plus encore au XXe.

On associe les jeunes aux classes dangereuses, appellation attribuée auparavant au prolétariat, la connexion s'opère entre le monde ouvrier, voire les bas-fonds, et les jeunes déviants comme les apaches et plus tard les blousons noirs. On retrouve ce mythe aujourd'hui dans la manière dont on parle, même si cela correspond à une réalité sociale, des « jeunes des cités », des « jeunes des banlieues », comme si les banlieues étaient homogènes. Les révoltes dans les quartiers populaires deviennent des « émeutes de banlieue », distinction qui n'est pas que sémantique mais révèle le regard politique et culturel que l'on porte sur ces jeunes. En revanche, le mythe de la jeunesse porteuse d'avenir s'émousse aujourd'hui, la société a de la peine à imaginer son futur, le devenir des jeunes, marqué par le chômage, est source d'inquiétude.

“Le mythe du conflit
de générations est à
nuancer fortement.”


La fracture entre générations est-elle plus grande aujourd'hui ?
On a beaucoup dit aussi que Mai 68 avait été un mouvement essentiellement juvénile. C'est contestable. En 1968, il y a eu une grève généralisée, toutes les générations étaient concernées. Et, si je remonte à cette époque, c'est pour montrer que cette idée du conflit de générations est une vieille antienne. Certes, je n'ai pas le même usage des réseaux sociaux que mes étudiants, ni le même usage d'Internet, ni la même culture musicale, mais cela ne fait pas une « fracture » générationnelle. « Fracture », « conflit de génération » sont des mots forts, synonymes de clivage, d'opposition, d'hostilité.

C'est évidemment excessif, et les vrais clivages ne sont pas entre générations mais plutôt dans les appartenances sociales, professionnelles, dans les niveaux de diplôme. Ils forment des lignes de partage au sein des jeunes comme de la société tout entière. Pas entre les générations. En 2006, lors du mouvement contre le contrat première embauche (CPE), qui posait la question de la précarisation des jeunes, comme en 2010 lors de la mobilisation contre la réforme des retraites portée par François Fillon – qui apparemment concernait d'abord les plus âgés –, toutes les générations se sont retrouvées dans la rue, et la solidarité était intergénérationnelle. Les études sociologiques montrent la bonne entente, la solidarité au sein des familles, les transferts d'argent des seniors vers les plus jeunes pour les aider à s'installer. Le mythe du conflit de générations est à nuancer fortement.

Les jeunes aujourd'hui ont-ils des valeurs spécifiques ?
Il faut toujours prendre des précautions quant à la notion de « jeunes », qui ne constituent pas, on l'a dit, une catégorie homogène. Mais, globalement, les enquêtes sociologiques montrent plutôt qu'ils partagent les valeurs de l'ensemble de la société. L'attachement au travail, par exemple. Le mariage évidemment a perdu du terrain, l'âge du mariage recule, l'affaissement de l'institution matrimoniale se poursuit, mais l'engagement, la fidélité demeurent des valeurs fortes chez les jeunes, à l'instar de la famille. Ces valeurs sont des constantes et sont observables depuis longtemps. Du point de vue politique, c'est différent. Des enquêtes sociologiques dites longitudinales, dont le principe est d'interroger les mêmes échantillons à intervalles réguliers pour mesurer leur évolution, montrent que la génération qui a « fait » Mai 68, de près ou de loin, a toujours été plus à gauche que la moyenne de l'électorat. A la différence de la génération suivante, qui s'est socialisée politiquement dans les années 80, et s'est montrée moins contestataire.

Et, aujourd'hui, les études, celles par exemple d'Olivier Galland, qui travaille à l'échelle européenne, montrent un retour à la contestation, parfois radicale. Mouvement altermondialiste, mise en cause du système économique, portés par des valeurs de solidarité. L'anticapitalisme, qui avait globalement disparu dans les années 80-90, resurgit. Dans le même temps (gardons-nous de les renvoyer dos à dos), d'autres jeunes se tournent vers le Front national, avec pour valeur principale l'attachement à l'identité nationale. Ces jeunes se recrutent principalement parmi les non-diplômés, mais les observations les plus récentes montrent que cette tendance commence à se modifier. Avec pour conséquence l'apparition de militants du FN, voire de groupes identitaires, sur les campus universitaires.

“Les jeunes sont sur les
réseaux sociaux, avec un
grand souci du partage.” 


Les jeunes sont-ils, comme on le répète, plus individualistes ?
Là aussi, il faut revenir à 1968, qu'on a dit à l'origine de l'individualisme de nos sociétés. C'est un contresens total. Il n'y a rien de plus collectif que cette pensée et ce mouvement. Il faut distinguer, comme le fait la sociologie, individuation et individualisme. L'individuation, c'est pour l'individu le chemin de construction de sa propre émancipation, de son autonomie, mais il demeure ancré parmi les autres. L'individualisme, c'est tout autre chose, le fait, pour un individu narcissisé, de se lancer dans une concurrence exacerbée, une compétition sans frein avec les autres. Les acteurs de 68 cherchaient à penser à la fois l'individu et le collectif, comment se forgent les aliénations dans nos sociétés, comment s'en libérer en tant qu'individu mais aussi par le groupe.

C'est fondamental pour comprendre les sociétés actuelles et les jeunes aujourd'hui. Ils aspirent à l'autonomie, malgré les difficultés socio-économiques, mais ne sont pas individualistes. Grâce aux moyens de communication actuels, ils sont connectés et du coup très socialisés, beaucoup plus que les générations antérieures. Ils sont sur les réseaux sociaux, avec un grand souci du partage, et ces réseaux ne sont pas que virtuels, les amis de Facebook sont aussi, pour une bonne part, ceux que l'on rencontre au quotidien. Pour eux, la valeur de l'individu est associée au groupe et à la solidarité. Même si c'est difficile dans une société qui ne cesse de les mettre en concurrence au nom de la compétitivité.

La fin des années 60, c'est aussi la « révolution sexuelle ». Qu'en est-il aujourd'hui ?
Il faut, là encore, se garder des mythes. Dans les années 70, la virginité au mariage pour les jeunes femmes était encore une valeur ancrée dans une grande partie de la société. A la fin de cette décennie, bon nombre de femmes ne prenaient pas encore la pilule. Mais, avec la contraception et le droit à l'avortement, la sexualité est devenue plus libre, elle s'est déconnectée de l'institution matrimoniale. L'âge moyen du premier rapport sexuel est passé, pour les filles, de 20 ans et 6 mois en 1950 à 17 ans et 6 mois aujourd'hui. Et, pour les garçons, de 18 ans et 8 mois à 17 ans et 2 mois. L'âge a baissé, et les filles sont au même niveau que les garçons. Mais la sexualité n'en reste pas moins contrainte. D'abord par l'idée de performance : de plus en plus d'adolescents découvrent la sexualité par la pornographie, aisément disponible sur Internet, la perçoivent comme un modèle à imiter, générateur de beaucoup d'anxiété. Ensuite et surtout du fait des risques, du sida en particulier à partir des années 80.

Finalement, il y a beaucoup de préjugés à propos de la jeunesse et des générations…
Le sociologue Pierre Bourdieu disait « La jeunesse n'est qu'un mot », signifiant par là qu'il faut se garder d'en faire une catégorie, elle est trop diverse pour cela. Mais elle est aussi un mot, elle existe dans certains discours qui l'instrumentalisent, l'idéalisent ou la stigmatisent, il s'agit de les décrypter. La question est donc pertinente et stimulante, dans la mesure où elle éclaire l'état de notre société.
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Site:  http://www.telerama.fr/idees/le-mythe-de-la-jeunesse-porteuse-d-avenir-s-emousse-ludivine-bantigny-historienne,118047.php

Ludivine Bantigny en quelques dates

1975 Naissance à Lille.
2007 Le plus bel âge ? Jeunes et jeunesse en France de l'aube des « Trente Glorieuses » à la guerre d'Algérie, éd. Fayard.
2009 Jeunesse oblige. Histoire des jeunes en France. XIXe-XXIe siècle, en codirection avec Ivan Jablonka, éd. PUF.
2011 Hériter en politique. Filiations, générations et transmissions politiques (Allemagne, France, Italie xixe-xxie siècle), en codirection avec Arnaud Baubérot, éd. PUF.
2013 La France à l'heure du monde. De 1981 à nos jours, éd. du Seuil.

Jacques Rancière fala à Folha sobre democracia

  Úrsula Passos*
RESUMO Conhecido por seus textos que relacionam estética 
e política, Jacques Rancière tem livro sobre democracia 
lançado no país. Nesta entrevista, explica sua visão de que há 
um saber não especializado, partilhado por todos, que deve 
se opor à pretensão dos que julgam ter direito 
a exercer o poder por saberem mais. 


Jacques Rancière, 74, é um dos discípulos mais conhecidos do filósofo marxista Louis Althusser (1918-90), embora tenha se distanciado do professor, e do próprio marxismo, ao questionar suas interpretações do movimento do Maio de 68 na França. 

Desde então, Rancière tem se dedicado ao estudo das classes operárias -"A Noite dos Proletários" (Companhia das Letras, 1988, esgotado)- e das relações entre política e estética, em que ele defende que todos temos uma capacidade de sentir e aprender. 

Essa capacidade não especializada, apresentada em "O Mestre Ignorante" (Autêntica, 2002), e presente em diversas de suas obras, aparece, no cinema, em sua defesa de uma política do amador, segundo a qual todo e qualquer espectador detém a capacidade de traçar novas vias de pensamento a partir das histórias de sua própria vida e daquelas dos filmes. 

Em "O Ódio à Democracia" [trad. Mariana Echalar, Boitempo, 125 págs., R$29], de 2005, lançado agora no Brasil, o filósofo francês enumera e explica as origens de diversos argumentos segundo os quais a democracia é "uma crise da civilização que afeta a sociedade e o Estado através dela". No discurso dos que odeiam a democracia, escreve ele, o governo democrático "é mau quando se deixa corromper pela sociedade democrática que quer que todos sejam iguais e que todas as diferenças sejam respeitadas". 

É em defesa da democracia como "poder daqueles que não têm títulos ao poder" e contra o "confisco oligárquico do poder" que o filósofo busca retomar, nesse ensaio, princípios democráticos fundamentais, como a escolha do governo por meio de sorteio. 

Ele fala sobre essas e outras questões em entrevista à Folha por telefone de sua casa em Paris. 


Folha - O que é democracia?
Jacques Rancière - A democracia, no senso estrito, é o poder do povo. Porém, se voltarmos um pouco à origem, ela é um poder em oposição aos que pretendem ter o poder: os ricos, os nobres, os sábios etc. Ela é, para mim, um princípio, um poder um tanto excepcional porque, em essência, é o poder daqueles que não têm títulos ao poder, daqueles que não têm nenhuma competência particular para governar, oposto a todas as outras formas que tradicionalmente legitimam o poder, seja pelo nascimento, pela riqueza ou pela ciência. Ela excede toda forma de governo particular. 

O ensaio é de 2005. Hoje, após a crise de 2008, o debate sobre o véu, a reação contra a lei que viria a permitir o casamento gay na França, o que o sr. acrescentaria às ideias do ensaio?
Eu creio que esse ensaio foi preciso em seu diagnóstico. De uma certa forma, ele anunciava aquilo que vimos depois, por exemplo, no caso do véu: uma tendência a estigmatizar as classes menos ricas, menos bem integradas. 

Nós pudemos confirmar essa tendência de legitimação do caráter oligárquico do poder, de todas as novas formas de racismo em nome de uma certa ideia de república, de universalismo, de laicidade. Vimos se confirmar, por um lado, a tendência de confisco oligárquico do poder cada vez mais forte, e vimos também se manter essa espécie de campanha ideológica em nome dos grandes princípios da república, da vida em sociedade, estigmatizando cada vez mais os que estão sem trabalho, os que não têm a mesma cor de pele, os que não têm a mesma religião. 

Podemos dizer, infelizmente, que, de alguma forma, a ofensiva antidemocrática se acelerou muito nesse meio tempo. Uma série de argumentos emprestados da esquerda, da psicanálise, se tornaram argumentos de persuasão reacionários para estigmatizar o máximo possível de pessoas. 

O ensaio trata da acusação de populismo que recai sobre aqueles que atacam o discurso dos especialistas. Como responder a esse tipo específico de discurso de ódio à democracia?
Na América Latina, especificamente, há uma tradição na qual o populismo foi identificado como uma forma de governo. Na França, e na Europa, é diferente. O populismo é uma noção nova, lançada para estigmatizar toda tentativa de reivindicação de um poder real do povo contra o confisco do poder por aqueles que se consideram a elite. Acho necessário resistir ao uso desse conceito e dizer que ele, hoje, é um meio cômodo de legitimar o poder das elites, de seus experts, das finanças internacionais, em nome da capacidade, da competência. Na França, ser populista quer dizer ser de extrema direita. 

É absolutamente necessário resistir a essa argumentação e colocar em evidência uma ideia efetiva de democracia. Por isso que, em "O Ódio à Democracia", eu relembrei alguns princípios democráticos originários, como o fato, por exemplo, de que o verdadeiro governo democrático passa pelo sorteio e por mandatos extremamente curtos. É preciso recolocar em primeiro plano todas as formas em que há um controle verdadeiro que o povo pode exercer sobre aqueles que falam em seu nome e que governam em seu nome. 

O sr. fala de um governo que busca ter o controle sobre a esfera pública. Como o povo pode garantir que o espaço público continue sendo um espaço de conflito e de encontro?
Podemos imaginar formas de constituição que infelizmente não existem em lugar nenhum e que sejam fundadas sobre mandatos curtos, a revogabilidade dos eleitos, assembleias populares, controle dos eleitos na forma de sorteio. Há uma série de medidas constitucionais que permitem o exercício do poder efetivo do povo. 

Como isso não existe hoje, devemos ir por outras vias, que passam pela existência de formas de discussão e de informação que estejam separadas da esfera midiática oficial. Foi o que vimos nas diferentes manifestações pelo mundo, desde a Primavera Árabe até o movimento do 15 de Maio na Espanha, ou os movimentos que aconteceram na Grécia, na Turquia, no Brasil, nos quais, às vezes, partindo de demandas específicas, ou mais ou menos menores, como o caso do jardim em Istambul ou a questão do preço do transporte no Brasil, vimos acordar uma atividade popular autônoma. 

Hoje há uma esperança para a democracia contanto que possam existir formas de organização que sejam a continuação desses movimentos, organizações que sejam autônomas em relação à vida política tal como o Estado a organiza. 

Uma melhora na distribuição de renda pode influenciar os argumentos de ódio?
O poder de todos não é simplesmente o alargamento, o desenvolvimento de uma classe média. Isso pode, por um tempo, favorecer as formas democráticas, mas não necessariamente, como costumam dizer: se há desenvolvimento econômico, há desenvolvimento de uma classe média e então há o desenvolvimento da democracia. Não há evidências disso. 

A democracia é o desenvolvimento de toda uma série de intervenções políticas autônomas e isso não é produzido automaticamente por determinadas formas do desenvolvimento econômico nem de transformações de classes sociais. É muito bom que haja um alargamento da esfera daqueles que possuem a riqueza, mas esses alargamentos são, muito comumente, provisórios. O movimento é um pouco ao inverso, é à medida que há instâncias populares de controle que se pode esperar ter uma melhor distribuição de renda. 

Em "O Mestre Ignorante", o sr. já falava da igualdade que não deve ser um objetivo da democracia, mas um ponto de partida. Como as noções que estavam ali influenciaram as ideias de "O Ódio à Democracia"?
O que está no centro de "O Mestre Ignorante", e que tomei de Joseph Jacotot (1770-1840), é a ideia fundamental de que a igualdade não é um objetivo, mas um ponto de partida a verificar, o que quer dizer que se deve agir na pressuposição de que falamos a iguais, de que agimos com iguais. Tentei desenvolver isso à esfera política pública, dizendo que existe democracia contanto que haja o reconhecimento de uma capacidade de pensar que pertence a todos, e que se opõe a toda capacidade de pensamento que seja especializada. 

O que vemos hoje é o poder dos experts. A ideia da democracia atualiza essa capacidade de todos. Isso não quer dizer que todos participem do governo, isso jamais aconteceu, mas sim que se busca organizar formas de vida coletiva fundadas sobre essa ideia de uma capacidade partilhada, diferente das lógicas tradicionais de partidos revolucionários, de vanguarda, ou fundados na ciência. A política foi pensada como uma forma de governar os ignorantes, e na democracia os que governam não são nem mais ignorantes nem mais sábios que os outros. 

Existe uma relação entre a democracia como regime político e a literatura como regime da palavra, tal como aparece em alguns de seus ensaios sobre literatura em "La Parole Muette" (a palavra muda, Hachette, 1998)?
Não há uma relação completamente direta. O que eu tentei mostrar é que, na literatura, como na democracia, há o poder de uma palavra que não é controlada, que não é a que vem de cima. 

A democracia se funda num tipo de circulação da palavra, na possibilidade de que qualquer um possa se apropriar das palavras que circulam, que possa fazer palavras de ordem para sua própria vida. A literatura no sentido moderno, e principalmente por meio do romance do século 19, se constitui pela supressão de toda hierarquia, do sistema tradicional de "belles lettres" que era fundado na ideia de uma hierarquia de temas, de estilos. Há literatura moderna a partir do momento em que não há mais temas que sejam interessantes e temas que não sejam interessantes, personagens que valem a pena e personagens que não valem a pena; a revolução literária é isso. 

Quando se tenta elaborar um verdadeiro poder do povo na política há a ideia de uma capacidade de qualquer um de sentir, de viver, que é o centro da literatura moderna e que está na origem dessa renovação das formas de literatura. 

Quando trata de cinema, como em "O Destino das Imagens" e "As Distâncias do Cinema" (Contraponto, 2012), o sr. fala de uma política do amador. Essa política pode ser empregada em outras artes?
Acho que há uma especificidade do cinema porque é uma arte que nasceu tardiamente e que não conheceu as formas de organização hierárquicas. Não havia academia de "belo cinema" como as academias de "belles lettres" e a academia de belas artes. Além disso, é uma arte que nasceu como uma curiosidade, uma atração de feiras, então foi desde o começo um objeto não identificado. O que aconteceu é que o cinema foi tragado para a esfera da legitimidade artística, e existe agora uma integração do cinema à cultura elitista e também à cultura universitária. 

Quando falo de uma política de amador, falo de uma política que busca preservar essa espécie de indecisão do cinema, uma abertura a todo público possível. É claro que isso pode existir em todo tipo de arte, se pensarmos no que se passa na música, por exemplo, há cada vez mais indecisão, não se sabe bem o que é vanguarda, o que é popular. Nas artes da performance, do corpo, existe também um tipo de grande partilha entre arte legítima, arte de elite e arte popular. 

Sim, é possível ter uma política de amador, porém ela não dá conta de artes ditas legítimas, as belas artes tradicionais. Mas sempre existiram tipos de apropriação selvagem, de políticas de amador. Há muitas exigências que pesam, mas creio que se pode manter em todos os domínios da arte uma política de amador no sentido de uma política de pessoas que não têm o conhecimento sobre as boas formas artísticas, que não têm o bom critério para julgar e assim por diante. 

Apesar de tudo, a política do amador está em regressão, há uma espécie de tendência à legitimação em todas as artes, de apropriação universitária. Mas é preciso também lutar contra isso. 
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* ÚRSULA PASSOS, 27, é redatora da "Ilustríssima".
Fonte: Folha online, 26/10/2014
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Em francês:  http://www.telerama.fr/idees/le-philosophe-jacques-ranciere-la-parole-n-est-pas-plus-morale-que-les-images,36909.php

Opinião: Nem Aécio nem Dilma; eu fecho com Thoreau

 José Padilha*
Henry David Thoreau escreveu em "Vida sem Princípio": "O que se chama de política é algo tão superficial e desumano que eu sequer consigo imaginar que tenha a ver comigo". 

E depois, em "A Desobediência Civil": "Nenhum homem está obrigado à erradicação de qualquer mal, mesmo que seja o mais terrível deles... Mas todo homem tem a obrigação de limpar as mãos e não dar apoio a mal algum". 

A posição do americano Thoreau (1817-1862), construída a partir de uma concepção individualista e extremada da ética —ele foi preso por não pagar impostos a um Estado que aceitava a escravidão—, é inexistente no Brasil, onde impera um pragmatismo escroto. 

Acho que seria bom se algum político, artista ou intelectual brasileiro assumisse postura semelhante à de Thoreau. Desse ponto de vista, dar apoio a Aécio ou a Dilma, ao PSDB ou ao PT/PMDB, seria dar apoio à desonestidade e à truculência que constituem a campanha de ambos. 

Afinal, dos dois lados existem acordos com políticos desonestos, doadores de campanha para lá de suspeitos (há quem diga que há caixa dois proveniente do desvio de recursos públicos), propagandas eleitorais mentirosas e uma falta de integridade intelectual acachapante. 

Dadas as circunstâncias descritas acima, Thoreau bateria de frente com os artistas e intelectuais brasileiros que fizeram questão de declarar seu voto neste ou naquele candidato. 

Diria que sacrificaram a sua integridade ética e intelectual em função de escolhas medíocres (quaisquer que sejam elas), feitas à margem dos acontecimentos que realmente importam ao país.
DISPUTAS
E que acontecimentos seriam esses? Thoreau era amante do individualismo radical. Ele valorizava, acima de tudo, atitudes advindas do inconformismo ético e moral. À cabeça me vêm dois juízes: Sergio Moro e Joaquim Barbosa. Foram eles que, para horror da nossa classe política, documentaram como a banda toca no governo, no Congresso e nas empresas estatais. 

Pergunto: será que a banda toca do mesmo jeito nos Estados e nos municípios? Será que no Brasil, fornecer para o governo ou para empresas estatais é assinar certificado de suspeição? 

Uma coisa é certa: a cada ciclo eleitoral, seja no âmbito federal, estadual ou municipal, no Executivo ou no Legislativo, há no Brasil uma disputa ferrenha por posições que conferem, para este ou para aquele grupo político, o poder de influir nas decisões relativas aos gastos públicos. 

Disputa-se, sobretudo, o poder de indicar (para cargos-chave) gente especializada em aumentar o "preço" de obras, em receber "kick-back" (propina) de fornecedores e em distribuir recursos via doleiro. É assim que se irriga o caixa dois dos partidos, é assim que se compra apoio político (mensalões) e é assim que se financiam as próximas eleições. 

Tenho a impressão de que, sabedor de tudo isso, Thoreau conclamaria os brasileiros a não comparecer às urnas. Teria a propaganda eleitoral gratuita e os debates do segundo turno como argumentos a favor da sua causa. Perguntaria: "E se os dois lados tiverem razão quando falam um do outro?". 

A quem retrucasse que votar fortalece a democracia, Thoreau responderia: as mudanças não virão desta política, virão de fora –de um processo de desconstrução da mesma, movido por indivíduos sem filiação partidária. 

Serão os juízes, os jornalistas, os intelectuais inconformados que, estimulando a indignação de seus compatriotas, farão a diferença no longo prazo. 

Thoreau escreveu em a "Escravidão em Massachusetts": "O futuro do país não depende de como você vota nas eleições"¦ Depende de que tipo de homem sai da sua casa todos os dias". 

Mas, como somos obrigados a votar, talvez só nos reste mesmo o pragmatismo escroto –a opção de, engolindo nossa convicções éticas, optar pelo mal menor (cada um tem o seu) e associar nossos nomes aos PTs, PSDBs ou PMDBs da vida. 

Se é isso, então vamos lá que hoje é dia de eleição: Marcelo Freixo e cia. fecham com Dilma. Marina Silva e cia. com Aécio. Eu fecho com o Thoreau. E você, fecha com quem? 
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* JOSÉ PADILHA é cineasta, produtor e dirigiu filmes como "Tropa de Elite", "Ônibus 174" e "RoboCop
Fonte: Folha online, 26/10/2014
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As mulheres detestam a guerra, ao contrário dos homens?

 Mulheres curdas
 Em Suruc, na Turquia, mulheres curdas acenam durante o enterro de Xahim Daban, 
uma das curdas que combateu o Estado Islâmico

 A ideia de que a violência está ligada ao gênero masculino é muito difundida, mas infelizmente o pacifismo feminino 
não passa de um mito

Por Catherine Bennett

Apenas seis meses atrás, as autoridades britânicas de contraterrorismo anunciaram uma iniciativa para evitar que jovens britânicos se ofereçam para combater na Síria: recrutar mulheres muçulmanas como detetives amadoras. Naquela altura, estimava-se que entre 200 e 366 britânicos houvessem se apresentado como voluntários para servir ao islamismo radical. A vice-comissária assistente, Helen Ball, a principal coordenadora de contraterrorismo na Grã-Bretanha, explicou ao Guardian o que suas antimilitaristas escolhidas seriam instadas a procurar. "Elas podem ver que seus parentes estão passando mais tempo na internet", disse. "Ou eles podem estar muito nervosos com os acontecimentos na Síria."

Não faria sentido também envolver os homens muçulmanos? Ou havia evidências de que, ao contrário das muçulmanas, eles poderiam se ofender? Embora os acadêmicos já tenham destacado os riscos de se considerar as mulheres muçulmanas uma proteção garantida contra a radicalização, e uma mãe muçulmana, Najma Hafeez, ter dito à imprensa que considerava essa opinião "muito paternalista", as suposições de Ball sobre as mulheres, como basicamente observadoras benevolentes, talvez muito excêntrica para uma oficial de polícia graduada, foram feitas como se fossem evidentes. Talvez ela tivesse razão. Pois, surpreendentemente, esse retrato confiante das mulheres como alimentadoras respeitosas do sexo guerreiro – talvez baseado em conquistas ainda não divulgadas em policiamento maternal – não provocou o nível de indignação pública (como na campanha "Que sapatos sejam sapatos" que hoje é comum quando os fabricantes fazem suposições de gênero sobre, por exemplo, sapatos infantis.

Nenhuma campanha "Que a artilharia seja artilharia" contestou uma declaração de uma conhecida oradora, Sajda Mughal, no lançamento da iniciativa em Manchester, noroeste da Inglaterra. "As mulheres são agentes de mudança, especialmente as mães em casa", disse ela. "São elas que podem alimentar e proteger seus filhos." Samantha Lewthwaite, mãe de quatro e, incidentalmente, a "viúva branca" islâmica, supostamente, segundo essa visão essencialista das coisas, passou pelo mesmo programa de dessexualização que Lady Macbeth.

Enquanto o movimento "anti-cor-de-rosa" ganhava força, quaisquer dúvidas sobre o esquema de Ball tinham maior probabilidade de enfocar suas supostas provocações à espionagem e deslealdade do que sua fé – ainda mais duradoura que a de Disney, e ainda maior que a campanha Melhor Unidos [contra a secessão da Escócia], amiga das donas de casa – no poder da diferença sexual.

Para ser justo com as autoridades antiterroristas, a convicção de que as mulheres são naturalmente avessas a conflitos ainda é compartilhada por muitos políticos e pensadores destacados, e também por nosso próprio Austin Mitchell. Ele recentemente se preocupou, em público, sobre os riscos representados pela gentileza feminina para o interesse nacional – e, por implicação, o risco que o poder político representa para a gentileza feminina. As mulheres, concluiu ele, são "menos inclinadas a discutir grandes temas, como: devemos invadir o Iraque?".

Muitas vezes, é verdade, a proporção nas páginas de comentários na mídia entre generais de poltrona e mulheres defensoras das "botas no chão" poderia ser interpretada como um apoio à teoria de Mitchell, que em si mesma, eu imagino, deve muito a Sara Ruddick, a influente filósofa feminista que defendeu o impacto restritivo da maternidade sobre o militarismo.

Outros poderiam ver a disparidade em belicosidade de comentários como – supondo que possamos descartar a discriminação –uma confirmação da análise do professor Simon Baron-Cohen, segundo a qual a escassez de mulheres-bombas poderia ser atribuída a que as mulheres são "programadas para a empatia". Ao contrário dos homens, que são programados, se é que tenho o direito de dizer isso, para adorar tanques.

Então talvez não seja científico ver muito nas exceções, como Aqsa Mahmood, a fugitiva apoiadora do Estado Islâmico e emissora de ameaças ambiciosas contra David Cameron e seus descendentes: "Não se preocupe, em algum lugar ao longo do caminho seu sangue será derramado por nossos filhotes". Ou Khadijah Dare: "Eu quero ser a primeira mulher britânica a matar um terrorista britânico ou americano!" E a ex-música de 45 anos, outra mãe de dois filhos, que decretou sob o nome de Umm Hussain al-Britani: "Todos vocês, cristãos, precisam ser decapitados com uma faca cega e empalados nas cercas de Raqqa".

Deve haver uma excelente explicação, também, para as adversárias mais ativas dessas mulheres, presentes tanto nos militares aliados como, muito mais, no YPJ curdo, força que é cerca de 35% feminina e hoje luta até a morte na cidade sitiada de Kobani. Uma soldada, conhecida como Rehana, teria matado mais de cem combatentes do EI. Sua comandante, chamada Narin Afrin, teria dito: "Para entrar em Kobani os bandos do EI terão de passar sobre nossos cadáveres". Em um fascinante artigo para a New Republic, Sophie Cousins encontra uma jovem soldada curda no nordeste da Síria, a menos de um quilômetro das forças do EI. Usando um lenço hijab, armada com uma Kalashnikov, a soldada lhe diz: "A mulher foi suprimida durante mais de 50 mil anos e agora temos a possibilidade de exercer nossa vontade, nosso poder e nossa personalidade".

Mas aqui no Reino Unido a polícia antiterrorismo ainda se inclina mais para a posição de Kofi Annan. "Durante gerações", disse ele, "as mulheres serviram como educadoras da paz, tanto em suas famílias como em suas sociedades." Talvez seja em parte porque esses atributos mostram as mulheres sob uma luz claramente atraente, que os críticos da diferença sexual inata foram quase tão lentos para confrontar mitos sobre o pacifismo feminino quanto fizeram com os que apresentam as mulheres avessas a riscos como potenciais salvadoras dos mercados financeiros ou as adversárias naturais do terrível partido Ukip, pró-independência do Reino Unido.

É inegável que matar, ao contrário da matemática, é algo em que a maioria de nós, mulheres, preferiríamos ser fracas – pelo menos em tempos de paz. Igualmente, não há como evitar a evidência de que as europeias, mesmo as que tiveram filhos, hoje apoiam o mais bárbaro dos crimes de guerra por parte de seus maridos e protetores islâmicos, que elas buscam em número cada vez maior. Em seu novo estudo, o professor Kamaldeep Bhui revela que, mesmo com suas parentes patrulhando a casa em nome da vice-delegada assistente Ball, as jovens e meninas britânicas têm tanta probabilidade de ser radicalizadas quanto os homens; estima-se que elas sejam 60 dos cerca de 500 recrutas locais do EI.

As mulheres, disse Kofi Annan, "mostraram-se instrumentais para construir pontes, em vez de muros". Mesmo antes que garotas bem educadas, versadas nos preceitos do anti-bullying, começassem a tuitar sobre o genocídio em uma zona de guerra, certamente era mais complicado que isso.

É verdade, as mulheres são sempre vulneráveis como civis, e adequadamente priorizadas para proteção pela ONU. Mas elas também distribuíram penas brancas, aplicaram a mutilação genital feminina, traíram suas vizinhas, cometeram atrocidades em toda empreitada terrorista, onde sua suposta inocuidade as torna especialmente eficazes. Enquanto isso, inúmeros recrutas homens desertaram, temeram ser feridos e correram o risco de morte para evitar os píncaros da vitória aspirados por Khadijah Dare, mesmo que a realidade, no califado embrionário, esteja superando a Nutella.

A maior glória, para essas supostas jihadistas top, parece ser a promoção ao batalhão al-Khansa, um pequeno corpo vicioso cuja tarefa é impor a posição de segunda classe às mulheres em territórios conquistados, por exemplo, espancando as que não cobrem adequadamente o corpo. Por mais que isso possa parecer incrivelmente enganoso, elas não são as primeiras mulheres a conspirar para sua própria marginalização. O determinismo biológico, do tipo que reduz as mulheres a alimentadoras impotentes, é o melhor e improvável amigo da sharia, a lei islâmica.
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Leia mais em Guardian.co.uk
Fonte:  http://www.cartacapital.com.br 26/10/2014

A urgência de refundar a ética e a moral

 Leonardo Boff*
Uma das demandas maiores atualmente nos grupos, nas escolas, nas universidades, nas empresas, nos seminários de distinta ordem é a questão da ética. As solicitações que mais recebo são exatamente para abordar este tema.

Hoje ele é especialmente difícil, pois não podemos impor a toda a humanidade a ética elaborada pelo Ocidente na esteira dos grandes mestres como Aristóteles, Tomás de Aquino, Kant e  Habermas. No encontro das culturas pela globalização somos confrontados com outros paradigmas de ética. Como encontrar para além das diversidades, um consenso ético mínimo, válido para todos? A saída é buscar na própria essência humana, da qual todos são portadores, o seu fundamento: como nos devemos nos relacionar entre nós seres pessoais e sociais, com a natureza e com a Mãe Terra. A ética é da ordem prática, embora se embase numa visão teoricamente bem fundada. Se não agirmos nos limites de um consenso mínimo em questões éticas, podemos produzir catástrofes sócio-ambientais de magnitude nunca antes vista.

Vale a observação do apreciado psicanalista norte-americano Rollo May que escreveu:”Na atual confusão de episódios racionalistas e técnicos perdemos de vista e nos despreocupamos do ser humano; precisamos agora voltar humildemente ao simples cuidado; creio,muitas vezes, que somente o cuidado nos permite resistir ao cinismo e à apatia que são as doenças psicológicas do nosso tempo”(Eros e Repressão, Vozes 1973 p. 318, toda a parte 318-340).

Tenho me dedicado intensamente ao tema do cuidado (Saber Cuidar,1999; O cuidado necessário, 2013 pela Vozes).   Segundo o famoso mito do escravo romano  Higino sobre o cuidado, o deus Cuidado teve a feliz ideia de fazer um boneco no formato de um ser humano. Chamou Júpiter para lhe infundir espírito, o que foi feito. Quando este quis impor-lhe um nome, se levantou a deusa Terra dizendo que a tal figura foi feita com o seu material e assim teria mais direito de dar-lhe um nome. Não se chegou a nenhum acordo. Saturno, o pais dos deuses, foi invocado e ele decidiu a questão chamando-o de homem que vem de húmus, terra fértil. E ordenou ao deus Cuidado: “você que teve a ideia, cuidará do ser humano por todos os dias de sua vida”. Pelo que se vê, a concepção do ser humano como composto de espírito e de corpo  não é originária. O mito diz:”O cuidado foi o primeiro que moldou o ser humano”.

O cuidado, portanto, é um a priori  antológico, explicando: está na origem da existência do ser humano. Essa origem não deve ser entendida temporalmente, mas filosoficamente, como a fonte de onde permanentemente brota a existência do ser humano. Temos a ver com uma energia amorosa que jorra ininterruptamente, em cada momento e em cada circunstância. Sem o cuidado o ser humano continuaria uma porção de argila como qualquer outra à margem do rio, ou um espírito angelical desencarnado e fora do tempo histórico.

Quando se diz que o deus Cuidado moldou, por primeiro, o ser humano visa-se a enfatizar que ele empenhou nisso dedicação, amor, ternura, sentimento e coração. Com isso assumiu a responsabilidade de fazer com que estas virtudes constituíssem a natureza do ser humano, sem as quais perderia sua estatura humana. O cuidado deve se transformar em carne e sangue de nossa existência.

O próprio universo se rege pelo cuidado. Se nos primeiros momentos após o big bang não tivesse havido um sutilíssimo cuidado de as energias fundamentais se equilibrarem adequadamente, não teriam surgido a matéria, as galáxias, o Sol, a Terra e nós mesmos. Todos nós somos filhos e filhas do cuidado. Se nossas mães não tivessem tido infinito cuidado em nos acolher e alimentar, não saberíamos como deixar o berço e buscar nosso alimento. Morreríamos em pouco tempo.

Tudo o que cuidamos também amamos e tudo o que amamos também cuidamos. Junto com o cuidado nasce naturalmente a responsabilidade, outro princípio fundador da ética universal. Ser responsável é cuidar que nossas ações não sejam maléficas para nós e para os outros mas, ao contrário, sejam benéficas e promovam a vida.

Tudo precisa ser cuidado. Caso contrário se deteriora e lentamente desaparece. O cuidado é maior força que se opõe à entropia universal: faz as coisas durarem muito mais tempo.

Como somos seres sociais, não vivemos mas convivemos, precisamos da colaboração de todos para que o cuidado e a responsabilidade se tornem forças plasmadores do ser humano. Quando nossos ancestrais antropoides iam em busca de alimento, não o comiam logo como  fazem, geralmente, os animais. Colhiam-no e o levavam ao grupo e cooperativa e solidariamente comiam juntos, começando pelos mais jovens  e os idosos e em seguida os demais. Foi essa cooperação que nos permitiu dar o salto da animalidade para a humanidade. O que foi verdadeiro ontem, continua sendo verdadeiro também hoje. É o que mais nos falta  no mundo que se rege mais pela competição do que pela cooperação. Por isso somos insensíveis face ao sofrimento de milhões e milhões de pessoas e deixamos de cuidar e de nos responsabilizar pelo futuro comum, de nossa espécie e da vida no planeta Terra.

Importa reinventar esse consenso mínimo ao redor desses princípios e valores se quisermos garantir nossa sobrevivência e de nossa civilização.
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*Leonardo Boff, teólogo ex-professor de Ética
Fonte: Jornal do Brasil online, 26/10/2014
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A ARTE DE MORRER

 Hélio Schwartsman*
 
"Being Mortal" (sendo mortal) é um livro de não ficção sobre o tema mais deprimente que se pode imaginar: a decadência física e mental que precede a morte. Ainda assim, nós o lemos com a mesma avidez com que se devora um romance de mistério. O fato de sabermos a priori que os protagonistas morrerão nem chega a atrapalhar. 

A principal razão é que seu autor, Atul Gawande, cirurgião, professor em Harvard, escritor e jornalista da "New Yorker", tem amplo conhecimento do assunto e sabe como ninguém cativar o leitor. Ele se vale de casos de idosos e de pacientes terminais, incluindo tocantes experiências autobiográficas, para mostrar que, no Ocidente, nós perdemos o que os medievais chamavam de "ars moriendi", a arte de morrer bem. 

O problema central, diz Gawande, é que a medicina obteve sucesso em tantas esferas que acabamos delegando a ela também os cuidados com o envelhecimento e a morte. Só que a maioria dos profissionais de saúde não está preparada para lidar com esses dois processos, que são irreversíveis.
O resultado é que criamos uma estrutura que esvazia de sentido os momentos finais. Para evitar que idosos se machuquem, roubamos-lhes o que ainda têm de autonomia, confinando-os a asilos e hospitais. Para tentar prolongar a vida de pacientes de câncer, submetemo-los a tratamentos com pouca chance de sucesso e que acabam com a qualidade da vida que lhes resta. 

Obviamente, não há solução para esses problemas. A perda de autonomia faz parte do envelhecimento e o câncer mata de forma muitas vezes cruel. Ainda assim, é possível estabelecer as prioridades de cada paciente e tentar atendê-las, deixando com que tenham o máximo de controle sobre seu destino. Gawande mostra não só como isso pode ser feito mas também o impacto positivo que tem sobre o bem-estar de pacientes, familiares e do sistema de saúde. 
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* Hélio Schwartsman é bacharel em filosofia, publicou 'Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão' em 2001. Escreve de terça a domingo.
Fonte: Folha online, 26/10/2014
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sábado, 25 de outubro de 2014

MORFEU - O prazer das palavras

Cláudio Moreno*
 
Uma leitora escreve, hesitante: “Professor, não sei bem se é assunto para a coluna, mas deixo para o senhor decidir: sempre que meu sogro vai dormir, ele brinca dizendo que vai cair nos braços de Morfeu. No dicionário diz que este era o deus do Sono, mas eu li em algum lugar que o deus do Sono era outro. Se é um mito grego, não poderia ter mudado assim no mais, não é?”. Respondo sim duas vezes: sim, leitora, é assunto relativo a nosso idioma; sim, não podemos sair por aí mudando os mitos que a Antiguidade nos legou – ou, ao menos, não deveríamos fazê-lo.

Nossa língua, como todas as demais línguas do Ocidente, incorporou em seu léxico um grande número de alusões mitológicas, de referências a passagens bíblicas e de frases célebres dos grandes personagens históricos. Para entender o que escreveu, por exemplo, um Eça ou um Machado, é indispensável que o leitor saiba o que significam expressões como calcanhar de Aquiles, decisão salomônica ou presente grego. Por desconhecimento da tradição clássica, no entanto, algumas dessas alusões vão passando por um processo de deterioração quase imperceptível. Foi o que aconteceu com Morfeu, que passou a ser considerado, equivocamente, o deus do Sono.

Na verdade, o deus do Sono era Hypnos (chamado de Somnus, em Roma), representado em seu leito de ébano, no fundo escuro de uma caverna silenciosa, cercado de canteiros de papoula, a flor de onde se extrai o ópio (aliás, não é por acaso que os medicamentos que induzem o sono são chamados de hipnóticos). Ao redor dele dormem seus muitos filhos – os Oneiros (do mesmo radical de onírico), os sonhos diversos, que visitam os mortais adormecidos. De todos esses, como nos conta Ovídio, nas Metamorfoses, três são muito especiais: Morfeu, imitador da forma humana, que atua nos sonhos em que aparecem pessoas; Fôbetor, causador de pesadelos, que assume a forma de feras, aves monstruosas ou serpentes; e Fântasos, que atua nos sonhos em que aparecem árvores, rochedos ou qualquer outra coisa inanimada.

Talvez por ser o mais importante dos três, Morfeu foi pouco a pouco ocupando o lugar que a mitologia atribuía a Hypnos. No século 19, Castro Alves já fazia esta confusão: “– Ó sono! Ó Deus noctívago! Doce influência amiga! Gênio que a Grécia antiga chamava de Morfeu!”. O mesmo fez F.W. Setürmer, o farmacêutico alemão que isolou em 1803 o alcaloide ativo do ópio; pela sonolência que a substância causa, chamou-o de morphium, numa referência equivocada a Morfeu (mais tarde, por sugestão de Gay-Lussac, os franceses mudaram o nome para morfina, dando-lhe a terminação padrão de outros alcaloides, como a cafeína, a atropina e a cocaína).

Hoje esta expressão é considerada um lugar-comum, sendo empregada mais como brincadeira. E já que brincamos, quero lembrar aqui a inestimável contribuição trazida ao tema por Benedito Valadares, interventor de Minas, lendário por sua ignorância: certa feita, conversando com o escritor Cyro dos Anjos, seu amigo, anunciou, depois de um largo bocejo: “Vou entregar-me aos braços de Orfeu!”. Cyro, com delicadeza, corrigiu-o: “Não faltou um M, doutor Benedito?”. “Não; orfeom é instrumento musical, e eu estou é com sono mesmo...”. Nos braços de Morfeu
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* Professor. Colunista da ZH
Fonte: ZH online, 25/10/2014
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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

SEGUNDA VIDA

Tatiana Salem Levy* 


Durante a entrega do prestigioso Man Booker Prize no dia 14, o presidente do júri, Anthony Grayling, lembrou que os dois grandes temas da literatura são o amor e a guerra. Andei tratando, neste espaço, da representação do mal. Agora, queria mudar o foco para o outro tema e falar de amor a partir de um pequeno texto de quem abordou, sobretudo, a guerra, a revolução, a política: André Gorz. Filósofo, jornalista e editor das importantes revistas "Les Temps Modernes" e "Le Nouvel Observateur", foi, ao lado de Jean-Paul Sartre, um dos principais inspiradores de Maio de 68. Marxista, existencialista e, mais tarde, mentor da ecologia política, escreveu inúmeros livros e ensaios que influenciaram intelectuais do mundo.

Gorz só não falou de amor na sua obra "pois é impossível explicar filosoficamente por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa, excluindo todas as outras". Acabou deixando o tema para o fim, para a "Carta a D.", publicada em 2006, na qual ele relata sua história ao lado de Dorine, a única mulher que poderia ter amado. Juntos, eles se suicidaram no dia 22 de setembro de 2007, quando a vida se tornou insustentável para ela, que sofria de uma aracnoidite resultante do lipiodol injetado na operação de uma hérnia de disco.

Durante anos, Dorine sofreu de terríveis dores, não conseguia deitar de tanto que a cabeça a fazia sofrer, passava as noites de pé ou sentada numa poltrona. "Eu queria acreditar que nós tínhamos tudo em comum, mas você estava sozinha na sua aflição", afirmou Gorz, que não desejava sobreviver à sua morte. Mataram-se juntos porque, depois de 60 anos de relacionamento, não sabiam como existir sem o outro.

Antes de partir, ele quis deixar para a posteridade o sentimento que o guiou em cada gesto seu, cada livro, cada teoria. Quis falar abertamente da mulher sem a qual não teria feito nada do que fez. Se, ao longo de uma carreira tão importante e reconhecida Gorz nunca abordou o amor, foi porque nele "estamos aquém e além da filosofia". Era preciso então se aproximar de uma narrativa mais íntima - e também mais literária - para fazê-lo emergir no papel.

A certa altura, na carta, ele diz que amar e ser correspondido, estar completamente apaixonado "era aparentemente banal demais, e privado demais, 'comum' demais: não era uma matéria apropriada para me fazer atingir o universal". Para falar de algo tão pessoal, a carta lhe pareceu a escrita possível. E para tornar universal essa intimidade, para eternizar a mulher amada, publicá-la era o gesto certo. O mesmo gesto que ele afirma ter mudado a sua vida em 1958 com a publicação de "Le Traître", que lhe conferiu um lugar no mundo. A "Carta a D.", 50 anos depois, daria realidade ao seu amor.

Às vezes, quanto mais pessoal, mais universal. O que ele não conseguia formular com teorias formulou com a própria história, desde o dia em que se conheceram - e ele não imaginava que aquela mulher linda e da alta sociedade fosse se interessar por um judeu austríaco sem um tostão - até os anos passados no campo. Em diversas passagens, afirma que Dorine era mais madura do que ele, que ia se desenvolvendo sem "essas próteses psíquicas que são as doutrinas teóricas e os sistemas de pensamento", enquanto ele precisava disso para se situar no mundo intelectual. O filósofo precisou percorrer um longo caminho para chegar ao mais essencial e, finalmente, poder falar de amor. Do amor deles.

Lembrei-me de Kafka e suas cartas a Felícia enquanto lia o texto de André Gorz. Kafka quase não mencionava o amor em suas narrativas ficcionais e terminou por deixar esse assunto "banal" para a correspondência. Fiquei me perguntando se não fala de amor quem ama pouco ou quem ama demais? Por que excluir da obra principal, canônica, e deixar para a obra considerada marginal, já que íntima, esse sentimento que nenhuma filosofia explica?

Gilles Deleuze e Félix Guattari, no livro "Kafka: Por Uma Literatura Menor", concebem as cartas desse escritor como uma espécie de pacto diabólico. Kafka se apaixona por uma mulher que viu apenas uma única vez e, sem poder reencontrá-la, escreve-lhe uma tonelada de cartas. Nesse sentido, Felícia seria mais uma cúmplice da escrita do que uma destinatária. Eis o pacto diabólico: exigir que ela lhe escreva duas vezes por dia, para justificar as respostas. O encontro constantemente adiado permite a máquina de escrita. O amor não existe como ato consumado e sim como motor epistolar. Kafka tem horror à ideia de casamento, mas, vampiro, suga de Felícia o que precisa para manter o fluxo das cartas.

Com Gorz acontece o oposto, embora ele também despreze a conjugalidade e evite a todo custo assumir um compromisso civil que, segundo ele, nada tem a ver com aquilo que une um homem e uma mulher. No entanto, Dorine deixa claro: sem o pacto para a vida inteira, prefere deixá-lo. Dá-lhe um mês para pensar, e ele percebe que se "fosse incapaz de amá-la de verdade, nunca poderia amar ninguém". Ela parte em viagem logo depois, e ele lhe escreve todos os dias.

Não são essas as cartas que lemos, mas certamente foram essas que asseguraram em D. a vontade de levar adiante aquela história. Ao contrário de Kafka, Gorz se aproxima fisicamente da amada. Enquanto o primeiro só viveu o amor de forma epistolar, o segundo viveu um amor realizado. Em outras palavras, o amor, em Kafka, só existia na forma de uma correspondência. Em Gorz, a carta surge depois, apenas para mostrar ao mundo que ele não seria quem era sem Dorine. Um vampiro, também, mas um vampiro que compartilhou a vida com seu único amor de verdade.

De forma carinhosa, o remetente vai lembrando à destinatária os primeiros momentos juntos, quando D. tinha acabado de chegar da Inglaterra. O que o cativava era o fato de ela pertencer a outro mundo. Um mundo que o encantava, no qual podia entrar "sem obrigações nem pertencimento". "Com você, eu estava em outro lugar; um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo", afirma. Sem dúvida, a alteridade está no cerne desse amor. Com D., A. falava inglês, construía "um mundo protegido e protetor". Ele queria saber tudo dela, sua infância perturbada, sua solidão, seus medos. Ela lhe dava a possibilidade de escapar de si mesmo e se instalar num outro lugar. "Com você, eu podia deixar de férias a minha realidade", anuncia o escritor. Mas não só. Com Dorine, a realidade de André Gorz se tornava mais leve, sobretudo nos momentos de penúria dos anos 50. Ele encontraria conforto toda vez que ela repetisse: sua vida é escrever; então escreva.

Mais do que cumplicidade, mais do que comunhão, a relação de A. e D. parece ter sido uma verdadeira experiência de alteridade. Tão forte, tão potente, que ele só conseguiu abordá-la aos 83 anos, quando ela, prestes a fazer 82, estava 6 cm mais baixa, pesava 45 kg e continuava "bela, graciosa, desejável". Atormentado pela chegada do fim, ele se põe a pensar por que ela está tão pouco presente no que escreveu, se essa união é a coisa mais importante da sua vida? Por que passou uma imagem falsa dela em "Le Traître"? Por que a apresentou como uma coitadinha? É para responder a essas perguntas que ele decide elaborar a carta. "Preciso reconstruir a história do nosso amor para apreender todo o seu significado", diz.

Finalmente, em seu último - e belíssimo - texto, conseguiu falar do que sempre lhe parecera inefável. Nomeá-lo, explicitá-lo, um risco que André Gorz evitou a todo custo até o instante final, como se não pudesse falar de amor e permanecer vivo. Diante da morte iminente, a carta seria a derradeira possibilidade de prorrogação, a única forma de anunciar que, "se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos".
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*Tatiana Salem Levy, doutora em letras e escritora, escreve neste espaço quinzenalmente
E-mail: tatianalevy@gmail.com
Fonte: Valor Econômico online, 24/10/2014

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

"Democracia precisa de classe média forte", afirma Thomas Piketty

Thomas Piketty
 O economista francês Thomas Piketty
 
As controversas teses em "O capital no século 21", do economista francês, provocaram críticas, mas 
também elogios entusiásticos.
"Os ricos ficarão sempre cada vez mais rapidamente mais ricos, pois dispõem de um estoque de rendimentos de capital que traz significativamente mais rendimentos do que o trabalho." "Para a maioria da população, em contrapartida, os rendimentos dos salários não são mais suficientes para que criem reservas."

Com tais teses, o francês Thomas Piketty vem gerando furor internacional. Ele é professor de economia da Paris School of Economics e da École des Hautes Études en Science Sociales (EHESS), e vive na capital francesa, com a esposa e três filhas. Tendo lecionado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), entre outros, há 20 anos ele se ocupa dos temas renda, capital e justiça social.

Seu best-seller Le capital au 21e siècle(O capital no século 21), publicado em 2013, está sendo lançado este mês na Alemanha.

DW: Seu livro é um sucesso de público. Quantas cópias foram vendidas, até agora?
Thomas Piketty: Em inglês e francês, juntos, 800 mil. Em inglês, foram 600 mil.

DW: O senhor acredita que vai conseguir influenciar algo com seu livro?
TP: Minha intenção era convencer o leitor de que os temas renda e prosperidade são importantes demais para serem simplesmente relegados aos estatísticos e economistas. Meu objetivo foi fornecer fundamentos históricos aos leitores, para que possam fazer seus próprios julgamentos. Porém se trata de ciências sociais, no sentido mais amplo, que não são uma ciência exata. Por isso, também não espero que todos os leitores concordem comigo.

DW: Como o sistema econômico deve ser melhorado, para que os assalariados voltem a ter maiores rendimentos com seu trabalho?
TP: Há diferentes soluções. A longo prazo, investindo na educação. Universidades são um instrumento muito poderoso para reduzir a desigualdade. Um dos principais problemas da Europa é que investimos mais dinheiro na redução das nossas dívidas públicas do que na formação universitária. Isso não é bom presságio para o futuro. Deveríamos investir mais nas universidades.

DW: Que outras soluções existem, para que o valor do trabalho cresça?
TP: A tributação progressiva dos altos salários e rendimentos de capital também é importante. Precisamos, portanto, de um sistema tributário que tribute menos aqueles que só vivem de seus salários e entram na vida sem capital nem prosperidade.

DW: Com isso, chegamos à sua declaração central, de que hoje em dia muitos assalariados só conseguem sobreviver com os seus salários. Por que é assim?
TP: No início da geração dos baby boomers[os nascidos no pós-guerra, entre 1946 e 1968], também era possível reservar poupanças, a partir do salário. Pois, com as altas taxas de crescimento econômico, era possível partir do zero e depois, trabalhando, chegar a uma relativa prosperidade e acumular reservas.

No entanto, para as atuais gerações, se você quiser poupar numa cidade grande, então precisa ter um salário muito bom. No entanto, quando se tem uma taxa de crescimento de apenas 1,5%, isso significa que os rendimentos com capital ainda são de 4% a 5% – ou mais, nos investimentos de risco, cerca de 7%, no caso das ações. Com isso, as desigualdades iniciais são reforçadas.

DW: Com que consequências?
TP: Esse estado de coisas reduz a mobilidade social numa sociedade. E, no entanto, a chance de subir à classe rica é uma boa coisa para a eficiência da economia e para o empreendedorismo. A esse respeito, Warren Buffet disse certa vez: ninguém quer que, dos Jogos Olímpicos de 2030, só participem os filhos das equipes de 2000.

DW: O senhor colheu dados dos principais países industrializados e emergentes. São, em maioria, estatísticas de órgãos fiscais. Mas na Alemanha, a riqueza sequer é registrada nas estatísticas.
TP: Precisamos de mais transparência sobre rendimentos e riqueza. E o resultado de uma tributação progressiva do capital e rendas também seria podermos exigir informações confiáveis sobre os grupos de renda.

DW: O senhor defende que haja impostos internacionais. Mas como isso funcionaria? Afinal, os países da União Europeia competem entre si por investidores e capital, com os menores impostos possíveis.
TP: O senhor está certo com esta suposição. Se cada país mantiver seu próprio sistema fiscal, vai ser muito difícil. O resultado é que, já agora, as multinacionais pagam relativamente menos impostos do que empresas pequenas e médias. A Alemanha, França e Itália competem para atrair investidores. Isso permite que os grandes conglomerados joguem com os diferentes sistemas fiscais, conseguindo, no final, pagar impostos relativamente mais baixos. Isso não é ruim somente para o tratamento igualitário, mas também para o crescimento e a eficiência da economia.

DW: Então, o que sugere?
TP: A solução é muito simples: precisamos de uma política fiscal comunitária. Não é possível, com uma moeda única, como o euro, que mantenhamos simultaneamente 18 sistemas fiscais diferentes, que competem uns com os outros, com 18 diferentes dívidas públicas e 18 diferentes taxas de juros dos títulos estatais. Precisamos, portanto, uma união fiscal e política muito mais coesa na Europa, começando com um pequeno grupo de países e depois, com vários.

DW: De onde o senhor tira o otimismo de que isso venha a funcionar?
TP: Durante a coleta de informações sobre depósitos de capital dos bancos, conseguimos obter essas informações, mas isso leva tempo e exige uma disposição para se implementar sanções. Não podemos pedir educadamente que os paraísos fiscais deixem, finalmente, de ser paraísos fiscais. Na Europa, fomos extremamente ingênuos em nossa abordagem. A Suíça agora fornece automaticamente informações bancárias sobre seus clientes. E isso apenas porque os Estados Unidos impuseram sanções contra os bancos suíços.

DW: Quais são as consequências para a classe média do acúmulo de capital nas mãos dos mais ricos?
TP: Precisamos de uma classe média forte, para o crescimento e para o funcionamento da democracia. Europa ainda é estruturada de forma mais igualitária do que um século atrás, e mais igualitária ainda do que os Estados Unidos. Mas nos EUA, a concentração de renda e riqueza é tão forte que muitos acreditam que isso poderia comprometer a democracia. Grupos individuais poderiam dominar a política. Nos EUA, há dinheiro privado ilimitado na política. Esse é um problema real.

DW: Como o senhor avalia a situação econômica na Europa e nos EUA?
TP: Em Paris e na zona do euro, a economia está estagnada, as taxas de crescimento tendem a zero, assim como a inflação. O desemprego está aumentando. O que acho particularmente triste é que nossa dívida pública inicial não era mais dramática do que nos EUA, no Reino Unido ou no Japão. Mas aqui permitimos com que a grande crise da dívida desembocasse numa crise de confiança, esse é o nosso principal problema.

DW: Como esses problemas se manifestam para as pessoas na rua?
TP: Em alguns países europeus, um quarto da geração jovem está desempregado. E mesmo quando as pessoas têm uma renda, é extremamente difícil formar capital. O grande perigo na Europa é que cada vez mais gente tem a impressão de que a globalização não está funcionando para elas ou de que os ganhos dos donos do capital são desproporcionalmente grandes. Acho isso perigoso, pois favorece aos movimentos extremistas.

DW: Os adeptos de uma ordem econômica liberal dizem que no momento dinheiro suficiente está sendo impresso e distribuído de forma justa, e que os altos lucros do capital não são simplesmente tomados dos trabalhadores.
TP: Mas a questão é: será que é bom para a eficiência do sistema econômico os executivos ganharem 10 milhões de dólares? Eu estudei os dados de cuidadosamente e não encontrei nenhuma prova de que isso faça sentido. Afinal de contas, são os custos com que o resto da economia arca, e que incidem sobre os salários baixos e médios.
  • Autoria Christian Pricelius (md)
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  • por Deutsche Welle publicado 22/10/2014 05:37
    Charles Platiau/Reuters/Latinstock
  • Fonte: Carta Capital online, 22/10/2014

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Antigo demônio assombra Europa

Ataques antissemitas deflagram sensação de insegurança
 entre judeus
Por JIM YARDLEY

SARCELLES, França - Dos enclaves imigrantes da periferia parisiense até a cidade burocrática de Bruxelas, passando pelo coração industrial da Alemanha, o velho demônio da Europeu reapareceu recentemente. "Morte aos judeus!" gritaram manifestantes em protestos pró-palestinos na Bélgica e na França. "Botem os judeus no gás!" gritaram manifestantes num protesto semelhante na Alemanha.
Houve violência ainda pior que as ameaças. Em maio, quatro pessoas foram mortas a tiros no Museu Judaico de Bruxelas. Uma farmácia de proprietário judeu em Sarcelles, na periferia de Paris, foi destruída em julho por jovens que protestavam contra as ações de Israel na faixa de Gaza. Bombas incendiárias foram encontradas numa sinagoga em Wuppertal, Alemanha. Um judeu sueco foi espancado com tubos de ferro.

Incidentes como esses estão provocando alarme com a ascensão do "novo antissemitismo", nas palavras do premiê francês, Manuel Valls, levando judeus a se perguntar se a Europa ainda é um lugar seguro para eles. Mais judeus estão emigrando para Israel. Outros descrevem zonas "proibidas" nos distritos muçulmanos de muitas cidades europeias, lugares por onde judeus não se atrevem a transitar.
A Europa tem assistido a protestos e explosões de antissemitismo sempre que o conflito israelo-palestino entra em erupção, e alguns analistas dizem que as manifestações de cólera deste verão representam um episódio cíclico que, como outros, vai desaparecer.

Algumas pessoas observam que o número de incidentes de antissemitismo denunciados este ano na França, por exemplo, foi bem inferior a alguns anos na década passada. Mas também há receios quanto ao que alguns veem como um viés antissemita insidioso, "mais brando", que eles temem que esteja penetrando na opinião mais geral.

"O medo é porque agora coisas estão sendo ditas abertamente e ninguém se surpreende com isso", disse Jessica Fromer, 36, judia secular de Bruxelas. "A Europa moderna é baseada no esforço de impedir a repetição do que aconteceu na Segunda Guerra Mundial. E agora, 70 anos mais tarde, pessoas se postam perto do Parlamento Europeu gritando 'morte aos judeus!'."

Líderes franceses condenam fortemente a violência antissemita recente. No mês passado a chanceler Angela Merkel, da Alemanha, comandou um ato público em Berlim contra o antissemitismo. Contudo, ao mesmo tempo em que a Europa endurece seu apoio à causa palestina e suas críticas a Israel, muitos judeus dizem que a distinção entre ser anti-Israel e antijudeus está se enfraquecendo.

Alguns judeus dizem que se sentem politicamente isolados, sem um lar ideológico. Muitos partidos políticos de esquerda são anti-Israel. Muitos partidos de direita têm origens antissemitas. E muitos judeus que votaram no Partido Socialista na França e Bélgica temem que esses partidos estejam enfraquecidos, aumentando sua dependência dos blocos de eleitores muçulmanos, que crescem rapidamente.

Mesmo entre aqueles que tendem a condenar o racismo sob qualquer forma, o combate ao antissemitismo já deixou de ser visto como prioridade; os judeus muitas vezes são vistos como privilegiados, comparados a muçulmanos e minorias discriminadas.

Muitos muçulmanos mais jovens frequentemente parecem alienados na Europa. Com dificuldade para encontrar trabalho e frustrados por não serem aceitos, um grupo pequeno, mas articulado deles se deixou inflamar pela política do Oriente Médio, especialmente o conflito israelo-palestino.

O muçulmano francês Mehdi Nemmouche, preso em conexão com as mortes no Museu Judaico de Bruxelas, combateu como jihadista na Síria.

"O Oriente Médio está sendo importado para a Europa", comentou Philip Carmel, diretor de política europeia no Congresso Judaico Europeu.

"Nos últimos quatro ou cinco anos temos sentido uma insegurança crescente", comentou David Harroch, gerente de uma livraria judaica em Petite Jerusalem, o bairro comercial judaico de Sarcelles, na periferia de Paris. "Muita gente já foi embora."

Autoridades israelenses dizem que até 6.000 judeus vão migrar da França para Israel este ano. Em Sarcelles, muitos judeus e muçulmanos cresceram lado a lado sem rancor.

A pouca distância de uma das mesquitas da cidade há um pequeno empório pertencente a muçulmanos. Recentemente, um dos donos do estabelecimento, Abdel Badaz, estava atrás do balcão com um amigo de infância: Mickaël Berdah, 36 anos, judeu cuja família emigrou da Tunísia décadas atrás. Os dois criticaram o protesto.

"Quando você cresceu no bairro e conhece todo o mundo, não existe esse tipo de ódio", disse Berdah.
Do lado de fora, Diakité Ismael, 19 anos, francês filho de imigrantes senegaleses, também argumentou que em Sarcelles não existe hostilidade entre muçulmanos e judeus locais. Perguntado sobre a faixa de Gaza, porém, ele se agitou.

Ismael disse que viu um vídeo de uma bomba israelense atingindo um funeral em Gaza. "Não sei como, alguns judeus controlam a política, a informação, os negócios e as finanças", afirmou. "Não estou falando dos judeus daqui, estou falando dos judeus de maneira geral."

O incidente de maio em que quatro pessoas foram baleadas no Museu Judaico de Bruxelas -e a subsequente prisão de Nemmouche- atraíram atenção internacional porque quatro pessoas foram mortas, duas das quais eram israelenses. Mas houve incidentes menores, também: um comerciante turco em Liège que fixou um cartaz em sua loja dizendo que serviria cachorros, mas não judeus; uma voz no sistema de comunicação de um trem suburbano que anunciou uma parada como sendo "Auschwitz" e ordenou que todos os judeus descessem.

"Este ano, comecei a enxergar o mundo com outros olhos", contou o italiano Marco Mosseri, 31, que trabalha na indústria automotiva em Bruxelas. "Fiquei com medo. Passei várias noites sem dormir. Pela primeira vez, pensei que posso morrer devido à minha religião."

No dia 14 de setembro, quando pessoas se reuniram para dedicar uma placa no memorial do Holocausto, jovens ficaram atirando pedras e garrafas até a polícia chegar. Três depois, um incêndio ardeu no andar superior de uma sinagoga no bairro de Anderlech, em Bruxelas.

Gerações de imigrantes muçulmanos e seus descendentes hoje representam aproximadamente um quarto da população de Bruxelas. A comunidade judaica é pequena: 20 mil pessoas, quase todas assimiladas, judeus seculares como Mosseri.

Um relatório recente de duas organizações judaicas europeias observou que 40% dos judeus europeus ocultam sua condição judaica. Alguns judeus pararam de usar um colar com a Estrela de Davi ou não deixam mais seus filhos usar camisetas próprias de um acampamento de férias judaico quando andam nos ônibus ou trens públicos.

Desde o início do conflito em Gaza, neste verão, muitos descrevem as mídias sociais, especialmente o Facebook, como um pantanal de ódio.

Na Itália, ativistas de extrema direita foram vistos como culpados por uma onda de pichações antijudaicas. Em Roma, em agosto, um grupo de extrema direita distribuiu folhetos convocando o boicote de pelo menos 40 lojas pertencentes a judeus.

Michaël Privot, diretor da Rede Europeia Contra o Racismo, disse que a atribuição do antissemitismo apenas aos setores islâmicos ignora os estudos acadêmicos que mostram que o antissemitismo continua profundamente entranhado entre todos os belgas, além de outros europeus.

"Basicamente, o que temos é uma oportunidade de ouro para a direita extrema atribuir o antissemitismo aos muçulmanos e declarar-se inocente", disse.

Os artefatos usados na tentativa de incendiar uma sinagoga em Wuppertal não funcionaram como se pretendia, mas tiveram um impacto. "Para os judeus na Alemanha, isso tem um significado muito profundo", comentou Artour Gourati, empresário local e membro da sinagoga. "Sinagogas estão sendo incendiadas à noite na Alemanha."

Líderes religiosos da cidade reagiram rapidamente. Imãs e pastores cristãos correram até a sinagoga para declarar seu apoio. Mais de 300 pessoas compareceram a uma reunião de paz no dia seguinte.
"Uma ameaça a uma de nossas casas religiosas é uma ameaça a todos nós", disse um líder muçulmano local, Samir Bouaissa.

Em outubro os líderes religiosos da cidade levaram outro susto: um grupo de homens percorreu um bairro muçulmano dando aulas de moral a jovens, trajando paletós cor de laranja com os dizeres "Polícia da Sharia".

Nos últimos anos, Leonid Goldberg, o líder comunitário da sinagoga de Wuppertal, aproveitou a festa de Rosh Hashaná para lançar um aviso sobre a ascensão do antissemitismo entre muçulmanos extremistas. "Ninguém queria ouvir", disse. 
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Fonte: Folha online, 21/10/2014
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