sexta-feira, 27 de maio de 2016

De karl Marx a papa Francisco.


“A marginalização do pensamento de Marx
é também responsável pelo enfraquecimento
das forças democráticas.” ( Beppe Vacca)
(...)
“Além do projeto neoconservador das últimas décadas, a outra força global que parece ter assimilado muito profundamente o pensamento marxista e gramsciano parece ser a Igreja Católica do papa Francisco. “A liderança da Igreja tem continuado a incorporar inteligências e saberes, encontrando formas e lugares onde remexê-los, para o desenvolvimento de uma extraordinária doutrina social, sem nenhuma pretensão de invadir campos alheios, mas fazendo corretamente seu trabalho de instituição autenticamente global”, afirma o pensador italiano durante a conversa com Carta Capital.

A presença, o pensamento e a ação de Francisco, em particular, demonstram que a forma mentis da elite da Igreja pode sair do limite eurocêntrico. Além disso,  o papa argentino imprimiu uma extraordinária aceleração à reforma do catolicismo, começada no Concílio Vaticano II, abandonada e depois retomada por Ratzinger, mas agora muito mais atenta, do ponto de vista filosófico e teológico, à tendência de declínio da hegemonizada modernidade ocidental e preocupada também com a inaceitável fratura entre ciência e fé. “Essa consciência permite à elite intelectual da Igreja Católica metabolizar a cultura moderna e apropriar-se dela, assim como utiliza o marxismo de maneira impressionante.”

Graças a esse método, a Igreja, “trabalha para redefinir potencialidades da primazia católica no mundo. É fundamental colaborar com esse processo”. A razão dessa identificação é clara: a incipiente revolução feminina, a extraordinária continuidade das encíclicas e a pastoral de Francisco constituem uma clara expressão de hegemonia no mundo contemporâneo, a única alternativa ao poder dominante. “Não há no mundo pensamento tão forte como esse, a não ser o da expressão da violência, econômica ou militar”, conclui nosso interlocutor – o filósofo e historiador Beppe Vacca, destacado presidente do Instituto Gramsci, em Roma.” 
( Excerto do artigo: De Karl Marx a papa Francisco. Por Claudio Bernabucci, de Roma. Revista Carta Capital impressa, 25/05/2016, pág.52 e 53)
Imagem da Internet

"Nós, os órfãos da utopia."

  Entrevista com Ágnes Heller

A distopia não é apenas o lado escuro da utopia, o seu oposto e inverso. É um modo radicalmente diferente de imaginar o futuro. E, no ser humano, a imaginação é muito, às vezes é até tudo. Palavra de Ágnes Heller, uma pensadora que, do fracasso das utopias do século XX, foi testemunha direta e que agora registra, com uma inflexível inteligência, o avanço das distopias.

A reportagem é de Alessandro Zaccuri, publicada no jornal Avvenire, 26-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Visões sombrias do futuro que não têm mais nada a ver com a categoria do progresso – explica – e se limitam a fornecer uma imagem agigantada do nosso presente. Pense em Submissão, de Michel Houellebecq, por exemplo."

Nascida em Budapeste, em 1929, depois de ter sobrevivido à Shoá, Ágnes Heller foi uma aluna e colaboradora de György Lukács, atravessou os entusiasmos e as desilusões do socialismo húngaro, foi primeiro marginalizada na pátria e, depois, aclamada no exterior, em particular nos Estados Unidos, onde ensinou por muito tempo. Hoje, ela é conhecida pelas posições muito críticas em relação ao seu país de origem, no qual voltou a residir por uma parte do ano.

Ela escreveu muito (entre os seus textos capitais, lembramos Oltre la giustizia [Além da justiça], no catálogo da editora Il Mulino) e continua a escrever e a publicar muito. À relação entre utopia e distopia, é dedicado o livro Il vento e il vortice [O vento e o vórtice], realizado em colaboração com Riccardo Mazzeo e editado pela editora Erickson (152 páginas).

"O ponto central é sempre a mesmo", insiste a autora: "O século XXI não acredita mais no ideal de progresso. Basta considerar os romances publicados nas últimas décadas para perceber isso."

Eis a entrevista.

A utopia é um luxo que não podemos mais nos permitir?
Do ponto de vista histórico, a utopia se manifesta principalmente como celebração de um passado perdido, de uma idade de ouro ou de um jardim do Éden ao qual se deseja retornar. Em seguida, entra em cena um elemento, cada vez mais evidente, de investimento no futuro. Afirma-se a esperança de que o mundo está destinado a melhorar cada vez mais. No momento em que essa confiança no progresso desaparece, como já aconteceu, a utopia não está mais na ordem do dia. No seu lugar, entra a distopia, que, porém, não expressa nenhum projeto original para o futuro. Em essência, é um aviso que amplifica alguns aspectos do presente na tentativa de nos alertar. Escritores como Ray Bradbury, Margaret Atwood, Kazuo Ishiguro e Cormac McCarthy parecem nos dizer: fiquem atentos, este poderia ser o futuro.

Qual o papel da referência à tradição bíblica?
Para responder, é preciso refletir, ao menos por um momento, sobre a natureza da imaginação, essa extraordinária faculdade mental que deriva da fusão entre razão e emoção. Cada momento do nosso dia é marcado pela presença da imaginação, também do ponto de vista psicológico, mas essa faculdade é até mais decisiva quando se trata de inovar: de imaginar, justamente, um futuro que seja diferente do presente. Essa dimensão criativa da imaginação, característica em particular da arte, é determinante para a formação das utopias e encontrou expressão em muitas páginas da Bíblia.

Pessoalmente, acho muito convincente a tese do egiptólogo Jan Assmann, que reconhece no Livro do Êxodo uma das pedras angulares da utopia de todos os tempos. Através da promessa recebida por Moisés, o povo de Israel consegue conceber a libertação da escravidão e o advento de um mundo completamente novo. Assim, ocorre a mudança de escala no percurso imaginativo que terá consequências enormes para toda a humanidade.

Isso significa que, na utopia, está sempre um componente religioso?
Eu não colocaria nesses termos. Mesmo quando assumiu um perfil religioso, a utopia sempre conservou uma perspectiva secular. As expectativas nunca se projetaram simplesmente para fora do mundo sensível, mas sempre contemplaram a possibilidade de modificar concretamente a realidade em que vivemos. A partir desse ponto de vista, há uma forte continuidade entre utopia e distopia, por mais que esta última acabe extrapolando e invertendo os elementos de crítica social já presentes na própria utopia. A diferença, no fundo, é bastante clara: a utopia parte das feiúras do presente para imaginar um futuro melhor; a distopia nos obriga a nos deparar com um futuro no qual as feiúras do presente são levadas às últimas consequências.

Não há nisso uma semelhança com a manipulação do medo típico dos populismos contemporâneos?
O medo é um dos fatores que estão na base da imaginação utópica e distópica. O outro é a esperança, e talvez seja nessa frente que se deveria vigiar mais. A manipulação da esperança pode ter resultados terríveis, como nos ensina o caso dos totalitarismos. Para ficar no âmbito italiano, o fascismo originalmente obteve consenso difundindo a esperança de reafirmação e resgate nacional. Para se reforçar, porém, o regime deve recorrer ao instrumento do medo, que dificilmente fracassa. Indicar um inimigo, interno ou externo, e fazer crescer o medo na população. Quanto maior é o medo, maior é o poder. Na minha opinião, isso é o que está acontecendo na Hungria também.

Hoje, as sociedades ocidentais parecem confiar mais nos valores individuais do que nas virtudes públicas: é suficiente?
A ética moderna se baseia em uma dupla demanda dirigida a cada um de nós: ser uma boa pessoa e ser um bom cidadão. Dois pilares de igual importância, que se sustentam reciprocamente. É totalmente ilusório pensar que, se um dos dois desmoronasse, o nosso mundo poderia se sustentar igualmente. Ao contrário, a cooperação entre valores privados e virtudes públicas é hoje cada mais necessária do que nunca, se realmente quisermos evitar que o futuro se assemelhe aos pesadelos da distopia.
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Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/555579-qnos-os-orfaos-da-utopiaq-entrevista-com-agnes-heller

terça-feira, 24 de maio de 2016

SUSAN NEUMAN - Entrevista

Susan Neuman, professor da New York University
 Susan Neuman, professor da New York University

A pesquisadora americana Susan Neuman aponta a importância de os pais cultivarem o hábito da leitura nos filhos

Missão das leituras

NOVA YORK - A nova edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada na última quarta-feira, 18, é um desafio para aqueles que gostam de ver o copo meio cheio. Sim, o número de leitores no Brasil aumentou desde 2011. Eles passaram de 50% a 56%. Mas, quando se considera que 44% dos habitantes da oitava economia do mundo não leem regularmente, em pleno século 21, e que 30% nunca adquiriram um livro, é difícil encontrar causa para celebração.

Uma pesquisa divulgada em outubro passado pelo Pew Research Center revelou que sete em dez norte-americanos leram um livro – concluindo ou não, durante o ano anterior. A média de leitura na população geral do país é de doze livros por ano. Mas o livro eletrônico não parece estar criando novos leitores, as vendas de livros digitais estão desacelerando nos Estados Unidos, enquanto as vendas de livros impressos continuam sólidas. 

Com o começo próximo do verão no hemisfério norte, a mídia norte-americana divulga inúmeras listas de livros para se ler nas férias, dos romances leves para consumir na praia a livros de não ficção. É um típico exemplo cultural da leitura associada ao lazer. Celebridades como Bill Gates são ouvidas. Na lista de cinco que Gates ofereceu este ano, há apenas um romance, Seveneves, de Neal Stephenson, uma história de ficção científica.

A cultura importa, e sabemos que bons exemplos também. Tivemos um presidente intelectual, seguido de um presidente que confessou não ter a menor paciência para ler e uma presidente que, em campanha, lutou para se lembrar do que estava lendo. O presidente intelectual não inspirou, que se saiba, os brasileiros a ler mais, e antes que o acusem de descaso, é importante saber que o hábito de leitura não se adquire imitando chefes de Estado, e sim quem governa a vida do futuro leitor.

“Mas que números tristes”, lamentou a psicóloga e educadora Susan Neuman sobre a pesquisa dos hábitos de leitura no Brasil. Neuman é professora da Universidade de Nova York e foi subsecretária de educação no primeiro mandato de George W. Bush, encarregada de educação fundamental e secundária. Ela é reconhecida como uma das principais autoridades do país em desenvolvimento na primeira infância e alfabetização. Publicou vários livros, o penúltimo deles, em 2012, um estudo sobre o efeito da pobreza na alfabetização, Giving Our Children a Fighting Chance: Poverty, Literacy, and the Development of Information Capital.

Neuman participou de um estudo pioneiro usando a tecnologia de eye-tracking, que acompanha o menor movimento dos olhos, e concluiu que bebês de até 14 meses expostos ao contato regular com livros são capazes de reconhecer, por exemplo, se o livro está de cabeça para baixo. O estudo do qual ela participou, publicado em 2014, também derrubou o mito de que seria possível ensinar bebês a ler. Na época, ela comentou que a enxurrada de mídia eletrônica que promovia alfabetização precoce tinha um público alvo: pais ansiosos para tornar seus filhos mais competitivos na escola. Mas, como ela explica nesta entrevista ao Aliás, preparar a criança para a leitura pós-alfabetização é muito mais do que colocar um livro à sua frente. O hábito da leitura por curiosidade e prazer depende, em boa parte, de boas memórias da infância em torno de palavras e histórias. E elas dificilmente se formam na ausência de exemplos adultos e de afeto.
Missões da Leitura
Missões da Leitura
Diante dos números que a senhora considera tão preocupantes, como a pesquisa brasileira pode refletir a infância dos não leitores?
Há lições críticas que já aprendemos sobre como criar condições para a criança ler visando o objetivo real de leitura mais tarde em sua vida. Se uma criança não vê ninguém lendo habitualmente já é ruim, porque ela está sempre à procura de modelos que indiquem como o mundo funciona. Se não observa à sua volta uma cultura de leitura, tem menos chances de se sentir atraída por livros.

Em 2014, a Associação de Pediatria dos Estados Unidos passou a recomendar que, nas primeiras visitas a consultórios, os médicos recomendassem aos pais que lessem para os filhos bebês.
Sim, é importante ler para o bebê regularmente. Mas a futura alfabetização não depende apenas do objeto livro. Há várias atividades que contribuem para ela. Cantar para as crianças é muito importante, elas adquirem linguagem e aprendem com rimas. É preciso conversar bastante com a criança, mantendo contato de olhos. E brincar também, brincar com objetos, não necessariamente brinquedos fabricados para este fim. Hoje, a gente vê que escolas sofisticadas, frequentadas pela elite, usam pedras, materiais que forçam a criança a improvisar e exercitar a imaginação abstrata. Lembro que o começo do aprendizado de matemática é um sistema de símbolos que vai exigir capacidade de abstração. Por exemplo, quando uma criança desenha rabiscos e lhe conta uma história sobre o que está naquele papel, tudo isso contribui para alfabetização. De modo que não ter brinquedos caros, mas ser engajada por adultos em brincadeiras, está longe de ser uma desvantagem, porque a criança apura seu imaginário.

Em países com populações pobres como o Brasil, é comum os pais não terem livros em casa. Quando são limitadamente alfabetizados, podem se sentir intimidados na leitura para as crianças.
É preciso explicar aos pais que não sabem ler que eles podem ajudar na futura alfabetização dos filhos. O importante é terem atividades que envolvam conversa. Até mostrar imagens sem ler um texto e conversar sobre elas é uma atividade proveitosa.

Quando a criança chega à escola, o quanto professores atentos podem corrigir uma primeira infância com pouca atenção adulta?
Na verdade, a chave da capacidade de aprender está num adulto que demonstre cuidado. Sabemos que o desejo de aprender aumenta com a segurança que vem de se ter abrigo, alimentação e carinho. Pode vir de mãe, pai, avó, parente, qualquer modelo de adulto que “abrace” a criança com sua atenção, que a faça se sentir segura para explorar. A experiência com a leitura cedo é acompanhada de um aprender a aprender, adquirir compreensão sobre narrativas. Os dois primeiros anos de escolaridade são importantes mas, se a criança chega lá sem ter experimentado o estímulo adulto, não há professor dedicado que possa compensar na sala de aula. Falo de uma desvantagem que pode acompanhar o aluno pelo resto de sua vida escolar. Sempre digo, quando a criança pisa na escola pela primeira vez chega na companhia da geração que a enviou para lá.

Até quando a criança que não lê ainda pode ser recuperada para a leitura habitual na vida adulta?
Hoje chegamos a um consenso sobre a terceira série do ensino fundamental. Ali deve ser o limite. Se o aluno não aprendeu a ler até a terceira série, está com problemas. Não deve ser enviado ao ano letivo seguinte sem se recuperar ou terá mais chances de fracasso acadêmico. Há cinco anos, fundações e ONGs educacionais começaram campanhas para endossar essa ideia e as secretarias de educação do país, apesar de sua autonomia, tendem a aceita-la.

O quanto se conhece sobre o efeito de gadgets eletrônicos que caem nas mãos de crianças muito antes de chegarem à escola?
Hoje a gente ouve crianças reclamando “estou com tédio”, querem que tudo venha até elas. Como disse, na primeira infância é sempre bom estimular a abstração e não deixar a criança isolada com gadgets. Mas estamos começando a avaliar resultados positivos com aplicativos, as crianças demonstram grande facilidade de compreender histórias em plataformas digitais. Há o popular Speakaboos, de leitura interativa, e também o Learn With Homer para aprendizado pré-escolar de leitura a partir dos três anos.

Se a senhora tivesse que enfrentar corte de gastos como o que o governo brasileiro vai enfrentar, como atacaria o problema do baixo índice de leitura?
Apostaria em bibliotecas – fixas ou móveis. Elas são centros de aprendizado para a vida toda, um presente que se renova. Dão também uma sensação de segurança, são um elo comunitário.

A senhora é a favor de programas públicos de estímulo à leitura?
Sim, sou entusiasta de programas públicos. Eles são uma grande ajuda, não só para as crianças, como para famílias. Tive uma ótima experiência com bibliotecas móveis no Nepal, um país predominantemente rural, com a ONG Read. As famílias venciam o isolamento e as unidades se tornaram também uma fonte de atividade e construção da capital social.

Por que certos programas de incentivo ao livro fracassam?
Um problema que vejo é o tom excessivamente didático. É a ideia de leitura quase como um privilégio da elite que deve ser imitado. Esquecem de associar a leitura a brincadeiras e ao afeto adulto. Nem toda mãe ou todo pai pode passar muito tempo lendo à noite para cada filho. Mas não importa, nem que seja alguns minutos, abrace e beije a criança, olhe nos olhos enquanto abre um livro. Ela guarda estas emoções na memória e vai sempre associar a leitura a momentos preciosos.
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Fonte: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,missao-das-leituras,10000052797

ROBERTO ROMANO: "Para renovar a política é urgente democratizar os partidos."

FOTO ANTONINHO PERRI
FOTO ANTONINHO PERRI

Para o professor de Ética da Unicamp, o desafio de Temer será conciliar as demandas do PMDB e do centrão com as metas do governo, num ambiente onde a ética é escassa

Completado os primeiros dias do governo interino de Michel Temer, o filósofo e professor de Ética da Unicamp Roberto Romano diz que as características da política brasileira impedem o Brasil de ser um país democrático. Para o catedrático, Temer terá de enfrentar o mesmo desafio dos governos anteriores: conciliar uma agenda de governo com as exigências dos parlamentares – dos quais o Planalto depende para aprovações de reformas no Congresso. Nesta entrevista à repórter Marina Gama Cubas, o filósofo destaca que o problema ético da política brasileira está mais embaixo do que se imagina: está na direção dos partidos políticos.

E alerta que o País vive uma crise de renovação das lideranças políticas. “O jovem que queira militar em um partido político tem que aderir aos seus donos, que estão no comando há 20 anos. E isso, para muitos, não interessa”. A seguir, os principais trechos da conversa.

Qual o maior desafio do presidente Temer em seu próprio partido e no governo?
Dentro do PMDB, é conseguir um mínimo de coesão em torno de sua liderança. Ele não é o líder mais relevante, não tem a capacidade de coordenação política e de flexibilidade que tem Renan Calheiros e que tinha, ou ainda tem, Eduardo Cunha. O PMDB é uma federação de lideranças regionais e a base delas é justamente o atendimento às exigências dessas regiões. Por isso, se não conseguir convencer seus pares de que seu governo vai distribuir recursos para as regiões, Temer não vai conseguir nada junto ao partido. Já no governo, o maior desafio é o centrão. De certo modo, o centrão e Cunha, nos bastidores, dão um sinal de para onde vai sua gestão. Se Temer começar a alimentar esse centrão e se dobrar às suas exigências, seu governo se tornará inviável.

Ele entregou boa parte dos ministérios a parlamentares. É o oposto do “ministério de notáveis” que prometeu?
Sim. E lembro, a propósito, uma diferença entre Temer e Itamar Franco, que assumiu a presidência após a saída de Collor em 1992. Itamar tinha origem peemedebista mas já havia saído do partido. Surgiu como uma solução de fora do trato político cotidiano, desse toma lá da cá. Tinha as mãos mais livres para iniciar reformas e foi isso que lhe permitiu escolher técnicos competentes – que fizeram o Plano Real, por exemplo. E mais: nomeou como ministro da Educação o doutor Murílio Hingel, que fechou o Conselho Federal da Educação, então envolvido em corrupção. O Temer tem um problema a mais: ele integra organicamente o PMDB. Nessa condição, além de ter que conciliar os interesses opostos dentro do seu partido precisa tratar com os nanicos, que se uniram para ter força – hoje eles são quase maioria absoluta na Câmara. É um desafio duplo. A questão é como encontrar um atalho para não soçobrar até 2018.

Acha que isso é possível?
Não conheço as potencialidades políticas do presidente. Esse é um ponto que mostra certa fraqueza na construção de cenários, para qualquer analista. Temer nunca foi um líder dentro do seu partido. Nunca teve uma liderança ao estilo do Ulysses Guimarães. Jamais foi um líder oligárquico à semelhança de Orestes Quércia e não tem a tradição de Executivo como Itamar Franco – que antes tinha sido prefeito e governador. As escolas de Temer são a cátedra de direito constitucional, no qual é muito bom, e o parlamento. Não sabemos até onde ele pode ir como líder da coordenação.

 
 RENAN CALHEIROS E RENAN FILHO
O pai - Senador pelo PMDB/AL - está passando o bastão do poder ao filho, atual governador de Alagoas!
É assim que se dá a "renovação" na política brasileira...

Essa política da coalizão coloca em xeque a democracia?
Vira uma partidocracia. Porque, se o presidente não consegue governar, fica à mercê dessas maiorias voltadas para a ocupação de cargos na máquina federal. E, claro, quando você radicaliza a compra e venda de apoio, começa a utilizar o dinheiro público para ajudar os partidos. Isso é a base do mensalão, do petrolão e tudo mais.

Como mudar a cultura política?
O primeiríssimo ponto é pela ação da opinião pública e da população mais politizada, radicalizando o que já tem sido feito, por exemplo, com a Lei de Improbidade Administrativa, com a Lei da Ficha Limpa. Mas é urgente democratizar por dentro os partidos políticos.

De que forma?
As direções dos partidos políticos brasileiros – os grande e os pequenos – permanecem no cargo por mais de 20 anos. Não existe candidatura, nem propaganda política, sem autorização deles. São donos do cofre, das candidaturas e das alianças. E o que prevalece são relacionamentos de troca entre os dirigentes dos partidos. Com isso, você não tem renovação. Não há mais lideranças como Ulysses Guimarães, como Mário Covas, Luiz Inácio Lula da Silva – no passado – e Leonel Brizola, que tinham expressão nacional. Outro ponto: nenhum partido brasileiro tem eleições primárias. Muitos dizem que o eleitor colabora com esse descalabro porque não se compromete com os políticos e nem sabe o nome do deputado em quem votou. Mas, pergunto, como a pessoa vai estar comprometida se ela não foi consultada no processo anterior? Quando o eleitor chega à urna, o prato já está feito. Então, se não houver essa democratização dos partidos políticos não vai ter juventude dentro dos partidos. Porque o jovem que queira militar vai ter que aderir a esses donos dos partidos.

É necessária outra forma de pensar a política brasileira?
Acho que é necessária uma reforma ética.

O que seria essa reforma?
Ética é o conjunto de atitudes corporais e mentais que, uma vez aprendidas ou praticadas durante longo tempo, tendem a se tornar automáticas. A ética da política brasileira é sempre a troca de poder descartando programas, posições doutrinárias etc. É aquela velha pergunta: “O que eu vou ganhar com isso? Ou o que o meu partido vai ganhar?” Não se pergunta: “Como eu posso colaborar? Como o meu partido poderá colaborar para o refinamento e a melhoria da sociedade e do Estado?” Quando você chega nesse automatismo, só uma crise forte criará algo novo na política brasileira. Numa crise muito forte, o automatismo já não é mais eficaz – e é o que está ocorrendo agora. O desafio da crise é justamente você inventar, criar novas formas de relacionamento político. O espaço está aberto para isso.
 
O que se viu na votação do impeachment na Câmara pode impulsionar essa reforma?
Há setores da sociedade que estão assumindo posições cada vez mais fortes na direção da democratização. Eles podem pressionar pela mudança na estrutura dos partidos. Até aqui, o efeito desse espetáculo indecoroso dos políticos foi a criação de uma maior desconfiança no sistema de representação parlamentar. Pesquisas feitas na América do Sul mostram que aumentou o ceticismo pessoas diante do sistema de representação e isso é muito perigoso.

Os políticos e os brasileiros subvalorizam a democracia?
Não vivemos a democracia ainda, não vivemos sob o signo da responsabilização. O que importa numa democracia é o uso da responsabilidade no dia a dia. Se você é um prefeito e faz o projeto de uma ponte, tem que levar essa ponte até o final. O que se vê no cotidiano das administrações brasileiras é antidemocrático. Você começa uma estrada e não termina, começa um hospital e não termina. Quando termina, acontece o que ocorreu com a passarela ciclística no Rio de Janeiro. Vivemos num regime que ainda não incorporou as bases modernas da democracia.

Existe luz no fim do túnel?
A única oportunidade que vejo de mudança reside nessa cidadania que luta e que exige através de instrumentos vários, como a internet e a imprensa, e luta contra essa ética antidemocrática dos nossos políticos. O absolutismo foi conhecido como o regime mais corrupto da humanidade, porque nele tudo se vendia. Mas no absolutismo nunca se teve notícia de um rei pagar a carruagem do cardeal ou do duque. Aqui no Brasil o povo paga a carruagem, do vereador ao ministro, e são bilhões que vão nesse privilégio, que poderiam se aplicados em escola, tecnologia e segurança.

As manifestações de rua vieram para ficar?
Sim. É um fenômeno muito interessante. E muito saudável, se se retirar o sectarismo presente nelas.
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Reportagem Por Sonia Racy
Fonte: http://cultura.estadao.com.br/blogs/direto-da-fonte/para-renovar-a-politica-e-urgente-democratizar-os-partidos-diz-romano/

segunda-feira, 23 de maio de 2016

As lições do momento

Manfredo Araújo de Oliveira*

 

Adital
 
Num texto recente, Robson de Souza nos lembra uma consideração do filósofo esloveno Zizek que nos ajuda a compreender aspectos do momento em que vivemos: "a unificação de todos os medos (e/ou discursos do medo) numa (falsa) verdade é o grande objetivo que sempre moveu os ideais dos grupos e líderes mais conservadores. Esta estratégia justificou, por exemplo, o nazismo (os nazistas tinham medo dos judeus, dos homossexuais...); ou o golpe civil-militar de 1964 (medo do comunismo). A soma de muitos medos (os verdadeiros ou aqueles construídos no imaginário social) produzum ambiente propício para se criar um clima de pânico; instalar a desconfiança generalizada; propagandear uma insatisfação irracional, mesmo num espaço institucionalmente normal e com funcionamento adequado das instituições. A partir daí, podem-se construir as saídas autoritárias através de pseudo-heróis "salvadores da pátria”...

Isto certamente é um elemento fundamental para aprofundar o clima generalizado de medo, vingança e ódio que torna simplesmente impossível um debate civilizado e respeitoso de ideias e pontos de vista sobre os rumos do país. A atitude que se exige de nós certamente é outra: neste momento de crise e de perplexidade, sentirmo-nos pessoas desafiadas a agir com discernimento e responsabilidade frente ao momento e a trilhar novos caminhos; o primeiro fazer é aprender da crise para aprofundar nossa concepção de uma sociedade nova, verdadeiramente democrática, justa e sustentável. Os movimentos sociais, como diz o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, mobilizam-se para que a democracia se aprofunde através da distribuição de renda e das riquezas, ampliação de direitos, saneamento básico, garantia de direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, democratização dos meios de comunicação e de uma segurança pública eficaz e cidadã. Estas são as agendas essenciais, insistir nelas significa contrapor-se à tendência vigente de pôr os interesses privados e os caprichos políticos acima do bem coletivo e das tarefas urgentes para a superação da crise econômica e social na luta persistente e teimosa pelos direitos e pela dignidade da vida. 

L. Boff nos aponta alguns pontos fundamentais, entre os quais nos hoje referimos a três, de que não podemos abrir mão para que a desigualdade vergonhosa que nos marca possa ser vencida. Em primeiro lugar, a prevalência do capital social sobre o capital individual. Isto significa que o que faz o povo propriamente evoluir não é só matar-lhe a fome e fazer dele um consumidor, mas fortalecer-lhe o capital social constituído pela educação, pela saúde, pela cultura e pela busca do bem-viver. Estas são as condições que conduzem à efetivação de uma cidadania plena. Em segundo lugar, cobrar uma democracia participativa, construída de baixo para cima com uma presença forte da sociedade organizada, de modo especial, pelos movimentos sociais que enriquecem a democracia representativa. Em terceiro lugar se apresenta uma questão nunca seriamente enfrentada entre nós: o pagamento das vítimas de nossa formação social: dos indígenas quase exterminados, dos afrodescendentes feitos escravos, dos pobres em geral esquecidos pelas políticas públicas e humilhados pelas classes dominantes.
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* Padre e filósofo. Professor na Universidade Federal do Ceará (UFC). Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, Itália, e doutor em Filosofia pela Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, Alemanha. Assessor das Pastorais Sociais e padre da Arquidiocese de Fortaleza. É Presidente da ADITAL
Fonte:  http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=88938
Imagem da Internet

Chute ao cadáver

Luiz Gonzaga Belluzzo( foto)*
 
 Entre mortos e afogados, flutua impávida a estrutura do poder real

“As normas do mercado passaram a ditar as regras da vida política. No Brasil de hoje, essa lógica fatal vem contaminando as instâncias decisivas do poder estatal. O sistema partidário e o financiamento das campanhas eleitorais parecem engendrados com o propósito de transformar o Congresso num mercado de balcão, onde os gritos de “compro” e “vendo” tornam ridícula a hipocrisia dos discursos moralistas dos plenários”, escreve Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, em texto em que reescreve um artigo publicado por ocasião da renúncia do então senador Antonio Carlos Magalhães. O artigo reescrito é publicado por CartaCapital, 19-05-2016.

Segundo o economista, "mudam as máscaras, mas os personagens são os mesmos. Ao contrário do que se divulga, os senhores tornaram-se mais ferozes. Mas aprenderam a usar métodos mais sutis e eficientes para torturar coletivamente os cidadãos com as técnicas da desinformação, do massacre ideológico e da “espetacularização” da política”.

Eis o artigo.

A produção nacional de cadáveres vai de vento em popa. Não falo dos milhares sucumbidos diante da violência explícita ou implícita que toma conta do País. Neste momento, o sistema de poder e do dinheiro, a fonte de toda a violência, prepara as exéquias de mais um cadáver notório.

O epitáfio de Eduardo Cunha é estampado em editoriais que alteiam a voz do moralismo para esconder a cumplicidade do defunto, um servidor fiel daqueles que agora promovem a sua liquidação moral e política. Diria o personagem de Lampedusa no Leopardo: “É preciso mudar para que tudo continue como está”. O transformismo à brasileira é mais cruel: “É preciso assassinar os súditos mais nobres para preservar a reprodução das engrenagens do poder”. Os porta-vozes do establishment nativo se encarregam do conhecido esporte, o chute ao cadáver.

No Congresso e fora dele, os maganos e maganões da República já preparam requintados pontapés na carcaça de quem, afinal, serviu e serve tão bem aos seus interesses e apetites. Foi assim, diga-se, que escaparam do naufrágio do regime militar e foram entronizados na democracia como corifeus das liberdades.

Os fâmulos de Eduardo enfrentam, porém, uma dúvida terrível: não sabem se, de fato, o cadáver está bem morto. Sendo o defunto notório e possuidor de amplos e reconhecidos saberes sobre as mazelas da política nativa, os estragos de uma ressurreição ou de um último suspiro podem ser pavorosos. Imagino as angústias que nesta hora oprimem os corações de alguns acusadores de ocasião.

Como pistoleiros de aluguel, só vão sossegar o espírito quando convencidos de que o cadáver está completamente morto. Não podem fazer outra coisa senão esperar sua defunção definitiva. Mas aqui só há uma certeza possível: não há como evitar o estrebucho político do moribundo.

Então caberia pesar as conveniências do assassinato de um personagem tão emblemático, uma encarnação perfeita dos vícios e das virtudes do sistema dominante. Os vícios são muitos. Deixo à imaginação do leitor o trabalho de enunciar o elenco. Quanto às virtudes, dentre as poucas sobressai a capacidade de reproduzir as alianças de poder à custa da descaracterização humilhante e trágica dos que alegam se opor a tal estado de coisas. Aí estão, prostradas e subjugadas, estraçalhadas, as instituições incumbidas de promover a mediação democrática.

A democracia dos patrícios, observada de uma perspectiva realista e sombria, revela a enorme capacidade de sobrevivência dos poderes dos donos. Governo após governo, mudam os métodos, mas não os rumos, sequer os pretextos. Há que se admirar o requinte dos poderosos nos cuidados de preservar pessoas notoriamente comprometidas com a truculência e as malfeitorias do passado. Aí estão os sobreviventes de outros naufrágios da República a perorar sobre as virtudes da dita-cuja.

Elementar, meu caro Watson, entre mortos e afogados flutua impávida a estrutura do poder real, esse contubérnio entre o dinheiro e a política. Mandam e desmandam os mesmos grupos de sempre, reforçados agora pela presença dos yuppies cosmopolitas da finança globalizada. A grande inovação dos tempos, além da internet e do celular, é a porta giratória entre as mesas de operação das instituições financeiras e as burocracias econômicas executoras dos projetos e programas da privataria. Nesse bloco hegemônico não faltam os serviçais da mídia, infatigáveis em apresentar esses companheiros de jornada como portadores de um saber superior, o único capaz de assegurar, aos olhos dos mercados financeiros, a credibilidade da política econômica.

Mais do que isso, as normas do mercado passaram a ditar as regras da vida política. No Brasil de hoje, essa lógica fatal vem contaminando as instâncias decisivas do poder estatal. O sistema partidário e o financiamento das campanhas eleitorais parecem engendrados com o propósito de transformar o Congresso num mercado de balcão, onde os gritos de “compro” e “vendo” tornam ridícula a hipocrisia dos discursos moralistas dos plenários.

O arbítrio, o favorecimento, o segredo, a obscuridade e o nepotismo eram os demônios que os valores da República restaurada pretendiam exorcizar. Pois os curupiras da Pátria Amada estão aí, livres e folgazões, gargalhando sobre as nossas incríveis esperanças.

Nesta coluna, reescrevo um artigo publicado por ocasião da renúncia do então senador Antonio Carlos Magalhães. Mudam as máscaras, mas os personagens são os mesmos. Ao contrário do que se divulga, os senhores tornaram-se mais ferozes. Mas aprenderam a usar métodos mais sutis e eficientes para torturar coletivamente os cidadãos com as técnicas da desinformação, do massacre ideológico e da “espetacularização” da política.
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* Economista. Colunista da Revista Carta Capital.
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sábado, 21 de maio de 2016

Emojis invadem as conversas e geram discussão sobre evolução da linguagem


No começo, parecia coisa de adolescente. Terminar uma frase com uma carinha sorridente? Um coração palpitando? Duas mocinhas dançando? Que infantil, não? 

Pois a intenção daqueles que levaram essas pequenas figurinhas —hoje conhecidas como "emojis" (da junção das duas palavras em japonês que significam imagem + personagem)— para os telefones celulares, nos anos 1990, não ia além disso mesmo: seduzir a atenção dos jovens, que se comunicavam com tanta intensidade por meio de mensagens de texto. 

A popularização dos emojis, porém, vem extrapolando expectativas e faixas etárias —além de obrigar os produtores dos aparelhos a incorporar novos pacotes de figuras a seu teclado a cada ano. Eles incluem rostos com diferentes expressões, profissões, esportes, comidas, animais, instrumentos musicais, bandeiras, meios de transporte, entre outras coisas. Inclusive um montinho de cocô. 

Os emojis já são usados por adultos em e-mails para falar de negócios, em textos de "chats" sexuais, nas artes visuais e até mesmo na literatura. Uma versão de "Moby Dick", o clássico de Herman Melville, foi "traduzida" para a linguagem emoji e pode ser comprada online

Em 2015, o Oxford English Dictionary escolheu o emoji do rosto soltando lágrimas de alegria como a palavra do ano. 

PARA-LINGUAGEM
 
Com tudo isso, dos papos juvenis, os emojis foram parar nas universidades, onde linguistas debatem seu papel na evolução das comunicações e dentro de cada língua.
"Obviamente que os emojis não são um idioma, mas vêm se transformando num importante elemento da ´para-linguagem´. Ou seja, tudo aquilo que usamos junto com as palavras para dar-lhes o significado que queremos: a entonação, a expressão facial, o modo de olhar ou a linguagem corporal", diz à Folha o britânico Vyvyan Evans, professor de linguística da Universidade de Bangor.
"Num mundo em que as comunicações têm sido cada vez mais eletrônicas e menos ´ao vivo´, o emoji exerce uma função ´para-linguística´ importante", diz Evans.
John McWhorter, da universidade de Columbia, diz que, depois dos adolescentes, foi a vez das mulheres mais velhas incorporarem os emojis ao seu dia-a-dia. "Mulheres tendem a ser mais expressivas e abertas na linguagem", explica. Mas, para Evans, hoje os símbolos já são usados igualmente entre os sexos.
"Tudo depende do contexto cultural. Sociedades menos rígidas tendem a ver os emojis como um modo divertido e espontâneo de se comunicar. Depende menos do sexo e mais do contexto cultural", explica.
Para Evans, para entender os emojis deve-se aplicar a mesma lógica da compreensão das palavras. "Sabemos que palavras têm um significado relativamente estável num conjunto linguístico, ainda que possam ser usadas para significar outras coisas, dependendo do contexto da frase ou da situação. O mesmo ocorre com os emojis, que são, nesse caso, ´palavras´, mas que viajam entre países e idiomas diferentes." 


Editoria de Arte/Folhapress

Isso explicaria, segundo Evans, porque o emoji que representa a berinjela, por exemplo, ganhou, no Ocidente, o significado de um pênis (mas reforça que as mulheres preferem usar, para referir-se ao órgão em questão, o emoji da banana). 

Outro exemplo é o emoji que traz duas mãos espalmadas. "No Japão, isso é um sinal de gratidão, de reconhecimento. Enquanto no Ocidente cristão, parece mais alguém rezando, e dessa forma é usado", explica. 

Emojis também servem para provocar ironia ou mudar completamente o significado de algo. Dizer "eu te odeio" é uma afirmação dura. Dizer "eu te odeio" e acrescentar a isso um emoji de uma piscada de olho transforma a mensagem em algo sarcástico. 

Mas a viagem dos emojis entre as diferentes culturas também trouxe outros dilemas. O primeiro a ser notado foi a falta de diversidade étnica. No começo, eles representavam apenas "pessoas" brancas. Vieram, então, os emojis com várias tonalidades de cor de pele. 

Depois, foi a vez do grito das feministas, revoltadas ao ver mulheres aparecendo apenas como noivas, bailarinas, pintando as unhas e quase sempre usando cor-de-rosa. Logo surgiram emojis com mulheres exercendo profissões antes reservadas apenas aos emojis masculinos. 

Em "The Story of Emoji", Gavin Lucas conta a trajetória do fenômeno desde sua incorporação aos celulares, pelo engenheiro japonês Shigetaka Kurita, até os dias de hoje, quando um consórcio baseado na Califórnia, o Unicode, transformou-se numa espécie de "órgão regulador" do lançamento de novos emojis. Existem, hoje, mais de 800 nas novas versões dos smartphones. 

Uma das novidades do pacote preparado para 2017, segundo anunciado, é um emoji que representa a sarcástica personagem Lady Violet, interpretada por Maggie Smith, na série "Downton Abbey". 

No livro de Lucas, a história do emoji é contada também por meio de obras de arte inspiradas em emojis. "Eles são tão variados e tão expressivos que viram um instrumento poderoso para a expressão artística", diz Lucas à Folha

REVÓLVER, BOMBA
 
Outro sinal de que os emojis deixaram de ser coisa de criança é o fato de estarem sendo discutidos em tribunais. Na Virginia, uma corte está decidindo se uma adolescente estava realmente planejando um ataque à sua escola ao escrever no Instagram "me encontre na biblioteca" ao lado dos emojis de revólver, bomba e colégio. 

Outros casos de ameaças pessoais por meio de emojis foram registrados em Nova York e em Michigan. 

Para definir de maneira simples um emoji, Evans usa uma imagem poética. "Quantas vezes não topamos com emoções ou atos que não sabemos denominar? A palavra 'cafuné', por exemplo, do português brasileiro, não tem tradução para o inglês, eu teria de usar uma frase inteira para explica-la. Um emoji poderia dizer isso para mim", explica. 

Entre intelectuais, porém, também há os que se recusam a discutir os emojis a sério, vendo nas mensagens de texto um empobrecimento da linguagem. 

"Só posso dizer a esses que têm preconceito com emojis que eles não estão entendendo bem como a comunicação está evoluindo", resume Evans. 
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Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/05/1773410-emojis-invadem-as-conversas-e-geram-discussao-sobre-evolucao-da-linguagem.shtml

terça-feira, 17 de maio de 2016

Como aprender a ser um ex-marido

Mirian Goldenberg*

 

Após uma separação, é muito comum que os casais –mesmo os mais apaixonados e felizes– se transformem em "inimigos mortais", como disse uma atriz de 53 anos. 

"Meu casamento durou 29 anos. Era aquele casamento que todos achavam perfeito: fazíamos tudo juntos, conversávamos muito, viajávamos todos os anos para o exterior. O típico casal modelo que provocava inveja em todo mundo. Só que eu não me sentia mais feliz e decidi me separar. Ele nunca me perdoou por isso". 

Ela disse que o divórcio revelou a verdadeira face do ex-marido: um homem medíocre, mesquinho e ressentido. 

"Durante muito tempo tentei ser amiga dele. Mas ele preferiu me ignorar, destruir a nossa amizade. Tive um problema de saúde muito sério e ele nem telefonou para saber como eu estava. Ele faz questão de fazer uma pose de superioridade, mas é apenas um cara covarde, patético e desprezível."
Também encontrei exemplos de separações que transformaram "sapos em príncipes", como conta uma psicóloga de 42 anos. 

"Meu marido me sacaneou muito durante todo o casamento, transava com prostitutas, chegava bêbado de madrugada, vivia cheio de dívidas. Aos trancos e barrancos, nosso casamento durou 15 anos. Nos últimos anos nem transávamos mais, cada um tinha a própria vida". 

Mas tudo mudou com o divórcio. 

"Ele fez questão de se tornar o meu melhor amigo. Ele não foi um bom marido, mas se tornou o melhor ex-marido do mundo. Ele sempre me liga para saber como estou, fica preocupado quando tenho algum problema, está disponível quando preciso de apoio, aprendeu a me escutar com atenção. 

 Só ele consegue me acalmar quando entro em pânico por causa da crise do país. Fiz uma cirurgia e ele ficou o tempo todo no hospital, cuidando de mim. Ele poderia dar um curso: 'Como aprender a ser um ex-marido'". 

A sensação de que não conhecemos as pessoas com quem compartilhamos a vida fica mais evidente após uma separação. Podemos nos surpreender com o egoísmo, a mesquinharia e a estupidez de alguém com quem tivemos, durante muitos anos, uma relação de muita intimidade, cumplicidade e amor. Mas o contrário, mesmo sendo mais raro, também pode acontecer. Não é verdade? 

P.S. Em breve a resposta masculina: "Como aprender a ser uma ex-esposa". 
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*È antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de 'Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade'. Escreve às terças, a cada 15 dias.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/miriangoldenberg/2016/05/1771098-como-aprender-a-ser-um-ex-marido.shtml
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Para Delfim, Temer precisa “convencer o País de que ajustes não são maldade”

ANTÔNIO DELFIM NETTO
Economista, ex-Ministro e Professor de Economia
 
 Crítico do governo Dilma e ciente dos desafios que Michel Temer enfrentará, ex-ministro acha crucial que ele convença o eleitor de que corrigir os erros é a única saída.

Entrevista com Delfim Netto*
 
Economista, ex-Ministro da Fazenda e da Agricultura, ex-Deputado Federal

Sonia Racy
 
 Também neste governo Temer, Delfim Netto certamente será chamado a opinar. Como vem fazendo nos últimos 50 anos, tendo começado nos governos militares quando ficou conhecido pelo “milagre brasileiro” (1968-1973), nos tempos em que o Produto Nacional Bruto (PNB) crescia, em média, 10% ao ano.

Muito próximo a Temer, com quem costuma almoçar regularmente em São Paulo, o ex-ministro, ex-deputado e afiadíssimo economista de 88 anos, 24 deles no Congresso como deputado, acha que Temer “recebeu um presente de Deus, que pôs o dedo nele e disse: ‘Você é um político eficaz. Estou lhe dando a chance de ser um estadista. Você não tem mais passado, você só tem futuro. O seu futuro vai ser escolhido agora. Você vai fazer nesse curto prazo o que tem que ser feito. Plante carvalho ao invés de plantar couve”. Sobre Dilma, afirmou: “A aprovação dela melhorou, quanto mais ela errava mais melhorava”.

Semana passada, pouco antes de Temer assumir, ele falou à coluna no seu escritório em Higienópolis [São Paulo].

Na atual situação, só o político salva a economia ou só a economia salva o político?

Delfim Netto: Na verdade, em qualquer circunstância, o economista tem a pretensão de que as suas medidas sejam tão perfeitas que mesmo quando elas impõem um sofrimento dramático à sociedade, como ele sabe que está apoiado na ciência, faz aquela maldade com a maior tranquilidade por acreditar que ela vai salvar o cidadão. Há vários equívocos nisso. Primeiro, que a economia não é uma ciência. Não existe nenhuma hipótese de você ter soluções científicas para problemas econômicos. O Temer tem toda razão quando diz que não há escassez de diagnóstico. Todo mundo sabe o que fazer, não importa a escola a que se pertença. Há uma pequena diferença aqui ou ali, mas todos sabem que você tem que fazer um ajuste nesse desequilíbrio fiscal, estrutural, que está dentro da Constituição. Também não há nenhuma escassez de talentos para executar essa tarefa.

E por que não se executa?

Delfim Netto: Porque para executar essa tarefa precisa de uma maioria política sólida convencida de que aquela é a solução. Uma maioria que não se restrinja ao Congresso, mas que vá aos eleitores mostrar que não se trata de nenhuma maldade, e sim de corrigir alguns defeitos do processo, e que precisamos fazer.

Está claro o que precisa ser feito. Mas como?

Delfim Netto: Tem de convencer a sociedade de que ela não vai ficar sem a aposentadoria. Na verdade, vão se criar condições para que todos se aposentem. Vão se eliminar as grandes diferenças entre o setor público e o privado, corrigir problemas da Previdência no setor agrícola. Sem atacar direitos adquiridos. Então, só o político pode salvar o economista.

O governo Temer terá forças para aprovar tais medidas?

Delfim Netto: Deixa eu lhe dizer: o governo começa com os 367 votos na Câmara e 55 no Senado. Quantos ele vai ter daqui 90 dias, não sei. Mas uma coisa é segura: é preciso levar as propostas constitucionais e deixar o Congresso trabalhar… Ele precisa de trabalho. Você tem que levar ao Congresso o que você precisa, o que a nação precisa – e ele em geral melhora a proposta. Tem que ocupar o Congresso com coisas corretas.

Esta é a função do Executivo?

Delfim Netto: Sim. Se o Executivo não tem protagonismo, não funciona. Não se pode ter um presidencialismo de coalizão que nem presidencializa e nem coaliza. Então, ele começa presidente, com capacidade pra coalizar. Ele tem que deixar no Congresso as necessidades do País, porque o Congresso não quer o mal do País. Ele se desorganizou por causa da disputa entre Executivo e Legislativo, que foi uma disputa insensata – a intervenção do Executivo na eleição da Presidência da Câmara.

Qual será, nesse processo, o impacto da saída de Eduardo Cunha?

Delfim Netto: Ele pode ter todos os problemas, mas nunca houve um presidente com a eficácia do Cunha, que conhecesse tão bem o regimento, que seja capaz de fazer as coisas caminharem. Não é possível dizer que sob sua presidência o Congresso não tenha andado muito mais depressa. Aprovou maluquices, mas podia ter aprovado coisas muito boas.

Acha que o destino de Renan tende a ser o mesmo de Cunha?

Delfim Netto: Não há a menor dúvida de que a Lava Jato é um momento de inflexão. O Brasil será (depois dela) completamente diferente. A manifestação da Andrade Gutierrez, reconhecendo os equívocos, é apenas uma. Ela está acontecendo em outros campos, em outras empresas, sem esse pedido público de perdão. E as instituições estão cada vez mais sólidas e ajudarão o País a crescer mais depressa. O STF tem se comportado, na minha opinião, de maneira absolutamente correta.

Com a indicação de Henrique Meirelles, a iniciativa privada sossegou em relação à parte técnica da Fazenda. Hoje estão mais voltados para a atuação de Romero Jucá, que será o grande responsável pela relação entre Executivo e Legislativo. Concorda?

Delfim Netto: O Jucá é um craque, está nisso há mais de 40 anos, trabalhou conosco, com Andreazza, foi interventor em Rondônia, foi governador. Conhece Orçamento como gente grande, tem uma habilidade política extraordinária. E vou dizer uma coisa, a minha hipótese é que ele será um excelente ministro do Planejamento. É operacional, sabe o que precisa ser feito.

Ante as denúncias da Lava Jato, acha que a situação dele é frágil?

Delfim Netto: Uma simples denúncia não significa nada. Ele vai ser julgado, se for condenado é outra coisa.

Acha temeroso Temer nomear gente que possa, a curto, médio ou longo prazo, ser alcançada pela Lava Jato?

Delfim Netto: Na minha opinião, ninguém pode prejulgar isso. Quer dizer, a presunção de inocência continua sendo um dos fundamentos de toda a sociedade civilizada. Então, quem for acusado vai se defender.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA E DELFIM NETTO
O ex-presidente Lula consultava muito o economista Delfim!

O sr. tem dito que tem muita gente querendo trabalhar no governo Temer. Mas por que são sempre os mesmos? Por exemplo, o ex-presidente Lula defendia Henrique Meirelles para Fazenda e também o Jucá para ser o líder de governo.

Delfim Netto: Porque o Lula é um pragmático. O Lula é uma inteligência privilegiada e um grande administrador. Tem uma intuição muito poderosa. De forma que quando ele defendeu o Meirelles e o Jucá, na minha opinião ele sabia o que estava fazendo.

O sr. já esteve muito próximo da presidente Dilma. Depois, houve um certo afastamento.

Delfim Netto: Eu acho a Dilma, pessoalmente, absolutamente correta. Nunca tive nenhuma amolação com ela. Eu me separei, diminuí a minha presença, e ela também não me convidou mais. Mas em dezembro de 2012, quando houve aquela quadrangulação fantástica que transformou chumbo em ouro

Como assim?

Delfim Netto: Ela transformou a dívida pública, colocou recursos no BNDES, o BNDES pagou e virou superávit primário. Aí, na verdade, acho que foi o instante em que o governo atingiu uma situação muito delicada. Ela fez em 2011 um governo muito bom, em 2011 cresceu 3,9% , a inflação ficou no limite superior da meta…

A complicação econômica não veio de anos anteriores?

Delfim Netto: Não, ela estava só corrigindo algumas coisas do Lula. Tanto assim que a relação dívida-PIB caiu. Teve superávit primário, teve superávit fiscal. Ela começou a errar em 2012, quando fez a intervenção na energia, quando começou a fazer voluntarismo. Quando fez a intervenção na taxa de juros.

Mas ela já não influía nas decisões da Petrobrás antes?

Delfim Netto: Não, não tinha destruído ainda o setor energético, não tinha destruído o setor sucroalcooleiro. Aqui é uma coisa muito interessante, para a qual a gente deveria chamar a atenção. Dilma atingiu o máximo da sua popularidade no Datafolhaquando estava no máximo dos seus erros. Entrou em 2012 com aprovação elevada. Quando pôs a mão na energia elétrica a aprovação dela subiu 6 pontos. Quando pôs a mão no câmbio, na queda de juros, subiu mais 6 pontos…

O sr. quer dizer que ela entrou numa fase populista?

Delfim Netto: Esse é que é o problema central… quando você foca no curto prazo sem levar em conta o longo prazo. A aprovação da Dilma melhorou, quanto mais ela errava mais melhorava.

O senhor culpa as pesquisas?

Delfim Netto: Não. As pesquisas são ótimas porque mostram como você pode errar com conforto. Na minha opinião, a Dilma deixa uma lição para os futuros presidentes, para pessoas que têm responsabilidade. É que não se pode administrar olhando a aprovação de curto prazo. Tem que olhar o futuro.

Que conselho daria a Temer?

Delfim Netto: Ele é normalmente um homem muito cuidadoso. E a meu ver não tem nenhuma razão, hoje, pra se meter numa política voluntarista.

Se daqui a 180 dias o processo reverter e Dilma voltar ao governo, o que acontece?

Delfim Netto: Tudo vai piorar. Ou seja: pobre Brasil, vai ter que esperar 2018. A ideia de que a Dilma recupere o seu protagonismo, eu até gostaria, mas acho que é impossível.

Temer tem muito pouco tempo para mostrar a que veio. Ele deve olhar as pesquisas?

Delfim Netto: Não, o Temer não tem que olhar para pesquisas coisa nenhuma. Ele recebeu um presente de Deus, que pôs o dedo nele e disse: “Você é um político eficaz. Estou lhe dando a chance de ser um estadista. Você não tem mais passado, você só tem futuro. O seu futuro vai ser escolhido agora. Você vai fazer nesse curto prazo o que tem que ser feito. Plante carvalho ao invés de plantar couve”.
MICHEL TEMER, DELFIM NETTO E ROMERO JUCÁ
encontro ocorrido antes de Temer assumir a Presidência da República

Como ele vai tomar medidas duras e agradar ao Congresso?

Delfim Netto: Há no fundo uma mudança de concepção. O Congresso sabe que o que vinha sendo feito é impossível. Se continuasse assim, iria para o buraco. Se esse negócio agora não der certo, a probabilidade de essa gente se reeleger é zero. Em 2018 vão todos para casa. Você não pode ter o Brasil sem administração. Essa narrativa de que tudo o que existe é maldade é equivocada. A correção vai ser benigna.

No médio e no longo prazo?

Delfim Netto: Na reforma da Previdência, ninguém pretende dizer pro sujeito: “Você perdeu sua aposentadoria”. Não existe isso. Ou então: “Você perdeu a sua Bolsa Família”. Não existe isso. Você precisa de um governo ativo, que tenha comunicação não só com o Congresso, mas com a sociedade, para explicar o seguinte: “Eu não estou tirando o seu direito, estou tirando, na verdade, o parasitismo que tem nesse direito. Estou tirando aquilo de que grupos bem organizados se apropriaram e que você, brasileiro, paga”. Quer dizer, você vai ter que mostrar à sociedade que corrigir a aposentadoria é para poder continuar pagando aposentadoria. Que corrigir a vinculação é para poder melhorar a qualidade da administração e exigir eficiência. Terceiro, que continuar a usar o salário mínimo como um instrumento importante de redistribuição de renda só pode acontecer se eu eliminar o seu papel de indexador. Quarto, que eu preciso de uma liberdade de negociação entre trabalhadores e empregados. E por quê? Porque o sistema brasileiro pressupõe que o trabalhador é um idiota e que o empresário é um ladrão, então precisa ter um juiz no meio. Nada disso. Sob o controle do sindicato, deixe que trabalhadores e empregados coloquem na mesa transparentemente o futuro da empresa e discutam entre si como distribuir o excedente.

Essa receita, existe há vinte anos. Por que é que, desta vez, ela vai andar?

Delfim Netto: Porque a minha esperança é que o Temer continue sabendo fazer tricô com quatro agulhas.

*Antonio Delfim Netto é economista e professor. Formou-se, em 1951, pela Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP). Foi secretário de Finanças de São Paulo, ministro da Fazenda, ministro da Agricultura,  ministro-chefe da Secretaria de Planejamento da Presidência da República e embaixador do Brasil na França. Participou da elaboração da Constituição de 1988. É professor-emérito da FEA e sua área de especialidade é economia brasileira.
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Fonte: ESTADÃO.COM.BR – Direto da Fonte / Sonia Racy – Segunda-feira, 16 de maio de 2016 – 00h40 – Internet: clique aqui.