quarta-feira, 20 de abril de 2016

Fidel Castro despede-se? “Talvez esta seja uma das últimas vezes que eu falo nesta sala”

Há 10 anos que Fidel Castro não fazia um discurso tão longo. Aqui, no congresso de 2011
ADALBERTO ROQUE/AFP/Getty Images

O antigo líder cubano falou na sessão de encerramento do Congresso do Partido Comunista Cubano. Prestes a fazer 90 anos, Fidel Castro assume nunca ter esperado viver tanto tempo.

Com a aproximação dos 90 anos, Fidel Castro lembra, num discurso aos membros do Partido Comunista Cubano, que é mortal como os demais.

“Em breve farei 90 anos, nunca me tinha ocorrido tal ideia e nunca foi fruto de esforço, foi um capricho da sorte. Em breve serei como todos os outros”, disse Fidel Castro no discurso. “A todos chegará a sua vez, mas as ideias dos comunistas cubanos permanecerão como prova de que neste planeta, se trabalharmos com fervor e dignidade, podemos produzir os bens materiais e culturais que os seres humanos precisam e devemos lutar incansavelmente para obtê-lo.”

Desde que deixou o poder em Cuba, em 2006, muito se tem especulado sobre a saúde de Fidel Castro. E sempre que se ausenta da esfera pública durante muito tempo, fala-se mesmo a sua morte. Mas nunca, como esta terça-feira, o antigo líder cubano tinha sido tão claro sobre o seu futuro, refere o jornal espanhol El Mundo.

“Talvez esta seja uma das últimas vezes que eu falo nesta sala”, disse Fidel Castro na sessão de encerramento do congresso de o Partido Comunista de Cuba, em Havana, perante uma audiência de 1.300 membros do partido. Este terá sido o discurso mais longo desde que deixou a presidência para o irmão Raul Castro e soou, a alguns, como uma despedida.

Fidel Castro esteve no poder de 1959 a 2006, quando adoeceu. Foram 52 anos no poder, o que compara com os “meros” 36 anos em que Salazar governou Portugal. Ou com os quase 37 anos que José Eduardo dos Santos já leva como Presidente de Angola.

O irmão, Raul Castro, assumiu a liderança de Cuba em 2008 e tem o lugar garantido no poder até 2021. No entanto, o atual Presidente cubano afirmou que vai deixar o cargo em fevereiro de 2018, quando completar o segundo mandato de cinco anos. Até lá espera mudar a Constituição para que ninguém possa manter um alto cargo por mais de 10 anos. Mais: o líder propõe os 60 anos como limite de idade para a entrada de novos membros no Comité Central do partido.

Os cubanos mais novos, sem memória dos tempos da revolução, dão entretanto sinais de descontentamento pois têm de viver com salários de 25 dólares – aqueles que paga o Estado – e, depois, lutar pelos bens essenciais nas lojas que também pertencem ao governo. É uma situação que explica o facto de a emigração para os Estados Unidos e para outros países estar hoje num dos níveis mais elevados desde a revolução.

 * Discurso de Fidel Castro, no Congresso do Partido Comunista Cubano, divulgado pela Associated Press:  https://www.youtube.com/watch?v=bERV3xqbKiI

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Reportagem por Vera Novais
Fonte:  http://observador.pt/2016/04/20/fidel-castro-talvez-esta-seja-das-ultimas-vezes-falo-nesta-sala/

segunda-feira, 18 de abril de 2016

MINÚSCULA POLÍTICA

José de Souza Martins*

 


Para sociólogo, o pensamento arcaico que marca, define e desestabiliza o processo político brasileiro contamina tudo: favorece partidos sem ideais, barra a alternância de poder e só estimula a troca de favores. No processo de impeachment da presidente Dilma assistimos ao grande momento dos insignificantes, que melhor fariam se não aparecessem. Já os grandes nomes, em outros tempos chamados ‘pais da pátria’, não são convocados a agir

O modo tumultuado e desencontrado como tem sido enfrentada a questão da proposta de impeachment da Presidente da República acaba revelando peculiaridades ocultas, mas decisivas, do nosso sistema político. Diferente do que ocorre em outros países, de sistemas íntegros e articulados, o nosso é mais uma aleatória combinação de concepções impolíticas. No próprio dia em que a comissão da Câmara aprovou a proposta de admissibilidade do impedimento, houve momentos em que não se sabia se se tratava de uma disputa de torcidas de futebol ou de uma disputa propriamente partidária. Aliás, o futebol é no Brasil o grande e impróprio parâmetro da política. O impeachment de Dilma Roussef está sendo votado na perspectiva da transitoriedade própria das Copas do Mundo. Depois que passar, passou.

Uma superposição de camadas de arcaísmos vários define as referências do processo político brasileiro. Os oradores dirigiam a palavra a suas províncias e povoados. Não se manifestavam como corpo político da nação. Alguns aludiram a suas religiões, ainda que indiretamente. O que também é estranho. O Estado brasileiro não é nem pode ser confessional. Religião é assunto privado. A religião do Estado é a cidadania. Falaram para o eleitor oculto, em vez de representá-lo.

Já tivemos um regime parlamentarista no Império e, na República, no curto período de redução dos poderes do presidente João Goulart, em 1961-1963. No entanto, de maneira quase imperceptível, um parlamentarismo tosco persiste entre nós. É o que se vê na invocação de suposta incompetência e mesmo de incapacidade para governar para remover a Presidente e transferir o poder ao seu sucessor legítimo e constitucional. Ao questionar essa legitimidade, ela própria e seu partido revelam a mesma mentalidade desse parlamentarismo arcaico e subsistente.

Foi o PT aliás, que difundiu entre seus militantes a ideia da possibilidade de depor o governante quando este se conduzisse em desacordo com o ideário das facções eleitoralmente majoritárias, mas socialmente minoritárias. Um frade petista, de grande destaque e de grande responsabilidade no apoio católico ao Partido dos Trabalhadores e à irresistível ascensão política de Lula, logo depois da posse de Fernando Henrique Cardoso na Presidência, assinava suas mensagens com um enfático “Fora FHC”. Uma concepção golpista e totalitária de que legítimo era o partido dele e não o dos outros, o partido do “Eles” dos discursos petistas, porque negação e recusa do princípio de que um regime democrático se baseia na possibilidade da rotação dos partidos no poder.

Há uma mentalidade ditatorial subjacente a palavras de ordem desse tipo. Não é estranho que o mesmo religioso lamentasse nos primeiros anos do governo Lula que o PT estava no governo, mas não estava no poder. Que poder é esse? O poder absoluto que criminaliza o ato legítimo de cidadãos que, como no caso atual, apoiados na Constituição da República, pedem que se apure atos de governo em desacordo com a lei e, em decorrência, julgue a Câmara a admissibilidade do impedimento da governante? Aparentemente, sabemos pouco o que é o impeachment. Vai bem que conste da Constituição e das leis, vai bem se aplicado aos outros, mas é golpe se aplicado a “nós”.

O elenco de rótulos para negar a legitimidade do impeachment, medida constitucional, é um desdobramento dessa mentalidade absolutista e arcaica. O dedo notório de “fábricas” de estereótipos negativos, de ambos os lados, mostra que o povo propriamente dito, nas concepções deste momento adverso, repete e grita palavras de ordem que mobilizam desfigurando o real, coisa de marqueteiros que manipulam a opinião pública com os mesmos critérios com que manipulam gostos e apetites dos que desfilam nos corredores do supermercado.

De certo modo, tudo isso nos mostra que o impeachment, mesmo que justificado e eventualmente necessário, no fundo, é irrelevante. Porque o País se governa por si mesmo. Lula esteve muito perto de ser impedido em 2005, quando do escândalo do mensalão. Quando se deu conta disso, tornou-se abúlico e indeciso, sem a segurança dos discursos firmes e enfáticos das portas de fábricas do ABC ou do aplauso das multidões proletárias congregadas no Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. No entanto, nem por isso o país parou. Nos tumultuados anos entre a morte de Getúlio Vargas e a deposição de João Goulart, as evidências da crise econômica e da crise política eram muitas. Ainda assim, o País não parou. Só foi parar com a eleição de Jânio Quadros e sua sucessão pelo vice-presidente, quando o Brasil ficou sem um projeto político, coisa que voltou a ocorrer nos dois mandatos de Dilma Roussef, quando a política de coalizão a fez negociar o mandato e a governação com os escalões inferiores de partidos políticos irrelevantes porque frágeis. Os mesmos que, em boa parte, vão decidir o seu destino.

Ainda que as multidões sejam capazes de manifestações impressionantes como as da Avenida Paulista, neste 2016, em favor do impeachment ou contra ele, passado o momento da disputa, tudo voltará à rotina da indiferença. Multidão não é governo nem tem mandato. No outro extremo, longe das metrópoles, a multidão silenciosa dos que não se manifestam nas avenidas das capitais está por trás dos deputados indecisos, os que esperam um sinal que lhes venha dos ermos e lonjuras para votar de acordo com a peculiar concepção de mandato político que os leva ritualmente às urnas quando as eleições são convocadas. Essa gente silenciosa poderá decidir tanto o destino da Presidente quanto o destino das oposições, quanto o destino do Brasil. Os que ainda vivem no mundo da troca política de favores, do toma lá dá cá, das muitíssimas migalhas e farelos que caem da mesa do poder e dos poderosos, terão neste domingo sua vez e hora. Não será o vermelho nem o azul, nem o verde nem o amarelo, que decidirão nossos caminhos daqui para a frente. Será o cinzento da definição de última hora. O minúsculo e não o maiúsculo.

Em boa parte, porque não temos no Brasil, propriamente, um sistema partidário, que represente efetivamente a diversidade de correntes ideológicas. Nem mesmo temos o que, com segurança, poderíamos definir como ideologias ou correntes partidárias modernas e comparáveis, para que os eleitores possam fazer o que é propriamente uma escolha entre alternativas. As esquerdas, de verdade, estão fragmentadas e diluídas em extensa diversidade de querelas e não propriamente de orientações filosóficas. Já a unidade do partido majoritário, que é o PMDB, é tão somente a da convergência de interesses para assegurar o vínculo entre governos locais e o cofre do governo central. Se a dona do cofre perde a chave, saem atrás de quem a chave terá.

Por isso, há aqui dois grandes partidos, o partido do poder e o partido que está fora do poder. Já no Império era assim: Conservadores e Liberais, que se alternavam no poder sob a diáfana proteção do Poder Moderador de Dom Pedro II. Foi a única vez em que os partidos tiveram a certeza da alternância do poder, não sendo, portanto, necessário o golpe de Estado para promovê-la. A República Velha inaugurou o ciclo do partido único sob o disfarce do binarismo partidário. Os excluídos acabarão com esse sistema na Revolução de Outubro de 1930. O que nos levará à ditadura para impor o projeto político de nação que a República oligárquica inviabilizara, que terminará com a deposição de Vargas e, no retorno de 1950, seu suicídio em 1954. Um novo regime binário nascerá com o golpe de 1964, sob condição de que apenas um partido governaria.

A abertura política de 1985 supostamente se fez para assegurar a pluralidade dos partidos e a alternância do poder. A irresistível ascensão política do PT à Presidência trouxe no bojo, novamente, o bloqueio dessa alternância, através dos vários mecanismos de corrupção e de dominação, como o Bolsa Família, que sob disfarce eleitoral e democrático, fecharam as portas à troca cíclica de partidos no poder. Era inevitável que o movimento pendular da política brasileira, entre alternar o mando político e bloqueá-lo, levasse a uma solução drástica para remoção do partido da Presidência, nela mantido por meios que, do ponto de vista formal, parecem abusivos. Por acaso, o recurso encontrado foi o do impeachment. Independente das múltiplas motivações que movem a roda da História no sentido de excluir do poder o Partido dos Trabalhadores, o que explica as ocorrências de agora é a dinâmica política do retorno cíclico da possibilidade da renovação do poder, algo que está fora das cogitações explícitas dos que agitam bandeiras nas ruas e dos que agitam cartazes no Parlamento.

A alternância que se abre com a sucessão que decorrerá do impeachment, se aprovado, é alternância minada pelo fascínio do poder, o mesmo fascínio que capturou Lula, privando-o da lucidez que teve em diferentes momentos da história política brasileira: quando seus poderosos e ambiciosos coadjuvantes imaginavam que estavam indo, ele já estava voltando. Foi assim no caso do mensalão. Mas não está sendo assim no caso presente. Atraído pelo olhar fatal da serpente do poder, ele se equivoca fazendo campanha eleitoral para 2018, quando a prioridade histórica é agora completamente outra, a da salvação nacional.

Não erra sozinho. Os partidos não estão recorrendo aos notáveis da política brasileira, aqueles cujo carisma lhes permitiria a palavra de bom senso que era tão própria dos que, no período colonial, eram chamados de “pais da pátria”. Com exceção de Fernando Henrique Cardoso, que tem tomado a palavra mesmo quando não lha dão, e de Marina Silva, da Rede, que tem falado mesmo quando não é convidada a fazê-lo, não se vê o protagonismo explícito e necessário de Olívio Dutra, do PT, de Cristovam Buarque, do PPS, de Pedro Simon e de Jarbas Vasconcelos, do PMDB e de tantos mais cujo magistério ajudaria o país a escapar da armadilha de achar que estamos apenas decidindo, antes do tempo, a eleição de 2018.
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*Sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras, entre outros livros, autor de Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder(Editora Contexto).
FONTE: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,minuscula-politica,10000026340

Tribo amazônica cria enciclopédia de medicina tradicional com 500 páginas

 O xamã Matsés chamado Cesar. Foto: cortesia da Acaté

O xamã Matsés chamado Cesar. Foto: cortesia da Acaté

Tribo amazônica cria enciclopédia de medicina tradicional com 500 páginas

“A [Enciclopédia de Medicina Tradicional Matsés] marca a primeira vez que xamãs de uma tribo da Amazônia criaram uma transcrição total e completa de seu conhecimento medicinal, escrito em sua própria língua e com suas palavras”, disse Christopher Herndon, presidente e co-fundador da Acaté, em uma entrevista para o Mongabay (na íntegra abaixo).
Os Matsés imprimiram sua enciclopédia só em sua língua nativa para garantir que o conhecimento medicinal não seja roubado por empresas ou pesquisadores, como já aconteceu no passado. Em vez disso, a enciclopédia pretende ser um guia para a formação de jovens xamãs, para que eles possam obter o conhecimento dos xamãs que viveram antes deles.
“Um dos mais renomados e antigos curandeiros Matsés morreu antes de que seu conhecimento pudesse ser transmitido, então o momento era este. A Acaté e a liderança Matsés decidiram priorizar a enciclopédia antes de perder mais anciãos e seus conhecimentos ancestrais”, disse Herndon.
A Acaté também iniciou um programa para conectar os demais xamãs Matsés com jovens estudantes. Através deste programa de orientação, os indígenas esperam preservar seu modo de vida como o fizeram durante séculos.
“Com o conhecimento de plantas medicinais desaparecendo rapidamente entre a maioria dos grupos indígenas e ninguém para escrevê-los, os verdadeiros perdedores no final são tragicamente os próprios atores indígenas”, disse Herndon. “A metodologia desenvolvida pelos Matsés e pela Acaté pode ser um modelo para outras culturas indígenas protegerem seus conhecimentos ancestrais”.
UMA ENTREVISTA COM O MÉDICO CHRISTOPHER HERNDON

 Chris Herndon (esquerda) e o xamã Arturo (direita), observam um rascunho da nova enciclopédia. Foto: Acaté

Em um mundo que desestabiliza até mesmo as sociedades mais isoladas, o conhecimento tradicional está rapidamente desaparecendo
Christopher Herndon: A enciclopédia marca a primeira vez que xamãs de uma tribo da Amazônia criaram uma transcrição total e completa de seu conhecimento medicinal, escrita em sua própria língua e com suas palavras. Ao longo dos séculos, os povos da Amazônia têm repassado através da tradição oral uma riqueza acumulada de conhecimentos e técnicas de tratamento que são um produto de seus profundos laços espirituais e físicos com o mundo natural. Os Matsés vivem em um dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta e têm dominado o conhecimento das propriedades curativas das suas plantas e animais. No entanto, em um mundo em que a mudança cultural desestabiliza até mesmo as sociedades mais isoladas, este conhecimento está rapidamente desaparecendo.
É difícil pensar o quão rapidamente este conhecimento pode ser perdido após uma tribo fazer contato com o mundo exterior. Uma vez extinto, este conhecimento, juntamente com a auto-suficiência da tribo, nunca pode ser totalmente recuperado. Historicamente, o que seguiu logo da perda dos sistemas de saúde endêmicos em muitos grupos indígenas é a quase total dependência dos rudimentares e extremamente limitados serviços de saúde que estão disponíveis nestes locais remotos e de difícil acesso. Não surpreendentemente, na maioria dos países, os grupos indígenas têm as maiores taxas de mortalidade e doença.
Pela perspectiva dos Matsés, a iniciativa é importante porque a perda da cultura e o atendimento precário à saúde estão entre suas maiores preocupações. A pioneira metodologia para proteger e salvaguardar o seu próprio conhecimento pode servir como um modelo replicável para outras comunidades indígenas que enfrentam uma erosão cultural semelhante. Em termos mais amplos de conservação, sabemos que existe uma forte correlação entre os ecossistemas intactos e regiões habitadas por índios, o que torna o fortalecimento da cultura indígena uma das maneiras mais eficazes para proteger grandes áreas de floresta tropical.
Mongabay: Por que é agora o momento de se registrar esta informação?
Christopher Herndon: O conhecimento dos Matsés e a sabedoria acumulada através de gerações estava perto de desaparecer. Felizmente, restavam alguns poucos Matsés mais velhos, que ainda detinham o conhecimento ancestral, já que o contato com o mundo exterior só ocorreu na última metade do século. Os curandeiros eram adultos na época do contato inicial e já haviam dominado suas habilidades antes de que missionários e funcionários do governo lhes dissessem que elas não eram úteis. No momento em que o projeto começou, nenhum dos xamãs mais velhos tinha jovens Matsés interessados em aprender com eles.
Um dos mais renomados e antigos curandeiros Matsés morreu antes de seu conhecimento ser transmitido, então o momento era este. A Acaté e a liderança Matsés decidiram priorizar a enciclopédia antes de perder mais anciãos, com seus conhecimentos ancestrais. O projeto não tratava de salvar uma dança tradicional ou vestuário, mas da saúde deles e a das futuras gerações de Matsés. A aposta não podia ser maior.
Mongabay: Como é a enciclopédia?
Christopher Herndon: Após dois anos de intenso trabalho por parte dos Matsés, a Enciclopédia agora inclui capítulos escritos por cinco mestres curandeiros Matsés e tem mais de 500 páginas! Cada entrada é classificada pelo nome da doença, com uma explicação sobre como reconhecê-la pelos sintomas, a sua causa, quais plantas usar, como preparar o medicamento e opções terapêuticas alternativas. Uma fotografia feita pelos Matsés de cada planta acompanha cada entrada na enciclopédia.
A Enciclopédia é escrita para e desde uma visão de mundo do xamã Matsés, descrevendo como os animais da floresta estão envolvidos na história natural das plantas e conectados com as doenças. É uma verdadeira enciclopédia xamânica, totalmente escrita e editada por xamãs indígenas – a primeira, que conhecemos, de seu tipo e alcance.
Um xamã e seu aprendiz. Foto: Acaté
Um xamã e seu aprendiz. Foto: Acaté
Mongabay: Como você espera que esta enciclopédia possa ajudar os esforços de conservação?
Empoderar os povos indígenas é a abordagem mais eficaz e duradoura para a conservação da floresta tropical
Christopher Herndon: Acreditamos que empoderar os povos indígenas é a abordagem mais eficaz e duradoura para a conservação da floresta tropical. Não é por acaso que as extensões restantes intactas da floresta tropical na região neotropical estão sobrepostas às áreas habitadas por indígenas. Os povos tribais compreendem e valorizam a floresta porque são dependentes dela. Esta relação vai além de uma dependência utilitária; há uma ligação espiritual com a floresta, um senso de interconectividade que é difícil de se compreender por meio da mentalidade ocidental compartimentalizada – por mais que seja, no entanto, real.
Muitas das graves ameaças ambientais em áreas indígenas remotas de que você ouve falar no noticiário – petróleo, madeira, mineração e afins – são indústrias externas que oportunisticamente se aproveitam da enfraquecida coesão social interna dos povos indígenas de contato recente, de seus recursos limitados e da crescente dependência do mundo exterior. O tema unificador das três áreas programáticas da Acaté – economia sustentável, medicina tradicional, e agroecologia – é a autossuficiência. A Acaté não predetermina estas três prioridades de conservação; elas foram definidas em discussão com os anciãos Matsés que sabem que a melhor maneira de proteger sua cultura e terras é através de uma posição de força e independência.
A enciclopédia foi revisada e editada ao longo de diversos dias em um encontro dos chefes Matsés e xamãs mais velhos. Foto: Acaté
A enciclopédia foi revisada e editada ao longo de diversos dias em um encontro dos chefes Matsés e xamãs mais velhos. Foto: Acaté
Do ponto de vista de conservação global, os Matsés protegem mais de 3 milhões de acres [1,2 milhões de hectares] de floresta tropical só no Peru. Esta área inclui algumas das florestas mais intactas, biodiversas e ricas em carbono no país. As comunidades Matsés no lado brasileiro dos rios Javari e Yaquerana marcam as fronteiras ocidentais da reserva indígena do Vale do Javari, uma região quase do tamanho da Áustria, que contém o maior número de tribos 'sem contato', em isolamento voluntário, no mundo. Ao sul das margens do território Matsés, nas cabeceiras do rio Yaquerana, encontra-se La Sierra del Divisor, uma região de beleza natural impressionante, biodiversidade, e também grupos tribais isolados. Por estas razões, embora os Matsés somente cheguem a somar pouco mais de 3 mil pessoas no total, eles estão estrategicamente posicionados para proteger uma vasta área de floresta tropical e uma série de tribos isoladas. Empoderá-los é uma preservação de alto rendimento.
Mongabay: Você mencionou que a enciclopédia é apenas a primeira fase de uma iniciativa mais ampla da Acaté. Quais são os outros componentes necessários para manter os sistemas tradicionais de saúde deles?
Christopher Herndon: Completar a enciclopédia é um primeiro passo histórico e crítico para mitigar as ameaças existenciais para a sabedoria de cura e autossuficiência dos Matsés. No entanto, a enciclopédia sozinha não é suficiente para manter a autossuficiência, já que seus sistemas de saúde baseiam-se na experiência que só pode ser transmitida através de longos aprendizados. Infelizmente, devido a influências externas, quando começamos nosso projeto, nenhum dos xamãs tinha aprendizes. Ao mesmo tempo, a maioria dos povos ainda usa e depende do conhecimento de plantas medicinais dos curandeiros, muitos dos quais têm mais de 60 anos.
Na Fase II, o Programa de Aprendizes, cada xamã – muitos dos quais são autores de capítulos da Enciclopédia – será acompanhado na selva por Matsés mais jovens para conhecer as plantas e ajudar no tratamento de pacientes. O programa de aprendizado foi iniciado em 2014 na aldeia de Estirón sob a supervisão do xamã Luis Dunu Chiaid. Devido ao sucesso do projeto piloto em Estirón, os Matsés concordaram em unanimidade, em sua última reunião, que este programa deveria ser expandido para o maior número possível de aldeias, dando prioridade às que não têm mais curandeiros tradicionais.
O objetivo final da iniciativa é a Fase III – a integração e melhoria dos serviços de saúde do 'ocidentais' feita com práticas tradicionais. Wilmer, um promotor de saúde em uma pequena clínica em Estirón e um dos aprendizes do programa-piloto, serve de exemplo para outros Matsés que trabalham com saúde. Ele entende que o futuro da saúde do seu povo depende da criação de sistemas de saúde duais e vibrantes que permitam à comunidade aproveitar o melhor de ambos os mundos da medicina.
Além disso, foi decidido que o nosso trabalho agro-florestal deve ser expandido para incluir a integração com plantas medicinais. Este trabalho será baseado no bosque de cura criado por um dos principais xamãs curandeiros Matsés em Nuevo San Juan, agora mantido por seu filho, Antonio Jimenez. Para um estrangeiro, este bosque parece uma trecho comum de selva no caminho para as fazendas deles, a uns 10 ou 15 minutos de caminhada fora da comunidade. Na presença de um xamã conhecedor que indique quais são as plantas medicinais, você percebe na mesma hora que está cercado por uma constelação de plantas medicinais cultivadas pelos curandeiros Matsés para o tratamento de uma variada gama de doenças. Muitas vinhas e fungos da floresta não crescem em jardins expostos ao sol e requerem o ecossistema da floresta para a sua propagação. Colocar o bosque de plantas medicinais a 10 ou 15 minutos de distância da comunidade é um exemplo característico da eficiência do Matsés. Se você tem uma criança doente, não quer ter que viajar quatro horas para encontrar o remédio.
Aplicação de medicina tradicional dos Matsés. Foto: Acaté
Aplicação de medicina tradicional dos Matsés. Foto: Acaté
Mongabay: A enciclopédia foi escrita apenas na língua dos Matsés como proteção contra a bioprospecção e o roubo do conhecimento indígena. O medo da biopirataria é uma preocupação real para os Matsés?
Christopher Herndon: Infelizmente, a história está cheia de exemplos de roubo dos povos indígenas. Para os Matsés em particular a preocupação é muito real. As secreções da pele da rã Kambo (Phyllomedusa bicolor) são utilizadas pelos Matsés em seus rituais de caça. As secreções, ricas em uma variedade de peptídeos [pequenas proteínas] bioativos, são administradas diretamente no organismo em cortes frescos ou queimaduras. Quase imediatamente, as toxinas induzem intensas e autonômicas respostas cardiovasculares que levam a um estado alterado de consciência e acuidade sensorial muito maior.
A rã Kambo. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay
A rã Kambo. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay
Embora a rã Kambo esteja presente ao longo do norte da Amazônia, apenas os Matsés e um número reduzido de tribos vizinhas Panoan são conhecidos por usar suas secreções poderosas. Depois de se conhecer o uso das secreções pelo Matsés, pesquisas de laboratório sobre as secreções da rã Kambo revelaram um complexo coquetel de peptídeos com potentes propriedades vasoativas, narcóticas e antimicrobianas. Várias empresas farmacêuticas e universidades registraram patentes dos peptídeos sem reconhecimento ou benefício aos povos indígenas. Um destes peptídeos com atividade antifúngica foi até mesmo transgenicamente inserido em batatas.
A enciclopédia está escrita somente em Matsé e não haverá traduções para outras línguas
O medo da biopirataria é, infelizmente, uma porta que se abre para ambos os lados. Muitos grupos ambientalistas e cientistas têm realizado projetos na Amazônia documentando o conhecimento indígena da fauna local, como nome de aves, mas mantiveram-se à margem em relação às plantas medicinais, por medo de serem acusados de facilitar a biopirataria. No entanto, com o rápido desaparecimento dos conhecimentos sobre as plantas medicinais entre a maioria dos grupos indígenas e não sem ninguém para registrá-lo, tragicamente os verdadeiros perdedores ao final são os índios, os verdadeiros geradores desse conhecimento. A metodologia desenvolvida pelo Matsés e a Acaté deve ser um modelo para outras culturas indígenas conservarem seus conhecimentos ancestrais.
Mongabay: Qual é a metodologia da Acaté e como ela protege esse conhecimento?
Christopher Herndon: A Acaté e os Matsés desenvolveram uma metodologia inovadora para evitar a extinção de seu conhecimento ancestral sobre as plantas medicinais e ao mesmo tempo proteger as informações contra o roubo por grupos externos. A enciclopédia está escrita somente em Matsé. É por e para os Matsés e não haverá traduções para outras línguas. Não foram incluídos nomes científicos nem fotografias de flores ou alguma outra característica que possa facilitar a identificação das plantas por um estrangeiro.
Observando a nova enciclopédia. Foto: Acaté
Observando a nova enciclopédia. Foto: Acaté
Cada capítulo da Enciclopédia de Medicina Tradicional foi escrito por um veterano xamã renomado escolhido pela comunidade. Para cada xamã veterano foi designado um Matsés mais jovem, que durante meses registrou em forma escrita o conhecimento xamã e fotografou cada planta. Os textos e as imagens foram compilados e escritos no computador de Wilmer Rodríguez López, um Matsés que é especialista na transcrição escrita de sua língua.
Na reunião, a Enciclopédia compilada – um rascunho de mais de 500 páginas – foi revisada e editada coletivamente pelos xamãs das tribos por vários dias. Toda a enciclopédia está sendo formatada e impressa pelos Matsés sob a sua direção exclusiva, e nunca será publicada ou divulgada fora de suas comunidades.
Esperamos que o incontroverso sucesso desta metodologia iniciada pela Acaté e por nossos parceiros índios abra a porta para esforços semelhantes em toda a Amazônia e além. Já estamos vendo os esforços de outras organizações para replicar a metodologia.
Mongabay: Obviamente, o foco é preservar a cultura e o conhecimento Matsés, mas o seu conhecimento médico poderia teoricamente ajudar as futuras gerações ao redor do mundo. Existem condições específicas para que os xamãs Matsés e a população possam compartilhar seus conhecimentos sobre as plantas medicinais na Amazônia? Ou a confiança está destruída?
Christopher Herndon: A Acaté não pode falar pelos Matsés. Posso dizer que trabalhando com xamãs índios na Amazônia, eu tenho notado que eles são muito abertos a compartilhar o seu conhecimento, quando nos aproximamos com respeito. Eles também têm uma grande curiosidade intelectual sobre outros métodos de cura, incluindo o nosso.
Aldeia dos Matsés. Foto: Acaté
Aldeia dos Matsés. Foto: Acaté
Alguns dos medicamentos desenvolvidos pela humanidade, como a quinina e aspirina, foram desenvolvidos através do conhecimento de curandeiros tradicionais. Devido ao clima político e temores internacionais de biopirataria, mesmo para as empresas farmacêuticas que promovem a distribuição equitativa dos lucros, é um desafio participar de tais iniciativas. A complexidade do conhecimento indígena de plantas medicinais é tal que não é possível avaliar plenamente a fitoquímica dentro do prazo em que o conhecimento está prestes a ser perdido. A Enciclopédia, apesar de não ser desenhada para esse fim, mantém as opções abertas no futuro para os Matsés; um futuro que, em contraste com a maioria de seus precedentes históricos, será um de sua própria determinação.
Até a criação da enciclopédia o sistema tradicional de saúde Matsés estava prestes a desaparecer devido às influências do mundo exterior
Não devemos perder de vista que, até a criação da enciclopédia, o sistema tradicional de saúde Matsés estava prestes a desaparecer devido às influências do mundo exterior. Os Matsés vivem em áreas remotas onde a prestação de serviços de saúde é um desafio e limitada. As farmácias em muitas comunidades Matsés, particularmente as de mais longe, rio acima, são desprovidas dos medicamentos mais básicos, como remédios para tratar a malária, que veio de fora das comunidades. Os Matsés precisam pagar de seu bolso pelo medicamento que vem de fora, cujo preço é inalcançável para a maioria dos anciãos da comunidade que não têm nenhuma fonte de renda. O simples microscópio necessário para analisar o sangue e diagnosticar a malária estava quebrado em quase todas as comunidades que visitei. Em comparação, vivemos em um mundo que é abundante em cuidados de saúde. Se houver necessidade de dialogar, na minha opinião, isso deve começar com a resposta de como podemos apoiar os Matsés no presente, em vez de como eles podem nos ajudar no futuro.
Mongabay: Muita gente vê a medicina e a preservação da floresta como questões separadas. Como a saúde está ligada ao meio-ambiente?
Christopher Herndon: A saúde de um povo, sua cultura e meios-ambientes são indissociáveis. Não podemos pensar sobre as condições deprimentes de saúde e a situação socioeconômica no Haiti sem considerar o contexto de que 98% deste país que ocupa a metade de uma ilha foi devastado e, assim, o seu potencial futuro também foi destruído. A fronteira entre o Haiti e a República Dominicana pode ser claramente vista a partir de imagens de satélite como uma transição abrupta do marrom ao verde, como o resultado de diferentes formas de uso dos recursos naturais. Da mesma forma, as imagens da Etiópia que existem na consciência moderna baseiam se no fato de, que há apenas 100 anos, a Etiópia era um país com uma significativa cobertura florestal.
Clínica em aldeia Matsés. Os Matsés usam tanto a medicina tradicional como a ocidental, mas suprir e manter as clínicas remotas é difícil. Foto: Acaté
Clínica em aldeia Matsés. Os Matsés usam tanto a medicina tradicional como a ocidental, mas suprir e manter as clínicas remotas é difícil. Foto: Acaté
O futuro dos Matsés e a sua cultura estão eternamente ligados ao futuro de suas florestas. Ao proteger as florestas e reforçar sua cultura, a saúde deles é protegida contra um futuro carregado de diabetes, desnutrição, depressão e alcoolismo – a segunda onda de doenças 'importadas' que normalmente acontece em comunidades indígenas após algumas gerações depois do contato com o mundo exterior. Visto desta forma, iniciativas de conservação biocultural seriam extremamente rentáveis e podem ser abordagens preventivas de saúde.
Mongabay: Como a enciclopédia pode ajudar a preservar a cultura Matsés?
A iniciativa da enciclopédia restaura o respeito pela sabedoria dos mais velhos
Christopher Herndon: Uma mudança radical começa muitas vezes com algo tão simples e tão poderoso como uma ideia. A ideia de que a sua cultura, as suas tradições e seu estilo de vida não são inferiores ou algo para se envergonhar, como outros talvez já lhe tenham dito. A ideia de que a selva, que você chamar de lar, tem um valor infinitamente maior do que reservas de petróleo ou de mogno para produzir mobiliário de luxo. A ideia de que o seu conhecimento e familiaridade com a floresta não faz o torna primitivo ou atrasado, mas o coloca à frente do movimento global de conservação. A enciclopédia é o primeiro passo concreto para a formação de uma ponte para vencer a lacuna cada vez maior entre gerações, antes que seja tarde demais. A iniciativa da enciclopédia restaura o respeito pela sabedoria dos mais velhos e devolve a selva como um repositório de saúde e um lugar para aprender.
Um xamã mostra a Herndon as plantas medicinais. Foto: Acaté
Um xamã mostra a Herndon as plantas medicinais. Foto: Acaté
Mongabay: A enciclopédia foi completada e terminada em uma reunião de líderes Matsés vindos de todo seu território e antigos xamãs das tribos. Como foi o clima naquela reunião?
Christopher Herndon: Esta reunião sem precedentes foi realizada em uma das aldeias mais remotas do território Matsés. É extremamente difícil descrever em palavras a emoção sentida por todos os participantes quando os líderes Matsés mais antigos falaram de batalhas que eles lutaram – literalmente – para defender o território Matsés e seu modo de vida. Muitos deles tiveram de conter as lágrimas enquanto um ancião após o outro convidava os jovens a aproveitar esta oportunidade para preencher a lacuna que será deixada por eles quando morrerem, assim como eles fizeram quando seus avós estavam vivos. Eu trabalho na conservação biocultural na Amazônia há 15 anos, mas esta foi uma das mais inspiradoras experiências, para se ouvir o poder da oratória deles e determinação em suas vozes. É facilmente perceptível que os Matsés são guerreiros de coração, que lutaram por um longo tempo para proteger suas terras e que eles continuarão lutando.
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– Esta entrevista foi traduzida do original em inglês por Giovanny Vera e Laura Kurtzberg e revisada por Stefano Wrobleski, do InfoAmazonia.
 

Filma eu, Galvão !

Montserrat Martins*

A sessão encerrada com a autorização da abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Roussef
 durou quase dez horas. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O espetáculo do impeachment foi marcado para domingo, 17 de abril, para passar ao vivo na TV e ter a audiência e a influência da ampla maioria da população favorável a tirar esse governo e colocar outro, qualquer que seja. Temer e Cunha já anteveem seu dia de glória, Temer até já gravou o discurso, que vazou antes.

A preferência de 79% da população seria por novas eleições, se o TSE julgasse o pedido de cassação da chapa Dilma-Temer. Mas como o TSE não tem priorizado esse processo, a população quer que tirem a Dilma mesmo assim, mesmo que só 12% aprovem Temer e que Cunha, notório corrupto, seja o condutor do impeachment.

Do ponto de vista Constitucional – que é o que separa uma medida legal de um golpe político – o Impeachment é previsto para situações juridicamente graves e comprovadas relacionadas à Presidência. Por isso o The New York Times essa semana descreveu o episódio como um golpe patrocinado por corruptos, já que o processo é conduzido pelo Cunha. No Brasil, o debate jurídico mais técnico ficou em segundo plano, pois a opinião pública já fora formada com o vazamentos dos áudios, que posteriormente o juiz Moro se desculpou perante o STF por ter liberado.

O que tivemos domingo, então, foi um grande espetáculo, com possíveis recordes de audiência, milhões de pessoas de amarelo nas ruas, talvez outros milhões de vermelho, enfim, tudo que se espera de um domingo de sucesso na TV, com duas grandes torcidas vibrando pelos seus “times”.

Sem debates reveladores, pois todos já tem opinião formada. Foi um dia de jogos de cena, onde Deputados indiciados por corrupção encheram a boca para criticar a corrupção do outro lado. Não foi um dia de politização, embora se trate de política, pois ela não foi conduzida por discursos com conteúdos, mas por apelos emocionais, “patrióticos”, mirando alguns segundos na TV.

“Nunca antes na História desse país”, a mais arrogante das frases do Lula e sua turma, PT e Dilma incluídos, se voltou contra seus autores. Ao se dizerem os únicos virtuosos, “nunca ninguém fez tanto”, não reconhecendo méritos em mais ninguém na História do país, quando apareceram seus desvios se tornaram alvos das mesmas frases, do tipo “nunca ninguém roubou tanto”.

A provável saída desse governo e do clima que se instalou pró e contra ele não garante que o debate político supere a fase do maniqueísmo. A política, cada vez mais, é um espetáculo de mídia, de marketing viral, de “memes”, de construção e desconstrução de imagens. Muitas pessoas que participam pela primeira vez estarão aprendendo a fazer política de um modo mais passional que racional, torcendo por um dos “times”, com a mesma passionalidade do futebol. Filma eu, Galvão !
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Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é médico psiquiatra, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e ex-presidente do IGS – Instituto Gaúcho da Sustentabilidade.
Fonte:  https://www.ecodebate.com.br/2016/04/18/filma-eu-galvao-artigo-de-montserrat-martins/

sábado, 16 de abril de 2016

Delator de Cunha fala sobre impeachment e Temer

Entrevista de Júlio Camargo
 
Empresário – ex-consultor da Toyo Setal

Henrique Beirangê

Em primeira entrevista, Júlio Camargo diz que solução para crise passa por eleições e afirma que Temer e presidente da Câmara não podem assumir o País
JÚLIO CAMARGO - EMPRESÁRIO

Responsável pela delação que enredou o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), na Operação Lava Jato, o empresário Júlio Camargo concedeu à CartaCapital sua primeira entrevista. Camargo afirmou à força-tarefa da Lava Jato ter pagado 5 milhões de dólares em propinas ao parlamentar por conta de um contrato de um navio sonda com a Petrobras.

O empresário concordou em conversar após quatro meses de negociação. Embora legalmente impossibilitado de falar sobre detalhes da delação, na entrevista a seguir ele não se furta a tratar de figuras públicas, que vão de Cunha ao senador tucano Aécio Neves (MG). O empresário também diz estranhar o fato de as investigações da Lava Jato contra integrantes da oposição não avançarem.

Abaixo, um trecho da entrevista. A íntegra da conversa estará na próxima edição de CartaCapital, que começa a circular nesta sexta-feira 15 de abril.

CartaCapital: Como o senhor interpreta as últimas ações do deputado Eduardo Cunha?

Júlio Camargo: Acho um desacato ao povo brasileiro. Entendo e respeito os ditames do Judiciário. O que me espanta é a morosidade. São muitos fatos concretos sem nenhuma ação da Justiça a respeito.

CC: Cunha conduz o processo de impeachment.

JC: É surreal. De qualquer forma, tenho certeza, a verdade tarda, mas não falha. Vai chegar a hora do julgamento dele. Se a gente quer de fato mudar este País, o Cunha precisa ser extirpado do cenário.

CC: O impeachment seria a solução para a crise?

JC: Depende do day after [dia seguinte]. Quem será o novo presidente? O “grande jurista” e vice-presidente Michel Temer tem seu nome vinculado à Lava Jato. Se o Eduardo Cunha se tornar o presidente, seria o fim da nação. Tenho 64 anos e já fui convidado para morar fora do País. Nunca pensei, mas se o Cunha assumir o governo, não haveria alternativa.

CC: O sistema, como o senhor diz, sempre foi assim. Por qual motivo o PSDB e os partidos de oposição não têm aparecido nas investigações?

JC: Essa é uma das grandes perguntas. A opinião pública está desconfiada dessa falta de informação do lado dos partidos de oposição. Não há dúvida nenhuma de que a sistemática do PT foi simplesmente uma sequência. De uma maneira mais ou menos sofisticada, foi exatamente a mesma. Não saberia apontar o motivo.

CC: O que o senhor me diz do Aécio Neves?

JC: Está na mesma posição do Michel Temer, hoje sob suspeição. Não votaria no Aécio de jeito nenhum.

CC – E o Lula?

JC: O Lula foi o maior presidente da história do Brasil, ninguém pode dizer nada em contrário. É uma vítima de um processo eleitoral e do sistema político. Evidentemente ele foi muito mal assessorado durante os últimos anos, cometeu falhas. Também não o considero apto a voltar à Presidência. Talvez ele e o Fernando Henrique Cardoso poderiam ser os articuladores de uma grande aliança nacional. Os dois precisariam, no entanto, se penitenciar, calçar as sandálias da humildade.
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Fonte: CartaCapital – Política – Operação Lava Jato – 14/04/2016 – 15h56 – Atualizado em: 14/04/2106 às 16h13 – Internet: clique aqui.

SOBRE A DESCATOLIZAÇÃO DO BRASIL

 Armindo Trevisan*
 
A última edição deste caderno trouxe uma exemplar reportagem investigativa sobre um dos fenômenos de sociologia religiosa mais impressionantes do Brasil: a “descatolização”**. A introdução destaca bem seu conteúdo: “Nascido à sombra da cruz, o país construiu sua identidade e seus valores sobre o alicerce da Santa Igreja Romana. Ser brasileiro e ser católico era praticamente a mesma coisa. Não é mais. Já não se considera rebanho do Papa – e dos que ainda se filiam à religião, grande parte não a pratica e mal a conhece. É uma mudança cultural profunda com potencial para reconfigurar a própria alma da nação”. Tal texto pode ser comparado a uma das tantas interpretações de ecografias, nas quais os especialistas explicam aos clínicos que as solicitam os problemas que as imagens detectam.

Abramos o Evangelho antes de comentar a reportagem. Podemos ser surpreendidos por Marcos: “Um profeta só é desprezado na sua pátria. Jesus não pôde ali fazer milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos. Jesus estava admirado com a falta de fé daquela gente”. (Marcos 6: 5-6).

Quem teria imaginado uma cena dessas? O próprio Jesus mostrar-se admirado da incredulidade de seus concidadãos. Que rosto, então, nos mostraria se viesse ao Brasil, gloriosamente catequizado por homens como Anchieta e Nóbrega? Um Brasil “descatolizado”, isto é, não só esquecido de suas origens, mas também voltado contra elas?

Iniciemos nosso comentário aplaudindo o repórter. Ele fez um trabalho profissional verdadeiramente sério. Primeiro, tentou um mapeamento da situação. A seguir, buscou depoimentos elucidativos com pessoas como Dom Leomar Antonio Brustolin, bispo auxiliar de Dom Jaime Spengler, Arcebispo de Porto Alegre, o pároco da Igreja do Rosário e professor da PUCRS Leandro Chiarello e sociólogos. Temos a impressão de que esta foi a primeira vez em que as autoridades eclesiásticas admitiram, sem meias palavras, fatos tão chocantes.

Ignoremos slogans frívolos. Não falemos em “Morte do Catolicismo”. Foi insensato, no passado, falar em “Morte de Deus”. Tal euforia só teria sentido na boca de um único homem, escritor e poeta genial, mas, em linguagem bíblica, insensato: Nietzsche.

Mais rasteiramente, indaguemos: a que Catolicismo a reportagem pensa referir-se? É óbvio que o país começou muito cedo a receber o anúncio da Boa Nova, e que seus primeiros pregadores não só cumpriram sua missão religiosa, como fundaram nossa cultura literária. Ao próprio Padre Vieira, um dos maiores estilistas da língua, alguém lhe negará estatura de homem probo e de defensor dos índios? Todos apreciamos suas obras-primas. No entanto, nem o mais apaixonado leitor de Vieira sustentará que tais sermões eram adequados à evangelização, àquilo que modernamente se chama com certo pedantismo compreensível, o Querigma. Talvez as peças oratórias de Vieira chegassem a comover os cultos da época. Mas eram tão complexas e sutis que não se prestavam a uma catequese. Podemos supor que, em encontros não oficiais, o Padre Vieira usasse outro tom, e se servisse de formas coloquiais. Que Vieira fosse um religioso autêntico, quem o negará? De resto, os sermões do Padre Vieira eram uma sorte de shows. Duravam de duas a três horas. Havia neles qualquer coisa de um espetáculo moderno, destinado a pessoas que pretendem divertir-se.

Que Brasil existia em 1500? Um país de índios recém-saídos do Neolítico, iniciados na fé cristã com métodos sofisticados de uma Europa barroca. Tais métodos eram inadaptados à mentalidade de seres frequentemente igualados a irracionais e, para cúmulo de infelicidade, escravizados. Com o decorrer do tempo, sobrevieram novos evangelizadores, que fundaram no Nordeste conventos construídos, material e ideologicamente, à imagem e semelhança dos conventos europeus. Uma vez que a atração principal era o maravilhamento, isto é, a atitude de pasmo e deleite perante o estranho e o exótico, a decoração dos templos impunha ornamentação, iconografia e, sobretudo, ouro nos altares.

A mitologia indígena absorveu parcelas do culto cristão. De outra parte, os escravos, importados da África, que de lá traziam no bojo do inconsciente um baú de tradições tribais, difundiram no Brasil danças e máscaras. Do que resultou um pot-pourri mitológico. Pode-se até dizer: o melhor das tradições africanas mesclou-se ao melhor da liturgia católica! Eis porque o folclore afro-brasileiro é cativante. De tais encontros surgiu um sincretismo, que caracteriza quase toda a religiosidade nacional, cujos desdobramentos modernos e pós-modernos estendem sua rede capilar aos nossos fenômenos sociais.

Com a proclamação da Independência, a influência de tais culturas nativas atenuou-se, acentuando-se a cultura lusitana, e, após ela, a europeia. Talvez nos seja permitido afirmar que, a partir da Independência, se criou uma pré-identidade brasileira. É a essa “identidade” que talvez aludem os repórteres. Sim, alguma “identidade” existia no embrião de sociedade que se formou, mas faltou tempo e assimilação para o país levá-la à maturidade. A identidade religiosa, até recentemente, foi uma “identidade” de fachada, resultado de uma porosidade parcial dos três mundos: o imaginário do índio, o imaginário do africano e o imaginário do português. A esse caldo juntaram-se, posteriormente, as contribuições das imigrações alemã, italiana, judaica, sírio-libanesa e outras.

Alguém definiu-nos como “um milagre sociológico”. Dizem tais otimistas que mantivemos sem rasgões nosso tecido cultural formado nos primórdios. Um milagre que, não obstante, explodiu para fora, centrifugamente, cuja polpa interior está à procura de si, de seu ser original. Somos um povo que possui unidade de língua, e alguma unidade de hábitos sociais. A verdade é que somos brasileiros sui-generis, com uma imaginação sempre dependente do que lhe vem de fora. Mesmo no âmago do Brasil, perseguimos uma outra identidade, que se sobreponha às identidades regionais. Nortistas, nordestinos, paulistas e gente do Sul, o que nos une, de verdade, é a língua, a mãe desse milagre, reforçada por outros fatores como uma aparente religião comum.

Verificamos que a religião, abraçada pelo povo com seu instinto inclinado ao “sobrenatural” e ao maravilhoso, se mostra frágil. Temos uma religião não pensada, nem amada no que concerne à sua intimidade. Mas pensada e amada no que concerne aos seus ritos e às suas dimensões estetizantes.

Religião, mesmo? Precisamos enfrentar esse problema, ou, antes, esse mistério. Quem não via, já no passado, que era um ledo engano considerar o Brasil “o país mais católico do mundo”? Se a afirmação fosse verdadeira por culpa das estatísticas, caber-nos-ia um recorde: o de sermos os católicos mais distraídos e displicentes do planeta.

Manuel Bandeira, um dia, cansou-se de nossa tendência ao superficial: “Pegamos tudo pela rama”, dizia. Em termos religiosos, sua objeção não tem como ser refutada.

A “descatolização” começou a impor-se há muito tempo. Veio de uma semente caída num terreno onde os pássaros comiam as sementes, e os espinheiros não as deixavam crescer. Não acusemos os semeadores, que os houve excelentes, mas o terreno não estava na ocasião suficientemente preparado. O que acontece na atualidade é a desmontagem de uma máscara, uma simpática máscara: a de nossa religiosidade, que chamaríamos, com mais clareza, de maquiagem de nossa cordialidade.

Jesus, possivelmente, não só está admirado de nossa falta de fé, mas também de nossa inconsciência – e de nossa inconstância.

Ninguém nasce católico. Ser cristão não é assunto de biologia. Jesus deixou isso explícito ao conversar à noite com Nicodemos: “É preciso nascer de novo”. Nascer mediante uma adesão pessoal. Opção que supõe uma ética, inclusive política, definida in nuce pelo próprio Jesus. Ele que declarou que não viera suprimir o Decálogo, mas completá-lo. Ninguém, pois, está autorizado a modificá-lo. Quando o papa Francisco recusa como cristão o casamento entre homossexuais, não viola o mandamento do amor ao próximo; põe-lhe apenas os limites que o Evangelho trouxe à liberdade humana.

Não se trata só de algo histórico, mas também de algo sobrenatural. Eis porque o Papa chamou a atenção dos católicos para um fenômeno: o dos descasados. Há sentenças claras de Jesus sobre a vida matrimonial. O que preocupa o Papa é lembrar que uma fratura não pode distrair-nos do ideal sugerido. Ao invés de fixarmos nela nossa atenção, precisamos repará-la. Deixar os descasados privados dos sacramentos é impedir que a fratura seja reparada.

Há, sim, uma “descatolização” no Brasil! O melhor modo de dar-lhe uma resposta consiste em admiti-la. A partir daí, não caiamos no equívoco de substituí-la por uma nova “catolização”, gerada artificialmente nos laboratórios dos meios de comunicação. Não se atraem católicos identificando-os com torcedores de estádios e participantes de shows.

O Catolicismo é uma religião apaixonante, porém difícil. Ao referir-se às exigências de seu Evangelho, Jesus falava em “jugo”, embora declarando-o suave. Jugo, antigamente, tinha a ver com canga de bois, como explica o Dicionário Enciclopédico Bíblico, da Editora Vozes (1987): “É o pau da carruagem colocado na nuca dos animais de tração”. Jesus falava explicitamente em Cruz: “Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz, e siga-me”.

Não se pode “ser católico” sem uma aceitação do próprio batismo e a aceitação de um código moral alicerçado no Evangelho. Noutros termos: sem assumir uma “cosmovisão” evangélica, objeto de escárnio de uma civilização permissiva. “Sereis desprezados em meu nome...”– quem se lembra?

Consta que Jesus dirigiu aos apóstolos uma pergunta insólita:

– Quereis também retirar-vos?

Pedro respondeu:

– A quem havemos de ir? Só tu tens palavras de Vida Eterna.

É a partir de tais pressupostos que o Brasil poderá reaproximar-se do Evangelho, e então tentar, pela primeira vez, a aventura de um Catolicismo de decisão pessoal.

Era previsível que a cenografia da sensibilidade nacional desabasse. O surpreendente é que tenha desabado por corrosão, tão silenciosamente e tão devagar, que o fenômeno deixou todo o mundo chateado. E decepcionado.

O leitor conhece eventualmente Ionesco e sabe que ele compôs uma curiosa peça de teatro, O Rinoceronte, sucesso nos anos 1960. É uma ficção que pode ser aplicada ao Catolicismo atual. Os católicos não podem deixar-se levar por brisas esotéricas ou ideológicas, que alimentam desejos de um rousseanismo polifacial. O Catolicismo oferece uma resposta específica. O católico, como o personagem Beranger de Ionesco, é obrigado a optar entre apresentar uma cara de católico, e um coração que quer ser católico, e uma máscara, das tantas que servem para bailes.

** Aqui no blog reportagem da descatolização do brasileiro: http://zelmar.blogspot.com.br/2016/04/ser-brasileiro-e-ser-catolico-nao-e.html
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* Professor. Escritor. Teólogo. Autor de O Rosto de Cristo (A formação do imaginário e da Arte Cristã)
 Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a5779738.xml&template=3898.dwt&edition=28776&section=4572
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