domingo, 28 de dezembro de 2014

Como a beleza, no Brasil, virou religião e o corpo, uma obsessão

Martha Gisele
Reprodução e William Volcov/Brazil Photo Press/AFP
Martha Rocha, com suas polegadas a mais, e a esguia Gisele Bündchen, padrão exportação

Liberdade sobre o próprio corpo veio com o dever de ser belo, diz a historiadora Denise Bernuzzi 
 
História da Beleza no Brasil é um título que denota alguma ambição. Mas Denise Bernuzzi de Sant’Anna, professora de História da PUC-São Paulo, cumpre o que promete. A obra nasceu de um doutorado na Universidade de Paris VII, onde teve como orientadora Michelle Perrot, autora da copiosa coleção de livros sobre a história da condição feminina. O fascínio pelos cosméticos, o sex appeal, o bombardeio publicitário, a fisiocultura dos músculos, o desnudamento das praias, a conversão dos homens à vaidade são alguns dos temas pelos quais Denise passeia, com documentadíssima erudição. O livro começa com o vaticínio de um cronista carioca de cem anos atrás que imaginava, para a mulher do ano 2000, como definitivo padrão estético, “pisar com mais elegância e falar com mais correção”. O iludido Urbano Duarte errou feio.

CartaCapital: Quando é que o Brasil começou a se preocupar com a beleza? A sinhazinha da casa-grande na colônia já se preocupava com as aparências? E as donzelas românticas no século XIX, elas tentavam se cuidar?
Denize Bernuzzi de Sant’Anna: O padrão de beleza no Brasil sempre foi voltado para os ideais europeus, só muito mais tarde é que prevaleceu o padrão norte-americano. Na era colonial, as referências europeias demoravam a chegar aqui, quando chegavam. No século XIX, os dois ou três produtos de beleza disponíveis só eram usados nas festas. A beleza estava nas roupas, no porte, na postura. Confundia-se com a distinção social da elegância. Estava circunscrita aos acessórios. Em relação ao corpo, o máximo de vaidade que uma mulher podia aspirar era a cintura fina, com cintas, espartilhos...

CC: Não é muito diferente da mulher que se sacrifica, hoje, pela “barriga negativa”.
DBS: O ventre chapado. Como se diz hoje, barriga tanquinho. Atualmente é uma exigência, e não somente para as mulheres. No passado, elas podiam cultivar certa barriguinha. Uma das hipóteses do meu livro é que todo mundo conquistou a liberdade de fazer com o corpo o que bem quiser, quando antes as mulheres eram muito mais submetidas às convenções sociais, obedientes ao pai ou ao marido. Mas essa liberdade traz consequências.

CC: Que consequências?
DBS: Se você quer emagrecer, se quer se tatuar ou fazer cirurgia plástica, tendo recursos você faz. Mas ganhamos o peso da obrigação. O dever de ser belo é considerado absolutamente natural. Quando digo “belo”, tenho de fazer a ressalva de que não há um padrão único, há vários, mas a ideia predominante é que você tem obrigatoriamente de cuidar do corpo e da aparência. Não é mais tolerável ouvir uma mulher dizer: “Não quero mais saber, eu assumo minha velhice”. Pode até haver uma ou outra que pense assim, mas é raro. O Brasil é muito mais exigente nisso do que a Europa, por exemplo.

CC: Fiquei aqui me perguntando: na iconografia colonial ou imperial, em Rugendas ou em Debret, existe registro de alguma mulher olhando-se no espelho?
DBS: Que me lembre, não. Como em alguns pintores holandeses, Vermeer, por exemplo, não. A questão é sociológica. A mulher que se olha ao espelho vira uma espécie de centro do mundo. No Brasil do passado, isso era inconcebível. Só no século XX é que o corpo feminino entra no foco. No Brasil, foi produzido esse ideal de beleza – sempre jovem, saudável, sensual e muitas vezes desnuda. É a imagem que prevalece nas promoções do turismo, por exemplo. Insisto: foi um ideal socialmente construído. Uma mudança interessante, que aparece nas pesquisas de mercado, é que as pessoas continuam querendo agradar às outras, mas também querem se sentir bem com elas próprias.

CC: Historicamente, o padrão visava à chamada elite branca, não é?
DBS: A documentação traz um problema porque, como a elite é letrada, ela escreve para ela própria e sobre ela própria. Mas em Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre conta isso, outros documentos primários afirmam que as mulheres pobres de São Paulo usavam flores no cabelo. E havia toda uma arte no uso do ornamento, a cor da flor tinha de combinar com a cor da pele. Os viajantes estrangeiros também anotaram o uso de adornos. Em São Paulo, uma memorialista refere-se a latinhas com tinta que usava em dias de festas. Cores discretas, um leve carmim.

CC: Não existia uma indústria nacional de cosméticos.
DBS: Não.

CC: Eram, então, produtos artesanais.
DBS: Por exemplo, banha de porco para lustrar o cabelo, de forma a brilhar sob a luz de vela. Dava alguma cerimônia. As mulheres usavam, os homens também. As receitas eram bem caseiras, para lustrar os dentes utilizavam fumo de corda, vinagre. Loção importada não era tão comum. As pessoas faziam o próprio perfume, água de rosas para perfumar o banho de bacia. O famoso Leite de Rosas, criado por Francisco Olympio, é dos anos 1920.

CC: Um dos nossos ícones femininos é a Garota de Ipanema. A beleza sensual, quase desnuda, como a senhora define. Não por acaso: a praia é o lugar por excelência para se exibir esse padrão.
DBS: A praia entrou na vida das pessoas pela mão dos higienistas e dos médicos. Recomendavam-se banhos de mar para certo tipo de cura. Aqui demorou mais porque a praia, no Brasil, funcionava como depósito de lixo e esgoto. Nos anos 1910, 1920, uma revista mundana da elite carioca, como a Fon-Fon, já trazia fotos de moças na praia, assim como a Revista da Semana. As moças com maiôs enormes e toucas. A inauguração do Copacabana Palace, com toda aquela imponência, em 1923, ajudou a mudar a paisagem e o comportamento em relação à praia. Depois houve a fase mais ousada do maiô duas-peças, mas o biquíni mesmo, que surgiu no mundo em 1946, só se consagrou aqui nos anos 60. Coincidentemente, com o biquíni começam a aparecer reportagens explorando o pavor da celulite. Aquele velho dilema: libera, por um lado, cria um problema, por outro.

CC: Mas no Brasil a tolerância com as cheinhas é maior, não? O culto às curvilíneas parece ter mais adesão do que o apelo das magrelinhas de passarela.
DBS: É, muito maior do que na França, por exemplo, onde morei. A França cultiva a imagem da mulher-flor, uma herança do ideal romântico do século XIX, a mulher delicada, um pouco etérea, de uma beleza não muito carnal. O charme está nessa coisa meio velada. Lá, a mulher musculosa, pesada, não tem o menor apelo. Aqui é diferente. A moda hoje privilegia as magras, mas as cheinhas são toleradas. Aliás, até os anos 50, 60, os conselhos que se refletiam na publicidade eram no sentido de engordar, não emagrecer. Folheando as revistas femininas percebe-se que as mulheres queriam aumentar os seios e ter pernas mais grossas. “Seca como um bacalhau”, “espanador da Lua”, “Olívia Palito”, os apelidos para as magrinhas não eram nada lisonjeiros. Tem aquele poema do Vinicius de Moraes, Receita de Mulher *, que marca a mudança, a mulher tem de ser magra, a saboneteira visível, a rótula do joelho à mostra.

CC: Antes disso houve, em 1954, o episódio das 2 polegadas a mais de Martha Rocha, que perdeu a eleição de Miss Universo porque fazia o padrão cheinha.
DBS: O brasileiro, não importa qual seja sua classe social, tem esse tipo de apetência pelas curvas. Elas podem apenas ter trocado de lugar no imaginário feminino. A nádega empinada é um atributo muito apreciado na mulher brasileira.

CC: Daí essas mulheres-frutas, a Mulher Melancia, a Mulher Moranguinho, a Mulher Melão. Por outro lado, se você pergunta mundo afora quem é a mulher que simboliza hoje a beleza brasileira a resposta vai ser: Gisele Bündchen.
DBS: Gisele é um padrão ditado de fora, assim como no passado as meninas queriam, graças aos cosméticos Max Factor, Avon e Helena Rubinstein, parecer-se com as estrelas de Hollywood.

CC: A propósito, a beleza está muitas vezes ligada ao sonho de ascensão social. A mãe quer que a filha bonitinha vire modelo, assim como os garotos querem ficar ricos rapidamente tornando-se craques de futebol.
DBS: O Brasil cultiva o mito do sucesso obtido num passe de mágica. Claro que todas as sociedades aceitam isso em algum nível. A sociedade americana, por exemplo, é toda voltada para o sucesso. Mas quando uso a palavra mito, em relação ao Brasil, não é por acaso. Aqui as pessoas acabam, bem ou mal, acreditando nesse sucesso obtido num passe de mágica. Veja aí uma mistura de ciência com crença; a ciência avançada da cosmetologia, dos cremes, do Botox e da cirurgia plástica que vai produzir em você um milagre. Fiz trabalho de campo em academias e percebi o mesmo fenômeno. “Daqui a um ano estarei assim...”, dizem. Os mais fissurados ainda se enchem de remédios. A mesma coisa acontece em relação ao trabalho. Nossa sociedade tem ranço escravocrata. O esforço físico é menosprezado. As pessoas pensam assim: “Vou por esse caminho, porque logo vou me tornar bilionário”.

 A publicidade estimula no homem a autoestima, tipo: 
“Estou usando esse creminho porque isso 
me faz gostar mais de mim”.

CC: Os homens são hoje tão vaidosos quanto as mulheres, não são?
DBS: Os cosméticos sempre foram associados à mulher. Ela é historicamente o objeto da sedução. De repente, a publicidade descobriu o homem e ele entrou no mercado da beleza de um jeito a princípio mais viril, dando ideia de que estava se tratando e não propriamente se embelezando. A publicidade estimula no homem a autoestima, tipo: “Estou usando esse creminho porque isso me faz gostar mais de mim”. Para o homem, a beleza era associada à humilhação de agradar ao outro, quer dizer, à outra. As coisas mudaram. Por outro lado, as mulheres entraram com força nesse universo do fisiculturismo, no mercado dos músculos, que antes era exclusivamente masculino.

CC: É verdade que o Brasil é o país que mais consome cirurgia plástica no mundo?
DBS: Quando terminei o livro, estávamos em segundo lugar, mas tenho informações de que ultrapassamos os Estados Unidos. Para um País com tantas outras urgências, como é que pode?

CC: Afinal, o cirurgião plástico mais famoso do mundo é nosso, o doutor Pitanguy.
DBS: Ele e tantos outros. Há um fator importantíssimo; somos um país jovem e a competição no mercado de trabalho e no mercado conjugal é muito violenta. Na Europa, uma pessoa de 40 anos está no meio do caminho; aqui já é considerada velha. Fica difícil ostentar os sinais da velhice, a tentação de usar os recursos da medicina e da tecnologia é enorme. Aceitar a velhice é sinal de fracasso pessoal, aqui e também nos Estados Unidos. Portanto, nem é questão de ser mais ou menos feio; é a medida de seu sucesso ou de seu fracasso. Daí a gente ver algumas cirurgias tão radicais.

CC: A dessa atriz Renée Zellweger, que ficou irreconhecível...
DBS: É, essa menina e tantas outras. No caso dela, não sei se não foi erro médico. Uma entrevistada minha usou uma expressão ótima: passar o corpo a limpo. Não existe um limite dado para as cirurgias. O limite é de sua escolha pessoal. Daí essa ansiedade, o confronto íntimo entre a busca desenfreada da beleza e o preço a ser pago por isso. Antes, você se confrontava com a moral. O padre proibia saia curta, o pai e o irmão não deixavam maquiar, o marido fiscalizava. O confronto hoje é você diante do espelho: “Será que estou gorda? Não estou velha?” A gente tem mais liberdade e isso é ótimo. Mas a responsabilidade leva à solidão. Nós estamos sozinhos para decidir o que fazer de nosso corpo.
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Reportagem por  por Nirlando Beirão — publicado 25/12/2014 09:01, última modificação 27/12/2014 06:56 
Fonte: Revista Carta Capital online

FÊTES


FÊTESAndré Comte-Sponville“J’ai horreur de Noël, du Nouvel An, de tout ce cérémonial des Fêtes! Ces réjouissances à date fixe ont quelque chose d’exaspérant et d’angoissant tout à la fois. Mais quoi?Bien sûr, il y a l’étalage du luxe, la débauche de nourritures (et les plus chères! et les plus lourdes!), avec ce que cela supposa d’indélicatesse ou d’indifférence vis-à-vis de ceux que la misère tient éloignés du festin, les enfermant, plus cruellement sans doute que jamais, dans la frustration. Une telle injustice, si complaisamment étalée, semble donner raison aux casseurs de nos banlieues, en tout cas elle aide à les comprendre.Il serait indispensable que certains mangent du caviar et d’autres des oeufs de lump (et d’autres rien: combien d’enfants morts de faim?), quand bien même il serait inévitable que ce soient toujours les mêmes qui s’empiffrent ou se privent, est-il indispensable aussi que l’opulence s’étale à ce point?On m’objectera que Noël reste la fête des enfants. En effet. Cela fait deux mois qu’ils nous cassent les oreilles avec leus Père Noël ou leurs cadeaux, deux mois qu’ils sont dévorés par le manque, deux mois qu’ils attendent, pour être heureux, que ce soit enfin Noël! Quelle curieuse leçon d’existence nous leur donnons, qui laisse entendre que vivre c’est attendre et recevoir, quand nous savons bien, nous, les parents, que c’est l’inverse qui est vrai! Aucun cadeau n’est le bonheur, ni rien de ce qu’on attend ou reçoit, mais cela seulement qu’on fait ou qu’on donne, et point en cadeau, puisque l’essentiel de ce qu’on peut offrir, personne, jamais, ne pourra le posséder. Nöel, l’idéologie de Noël, est devenu comme un résumé des erreurs dont if faudrait débarrasser nos enfants.Le mensonge sur Père Nöel – le premier mensonge, souvent, que nous faisons à nos enfants – résume tous les autres. Nous ne cessons d’enjoliver la vie, du moins nous essayons, et cet optimisme mensonger est plus triste encore que ce qu’il essaie, avec un succès inégal, de nous faire oublier. (…) Puis ce bonheur imposé! Pendant dix jours, toute la bêtise médiatique va nous seriner son optimisme de commande, et il faudra être joyeux par force! Quoi de plus triste que de lire sa joie dans le calendrier?”COMTE-SPONVILLE.Le Goût de Vivre

André Comte-Sponville*

“J’ai horreur de Noël, du Nouvel An, de tout ce cérémonial des Fêtes! Ces réjouissances à date fixe ont quelque chose d’exaspérant et d’angoissant tout à la fois. Mais quoi?

Bien sûr, il y a l’étalage du luxe, la débauche de nourritures (et les plus chères! et les plus lourdes!), avec ce que cela supposa d’indélicatesse ou d’indifférence vis-à-vis de ceux que la misère tient éloignés du festin, les enfermant, plus cruellement sans doute que jamais, dans la frustration. Une telle injustice, si complaisamment étalée, semble donner raison aux casseurs de nos banlieues, en tout cas elle aide à les comprendre.

Il serait indispensable que certains mangent du caviar et d’autres des oeufs de lump (et d’autres rien: combien d’enfants morts de faim?), quand bien même il serait inévitable que ce soient toujours les mêmes qui s’empiffrent ou se privent, est-il indispensable aussi que l’opulence s’étale à ce point?

On m’objectera que Noël reste la fête des enfants. En effet. Cela fait deux mois qu’ils nous cassent les oreilles avec leus Père Noël ou leurs cadeaux, deux mois qu’ils sont dévorés par le manque, deux mois qu’ils attendent, pour être heureux, que ce soit enfin Noël! Quelle curieuse leçon d’existence nous leur donnons, qui laisse entendre que vivre c’est attendre et recevoir, quand nous savons bien, nous, les parents, que c’est l’inverse qui est vrai! Aucun cadeau n’est le bonheur, ni rien de ce qu’on attend ou reçoit, mais cela seulement qu’on fait ou qu’on donne, et point en cadeau, puisque l’essentiel de ce qu’on peut offrir, personne, jamais, ne pourra le posséder. Nöel, l’idéologie de Noël, est devenu comme un résumé des erreurs dont if faudrait débarrasser nos enfants.

Le mensonge sur Père Nöel – le premier mensonge, souvent, que nous faisons à nos enfants – résume tous les autres. Nous ne cessons d’enjoliver la vie, du moins nous essayons, et cet optimisme mensonger est plus triste encore que ce qu’il essaie, avec un succès inégal, de nous faire oublier. (…) Puis ce bonheur imposé! Pendant dix jours, toute la bêtise médiatique va nous seriner son optimisme de commande, et il faudra être joyeux par force! Quoi de plus triste que de lire sa joie dans le calendrier?”

COMTE-SPONVILLE.
Le Goût de Vivre

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Do livro “Le Goût de Vivre” (pg 20-23)
Fonte:  http://acasadevidro.com/tag/andre-comte-sponville/

A fé como suspensão da ética – O mito de Abraão e Isaac segundo Søren Kierkegaard e José Saramago

Eduardo Carli de Moraes*

Com a faca afiada colada a seu pescoço, prestes a ser degolado, o que passava pela mente do pequeno Isaac? Com o coração apavorado, golpeando com violência as paredes do tórax, que tipo de opinião sobre a fé e sobre a paternidade podem ter ocorrido ao garoto ao perceber-se na posição de ovelha-de-sacrifício? Eis algumas questões intrigantes que me ocorrem ao fim da leitura de Temor e Tremor, de Søren Kierkegaard (1813-1855), obra de tom altamente interrogativo, mas que pode ser complementada pelo leitor com uma multiplicação de novos pontos de interrogação.

Na pintura de Caravaggio, que retrata o momento em que Abraão vai sacrificar Isaac mas é impedido por uma intervenção angélica, enxergo uma cena de tortura. Na pintura, foquemos o olhar sobre o rosto de Isaac, contorcido pela angústia extrema, oprimido pela violência das mãos viris de Abraão: o que nos contam estes olhos infantis aterrorizados pela lâmina da faca ameaçadora? Diante deste quadro, é quase como se desse para ouvir o grito de Isaac, um berro quase Munchiano, reação visceral de uma criança incapaz de compreender o desatino do mundo encarnado na loucura de seu pai. Eu diria, Camusianamente, que Isaac está aí representado em pleno confronto com o Absurdo. Pois Abraão encarna nesta cena o famoso creio pois é absurdo, a fé desprovida de razão e abraçada na ciência de seu próprio desvario.
Edvard Munch, "O Grito"
Edvard Munch, "O Grito"
Kierk 
No prelúdio de seu livro, Kierkegaard pinta com palavras o retrato de Isaac abraçado aos joelhos de Abraão, caído aos pés do pai, implorando por sua jovem vida. Mas é algo bem diferente da misericórdia ou da ternura o que o filho descobre na atitude, a um só tempo intransigente e resignada, de Abraão-da-faca-na-mão. Este é um dos momentos cruciais desta narrativa mítica que nos mostra uma figura que, embriagada pela fé, acaba por suspender a ética: o velho está prestes a cometer um crime hediondo, o assassinato de seu próprio filho, pois acredita que os céus o ordenaram. A fé é uma das forças psíquicas capazes de varrer do quadro as mais básicas das atitudes éticas: não matar cessa de valer quando o crente acredita-se requisita por seu deus a assassinar o ímpio ou a sacrificar a vítima apontada pelo dedo invisível do divino. Diante de Abraão, não há como evitar a questão: estamos diante de um santo ou de um louco? Eis um herói a ser celebrado, ou então um psicopata perigoso digno de ser metido no hospício? Devemos louvar esta heróica demonstração de obediência à vontade divina, ou lamentar a psicopatologia que levou este demente senil às beiras de cometer um ato grotesco? Devemos imitar o exemplo desta obediência pia e estrita aos ditames de um deus suposto, ou devemos ler esta narrativa como um símbolo dos perigos que há nestes vícios (humanos, demasiado humanos!) da idolatria e do fanatismo?

Nossa tendência é lidar com a história de Abraão e Isaac, narrada no Gênesis, com a tranquilidade daqueles que já conhecem seu "final feliz": sabemos que tudo não passou de um teste, de um julgamento, uma espécie de "trote" divino. Ufa, tudo não passou de um blefe! Sabemos que Abraão não consuma seu ato sacrificial sangrento e que só pode ser acusado de um quase-assassinato. Além do mais, a tradição judaico-cristã inteira posteriormente tratou de desenhar auras de santidade sobre a cabeça do "Pai da Fé": somos todos convidados a imitá-lo como modelo, já que nada apraz mais ao deus único, criador ex nihilo de tudo, do que uma criatura que sacrifica a autonomia de seu intelecto para tornar-se plenamente obediente aos ditames do céu...

O que mais me emociona no prelúdio de Temor e Tremor é o modo como Kierkegaard pinta a perspectiva da vítima: voltando para casa depois do quase-sacrifício, pai e filho, rumando ao reencontro com a mãe Sarah, estão caminhando lado a lado, mas separados por um intransponível abismo. Isaac, escreve Kierkegaard, "tinha perdido a fé." [1] Para Isaac, não houve final feliz coisa nenhuma, apenas a vivência traumática de uma tortura absurda; para Isaac, o episódio com certeza fez com que se rompesse a confiança que um filho deposita na boa vontade de seu pai, e é de se suspeitar que nunca mais, depois daquilo, Isaac conseguirá permanecer na presença de Abraão sem o temor e tremor que sente alguém diante de um psicopata perigoso.
Rembrandt, Sacrifício de Isaac, 1635
Temor e Tremor, é claro, não é um livro sobre a perda da fé, mas muito mais um tratado psicológico que se debruça sobre Abraão, descrito como o "cavaleiro da fé" [the knight of faith, na tradução inglesa], tão crente que está disposto a extinguir a vida do próprio filho amado se Deus assim ordenar. Kierkegaard escreve mais como poeta do que como pregador, questionando mais do que dogmatizando, ainda que no geral o tom seja de elogio e admiração à figura de Abraão. Tanto é assim que o segundo capítulo é um panegírico onde o leitor é convidado a empatizar com o sofrer de Abraão, que tanto havia ansiado por um filho, que conquistou somente em sua velhice, e que descobre-se ameaçado de perder o rebento que ama tão intensamente pois a divindade exige seu sacrifício.

Alguns dos trechos mais belos do livro são aqueles em que Kierkegaard, ainda que timidamente, ousa questionar os supostos ditames do criador, perguntando: que diabos de deus é este capaz de exigir que um homem, já com os cabelos brancos, aniquile aquilo que mais ama neste mundo, seu filho único? "Não há compaixão alguma pelo venerável idoso, nenhuma pela criança inocente?" [2] Interrogações como estas, porém, são raras em Temor e Tremor, obra que não chega a questionar seriamente a existência deste deus que Abraão supõe como ordenante do sacrifício. Leitores ateus, agnósticos e céticos podem perguntar-se: e se tudo não passa de um delírio subjetivo de Abraão? E se a "voz de Deus" não for nada além de uma ilusão psíquica que acomete o cérebro senil do patriarca? Se Deus não existe, não há qualquer possibilidade de sustentar que Abraão agiu de modo "heróico"? Ou ele foi nada mais do que um fanático que só não tornou-se assassino por um triz?

Na tragédia grega, podemos encontrar um caso semelhante ao de Abraão e Isaac: em Ifigênia em Áulis, Eurípides narra as ocorrências que precederam o início da Guerra de Tróia. Os exércitos chefiados por Agamemnon já estão a postos, preparados, ansiosos por embarcar para a carnificina. Mas as intempéries impedem as naus de navegar a contento rumo às terras de Príamo, onde Helena encontra-se após ser sequestrada (ou seduzida?) por Páris. Apesar das diferenças consideráveis entre o politeísmo grego e o monoteísmo judaico-cristão, há um certo paralelismo: tanto Ifigênia quanto Isaac são escolhidos como vítimas sacrificiais pois acredita-se que assim ordena o divino. A maior diferença entre Agamemnon e Abraão não é tanto entre um crente politeísta e um crente monoteísta, mas entre um homicida consumado e um quase-homicida. Ifigênia, a filha mais velha de Agamemnon e Clitemnestra, irmã de Orestes e Electra, não tem a sorte de Isaac: ela não escapa da faca. É um episódio que o poeta-filósofo Lucrécio descreve, em seu Da Natureza, com o horror que sente o homem lúcido diante das atrocidades cometidas por mentes transtornadas pela superstição:
Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770), O Sacrifício de Ifigênia
Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770), O Sacrifício de Ifigênia
"Na maior parte das vezes foi exatamente a religião que produziu feitos criminosos e ímpios. Foi assim que em Áulis os melhores chefes gregos, escol de varões, macularam vergonhosamente com o sangue de Ifigênia o altar... E em nada podia valer à infeliz, em tal momento, ter sido a primeira a dar ao rei o nome de pai. Foi levantada pelas mãos dos homens e arrastada para os altares, toda a tremer, não para que pudesse, cumpridos os ritos sagrados, ser acompanhada por claro himeneu, mas para, criminosamente virgem, no tempo em que deveria casar-se, sucumbir, triste vítima imolada pelo pai, a fim de garantir à frota uma largada feliz e fausta. A tão grandes males pode a religião persuadir." [3]
A tragédia grega mostra o ato de Agamemnon em todo seu horror, como violação de um preceito ético fundamental, e as consequências dele para este família serão desastrosas: como narrado na trilogia de Ésquilo, Oréstia, a mãe de Ifigênia, Clitemnestra, transtornada pelo luto e pela ira, tratará de vingar-se de seu marido, o assassino da primogênita do casal. Assim que ele retornar de Tróia, triunfante na guerra porém esquecido de que deixou em casa alguém que o odeia intensamente, Agamemnon será por sua vez trespassado pelo punhal da vendeta. O ciclo de violências multiplica-se: a vingança de Clitemnestra contra Agamemnon alimenta a fúria de Orestes, que encaminha-se então para o matricídio... O theatrum mundi inunda-se de sangue.

Em Temor e Tremor, Kierkegaard não ousa penetrar tão fundo na sondagem das relações entre fé e violência: no livro, quase não aparecem palavras como "superstição" e "fanatismo", tão aptas a descrever o tipo de demônio que traz Abraão sob seu domínio. Em sua Expectoração Preliminar, porém, faz esta interessante reflexão: alguém que ouvisse, na missa de Domingo, um padre a narrar o mito de Abraão e Isaac, poderia sair dali convencido de que não há melhor prova de amor à Deus do que sacrificar na terra a pessoa que mais ama. Impelido pelo sermão, levantaria o punhal contra o próprio filho e depois diria à polícia, enquanto é conduzido ao presídio ou ao hospício, que agiu sob a influência da edificante parábola que ouviu na igreja. Se a imitação de Abraão se transformasse em algo epidêmico, em que mundo viveríamos? Não é perigoso acreditar que a fé tem o direito de suspender a ética? Que sociedade resulta da disseminação da crença em uma divindade transcendente faminta por sacrifícios e imolações?

O que Kierkegaard destaca de modo recorrente é o paradoxo que se manifesta no mito de Abraão e Isaac, em que Deus exige o crime e a tentação consiste em agir eticamente. É nesse contexto que Kierkegaard mobiliza o conceito de absurdo, tão caro aos pensadores existencialistas, especialmente Albert Camus: há um paradoxo incontornável em um deus que exige do devoto que corte a goela do filho que adora, já que então revela-se como um deus anti-ético. Ora, se este deus é compreendido como tendo como atributos a justiça, a bondade e o amor, como compreender que exija de Abraão algo de tão absurdo quanto a violação explícita do preceito evangélico não matarás? Um deus que exige beber o sangue das crianças será mesmo um deus autêntico ou somente um demônio disfarçado?
A multiplicação de tais dúvidas teológicas só nos conduz ao exacerbamento da sensação de absurdo e de paradoxo - e talvez não haja saída deste labirinto a não ser pela via do ateísmo: um deus malvado é uma contradição, um paradoxo, uma impossibilidade, e desta aporia só escapamos ao concluir que este deus das carnificinas nunca existiu fora das imaginações humanas. É um argumento sintetizado belamente por José Saramago, em artigo publicado logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001: "Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou." [4] Em um de seus últimos romances, o autor português faz seu Caim sintetizar uma posição atéia, de rebeldia contra o deus bíblico que é tão frequentemente um genocida, praticante do assassinato em massa pela via dos dilúvios e das hecatombes, deixando vivos só um punhado de eleitos:

caim-jose-saramago

"A vida deram-ma meu pai e minha mãe, juntaram a carne à carne e eu nasci, não consta que deus estivesse presente no acto", sustenta Caim, que quando confrontado com a tese de que "Deus está em todo o lado", replica: "Uma só criança das que morreram feitas tições em Sodoma bastaria para o condenar sem remissão." [5] Se evoco aqui a obra literária e o pensamento anti-teísta do Prêmio Nobel de Literatura lusitano é para melhor ilustrar o "tremendo paradoxo da fé" que Kierkegaard explora em Temor e Tremor: como é possível a transformação do homicídio em um ato sacro? Só por ser cometido com fé, o homicídio deixa de ser um pecado para tornar-se uma prática santa que agrada aos céus?

Kierke 
A ética, sustenta Kierkegaard, é universal, aplica-se a todo mundo, o tempo todo: não há época histórica ou localização geográfica onde não seja uma atrocidade, do ponto de vista ético, o homicídio dos inocentes - como aquele que perpetra Medéia contra suas crianças. Em outras palavras: a ética prescreve, como mandamento universal, o dever maternal e paternal que proíbe tratar os filhos como sacrificáveis. O problema, portanto, está na reputação cheia de honra e glória de que goza Abraão, como pai da fé e patriarca do monoteísmo, quando o mesmo Abraão é um violador da ética, já que ergueu a lâmina para assassinar Isaac. Eis o paradoxo e o absurdo: a divindade demanda a suspensão da ética; deus é o mandante de um crime; a fé é o heroísmo maluco e a loucura sagrada através do qual alguém peca contra o universal.

Se Abraão simboliza tão bem o que significa ter fé, é pois leva ao extremo a fidelidade cega e a obediência absoluta à divindade (ou ao que supõe ser a "vontade do deus"). Sua submissão é tão total que ele está pronto a obedecer a um deus que ordena assassinatos ao invés de rebelar-se contra ordens que ofendem radicalmente a consciência moral. Recusar-se a cumprir o sacrifício do primogênito seria uma atitude bastante razoável de qualquer pai apegado ao filho de sua carne e motivado pela chama do amor paternal. Abraão só tornou-se tão célebre por seu extremismo, por sua intransigência, por esta extraordinária teimosia na fé e que merece ser chamada, apesar de Kierkegaard não fazê-lo jamais, de fanatismo. 

 A absurdidade do mito consiste nisto: a divindade, que se presume o princípio criador do Bom, do Belo e do Justo, exige do homem-de-fé que cometa um ato hediondo, horrendo e injusto. Se este deus é amor, como é possível que exija, como prova de fé, um ato que é transgressão obscena do amor? A tentação, para Abraão, é justamente a ética: respeitar o dever universal, que exige de um pai a proteção e o cuidado para com seu(s) filho(s), equivale neste caso à desrespeitar o mandamento divino. O que falta em Temor e Tremor é justamente um questionamento mais amplo e sistemático da possibilidade de que Abraão esteja alucinando, que tudo não passe de um delírio senil, que o absurdo está na cabeça de um velho e não no ser das coisas. Para ser bem rude com a obra de Kierkegaard, eu perguntaria: para que gastar tanta palavra de interpretação teológica deste mito, se em algumas páginas seria possível argumentar que este deus em que Abraão crê não passa de um déspota imaginário fabricado pela fantasia de um velho crédulo?

É uma interrogação inescapável: aquilo que se chama de "amor à deus" é realmente a maior de todas as virtudes e deve ser colocado acima de todo e qualquer dever ético? O Novo Testamento fornece-nos também razões de sobra para desconfiar que um paradoxo pernicioso, prenhe de consequências sangrentas, está alojado e embrenhado na ideologia religiosa de nossa tradição judaico-cristã: em Lucas (14: 26 e 33), Jesus de Nazaré exige: "Se alguém vier a mim, e não odiar a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. [...] Qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo." [6]

É essa a religião que querem nos vender como amorável e caridosa? É este o profeta que devemos honrar de joelhos nas igrejas? Kierkegaard viu bem que estamos lidando com um conceito de deus que requer um amor absoluto que se expressa através da renúncia a amar pessoas de carne-e-osso. Eis um deus que exige ser amado mais que tudo, na exclusão de tudo, e que como prova de fé demanda que o amor entre pai-e-filho seja aniquilado em um altar. A um deus destes eu me recuso a tirar meu chapéu. Não acho que mereça minha devoção. E mais: bateria boca com Kierkegaard, que quer pintar auréolas sobre Abraão e dizer que a fé é a mais elevada das paixões humanas. Aquele que é capaz de levantar a lâmina fatal contra o próprio filho não me parece um herói a ser celebrado, mas um caso clínico; não um adorável modelo de conduta mas um nocivo psicopata; não a ilustração dos caminhos que o sábio deve seguir mas o contra-exemplo que nos conta daquilo que faremos bem em evitar: o fanatismo, a obediência cega, a fé que dá licença à suspensão da ética e ao cortejo das atrocidades.
Saramago2
“…o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac… atou o filho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar… Sou Caim, sou o anjo que salvou a vida de isaac… e não compreendo como irão ser abençoados todos os povos do mundo só porque abraão obedeceu a uma ordem estúpida.” [7]
Um dos méritos maiores da obra de Saramago está na coragem quase punk em que ele escancara os absurdos da fé com sua sagaz mordacidade atéia, desfazendo alguns dos mais arraigados preconceitos ainda hegemônicos em nosso mundo, como por exemplo a ideia de que crimes obscenos e horrendos são realizados por gente "sem fé no coração". Tais comentários ateofóbicos que pretendem explicar os ímpetos criminosos a partir de um déficit de fé em Deus caem por terra quando atentamos para o fato de que a fé é com frequência a justificativa e a motivação para atos criminosos - e não somente no âmbito mítico, como vimos nos casos de Abraão e Agamemnon.

Para retornar ao tema do artigo saramaguiano publicado logo após o 11 de Setembro de 2001, é explícito neste caso o quanto os atentados terroristas foram realizados por homens cheios de fé, e que se imolaram nos ataques camicase na esperança de que Alá os aplaudiria e já preparava para eles um paraíso de delícias e privilégios no Além. De modo bastante similar, a resposta militar dos EUA e seus aliados, na invasão do Afeganistão e do Iraque, baseou-se largamente em justificativas teológicas, com o uso e abuso da noção maniqueísta de um Eixo do Mal (islâmico) a ser derrotado pelas forças do Bem (cristãs) - como se os bombardeios genocidas e as torturas institucionalizadas nas prisões (como Abu Ghraib e Guantánamo) fossem suspensões da ética completamente válidas, já que seus praticantes estavam a serviço do Deus verdadeiro (além de favorecendo com suas bombas e matanças um outro deus... a Mão Invisível do Mercado, que não funciona jamais sem seu aliado, o punho-de-ferro das violências coercitivas e da pilhagem do petróleo alheio...). "Se Deus não existisse", sugere um personagem de Dostoiévski, "tudo seria permitido"; ora, a experiência histórica nos conduz a pensar, ao contrário, que na verdade são aqueles para quem Deus existe indubitavelmente, os cavaleiros da fé que jamais duvida de si, que agem na base do "tudo é permitido".

Em suma: a versão oficial do mito de Abraão e Isaac nos conta de uma intervenção divina que, na hora H (a hora do Homicídio), salva Isaac da faca, salvando ao mesmo tempo Abraão de transformar-se em assassino e salvando o deus em que ele crê de virar um mandante de um crime hediondo. Para encerrar este texto, repleto de blasfêmias sadias e heresias essenciais, eu sugeriria uma interpretação mais realista do mito: não foi uma angélica aparição o que impediu Abraão de consumar o sacrifício, mas um lampejo súbito de bom senso, um clarão salvífico de dúvida, uma hesitação providencial de último instante, um insight da absurdidade daquilo que ele estava prestes a cometer. Se a fé de Abraão tivesse sido de fato imperturbável, irremovível, intransigente, Isaac teria sido transformado de criança em cadáver. No último instante, porém, Abraão deve ter duvidado de deus e de si: e se eu estiver louco? E se meu deus não for senão delírio? E se eu tiver compreendido mal seus ditames? E se não houver ninguém nos céus mas apenas um desarranjo e um desatino nos meus miolos?

A fé teria assassinado Isaac; a dúvida acabou por salvá-lo.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Dezembro de 2014
*Tem graduação em Filosofia (na USP – Universidade de São Paulo) e Comunicação Social / Jornalismo (na UNESP – Universidade Estadual Paulista); é Mestre em Filosofia pela UFG (Universidade Federal de Goiás).
* * * * *

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] KIERKEGAARD, S. Fear and Trembling. Princeton, 2013. Pg. 43.
[2] KIERKEGAARD, S. Op cit. Pg. 52. Na tradução inglesa de Walter Lowrie, o trecho ficou assim:"Who is he that would make a man's gray hairs comfortless, who is it that requires that he himself shall do it? Is there no compassion for the venerable oldling, none for the innocent child?" (pg. 52)
[3] LUCRÉCIO. Da Natureza. Livro I. In: Os Pensadores: Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca, Marco Aurélio. Abril Cultural, 3ª ed., 1985.Pg. 33.
[4] SARAMAGO, J. Folha de São Paulo, 2001.
[5] SARAMAGO, J. Caim. Cia das Letras, 2009. pg. 135.
[6] NOVO TESTAMENTO. Lucas 14:26 e 33.
[7] JOSÉ SARAMAGO. Caim.  Pg. 80-81.
Fonte: http://acasadevidro.com/2014/12/28/
Saramago

La jeunesse actuelle a-t-elle envie de devenir adulte ?

Personnages de la série "Skins" (source : http://www.ohmymag.com/skins/wallpaper)
Personnages de la série "Skins" (source)

"Notre génération ne sait plus quand s’arrêter de faire la fête" : cette phrase du Londonien Clive Martin, argumentée dans un long billet publié sur Vice (traduit en français), s'appuie sur son constat, un brin désabusé, d'un manque de volonté globale pour les vingtenaires ("de vingt à ving-neuf ans" dit le Larousse) à se conformer aux "grands principes qui régissent la vie d'adulte" et à reproduire le schéma de leurs parents. A savoir, selon lui : "fonder une famille et posséder un bien immobilier".

Dans un style qui mêle les références à de grandes thématiques historiques et sociales (la fin du baby-boom en Grande-Bretagne, le coût immobilier en forte augmentation, la part de plus en plus grande de jeunes britanniques vivant chez leurs parents) et de nombreuses observations personnelles, l'auteur décrit des "régiments de jeunes hommes et de jeunes femmes" qui ne "savent pas quoi faire" et n'arrivent pas à "inventer une nouvelle façon de vieillir" :

"Je n'ai pas encore trente ans, mais je n'en suis pas bien loin. Quand je me penche sur ma vie, je remarque qu'elle n'a pas beaucoup changé depuis mes 17 ans. L'été que je viens de passer est un bon exemple. Je me souviens avoir erré dans les rues de Londres avec mes potes, vidé des canettes de bières, entonné des chants de supporters, essayé de m'incruster à des fêtes, envoyé des textos à des meufs pour savoir ce qu'elles faisaient (mais elles ne m'ont jamais répondu), tapé des demi-grammes de coke, écouté Underw​orld et passé mes après-midis en jogging. (...) Selon moi, ce rejet global et exclusif de la maturité constitue un enjeu majeur, qui influencera probablement les futurs écrivains pour décrire notre génération. Ils raconteront comment nous avons brisé les schémas traditionnels : avoir des enfants, une maison et un boulot qui méritent qu'on trime en permanence. Ils décriront comment nous nous sommes enfermés dans une mentalité d'adolescent."

Comme un écho à ce descriptif acerbe ("évident" et "pertinent" pour certains, ou seulement amusant par son exagération pour d'autres), le New York Times a ouvert, jeudi 25 décembre, ses colonnes à un débat de plusieurs spécialistes, qui tentent de déterminer si le concept d'âge adulte est "retardé" ou carrément "oublié" pour les jeunes générations actuelles. Leurs observations recoupent, sur de nombreux aspects, celles du texte publié sur Vice.

"Le mariage, les enfants, un salaire et une maison sont les marqueurs traditionnels de l'âge adulte. Prenez un effondrement économique qui touche particulièrement les jeunes, associez le avec une culture toujours plus grande d'individualisme et de narcissisme, et vous aurez comme résultat une disparition progressive de ces marqueurs", écrit W. Keith Campbell, chercheur en psychologie à l'université de Georgie, quelque peu fataliste :

"Être adulte est de plus en plus vu comme un choix de vie. Je peux assumer des responsabilités d'adultes, (...) ou je peux juste choisir la Xbox et décider de ne pas commencer ma carrière ou entamer une relation adulte avec quelqu'un. (...) Cela peut être le vieux modèle d'une sociabilisation adulte repoussée à plus tard, ou bien la naissance d'une nouvelle culture d'"âge adulte en option". Je pense que les deux arrivent en ce moment, et je suis à la fois curieux et nerveux de voir à quoi cela va conduire."

Pour autant, les autres auteurs à qui le New York Times donne la parole sont plus terre-à-terre, expliquant ces évolutions par le contexte économique.
"Pour beaucoup de jeunes, avoir des enfants coûte trop cher", résume la journaliste Jessica Grose, selon qui les jeunes d'aujourd'hui sont seulement "rationnels" : "ils ne veulent pas avoir d'enfants qu'ils ne pourront pas élever convenablement".

"Les millenials [les 15-32 ans] seront bien moins obsédés par l'idée de la propriété que leurs prédécesseurs", analyse l'économiste Ian Shepherdson : "il est bien plus facile pour un locataire de déménager pour profiter d'une opportunité de carrière, et c'est quelque chose d'important dans une économie (...) où les gens ne s'attendent plus à travailler pour le même employeur dans la même ville toute leur vie."

"Les millenials [les 15-32 ans] sont bien plus lents que leurs parents à se marier. La mollesse de l'économie y est sûrement pour quelque chose", selon Kim Parker, une directrice de recherche de l'institut Pew Center : "d'après nos observations, un quart des millenials ne se seront jamais mariés lorsqu'ils auront atteint le milieu de leur vie. Ce sera la part la plus haute jamais observée dans l'histoire moderne."

Dans ce paysage, le point de vue le plus optimiste vient de l'avocate Binta Niambi Brown, qui trouve "admirable" la manière dont les jeunes générations prennent leurs décisions. Elle remercie en ça Internet et les réseaux sociaux : "l'économie du partage, si elle devient plus solide, pourra permettre de réduire la consommation. (...) La technologie donne aux jeunes adultes des possibilités que les générations précédentes ne pouvaient pas avoir au même âge."
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 http://bigbrowser.blog.lemonde.fr/2014/12/27/la-jeunesse-actuelle-a-t-elle-envie-de-devenir-adulte/

Jean Wyllys: "Sou exceção, não a regra. E quero ser a regra"

Jean Wyllys: "Sou exceção, não a regra. E quero ser a regra" Marcelo Oliveira/Agencia RBS
Entrevista para seção Com A Palavra com o deputado e ex-BBB Jean Wyllys Foto: Marcelo Oliveira / 
Agencia RBS

Em entrevista a ZH, o deputado fala da eleição do Congresso mais conservador desde 1964, dos ataques de Jair Bolsonaro (PP-RJ) e das bandeiras defendidas pela comunidade LGBT

A trajetória de Jean Wyllys de Matos antes da fama se assemelha a de milhões de brasileiros espalhados pelo país. Filho de uma lavadeira e de um mecânico, teve de vencer várias batalhas ao longo de sua vida, e a primeira delas, com apenas um ano, foi contra a desnutrição. Por esse e outros motivos, costuma se definir como um sobrevivente, uma exceção à regra. 

Formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, Jean ficou famoso ao vencer o programa Big Brother Brasil em 2005. Antes disso, passou pelos jornais Tribuna da Bahia e Correio da Bahia e foi professor universitário. 

Aos 40 anos, baiano nascido em Alagoinhas, foi reeleito deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, com 144,7 mil votos – desempenho 11 vezes superior ao de sua estreia, em 2010. Alvo da ira de alguns pastores e seus seguidores por defender temas polêmicos como a legalização das drogas e do aborto, Jean foi coroinha e começou sua formação política no movimento pastoral da Igreja Católica, influenciado pela Teologia da Libertação. 

Aos 15 anos, afastou-se da instituição depois de questionar o motivo de a Igreja não se abrir aos homossexuais e obter como resposta um diagnóstico de crise de fé. Anos mais tarde, retomou o engajamento político no movimento gay da Bahia. Nesta entrevista, fala da eleição do Congresso mais conservador desde 1964, dos ataques de Jair Bolsonaro (PP-RJ) e das bandeiras defendidas pela comunidade LGBT.

ENTREVISTA:
A nova configuração do Congresso Nacional, as declarações racistas pós-eleições e os atos pedindo a volta do regime militar são sintomas de uma guinada conservadora da sociedade brasileira?Acho que a gente não pode falar em guinada porque pressupõe que nós éramos progressistas e acordamos conservadores. Há, na verdade, uma manutenção de tendência. O conservadorismo vem crescendo no Brasil nos últimos anos, e essa tendência se acentuou nas eleições. Isso surpreendeu. Muita gente de esquerda esperava que depois das jornadas de junho de 2013, que apontaram uma crise de representação política, seria eleito um Congresso mais progressista, mas aconteceu o contrário: foi eleito mais do mesmo.

E por que isso aconteceu?Porque as manifestações eram muito complexas. A maioria das pessoas de esquerda e até mesmo da imprensa fazia uma leitura de que aquelas multidões eram conscientemente progressistas e reivindicavam uma participação maior no sistema político, e isso transformaria o Brasil. Eu via aquelas manifestações com um olhar um pouco mais apurado, porque acompanhei o processo desde o início. Quando os atos começaram a atrair mais pessoas, a maioria da imprensa viu ali um meio de desestabilizar o governo e, então, passou a fazer o que eu chamo de cobertura-convocação. O caráter originário delas, as reivindicações pontuais foram engolidas por reivindicações generalizantes e por expressões de extrema direita, pedindo a volta da ditadura, o fechamento do Congresso.

Como avalia os 12 anos de governos petistas?Há um paradoxo. Os 12 anos de governos petistas melhoraram materialmente a vida das pessoas. Isso é inegável. Houve uma mobilidade social no Brasil, só que essa mobilidade foi tão somente material. O PT ampliou o acesso à educação, mas não assegurou uma escola de qualidade. As escolas públicas continuam colocando para fora pessoas analfabetas funcionais, mesmo nos cursos de nível superior. Isso é inadmissível. Nesses 12 anos, o fundamentalismo religioso cresceu de uma maneira absurda, começou de maneira insidiosa.

O PT colaborou com a despolitização, então?De certa forma. E colaborou de maneira deliberada, porque, ao cooptar líderes de movimentos sociais, o governo engessou os próprios, que poderiam fazer a crítica e pressionar para que o governo fosse mais progressista. O governo Dilma, por exemplo, falhou bastante nas questões indígenas e LGBT, não fez um enfrentamento eficaz do extermínio da juventude negra e pobre que está acontecendo nas grandes periferias. Então, foram 12 anos de um governo contraditório, que foi muito bom por um lado, mas ruim por outro.

O que é mais difícil: ficar três meses confinado no BBB ou ter de ouvir discursos em plenário de colegas como Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Marco Feliciano (PSC-SP), que pensam muito diferente de você?O Big Brother é um reality show, é feito para entreter. Aquela casa, no fundo, é um estúdio, embora ela esteja cercada de falsos espelhos e a gente não veja as câmeras. Por mais duro que seja conviver três meses com 14 pessoas que você nunca viu na vida, não tem termos de comparação com o Congresso, e nem acho bacana comparar. O Congresso é uma coisa séria, é a instância maior do Poder Legislativo, onde são elaboradas as leis que vão nortear nossas vidas. Por tudo isso, acho que uma figura como o Jair Bolsonaro desrespeita esse poder da República. Teria vergonha de ter votado em um cara daqueles que se senta na Comissão dos Direitos Humanos e xinga outro parlamentar pelas costas de veado, como se estivesse em uma sala de colegial. E olhe lá, aluno da 5ª série consegue ser mais maduro do que um cara que insulta seus colegas durante uma sessão (do Congresso).

A votação expressiva dele, mais de 400 mil votos, o surpreendeu?Olha, me surpreendeu. Principalmente pelo fato de a maioria dos votos dele vir da capital do Rio de Janeiro, que é uma cidade aparentemente libertária. A gente imaginava que fosse uma cidade mais progressista, mas não. Essa cidade votou no Bolsonaro, mas essa cidade também votou em mim, me deu 140 mil votos, votou no Chico Alencar (PSOL), no Alessandro Molon (PT), na Jandira Feghali (PC do B) (os três eleitos para a Câmara Federal pelo Rio na última eleição). Então, continuo achando que o Rio de Janeiro é uma cidade progressista e arejada, mas que concentra um nicho, um contingente de pessoas fascistas. Isso é que foi surpreendente para mim.

Você é um dos poucos parlamentares com coragem para defender temas como a descriminalização do aborto, das drogas e da prostituição. É uma tarefa difícil?É uma tarefa difícil, mas faço isso por convicção, e não porque é polêmico. São temas necessários. A gente não pode discutir segurança pública nesse país hoje sem abordar a questão da legalização das drogas. Um dos grandes motivos do número de homicídios que o Brasil produz anualmente está ligado à guerra das drogas, que está nos territórios onde moram os pobres, não a classe média alta. Somos hoje a terceira população carcerária em números absolutos do mundo. Estamos fazendo gestão da pobreza mediante o encarceramento e o extermínio, e isso não pode continuar.

Durante a campanha, a criminalização da homofobia e o direito ao casamento civil para homossexuais pautaram debates. Essas propostas têm chances de avançar?Nosso desafio é esse. A vitória da Dilma só se deu por conta da esquerda, que decidiu botar suas diferenças de lado e ir para as ruas defender esse governo. Então, a gente quer que a presidenta se incline a atender essas reivindicações. Apresentei cinco pontos programáticos para dar o apoio crítico, e a gente vai cobrar dela. Um desses pontos é a criminalização da homofobia.

Qual desses temas acima é o mais importante para a causa LGBT?Os dois são importantes, mas acho que o casamento tem um impacto maior porque hoje há uma discriminação jurídica quando se nega esse direito aos homossexuais. Há mais de cem direitos correlatos que hoje são negados aos homossexuais. Se a gente estende – não como uma decisão do Judiciário, mas do Legislativo – esses direitos, reconhece as famílias homoafetivas e produz um impacto de médio prazo na homofobia. Perceba: as crianças das novas gerações crescerão sabendo que existem famílias de todos os tipos e que há amor em todos os tipos de família. A criminalização é uma coisa mais imediata, pontual, para combater a violência dura que hoje se abate contra os homossexuais.

Em 2013, um homossexual foi assassinado a cada 28 horas no país, segundo uma pesquisa do Grupo Gay da Bahia. Por que é tão difícil para algumas pessoas respeitar as diferenças?Preconceito tem a ver com falsa certeza que é historicamente transmitida e socialmente partilhada. A maioria das pessoas não teve acesso aos meios de desconstrução dessas falsas certezas. Muito pelo contrário. Nos últimos 12 anos, essas pessoas tiveram acesso a espaços onde esses preconceitos são reafirmados e endossados, como as igrejas neopentecostais fundamentalistas, que foram responsáveis por quase derrubar o programa de vacinação contra HPV. Por isso, essa homofobia, que é social, se materializa na violência. Nem todo homofóbico bate e mata homossexual, mas todo homofóbico pavimenta o caminho para isso.

  "Mas eu já vivi a vergonha de ser gay. 
Minha homossexualidade foi motivo para 
todas as humilhações que vivi na escola.
 Ouvi pela primeira vez a expressão 
veado como insulto aos seis anos."

No livro Tempo bom, tempo ruim, você conta que já levou um murro de um desconhecido na rua por ser gay. Como você lida com o preconceito no dia a dia?Não é fácil. Sei que vou morrer ouvindo insulto. Talvez as próximas gerações possam viver num mundo em que vão estar livres do insulto homofóbico. Mas, para mim, isso não vai acontecer.

O que você falaria para as pessoas que dizem existir uma “ditadura gay” hoje?Que elas são equivocadas e que esse discurso não é novidade. Não há sentido em falar em orgulho hétero porque ninguém tem vergonha de ser hétero. Mas eu já vivi a vergonha de ser gay. Minha homossexualidade foi motivo para todas as humilhações que vivi na escola. Ouvi pela primeira vez a expressão veado como insulto aos seis anos.

A reforma política é debatida há mais de 20 anos no Congresso. Acredita que a proposta finalmente poderá sair do papel?Quero crer que sim, e aposto muito nisso, porque, do jeito que está, não dá mais para continuar. Tem deputado que gastou na campanha R$ 5 milhões. Isso torna a disputa muito injusta. Ainda é a força da grana que determina o resultado das eleições.

Em 2015, as mulheres ocuparão apenas 10% das cadeiras no Congresso, embora sejam 51,5% da população. Como mudar isso?Defendo que o Poder Legislativo seja paritário, que obrigatoriamente metade das vagas seja ocupada por mulheres. De diferentes partidos, de diferentes etnias. Pelos valores que essa cultura atribuiu ao gênero feminino, as mulheres desenvolveram uma sensibilidade que pode renovar a política. Também sou a favor de determinar cotas para a população negra, que também é sub-representada, assim como os povos indígenas.

Voltando ao seu livro, você diz também que, desde o início, sua vida foi uma luta. Qual foi a batalha mais dura que já teve de enfrentar?Foi a batalha contra fome. É um horror você dormir e acordar sem a perspectiva de ter o que comer. Você esperar seu pai trazer alguma carne para cozinhar, e ele chegar, à noite, de mãos vazias e bêbado. E você ter de trabalhar aos 10 anos para ajudar em casa. É muito fácil para uma figura como Aécio Neves, na campanha, falar em meritocracia. É muito fácil para essas pessoas falar em meritocracia quando elas tiveram a vida pavimentada por suas famílias ricas, pelos cursos de inglês que fizeram na infância e na adolescência, pelas viagens à Disney. É muito fácil falar em meritocracia, ser contra cotas. Quem pode falar sobre meritocracia sou eu, que sou deputado federal e consegui chegar aonde cheguei graças aos meus esforços. Mas sou exceção, não a regra. E eu quero ser a regra.

Você se considera um sobrevivente?Sou um sobrevivente. Mas não falo isso com orgulho. Para estar aqui, ralei pra caramba. Só se pode falar em meritocracia quando pudermos assegurar a todos as condições para que partam do mesmo lugar.
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Reportagem por Cleidi Pereira
Fonte: ZH online, 28/12/2014

sábado, 27 de dezembro de 2014

Fim de uma era, uma nova civilização ou o fim do mundo?

 Leonardo Boff*
 
Há vozes de personalidades de grande respeito que advertem que estamos já dentro de uma Terceira Guerra Mundial. A mais autorizada é a do Papa Francisco. No dia 13 de setembro deste ano, ao visitar um cemitério de soldados italianos mortos em Radipuglia perto da Eslovênia disse:”a Terceira Guerra Mundial pode ter começado, lutada aos poucos com crimes, massacres e destruições”. O ex-chanceler alemão Helmut Schmidt em 19/12/2014 com 93 anos adverte acerca de uma possível Terceira Guerra Mundial, por causa da Ucrânia. Culpa a arrogância e os militares burocratas da União Européia, submetidos às políticas belicosas dos USA.

George W. Bush chamou a guerra ao terror, depois dos atentados contra as Torres Gêmea, de “World War III”. Eliot Cohen, conhecido diretor de Estudos Estragégicos da Johns Hopkins University, confirma Bush bem como Michael Leeden, historiador, filósofo neoconservador e antigo consultor do Conselho de Segurança dos USA que prefere falar na Quarta Guerra Mundial, entendendo a Guerra-Fria com suas guerras regionais como já a Terceira Guerra Mundial. Recentemente (22/12/2014) conhecido sociólogo e analista da situação do mundo Boaventura de Souza Santos escreveu um documentado artigo sobre a Terceira Guerra Mundial (Boletim Carta Maior de 22/12/2014). E outras vozes autorizadas se fazem ouvir aqui e acolá.

A mim me convence mais a análise, diria profética, pois está se realizando como previu, de Jacques Attali em seu conhecido livro “Uma breve história do futuro” (Novo Século, SP 2008). Foi assessor de François Mitterand e atualmente preside a Comissão dos “freios ao crescimento”. Trabalha com uma equipe multidisciplinar de grande qualidade. Ele prevê três cenários:

(1) o superimpério composto pelos USA e seus aliados. Sua força reside em poder destruir toda a humanidade. Mas está em decadência devido à crise sistêmica da ordem capitalista. Rege-se pela ideologia do Pentágo do”full spectrum dominance”(dominação do espectro total) em todo os campos, militar, ideológico, político, econômico e cultural. Considera-se a nação indispensável, a única que tem interesses globais e se dá o direito de intervir, em qualquer parte do mundo, caso sejam postos em risco. Mas foi ultrapassado economicamente pela China e tem dificuldades de submeter todos à lógica imperial.

(2) O superconflito: com a decadência lenta do império, dá-se uma balcanização do mundo, como se constata atualmente com conflitos regionais no norte da Africa, no Oriente Médio, na Africa e na Ucrânia. Esses conflitos podem conhecer um crescendo com a utilização de armas de destruição em massa (vide Síria, Iraque), depois de pequenas armas nucleares (existem hoje milhares no formato de uma mala de executivo) que destroem pouco mas deixam regiões inteiras por muitos anos inabitáveis devido à alta radioatividade. Pode-se chegar a um ponto com a utilização generalizada de armas nucleares, químicas e biológica em que a humanidade se dá conta de que pode se auto-destruir.

E então surge (3) o cenário final: a superdemocracia. Para não se destruir a si mesma e grande parte da biosfera, a humanidade elabora um contrato social mundial, com instâncias plurais de governabilidade planetária. Com os bens e serviços naturais escassos devemos garantir a sobrevivência da espécie humana e de toda a comunidade de vida que também é criada e mantida pela Terra-Gaia.

Se essa fase não surgir, poderá ocorrer o fim da espécie humana e grande parte da biosfera. Por culpa de nosso paradigma civilizatório racionalista. Expressou-o bem o economista e humanista Luiz Gonzaga Belluzzo, recentemente:

“O sonho ocidental de construir o hábitat humano somente à base da razão, repudiando a tradição e rejeitando toda a transcendência, chegou a um impasse. A razão ocidental não consegue realizar concomitantemente os valores dos direitos humanos universais, as ambições do progresso da técnica e as promessas do bem-estar para todos e para cada um”(Carta Capital 21/12/2014). Em sua irracionalidade, este tipo de razão, construi os meios de dar-se um fim a si mesma.

O processo de evolução deverá possivelmente esperar alguns milhares ou milhões de anos até que surja um ser suficientemente complexo, capaz de suportar o espírito que, primeiro, está no universo e somente depois em nós.

Mas pode também irromper uma nova era que conjuga a razão sensível (do amor e do cuidado) com a razão instrumental-analítica (a tecnociência). Emergirá, enfim, o que Teilhard de Chardin chamava ainda em 1933 na China a noosfera: as mentes e os corações unidos na solidariedade, no amor e no cuidado com a Casa Comum, a Terra.

Escreveu Attali:”quero acreditar, enfim, que o horror do futuro predito acima, contribuirá para torná-lo impossível; então se desenhará a promessa de uma Terra hospitaleira para todos os viajantes da vida (op.cit. p. 219).

E no final nos deixa a nós brasileiros esse desafio:”Se há um país que se assemelha ao que poderia tornar-se o mundo, no bem e no mal, esse país é o Brasil”(p. 231).
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* Teólogo. Filósofo. Escritor. Ecologista.
Fonte:http://leonardoboff.wordpress.com/2014/12/27/fim-de-uma-era-uma-nova-civilizacao-ou-o-fim-do-mundo/
Imagem da Internet

Você não é o que pensa que é: você é apenas 10% humano.

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Seu corpo é formado por várias células. Disso você já sabia. O que talvez você não saiba é que, para cada célula do seu corpo, existem outros 10 organismos que são essenciais para o desempenho de várias funções que o nosso sistema precisa. Existem cerca de 100 trilhões – vamos repetir: 100 trilhões! – de organismos vivendo sobre ou dentro de você neste momento. Eles entram por sua boca, nariz, ouvidos e por qualquer outra entrada de seu corpo. Ou seja, a quilo que você considera ser você é apenas uma fração do que realmente é… você.

Nós chamamos este sistema de seres vivos morando em nós de microbiota. Estas pequenas criaturas contém cerca de 22 milhões de genes com seus próprios DNAs que não só permitem que elas existam como são fundamentais para vários processos do nosso corpo. Elas auxiliam na digestão, mantém o sistema imune saudável e controlam nossa fome, ajudando a nos fazer sentir “cheios”. Elas até mesmo podem alterar nosso humor. Ratos criados em ambientes esterilizados, não expostos a estes micro-organismos, respondem de formas menos efetivas a estímulos de estresse do que ratos normais.
Você já ouviu falar em transplante de fezes? Acredite, é uma coisa real e muito eficiente. Algumas doenças são causadas por microbiotas com pouca diversidade, o que deixa o indivíduo suscetível a infecções. As fezes de uma pessoa saudável são transferidas diretamente para o intestino da pessoa com poucos micro-organismos. Os novos habitantes recolonizam o local e deixam tudo bem novamente. Esse tratamento é usado com mais frequência quando alguém toma algum antibiótico que acaba matando uma parte grande demais do microbiota.

Cientistas inclusive descobriram que ratos obesos que receberam microbiota de ratos magros incrivelmente perdem peso de forma mais eficiente, mesmo que as suas dietas fossem mantidas as mesmas.

Os micro-organismos que vivem em nós são tão significativos, de várias maneiras diferentes, que cogita-se que, no futuro, os médicos não irão mais nos diagnosticar, mas sim diagnosticar eles.

Mudança de inquilinos

Embora apenas 10% de você seja você, você tem um papel importante em relação a seu corpo. Porque, na verdade, você pode mudar os outros 90%. Tudo o que você come afeta sua microbiota. Comidas que possuem prebióticos e probióticos, por exemplo, introduzem novas e saudáveis bactérias, que podem ajudar as velhas a funcionarem. Por outro lado, os nuggets de frango que você adora ou quaisquer outros alimentos processados são tratados com produtos químicos que matam as más bactérias, mas que possuem o infeliz efeito colateral de matar as suas bactérias boas também.

Pessoas que vivem no lado ocidental do planeta, na verdade, possuem uma microbiota muito menos rica do que pessoas em outras culturas sem o costume comer alimentos processados. Isso acontece não só por causa deste tipo de dieta, mas também pelo uso frequente de antibióticos e sabonetes antibactericidas. Esses costumes ocidentais também podem explicar por que existem muitos mais casos de alergia e de doenças autoimunes neste lado do planeta.
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Fonte:  http://www.nossofuturoroubado.com.br/portal/voce-nao-e-o-que-pensa-que-e-voce-e-apenas-10-humano/