segunda-feira, 20 de julho de 2015

CRENTE NA LAJE

LUIZ FELIPE PONDÉ* 


Digamos a verdade: a elite cultural não aprecia muito o povo. Dito de forma direta assim, parece uma insensibilidade perigosa em época de ofendidos por todos os lados.

A vida nunca foi tão fácil na maior parte do planeta Terra e nunca houve tanta gente chata e mimada reclamando de tudo. Não só a longevidade aumentou nos últimos anos, a chatice autoconfiante também.

O que é elite cultural? Basicamente, estudantes e professores universitários, escritores, jornalistas, publicitários, cientistas sociais, filósofos, teólogos, historiadores, cientistas, psicanalistas e psicólogos de diversos matizes, médicos, arquitetos, artistas, fotógrafos-artistas, atores e diretores de teatro, produtores culturais, cineastas, engenheiros (só aqueles casados com psicanalistas), advogados, grandes empresários e humoristas que se levam muito a sério.

Ou seja, gente que, para exercer sua função, deve estudar "mais um pouco" do que a maioria. Está bom como definição? Claro que posso reduzir essa definição, mas não quero ofender ninguém, pelo menos no tocante a esta definição.

E do outro lado desta definição, "o povo", com suas crenças, visões estreitas de mundo e sua laje. Seu banal senso comum sobre a vida. Intelectuais detestam senso comum de quem "crê na família" –só para dar um exemplo clichê, tá?

O povo é aquela entidade abstrata que, quando vota em quem achamos certo, cumpriu plenamente com sua soberania na democracia (e alguns até gozam quando falam frases do tipo "o povo decidiu!").

Mas quando o povo fala alguma coisa com a qual não concordamos, ai, ai, ai!. Então dizemos: "ignorantes, alienados, mal-educados, reacionários, crentes!".

Ou, como num ato de condescendência, sacamos a hipótese que serve para tudo: falta educação!!

Do contrário, eles seriam a favor do aborto, contra a diminuição da maioridade penal, seriam todos ateus (e se fossem religiosos, pelo menos, seriam budistas light, católicos "da libertação", que é gente como "nóis", ou do candomblé, que é religião de oprimido, então tudo bem).

E mais: seriam a favor dos gays e associados, não falariam frases idiotas como "vamos defender a família". Resumindo a ópera: pensariam como nós (assumindo que esse "nós" existe como unanimidade).

E aí vem o pesadelo: o Congresso tem muito crente! Esses reacionários vão tomar a Paulista de mim!

Nossa elite intelectual talvez descubra que tem gozado com a própria voz e com o próprio pensamento há muito tempo. E esqueceu que o mundo não cabe em nossos papos cabeça.

Falando para grupinhos que tomam vinho conosco e que dizem amém a tudo que afirmamos, esquecemos que a maioria das pessoas está preocupada é se Jesus está ou não do lado delas. Só de pensar numa coisa dessas, alguns coleguinhas querem vomitar. Não, o "povo" não cabe nos três ou quatro autores que temos cultuado.

O povo, se você não enche muito o saco dele, fica fazendo o que a elite quer que ele faça: trabalhar, gastar e concordar com o que ensinamos para eles.

Chega a ser hilária nossa ambivalência nisso: quando o povo faz algo que cabe em nossa concepção "progressista", o povo é soberano e devemos deixá-lo "falar" e decidir diretamente. Quando o povo sai com absurdos como votar num "Congresso crente", aí não vale.

Assumimos que se tiver professor suficiente que pensa como nós, o povo vai acordar e concordar com nossas pautas, que só cabem em nosso bolso.

Na América profunda a educação é bastante boa, e, no entanto, nessa mesma América profunda é que está o "Bible Belt", o cinturão bíblico dos mais religiosos. Logo, a conta não fecha.

Não é educação ruim (concordo, a nossa é ruim mesmo). É apenas o fato de que o povo não pensa como a elite cultural e intelectual (mais seleta ainda!) quer que ele pense. A elite fica nervosinha com isso.

Queremos que o povo tenha a educação que nós queremos, aquela que "esmagará a infâmia" –leia-se, a religião–, como dizia o iluminismo francês, responsável por nossa ignorância com relação ao "povo".

O Brasil é um país religioso. Bem-vindos ao Brasil que não cabe em nossas crenças. 
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* Filósofo. Escritor. Prof. Universitário.
Fonte: Folha online, 20/07/2015
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domingo, 19 de julho de 2015

UM ANO

 Luis Augusto Fischer*
 
Amanhã acaba minha experiência de um ano vivendo na Europa, numa cidade mundial acossada pela sombra do terrorismo, ocupada por milhões de turistas, vivida cotidianamente por gente comum, em suas padarias e bares de esquina, em suas feiras-livres em todo bairro, em seu transporte público utópico para um brasileiro.

Com suas calçadas em regra impecáveis, mas cheias de cocô de cachorro. Com suas múltiplas máquinas de limpeza urbana, que recolhem lixo evitável, como as toneladas de baganas de cigarro. Com seus espaços públicos bem cuidados, pracinhas de bairro espalhadas por toda parte, nas quais as crianças ficam à vontade e até bebês de seis meses são postos no chão, porque as mães sabem que não há a menor possibilidade de cachorro entrar ali, nem na coleira.

Tive tempo de viver emoções intensas e inesquecíveis, como levar os filhos ao colégio, a pé (o filho de patinete), e cruzar pela mãe cega que, com seu cão-guia, levava a filha de oito anos todos os dias até a porta da escola, atravessando com total segurança toda e qualquer rua – sempre sinalizadas, com pintura no chão, sinal luminoso e, nas mais movimentadas, sonoro também. Os motoristas sempre param, quando se trata de uma criança ou de alguém com qualquer necessidade evidente.

Tempo de ouvir dezenas de línguas, incluindo o português de Portugal, falado por zeladores de prédios e atendentes de comércio, e o português brasileiro, nos pontos turísticos. Tempo de fazer um laço confortável com a feirante de produtos “biô”, ecológicos, com a moça da padaria, com o chinês das frutas. De conhecer o lugar das coisas no súper, de assinar o jornal, de reviver a pequena felicidade familiar do comércio de rua, que Porto Alegre quase nem conhece mais.

Deu tempo também para entrar em várias crises. A mais recorrente, e mais profunda, era uma ambivalência: de vez em quando eu me pegava sentindo a vida aqui como sendo minha, e portanto eu gastava tempos a entender qual era a orientação política de certo ministro, ou o que significava certa sigla dada como óbvia mas impenetrável para um estrangeiro; aí, eu me corrigia pensando que aquele esforço não tinha sentido, porque eu precisava era saber esses detalhes apenas sobre o meu mundo brasileiro, gaúcho, porto-alegrense. Nem no Uruguai e na Argentina, tão próximos a nós, a gente entende isso!

E me vinha à lembrança um fragmento de texto do Caetano Veloso, uma das crônicas que ele escreveu para o Pasquim, estando em Londres, exilado pela ditadura militar. Ele andando por aquela outra cidade mundial – sobre a qual compôs uma linda canção –, em outro momento histórico, sob outras pressões, se dava conta que nada daquilo dependia dele, e que ele não dependia de nada daquilo.

E este era o meu ponto: foi um ano todo vivendo pendurado numa fragilidade, numa provisoriedade consciente, numa condição de trânsito. Os mendigos e subempregados de Paris, os músicos e pedintes do metrô, os imigrantes recentes que se tornam, por necessidade, vendedores de bugigangas em pontos de grande afluxo de gente, a vizinha ranzinza com aspecto de suprematista branca – eu passei por todos eles, sem nem sonhar em criar laço, salvo o ultragenérico de ser, como eles, um ser humano.

Muitos amigos alertam agora que a volta pode ser traumática, porque o ambiente brasileiro está tumultuado e agressivo, coisa que dá pra ver e acompanhar mesmo de longe, por sinal um longe que perdeu a antiga respeitabilidade, depois da internet. Saí daí antes do processo eleitoral do ano passado, que parece ter sido um divisor de ânimos. Alguns perguntam se eu preciso mesmo voltar.

Claro que preciso, por todos os motivos: vivi aqui com bolsa federal e sou professor público em licença para estudar, e só aí estão duas razões incontornáveis. Há a família, os amigos, a paisagem. Mas é mais: de algum modo profundo, é em Porto Alegre, é no Brasil que me sinto como se eu dependesse das coisas, e elas dependessem de mim.
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* Escritor. Prof. Universitário.
Fonte: ZH online, 19/07/2015

DORMIR É PARA OS FRACOS

ANTONIO PRATA*

Quinze constatações a partir da paternidade: uma crônica de autoajuda para os que pretendem procriar – ou talvez, mais ainda, para os que não pretendem.
1 – Antes de ter filhos, eu era um vagabundo que ficava reclamando, sem razão, de não ter tempo pra nada.
2 – Depois de ter filhos, eu sou um pobre-diabo que fica reclamando, com razão, de não ter tempo pra nada. (Se hoje me dessem três meses com o tempo livre que eu tinha há dois anos, eu conseguiria aprender esperanto, escrever Anna Karenina e treinar pro Ironman).
3 – Se eu tivesse um minuto pra pensar a respeito da paternidade, provavelmente me daria conta de que estou vivendo um dos momentos mais gloriosos da minha breve passagem sobre a Terra: estou acompanhando o desabrochar de pequenos seres humanos feitos com metade dos meus genes e metade dos genes da mulher amada.
4 - Se eu não tenho um minuto pra pensar a respeito da paternidade é porque estou exercendo a paternidade, o que significa, entre outras coisas: tentar evitar que um desses pequenos seres humanos ponha na boca a mão que acabou de meter na fralda suja de cocô; tentar convencer o outro pequeno ser humano de que não dá para vermos o caranguejo, agora, pois o caranguejo mora em Ubatuba, nós moramos em São Paulo – e são duas e trinta e sete da manhã. Tais atividades, convenhamos, deixam pouco espaço para a contemplação.
5 – Felizmente, devido a uma simpática trapaça cognitiva, pregada pela seleção natural, o cocô dos nossos filhos nos parece muitíssimo menos repulsivo do que os cocôs do resto da humanidade. (Infelizmente, não a ponto de nos esquecermos que aquilo na fralda, nas costas, nas pernas ou na mão do pequeno ser humano continua sendo cocô.)
7 - Depois de ter filhos, os minutos destinados ao próprio cocô se transformam num raro e beatífico momento de paz pelo qual os jovens pais anseiam como um monge por sua meditação.
8 - (Não é incomum pais neófitos simularem dores de barriga para poderem se trancar no banheiro várias vezes ao dia e: ler rótulo de creme hidratante, dar “like” na foto do gato da prima, contemplar os azulejos num torpor quase místico).
9 - Ninando um bebê, me descubro capaz de executar funções com partes do meu corpo que, até ter filhos, julgava completamente ineptas. Consigo abrir e fechar uma maçaneta com o cotovelo – sem fazer barulho. Consigo regular o dimer com a bunda. Consigo abrir e fechar o mosquiteiro com o nariz. Coço o queixo na estante de livros, as costas no armário embutido, a testa no prato da samambaia. Se tiver uma única mão livre, posso fazer o solo de bateria do John Bonham, em Moby Dick, de trás pra frente – só não faço porque iria acordar o bebê.
10 – Antes de ter filhos, eu achava o fim da picada pais que trabalhavam com: babá, biscoito recheado, televisão no carro.
11 – Hoje, procuro uma folguista pro fim de semana (pago metade do meu salário e dou meu carro como bonificação), negocio “Só mais uma, já é o terceiro pacote!” e imploro “Não chora! Olha o filme do Senhor Batata! A Menina Moleca! A Galinha Pintadinha!”.
12 – Galinha Pintadinha é a imagem da Besta.
13 – Galinha Pintadinha é uma bênção divina.
14 – Dormir é para os fracos.
15 – Eu sou fraco.
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* Escritor. Roteirista. Cronista da Folha
Fonte: Folha online, 19/07/2015
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sábado, 18 de julho de 2015

Fernando Gabeira "Sou cético quanto à chance de a presidente achar um caminho"

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PREJUÍZO
Gabeira diz que Dilma Rousseff criou uma 
situação que ajuda a paralisar o País

Após dedicar décadas de seus 74 anos de vida à política brasileira, Fernando Gabeira, hoje, não milita mais em partidos e trabalha exclusivamente como jornalista. Com menos de 30 anos, já tinha participado de um sequestro (do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969), e levado um tiro nas costas ao tentar fugir da polícia, em São Paulo, no ano seguinte. Atuou em movimentos radicais de esquerda, viveu no exílio e voltou ao Brasil em 1979. Entrou para o Partido dos Trabalhadores (PT), de onde saiu brigado, e ajudou a fundar o Partido Verde (PV). Hoje, apresenta o programa Fernando Gabeira, na TV paga Globonews, para o qual viaja pelo Brasil, e se diz feliz assim.

Gabeira considera que o PT fracassou e que a contrapartida a isso é o avanço de grupos de direita. Mas avalia, também, que a bandeira da esquerda crescerá, em paralelo, a exemplo do que acontece na Europa. Reconhece a crise de credibilidade do sistema político e diz que somente após as próximas eleições, no ano que vem, se saberá se o perfil do eleitor brasileiro mudou. “Estamos amadurecidos como sociedade para resolver as questões de uma forma tranquila”, diz o autor de “O Que é Isso, Companheiro?” (1997), best-seller sobre os tempos de guerrilha.

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"Sobre a possibilidade dita por Lula de deixar este velho PT para trás e formar
um novo, acho difícil pensar em renascer sem reconhecer os erros
que está cometendo e pelos quais está sendo julgado"

Termos dos seus tempos de guerrilheiro voltam à cena. A presidente Dilma Rousseff disse que não respeita delatores (referência à delação premiada na Operação Lava Jato) e lembrou a tortura na ditadura para obter informações. Os tempos mudaram mas as práticas, não?

Acho que a presidente não devia falar assim. É um gol contra se for comparar a situação jurídica da ditadura e a do governo dela. Não há comparação. Estigmatizar a delação faz parte de uma cultura antipolicial e se o PT e a presidente Dilma insistirem em, indiretamente, afirmar que a coisa mais vil que existe é colaborar com a polícia, isso vai ter uma repercussão muito negativa até na política de segurança do País inteiro. No momento, estão procurando se defender mas não estão avaliando bem o que estão falando. 

O sr. escreveu em um artigo que a saída para a presidente Dilma é usar tática de guerrilha: falar quando o adversário está desprevenido e recuar quando está atento.

Estava me referindo a uma coisa específica. Uma tática de guerrilha que ela usa é evitar ser vaiada ao aparecer na televisão porque, se ela marcar um dia e hora para falar na TV, sabe que deverá receber vaias. Então, a única maneira é aparecer em um momento que ninguém está esperando.

Acha que os movimentos de rua vistos recentemente no Brasil são espontâneos? 

Há fluxos e refluxos nestes movimentos. Não podemos definir calendários para as pessoas. Há um nível de espontaneidade que não pode ser medido em um calendário burocrático. Os brasileiros estão esperando as saídas institucionais. Estão vendo que há um movimento na operação Lava Jato, no Tribunal de Contas da União (TCU), no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de coleta de depoimentos. Essa espera foi um pouco exacerbada pela declaração da Dilma, que chamou a crise para ela mesma, quando disse, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, que não vai cair, que não tentem derrubá-la, que é moleza continuar no governo, no poder.

O que essa espera pode trazer ao País?

Todos que têm planos para iniciar ou realizar projetos, evidentemente, ficam aguardando, pois se a própria presidente da República convida a oposição para tentar derrubá-la! Ela criou uma situação que ajuda um pouco a paralisar o País.

Essa paralisação de expectativas e ações também não se dá por falta de credibilidade geral nos políticos, como indicam as pesquisas?

Não há dúvida de que a crise não está acontecendo apenas no campo econômico. Há uma crise também de credibilidade das instituições políticas, todas. Nunca o sistema político brasileiro, como um todo, esteve tão distante da população. Isso agrava o quadro e mostra que a tarefa não é apenas recuperar a economia mas, também, um mínimo de credibilidade no próprio sistema político.

Como?

A curto prazo acho que pode ser feita alguma tentativa, mas essa promessa só se confirmará realmente em um outro processo eleitoral. Quer dizer, o Congresso só terá condições de atuação maior depois de superada a crise. Mas isso não impede que algumas pessoas no parlamento tomem iniciativas e comecem e fazer movimentos corretos para mostrar que existe uma minoria lá dentro que representa o que está acontecendo nas ruas agora.

O sr. acha que a situação atual pode se prolongar?

Acho que tal como estamos vivendo no momento é muito difícil continuar. Há muita indecisão no ar, expectativas que são postergadas em função da crise política. Não é um clima que tende a se prolongar a não ser que se queira pagar um custo muito alto, de falta de rumo, de viver à deriva. A hipótese de superar isso seria a presidente começar a governar de uma forma adequada e convincente, mas isso não parece estar no horizonte. Sou bastante pessimista a respeito de solução a curto prazo. Se tiver, vai depender muito das instituições agora. Claro que a pressão popular pesa muito, mas existem três instâncias que estão discutindo o problema e que podem resolver. Uma é o TCU, a outra é o TSE e, a terceira é a operação Lava jato. Essas três frentes é que vão determinar a base legal para que haja uma solução.

O sr. está se referindo ao impeachment?

Em todos os casos, existe a possibilidade do impeachment. Via TCU, atingiria a presidente da república. Do TSE, atingiria a dupla, presidente e o vice-presidente, Michel Temer. Depende de como essas frentes vão evoluir.

O sr. foi do PT, conviveu e conhece bem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como interpretou as duras críticas que ele fez ao próprio partido, recentemente?

Não sei. Mas suponho que ele já vinha fazendo essas críticas à boca pequena e falou em um espaço público o que antes dizia reservadamente. Pode ter acontecido isso. Ou pode ser objeto de um plano para dar uma sacudida no partido e em Dilma. Mas não funcionou assim. Sobre a possibilidade dita por Lula de deixar este velho PT para trás e formar um novo, também acho difícil pensar em renascer sem reconhecer os erros que está cometendo e pelos quais está sendo julgado agora. Essa transição de renascer como se nada tivesse acontecido é impossível. Partidos mais sólidos, intelectual e eticamente, como o Partido Comunista italiano, desapareceram. 

Na hipótese de o PT desaparecer, quem ocuparia o lugar? 

Li, semana passada, uma interessante entrevista do John Gray (filósofo inglês) na qual ele diz que, na Europa, está havendo um momento de crescimento tanto da esquerda quanto da direita. Acredito que no Brasil, devido à performance ruim do PT, há a possibilidade de surgirem grupos mais à direita. Mas penso que o fenômeno europeu também pode se repetir aqui e os grupos de esquerda avancem, igualmente, desde que revejam um pouco suas posições sobre estadismo, culpas. 

Por quê?

Na verdade, tudo o que está acontecendo está sendo atribuído a uma política de esquerda porque durante todo esse tempo o PT desenvolveu esse discurso na área da política internacional, no campo dos costumes etc. Então, ele está se apresentando como uma tentativa de passagem da esquerda pelo poder. Só que o fracasso deles vai representar um avanço muito grande da direita. 

O sr. pertence ao Partido Verde (PV)?

Não. Não estou militando mais em partido. Meu único trabalho, hoje, é um programa semanal na televisão, ao qual me dedico exclusivamente, quase. Acompanho os acontecimentos e escrevo artigos para contribuir também, de alguma maneira.

Com a experiência de quem participou ativamente de momentos muito importantes da história brasileira, acha que, para o País, o melhor é que a presidente encontre um caminho e siga até 2018 ou que o atual processo termine logo?

 Sou muito cético quanto à chance de a presidente achar um caminho. Passamos um longo período de governo do PT e seus aliados. É esse tempo que está sendo agora avaliado e possivelmente chegará ao fim. Mas esse encerramento não é necessariamente dramático, não precisa ser. Estamos muito mais amadurecidos como sociedade para resolver as questões de uma forma tranquila.



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"Há fluxos e refluxos nos movimentos de rua. Os brasileiros
estão esperando as saídas institucionais"
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Reportagem por  Eliane Lobato - IstoE 17/07/2015

"UM DIA DA CAÇA, OUTRO DO CAÇADOR.

Ruth de Aquino*
A cena dos três carros de luxo, uma Ferrari, um Lamborghini e um Porsche, apreendidos da casa do ex-caçador de marajás e ex-presidente impedido Fernando Collor, é um bálsamo para todos que sempre se sentiram meio quixotes neste país, em luta contra moinhos de vento.
 
É compreensível que empresários bilionários ostentem brinquedos assim e se sintam mais machos enfileirando na garagem suas máquinas potentes e incompatíveis com o trânsito brasileiro. Mas, e quando se trata de políticos? Só muita cara de pau, complexo de inferioridade e problemas de caráter explicam essa obsessão em um congressista ou homem público, num país com tantos desafios básicos e graves.
 
O valor total dos três carros, estimado em cerca de R$ 5 milhões, é detalhe. Milhões e bilhões são jogados pelo ralo da corrupção todo dia. Ninguém consegue acompanhar o montante das propinas na Operação Lava Jato. Mais reveladora é a dívida de Collor com o IPVA das três máquinas, R$ 343.480,48. Quem caiu por um Fiat Elba sujismundo deveria ter virado colecionador de tudo, menos de carros. Sempre faltou visão a esse político afeito a surtos arrogantes e a golpes baixos.
 
Collor reagiu como... Collor. Com bravatas e chiliques. O senador se disse “ultrajado” com a apreensão em sua propriedade, a Casa da Dinda. “Estamos no terreno do vale-tudo!” Chamou os investigadores de “facínoras que se dizem democratas”.
 
Policiais federais, com mandados de busca e apreensão assinados por ministros do Supremo Tribunal Federal, levaram também material da emissora de TV do senador, em Maceió, repetidora da Globo. Era madrugada de terça-feira. A ação, acatada pelo STF a pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, foi batizada de Politeia, que seria uma república grega, caracterizada pelos direitos civis, pela ética e pela virtude.
 
Com uma biografia pontuada de episódios ainda obscuros, Collor foi redimido por seus pares e é senador pelo Partido Trabalhista Brasileiro – o PTB fundado por Getúlio Vargas em 1945. E pensar que Collor quase foi presidente da CPI da Petrobras, indicado pelos governistas.

Lula elogiou Collor como um dos mais leais de sua base, em 2009. Abraçaram-se num palanque de Alagoas, em Palmeira dos Índios. Lula disse que tanto Collor quando Juscelino Kubitschek tinham sido presidentes que viajavam para “sentir o drama do povo”. O que Lula dirá agora? Nada. Até porque muito ainda deve surgir sobre a relação íntima de Lula com a Odebrecht.
Os que mais se comoveram com o sentimento de ultraje de Collor foram o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros. Ambos são alvos da Lava Jato, acusados de receber propinas robustas de fornecedores da Petrobras.
 
O show de Collor foi roubado por seus irmãos camaradas do PMDB, Cunha e Renan. Se pensássemos num filme que resumisse os protagonistas da semana, poderia ser Os três patetas, na versão mais carinhosa, ou Os irmãos metralha, na versão mais dura. Dos três, Collor é o mais inofensivo, o menos perigoso, por não passar de figurante canastrão no grande palco político.
 
“É tudo vingança do governo. Parece que o Executivo quer jogar sua crise no Congresso”, disse o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Cunha foi acusado pelo lobista de empreiteiras e delator da Lava Jato Júlio Camargo de receber US$ 5 milhões diretamente dele, em 2011. O Brasil assistiu ao depoimento, gravado em vídeo pela Justiça Federal. Cunha afirmou que o procurador-geral Janot “obrigou Camargo a mentir”.
 
Os delatores acusam Cunha de intimidação. Dizem ter medo dele. Não são os únicos. A figura messiânica, as manobras polêmicas e as posições extremamente conservadoras de Cunha mostram a face pior do PMDB. Até recentemente, Cunha era fã da delação premiada e da Lava Jato. Agora, diz que o Executivo usa a operação “para constranger o Legislativo”.
 
A tropa de choque do PMDB em torno de Cunha formou-se rapidamente. “Essas coisas” atrapalham o país, “abalando a natural tranquilidade que sempre permeou” o Brasil, disse o vice-presidente Michel Temer. Renan Calheiros afirmou que o país passa por “uma crise institucional”. “Vivemos um momento grave, preocupante”, porque o Brasil pode estar “ferindo de morte a própria democracia”, disse o presidente do Senado.
 
É curioso. O Brasil, com certeza, tem outra opinião. A democracia vive um momento de ouro porque não poupa ninguém. Não há lugar na Politeia para Collor e uma cambada de homens públicos brasileiros. Nossa República dos rabos presos precisa ser refundada e começo a crer nessa possibilidade. Você compraria um Lamborghini usado de Collor, Cunha ou Renan?
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* Jornalista. Fonte: REvista Época online, acesso 18/07/2015
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sexta-feira, 17 de julho de 2015

África, Angola e os crimes das elites do offshore

 
A venda dos recursos naturais africanos criou uma elite de corrupção que lava o dinheiro na Europa e nos EUA, enquanto as populações definham em miséria. Entrevista ao autor de 
"A Pilhagem de África". 

Tom Burgis é autor de A Pilhagem de África. Nele se explica de forma clara o rasto do dinheiro que surge na China, é trocado por recursos naturais em nações africanas com populações miseráveis e volta a aparecer em offshores, sendo depois lavado em empresas portuguesas, francesas, inglesas e americanas.

Como correspondente do Financial Times, Burgis correu África e assistiu em primeira mão à violência brutal e à tremenda miséria a que continuam condenadas as populações dos países africanos que são ricos em recursos naturais. A chegada dos interesses chineses contribuiu para aumentar a escala de delapidação de recursos naturais e também para facilitar a manutenção no poder de déspotas que se recusam a prestar contas ao seus cidadãos. Junta-se a isto a conivência das economias ocidentais, mais preocupadas com o equilíbrio do sistema bancário e a sustentabilidade das suas empresas: está dada a receita para a criação das elites do offshore, que não prestam contas a ninguém e vivem em cima de fortunas fabulosas amealhadas em cima da miséria dos seus cidadãos.

O texto de Burgis, que resulta de uma investigação de seis anos, salta facilmente entre as explorações de minério e os detalhes das operações financeiras globais, ligando os pontos entre o nepotismo global e a condenação à morte de gerações de africanos. Não deixa de apontar o cinismo dos governantes do primeiro mundo nem a hipocrisia dos consumidores – ou seja, de todos nós. Também por isso a obra é poderosa, tendo o Observador publicado em exclusivo o primeiro capítulo, dando agora voz ao autor.

Este livro mostra que a maioria do continente africano está perdida na “maldição dos recursos”, em que os países com riquezas naturais sofrem de corrupção, caos e pobreza extrema. O cenário tem neste momento muito a ver com a presença chinesa, no que parece um novo colonialismo. É mesmo assim?
Numa certa medida sim, mas o problema é muito mais antigo. Muitas companhias extrativas dos recursos naturais já trabalhavam nestes países antes ainda das independências e, embora o cenário colonial seja parecido, há uma parte do negócio que se privatizou. Agora o poder estrangeiro tende a ser corporativo e não nacional.

Ao mesmo tempo, a chegada da China é outro aspeto disso. Tem havido um esforço claro por parte dos chineses em distanciarem-se da imagem, dizendo: “sim, nós queremos os recursos naturais e não temos problemas em lidar com ditadores, mas ao mesmo tempo estamos empenhados em construir infraestruturas”. Nalguns casos isso acaba por fazer diferença para as pessoas, porque melhoram as acessibilidades.

Mas a oferta chinesa é como um presente envenenado: os chineses dão a infraestrutura para que as sociedades africanas sigam o caminho seguido por Pequim, o de uma industrialização massiva. Ao mesmo tempo aumentam o preço das matérias-primas e perpetuam a dependência dos recursos naturais – que eram a razão original para esses países não se terem industrializado.

A oferta chinesa é como um presente envenenado: os chineses dão a infraestrutura para que as sociedades africanas sigam o caminho seguido por Pequim, o de uma industrialização massiva. Ao mesmo tempo aumentam o preço das matérias-primas e perpetuam a dependência dos recursos naturais 
 
Portanto a globalização só veio piorar esta situação. Certo?
Vários líderes políticos africanos dizem que a chegada dos chineses é positiva. Eles estão fartos de receber miúdos de 25 anos do FMI com ordens sobre como conduzir as políticas locais, e os chineses chegam com dinheiro fresco e dizem formalmente que não se envolvem na política. Embora obviamente o façam, porque suportam financeiramente os regimes que fazem negócios com eles.
E sim, claro que a globalização ajuda a eternizar os problemas. São o que chamo as “elites do offshore”, que se vêm no Zimbabue, Nigéria, Gabão, na Guiné Equatorial, em Angola. As elites estão separadas da nação. Claro que dominam politicamente o país e controlam as fronteiras físicas, por isso há a militarização que há em Cabinda e no delta do Níger, por exemplo… Mas estas elites são empresas, o Futungo é uma empresa que está deslocada do país que controla. A elite africana tem filhos que estudam na Europa, vão ao médico na Arábia Saudita, o dinheiro que roubam é lavado em Nova Iorque, em Londres e no Dubai. São verdadeiros cidadãos do mundo, adequadamente globalizados.

E isto acontece porque é tão incrivelmente fácil mover o dinheiro de forma escondida! Todos os escândalos de corrupção estão ligados, de uma forma ou de outra, a paraísos fiscais onde se pode evitar o escrutínio das populações.

Mas ao mesmo tempo esses mesmos líderes políticos sabem o estado em que a população vive, sabem as condições de vida que existem no país. Como é que se distanciam tanto?
Isso é uma pergunta fascinante, é muito difícil responder. No livro (p. 289) coloquei um poema de Achebe, Abutres, que fala do abutre que retira o olho de um cadáver e depois vai aninhar a cabeça junto da companheira… É um bocadinho assim, não quero dizer com isto que estes políticos são abutres, mas o poema fala de um padrão de comportamento em que o ser humano é capaz de cometer atrocidades e amar no mesmo dia – e a verdade é que eu conheci estas pessoas todas e nenhuma delas se vê como o vilão. São pessoas com uma dissonância cognitiva que lhes permite ser parte da engrenagem e ao mesmo tempo ter sentimentos em prol dos seus cidadãos. Manuel Vicente é um caso extraordinário, ele disse-me: “não podemos ter estas pessoas todas com fome, isto não é… confortável!”

Estas elites são empresas, o Futungo é uma empresa que está deslocada do país que controla. A elite africana tem filhos que estudam na Europa, vão ao médico na Arábia Saudita, o dinheiro que roubam é lavado em Nova Iorque, em Londres e no Dubai. São verdadeiros cidadãos do mundo 
 
Você conheceu Manuel Vicente e Isabel dos Santos.
Sim, são pessoas muito diferentes. Manuel Vicente é um homem muito interessante, relaxado e jovial. Estive 45 minutos com ele e fiz as perguntas todas sobre as participações pessoais nos negócios secretos e a relação com a China e ele nunca perdeu a compostura, fez aliás questão de dizer que é cristão, que acredita em deus e que está empenhado em reduzir a pobreza. Isabel dos Santos é diferente, muito mais reservada, talvez até vagamente melancólica. Ela pensa muito cuidadosamente no que diz e não gosta de falar do imenso império que possui – o ponto que faz questão de reforçar é que é uma mulher de negócios por direito próprio, admite que talvez tenha beneficiado do facto de ser filha de quem é mas recusa sempre o epíteto de princesa do poder. Mas ambos são parte da máquina que transferiu imensas quantidades de dinheiro público de Angola para a esfera privada. É incrível.

Outra pessoa que refere várias vezes ao longo do livro é Sam Pa, o representante dos interesses chineses em África e noutras partes do mundo. Ele é uma das pessoas mais poderosas do planeta?
Ha! Não sei se isso não é um bocadinho excessivo… falei com muita gente que o conhece, ele é uma espécie de “fantasma”, com um dos meus entrevistados diz no livro. De todas as pessoas que inquiri sobre ele, sobressaem duas ideias: uma é que ele é um homem extremamente poderoso, altamente influente nos círculos militares, políticos e económicos em Pequim e um símbolo destes homens que se movem tranquilamente entre os assassinos a soldo de Mugabe e os banqueiros do Crédit Agricole e tudo o que está pelo meio; há outra ideia de Sam Pa, que é a de que ele foi capaz de projetar esta ideia muito chinesa de “guanxi“, das ligações que tem e que, sendo verdade que tem imenso poder, é capaz de projetar mais do que realmente tem.

Há algum tempo ficou na moda ter uma ideia positiva de África. O livro mata isso de forma clara.
Uma das coisas que sempre me irritou sobre essa moda é que tende a ver o continente como movendo-se numa única direção. Isso é patético. Nem sequer ao nível nacional se podem fazer estas comparações: o que está a acontecer em Lagos é impressionante em termos de empenho cívico, mas ao mesmo tempo o nordeste do país está refém do Boko Haram… Por isso é impossível generalizar.
E eu espero bem que o livro não cometa o mesmo erro na direção contrária: é verdade que há casos dramáticos pela praga dos recursos naturais, mas há casos como o do Botswana, da Tanzânia e de outros onde o panorama é bem mais risonho. Tem havido imensas melhorias nalguns locais, mas é um continente imenso e tem sido uma tremenda irresponsabilidade o modo como os jornalistas deixaram de retratar os cenários de sofrimento só porque alguns banqueiros quiseram lá investir e fizeram espalhar uma imagem positiva.

tem sido uma tremenda irresponsabilidade o modo como os jornalistas deixaram de retratar os cenários de sofrimento só porque alguns banqueiros quiseram lá investir e fizeram espalhar uma imagem positiva. 
 
No fim do livro recorda que somos todos responsáveis, não é? Nós, consumidores ricos que não queremos saber quanto sangue está agarrado aos nossos telemóveis.
Sim, nós temos uma ideia sobre os diamantes, por causa do filme do Di Caprio. E temos uma ideia dos problemas do petróleo por causa das guerras no médio oriente. Mas se perguntarmos a alguém de onde vem o petróleo africano, as pessoas não fazem a mais pequena ideia… E menos ainda no que toca ao cobre que vem do Congo ou à bauxite da Guiné. E passa-se esta coisa ridícula: se compramos café étnico queremos saber que o agricultor tem uma vida decente e é pago de forma justa, se compramos uma t-shirt queremos que não tenha sido uma criança a fazê-la. Mas não damos atenção aos produtos sofisticados que compramos e que sustentam todo este sistema, é verdade.

Todo o livro acaba por ser um argumento extremamente consistente contra o capitalismo global, ou pelo menos contra o nepotismo que se serve do modelo capitalista. Qual é o caminho para acabar com isto?
Algumas coisas podem ajudar. São ações objetivas: por exemplo, tem-se falado em ter um registo público global da propriedade das empresas. Isto seria feito obrigando os grandes centros empresariais a apenas aceitar empresas com proprietários reconhecidos, mantendo uma lista negra de indivíduos que não estão autorizados a operar nestes mercados. Isso resolveria o problema de forma muito rápida, e quem o diz nem sou eu, são especialistas que acompanham estes problemas há muito tempo. O segredo ajuda a que muitas regiões estejam a saque, o segredo dos offshores propaga os crimes globais.

Outra coisa simples seria pura e simplesmente fazer exercer as leis que estão em vigor e que são ignoradas. Quase todos os países da OCDE têm, de uma forma ou de outra, leis que atacam a corrupção estrangeira. É simples: processem estas pessoas.

E também seria importante reforçar as exigências do FMI e do Banco Mundial sobre as economias destes países, cujos lucros são aplicados em nome privado nas economias dos países desenvolvidos. Não se pode olhar só para a origem do dinheiro, é preciso ter em conta o destino. Portugal é um exemplo perfeito, com a quantidade de dinheiro a chegar de Angola – não duvido que algum seja legítimo, mas com um país de onde num ano desapareceram 32 mil milhões de dólares das contas públicas, dólares esses que começam a espalhar-se pela economia portuguesa, é fácil fazer as contas. Tenho a certeza que a elite angolana está deliciada com esta irónica inversão da situação colonial! E isto revela o desespero cínico da Europa ocidental, que está preparada para não pensar na origem suja deste dinheiro que tanto ajuda as suas economias.

Portugal é um exemplo perfeito, com a quantidade de dinheiro a chegar de Angola. Não duvido que algum seja legítimo, mas com um país de onde num ano desapareceram 32 mil milhões de dólares das contas públicas, dólares esses que começam a espalhar-se pela economia portuguesa, é fácil fazer as contas. Tenho a certeza que a elite angolana está deliciada com esta irónica inversão da situação colonial! 
 
Acredita que as próximas gerações africanas podem ajudar a mudar o desequilíbrio do poder ou estão mesmo estes países condenados a uma espiral de corrupção endémica?
Essa é uma das perguntas assustadoras. Uma das partes do livro que mais me deprime é quando um dos meus entrevistados (p. 107) mais otimistas prevê o futuro de África nestes termos: “vai ser uma mina. E os africanos serão os criados do mundo.” O modelo instalado é um dos pilares estruturais da globalização, e infelizmente vai ser difícil ver mudanças rápidas neste aspeto.

Ao mesmo tempo noto mudanças. Como na Nigéria, onde falei com muita gente talentosa que me disse que só queria distância da política por causa de toda a podridão que ela implica – e agora, com a eleição que renovou a classe dirigente, já estarão dispostos a envolver-se. E em Angola também notei que agora as pessoas estão mais impacientes, passou-se daquela geração que dizia “não me interessa que me roubem desde que me deem paz” para uma geração que já não aguenta a falta de serviços e de possibilidades na vida enquanto ouve falar de vidas fabulosas e de hotéis de cinco estrelas onde uma sandes de queijo custa quarenta euros.

Em resumo, depois de tudo isto, quão pessimista está sobre o futuro desta África dos recursos naturais?
Reforço que não é possível nem lógico estar otimista ou pessimista sobre um continente inteiro. Há razões estruturais tremendas que me fazem ser pessimista, mas há bolsas de talento, pessoas extraordinárias que conheci, que me levam também a ter esperança no futuro.
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Reportagem por  Diogo Queiroz de Andrade
Fonte:  http://observador.pt/16/07/2015