domingo, 26 de junho de 2016

A Europa precisa de um divã *

Pedro Norton
 
exit from the eurozone: golden star fallen from a blue wall

Cada um tem direito às suas manias, às suas obsessões. Eu não sou exceção e, perdoem-me a arrogância, o tempo há de dar-me razão. O génio do homem começa aliás a voltar a ser reconhecido. A Europa, permitam-me, pois, que me deixe de coisas e volte à carga com o meu amigo Zweig, “sucumbiu a uma grave crise psíquica”. Era ele que o dizia, não era eu. A Europa precisava de uma “desintoxicação moral”. Era em 32 e depois foi o que se viu. Dizia-o em 32 e repetiu-o em 34. Não se ficava pelo diagnóstico, propunha-lhe a solução, e a solução, lucidíssima, premonitória, clarividente, era a unificação. Não chegou a vê-la. Suicidou-se-lhe definitivamente a esperança a meio da guerra. Eram saudades a mais de um mundo de ontem que nunca mais verdadeiramente seria. Não foi a tempo de de saber que, apesar de tudo, alguma coisa aprenderiam os pais fundadores da União. Foi preciso, é a triste realidade, mais um sem dizer de sofrimento, para que o sonho se fizesse. Mas fez-se. Contra a guerra. Não se iludam. Tudo o mais era pretexto.

Agora está tudo à rasca. E com razão. A Europa pode muito bem estar por dias. E não me venham fazer contas à libra, muito menos me venham explicar de que lado da Mancha fica a mercearia que mais perde com a coisa. O ponto não é, nunca foi, verdadeiramente esse. O ponto foi, e continua a ser, a paz. Mas a intoxicação moral da Europa voltou. A crise psíquica agudiza-se num novo surto. Chamem-lhe crise dos refugiados, chamem-lhe renascer dos nacionalismos. Chamem-lhe falta de cultura, idolatria das finanças. Chamem-lhe pulsar dos populismos ou tentação dos autoritarismos. Dêem-lhe o nome que quiserem. O que eu quero saber é o que será da Espanha a seguir ao Brexit? O que será da Bélgica? O que será a Áustria, o que será a Finlândia, o que será a Hungria sem as amarras dos valores Europeus que, já doentes, tivemos medo de passar a escrito numa constituição?

Agora está tudo à rasca. E agora vão ficar ofendidos comigo. Porque está longe de ser simpático, muito menos politicamente correto afirmá-lo. A ideia de que democracia mais direta é mais democracia é uma das ideias mais estúpidas do final do século XX. A ideia populista que tudo deve referendar-se, a ideia maniqueísta de que todas as questões têm uma resposta dicotómica, que todo o sim tem o seu não, são ideias – repito – tão primariamente atrativas como estúpidas. A democracia demoliberal em que vivemos não renasceu de forma representativa por acaso. Nem por impossibilidade de fazê-la direta. Nasceu representativa em nome do refrear das tentações populistas, dos imediatismos, das pulsões irrefletidas, dos medos atávicos. A democracia, tal como até aqui a conhecemos e foi funcionando, nasceu em nome da possibilidade de erguer consensos, em nome da possibilidade de negociar com pragmatismo, em nome de uma crença em lideranças capazes de unir os povos em torno de propósitos comuns e que não se refugiassem, a toda a hora e a todo o momento, na simples auscultação da opinião publica. A coisa parece elitista? Menos democrática? Pouco simpática? Contra o ar dos tempos? Seja. De uma coisa podem estar certos. A Europa, inacabada, imperfeita, disfuncional, mas, apesar de tudo, unida que nos deu um dos maiores períodos de paz que alguma vez conhecemos, jamais se teria feito à força de referendos. A ironia é que pode ser que agora acabe aos pés desse mecanismo populista que nenhuma liderança ousa já afrontar. A Europa sucumbe a uma grave crise psíquica porque a democracia sucumbe a uma não menos grave. Nem uma, nem outra, por falta de cultura, sabem verdadeiramente quem são.
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* Este texto está na Visão de 24.6. Pessimista, eu?

Eduardo Giannetti : Tropicalismo utópico: a guinada “profética”.

Rodrigo Constantino*

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Li todos os livros de Eduardo Giannetti da Fonseca menos um, que tenho na estante, mas não consegui ainda concluir. Admiro o pensador, respeito o economista, encontro mais convergência do que divergência entre nós. Mas a cada novo livro ou entrevista, principalmente desde que aceitou ser uma espécie de guru econômico de Marina Silva, sinto que se afasta do liberalismo clássico e se aproxima do esquerdismo utópico. Infelizmente, Marina parece ter lhe influenciado mais do que o contrário.

Não li seu novo livro ainda, Trópicos Utópicos, o que pretendo fazer em breve. Portanto, comento apenas com base na entrevista às páginas amarelas da VEJA desta semana. Parece que Giannetti da Fonseca quer criar um modelo todo original e especial com base em nossa cultura, que não seria exatamente a ocidental, mas uma diferente, “tropicalista”. Quem assinou o texto de contracapa? Sim, Caetano Veloso, ou apenas “Caetano”. Creio que isso já diz muito da guinada que o autor vem dando. Diz ele:
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Descobri-me um “mimético”, mas admiro muitos insights de Gilberto Freire, por exemplo, um leitor que a própria esquerda deveria ler mais. Acho, com Eugênio Gudin e tantos outros, que essa mania do brasileiro de querer reinventar a roda tem nos custado caro demais. Até porque queremos inventar uma roda quadrada! O que existe de melhor em termos culturais, sociais e econômicos nós podemos observar por aí e copiar. É melhor do que insistir na “originalidade” quando ela leva a resultados lamentáveis.

Giannetti parece concordar com o italiano Domenico Di Masi, autor de O ócio criativo, que tem tecido inúmeros elogios ao modelo brasileiro de ser. Claro, ele não vive numa favela carioca, e sim na Itália. Será que o Brasil tem tanto assim mesmo para ensinar ao mundo? Será que são os americanos “consumistas” e os europeus que deveriam olhar para nós para aprender alguma coisa sobre como viver?

Os antiliberais sempre tentaram atacar o liberalismo ocidental que, para eles, não funcionavam abaixo da linha do Equador. É como se a natureza humana fosse tão diferente assim com base na geografia. Giannetti reconhece se afastar do liberalismo, e até o coloca em pé de igualdade com o marxismo, ambos ocidentalizados demais e desprezando as demais culturas:
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Essa coisa de “admiro muita coisa no liberalismo, assim como no marxismo” é típica do “isentão”. É como alguém dizer que “gosta muito de sorvete, mas também não despreza um bolo de fezes”. O que o marxismo tem de interessante, cara pálida? Em que o marxismo foi útil, acertou? O que ele trouxe de positivo para a humanidade? Essa postura “equidistante” entre liberalismo e marxismo é simplesmente absurda, coisa de esquerdista que pretende salvar, de alguma forma, o marxismo. Mas Giannetti não é de direita nem de esquerda, muito pelo contrário:
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Eu até concordo em parte com ele, mas o que minha experiência diz é que quando alguém começa com esse papo de “nem esquerda, nem direita”, ou “vamos fugir dos rótulos”, o que ele quer é defender o esquerdismo. E o fato de Giannetti estar tão próximo de Marina Silva, ex-petista até “ontem”, com suas bandeiras ambientalistas que mais parecem ecoterrorismo de “melancia” (verde por fora, vermelho por dentro), demonstra que se trata de uma conversão ao esquerdismo dele mesmo. Marina e sua Rede, não vamos esquecer, representam o PT embalado a clorofila, e são extremamente perigosos.

Uma pena. Era um pensador liberal parrudo, com bagagem cultural, um economista que não focava apenas em números, mas falava de filosofia. Seu livro O valor do amanhã é excelente, e tem claro viés “austríaco” ao tratar do fenômeno juro com uma visão natural, inclusive com analogias ao mundo animal. Alguns de seus livros entraram como resenhas em minha coletânea Uma luz na escuridão, que, de 75 autores analisados, teve apenas 5 brasileiros.

Mas Giannetti, pelo visto, se deixou levar por uma visão de mundo mais romântica, “tropicalista”, “caetaneando” demais da conta. Confesso que fico decepcionado. Minha verdadeira resposta vem também em forma de livro, pois meu Brasileiro é Otário? – O alto custo da nossa malandragem, que será lançado agora em julho, é justamente um contraponto, uma análise alternativa, mostrando como essa “originalidade” toda tupiniquim, na terra de Macunaíma, o herói sem caráter, do Zé Carioca malandro, do jeitinho, foi um tiro que saiu pela culatra.

Tropicalismo utópico? Estou fora! Prefiro o liberalismo ocidental, aquele que tem sólidos resultados para mostrar.
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* Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.
Fonte:  http://rodrigoconstantino.com/artigos/tropicalismo-utopico-guinada-profetica-de-eduardo-giannetti/?utm_medium=feed&utm_source=feedpress.me&utm_campaign=Feed%3A+rconstantino

O que deu errado na União Europeia?

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 Foto: Pixabay
 "A consolidação da União Europeia 
significaria a renúncia à soberania 
e, portanto, do fundamento último 
da liberdade individual."


Entrevista ao filósofo Ivanaldo Santos

No referendo de 23/06/2016 o Reino Unido decidiu se retirar da União Europeia (EU). Uma decisão histórica e que trará um futuro incerto para o Reino Unido, a EU e o mundo. De imediato o primeiro-ministro britânico, David Cameron, renunciou ao cargo. Para debater esse cenário, Zenit entrevista o filósofo Ivanaldo Santos.

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Por que os ingleses quiseram sair da União Europeia?
Inicialmente, é necessário elogiar a atitude democrática de David Cameron que renunciou ao cargo de primeiro-ministro para evitar uma crise política. Essa atitude deveria ser seguida por governantes em países em crise, como o Brasil e a Venezuela. Na Venezuela, Nicolás Maduro deve renunciar e, com isso, abrir caminho para a superação da grave crise humanitária e política vivida pelo país.

Sobre o referendo de 23/06/2016, afirma-se que os ingleses não estão concordando com os atuais rumos da União Europeia que incluem, dentre outras coisas, forte centralização econômica, grande burocracia, desprezo pela cultura local e municipal, desvalorização das origens judaico-cristãs da Europa e fraqueza institucional.

Essa fraqueza pode ser vista, por exemplo, na pouca habilidade que a EU tem para lidar com o terrorismo. Ao contrário do que alguns analistas afirmaram, os ingleses não estão dando as costas para a Europa. Pelo contrário, estão criando um caminho alternativo para novamente fortalecer uma Europa enfraquecida moralmente, com uma população envelhecida e que não consegue, sequer, lutar contra o terrorismo.

O economista Nivaldo Cordeiro resumiu bem a decisão inglesa: “Os que querem a saída do bloco europeu não querem o isolamento econômico, querem a integração, mas sem a submissão política. Afinal, a consolidação da União Europeia significaria a renúncia à soberania e, portanto, do fundamento último da liberdade individual. Um império mundial será sempre uma ditadura e um corpo estranho para as nações e suas gentes”.

O que deu errado na União Europeia?
A União Europeia é criada em cima de duas grandes ideias:

1) Criar uma verdadeira zona de livre comércio, com fronteiras livres para produtos, trabalho e capital;

2) Criar um espaço de convivência pacífica entre os diversos povos, etnias e religiões que estão dentro do território europeu.

Com isso, acabar com séculos de guerras cruéis e, ao mesmo tempo, evitar a repetição de um genocídio de proporções mundiais, como foi o caso da Segunda Guerra Mundial.

Vale salientar que o mundo só encontrará paz se a Europa estiver em paz. Essas ideias foram perseguidas até a metade da década de 1990. A partir desse período histórico a EU muda de rumo. Passa a ser um gigantesco grupo burocrático, um super-Estado. A EU estava realizando, sem conquista militar, o sonho de ditadores como Hitler e Stalin. Sem contar que a EU vem ignorando a maioria da sua própria população, uma população de maioria cristã.

O que se tem visto nas ultimas décadas é a EU legislando em prol de uma minoria secular e ultrarradical. Com isso, a EU tem colocado em risco a ideia de democracia. A democracia não pode ser apenas – e somente isso – um governo voltado para minorias, para vanguardas culturais, é necessário que ela esteja também voltada para as maiorias, mesmo que essas maiorias desagradem às vanguardas cultuais.

Além disso, nas últimas décadas os problemas que, em tese, a EU deveria combater, pioraram. Problemas, como: desemprego, envelhecimento da população, drogas e terrorismo. A saída do Reino Unido é uma ótima porta que se abre para se repensar a estrutura e o futuro da União Europeia.
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Reportagem por - Notícias do Mundo
Fonte:  https://pt.zenit.org/articles/o-que-deu-errado-na-uniao-europeia/

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Pasárgada


Roberto DaMatta*
 
As utopias são ingênuas compensações inventadas por uma Europa para sempre enredada num realismo cruel 
e numa redenção impossível 

Em 1968 ou em 1969 fiz o curso “Urbanização e utopia”. Éramos quase todos estrangeiros naquela Harvard onde a palavra estrangeiro não existia, pois, como me disse um Thomas Skidmore — saudoso e recentemente falecido — “somos todos estrangeiros diante do conhecimento”. 

Richard Moneygrand ministrou esse curso, definido como uma reflexão sobre os dilemas do individualismo moderno e as utopias nascidas dessa extremada valorização da parte sobre o todo. De um sistema no qual os elos entre homens e as coisas são mais importantes do que as relações dos homens entre si. 

Lemos o clássico de Lewis Mumford, revisamos Platão, Thomas More e Fourier. Mas não esquecemos o Paraíso sem deixar de lado H. G. Wells, Kakfa, Aldous Huxley, Burgess, Orwell e os modernos arquitetos, os quais, como bons desenhistas, tentavam “solucionar” os erros de um sistema a ser redimido.

Fomos solicitados a falar das utopias de nossas sociedades. Um africano escreveu sobre as ideias de Kwame Nkrumah; um russo, sobre as utopias soviéticas; um francês, que sabia mais do que todos nós, abordou os escritos de Voltaire e Rousseau. Juan Porras y Porras, um mexicano aristocrático, exortou o que seria uma utopia caudilhesca para mostrar como os sistemas sociais fundados em elos pessoais seriam funcionais, caso não fossem atropelados pela modernidade do individualismo igualitário acasalado com a dominação burocrático-legal.

Coube, porém, a um par de colegas americanos a apresentação mais radical. Para eles, a “República” era a desmistificação das utopias. O humano seria movimentado por um equilíbrio instável entre crises de carência e abundância. A história era uma inútil busca terrena das idealizações que agravavam a sensação de erro (e da culpa) porque condicionavam a vida real (sempre contraditória) a códigos transcendentais feitos no céu, que nos tornavam devedores. As repúblicas democráticas e igualitárias voltadas para o mundo enfrentavam crises permanentes todos os dias. Nelas, tudo era crise, e a crise — frisavam — não era exceção, mas a realidade de suas perpétuas construções.
Jamais me esqueci deste trabalho que tenho plagiado ao longo de minha carreira. Os colegas americanos deram-me, num trabalho de semestre, uma diretriz para a vida. 

Despertaram minha incredulidade nos sistemas fechados e estáticos. Só fui duvidar desta dúvida quando, num antigo estado de Goiás, tentei compreender sociologicamente os chamados “índios apinayé” e comecei a admirar esses jê-timbira com o seu saudável e explícito dualismo (“tudo tem o seu contrário" — o mundo se divide em gente do Sol e de Lua), suas associações e, acima de tudo, sua moralidade sem culpa e epifanias. Para eles, tudo o que nos afeta (acidentes, doenças, desonestidade, ressentimento etc...) foi “dado” pelos demiurgos, de modo que não há o que pagar ou compensar, pois não existe um grupo humano que não seja defeituoso ou torto por natureza. Sabem que somos finitos e falam de uma aldeia dos mortos, mas não postulam nenhuma imortalidade, pois até mesmo as almas — após uma longa, mas insossa vida no mundo dos mortos — morrem. Deste modo, não existem perseguidos nem tenebrosos perseguidores, esses avatares da discriminação e do autoritarismo.

Hoje, estou certo de que o humano é defeituoso, carente e encrencado. As utopias são ingênuas compensações inventadas por uma Europa para sempre enredada num realismo cruel e numa redenção impossível. A crise era a nossa marca, e a República jamais seria um sistema estático, mas um modo de vida a ser permanentemente corrigido. Ela, entretanto, só poderia funcionar com bom senso, amparada por uma ética de honestidade. A democracia — se ainda me lembro da conclusão dos meus jovens colegas — não resolve, ela é uma tentativa de resolução.

Findo o curso, eu estava mais para Orwell do que Platão. Foi quando eu me lembrei do Brasil e do sempre lúcido e antiutópico Bandeira. O Manuel que, na sua arrebatadora simplicidade, abafa a fanfarronice ideológica corrente, sussurrava uma utopia tão real quanto profética: 

“Vou-me embora pra Pasárgada/Lá sou amigo do rei/Lá tenho a mulher que eu quero/Na cama que escolherei.”

A esperança é que os “reis” segurem esses amigos que confundem parentesco com papéis públicos, andam de bicicleta, montam em burro brabo e continuam convencidos de que ainda podem venturosamente subir em pau de sebo!
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* Roberto DaMatta é antropólogo
Fonte:  http://oglobo.globo.com/opiniao/pasargada-19555502
Imagem da Internet

Raquel Rolnik: ‘Nosso grande problema não é o déficit de moradia, mas sim o déficit de cidade’

Raquel Rolnik: "Se você for no México ou na China, hoje, encontrará milhões de casas e apartamentos vazios, e muita gente sem um lugar para morar ou vivendo em assentamentos informais". (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Raquel Rolnik: “Se você for no México ou na China,
hoje, encontrará milhões de casas e apartamentos vazios,
e muita gente sem um lugar para morar
ou vivendo em assentamentos informais”.
(Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Marco Weissheimer

Entre 2008 e 2014, a urbanista Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), foi Relatora Especial para o Direito à Moradia Adequada do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Nesta condição, Rolnik viajou pelo mundo e conheceu de perto a realidade das políticas habitacionais de diversos países. E fez isso justamente no período da crise financeiro-hipotecária de 2007-2008 que teve um grande impacto na economia mundial e, especialmente, na vida de milhares de pessoas que perderam suas casas por não conseguir pagar as hipotecas. Enquanto essas pessoas foram para a rua e ainda ficaram devendo para os bancos, estes receberam uma bilionária injeção de dinheiro público para não irem à falência.

No dia 8 de junho, Raquel Rolnik esteve em Porto Alegre participando de um debate na Faculdade de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) sobre o seu mais recente livro, “Guerra dos Lugares. A colonização da terra e da moradia na era das finanças” (Boitempo Editorial). Antes do debate, a urbanista visitou a Ocupação Lanceiros Negros, no centro de Porto Alegre, onde conversou com moradores e com um grupo de jornalistas. Nesta conversa, Raquel Rolnik falou sobre o que define como uma “nova colonização” que transformou a habitação em uma mercadoria e um ativo financeiro. Esse modelo é caracterizado, segundo ela, pela produção massiva de moradias que não atendem, necessariamente, as necessidades das pessoas. “Se você for no México ou na Chin, hoje, encontrará milhões de casas e apartamentos vazios, e muita gente sem um lugar para morar ou vivendo em assentamentos informais”, relata.

A urbanista também fala sobre a situação da política habitacional no Brasil e defende que o problema principal enfrentado pelo país não é o de déficit de moradia. “Isso é uma falácia. Nós temos um problema de déficit de cidade. Não temos produção de cidade suficiente para acolher a totalidade das pessoas”, defende.

Sul21: Como consultora da ONU para o tema da moradia digna, você conheceu de perto a realidade habitacional de muitos países. A partir dessa experiência, qual a sua avaliação sobre o atual estágio das políticas habitacionais?
Raquel Rolnik: A ideia de implantar programas habitacionais massivos de construção de moradias, em nome da ideia de fazer moradias de interesse social, foi implantada mundialmente nas últimas décadas, com resultados muito parecidos. Se você for ao México hoje, na região metropolitana do Distrito Federal, encontrará milhões de casas vazias. Se você for a China, encontrará milhões de casas e apartamentos vazios. Ao mesmo tempo, encontrará muita gente sem um lugar para morar ou vivendo em assentamentos informais construídos pelas próprias pessoas, o que está aumentando cada vez mais. Esse é um fenômeno mundial, especialmente nos países do Sul global, na América Latina, na África e na Ásia. Nestas regiões encontramos essa contradição, uma espécie de descolamento entre o processo de produção do espaço construído e as necessidades das pessoas. Essas duas dimensões tornaram-se coisas completamente independentes, como se fazer cidades não tivesse como objetivo principal satisfazer as necessidades das pessoas.
O mandato de Raquel Rolnik como relatora da ONU coincidiu com o estouro da crise financeiro-hipotecária, que foi a primeira grande crise do modelo de mercantilização e financeirização da moradia. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
O mandato de Raquel Rolnik como relatora da ONU
 coincidiu com o estouro da crise financeiro-hipotecária,
 que foi a primeira grande crise do modelo de mercantilização
 e financeirização da moradia.
(Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Sul21: Qual é a lógica que anima esse tipo e modelo de programa habitacional que pode ser encontrado hoje em diversos países?
Raquel Rolnik: Pela oportunidade que eu tive de ser relatora especial para direito à moradia adequada, da ONU, durante seis anos, pude acompanhar de perto esse processo. O meu mandato coincidiu com o estouro da crise financeiro-hipotecária, que foi a primeira grande crise do modelo de mercantilização e financeirização da moradia. Esse modelo opera uma transformação da moradia como resultado de uma política social, que fazia parte da esfera dos bens comuns de um Estado de bem estar social, em uma mercadoria e em um ativo financeiro. O modelo da moradia como política social funcionava por meio da captura de um excedente pelo Estado para atender as necessidades habitacionais das pessoas.

Esse modelo de moradia teve várias versões, desde a mais radical, implantada pelos países socialistas e comunistas, que produziram massivamente moradia para os trabalhadores, segundo um modelo estatal ou de cooperativas de trabalhadores, até aquela implantada pelos países capitalistas, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, que produziram políticas de acesso massivo à moradia para os setores de menor renda, constituindo-se numa espécie de salário complementar. Neste caso, na sua imensa maioria, estamos falando da construção de moradias de aluguel, em várias modalidades. Esse modelo foi implantado em vários países da Europa, nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, entre outros.

De alguma maneira, esse modelo, não como realidade, mas como utopia, também estava presente nos países latino-americanos e do hemisfério sul em geral. A história da moradia popular nos países do Sul é a história da autoconstrução, da produção do habitat pelas próprias pessoas com os recursos que elas têm, ou seja, nada, em um estado de absoluta precariedade e com relações contraditórias em relação à sua inserção nas cidades.

Esse modelo vai sofrer uma mutação absolutamente radical, em datas distintas, segundo a experiência concreta de cada país. Esse processo teve início nos anos 70 com a formulação do projeto neoliberal. As políticas de Margaret Thatcher, no Reino Unido, e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, foram duas grandes matrizes teóricas, conceituais e práticas da ideia de que a moradia, assim como a saúde, educação e outros serviços não precisavam ser providos pelo Estado, mas sim ser encarados como mercadoria, produzida pelo setor privado. Além disso, em um estágio superior, a habitação se transforma também em um ativo financeiro.

A melhor metáfora que conheço sobre essa transformação é a de Nouriel Roubini, ao dizer que a habitação foi transformada em uma espécie de caixa eletrônico. A hipoteca da casa passou a ser usada para levantar dinheiro no banco para pagar a educação privada, a saúde privada, para financiar o consumo do carro e outros bens de alto valor em um contexto de arrocho salarial. Neste contexto, a moradia foi um dos primeiros itens a sofrer essa mutação em processos de privatização em massa. Tivemos uma mudança de paradigma, da habitação como um bem social, para a moradia como uma mercadoria a ser produzida pelo setor privado e desempenhando um papel importante como ativo financeiro, ou seja, como uma das esferas onde um capital excedente financeiro global poderia aterrissar para multiplicar renda através dos juros.

Há muitas versões dessa mudança, entre elas a da securitização das hipotecas, que é o modelo que vai levar à crise financeira hipotecária. O banco origina uma hipoteca para você obter um empréstimo para comprar sua casa, mas depois vende essa hipoteca, com o retorno que ela promete ao longo dos anos com a prestação que você em tese irá pagar, para outro agente financeiro que, por sua vez, vende para outro, fazendo um pacote com outras financeirizações. Outra versão deste mesmo modelo é o programa Minha Casa, Minha Vida, que é, como costumo dizer, completamente diferente e totalmente a mesma coisa. A minha leitura é que estamos falando da hegemonia de um modelo global existente na totalidade dos países do mundo, mas que, em cada um deles, assume uma face completamente particular.
Raquel Rolnik visitou a Ocupação Lanceiros, no centro de Porto Alegre, e defendeu a criação de programas emergenciais para famílias e indivíduos que estão numa situação de não ter para onde ir. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Raquel Rolnik visitou a Ocupação Lanceiros, no centro de Porto Alegre, 
e defendeu a criação de programas emergenciais para famílias 
e indivíduos que estão numa situação de não ter para onde ir. (
Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Sul21: Esse processo de securitização das hipotecas sofreu alguma mudança significativa a partir da crise de 2007-2008 ou segue operando basicamente com os mesmos instrumentos?
Raquel Rolnik: Eu gosto de usar uma expressão de Neil Smith, geógrafo escocês: o neoliberalismo está morto, porém dominante. E o filósofo italiano Franco Berardi acrescentou: e nós estamos morando dentro do cadáver. É um modelo que já provou ser um fracasso. Ele prometeu uma coisa que não cumpriu: que todo mundo, a partir desse modelo, teria, finalmente, acesso à moradia e segurança da posse do lugar onde habita, sem aumentar o gasto público com isso. Essa foi a promessa que, na verdade, carrega duas mentiras.

A primeira mentira foi revelada pela crise financeiro-hipotecária que expôs o vínculo de dependência existente entre uma família e o lugar onde ela mora às vicissitudes e loucuras de jogos especulativos do mercado financeiro internacional. Quando esse mercado cai, na prática, o que vai ocorrer é que aquela família vai ficar no meio da rua, no caso dos Estados Unidos, vivendo dentro de carros e trailers ou indo morar com algum familiar. No caso de um modelo como o chileno, que é o Minha Casa, Minha Vida vinte anos antes, morando em casas e apartamentos produzidos massivamente em periferias totalmente homogêneas, verdadeiros containers de gente, um do lado do outro, sem emprego, sem acesso a oportunidades de desenvolvimento humano. Moradia não é só quatro paredes e um teto. Ela é muito mais do que isso. Moradia adequada, em sua definição enquanto um direito humano, é um portal a partir do qual é possível acessar às cidades e os benefícios que elas podem oferecer.

A segunda mentira é que esse modelo economizaria recursos públicos. Essa é a mentira mais deslavada de todas. A lógica geral desse modelo é produção em massa de moradia pelo mercado e compra da casa própria pelas famílias por meio de crédito bancário. Esse crédito financeiro é altamente subsidiado pelos fundos públicos em todos os casos. No caso do Brasil é 100% fundo público, via Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) ou via orçamento da União por meio de subsídios para as famílias de menor renda. No caso dos Estados Unidos, que é diferente do brasileiro, a compra da casa própria envolve várias isenções posteriores nas declarações de imposto de renda. Depois da crise hipotecária-financeira qual foi a reação dos governos? Os bancos centrais injetaram quantidades industriais de dinheiro público nos bancos para que eles não quebrassem, enquanto as pessoas ficaram no meio da rua sem casa. Na Inglaterra, milhares de jovens trabalhadores e de classe média chegam aos 30 anos continuando a viver na casa dos pais, pois não têm onde morar. Embora esse modelo já tenha revelado sua total incapacidade de dar uma resposta adequada às necessidades de moradia dos mais pobres no mundo, ele ainda é o modelo dominante, reiterado ad infinitum.

"Quando você faz um programa de produção em massa de casas sem ter a produção de cidade embaixo dela, você acaba gerando os problemas que foram gerados no Chile e no México". (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
“Quando você faz um programa de produção em massa de casas sem ter a produção de cidade embaixo dela, você acaba gerando os problemas que foram gerados no Chile e no México”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

 Sul21: Quais seriam as possíveis alternativas a esse modelo?
Raquel Rolnik: Um os grandes problemas desse modelo é ser um modelo único. Se formos considerar quais são as necessidades habitacionais concretas das pessoas no mundo, não há nenhum modelo único capaz de atendê-las todas, porque elas são múltiplas e são variadas. Isso é verdadeiro para o Brasil e para qualquer outro país. O modelo da casa própria individual construída em condomínio pode ser um modelo que responda às necessidades e aos desejos de certos grupos familiares, mas ele está absolutamente longe de ser um modelo único. Vou dar um exemplo. Nós estamos aqui numa ocupação, como milhares de outras pelo Brasil afora, que está atendendo a uma necessidade emergencial de famílias e indivíduos que estão numa situação de não ter para onde ir, por várias razões. Há mulheres que estão saindo de situações de violência doméstica, há tomadas de territórios populares por milícias ou pelo tráfico de drogas, há pessoas que não conseguem mais pagar o aluguel hoje e vão pra rua amanhã. Então, qual é o programa que temos hoje que atende a situações de emergência como estas? Não temos.

Um programa de atendimento emergencial deveria contar com um estoque de moradia disponível para funcionar como casa de acolhimento, como casa de passagem, com uma estrutura básica que possa apoiar a pessoa até ela ficar de pé e poder dar o passo seguinte na sua vida. É uma política social, não é meramente uma política de construção de casas. Nosso problema no Brasil não é déficit de moradia. Isso é uma falácia. Nós temos um problema de déficit de cidade. Não temos produção de cidade suficiente para acolher a totalidade das pessoas. Quando você faz um programa de produção em massa de casas sem ter a produção de cidade embaixo dela, você acaba gerando os problemas que foram gerados no Chile e no México, por exemplo, e que estão começando a ser gerados aqui no Brasil com a produção massiva do Minha Casa, Minha Vida faixa um, na extrema periferia.

Outra questão que dialoga com esse lugar onde a gente está (Ocupação Lanceiros Negros) é que nós temos uma quantidade enorme de prédios vazios e subutilizados, muito bem localizados nas cidades, que já foram moradia ou espaços comerciais. Nós precisamos de um programa que reabilite esses edifícios para poder produzir moradia. Há muitos territórios populares autoconstruídos que têm plenas condições de permanecer onde estão e melhorar infinitamente a condição urbanística das pessoas que vivem ali. Precisamos de um programa para urbanizar esses assentamentos. Estou falando de uma gama de programas. Nenhum modelo único vai atender a quantidade diversificada de demandas que nós temos. A solução não é uma solução, mas são muitas.

Outra dimensão que devemos debater é essa verdadeira obsessão com a propriedade privada individual como modelo único de relação entre as pessoas e o território que elas ocupam ou moram. Por que a propriedade privada individual tem que ser o modelo único? Ela pode existir sem problema, ser uma referência, uma alternativa, mas ela não pode ser imposta como modelo único para o conjunto da sociedade. Hoje, ela é o modelo único porque é a única forma de relação entre os indivíduos e o espaço que eles ocupam que pode circular livremente como um ativo financeiro numa escala global. É por isso que ela é adotada, além, evidentemente, de seu caráter ideológico, pois representa o fortalecimento da ideia que é um dos fundamentos do modelo liberal de sociedade, da livre concorrência pelo mercado, do Estado liberal, da relação entre a liberdade e a cidadania. Há um sentido, portanto, pelo qual a propriedade individual é imposta.

"Quem resistiu melhor à crise financeiro-hipotecária, do ponto de vista da moradia, nos Estados Unidos e na Europa, foram as habitações mais cooperativas, menos expostas às oscilações do mercado". (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
“Quem resistiu melhor à crise financeiro-hipotecária, do ponto de vista da moradia, nos Estados Unidos e na Europa, foram as habitações mais cooperativas, menos expostas às oscilações do mercado”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Se examinarmos quem resistiu melhor à crise financeiro-hipotecária, do ponto de vista da moradia, nos Estados Unidos e na Europa, foram as habitações mais cooperativas, menos expostas às oscilações do mercado. O que estou dizendo é que podemos adotar outros modelos, como o de aluguel, de propriedade cooperativa, coletiva, copropriedade e vários outros possíveis. Hoje não temos opção. Ou você fica na fila para receber uma casa em um programa massivo de habitação de propriedade privada individual ou não vai ter casa.

É claro que a crise econômica que estamos vivendo no Brasil é absolutamente trágica pela instabilidade que ela gera, pelo desemprego e outros problemas. Mas ela é também uma excelente oportunidade para se pensar em alternativas. É importante pensar, inclusive do ponto de vista da gestão das cidades, como apoiar esses movimentos de auto-organização das pessoas. Quem está numa ocupação hoje está morando. Devemos pensar como é possível melhorar essa condição, para que ela tenha mais qualidade e menos precariedade e instabilidade.

Sul21: O governo interino de Michel Temer já emitiu alguns sinais que pode responder com repressão ao aumento das mobilizações dos movimentos sociais que lutam por moradia. Esses sinais já apareceram aqui em Porto Alegre, em São Paulo, Brasília e outras cidades. Como você analisa a possibilidade de uma escalada de violência contra os movimentos sociais, especialmente pela ação das polícias militares?
Raquel Rolnik: Acho que essa é uma das grandes incógnitas e um dos grandes temores na atual conjuntura. Um dos elementos presentes no golpe jurídico-midiático que aconteceu no Brasil, retirando a presidenta Dilma e colocando um governo interino no lugar, é que, para que ele fosse possível, passou-se por cima de vários dispositivos muito importantes da ordem legal e jurídica. Para quem já viveu processos semelhantes em outros momentos da nossa história, a pergunta é: onde isso vai parar?

Em todo esse processo de afastamento da presidenta Dilma, eu pensei muito na ascensão do nazismo. Diante de uma situação de instabilidade econômica real, de instabilidade política real e de crise de representação política real, onde os cidadãos têm um sentimento de insegurança e temor, as consequências são muito perigosas. Como muitos desses cidadãos foram manipulados no sentido de construir um culpado – no caso, Dilma, Lula e o PT -, assumem como sua a tarefa de acabar com esse culpado. Isso me lembra muito o nazismo, que trabalhou essa lógica ao extremo, até produzir a eliminação física de judeus, comunistas, homossexuais e ciganos, entre outros, apontados como grandes responsáveis pela crise econômica e política real que a Alemanha estava vivendo nos anos 30.
"Em todo esse processo de afastamento da presidenta Dilma, eu pensei muito na ascensão do nazismo". (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
“Em todo esse processo de afastamento da presidenta Dilma, eu pensei muito na ascensão do nazismo”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O fascismo se vale desse apoio das massas muito incondicional para criar estados de exceção cada vez mais totalitários. Isso nos faz pensar, sim, no tipo de repressão que os movimentos sociais vão enfrentar, que tipo de restrição à liberdade de expressão que poderemos enfrentar. De que forma isso vai evoluir? Não estou afirmando que vai evoluir nesta direção, mas acredito que há um grande perigo disso acontecer. Daí a importância da resistência, da denúncia, da organização e mobilização neste período. Independente do afastamento ou não da Dilma e do PT, essa questão permanece na ordem do dia.

Por outro lado, creio que os movimentos por moradia precisam fazer uma profunda reflexão. Eu tenho um profundo respeito pela trajetória desse movimento no Brasil. Ele foi o sustentáculo histórico da luta pela reforma urbana desde a redemocratização. O movimento de moradia no Brasil é protagonista na elaboração de políticas públicas e no processo de democratização do país. Mas me parece que, ao apoiar o programa Minha Casa, Minha Vida, o movimento acabou compactuando com a entrada no Brasil de uma política de moradia que não é aquela que melhor atende as necessidades e interesses dos trabalhadores e das populações de menor renda. Será que não é hora de romper com esse modelo? Vamos ver os movimentos contraditórios desse governo ilegítimo e golpista com o qual, me parece, não devemos ter nenhum tipo de diálogo. Eu sou uma crítica de várias políticas do PT e do governo Dilma, mas foi um governo eleito pelo povo.
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Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/nosso-grande-problema-nao-e-o-deficit-de-moradia-mas-sim-o-deficit-de-cidade/

'Quando ousaste foste homem!'

Luiz Felipe Pondé

 


Quem disse essa frase que está no título acima? Se você conhece a obra do autor em questão, já sabe quem disse essa famosa frase. Ela foi dita num contexto de uma peça em que a personagem feminina, uma das mais famosas da literatura clássica, fala para seu marido, que naquele momento se encontra reticente em levar adiante o plano que apresentara a ela momentos antes.

Essa frase carrega em si uma concepção de homem (gênero) que sempre foi muito comum em nosso imaginário: aquele, como diz nossa famosa personagem, que tem coragem de seguir seu desejo e suas ambições.

Essa mulher diz essa frase porque seu marido recuou num projeto específico, que faria dele rei. Mas qual concepção de homem é esta? Trata-se da concepção segundo a qual um homem é medido pela ousadia e coragem acima de qualquer limite moral.

O filósofo Adam Smith, no século 18, temia que o avanço da sociedade comercial (o que alguns chamam de sociedade de mercado, outros de capitalismo) destruísse as chamadas virtudes guerreiras do homem, fazendo dele um "contador de dinheiro" sem ambição nenhuma além de acumular riquezas materiais por meio dos negócios.

Interessante observar que muitos estudiosos da pré-história levantam hipótese semelhante quando da nossa passagem da condição de caçador coletor para a de agricultor, preso à terra, sem poder "ser ousado", sempre escravo da colheita a vir. Na condição de agricultor, o homem tornara-se temeroso dos riscos de perder todo o cultivo sob a ameaça de invasores. A perda da mobilidade em nome do "patrimônio" teria feito o agricultor mais covarde do que o caçador coletor.

No mundo contemporâneo, o processo de acovardamento do homem é crescente. Mas isso é apenas consequência da civilização enquanto tal, no seu modo crescente de domesticação dos afetos e dos humores.
De volta à nossa personagem feminina. Sua frase magnífica cobra de seu marido que volte à ousadia que demonstrara quando de sua ideia "genial" de matar o rei Duncan da Escócia, a fim de tomar seu trono. Já sabe de qual mulher estou falando?

Seu marido, guerreiro reconhecido como virtuoso pelo próprio rei (estamos na Idade Média), se pergunta, afinal, por que ele não poderia ser rei, uma vez que era absolutamente acima da média em comparação aos outros homens à sua volta.

Momentos depois, quando o rei Duncan se encontra na casa do casal em questão, o marido de nossa famosa personagem, em conversa com ela, demonstra dúvidas com relação ao plano inicial de matar o rei e tomar seu trono. Demonstra ter medo das consequências do seu ato.

Sim, estamos falando do casal Macbeth, da peça homônima de Shakespeare. A frase em questão é dita pela Lady Macbeth diante das dúvidas de seu marido quanto a levar a cabo o assassinato do rei.

A frase "quando ousaste foste homem" representou para a fortuna crítica o reconhecimento dessa mulher como a maior vilã da literatura ocidental, talvez equiparada a Medeia, na tragédia homônima, com a diferença que Medeia, ao assassinar seus filhos com Jasão, tinha pelo menos a desculpa do ciúme e do desespero diante do fato de ser trocada pela princesa, mais jovem e mais bela, que ela também matará. O ódio de Medeia é de alguma forma compreensível.

A fala de Lady Macbeth não teria a mesma justificativa. Ela, em vez de apoiar seu marido em suas dúvidas morais, se desespera diante da aparente covardia dele.

Ao dizer que ele era mais homem quando ousava, Lady Macbeth falava da mais atávica das expectativas de uma mulher para com seu homem. Claro que, diante da monstruosidade que seu marido realizará, ela se arrependerá do que disse.

Nunca achei a Lady Macbeth um monstro. Sempre vi nela apenas uma expectativa feminina para com a masculinidade, expectativa esta já há muito inexistente.

O mundo contemporâneo jamais produzirá uma Lady Macbeth. Não haverá mais quaisquer expectativas quanto à masculinidade. O conceito caducará. Restará apenas o estuprador, o frouxinho e o menino bonzinho. O futuro próximo nos legará uma vida pequena, farta de cacarecos e cheia de tédio.
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Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2016/06/1783403-quando-ousaste-foste-homem.shtml
Imagem da Internet



Por que bacharéis em Direito escrevem tão mal?

Wagner Francesco*

Por que bacharis em Direito escrevem to mal
No geral, bacharéis e bacharelandos em Direito escrevem muito mal - e o problema disso é fácil de descobrir: todos escrevem muito pouco. Em geral escrevem pouco porque na universidade fazem em regra duas atividades: responder questões objetivas ou apresentar seminários - lendo slides mal feitos!
Para dar um exemplo de como as faculdades não contribuem, na instituição que eu estudo o aluno ele é realmente submetido à prática de escrever apenas num evento chamado PI - Projeto Interdisciplinar. E este PI ainda é planejado de forma equivocada, porque são vários alunos, geralmente equipe com 6 ou 8, escrevendo um texto. Simplesmente não funciona! Escrever é como escovar os dentes: cada um com sua escova!

Então não há o exercício da escrita, da produção de textos, do treinamento para produzir novas doutrinas. Na sua faculdade é diferente? Conte-me nos comentários sua experiência!

Por que bacharis em Direito escrevem to mal

Os bacharelandos não escrevem muito e ainda leem demais. Mas leem o quê? Códigos, resumos, transcrições do que o professor fala na sala... O fato é que ler muito é prejudicial para quem quer aprender a escrever. Eu estou dizendo isto? Não, foi o Schopenhauer. Em um texto chamado "O perigo da leitura excessiva" ele chegou a dizer:
Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: repetimos apenas o seu processo mental. Ocorre algo semelhante quando o estudante que está a aprender a escrever refaz com a pena as linhas traçadas a lápis pelo professor.[...] Enquanto lemos, a nossa cabeça, na realidade, não passa de uma arena dos pensamentos alheios.
Foi o Albert Einstein quem disse em uma entrevista em 1929:
A leitura após certa idade distrai excessivamente o espírito humano das suas reflexões criadoras. Todo o homem que lê demais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar.
Ler não é ruim. De forma alguma. Ler é urgentemente necessário, mas o problema é o que se lê, como se lê e com qual finalidade. Lemos, no geral, para nos encher de informação. Informação é ruim? Não. Mas ficar sem saber o que fazer com ela é, sim. Somos treinados para decorar fórmulas, juntar jurisprudências e por esta razão é que no geral o bacharel em Direito escreve muito mal. E por escrever mal eu quero dizer que realmente escreve mal no sentido de que assassina a língua portuguesa, bem como escreve mal no sentido de que raramente apresenta para o mundo um caminho diferente para ver as coisas.
Talvez valha para o ensino jurídico o alerta que Paulo Freire deu em seu livro "Educação na cidade":
Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.
Isto é, não basta ler as leis e decorar as jurisprudências, é preciso questionar por que elas existem. E não basta questionar, é preciso ultrapassar as ideias postas e apresentar novas. No geral, por culpa das Universidades que se transformaram em cursinhos para a OAB e Cursos para concursos públicos, estamos muito longe de sermos bons pensadores, bons escritores...

Talvez fosse o caso da gente seguir o conselho do professor Alexandre Morais da Rosa: "o ideal seria fazer a prova da OAB no começo do curso, porque aí depois seria o resto do curso para realmente ensinar o Direito".

Direito é produção de ideias, é construção de argumentos, é apresentação de contraditórios - e saber escrever é essencial. 

Na pátria educadora chamada Brasil, o bacharelando em Direito precisa despertar!
* Wagner Francesco ⚖
Theologian, Paralegal and Ghost Writer
Nascido no interior da Bahia, Conceição do Coité, Teólogo e Acadêmico de Direito. Pesquiso nas áreas do Direito Penal e Processo Penal. facebook.com/autor.wagnerfrancesco 📚
Fonte:  http://wagnerfrancesco.jusbrasil.com.br/artigos/352571476/por-que-bachareis-em-direito-escrevem-tao-mal?utm_campaign=newsletter-daily_20160622_3587&utm_medium=email&utm_source=newsletter

Felipe Fernández-Armesto: “Vivemos uma era de ansiedade irracional”

 
Nunca antes a humanidade tinha experimentado de tão perto a mudança, nem tão rapidamente. As transformações se sucedem, já não de uma geração para outra, mas de uma década para outra. Os idosos, cujas vidas foram se estendendo até registros históricos, veem como seu mundo, de repente, é irreconhecível. O historiador Felipe Fernández-Armesto (Londres, 1950), que desenvolveu grande parte de sua carreira docente em Oxford e agora é professor da Universidade de Notre Dame (EUA), investiga as razões dessa mudança frenética, suas causas e suas consequências em seu mais recente livro, Un pie en el río. Sobre el cambio y los límites de la evolución (Turner) [Um pé no rio. Sobre a mudança e os limites da evolução], sobre o qual conversou em Madri, na Fundação Rafael del Pino, horas antes desta entrevista. Para entender o ser humano, diz ele, “devemos compará-lo com outros animais”.

A entrevista é de Cristina Galindo, publicada por El País, 20-06-2016.

Eis a entrevista.

Como essa vida cambiante, cada vez mais acelerada, desperta receios?
Mudamos num ritmo sem precedentes na história do mundo. Isso preocupa as pessoas, que sentem que podem perder o fio de sua identidade, de suas tradições, de sua cultura... Para alguns, a chegada de imigrantes representa uma ameaça. Esta é uma era de ansiedade irracional. Deveríamos nos ajustar mentalmente à nova situação.

Como?
Precisamos tentar entender a mudança e as causas de sua aceleração, que se deve principalmente aos intercâmbios culturais provocados pela globalização. Depois de nos dar conta disso, talvez nos tranquilizemos. Quando compreendemos algo, isso já não nos dá tanto medo. As pessoas ficam mais tranquilas. Por exemplo, ninguém entende o fenômeno Trump. É surpreendente que tenha tanto apoio. Fico horrorizado com a ideia de que haja pessoas que votem em partidos nacionalistas ou formações com ideias simplistas. São pessoas que pensam que podem sair dos seus problemas culpando os outros.

Vivemos uma época turbulenta: crise, desemprego, alterações climáticas, terrorismo... É difícil não se preocupar.
Sim, nos sentimos muito ameaçados. Há mais milenarismo no mundo atual do que no da Idade Média. O temor de que tudo se acabe é mais difuso do que nunca. E, objetivamente..., o mais provável é o desastre.

 “Mudamos num ritmo sem precedentes. 
Isso inquieta. 
Há mais milenarismo agora 
do que na Idade Média”

A mudança se acelera, mas está presente na vida dos seres humanos há milhares de anos. Em seu livro o senhor pergunta por que os seres humanos têm história e os animais não.
Para entender o ser humano devemos compará-lo com outros animais. Os animais têm história até certo ponto. É uma questão de grau, não de essência. Mas nada comparado à nossa: tão intensa, tão variada, tão cheia de acontecimentos. Cheguei à conclusão de que o motor da mudança é a imaginação, e ela desempenha um papel importante na cultura. Nós, seres humanos, imaginamos um mundo diferente do qual vivemos e trabalhamos para alcançá-lo. Defendo a tese de que essa incrível imaginação humana resulta da união de duas faculdades que evoluíram. Uma delas é a memória, que é a capacidade de ver o que já não existe. No caso de memória humana, sua magia é que ela é muito enganadora. Distorcemos os fatos que lembramos. Por isso a falsa memória é criativa. O segundo ingrediente é a antecipação, uma faculdade que nos permite ver o que ainda não existe. Enquanto a memória humana é débil e falaciosa, nossa faculdade de antecipação é superdotada, está acima daquela de outros animais. Os caçadores têm de antecipar a situação da presa e os movimentos dela. Essa combinação de falsa memória e antecipação aguda nos leva a ser o que chamo de animais imaginativos.

Os grandes predadores não desenvolveram essa antecipação e caçam há milhares de anos.
Porque não precisam dela. Tigres e leões são fisicamente superdotados para a caça, enquanto os seres humanos são frágeis, lentos...

Alguns diriam que o que distingue os humanos dos animais é a inteligência e a linguagem.
Não sinto isso. A doutrina tradicional que diz que os seres humanos são superiores é altamente questionável. Temos que nos ajustar mentalmente a uma nova situação, mais igualitária, entre as espécies. Acredito que os seres humanos têm certas habilidades mais bem adaptadas à vida humana, mas se fôssemos para a floresta, nós seríamos os tolos. A inteligência é uma qualidade muito relativa. Os chimpanzés dominam a nossa linguagem com grande certeza, enquanto nós parecemos surdos-mudos quando tentamos nos comunicar com eles com sua própria linguagem. Nem em termos de inteligência e de linguagem é o caso é tão claro. Há animais culturais, no sentido de que têm comportamentos que não são instintivos, mas desenvolvidos pela aprendizagem.

 “Os seres humanos têm capacidades 
para a vida humana; 
se fôssemos para a floresta, 
nós seríamos os tolos”

A memória humana falha mais?
Depende da definição de memória. No caso de alguns animais, suas memórias superam as nossas. Por exemplo, o ser humano é capaz de se lembrar de uma série de sete números. Enquanto os gorilas e chimpanzés se lembram de nove. Além disso, eles gastam menos tempo para memorizá-los e se lembram por períodos mais longos. A razão disso é provavelmente que, de acordo com o grande neurocientista de Harvard Daniel Schacter, os seres humanos habitam grandes sociedades e lembrar-se de tudo seria insuportável. Temos o vício de pensar que tudo o que é nosso é superior, e não é verdade.

Como historiador muito interessado em ciência, o que o senhor pensa da relação entre a ciência e as humanidades?
Até bem recentemente a ciência era a norma acadêmica. As humanidades tentavam se qualificar cientificamente: falava-se de ciência histórica, ciência literária... Hoje vemos certa convergência conceitual entre as diferentes disciplinas. As humanidades estão se aproximando das ciências e vice-versa.

Com tantas mudanças, a história parece cada vez menos algo do passado. O que os historiadores estudam: o passado, o presente, o futuro?
Não há diferença: o presente é o passado que acaba de acontecer, e o futuro é o passado que ainda não aconteceu.
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Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/556638-vivemos-uma-era-de-ansiedade-irracional

terça-feira, 21 de junho de 2016

Vladimir Safatle: O Brasil na era dos esgotamentos da imaginação política.


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"Estamos em um momento de triplo esgotamento: de uma era histórica, de um modelo de desenvolvimento e da esquerda brasileira”, analisa Vladimir Safatle.

Por Ricardo Machado

A Nova República, inaugurada no Brasil pós-ditadura, que se tornou um regime de acomodação e integração dos setores que haviam apoiado o regime militar, se esgotou. Ao invés de a esquerda romper com esse modelo, adotou como modo de governo a aliança com os núcleos empresariais, transformando-se em um grande modelo de gestão da corrupção institucionalizada, o que levou ao próprio esgotamento.

"Portanto, esse era o momento de a esquerda brasileira dar um passo atrás e falar: não é possível fazer dessa forma, não é possível justificar nada desta maneira e não é possível vir com essa história de que a corrupção é um dado inerente ao sistema capitalista. Isso é um desrespeito, não só à população, mas à própria história da esquerda”, critica Vladimir Safatle em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line.

Dos esgotamentos de diversos modelos, inclusive o de representatividade tal como está posto, emergiu uma nação de zumbis que têm na melancolia seu modo de vida. "O poder age internalizando uma experiência melancólica, o poder nos melancoliza e essa é sua função, fazer com que nos deparemos a todo momento com a crença da impotência da nossa força”, analisa. "Isso que acontece no Brasil é só uma explicitação de um processo cultural, é assim que ele se perpetua. A primeira questão para recuperarmos nossa imaginação política é fazermos a crítica aos afetos melancólicos”, complementa.

"O problema é que se reduziu o discurso intelectual no Brasil a uma lógica de esconjuração, então não faz mais sentido nenhum esperar que se tenha uma formação efetiva para preparar as pessoas para alguma forma de debate”, pondera Safatle. "Há uma série de responsáveis, não é só o pensamento conservador. Mesmo no interior da esquerda há uma incapacidade da intelectualidade de se colocar como uma força crítica, como se a ideia de crítica já fosse um crime de lesa-majestade, já fosse um tipo de imposição de classe”, ressalta.
Vladimir Safatle é graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo - USP e em Comunicação Social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing. Realizou mestrado em Filosofia pela USP e doutorado em Lieux et transformations de la philosophie, pela Université de Paris VIII. Atualmente é Professor Livre Docente do departamento de Filosofia da USP. Foi professor visitante das Universidades de Paris VII, Paris VIII, Toulouse, Louvain e Stellenboch (África do Sul), além de responsável de seminário no Collège International de Philosophie (Paris).
É um dos coordenadores da International Society of Psychoanalysis and Philosophy, do Laboratório de Pesquisa em Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (Latesfip) e presidente da Comissão de Cooperação Internacional (CCint) da FFLCH-USP desde 2012.
É autor de diversos livros, dentre os quais destacamos A paixão do negativo: Lacan e a dialética (São Paulo: Unesp, 2006), Lacan (São Paulo: Publifolha, 2007), A esquerda que não teme dizer o seu nome (São Paulo: Três Estrelas, 2012) e O circuito dos afetos. Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo (São Paulo: Cosac Naify, 2015).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor analisa a atual conjuntura?
Vladimir Safatle – Estamos em um momento de triplo esgotamento: de uma era histórica, de um modelo de desenvolvimento e da esquerda brasileira.
A era histórica é a Nova República, que acabou em 2013, um momento histórico baseado em certa ideia de conciliação e redemocratização, mas uma redemocratização que durou 30 anos e nunca se realizou por completo, porque nunca existiu para se realizar por completo.

Esgotamento da Nova República
A Nova República nasceu da união entre o PMDB e o PFL para a eleição de Tancredo Neves e essa união selou toda a história do Brasil até hoje. Assim foi estabelecido um regime de governabilidade baseado na integração de setores que haviam apoiado a Ditadura Militar. A integração não significava só chamá-los para dentro do governo, significava adotar o seu modo de governo, seus modos de aliança, seus modelos de relação com os núcleos empresariais e tudo que fará com que a Nova república se transforme em um grande modelo de gestão de uma corrupção institucionalizada, que passará por todos os partidos.

Isso é uma das coisas mais fantásticas dos problemas de corrupção no Brasil, eles tocam todo mundo, percebemos isso muito claramente porque é um modo de governo, não uma prática específica. Com esse regime de governabilidade, foi instalado na Nova República um sistema de travas, essas travas significavam que não há como passar grandes reformas dentro de uma coalizão onde parte dela é exatamente quem se beneficia do atraso.

Uma das questões é pensar por que tivemos por 13 anos um governo de esquerda e as pautas tradicionais do reformismo social-democrata sequer foram cogitadas. Um exemplo tácito é a não discussão da redução da jornada de trabalho, uma pauta tradicional do sindicalismo, pois vivemos em um país com uma jornada de trabalho de 44 horas semanais, enquanto boa parte do mundo civilizado tem 40 horas e alguns países têm menos de 35 horas.

Sistema de pacificação nacional
Na Constituição o único imposto que é constitucional é o imposto sobre grandes fortunas. A Constituição foi promulgada em 1988, e até hoje não teve uma lei para poder aplicar um imposto constitucional. São aberrações inacreditáveis, mas isso é justificável dentro do modelo da Nova República.

Por outro lado, esse modelo de travas foi um sistema de pacificação nacional porque ele significa que todos os que fossem entrar no governo precisariam gerenciar o atraso e foi assim com Fernando Henrique, com o Lula e com a Dilma, mas em troca quem ganha a eleição governa. Isso funcionou até o momento em que, em 2013, ficou muito claro o descolamento da casta política brasileira e as expectativas da população.

Não lembro nenhum outro momento da história brasileira em que houvesse uma situação tão dramática quanto a ocasião em que uma massa de pessoas em Brasília corria em direção ao Congresso e tudo o que a polícia conseguiu fazer foi empurrar a massa para o lado, para que os manifestantes tocassem fogo no Palácio Itamaraty. Esta é uma das cenas mais impressionantes da história brasileira.

O vazio pós-2013
Essa cena demonstrava muito claramente a que ponto tínhamos chegado. E, no entanto, nada ocorre depois de 2013, não há nenhum ator político capaz de ouvir as demandas, tanto à esquerda quanto à direita. Então, eu diria que desde 2013 este país vive em suspensão, é um país suspenso no ar à "espera de”, incapaz de incorporar demandas de justiça social – no sentido mais fora do termo –, ou seja, eu quero saúde e educação "padrão Fifa”.

"Esse era o momento de a esquerda brasileira
 dar um passo atrás"

Esgotamento do Lulismo
Nesse ponto vem o segundo esgotamento, o esgotamento do modelo de desenvolvimento brasileiro conhecido como lulismo. O lulismo, por um lado, foi o ápice da Nova República, é o que ele conseguiu fazer de melhor no sentido de aproveitar esse sistema de travas e de coalizão e passar a um programa mínimo de assistência social que colocou 36 milhões de pessoas em ascensão. Isto é, tirou 36 milhões de pessoas da miséria e da pobreza e colocou em ascensão uma classe média pobre, mas que tinha poder de compra.

Também foi consolidado o aumento real do salário mínimo, reorganizado o capitalismo de Estado brasileiro através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, e houve a perpetuação do modelo de coalização herdado da política da Nova República. A esquerda conseguiu fazer essa perpetuação porque ressuscitou o único modo de incorporação das massas ao processo político que o Brasil conhece, que é o populismo.

Quando o Lula vestiu o macacão da Petrobras, colocou as mãos no petróleo e repetiu a foto de Getúlio Vargas, ele sabia muito bem o que estava fazendo, pois não se repete uma das imagens mais paradigmáticas da história brasileira impunemente; de fato, ele compreendia que ele funcionava no modelo varguista. O modelo varguista é aquele modelo em que Vargas dizia: "meus problemas não são meus inimigos, meus problemas são meus aliados”.

Esse tipo de sistema de incorporação funciona assim: incorpora-se a massa excluída do processo político, mas o preço disso é colocar as demandas populares no mesmo nível das demandas das oligarquias insatisfeitas e que iam, então, entrar juntamente em uma coalizão contraditória. Uma coalizão que, por ser contraditória, durava só um tempo e explodia porque chegava um momento em que tinha que gerir insatisfações em todos os lados. Só que o Vargas morreu, então ele não precisou ver isso, mas o Lula não, ele viu o processo se degradando.

Sem alternativas
Como não havia uma segunda alternativa, um segundo ciclo de políticas, não havia nada desde 2010, toda a criatividade política que foi colocada no governo paralisou, não teve nenhum programa novo, a não ser programas muito pontuais, como o Mais Médicos e outros desse tipo. Entretanto, precisávamos de um verdadeiro segundo ciclo de política de combate à desigualdade social, que nunca foi colocado sequer em pauta. Então, o que aconteceu? Chegou 2013 e as pessoas perceberam que o Brasil estava paralisado, que elas tinham subido de renda, só que elas tinham produzido também novas necessidades e essas novas necessidades estavam corroendo a renda delas. Então, o sujeito saiu da escola pública e foi colocar seus filhos na escola privada e viu que estava perdendo parte do seu salário para a escola privada de péssima qualidade; ele saiu do sistema SUS e foi comprar um plano de saúde e viu a mesma coisa; ele saiu do ônibus e comprou um carro parcelado e também viu a mesma coisa. Se juntarmos esses três gastos já se corrói um terço do salário dessa dita nova classe média. Assim, juntaram-se duas coisas: o fim da Nova República e o esgotamento de um modelo de desenvolvimento econômico.

Esgotamento da esquerda brasileira
Só que ainda teve um terceiro elemento, e aí sim foi explosivo: o esgotamento da esquerda brasileira, que era uma corrente política, que desde 1945 sempre teve força, mesmo na Ditadura Militar. Na Ditadura a esquerda perdeu, mas não foi vencida porque conseguiu consolidar uma resistência considerável em vários setores, formando uma parcela considerável da opinião pública, o que não deixa de ser impressionante. Então, o que acontece? Essa esquerda terá um curto-circuito porque chega um momento em que este modelo de governabilidade começou a cobrar o seu preço, e o seu preço era a corrupção, entre outras coisas.

Portanto, esse era o momento de a esquerda brasileira dar um passo atrás e falar: não é possível fazer dessa forma, não é possível justificar nada dessa maneira e não é possível vir com essa história de que a corrupção é um dado inerente ao sistema capitalista. Isso é um desrespeito, não só à população, mas à própria história da esquerda. De certa maneira, vai retirando legitimidade de enunciação à medida que se flexibilizam os julgamentos éticos e morais a partir dos interesses imediatos, submetendo os julgamentos a um cálculo político.

Todavia, com o Partido dos Trabalhadores - PT há uma diferença essencial: o partido passou 40 anos "enchendo o saco” do país inteiro, dizendo que era um absurdo a corrupção, que de fato era uma imoralidade, e aí, de repente, passa a fazer a mesma coisa. É claro que a bomba vai estourar no colo do PT e as pessoas vão dizer "você eu não quero nunca mais”.

O país dos zumbis
Os três processos se engatam e ao se engatar chegamos à situação atual, muito próxima daquilo que Freud comenta em A Interpretação dos Sonhos (Porto Alegre:L&PM Editores, 2012), que ao acordar sente uma profunda tristeza ao lembrar da cena do jantar em seu sonho, em que seu pai está sentado à sua frente. Freud pensa o óbvio: "meu pai estava morto e eu não sabia”. Essa é a melhor descrição da nossa situação, temos um país de zumbis, que não consegue nem mais mentir. Estamos em um processo de desconstrução contínuo de tudo, onde fica muito claro que há uma oligarquia financeira que tomou de assalto o poder e vai impor um modelo de gestão, que é o modelo de terra arrasada, o que nunca passaria por nenhuma eleição. Por isso eles tentam impor isso à força, porque não há outra maneira.

Estamos em uma situação tal, que não se consegue mais incorporar nenhuma força de oposição, porque se tem um modelo de funcionamento da esquerda que precisaria ter sido abandonado e não foi, e, quase como um ato reflexo, tenta-se recolocar esse modelo, mas ele não funciona mais. Então, temos essa situação, que é a pior situação possível. Isso me lembra um pouco a situação mexicana, que é um país que ficou parado durante 50 anos devido a uma contradição que, inclusive, estava descrita muito claramente no nome do partido que governou o país nesse período, o Partido Revolucionário Institucional – PRI.

"Não é possível vir com essa história de que a corrupção é um dado inerente ao sistema capitalista"

IHU On-Line – Esse esgotamento da esquerda, que também se manifesta com a falta de diálogo com 2013, é uma crise do pensamento de esquerda?
Vladimir Safatle – Tem uma esquerda para qual a única possibilidade de existência se dá sob a forma de representação; se não consegue representar algo, esse algo não existe. Acho engraçado, porque fizemos a crítica da representação da filosofia há mais de 100 anos, mas na política foi impossível de fazer. É como se falasse em crítica da representação como se fosse um convite ao autoritarismo, o que considero uma coisa sem pé nem cabeça. Para eles, se você não dramatiza os conflitos sociais nas formas tradicionais de representação, ou seja, incorporação em um partido, sindicato ou associação, então o processo não existe ou é um protofascista.

Agora tem outro lado da esquerda, que fazendo a crítica da representação, compreendendo que essas estruturas não dão mais conta dos processos de mobilização, partiu para uma fragmentação absoluta de pautas. Então há pautas específicas que só conseguem gerar mobilização durante um tempo, só que elas não conseguem construir uma constelação, e, com isso, o que acontece?

Estamos nessa situação surreal em que há mobilizações fortes, como as ocupações estudantis, as ocupações dos artistas no Ministério da Cultura, a luta das feministas e toda uma série de discussões, mas que não constituem uma constelação. A constelação pressupõe o quê? Que quem entra na constelação pode ocupar qualquer espaço, circula em qualquer espaço, isto é, quebra a ideia de lugares e de fala específicos, o que é uma oposição sacrossanta para uma certa ideia de mobilização hoje. Estabelecem-se lugares de fala, mas não se percebe o quão isso é autoritário e antipolítico.

Política
O que há de próprio da política é que ela desconstitui todos os lugares e produz uma espécie de sujeito genérico que pode ocupar todos os lugares porque é capaz de perceber as ressonâncias de todas as demandas. Então, essa crítica a uma certa universalidade criou um efeito terrível, destrutível em certo ponto da esquerda. Ao fazer a crítica à normatividade inerente a uma concepção de universalidade, esquece-se que a crítica à falsa universalidade é feita tendo em vista uma verdadeira universalidade e que esse seria o objetivo teórico maior da esquerda, que é se questionar sobre o que seria uma verdadeira universalidade.

Enquanto não houver capacidade de reorganizar demandas dentro de um sistema de constelação que permita a encarnação de todas essas demandas em um ponto, não haverá mais esquerda com força de mobilização. Teremos algo semelhante ao que aconteceu na Alemanha há alguns anos, quando apareceu um partido chamado Pirata, que teve uma ascensão fulminante, inclusive chegando em segundo lugar em algumas eleições, com uma única pauta: transparência e liberdade de expressão na internet. Onde está este partido hoje? Este partido sumiu porque não se cria política de pauta em pauta, a soma das pautas não é maior que o todo. Portanto, perdeu-se uma visão de totalidade do processo, de estrutura sistêmica, e isso bloqueia radicalmente a potência de transformação social.

IHU On-Line – Como escapar da melancolia do vazio da esquerda inaugurado em 2013?
Vladimir Safatle – Essa é uma das reações naturais. Freud descreve as melancolias como uma forma de amor por objetos perdidos. A esquerda perdeu seus objetos, só que não foi capaz de, em função do luto, elaborar algo novo. Fixou-se no que foi perdido, e o que foi perdido é internalizado no próprio âmago como uma sombra. Nesse contexto há duas consequências possíveis: ou se entra em um processo de autorreprimenda pelo que foi perdido, responsabilizando-se pela perda, levando-se a uma situação de completa paralisia; ou se transforma a perda em agressividade como se o objeto perdido fosse uma espécie de traidor, que não poderia ter sido perdido. Portanto, de uma forma ou de outra, fica-se preso em um tempo passado. Isso se chama melancolia, uma fixação no interior de uma experiência atemporal que não tem mais nenhum tipo de implicação. Isso é uma patologia clássica de situações em que há um processo de esgotamento sem outra alternativa à vista.

Uma das funções da melancolia é paralisar a capacidade de ação do sujeito. Por isso que o afeto fundamental do poder é a melancolia, o poder não age coagindo as pessoas diretamente; não existe nenhum poder que se imponha por coerção por muito tempo, porque coerção é uma coisa que precisa se fazer 24 horas. Por isso, ao invés desta coerção externa, precisa-se de uma coerção interna, que é dada pela internalização de um princípio disciplinar. O poder age internalizando uma experiência melancólica, o poder nos melancoliza e essa é sua função, fazer com que nos deparemos a todo momento com a crença da impotência da nossa força. Isto é, uma experiência de fraqueza contínua que vai até uma posição depressiva de achar que "não tenho mais nada a fazer, é melhor eu voltar aos meus afazeres e esquecer completamente a minha dimensão social”. Isso que acontece no Brasil é só uma explicitação de um processo cultural, é assim que ele se perpetua. A primeira questão para recuperarmos nossa imaginação política é fazermos a crítica aos afetos melancólicos.

"O poder age internalizando uma 
experiência melancólica"

IHU On-Line – É possível vislumbrar um novo corpo político diante da conjuntura atual?
Vladimir Safatle – Conhecemos o modelo de incorporação, que é esse modelo baseado no populismo, ou seja, incorpora várias demandas dentro de uma figura que de fato aparece como líder e essa liderança funciona como um significante vazio. Nunca se conseguiu transpor para dentro do Estado todos os conflitos da sociedade civil. Então, os conflitos entre os monetaristas e os desenvolvimentistas, entre o Banco Central e o Ministério do Planejamento, entre o Ministério do Agronegócio e os ecologistas, entre o Ministério da Agricultura e o Ministério do Meio Ambiente, entre as Forças Armadas e os defensores de direitos humanos, e assim ad infinitum tornam-se objetos de manobra gerencial.

O populismo e suas figuras aparecem como uma espécie de mediador universal que, quando se espera que o conflito exploda, dá uma compensação simbólica ao perdedor, dizendo: eu de fato estou do seu lado, mas a correlação de forças não permite, mas a coisa mudará à frente. Só que as coisas nunca mudam e vai se perdendo adesão paulatinamente. Conhecemos muito bem esse processo de incorporação na América Latina. O teórico argentino Ernesto Laclau descreveu esse modelo de maneira fantástica e ele funciona muito bem na nossa realidade.

Outras incorporações
Só que cabe a nós pensar outra forma de incorporação, essa forma de incorporação de fato constitui o povo como uma categoria fundamental do político, logo, o povo é aquele que se incorpora no interior desse processo com as massas, e tem sempre o jogo do povo contra a elite. Aí há todo o malabarismo retórico de tentar esconder que uma parte da elite está com você. Sabemos como isso se deu no peronismo até que não fosse possível mais nenhuma possibilidade de governo; vimos que isso aconteceu também no Brasil. O que temos como característica desse modelo de incorporação, em larga escala, é uma gestão de paralisia e que é a transformação do povo em categoria central, que pode descambar em várias coisas, entre elas, em um tipo de nacionalismo como elemento fundamental da esquerda, o que, diga-se de passagem, é uma das coisas mais abstrusas possíveis.

Se a esquerda tem uma razão de existência, isso se deve ao seu cosmopolitismo e ao seu internacionalismo, o que não se pode entender em um esquema nacionalista. Esse negócio de falar em estado-nação em 2016 só pode ser piada. Seria muito mais importante estar discutindo instituições pós-nacionais e estados pós-nacionais do que esse tipo de recuperação de uma velharia, do ponto de vista mesmo da organização institucional, que não existe mais.


 "O populismo e suas figuras aparecem como uma espécie de mediador universal que, quando se espera que o conflito exploda, dá uma compensação simbólica ao perdedor, dizendo: eu de fato estou do seu lado, mas a correlação de forças não permite, mas a coisa mudará à frente. Só que as coisas nunca mudam e vai se perdendo adesão paulatinamente."

Povo
Isso tudo acontece porque o povo é tomado como uma categoria central. Todavia, diria duas coisas: o povo não é uma categoria fundamental da política, é uma categoria provisória. É importante que ele se constitua em situações provisórias para dar forma a certos antagonismos fundamentais, mas é impossível falar em povo sem falar em processo de exclusão, em processo de identidade e em processo de unidade. Ao invés de nos prendermos à dicotomia entre povo e indivíduo, deveríamos estar tentando desenvolver um terceiro tipo, que não é nem um e nem outro, nem associação de indivíduos, tal como o liberalismo propõe, cada um com seus múltiplos interesses, e esses interesses entrarão em uma relação contratual, em que estabeleço um contrato virtual.

Falta a capacidade de sabermos o que significa uma associação de sujeitos políticos, isto é, são sujeitos que não estão dotados de interesses e identidades, mas podem entrar em uma relação de constelação sem constituir uma unidade. Esse é um tipo de corpo político de outra natureza, que não cabe nas ideias de nação, estado-nação, de povo, mas que consegue construir um tipo de implicação genérica com o que é heterogêneo, com a ideia de heterogeneidade básica, que acredito ser um elemento fundamental, ainda mais para a situação de regressão política que vemos hoje não só no Brasil, mas no mundo inteiro.

IHU On-Line - A crise se tornou um modo de existência?
Vladimir Safatle – Eu falei isso um tempo atrás. Se fosse um marxista vulgar eu diria que desde o [Karl] Marx [1] a ideia fundamental é que o capitalismo é um sistema de gestão de crises, ele faz da crise seu modo de existência. Isso porque há um processo de flexibilização contínua, que é o resultado desse embate entre força produtiva e relação social de produção. Isto é, em um modelo de desenvolvimento, que faz com que seja absolutamente necessário, decisivo e fundamental que as formas de vida e as relações tradicionais sejam continuamente quebradas, o que ocorre por um princípio fundamental, o do aumento geral de produtividade. Esse aumento geral da produtividade é um objetivo em si.

China e o capitalismo
Uma questão interessante é: por que não apareceu o capitalismo na China inicialmente? Porque do ponto de vista tecnológico, a China, sob vários aspectos, estava à frente da Europa nos séculos XVII e XVIII, e o capitalismo não surge lá porque não existe a ideia de excedente. Não existe a ideia de que eu preciso fazer o processo funcionar para que o excedente de produção apareça e com esse excedente de produção eu consiga estabelecer uma dinâmica cada vez maior da produtividade, jogando os preços para baixo, desvalorizando o trabalho etc.

Toda essa dinâmica gera um processo contínuo de desvalorização do trabalho que significa que há duas possibilidades: a intensificação dos regimes de trabalho, que nos leva a trabalhar duas vezes mais que nossos pais para ganhar a mesma coisa e ter o mesmo padrão de vida; ou gerir catástrofes, como uma guerra, por exemplo, assim dá-se um jeito de sumir com uma parte da população para fora do processo de trabalho.

"O sujeito reclama contra um negro que tem uma cota, contra o outro que recebe um auxílio de Bolsa Família, mas, vagabundo por vagabundo, quem realmente não trabalha neste país? Quem de fato nunca precisou trabalhar?"
Crise contínua
Dentro desse modelo, que só se intensificou para uma situação na qual viveremos em crise contínua, o discurso da crise terá duas funções: a primeira é uma função econômica, a segunda é uma função moral, que é a pior de todas. Tem uma função econômica porque dirá que a crise não passa e, por conta disso, faz-se uma espécie de flexibilização contínua de todas as regras e direitos trabalhistas. Aí se faz uma Reforma da Previdência hoje e daqui a cinco anos outra, daqui a dez anos mais uma e para sempre até não ter mais o sistema de previdência, e isso também com os direitos trabalhistas, até não haver mais direito trabalhista algum.

Crise moral
Esse é o horizonte. Agora, tem uma questão que é interessante: por que se tem uma passividade da população em relação a isso? Porque a crise é um discurso moral. Um discurso moral é mais ou menos um jogo de virtudes: só aquele que tem a virtude da coragem sobreviverá, ou seja, se tem coragem de assumir riscos, de ter sua força empreendedora de operar inovações, então a crise não o afetará; a crise afeta aqueles que são paralisados – os covardes – ou aqueles que agem como crianças mimadas e que esperam o amparo de algum tipo de Estado protetor ou Estado-providência.

O sujeito que se vê fracassado economicamente se vê fracassado moralmente. Assim vai se criando uma situação na qual a responsabilidade da impossibilidade de inserção econômica é colocada nas costas, única e exclusivamente, dos indivíduos. Não é por outra razão que temos patologias da ação da disfunção dos indivíduos, como a depressão. O que é interessante é a incapacidade de desenvolver um trabalho sistemático para quebrar esse tipo de argumento.

Patrimonialismo econômico
Todos os dados que vemos nos últimos quatro ou cinco anos mostra quão patrimonialista é o nosso modelo econômico; quão impermeável à concorrência ele é; quão impenetrável o empreendedorismo é. O fato é que no sentido mais tradicional e tosco do termo, a entrada na vida social com capital vindo de herança do patrimônio familiar é decisiva. Isso porque chegamos a uma situação em que é muito fácil não trabalhar quando se tem herança, sobretudo em um país que tem 14,75% de taxa de juros. Por exemplo, se tenho R$ 3 milhões no banco e eu sei jogar um pouco com o sistema financeiro, eu não trabalho mais, eu não preciso. Isso tem um padrão mundial. Se uma pessoa tem três ou quatro imóveis, pode se transformar, simplesmente, em um gestor dos próprios imóveis desse sistema e não precisará fazer mais nada, absolutamente nada.

Acho engraçado que um dos discursos mais contínuos hoje do conservador brasileiro é o prazer quase infantil que as pessoas têm de sair na rua e gritar ou chamar os outros de vagabundo. Sempre achei isso muito engraçado, pois o sujeito reclama contra um negro que tem uma cota, contra o outro que recebe um auxílio de Bolsa Família, mas, vagabundo por vagabundo, quem realmente não trabalha neste país? Quem de fato nunca precisou trabalhar?

Rentismo
Tenho amigos que nunca trabalharam porque fizeram uma coisa aqui, outra ali, trabalharam alguns anos e chegaram aos 50 anos e não trabalham mais. Todos nós conhecemos pessoas assim, eles estão presentes nas grandes cidades brasileiras, operando seu patrimônio, esperando um parente morrer para sua renda aumentar. No Brasil o imposto sobre herança vai no máximo a 4%, enquanto nos Estados Unidos o imposto pode chegar a 40%, o que obriga à filantropia, pois ninguém vai dar 40% para o Estado podendo fazer marketing pessoal. Ou seja, em um país como o nosso, é muito difícil não ter a impressão de que o sistema econômico é constituído simplesmente para fazer a defesa do patrimônio, nada mais do que isso. Se eu tiver três imóveis, consigo não declarar no Imposto de Renda se eu alugá-los. No entanto, se eu vir aqui e receber R$ 300 pela palestra e me esquecer de colocar isso no imposto, pode ter certeza de que serei multado.

Falência do Estado brasileiro

IHU On-Line - Como o senhor enxerga esse movimento dos jovens, que está sendo constituído pelos estudantes com as ocupações nas escolas?
Vladimir Safatle – Eu poderia dizer que se trata de uma juventude absolutamente fantástica pela sua capacidade de mobilização, pela capacidade de estabelecer pautas absolutamente decisivas, mas eu queria insistir em outro aspecto. Eu vejo isso como uma vergonha profunda, porque um país que chega a um ponto em que seus estudantes precisam ocupar uma escola porque eles querem ter aula, porque eles não querem que a escola seja fechada e sucateada, enfim. Vocês conseguem imaginar o que isso significa? Isso não tem nada a ver com esquerda ou com direita, isso não é uma discussão sobre esquerdismo ou pensamento conservador, isso é uma discussão sobre falência completa do Estado brasileiro.

Mesmo em um país governado por conservadores não se fecham escolas. Pode ser que cobrem nas universidades ou nos demais níveis de ensino, mas não conheço nenhum lugar que tenha fechado. Isso significa muito claramente como temos um sistema de defesa de casta, de casta política.

Anti-intelectualismo
As escolas são fechadas por duas razões: primeiro, porque a casta que nos governa é uma casta que consegue se perpetuar, ela não tem mais nenhum tipo de medo – porque a relação que o político tem que ter com a sociedade é de medo, se o político não teme mais a sociedade, acabou. Por exemplo, em São Paulo temos a mesma casta governando há 20 anos. Uma das coisas mais engraçadas que achei dessa situação toda foi uma declaração do Paulo Maluf que falava: "eu nunca fechei escola, eu abri escola.” E, de fato, é uma maneira caricata de falar que estamos em uma situação em que não tem nem mais esse discurso de que educação e saúde são prioritárias.

Há outro elemento, que vem justificado por certo anti-intelectualismo que é muito forte na sociedade brasileira, e que desde o começo da Nova República tornou-se uma espécie de "acordo” para colocar esse anti-intelectualismo para fora. Sempre houve uma parcela da população que ficava falando que as universidades brasileiras não produzem nada, "são antros de marxismo”. Entretanto, olha que engraçado, fui fazer meu curso de filosofia na Universidade de São Paulo - USP e eu nunca tive uma aula de Marx, se pegar meu currículo verão que é verdade; tive aula sobre [Thomas] Hobbes, [2] sobre [John] Locke, [3] mas sobre o Marx eu não tive, logo, tem uma coisa estranha aqui.

"Há uma série de responsáveis, não é 
só o pensamento conservador"

A fantasia da genialidade

Isso sempre esteve presente, porque faz parte de um imaginário de certa parcela da população que não consegue ser reconhecida na sua "genialidade”, pois o sujeito pensa que tem uma genialidade inacreditável, então se volta contra a universidade e contra a Constituição. Esse tipo de lógica do ressentimento todo mundo conhece. No entanto, isso ganhou o direito de cidade, de fala, direitos de expressão por uma série de razões.

Porque, em última instância, mesmo certos intelectuais conservadores fizeram um flerte inacreditável com os intelectuais mais toscos e primários, a ponto de eles nos deixarem com saudade de uma época em que se tinha como pensamento conservador o José Guilherme Merquior, [4] que podia ter todos os defeitos que tinha, mas pelo menos lia o que criticava, o que já é pedir demais nos dias hoje. Ou alguém como Golbery do Couto e Silva, se fôssemos à biblioteca do sujeito encontraríamos os livros de quem ele criticava, porque partia-se do pressuposto que você tinha que entender seu inimigo.

O problema é que se reduziu o discurso intelectual no Brasil a uma lógica de esconjuração, então não faz mais sentido nenhum esperar que se tenha uma formação efetiva para preparar as pessoas para alguma forma de debate. Há uma série de responsáveis, não é só o pensamento conservador.

Mesmo no interior da esquerda há uma incapacidade da intelectualidade de se colocar como uma força crítica, como se a ideia de crítica já fosse um crime de lesa-majestade, já fosse um tipo de imposição de classe. Assim, dá-se a impressão de que, em última instância, não há nenhuma razão de fazer a defesa da forma difícil, da experiência complexa e daquilo que de certa maneira te tira do lugar.

Discurso religioso
Para finalizar, temos uma parcela dos discursos religiosos brasileiros, em especial dos evangélicos, que fazem um trabalho primário nesse sentido, pois acreditam que só existe um livro para ser lido, que nenhum outro é necessário e, além disso, que todos os demais devem ser criticados. No Brasil, essas igrejas ganharam força na Ditadura Militar não por acaso; se olharmos de onde vêm os direitos de retransmissão de televisão e rádio, verificaremos que na época da Ditadura eles sobem vertiginosamente, porque era a maneira de utilizar o setor mais reacionário das igrejas norte-americanas que estavam vindo para cá como uma contrabalança ao que eram as alas dos progressistas da Igreja.

Nos Estados Unidos teremos, do ponto de vista político e religioso, alas conservadoras e progressistas – basta lembrar que Martin Luther King era um pastor e uma pessoa que teve um papel absolutamente decisivo nos debates sobre direitos humanos. Certamente ele morreria de tristeza de ver o tipo de intervenção que temos hoje em relação a certos problemas ligados a direitos humanos vindos dessas igrejas. Então, tudo isso foi se alimentando e retroalimentando, criando uma situação como essa.

Notas:
[1] Karl Marx (Karl Heinrich Marx, 1818-1883): filósofo, cientista social, economista, historiador e revolucionário alemão, um dos pensadores que exerceram maior influência sobre o pensamento social e sobre os destinos da humanidade no século XX. Leia a edição número 41 dos Cadernos IHU ideias, de autoria de Leda Maria Paulani, que tem como título A (anti)filosofia de Karl Marx. Também sobre o autor, confira a edição número 278 da IHU On-Line, de 20-10-2008, intitulada A financeirização do mundo e sua crise. Uma leitura a partir de Marx. Leia, igualmente, a entrevista Marx: os homens não são o que pensam e desejam, mas o que fazem, concedida por Pedro de Alcântara Figueira à edição 327 da IHU On-Line, de 03-05-2010. A IHU On-Line preparou uma edição especial sobre desigualdade inspirada no livro de Thomas Piketty O Capital no Século XXI, que retoma o argumento central da obra de Marx O Capital. (Nota da IHU On-Line)

[2] Thomas Hobbes (1588–1679): filósofo inglês. Sua obra mais famosa, O Leviatã (1651), trata de teoria política. Neste livro, Hobbes nega que o homem seja um ser naturalmente social. Afirma, ao contrário, que os homens são impulsionados apenas por considerações egoístas. Também escreveu sobre física e psicologia. Hobbes estudou na Universidade de Oxford e foi secretário de Sir Francis Bacon. A respeito desse filósofo, confira a entrevista O conflito é o motor da vida política, concedida pela Profa. Dra. Maria Isabel Limongi à edição 276 da revista IHU On-Line, de 06-10-2008. (Nota da IHU On-Line)

[3] John Locke (1632-1704): filósofo inglês e ideólogo do liberalismo, sendo considerado o principal representante do empirismo britânico e um dos principais teóricos do contrato social. Locke rejeitava a doutrina das ideias inatas e afirmava que todas as nossas ideias tinham origem no que era percebido pelos sentidos. A filosofia da mente de Locke é frequentemente citada como a origem das concepções modernas de identidade e do "Eu". O conceito de identidade pessoal, seus conceitos e questionamentos figuraram com destaque na obra de filósofos posteriores, como David Hume, Jean-Jacques Rousseau e Kant. Locke foi o primeiro a definir o "si mesmo" através de uma continuidade de consciência. Ele postulou que a mente era uma lousa em branco (tabula rasa). Em oposição ao Cartesianismo, ele sustentou que nascemos sem ideias inatas, e que o conhecimento é determinado apenas pela experiência derivada da percepção sensorial. O pensador escreveu o Ensaio acerca do Entendimento Humano, onde desenvolve sua teoria sobre a origem e a natureza do conhecimento. Suas ideias ajudaram a derrubar o absolutismo na Inglaterra. Dizia que todos os homens, ao nascer, tinham direitos naturais - direito à vida, à liberdade e à propriedade. Para garantir esses direitos naturais, os homens haviam criado governos. Se esses governos, contudo, não respeitassem a vida, a liberdade e a propriedade, o povo tinha o direito de se revoltar contra eles. As pessoas podiam contestar um governo injusto e não eram obrigadas a aceitar suas decisões. Dedicou-se também à filosofia política. No Primeiro Tratado sobre o Governo Civil, critica a tradição que afirmava o direito divino dos reis, declarando que a vida política é uma invenção humana, completamente independente das questões divinas. No Segundo Tratado sobre o Governo Civil, expõe sua teoria do Estado liberal e a propriedade privada. (Nota da IHU On-Line)

[4] José Guilherme Alves Merquior (1941-1991): foi um crítico literário, ensaísta, diplomata e sociólogo brasileiro. Professor universitário, foi um pensador que se definia politicamente como um liberal social, mas seu pensamento se enquadra naquilo que é correntemente compreendido como "social-liberalismo". É considerado um dos maiores divulgadores do liberalismo no Brasil. Escritor prolífico, foi membro da Academia Brasileira de Letras. (Nota da IHU On-Line)
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Fonte:  http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=89106