sexta-feira, 28 de novembro de 2014

PASSAGEIROS DA CHUVA

Eliana Cardoso*
Cris Bierrenbach
desassossego em cada pingo de chuva que cai em dois contos notáveis: "Chuva" de Somerset Maugham e "Criação" de Don DeLillo. No primeiro, uma epidemia de cólera obriga passageiros e tripulantes do navio Sonoma a descer em Pago Pago. No segundo, reservas não confirmadas e cancelamentos de voos detêm o herói na ilha antilhana onde ele se encontra de férias. Cinquenta anos separam os dois contos. Muito diferentes na forma e no conteúdo, ambos apresentam um retrato fidedigno das ansiedades comuns à época em que foram escritos. E ambas as histórias envolvem uma relação sexual ilegítima, que termina em tragédia em "Chuva", mas fica pendente no fim de "Criação".

Originalmente intitulado "Sadie Thompson", "Chuva" é o conto mais famoso de Somerset Maugham e faz parte de suas "Histórias das Ilhas dos Mares do Sul". A sátira fina retrata a hipocrisia da moralidade convencional com um fim devastador.

Maugham encontrou o material para "Chuva" numa viagem que fez com Gerald Haxton, seu secretário e amante. Os dois navegaram até Pago Pago, em Samoa, porto de abastecimento da Marinha americana nos anos 1920. Entre os passageiros a bordo encontrava-se uma Miss Thompson, prostituta de Honolulu, que fugira do Havaí após uma batida policial no estabelecimento em que trabalhava.

Usando o sobrenome de Miss Thompson e dando-lhe o primeiro nome Sadie, Maugham teceu a história que a envolve com dois casais, o Dr. e Sra. Macphail e o reverendo e Sra. Davidson. Obrigados a quarentena em Pago Pago, eles se alojam num hotel. A presença de Sadie Thompson se faz notar pelo som de risos e música no seu quarto. Davidson se empenha em reformar Sadie, enquanto a chuva, o calor e os mosquitos tornam a vida na ilha intolerável.

O reverendo, em estado de êxtase espiritual, passa cada noite rezando com Sadie depois que ela aceitou voltar para os Estados Unidos e enfrentar a condenação por delito ali cometido. Na manhã em que Sadie deveria embarcar para San Francisco, o Dr. Macphail, levado à praia, onde um grupo de samoanos se reune em torno de um corpo, reconhece o reverendo, que ainda segura a navalha com que cortou a própria garganta.

De volta do necrotério, os Macphails e a Sra. Davidson se surpreendem ao ver Sadie como era antes da conversão se divertindo com um marinheiro. Sadie cospe na direção da Sra. Davidson. Macphail zanga-se. Quando ele pergunta a Sadie o que estava fazendo, ela o olha com desprezo e, em tom de ódio desdenhoso, responde: "Vocês, os homens! Seus porcos sujos, indecentes! Vocês são todos os mesmos, todos! Porcos! Porcos!" O Dr. Macphail suspende a respiração ao entender o ocorrido.

Em "Chuva" - condenação amarga da intolerância religiosa - Pago Pago representa uma realidade diferente e estranha para cada um dos personagens. Maugham os equilibra com admirável precisão, uns contra os outros, através de diálogos, que permitem diferentes pontos de vista. Os Davidsons veem nos Mares do Sul um vasto caos pagão à espera de ser colonizado e cristianizado. Para Sadie Thompson, as ilhas representam um lugar onde recomeçar a vida. Macphail, um homem inteligente e modesto, se admira com o mundo desconhecido das Ilhas Samoa. O narrador está quase sempre próximo do ponto de vista de Macphail.

Das reações do Dr. Macphail depende a força da história. O ponto de vista do médico consternado com a miséria e a doença de Pago Pago, atormentado pela chuva incessante, controla a percepção do leitor da interação entre Sadie e o reverendo Davidson. Sendo um agnóstico, disposto a viver e a deixar viver, ele serve de contraponto ao reverendo. E o leitor, como Macphail, ignora dicas do que está acontecendo até o fim da história, quando ambos, à luz do suicídio de Davidson, devem reinterpretar eventos passados. O uso magistral do ponto de vista limitado garante o choque do fim surpreendente.

A surpresa no caso do fim de "Criação", o primeiro conto da coletânea "Anjo Esmeralda" de Don DeLillo, ocorre - ao contrário do que se passa no conto de Maugham - por causa da ausência de um desfecho. A curiosidade ingênua do leitor (e depois?) ficará insatisfeita. O narrador limpou a história do passado e do futuro, de qualquer contexto psicológico e de qualquer consequência. Mas o narrador excepcional mantém o leitor ligado até a última linha. E, finda a leitura, o conto continua a ressoar dentro de sua cabeça.

Não escapa ao leitor atento a ironia do autor, que, tendo absoluto controle da própria escrita e de seu efeito, fala das coisas fora da esfera de influência de personagens e leitores. Um casal, no fim de um cruzeiro nas Índias Ocidentais, não pode sair da ilha onde se encontra: voos cancelados, reservas não confirmadas, uma economia em desarranjo. Na primeira tentativa, voltam do aeroporto para o hotel na companhia de Christa, sobre quem tecerão histórias mais tarde ao vê-la jantando sozinha.

As idas e vindas ao aeroporto se repetem. Cada tentativa de deixar a ilha termina com a volta do aeroporto para o hotel. O avião está cheio, ou não vai partir, ou não chegou. A mulher mostra ansiedade em voltar para casa, tendo reuniões, compromissos e a rotina de vida em geral. O marido, mais ambivalente, narra os eventos com grande calma, ecoando o acordo tácito do casal de que "o tom errado pode destruir uma paisagem". A própria existência do lugar é de alguma forma dependente da linguagem que eles usam para descrevê-lo.

Quando surge uma vaga, o marido se apressa em colocar sua mulher a bordo e enviá-la para casa. Ele volta para o hotel e começa um caso aparentemente inconsequente com Christa, ainda retida na ilha como ele. Nada acontece a não ser o cigarro, o cognac e, o leitor assume, algum sexo, de ação vagarosamente discreta.

A frustração, a suspensão do tempo e a sensualidade da paisagem supostamente conspiram para que o episódio pareça inevitável. Ao mesmo tempo, DeLillo instala a ansiedade e o desconforto na mente do leitor, que pode reconhecer as persistentes inseguranças do passageiro moderno, obrigado a aceitar a própria impotência, quando não pode deixar a ilha tropical, cujo único aeroporto está lotado, dia após dia.

O protagonista-narrador, diante do desastre comum, é testemunha confusa e desprendida, que, sem piscar, se presta ao relatório das coisas incompreensíveis que ocorrem diante de seus olhos. De alguma maneira, ele me lembra o narrador de "O Passageiro" de Kafka, em pé na plataforma do bonde elétrico, inseguro em relação à sua posição no mundo. E como o passageiro de Kafka, que descreve em minúcias à jovem pronta a descer do bonde, o protagonista de DeLillo constata os prazeres superficiais do novo, recitando as formas e cores do corpo de Christa. "Cabelos e olhos e mãos. A neve fresca dos seios. [...] A voz era suave e sutil. Os olhos eram tristes. A mão esquerda tremia às vezes."

Da transição desimpedida do normal ao ilícito deriva o leve surrealismo de "Criação". Nada sabemos sobre as intenções do nosso passageiro. Ele flutua no tempo e no espaço, e parece ignorar as próprias motivações.

No centro da história está o desejo de ser temporariamente imerso em algum tipo de utopia atemporal, estrangeira, pura e construída artificialmente, "o sonho da Criação que brilha à beira da busca de cada viajante sério". O protagonista se contenta em se entregar a essa ilusão, sem saber se é por isso que se sente atraído pela lógica sinistra do lugar.

A história, na superfície, é inconsequente. A clareza burilada das descrições e a lucidez da prosa apenas insinuam as sombras que pairam além da vista. Mas uma sensação de vulnerabilidade define o conto. O que está em jogo é a erosão das fronteiras das quais depende a segurança e a estabilidade dos indivíduos. E o leitor se pergunta o que conta como confinamento e o que constitui a liberdade. E você, meu querido? Você conhece a diferença?
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* Eliana Cardoso, economista e escritora, escreve neste espaço quinzenalmente
E-mail: eliana.anastasia@gmail.com
Fonte: Valor Econômico online, 28/11/2014

QUASE HUMANOS

Bloomberg
A inteligência artificial está no "cérebro" de robôs já amplamente usados na indústria automobilística, 
entre vários outros setores, em funções
 antes reservadas a trabalhadores
 
A cena de um sábado recente, em um apertado escritório em Berkeley, remete ao ambiente de uma típica startup do boom tecnológico, com engenheiros trabalhando no fim de semana numa corrida contra o tempo. O quadro branco pendurado em uma parede está todo rabiscado por canetas de cores diferentes. Um grande pote de doces e uma geladeira com porta de vidro, cheia de refrigerantes, encontram-se ao lado da porta de entrada.

Nate Soares, ex-engenheiro do Google, sentado na beira de um sofá, calcula as chances de sucesso de um projeto em que está trabalhando. Ele as coloca em cerca de 5%. Mas as probabilidades que está calculando não dizem respeito a um novo aplicativo para smartphones. Soares fala de algo muito mais notável: a indagação é se programadores como ele conseguirão salvar a humanidade da extinção, que poderá ser provocada por sua criação mais poderosa.

O objeto de preocupação - para Soares e para o Machine Intelligence Research Institute (Miri), em cujo escritório ele está - é a inteligência artificial (IA). Máquinas superinteligentes com "más intenções" são o prato principal da ficção científica, do computador de fala mansa Hal 9000 à violenta e assustadora Skynet. Mas a IA que pessoas como Soares acreditam que cruzará o caminho da humanidade, muito provavelmente antes do fim deste século, será muito pior.

Além de Soares, provavelmente há apenas quatro outros cientistas da computação, no mundo, que hoje trabalham na busca de meios de programar as máquinas superinteligentes do futuro não tão distante, para termos a certeza de que a IA permanecerá "amigável", afirma Luke Muehlhauser, diretor do Miri. Essas pessoas são motivadas pelo temor do que acontecerá quando os computadores superarem os humanos em inteligência. A essa altura, os humanos abrirão mão da liderança no desenvolvimento tecnológico, uma vez que as máquinas serão capazes de melhorar seus próprios projetos. E com a aceleração do ritmo das mudanças tecnológicas, não vai demorar muito até que as aptidões - e os objetivos - dos computadores superem em muito a compreensão humana. Eles verão seus criadores biológicos como simples aglomerados de matéria esperando para serem reprocessados em algo que eles achem mais útil, diz Muehlhauser. Vão consumir todos os recursos da Terra, para depois se lançarem no espaço, sugando a energia de estrelas distantes e por fim devorando grande parte do universo visível.

Há também uma linha de pensamento inspirada nos efeitos supostamente transformadores das tecnologias que em breve estarão ao alcance da humanidade: supõe-se que a raça humana está prestes a tomar o destino em suas mãos - para o bem ou para o mal.

Peter Diamandis, empreendedor, escritor e apaixonado pelo espaço sideral, é um dos profetas da civilização tecnológica avançada supostamente ao alcance de nossas mãos. Há quase 20 anos, ele era o cérebro por trás da XPrize Foundation, que ofereceu US$ 10 milhões para a primeira espaçonave reutilizável construída com capital privado. Entre seus projetos atuais está um plano para extrair minérios de asteroides. Uma grande rocha espacial que está na sua mira contém platina que, segundo ele estima, valeria US$ 5,4 trilhões no planeta Terra, a preços de hoje.

Para os tecno-otimistas como ele, a ideia de que em breve os computadores vão superar seus criadores é uma certeza e algo a ser comemorado. Por que essas máquinas iriam se dar ao trabalho de nos prejudicar, quando seremos tão interessantes para elas quanto "as bactérias que existem no solo do quintal de casa"?, ele questiona.

Ao contrário do cenário de filme-catástrofe vislumbrado no Miri, Diamandis delineia um futuro em que as máquinas vão se liberar de suas amarras terrestres e deixarão a humanidade para trás. "O universo é enorme e há muitos recursos e energia para elas." Não há motivos para ficarem por aqui e entrar em guerra com a humanidade. Elas podem escapar à velocidade da luz, se quiserem."

Ligar o presente a um futuro em que a humanidade será libertada pela tecnologia avançada é a razão da existência de profetas como Diamandis. Ele aponta para os membros de uma nova classe de super-ricos que está no comando das maiores companhias de tecnologia e possuem o dinheiro e a ambição para perseguir ideias inovadoras - pessoas como Elon Musk, da Tesla Motors e da SpaceX, Jeff Bezos, da Amazon, e Larry Page, do Google.

A inteligência artificial é um dos principais ingredientes desse processo. É uma tecnologia que promete tornar possíveis muitas outras - por exemplo, permitir às pessoas interagir com computadores conversando com eles e tornar os computadores muito melhores na apresentação de respostas úteis. A IA também atua como "cérebro" em robôs, "drones" e carros que não precisam de motoristas.

Companhias que aceleraram os investimentos em pesquisas de IA ao longo do ano passado, seja comprando startups promissoras da área ou contratando talentos conhecidos, incluem o Google, o Facebook e a Amazon, além da companhia chinesa da internet Baidu. Quando lhe perguntaram, este ano, em um evento interno do Google, se a empresa tinha planos para tentar desenvolver inteligência artificial de dimensões humanas, o cofundador Larry Page demonstrou otimismo com os progressos que poderão ser feitos no futuro, embora também tenha sugerido que a tecnologia ainda está distante, segundo informaram pessoas a par de seus comentários.

Cientistas procuram garantir que, no futuro, máquinas muito inteligentes sejam "amigáveis" e não se 
voltem contra seus criadores

A história das pesquisas com inteligência artificial, que pode retroagir 58 anos, para uma conferência no Dartmouth College, em New Hampshire, onde a expressão foi cunhada, está cheia de falsos inícios. Se as novas esperanças também não se concretizarem, não será por falta de ambição ou empenho.

A lista de coisas que podem nos destruir vem crescendo. Inclui não só o aquecimento global, mas as máquinas microscópicas da nanotecnologia, que se autorreproduzem e podem reduzir o mundo a uma gosma cinzenta, e até mesmo uma praga provocada por experiências irresponsáveis com bioengenharia. Francamente, quem tem tempo para se preocupar com todas essas coisas?

Desde que pareçam suficientemente remotos, eventos verdadeiramente terríveis podem até ser um pouco emocionantes. A partir de Ícaro, a ideia do criador sendo destruído pela criatura passou a ser uma fantasia instigante, um tipo de narcisismo Frankenstein para a elite tecnológica. Conforme diz o futurista do Vale do Silício Paul Saffo, isso provoca "um desejo ardente e profundo". "É a expulsão do Jardim do Éden. É o pecado original."

Isso pode explicar por que o assunto provoca tanto fascínio, tanto sobre aqueles que alertam para os riscos, como aqueles que veem a inteligência artificial como o instrumento que na verdade vai libertar a humanidade. "Os dois lados estão tratando isso como uma religião secular", diz Saffo.

Se tudo isso fosse o cenário de pesadelo da IA, seria fácil deixar de lado. Mas os alertas estão ficando mais enfáticos. O astrofísico Stephen Hawking escreveu este ano que a IA será "o maior evento da história da humanidade". Mas acrescentou: "Infelizmente, também poderá ser o último".

Elon Musk - cujos sucessos com os automóveis elétricos (por meio da Tesla Motors) e os voos espaciais privados (com a SpaceX) o transformaram em um quase super-herói no Vale do Silício - levantou a voz. Recentemente, aconselhou seus quase 1,2 milhão de seguidores no Twitter a ler "Superintelligence", um livro sobre os perigos da inteligência artificial que o fez pensar que a tecnologia é "potencialmente mais perigosa que a energia nuclear". A humanidade, no entender de Musk, pode ser como um programa de computador cuja utilidade termina assim que um software mais complexo entra em atividade. "Torço para que não sejamos apenas o "bootloader" [em informática, programa que prepara o funcionamento de um sistema operacional] biológico da superinteligência digital", disse no Twitter. "Infelizmente, isso é cada vez mais provável."

O sueco Nick Bostrom, autor do livro ("Superintelligence: Paths, Dangers, Strategies") que provocou o alerta inquietante de Musk, é professor de filosofia e diretor do Instituto Futuro da Humanidade da Universidade de Oxford. Ele diz ter começado a se interessar pelo assunto na década de 90, em uma discussão por e-mail em um fórum promovido por um grupo conhecido como Extropians. Entre muitos "excêntricos" e "malucos", havia um punhado de pensadores sérios que também estavam olhando para um futuro trans-humanista, em que a tecnologia levaria a humanidade para além de suas limitações biológicas - como Eliezer Yudkowsky, o guia espiritual por trás do Miri em Berkeley.

A crença de que a extinção autoinfligida da humanidade por meio da tecnologia é algo digno de estudos acadêmicos sérios vem se espalhando. Neste ano, noticiou-se a criação do Instituto do Futuro da Vida nos Estados Unidos (Musk faz parte do conselho consultivo), e a Universidade de Cambridge instalou seu Centro de Estudos do Risco Existencial. Como não há falta de eventos cataclísmicos com que se preocupar, a questão mais premente poderá ser decidir com o que se preocupar mais.

"As pessoas estão passando muito tempo pensando nas mudanças climáticas e pouquíssimo tempo se preocupando com a inteligência artificial", diz Peter Thiel, o investidor do Vale do Silício que é amigo de Musk e um grande apoiador financeiro do grupo de Yudkowsky.

Por trás de todos os alertas há uma crença crescente entre os cientistas da computação de que, dentro de algumas décadas, as máquinas vão alcançar a condição de "inteligência geral artificial" e igualar os humanos em sua capacidade intelectual. Esse momento, diz Thiel, "será um evento tão importante quanto a chegada de extraterrestres no planeta": vai marcar o nascimento de um intelecto tão capaz quanto o dos humanos, mas totalmente inumano, com consequências imprevisíveis.
Bloomberg 
Elon Musk, um nome estrelado no mundo da tecnologia avançada: a inteligência artificial
 é "potencialmente mais perigosa que a energia nuclear"
 
A inteligência artificial já provocou uma discussão pública nos últimos meses, sobre um tipo diferente de risco, centrado em como ela poderá acabar com o trabalho humano, uma vez que computadores inteligentes e robôs poderão assumir a maior parte dos empregos das pessoas. Mas o problema maior é a possibilidade de a IA acabar com a própria humanidade. "A primeira pergunta que faríamos se alienígenas aterrissassem no planeta não seria o que isso significaria para a economia ou os empregos, e sim se eles seriam amigáveis ou hostis."

A rigor, segundo Bostrom, o tipo de inteligência baseada em máquinas que está dominando a humanidade não desejaria mal aos seus criadores. Mas estaria tão concentrada em seus próprios objetivos que poderia acabar triturando a humanidade num piscar de olhos, como um humano que esmaga uma formiga sem perceber.

É aí que entram os cenários de pesadelo. Assim que superarem o intelecto de seus criadores, as máquinas provavelmente chegarão às suas próprias conclusões sobre como melhor alcançar os objetivos que lhes foram programados. E se os humanos não conseguem nem impedir acidentes nos atuais sistemas tecnológicos moderadamente complexos, que chances têm de controlar os sistemas que virão?

O Miri foi fundado sob a crença de que os cérebros limitados dos humanos terão de encontrar um meio de fazer uma programação de segurança nessas máquinas divinas, antes que elas possam alcançar seu potencial pleno. Mas tudo que a mente humana consegue sonhar para controlar a insondável vontade dos supercomputadores parece destinado a fracassar. E com os sistemas complexos governados por computadores tendo um papel cada vez mais importante na vida diária, isso coloca a humanidade em uma clara desvantagem se as coisas derem errado.

No entanto, até mesmo os pessimistas afirmam estar preparados para considerar um resultado mais feliz. Bostrom diz que há uma chance de as coisas acabarem muito bem. Auxiliados por suas máquinas brilhantes, os humanos poderiam rapidamente colonizar o espaço, achar uma solução para o envelhecimento e fazer o "upload" de suas mentes para computadores - basta superar o momento perigoso da explosão da inteligência artificial. "Se chegarmos ao próximo século e alcançarmos a maturidade tecnológica, poderemos ter outros bilhões de anos."

Assim como todas as corridas tecnológicas, a busca pela inteligência artificial nos moldes humanos é movida pela esperança, o idealismo, a ambição e a ganância. É também movida por seu próprio ímpeto, uma vez que o crescimento exponencial da potência dos computadores que acompanhou a revolução da informação contribui inexoravelmente para elevar as capacidades à disposição dos cientistas da computação de todas as partes do mundo.

Diamandis personifica a esperança de muitos, no Vale do Silício, em relação a essa aceleração no ritmo das mudanças tecnológicas. Diante de uma plateia na Singularity University, centro de treinamento que ajudou a fundar perto da sede do Google, ele previu a chegada de "um enorme tsunami de mudanças", que acabará com a vida precária de bilhões de pessoas. Referia-se ao atendimento das necessidades básicas de cada homem, mulher e criança. "Não estou falando de bolsas Louis Vuitton e Ferraris." Considerando que o custo da criação de potência dos computadores continuará caindo às taxas verificadas desde a chegada dos microchips, ele prevê: "Ainda não vimos nem 1% das mudanças que veremos nos próximos dez anos".

Para otimistas como Diamandis, o irreprimível anseio humano pelas descobertas significa que impedir novas invenções não é algo apenas impossível, mas também indesejável. E isso se aplica até mesmo na eventualidade de alguns de seus usuários serem potencialmente perigosos: "Há esse esforço genético que precisamos explorar. Ele nos motiva a fazer mais porque simplesmente podemos - e se não podemos, por que não iríamos querer?"

Há também a suposição inquestionável no Vale do Silício de que, se algo pode ser feito, então inevitavelmente será. Impedir deliberadamente que uma tecnologia avance até sua conclusão lógica parece não apenas ser uma questão de negligência, mas também algo moralmente errado.

Esta é a suposição que Neil Jacobstein, diretor adjunto do curso de inteligência artificial da Singularity University, faz ao descrever como os computadores serão tão avançados, um dia, a ponto de simular o cérebro humano. "Vamos fazer a engenharia reversa do cérebro. É assim que a coisa funciona."

Também não há muitos questionamentos sociais sobre o desenvolvimento tecnológico acelerado que vem sendo promovido por empresas privadas. "As discussões em torno da inovação são orientadas pela premissa de que precisamos de mais", diz Bostrom. "Não é óbvio, se você dá um passo atrás e olha para o quadro macro da humanidade, que, quanto mais inovação se tem, melhor será." Esses pronunciamentos sombrios soam profundamente fora de época.

E há o motor da criação de riqueza da indústria tecnológica. Uma vez em funcionamento, fica difícil freá-lo. Tecnologias são rapidamente criadas e lançadas no mercado. Os ajustes, quando necessários, são feitos posteriormente.

"Há muitos incentivos para se fazer algo e pouquíssimos para fazer da maneira certa", diz Soares. Contra essas compulsões, a autocontenção parece uma coisa altamente improvável. "Na história, isso quase nunca aconteceu." E são esses incentivos desequilibrados que o convenceram de que há apenas 5% de chance de se programar salvaguardas suficientes na inteligência artificial avançada (embora acrescente outros 15% de que vai acontecer algo que, por enquanto, nem conseguimos imaginar).

Para Page, do Google, a inteligência artificial já se emaranhou na vida on-line. Serviços como a busca na internet ou a tradução automática entre idiomas representam um nível elevado de inteligência artificial sob controle das pessoas. "Eles estão aprendendo com você e você está aprendendo com eles. De certa forma, a internet já é isso: uma combinação de inteligência humana e das máquinas que torna nossa vida melhor."

Page, que está lendo o livro de Bostrom, diz estar feliz com o fato de os riscos da inteligência artificial estarem sendo expostos - embora também critique o "alarmismo" em torno do assunto. Haverá muito tempo depois para descobrirmos como controlar a inteligência artificial avançada que está chegando. "À medida que nos aproximarmos dela, saberemos como fazer. Vamos aprender muita coisa no processo."

Nem por isso as advertências apocalípticas serão silenciadas. Conforme diz Muehlhauser, diretor do Miri: "Estamos brincando com a inteligência dos deuses. E não há um interruptor para desligar".
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REPORTAGEM  Por Richard Waters | Do Financial Times
Fonte: Valor Econômico online, 28/11/2014

A obsessão por enganar a morte

Noemi Jaffe* 

Friedrich Jürgenson Foundation 
Friedrich Jürgenson, um dos pioneiros na tentativa de captar vozes do além pelo rádio
 
Mesmo as provas mais aparentemente irrefutáveis de que pessoas recebem, escutam, psicografam ou conversam com os mortos não seriam suficientes para me fazer interessar pelo tema. Menos ainda pela possibilidade de colocá-lo em prática. Em primeiro lugar, porque não acredito. Mas, em segundo, e mais importante, porque não me atrai. Não entendo por que alguém teria interesse em saber algo sobre uma possível vida após a morte.

Minha interpretação e, pelo que entendi, também a de John Gray, no livro "A Busca pela Imortalidade", em que o autor faz uma extensa pesquisa sobre nomes importantes que se dedicaram à prática do "psiquismo", é a de que querer conhecer o que se passa após a morte é, antes de tudo, não querer morrer. Ou, o que na minha opinião é pior do que não querer morrer: querer viver para sempre.
Penso que, por trás do interesse supostamente "científico" ou "humano" pelos pós-humanos, está o desejo do interminavelmente humano, para sempre e para nunca mais.

E só imaginar essa hipótese já me apavora. Como se não bastassem a burocracia, as sacolas plásticas, tirar os pelos de gato da roupa, a vertigem dos livros que não li, aprender a usar o novo iPhone, não ter ido à China nem à Índia, não saber onde nem como estão meus filhos, ter medo de colesterol alto, perder a chave e não encontrar um chaveiro de madrugada ou encontrar um que cobra os olhos da cara, não saber em quem votar, ainda vou precisar passar por essas ou coisas semelhantes depois do túmulo?

Não basta, por outro lado, não saber a origem e o significado do tempo e do espaço, admirar-se em como somos parecidos com um pernilongo e com uma hiena, não compreender e enlevar-se com a dimensão e a beleza de um vale, do mar, de uma sequoia, ainda preciso descobrir e me intrigar com mistérios maiores? Por que não me bastaria o incognoscível de um pardal, de uma margarida, do leite que sai da vaca?

A imanência das coisas, no estado em que elas se encontram, para mim, ao menos, já é suficientemente misteriosa para que eu me dedique a mistérios que dizem ser maiores, mas talvez não cheguem aos pés da perplexidade que me provoca um pé de maracujá. A mortalidade, afinal, contém uma sabedoria semelhante em tudo aos ciclos visíveis da natureza. A velhice, espero, trará consigo um cansaço semelhante ao repouso das folhas que, no outono, devem cair ao chão. E o fim, nesse caso, seria o alívio necessário. Imaginem saber, ao contrário, que cenas do próximo episódio estão prestes a acontecer.

Quanto de vaidade, de manutenção de nossa veleidade egocêntrica, não se oculta por trás do desejo e da sedução de conversar com os mortos? Por que incomodá-los, se eles existem, e por que incomodar-se em alimentar um tempo que não é o agora?

É como se tentássemos, mais uma vez, escapar da dor e da delícia de viver o que está acontecendo e o vazio do que não está acontecendo, em nome de um conhecimento estrangeiro ao real. E, assim, vigorasse a ilusão vaga de imortalidade e controle, em nada diferente dos métodos pseudocientíficos de rejuvenescimento, criogenia e domínio da natureza.

Usam-se testes comprobatórios, laudos científicos e declarações especializadas para provar que o contato com os mortos é possível e verdadeiro. Mas para quê? A ciência não é necessariamente mais imune ao capricho humano do que a fé ou a literatura. É só ver quanto, também na esfera científica, o homem, no desejo de frear a morte, já matou e pôs em risco a própria espécie e o planeta.

"A vida após a morte é uma utopia, um lugar onde ninguém quer viver. Sem as estações, nada amadurece e cai ao solo, as folhas nunca mudam de cor e nem o céu altera seu vago azul. Nada morre, e assim nada nasce. A existência eterna é uma calma perpétua, a paz do túmulo. Os perseguidores da imortalidade procuram um caminho para fora do caos; mas fazem parte desse caos, natural ou divino."

Utopia, não podemos esquecer, é o "não lugar". À utopia da vida eterna, esse não lugar permanente, prefiro a "topia" desse lugar complicado e passageiro, é certo, mas onde posso comer um bom bife.

"A Busca pela Imortalidade - A Obsessão Humana em Ludibriar a Morte".

John Gray. Trad.: José Gradel. Record, 252 págs., R$ 45,00
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* Noemi Jaffe é escritora. Escreveu "O Que os Cegos Estão Sonhando?" e "A Verdadeira História do Alfabeto", entre outros
E-mail: noejaffe@gmail.com
Fonte: Valor Econômico online, 28/11/2014

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A família na Bíblia: Léxico para sair da solidão

Cardeal Gianfranco Ravasi*
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Neste percurso sobre a família guiado pela Bíblia partiremos de alguns vocábulos das suas duas línguas principais, o hebraico e o grego. À primeira vista existe um termo hebraico específico para designar a “família”, “mishpahâ”, que se lê 300 vezes no Antigo Testamento. 

Mas se se analisa um dicionário de hebraico bíblico, descobre-se que o seu significado alarga-se até compreender o clã, a parentela, a descendência, a tribo e até a etnia. 

Daqui deriva que a família bíblica, embora nascendo de um núcleo constitutivo, o casal, não é “nuclear” nem uma mónada fechada em si mesma, mas tem uma energia vital que se ramifica em relação com a sociedade. 

É também por isto que o outro vocábulo fundamental é “bayit/bêt”, presente 2092 vezes, mas com um arco de significados que partem da “casa” material e se alargam à “família” por ela hospedada, à sua descendência e ao próprio povo (a “casa de Israel/Judá”). 

O mesmo acontece no Novo Testamento, onde os dois vocábulos paralelos “óikos/oikía” ressoam 207 vezes, acompanhados por um conjunto de cerca de 40 termos derivados: ainda que o significado seja antes de tudo “casa”, compreendem também quem nela habita, isto é, a família. 

Um famoso escritor argentino caro ao papa Francisco, Jorge Luis Borges, afirmava que «cada casa é um candelabro sobre o qual a vida arde em chamas separadas».

E, com efeito, pode imaginar-se – caminhando como fazia Borges pelas ruas da sua capital (o livro de que é extraído o verso citado intitula-se “Fervor de Buenos Aires”) – que os mutos dos palácios ocultam no seu interior muitas chamas, isto é, vidas isoladas nas suas solidões ou dramas, famílias unidas no amor ou revolvidas pelas divisões, ricas ou curvadas sob o espectro da pobreza ou da falta de trabalho. 

A Bíblia, todavia, recorda-nos que deveremos deter este isolamento e abrir a solidão a um contacto, a uma comunhão, a um encontro. É sugestivo que as casas do passado tinham as portas abertas para o pátio, onde as pessoas se cruzavam, dialogavam, murmuravam. 

Pelo contrário, o emblema dos nossos condomínios anónimos é a porta blindada que separa totalmente do exterior, ao ponto de uma pessoa só poder morrer e durante semanas os vizinhos não darem conta. 

O léxico bíblico da família impele-nos, por isso, a impedir o isolamento no medo, por vezes até legítimo, na solidão, na indiferença recíproca. «Ai do solitário que cai», adverte Qohélet/Eclesiastes (4,10), não tem outro para o levantar».

No isolamento subsiste também o risco do egoísmo, como brutalmente clamava o escritor francês André Gide: «Famílias, odeio-vos! Lares herméticos, portas trancadas, ciumenta possessão da felicidade!». 

Reencontrar a vocação da família a ser a célula de um corpo mais vasto, um horizonte aberto que acolhe e se expande: é este o espírito de base da verdadeira comunidade familiar.
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Card. Gianfranco Ravasi
In "Famiglia Cristiana"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Fonte: Publicado em 27.11.2014 -http://www.snpcultura.org
Foto:  A família feliz | Pablo Picasso | C. 1917 | Museu Picasso, Paris, França | D.R

Papa Francisco. As lentes do cardeal, do sociólogo, dos jornalistas

 
Todas as lentes dirigidas a Francisco. Para compreender quem é e para onde quer ir. Na Igreja, em todos os níveis, as críticas ao Papa não se calam mais e se expressam abertamente. Entre os purpurados, o mais explícito é Francis George.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Chiesa.it, 26-11-2014. A tradução é do Cepat.
O tempestuoso sínodo de outubro sobre a família, a nomeação do novo arcebispo de Chicago e a degradação do cardeal Raymond L. Burke marcaram um ponto de inflexão no pontificado do papa Francisco.

Os incômodos, as dúvidas e os julgamentos críticos vêm, cada vez mais, à luz do sol e a cada dia se tornam mais explícitos e motivados.

Em todos os níveis do “povo de Deus”. Entre os cardeais, os sociólogos da religião e entre os jornalistas especializados em temas vaticanos.

Abaixo, três testemunhos do novo clima.

1. O cardeal

Francis George não é um cardeal qualquer. Arcebispo de Chicago até poucas semanas atrás e presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, de 2007 a 2010, foi quem começou e conduziu o novo curso da Igreja Católica estadunidense, durante o pontificado de Bento XVI, em perfeita sintonia com ele.

Ao colocar como seu sucessor em Chicago um bispo de perfil oposto, Blase J. Cupich, o papa Francisco expressou um inequívoco sinal de desacordo com a linha da Conferência Episcopal.

Porém, por sua vez, esta confirmou que não deseja abandonar o percurso empreendido. Efetivamente, ao eleger aos próprios quatro representantes no segundo momento do Sínodo sobre a Família, concentrou os votos, mais do que em Joseph Kurt e Daniel DiNardo, presidente e vice-presidente da Conferência Episcopal, sobre Charles Chaput, arcebispo da Filadélfia, e sobre José Gómez, arcebispo de Los Angeles, ou seja, precisamente sobre dois principais expoentes da corrente ratzingeriana.

Cupich foi o primeiro dos não eleitos, seguido de perto por outro ratzingeriano dos mais aguerridos, Salvatore Cordileone, arcebispo de São Francisco.

É neste contexto que o cardeal George concedeu, em meados de novembro, uma ampla entrevista ao vaticanista John Allen, do “Boston Globe”, na qual explicou, como nunca antes, suas reservas sobre o papa Francisco.

Na sequência, oferecemos passagens centrais. (a íntegra da entrevista pode ser lida aqui)

“Suscitou expectativas que não pode satisfazer”, por Francis George

Posso compreender a ansiedade de algumas pessoas. À primeira vista não fecha, pode parecer que Francisco coloca em discussão o ensinamento doutrinal consolidado. Porém, caso se veja novamente, sobretudo quando se escuta suas homilias, percebe-se que não é assim. Com muitíssima frequência, quando ele diz certas coisas, sua intenção é entrar no contexto pastoral de algo no qual se encontra imerso, por assim dizer, em uma armadilha. Talvez expresse esta sua simpatia em uma forma que induz as pessoas a se perguntar se ele ainda sustenta a doutrina. Não tenho nenhum motivo para acreditar que não faça isso. [...]

Coloca-se, então, a pergunta: por que o próprio Francisco não esclarece estas coisas? Por que é necessário que os apologistas suportem o peso de ter que dar uma vez e outra a cara? Levam-se em conta as consequências de algumas de suas afirmações, ou também de algumas de suas ações? Levam-se em contra as repercussões? Talvez, não. Não sei se ele é consciente de todas as consequências dessas palavras e desses gestos que suscitam tais dúvidas na mente das pessoas.

Esta é uma das coisas que gostaria de ter a possibilidade de lhe perguntar, caso pudesse estar, ali, diante dele: “Percebe o que ocorreu apenas com essa frase ‘quem sou eu para julgar?’, como ela foi usada e abusada?”. É uma frase que realmente foi utilizada de forma abusiva, pois ele estava falando da situação de alguém que já havia pedido piedade e a absolvição, de alguém que era muito conhecido por ele. É algo totalmente diferente de falar de alguém que pretende que seja aprovado, mas sem pedir perdão. Abusou-se constantemente dessa frase.

Suscitou expectativas em torno dele que, em absoluto, não pode satisfazer. Isto é o que me preocupa. Em certo ponto, aqueles que o pintaram como um ator secundário em seus cenários sobre as mudanças na Igreja, irão descobrir que ele não é o que acreditam. Descobrirão que não vai nessa direção. E talvez, então, será convertido no alvo não apenas de uma desilusão, mas também de uma oposição que poderia ser daninha para a eficácia de seu magistério. [...].

Pessoalmente, considero interessante que este Papa cite esse romance intitulado “Senhor do mundo”. É algo que gostaria de lhe perguntar: “Como você faz para reunir o que faz com o que diz, que é a interpretação hermenêutica de seu ministério, ou seja, esta visão escatológica segundo a qual o Anticristo está em nosso meio? É nisto que você acredita?”. Gostaria de fazer esta pergunta ao Santo Padre. Em certo sentido, talvez isto pudesse explicar porque ele parece ter tanta pressa. [...] No que o Papa acredita a respeito do fim dos tempos? [...]

Antes de sua eleição, eu não o conhecia bem. Soube dele por meio dos bispos brasileiros, que o conheciam mais, e fiz muitas perguntas para eles. [...] Desde o momento em que foi eleito, não pude me encontrar com ele. [...] Não conheço o papa Francisco o suficiente. Certamente, respeito-o como Papa, mas me falta ainda compreender o que é que tenta fazer.

2. O sociólogo

Luca Diotallevi ensina sociologia na Università degli Studi Roma Tre. Mas, há anos, é também o sociólogo de referência da Conferência Episcopal Italiana. Foi relator no congresso eclesial nacional de Verona, no ano de 2006, com o papa Joseph Ratzinger e com o cardeal Camillo Ruini, e é vice-presidente do Comitê Científico e organizador das Semanas Sociais dos católicos italianos.

No último dia 12 de novembro, ofereceu um relatório na assembléia geral da Conferência Episcopal, reunida em Assis, sobre o tema: “As transformações em curso no clero católico. Uma contribuição sociológica a respeito do caso italiano”.

Na parte final de seu relatório, o professor Diotallevi chamou a atenção dos bispos sobre a mutação em curso no catolicismo, não apenas italiano, para uma forma de religião “de baixa intensidade”.
Ou seja, uma religião que “ganha em visibilidade e perde em relevância”.

Entre os bispos presentes, há quem percebeu uma referência implícita ao “êxito” do papa Francisco.
Nesta mesma assembléia, os bispos italianos rejeitaram sonoramente, ao eleger um dos seus três vice-presidentes, o candidato predileto do Papa, o arcebispo e teólogo Bruno Forte, secretário especial por nomeação pontifícia dos dois sínodos sobre a família. Forte obteve 60 votos contra os 140 que foram dirigidos ao eleito, Mario Meini, o bispo de Fiesole.

Na sequência, apresentamos uma passagem do relatório de Diotallevi.

Para um catolicismo “de baixa intensidade”, por Luca Diotallevi

O que está em curso não é um momento de declínio da religião e de laicização, pelo contrário, é um momento de “auge religioso”.

A fase presente do boom religioso se constrói sobre a crise desse cristianismo confessional que se afirmou, a partir do século XVII, como elemento de respaldo ao primado da política sobre a sociedade, na forma de Estado.

Algumas correntes da variante católica romana do cristianismo, no papel, resultam menos comprometidas por esta crise e podem interpretá-la como rica em oportunidades. No entanto, se entre os candidatos para conduzir este boom religioso está o catolicismo romano, entre estes também está presente a “low intensity religion”, a religião de baixa intensidade.

A grande vantagem desta opção consiste no fato de que concede ao consumidor religioso uma capacidade quase infinita de escolha e de recombinação entre bens e serviços postos no mercado pelos mais diferentes atores da oferta religiosa.

A religião de baixa intensidade oferece também grandes oportunidades às autoridades religiosas. Se estas sabem rebaixar as próprias pretensões normativas, a elas é garantido um grande futuro e um protagonismo discreto como empreendedores religiosos.

Nesta concorrência, os novos atores da oferta religiosa – desde os pentecostais e carismáticos até a New Age – possuem boas cartas para jogar: uma extrema flexibilidade e uma grande indulgência a respeito da expressividade.

Porém, os atores religiosos tradicionais também têm apreciáveis recursos à disposição: uma marca consolidada, uma enorme reserva de símbolos e ritos, um grande conhecimento dos mercados locais. Por certo, com a condição de se libertar dos “velhos” escrúpulos da ortodoxia e da ortopráxis; com a condição de que aceitem possuir menos relevância para ter maior visibilidade.

Também no interior do catolicismo muitos atores religiosos adotaram e estão adotando as formas de uma religião de baixa intensidade.

Não é por acaso que, neste clima, o sacramento do matrimônio se torne um problema para a Igreja Católica. Este sacramento é literalmente inconcebível em uma perspectiva de religião de baixa intensidade, que reserva uma atenção grande, mas genérica, ao bem-estar da família.

Considerar atentamente os traços do boom religioso atualmente em ação é indispensável para compreender o significado de processos e de crises como os que interessam ao clero católico. Em grande parte, estes processos e estas crises são expressão da tentativa de assimilar o catolicismo a uma religião de baixa intensidade.

E muita lucidez serve também para se abster de recorrer a soluções hoje sob a luz dos refletores, como as que desejariam que a ordenação presbiteral não fosse mais limitada aos varões celibatários. As tradições cristãs que ordenam homens casados e, às vezes, também mulheres, e que em consequência dispõem proporcionalmente de maior quantidade de clero, encontram-se exatamente diante dos mesmos problemas e com frequência de forma decididamente mais intensa.

3. Os jornalistas

Aldo Maria Valli é o número um dos vaticanistas que trabalha na RAI, a televisão italiana do Estado. E Rodolfo Lorenzoni também trabalha na RAI, durante certo período na RAI-Vaticano.
Ambos são católicos fervorosos, mas não pensam da mesma forma. Valli se sente muito em sintonia com o papa Francisco, ao passo que Lorenzoni é mais crítico.

Ambos decidiram confrontar suas posições em um livro que tem como título “Viva Il papa? La Chiesa, la fede, i cattolici. Un dialogo a viso aperto” [Viva o Papa? A Igreja, a fé, os católicos. Um diálogo aberto].

No enxurrada de livros e de opúsculos apologéticos que acompanham o pontificado de Francisco, este livro de Valli e Lorenzoni se distingue por sua objetividade.

Na continuidade, reproduzimos uma passagem, na qual os dois vaticanistas atribuem boa parte da incompreensão que pesa sobre o Papa ao retrato que os meios de comunicação oferecem.

Contudo, ambos concordam em reconhecer também no próprio Francisco a origem desta incompreensão.

Lorenzoni diz claramente: “Francamente, ainda não entendo quem é este homem e para onde tenta levar a Igreja de Cristo”.

Valli também tem suas dúvidas: “Sinceramente, não sei se esta estratégia de Francisco está dando frutos”.
Passamos a palavra para os dois.

Mas, quem é Francisco?, por Aldo Maria Valli e Rodolfo Lorenzoni
Valli

Apesar daqueles que o apresentam em seu proveito como “progressista”, o papa Francisco não perde a oportunidade para falar da morte, do além, do inferno e do paraíso. E faz isso abertamente. Você considera que estas expressões de Francisco foram muito propagandeadas? Para mim não. É possível entender isto. O fenômeno Francisco vai bem enquanto é funcional ao subjetivismo desenfreado. Quando, ao contrário, vai contra a corrente, dispara-se a censura.

Talvez nós quiséssemos justamente um jesuíta sul-americano para que os novíssimos, as realidades últimas, fossem arrancadas do sótão para onde foram relegadas. Com efeito, durante muito tempo na Europa a Igreja quase foi desacreditada. Mas, permanece de pé a pergunta: o quanto é conhecido este Francisco escatológico, este Papa que fala abertamente do inferno como exclusão do abraço de Deus e não teme em nada recomendar a purificação como condição para chegar ao paraíso?

A resposta é fácil: é conhecido pouco ou nada, porque há aqueles que têm interesse em nos fazer conhecer apenas um Francisco, o aparentemente mais na moda, o politicamente correto.
Lorenzoni

Com efeito, é curioso que os meios massivos de comunicação e Francisco tenham contraído núpcias assim que Bergoglio saiu à galeria da Praça São Pedro pronunciando seu “boa tarde”. Exceto o fato de que eu havia esperado sentir dele “o Senhor esteja com vocês”, no mesmo momento em que escutei essa saudação intui imediatamente a má impressão. Ou seja, tive o presságio dos mal-entendidos, as omissões, as contorções, os conformismos, as superficialidades com as quais incessantemente os meios de comunicação nos haveriam de submeter para exaltar um certo tipo de Papa à custa de outro. Também para nos dar a “estatueta”, mais do que a substância.

E, efetivamente, chegaram pontualmente os títulos fáceis para toda página, os slogans lançados e repetidos em cada página web, os insistentes pedidos por parte dos chefes de redação e diretores para privilegiar a frase ou o gesto com efeito, os que se fixam nos olhos e na mente do espectador e lhes impedem de mudar o canal.

Devo dizer que a operação teve êxito. Contudo, seria o caso de aprofundar mais a análise, antes de tudo com o perfil científico da teoria da comunicação de massas, da sociologia e da técnica da informação.

Porém, além disso, direi, sobretudo, que gostaria verdadeiramente de conhecer Francisco. Porque como jornalista e como católico, como pessoa que tenta acompanhar com atenção a Igreja e ao Papa, francamente ainda não compreendi quem é este homem e para onde tenta levar a Igreja de Cristo.
Valli

Você apresenta uma pergunta crucial: quem é realmente Francisco? Apesar das milhares de páginas escritas sobre ele, talvez não sabemos isso ainda. Porém, Jorge Mario Bergoglio, especialmente por meio de algumas entrevistas, disseminou, aqui e ali, indícios que podem nos ajudar a dar uma resposta.

Durante o vôo de retorno do Brasil, em julho de 2013, quando o jornalista o cercou, fazendo-lhe notar que certos temas como o aborto e as uniões homossexuais suscitam muito interesse entre os jovens e, em consequência, ele precisaria ter enfrentado os mesmos, Francisco disse: “Sim, mas não era necessário falar disso, mas, sim, das coisas positivas que abrem caminho aos jovens. Além disso, os jovens sabem perfeitamente qual é a postura da Igreja”.

Ou seja, a questão de Francisco não é tanto uma mudança de conteúdo, mas de método. Ao invés de se centrar nas normas, prefere propor, de forma positiva, a beleza da aventura cristã. Ao invés de colocar em primeiro lugar a “didaché”, o ensinamento doutrinal, escolheu privilegiar o “kerygma”, o evangelho em sentido literal: a boa notícia.

O aspecto doutrinal não está totalmente ausente, mas foi deslocado. Ao invés de estar centrado sobre o que Bento XVI definiu como os valores não negociáveis – vida, família, educação –, apoia-se na “corrupção”, expressão com a qual Francisco entende não apenas o se colocar a serviço do dinheiro como ídolo, mas também, melhor dito, antes de tudo, o não reconhecer o senhorio de Deus e a necessidade de recorrer à sua misericórdia.

Karl Rahner disse, uma vez, que o cristianismo do amanhã será místico ou não será. Francisco se inseriu nessa linha. Bem consciente do fato de que nossa sociedade não é mais cristã, considera que os homens e as mulheres de nosso tempo podem voltar à fé somente em virtude de um encontro pessoal com Jesus. Um encontro que muitas vezes acontece no momento da enfermidade, da solidão, da pobreza e que não fica tanto no plano das ideias, mas, sim, no dos sentimentos, não no cérebro, mas, sim, no coração.

Sob este aspecto, o pontificado de Francisco tem mais de uma afinidade com os movimentos evangélicos tão difundidos na América Latina.

Sinceramente, não sei se esta estratégia de Francisco está dando frutos. As praças cheias e as multidões que aclamam significam que o Papa conseguiu seu objetivo, ou são fenômenos induzidos por certa exaltação coletiva? Talvez uma coisa e outra caminhem juntas.

Para ser oferecido com eficácia, o Evangelho precisa de instrumentos, e no caso de Francisco o primeiro instrumento é ele mesmo. Também o é com suas saudações, com o seu bom dia, boa tarde e bom almoço, com seus discursos breves, mas ricos em imagens que ficam gravadas, com sua sabedoria popular que sabe um pouco de outros tempos, mas que consegue interessar.

Será necessário observar para onde levará a Igreja.

O livro:
A.M. Valli, R. Lorenzoni, “Viva Il papa? La Chiesa, la fede, i cattolici. Un dialogo a viso aperto”, Cantagalli, Siena, 2014.
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Fonte: IHU online, 27/11/2014
Imagem da Internet

“Marx é possivelmente mais importante que Jesus”: como foi a palestra de Piketty em SP

Pikkety em sua palestra na USP
Piketty em sua palestra na USP

Estive ontem na Faculdade de Economia e Administração da USP, a FEA, para assistir a palestra do economista francês Thomas Piketty promovendo seu livro “O Capital do Século XXI”.

O escritor comparou Karl Marx com Jesus Cristo ao responder uma pergunta e explicou como seu livro não é sobre crescimento da desigualdade de renda, mas sim sobre concentração de capital e como isso atrapalha o crescimento econômico.

Embora os cursos de economia e administração sejam conhecidos por terem alunos e professores mais conservadores ou de direita, a plateia estava bem diversificada. Um dos presentes, sentado atrás de mim, estava usando uma camiseta vermelha com o símbolo da foice e do martelo.

Piketty explicou que seu livro trata de concentração de renda e não necessariamente do crescimento da desigualdade, sua consequência direta. “E não tenho problemas com as pessoas discordarem das minhas conclusões neste estudo, que inclui países latino-americanos. Em muitos casos, as ciências sociais podem apontar para conclusões particulares e há nações com casos muito peculiares, como é o próprio Brasil”, disse.

Tentou falar em inglês, embora seu sotaque de um francês carregado o tornasse complicado de entender.

O livro de Thomas Piketty é separado em quatro grandes partes, com seus temas: “1. Renda e Capital”, “2. A dinâmica da relação capital e renda”, “3. A estrutura da desigualdade”, “4. Regulando o capital no século XXI”.

A apresentação abordou mais a segunda e a terceira partes, que chamaram atenção tanto da mídia liberal quanto dos seguidores do marxismo econômico. Piketty avisou que os gráficos estão presentes na internet.

“No período pós-Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e o Japão passaram por uma redução de desigualdade social entre 1930 e 1940. Entretanto, esse índice voltou a subir e o mundo está acompanhando esse fluxo de concentração, em maior ou menor escala”, mostrou Piketty através de tabelas. “Isso é um fenômeno cíclico. Se você melhora a distribuição do capital, isso diminui a desigualdade. Assumimos que isso é uma constante, mas por enquanto ninguém tem motivos para pensar de maneira diferente”.

“A Europa passou por uma situação diferente. A guerra provocou uma falta de investimentos na iniciativa privada, causando um impacto no pensamento europeu. Desta forma, geração de riqueza e fortalecimento do PIB através de ações estatais foram importantes para o desenvolvimento de um Estado de Bem-Estar Social. Todo mundo passou a ter acesso a moradia e estrutura financeira no Reino Unido, na França e na Alemanha, criando uma distribuição mais igualitária do capital”, pontuou, comprando ao caso dos EUA, em que a economia é baseada na concorrência supostamente meritocrática.

Thomas Piketty fez várias críticas sobre a situação econômica do Brasil.

“Há poucas informações fiscais realmente confiáveis na econômica brasileira. Isso é um problema para saber a real situação da distribuição de riqueza. O Brasil precisa de mais transparência para produzir informações que identifiquem quais grupos estão se beneficiando do crescimento nacional”, disse.

Curiosamente, Piketty está utilizando hoje tanto os dados do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) do IBGE, que apontou uma redução de 50% para 45% da riqueza concentrada entre os brasileiros mais ricos entre 2007 e 2012, quanto dados da UnB dos pesquisadores Fabio Avila Castro, Marcelo Medeiros e Pedro H. G. F. Souzas, todos do Ipea.

Na segunda pesquisa, a riqueza dos 5% dos mais ricos no Brasil cresceu de 40% para 44% entre 2006 e 2012, de acordo com suas declarações de Imposto de Renda. Esse último levantamento foi divulgado em agosto deste ano e é inspirado nas pesquisas do próprio Thomas Piketty.

“Esse aumento da desigualdade social decorrente da concentração de renda deve mudar a forma como lidamos com demanda em tempos de globalização. As melhores universidades americanas, por exemplo, mantêm seus quadros, mas a situação de quem não tem acesso a uma educação de qualidade é preocupante”, criticou o economista. “O acesso à educação é um dos métodos para reduzir a economia desigual e ter um desenvolvimento mais saudável da riqueza”.

Após a palestra, foram chamados os economistas Paulo Guedes, colunista da revista Época e do jornal O Globo, fundador Instituto Millenium e do Banco Pactual, além de André Lara Rezende, ex-presidente do BNDES na gestão de Fernando Henrique Cardoso.

Rezende questionou se não existe mais mobilidade econômica e social com as mudanças nos rankings de bilionários de revistas como a Forbes, considerando que há até brasileiros enriquecendo e ganhando destaque. Piketty elegantemente discordou: “Uma mobilização similar existia no final século 19, quando surgiu uma empresa francesa de destaque como a L’Óreal e ainda existiam grandes oligopólios familiares”.

Paulo Guedes elogiou o livro, que critica até Karl Marx na questão do acúmulo infinito de capital. “Normalmente tratam Marx como Jesus Cristo, por isso sua obra é muito feliz na análise”, afirmou o economista brasileiro formado pela Universidade de Chicago. No entanto, ele questionou o foco da crítica apenas na concentração de renda e duvidou que um aumento de impostos para os mais ricos ajudaria a mudar a situação, considerando um quadro inflacionário alto e uma depreciação monetária na globalização.

“Marx é possivelmente mais importante que Jesus”, brincou Piketty. Em seguida, fez uma crítica direta ao raciocínio de Guedes: “Certamente é mais fácil imprimir dólares, mas é muito mais difícil e necessário redefinir os impostos. Eu prefiro taxas progressivas de impostos para controlar a riqueza. Muitos impostos como no Brasil não resolvem, e nem zerar as taxas deixando que o mercado se regule”.
Infiltração bolivariana na plateia
Infiltração bolivariana na plateia

“Comecei a abordar a questão da concentração de renda e a necessidade de mais igualdade a partir de Declaração dos Direitos Humanos e do Cidadão da Revolução Francesa de 1789. A desigualdade não é um problema em si, mas passa a prejudicar o crescimento econômico quando beneficia apenas alguns grupos ao invés do bem social”, frisou o francês.

Afirmou que sua análise passa longe de teses apocalípticas sobre a economia, mas aponta para problemas que podem se acirrar com a má distribuição de capital. “Este não é um livro pessimista, como alguns podem pensar. Eu acredito na globalização e em como todos podem se beneficiar dela. O problema é que falta transparência e a corrupção com desigualdade tornaram-se um pesadelo para países pós-revoluções. O Brasil tem esse problema, mas posso garantir que não é pior do que a China”, explicou.

Paulo Guedes questionou Piketty sobre como o PT fez o Brasil crescer nos últimos anos e agora levou a economia até um estágio de estagflação. Indagou novamente se um imposto sobre os mais ricos resolveria o atual problema. “Tive um debate interessante com Bill Gates sobre isso e ele me disse que não quer pagar mais impostos. Sugeriu uma taxação sobre o consumo”, respondeu.
“Eu entendo esse comentário, mas isso beneficiaria apenas ele, que investe em filantropia e não é consumista, embora ainda seja um dos maiores bilionários do mundo. Um pobre que consome muito ainda seria prejudicado por essa medida. Por isso, eu acredito muito mais em taxas proporcionais à renda, e não a outros parâmetros”.
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Reportagem por  Pedro Zambarda de Araujo: Escritor, jornalista e blogueiro. Atualmente escreve sobre tecnologia e games no site TechTudo. Teve passagem pelo site da revista EXAME. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, estuda filosofia na FFLCH-USP.
Fonte:  http://www.diariodocentrodomundo.com.br/marx-e-possivelmente-mais-importante-que-jesus-como-foi-a-palestra-de-piketty-em-sp/

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

OS IMPOSTORES DO MINISTÉRIO DA ORDEM

José Lisboa Moreira de Oliveira*

O meu amigo, Pe. José Antônio, do clero da arquidiocese de Mariana (MG), com quem tive a grata satisfação de trabalhar no Setor Vocações e Ministérios da CNBB (1999-2003), em recente artigo divulgado na internet, levantava a pergunta acerca do principal medo do papa Francisco. A pergunta poderia ser muito bem invertida para evidenciar quais são as pessoas que, na Igreja Católica, mais temem as audaciosas propostas de renovação apresentadas pelo papa Francisco, e que, a meu ver, estão condensadas na sua exortação Evangelli Gaudium. Quem, na Igreja Romana, teria medo de propostas como esta: "Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades” (EG, 33)?

Com certeza estariam em primeiro lugar os grupos católicos ultraconservadores, bem representados pela Fraternidade São Pio V, fundada pelo bispo cismático Lefebvre. Porém, os conservadores católicos não causam tanto medo ao papa e nem o papa lhes provoca medo. Reagir a toda mudança na Igreja está no DNA desses grupos, os quais acreditam piamente que o único modelo histórico de Igreja é aquele construído a partir do Concílio de Trento, ou, pior ainda, a partir do espírito da Contrarreforma.

Quem, então, causaria medo ao papa Francisco, ou, melhor dizendo, quem tem medo das propostas do papa Francisco? Pe. José Antônio, sem rodeios, afirma que é o "clero camaleônico”, ou seja, aqueles padres que vendo o ministério ordenado como status, como profissão bastante rentável, como pedestal para a fama e o sucesso, temem um papa que insiste em dizer que o ministério ordenado é serviço e que os padres precisam "sentir o cheiro das ovelhas”.

Prosseguindo em sua reflexão, o Pe. José Antônio alerta para um particular assustador: a quase totalidade desse "clero camaleônico” é formada por padres jovens e por seminaristas, futuros padres, que já se comportam como se fossem ministros ordenados. É assustador porque era de se esperar que padres jovens e seminaristas, formados depois do Concílio Vaticano II, fossem capazes de acolher com entusiasmo e paixão a proposta de renovação da Igreja apresentada pelo papa Francisco. Mas não é isso que estamos vendo. Boa parte deste clero permanece indiferente ao que o papa Francisco vem dizendo. Sinal claro dessa indiferença é a falta de divulgação, de conhecimento, de estudo e de aplicação pastoral da exortação Evangelli Gaudium. Pude constatar isso pessoalmente em recente assessoria a um grupo numeroso de pessoas, na sua quase totalidade formada por leigos, sobre a exortação papal. A queixa geral era de que os padres não falam da Evangelli Gaudium. Constatou-se inclusive o caso de padres que nem sequer sabiam da existência da exortação. Há poucos dias uma senhora de uma paróquia do interior da Bahia perguntava ao jovem pároco de sua cidade porque na sacristia da igreja paroquial ainda não tinha sido colocada a fotografia do papa Francisco. Queria saber porque tudo tinha parado na foto do papa Bento XVI. O pároco respondeu-lhe que a razão era o fato de que os vidraceiros da cidade estavam sem moldura. Conversa essa que não colou, pois a senhora, do alto da sua experiência de idosa, percebeu que o pároco estava mentindo.

Mas há também aquele grupo de padres e de seminaristas que faz de conta que acolhe as propostas do papa Francisco. Age, porém, como camaleão, por mero oportunismo e para continuar levando vantagem em tudo, visando não perder as benesses oferecidas pelo acesso ao ministério ordenado. Este grupo de clericais externamente faz de conta que aderiu ao papa Francisco, mas, na prática, sempre que pode, oculta, desvirtua e desvia os ensinamentos papais, não permitindo que o povo tome conhecimento daquilo que o papa Francisco está propondo com certa insistência.

Diante do que acabamos de expor vem de imediato a pergunta: o que leva padres e seminaristas a agir desta forma? Por que temem o papa Francisco? Por que agem com indiferença ou fazendo de conta que acolhem a palavra do bispo de Roma?

Inúmeros estudos publicados nos últimos anos explicam de modo suficiente este problema. São estudos com dados incontestáveis, baseados em pesquisas sérias. A própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Organização dos Seminários e Institutos do Brasil (OSIB) e a Comissão Nacional de Presbíteros (CNP) patrocinaram alguns desses estudos.

Duas causas estariam por trás desse comportamento. A primeira delas é a visão de vocação presbiteral como sendo a vocação por excelência. Ser padre é "dez”, é estar acima de qualquer coisa. Chegar a ser padre é colocar-se acima de tudo e de todos os mortais. A segunda causa seria o desejo das dioceses de suprir a falta de padres, levando-as a admitir nos seminários e no presbitério verdadeiros impostores que olham para o ministério ordenado como a forma mais fácil de adquirir poder, status, fama e dinheiro. A tais pessoas não lhes importa o serviço ao povo, mas as vantagens que vão ter com o acesso ao ministério ordenado.

A filósofa, socióloga e teóloga Arlene Denise BACARJI realizou recentemente um estudo sobre essa questão, baseando-se em dados de pesquisas feitas em diversas partes do mundo por eminentes pesquisadores. O próprio título do seu estudo é, por si mesmo, bem sugestivo: A impostura no Ministério da Ordem. Transtornos de personalidade e perversão no Clero à luz da psicanálise e da psiquiatria*. O estudo acaba de ser publicado pessoalmente pela autora. É lamentável que ela não tenha encontrado uma editora católica capaz de assumir a publicação, obrigando-a a fazer uma edição privada. Essa recusa não deixa de trazer um grande prejuízo para a própria Igreja Católica.

Em seu estudo, depois de analisar a origem do problema da impostura no Ministério da Ordem, a autora se detém cuidadosamente na reflexão sobre os transtornos e as perversões dentro dos quadros da Igreja, particularmente entre o clero. Fala dos desvios institucionais, de personalidade antissocial, narcisista patológica e sobre as perversões propriamente ditas. No final aponta algumas possibilidades de saída do impasse.

Arlene Bacarji mostra como a natureza hierárquica, uma falsa compreensão da misericórdia, a segurança que o ministério ordenado proporciona e o celibato visto como um modo de não se relacionar em profundidade com ninguém atraem com muita facilidade pessoas com transtorno de personalidade e muita gente perversa. A pessoa com essas patologias "sempre consegue um bispo desavisado, misericordioso, confiante em sua remissão, que o acolherá” (p. 36). Bacarji lembra que o sistema eclesiástico favorece tais pessoas, uma vez que "elas aprendem rapidamente como subir em postos de poder, como fazer para serem elevados a bispos, cardeais” (p. 43).

A autora apresenta o perfil do impostor no Ministério da Ordem: "O poder, o brilho, o sucesso, só dependem de sua eloquência no altar, de sua capacidade de sedução e poder de atração, e de sua capacidade retórica, persuasão, de introjetar os sentimentos e emoções na sua fala de modo que impressione o público, para que seja admirado, endeusado e adorado. O Altar se torna um palco. Pois a oficialização desse poder já está dada. A impostura no Ministério da Ordem por estas personalidades todas que tratamos neste livro se caracteriza pela grandessíssima capacidade da pessoa de fazer ‘teatro’. Elas representam muito bem” (p. 43). E representam tão bem que são capazes de camuflar a aversão ao papa Francisco e ao que ele propõe, bastando para tanto apenas um "discurso bonito” (p. 44), ou seja, aquele discurso lacunar, através do qual a pessoa fala um monte de baboseira que seduz os desprovidos de senso crítico, mas que não diz absolutamente nada.

O que fazer? Existem saídas? É claro que sim. O problema é saber se os bispos estão dispostos a colocá-las em prática. Eu aponto pelo menos três. A primeira delas é desmistificar a figura do padre, retirando dele toda auréola sacral que o envolve. Apresentá-lo como um homem comum, normal, igual aos outros, chamado por Deus a ser diákonos, ou seja, mero servidor dos demais. Homem sinal sacramental de Cristo servo de todos, que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,35-45). Nessa perspectiva o acento deve ser colocado sobre a vocação comum batismal, como nos lembrou o Vaticano II na Lumen Gentium. O importante não é ser padre, mas discípulo, seguidor de Jesus, missionário, como enfatiza diversas vezes o Documento de Aparecida.

Uma segunda saída seria a revisão do atual modelo de ministério ordenado, focado excessivamente no padre celibatário que passa entre oito e nove anos no seminário e que sai de lá bastante treinado para ser "aparentemente normal”, mas que, na prática, é uma pessoa cindida, tendendo para a mentira crônica (Bacarji, p. 45-64). Não há como resolver o problema da impostura no ministério ordenado enquanto não se fizer uma reforma séria no ministério ordenado, incluindo nele novas formas de ministérios que descentralizem o poder e quebrem o monopólio e o autoritarismo dos padres.

A terceira proposta de saída é a mudança de comportamento com relação a essas pessoas. Bacarji lembra "que Cristo e o Evangelho não são tolerantes com a hipocrisia e com a falsidade” (p. 45). Por isso, ela afirma que "a misericórdia com estas pessoas deve ser pensada em outros moldes que não a habitual. Talvez seja mais misericordioso impedi-las de terem oportunidade de vivenciar suas perversões e patologias antissociais ou narcisistas, fazendo mal às pessoas da Igreja, à própria Igreja, a Deus e a si” (p. 67). Isso significa que a formação inicial dos candidatos aos ministérios ordenados precisa ser mais séria, capaz de identificar possíveis impostores e impedindo-os de chegar à ordenação. Mas para isso é preciso que à frente dos seminários estejam pessoas equilibradas e não seres transtornados e perversos.

Por fim, é preciso dizer que a maioria dos padres é formada por homens honestos, sérios, simples e inteiramente doados ao povo. E isso é uma grande consolação. Mas, na maioria das vezes, esses padres não são valorizados, não são apresentados pela mídia católica, sendo sobrepujados pelos impostores, geralmente midiáticos e "carismáticos” que se apresentam ao povo como os únicos modelos de presbíteros. Com isso o estrago está feito, pois o povo, iludido por "lobos vestidos com peles de ovelhas” (Mt 7,15), acaba deixando-se seduzir. "As batinas, hábitos, clergyman, para estas pessoas, representam poder e também especialidade em relação aos outros mortais, por isso muitos deles fazem questão dessas coisas já desde o seminário” (BACARJI, p. 62). Precisamos, pois, estar muito atentos, pois a impostura no ministério ordenado "costuma confundir muitos superiores e a todos nós” (Ibid., p. 70).

*O livro de Arlene Bacarji pode ser solicitado pelo e-mail arlened@uol.com.br
* José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor, conferencista, gestor do Centro de Reflexão e Estudos sobre Ética e Antropologia da Religião (Crear) da Universidade Católica de Brasília, onde também é professor
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