domingo, 25 de setembro de 2016

Verissimo diz o que o leitor quer falar, mas não consegue

Elias Thomé Saliba*

Verissimo

Foto: AMANDA PEROBELLI/ESTADAO
Luis Fernando Verissimo completa 80 anos no fim de setembro.
Autor tem pleno domínio da intuição cômica ao coletar material dos detritos do falar cotidiano 
e das picuinhas dos comportamentos


Luis Fernando Verissimo não é apenas o cronista mais popular do Brasil. É também o campeão dos textos apócrifos na internet e uma das maiores vítimas das atribuições indevidas neste milagroso universo da multiplicação dos pães que é a web. Parece trivial, mas isto já diz muito a respeito da sua extensa e variada produção, a qual, apesar de ganhar a perenidade do livro, nasceu colada à destinação imediata e efêmera da crônica e ao envelhecimento precoce das pautas cotidianas. Verissimo ultrapassa o transitório não apenas porque suas crônicas se transformam em livros, mas porque estabeleceu desde o início um pacto humorístico com o leitor. Mais do que qualquer outro, o público que se torna parte do pacto humorístico é aquele que percorre o noticiário sério do jornal ou da revista e torna-se capaz de entender as alusões, ironias e paródias de Verissimo e de seu humor fortemente conectado com os eventos noticiados e, por isso, compreensível apenas naquelas situações.  

Há décadas, esgotamos a paciência em estabelecer um pacto no cenário político nacional, mas parece, afinal, que o único pacto que funciona nessas plagas é o humorístico: é preciso alguém que diga para o leitor o que ele pressente, quer dizer, mas não consegue se expressar. No limite, o leitor apropria-se indevidamente do nome do humorista para postar aquilo que o faz rir. Verissimo tem o pleno domínio desta intuição cômica, coletando-a dos detritos do falar cotidiano, das picuinhas dos comportamentos de homens e mulheres, da confusão de vozes sociais no País. Confusão de vozes que ele soube tão bem multiplicar em seus inúmeros personagens: a Velhinha de Taubaté, a última no País a acreditar nos governos; o Analista de Bagé, que mistura freudismo com cafajestismo, e até mesmo as cobrinhas (nem sempre) anônimas desenhadas nas tiras: Queromeu, o corrupião corrupto, as lesmas Flexa e Shirley ou Durex, o adesista. Qual escritor sério descreveria um padre completamente surdo que obriga os fiéis a confissões gritadas na igreja diante da escandalizada plateia de beatas? Ou então, um brasileiro comum que recebe, por e-mail, uma proposta do diabo para trocar sua alma por um único desejo – e, após hesitar entre uma gostosona e a vitória do Internacional no campeonato, acaba pedindo a transformação do Brasil num país escandinavo?  

Quem se atreveria a pintar um Gregor Samsa tupiniquim, que desperta transformado em Kafka e consegue cavar uma pensão da Previdência Social por abalo psíquico? Entre tantos exemplos, de achados cômicos e citações literárias em modo rebaixadíssimo, a listagem seria infinita. Mesmo quando escreve livros tidos como sérios, como Os Espiões ou Borges e os Orangotangos Eternos, Verissimo não resiste à tentação de interpolar efeitos cômicos, invertendo todos os cânones da ficção policial. Dele, quase que se poderia dizer o que Umberto Eco escreveu sobre Achille Campanile: “é um escritor apesar de ser humorista”. Quase. Porque, parodiando Eco, arriscaríamos dizer que, apenas quando não faz rir, é que Verissimo não é um grande escritor.  

Atribuir indevidamente aforismos ou piadas a Verissimo na web é sintomático porque faz parte do mesmo pacto humorístico. O leitor diverte-se porque sente uma íntima afinidade – é quase como se ele mesmo contasse aquilo, ou pelo menos pensasse, mas não quisesse revelar publicamente. Afinal, ele não precisa, pois tem o humorista para expressar o que ele quer, mas não pode. E não pode não apenas porque não está no centro do picadeiro, lugar natural da galhofa nacional, mas porque fora dela predomina o ordinário da vida. “Neste país, o sujeito que faz rir é um benfeitor. E, se não temos um vampiro – estejam certos –, é a piada que torna inviável qualquer Drácula brasileiro”, escreveu Nelson Rodrigues. O paradoxo do pacto continua agindo porque é justo um escritor de humor que consegue algum distanciamento crítico, que salva o leitor da sua impotência em mudar aquele estado de coisas ou incita a sua capacidade de indignar-se na direção – não da escuridão ou do silêncio ressentido da nossa ética emocional –, mas daquele sorriso divertido que é o riso da libertação. Afinal, a função do humor, do melhor humor – já o disse Saul Steinberg – “é desnudar o homem para em seguida perdoá-lo”.  
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*ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DA USP, AUTOR DO LIVRO RAÍZES DO RISO E COORDENADOR DO BLOG HTTPS://HUMORHISTORIA.WORDPRESS.COM/
 Especial para O Estado de S. Paulo
24 Setembro 2016 
Fonte:  http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,verissimo-diz-o-que-o-leitor-quer-falar-mas-nao-consegue,10000077867

10 frases de Luis Fernando Verissimo 

no novo livro 'Verissimas'

Leia algumas da pérolas tiradas do novo livro do escritor, que completa 80 anos em setembro

Luis Fernando Verissimo,
O Estado de S. Paulo
24 Setembro 2016 

Abismo
"Se o mundo está correndo para o abismo, chegue para o lado e deixe ele passar." 
 
Americanos
"É bom ser americano. Você ganha em dólar, não tem nenhuma dificuldade para dizer o “th” em inglês e, o melhor de tudo, nunca precisa crescer. "
 
B
"É a primeira letra de Bach, Beethoven, Brahms, Béla Bartók, Brecht, Beckett, Borges e Bergman, mas também de Bigorrilho, o que destrói qualquer tese."
 
Baleia
"A baleia é um mamífero que preferiu continuar no mar. Quer dizer, é uma sentimental."
 
Bebês
"Ao nascer, ninguém tem a cara de ninguém. Aliás, os dois ou três dias depois do nascimento são os únicos dias da vida em que a nossa cara é só nossa. "
 
Bundas
"Onde estão as bundas do carnaval, quando não é carnaval? Não parece razoável pensar que elas migram, como os pássaros."
 
Casamento
"O casamento foi a maneira que a humanidade encontrou de propagar a espécie sem causar falatório na vizinhança."
 
Classes
"O Brasil é formado por uma classe dominante e uma classe ludibriada."
 
Coletivo
"Sempre que ouço falar em “inconsciente coletivo” penso num ônibus desgovernado."
 
PT
"O PT é um partido que não apoia nem a si mesmo."
Foto: Divulgação
Verissimo
Capa do novo 'Verissimas'

A intimidade com as palavras de Luis Fernando Verissimo lhe permite esvaziá-las com graça

Verissimo
Foto: Amanda Petrobelli/Estadão
Luis Fernando Verissimo completa 80 anos no fim de setembro
Verissimo tem o dom de criar frases sem que nada falte ou sobre, o que faz com que até o pouco pareça muito
 

Penso em Luis Fernando Verissimo como alguém que leva às últimas a recomendação de José Carlos Oliveira: “Palavra é sangue. Não se derrama”.  

A frase do falecido cronista capixaba vem a propósito do escritor, mas também do desenhista de traço despojado, e mais, do próprio Verissimo, artista capaz, como poucos, de ir ao ponto com um mínimo de meios. Para quem espera jorros verbais, entrevistá-lo é experiência angustiante – mas posso atestar: o que ele diz, de tão desossado, já é texto pronto, sem carência de lipoaspiração vocabular.  

Verissimo por certo faria este texto usando menos palavras para dizer mais e melhor. Aí está uma de suas marcas mais poderosas, explicação para a força de uma obra que, embora feita no sufoco dos prazos jornalísticos, tantas vezes é capaz de atravessar o tempo sem rugas nem sépia. A musa, disse ele, é o deadline do jornal. E o capricho tanto vale para uma historinha bem-humorada como para o comentário grave.  

Faça a prova: tente cortar, no que o Verissimo escreve ou desenha, uma só vírgula, um só traço que esteja sobrando. Ou, ao contrário, acrescentar o que lhe pareça faltante. Parada torta. A menor coisa, ali, está em condições de justificar presença, provando ser indispensável. Quanto à substância, até o pouco rende muito. Nosso maior cronista, no ramo há quase meio século, é como um cozinheiro que, dispondo apenas de água e sal, faz uma bela bacalhoada.  

Que ninguém se deixe enganar pela aparente facilidade do texto do Verissimo. Trata-se de um mestre naquilo que o poeta Hélio Pellegrino chamou de “a difícil arte de escrever fácil”. E, claro, não chegou a tanto sem antes dominar as virtualidades da língua. Só assim pode um autor tomar liberdades para a criação literária.  

“A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda”, escreveu Verissimo em O Gigolô das Palavras. Mas certamente não é coisa para amadores. “Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel”, compara ele. “Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou com a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção de lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção.” 

A intimidade com as palavras, por outro lado, é que permite a Verissimo – essa “fábrica de fazer humor”, no dizer do cartunista Jaguar, mas também reflexão – aventurar-se, por exemplo, com enorme graça, na deliciosa brincadeira de esvaziá-las do sentido original, substituindo-o por algum mais adequado. Como quem procurasse uma ostra melhor para determinada concha. “Falácia”, por exemplo, a seu ver leva mais jeito de flor: um canteiro de falácias. 

Proponho a você entrar na brincadeira e batalhar na garimpagem de significado mais exato para o superlativo “veríssimo”. Que tal um substantivo que dê a ideia de craque da palavra? 
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Texto de Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo 24 Setembro 2016 
Fonte:  http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,a-intimidade-com-as-palavras-de-luis-fernando-verissimo-lhe-permite-esvazia-las-com-graca,10000077868

Belos, cálidos dias

Lya Luft*
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A gente nasce sem querer, numa família não escolhida (ou cada alma escolhe a sua?), com uma bagagem de genes que nem Deus sabe direito no que vão dar – lançados no grande mundo, ainda por cima tendo de desempenhar direito nosso papel.

Que papel? O que a família exige? O que a sociedade espera? O papel que cobramos de nós mesmos enquanto corremos entre acertos e trapalhadas, dor e graça, tateando num nevoeiro de confusões, emoções, razões e desesperos – ou contentamento? Atores sem preparo, sem roteiro, sem papel e sem alguém que nos sopre nossas falas, nesse palco desmesurado e instável. Se for difícil demais, nos matamos de tristeza, de tédio, de medo, de solidão e vazio, ou por vingança por algo demais cruel. É quando não conseguimos desempenhar papel nenhum: escolheremos então o nada, se é que a morte é nada.

Mas em geral gostamos da vida, não nos matamos, até nos sentimos bem. Não que eu ache que somos farsantes ou falsos. Apenas fomos aqui plantados, em geral desejados, quase sempre amados, algumas vezes desamados, mal criados e erradamente educados. A gente comparece do jeito que dá, desde quando começa a ter consciência – acho que isso também ninguém ainda determinou (o Google não me deu muita certeza): quando começa a consciência de existir, e das coisas ao redor?

Minhas memórias se iniciam aos dois anos e pouco, deitada no assoalho claro da casa, espiando embaixo de um móvel grande e escuro, admirando bolinhas de poeira que dançavam segundo minha respiração: para mim, eram seres vivos. Ou sentada no assoalho da casa da avó que costurava, eu espiando alfinetes cintilantes entre as frestas das tábuas. Tudo era mágico naquele tempo, e eu não precisava ser nenhum personagem.

Mas a vida se impõe, com chamados, deveres, conselhos, promessas, agrados, punições, por mais brandas que fossem: havia uma ordem em tudo. E a gente tinha de se adaptar, para que os castigos (não ganhar sorvete, não poder brincar com as amigas) não fossem mais numerosos do que as alegrias. Na verdade, os castigos eram poucos, quase bobos, mas eu me assustava: alguma coisa chamada “des-ordem” existia, eu me enredava com ela. Todo mundo devia ser calmo, acomodado, pressuroso, obediente, não lembro mais todas as qualidades que nos faziam boas meninas e bons meninos naquele tempo quase remoto.

E as perdas: amados e amigos se vão, jovens ou já velhos, a gente soltando pedaços. Ou os afetos simplesmente empalideceram. Mas há os que chegam: maravilhosamente chegam filhos, netos, novos amigos, velhos amigos permanecem, os livros, os filmes, os quadros, as músicas, a montanha, o mar, as horas de encantamento, as viagens – e voltar para casa, doce “zona de conforto”. Acolhimento, segurança dentro do possível neste mundo em que o crime compensa, o cinismo floresce, a autoridade fracassa, a confusão impera, a mediocridade se impõe. Seja como for, vamos desempenhando ou reinventando nossos papéis, ou não os cumprindo e levando rasteira. Não é ruim, não é bom: é a vida.

Belos, cálidos dias de primavera. O país, quem sabe, começando a se mover para se recompor. Aquela criaturinha chamada esperança canta no peitoril da minha janela. Quem sabe, quem sabe?
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Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a7557886.xml&template=3916.dwt&edition=29774&section=70
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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Bauman: "As guerras religiosas? Apenas uma das ofertas do mercado"

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"As guerras religiosas? Apenas uma das ofertas do mercado." Encontramos em Assis, antes do seu discurso, Zygmunt Bauman, o mais importante estudioso da sociedade pós-moderna, que contou em páginas memoráveis a angústia do homem contemporâneo. E ele nos fala sobre o desafio do diálogo.

A reportagem é de Stefania Falasca, publicada no jornal Avvenire, 20-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor, a sua intuição sobre a pós-modernidade líquida continua oferecendo um olhar lúcido sobre o tempo presente. Mas, nessa liquidez, registra-se uma explosão de nacionalismos, identitarismos religiosos. Como podem ser explicados?

Comecemos pelo problema da guerra. O nosso mundo contemporâneo não vive uma guerra orgânica, mas fragmentada. Guerras de interesse, por dinheiro, por recursos, para governar as nações. Eu não a chamo de guerra religiosa. Existem outros que querem que seja uma guerra religiosa. Eu não pertenço àqueles que querem levar a acreditar que seja uma guerra entre religiões. É preciso estar atento para não seguir a mentalidade corrente. Especialmente a mentalidade introduzida pelo cientista político de plantão, pela mídia, por aqueles que querem obter consenso, dizendo aquilo que eles queriam ouvir. Você sabe muito bem que, em um mundo permeado pelo medo, este penetra a sociedade. O medo tem as suas raízes na ansiedade das pessoas, e, embora tenhamos situações de grande bem-estar, vivemos em um grande medo, o medo de perder posições. As pessoas têm medo de ter medo, mesmo sem se darem uma explicação do motivo. E esse medo tão móvel, inexpressivo, que não explica a sua origem, é um ótimo capital para todos aqueles que querem utilizá-lo por motivos políticos ou comerciais. Assim, falar de guerras e de guerras religiosas é apenas uma das ofertas do mercado.

Ao pânico das guerras religiosas, soma-se o das migrações. Ainda há alguns anos, Umberto Eco dizia que, para aqueles que queriam capitalizar sobre o medo das pessoas, o problema da emigração tinha chegado como um presente do céu...

Sim, é verdade. Guerras religiosas e imigração são nomes diferentes dados hoje para explorar esse medo vago e incerto, mal expressado e mal compreendido. No entanto, estamos aqui cometendo um erro existencial, confundindo dois fenômenos diferentes: um é o fenômeno das migrações, e o outro é o fenômeno da imigração, como observou Umberto Eco. Não são um fenômeno, são dois fenômenos diferentes. A imigração é a companheira da história moderna. O Estado moderno, a formação do Estado é também uma história de imigração. O capital precisa do trabalho, o trabalho precisa do capital. As migrações, ao contrário, são algo diferente, são um processo natural que não pode ser controlado, que segue o seu próprio caminho.

Como o senhor acha que podemos encontrar um equilíbrio para esses fenômenos?

A solução oferecida pelos governos é a de estreitar cada vez mais a corda das possibilidades de imigração. Mas a nossa sociedade já é irreversivelmente cosmopolita, multicultural e multirreligiosa. O sociólogo Ulrich Beck diz que vivemos em uma condição cosmopolita de interdependência e de troca em nível planetário, mas sequer começamos a desenvolver a consciência disso. E gerimos esse momento com os instrumentos dos nossos antepassados... É uma armadilha, um desafio a ser enfrentado. Nós não podemos voltar atrás e escapar de viver juntos.

Como nos integrarmos sem aumentar a hostilidade, sem separar os povos?

É a pergunta fundamental da nossa época. Também não podemos negar que estamos em um estado de guerra, e, provavelmente, essa guerra também será longa. Mas o nosso futuro não é construído por aqueles que se apresentam como "homens fortes", que oferecem e sugerem aparentes soluções instantâneas, como construir muros, por exemplo, desembainhando a arma milagrosa que resolve todos os problemas, enquanto o problema permanece. A única personalidade contemporânea que leva adiante essas questões com realismo e que as faz chegar a cada pessoa é o Papa Francisco. No seu discurso à Europa, ele fala de diálogo para reconstruir a tessitura da sociedade, da justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho que não representam mera caridade, mas uma obrigação moral. Passar da economia líquida para uma posição que permita o acesso à terra com o trabalho. De uma cultura que privilegie o diálogo como parte da educação. Mas, atenção, ele repete: diálogo-educação.

Por que, na sua opinião, o papa está convencido de que essa é a palavra que não devemos nos cansar de repetir? Afinal, o que é o diálogo?

Ensinar a aprender. O oposto das conversas comuns que dividem as pessoas: umas certas, outras erradas. Entrar em diálogo significa superar o limiar do espelho, ensinar a aprender a se enriquecer com a diversidade do outro. Ao contrário dos seminários acadêmicos, dos debates públicos ou das discussões partidárias, no diálogo não há perdedores, mas apenas vencedores. Trata-se de uma revolução cultural em relação ao mundo em que se envelhece e se morre antes de crescer. É a verdadeira revolução cultural em relação àquilo que estamos acostumados a fazer e é o que permite repensar a nossa época. A aquisição dessa cultura não permite receitas ou escapatórias fáceis, ela exige e passa pela educação que requer investimentos de longo prazo. Nós devemos nos concentrar nos objetivos de longo prazo. E esse é o pensamento do Papa Francisco. O diálogo não é um café instantâneo, não dá efeitos imediatos, porque é a paciência, a perseverança, a profundidade. Ao caminho que ele indica, eu acrescentaria uma única palavra: assim seja, amém.
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/560269-bauman-as-guerras-religiosas-apenas-uma-das-ofertas-do-mercado 21/09/2016
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NUNO COSTA SANTOS: "Sem cultura estamos perdidos".

 Arturo Pérez-Reverte

Nuno Costa Santos entrevistou Arturo Pérez-Reverte. O autor espanhol esteve em Portugal para apresentar "Homens Bons", um romance que quer "salvar a parte salvável do ser humano".
Arturo Pérez-Reverte é o autor espanhol mais lido no mundo mas não é isso que faz com que tenha opiniões consensuais. Numa altura em que é editado em Portugal o romance Homens Bons (ASA), sobre o idealismo iluminista, o escritor falou com o Observador sobre o livro mas também sobre o seu pessimismo sobre a natureza humana e a batalha que tem com o politicamente correcto.

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“Homens Bons”, de Arturo Pérez-Reverte (Asa)

Assistiu a várias tragédias do mundo enquanto repórter de guerra. Ainda se assume como pessimista?
A vida que tive não me ajuda a ser optimista. Em todo o caso, este romance que agora publico em Portugal é optimista. Vi coisas muito desagradáveis na guerra e fiquei muito mal impressionado com o ser humano. Já tirei a maiúscula a muitas palavras, como deus, pátria e bandeira. Mas desta vez edito um romance de esperança, que visa, digamos, salvar a parte salvável do ser humano. A amizade, a lealdade, a cultura. A cultura como salvação possível. Este é um livro sobre as palavras que ficaram com maiúsculas.

Um homem que assistiu a tantas guerras tem necessidade de nomear a bondade?
No trabalho não vi o lado melhor do ser humano e por isso faço uma compensação escrevendo romances. Estes são uma espécie de analgésico para mim. Não atacam a causa da dor mas ajudam a suportar a dor. Guardo muitas imagens e recordações que não são cómodas e agradáveis. Escrever ajuda a serenar-me e a ir buscar a parte boa.

Qual a melhor história de bondade que viveu na guerra?
Vivi histórias atrozes mas também histórias muito nobres e dignas. Vi muita gente que se sacrificava por outros. Um velho, em Sarajevo, que saía todos os dias com uma mochila às costas para ir buscar comida para os netos e para os vizinhos. Na guerra vi muita gente má e muita gente boa.

Pois, na guerra o ser humano revela-se nos seus extremos.
O ser humano é um filho da puta por natureza. Nasce filho da puta, guerreiro e predador. A sociedade educa-o e assim suaviza essa natureza. Quando há uma catástrofe, uma crise ou uma guerra rompe-se a casca de civilização e o homem volta a ser um animal e um filho da puta. Mas, ao mesmo tempo, aparece o homem bom. E vemos também que o mesmo homem pode ser filho da puta e bom ao mesmo tempo. Vi homens que mataram e torturaram a ter gestos muito bonitos.

"Vi muita gente que se sacrificava por outros. 
Um velho, em Sarajevo, que saía todos 
os dias com uma mochila às costas para 
ir buscar comida para os netos
 e para os vizinhos." 
 
Sendo este livro sobre o Iluminismo, vê-o como um livro de civilização numa altura em que está a ser desmantelada?
Sim e isso é particularmente importante agora. Este é um livro que trata do século XVIII mas que também fala ao mundo de hoje. Os valores não mudam, são os mesmos. A lealdade, a dignidade, a amizade e a cultura como salvação continuam a ser necessárias. O mundo é um caos de internet e de informações dispersas, onde não há possibilidade de separar o útil do inútil e onde o bem e o mal estão misturados. A internet é uma ferramenta muito potente mas não hierarquiza a informação. O receptor de informação não distingue o útil do inútil. Só há cultura se houver preparação. A cultura ajuda a seleccionar e sem cultura estamos perdidos. O meu romance pretende ser uma homenagem aos livros como mecanismo de salvação.

As novas gerações, com poucas referências culturais e históricas, podem encontrar algumas nesse livro?
Este não é um livro didático. Tem o objectivo de prestar homenagem a uns homens que tentaram mudar o mundo através dos livros, o que aconteceu no século XVIII.

Mas o Iluminismo também acabou por dar origem a cabeças cortadas, ou seja, a barbárie.
Esse ponto é interessante e importante. O Iluminismo abriu a porta à Luz mas os homens sequestraram o Iluminismo, convertendo-o em matanças e guilhotinas. Com frequência, as boas causas, as boas ideias e as boas razões são contaminadas pela infame e perversa condição humana. A Revolução Russa, por exemplo, era originalmente um acto necessário e bom mas foi sequestrada por Estaline e acabou numa ditadura. Todas as boas causas terminam mal por causa dos homens. Em Portugal, o 25 de Abril, que começou por ser uma ideia boa, acabou sequestrado pelo dinheiro. Isso não lhe retira o valor. Os Capitães de Abril continuam a ser os Capitães de Abril, homens que acreditavam na possibilidade de um mundo.

 "Os livros são ou solução ou consolo. 
Quando o mundo exterior não te agrada, 
quando é tudo ruído mediático ou confusão, 
a biblioteca ajuda a fazer-te compreender 
porque é que a realidade é como é."

Este é um romance, como é habitual nas suas ficções, de personagens, a começar pelas principais: o bibliotecário don Hermógenes Molina e o almirante don Pedro Zárate, ambos membros da Real Academia Espanhola. Continua a perseguir o objectivo de ter boas personagens para contar uma história?
Posso dizer que este é um livro de ideias e de personagens. E, claro, há acção, aventura, viagem, peripécias. Eu queria demonstrar que duas personagens muito diferentes, opostas mesmo — o científico e rigoroso e o humanista, católico e humano — podem, a propósito dos livros, ser irmãos. Esta é uma história de amizade. Uma história de livros e de amizade. Era esse o meu objectivo.

Dom Quixote e Sancho Pança são sempre uma referência nesse aspecto.
Sim, a dimensão de diálogo é central. Se os homens falassem mais, o mundo seria melhor. Há que falar. Os homens não falam. Em geral os homens esperam que os outros acabem de falar para dizer aquilo que têm na cabeça. Quando falamos com uma pessoa com sabedoria e a escutamos o mundo torna-se melhor.

“Homens Bons” parte muito da sua dimensão de escritor que pesquisa.
É verdade. Mas depois há a parte de ficção, que é fundamental. A certo momento achei que era importante introduzir a figura do narrador. Que sou eu, embora com uma dimensão ficcional importante. Neste romance as personagens reais dizem frases que nunca disseram. Há aqui a exploração de uma falsa realidade, por assim dizer.

"Há dias vi uma série de turistas a tirar 
fotografias na Brasileira, junto à estátua 
de Fernando Pessoa. Pensei: não sabem 
quem é Pessoa mas é muito importante 
para eles tirar a foto. Alguém que ame 
 verdadeiramente o poeta não se pode 
aproximar por causa dessa multidão
 que o desconhece." 
 
Interessam-no as fronteiras perdidas entre a realidade e a ficção.
Todos os meus livros passam por aí. Invento títulos de obras, misturo personagens reais com as que não o são. Esse tipo de jogo narrativo diverte-me muito. Falsifico a realidade na hora de escrever.

É possível encontrar hoje novas formas literárias de contar uma história?
O que é possível é adaptar a literatura. Os grandes temas estão nos clássicos – em Sófocles, Eurípedes e Aristófanes, por exemplo. A traição, o crime, o matrimónio, a vingança. O escritor, ao longo dos séculos, tem ido buscar os temas eternos, actualizando-os. “O Primo Basílio”, de Eça de Queirós, é uma tragédia de Sófocles situada no século XIX português. Não há nada que descobrir de essencial. Apenas existem formas novas de contar os velhos temas de sempre.

Encontra no mundo de hoje alguns homens bons no sentido em que os trata no seu livro?
Hoje em dia não há nenhum homem verdadeiramente bom. Estamos todos demasiado contaminados. O mundo actual é demasiado global e a miséria e a vileza também são globais. Não poria a mão no fogo por ninguém.

 "Estamos a criar gerações sem memória 
e sem cultura. Com planos de estudos iguais, 
em que não se premeia a excelência 
mas sim a mediocridade. Quando se é brilhante 
é preciso ocultar isso para 
não se ofender quem não o é."


Mantém-se muito crítico do humanismo cristão? Não lhe reconhece virtudes?
Eu não sou anti-religioso. Mas tenho muitas reservas em relação ao papel histórico da Igreja Católica. Países como Portugal, Espanha e Itália ficaram presos em calabouços obscuros durante muitos séculos por causa da Igreja Católica. Impediu-nos de ler livros, de foder, de rir, de viajar. E isso traumatizou-nos historicamente. Em Portugal e Espanha, muito mesmo. E o nosso atraso cultural e intelectual deve-se ao peso que a Igreja Católica teve em nós. Respeito quem é católico. Não posso é perdoar o papel histórico e político da Igreja.

O que acha do Papa Francisco?
É-me indiferente. Porque a vontade politicamente correcta não é prática. Tanto me causa desconfiança um malvado como quem quer agradar a todos. Quem quer agradar a todos não é fiável.

Uma das suas batalhas é contra o que se convencionou chamar “politicamente correcto”. Como é que, no seu entender, este se manifesta?
Quero escrever com liberdade o que quero e o que me parece, não me deixando guiar por condicionamentos. A língua é sábia – a portuguesa e a espanhola são-no. Línguas nobres, antigas, latinas. São línguas de uma eficácia perfeita. Não aceito que me digam que não posso utilizar a língua porque posso ofender. No outro dia escrevi que o presidente Rajoy é um “estúpido autista” e os pais dos autistas vieram reclamar. Quando se escreve não se pode estar sempre a pensar que se pode ofender o pequeno colectivo. É preciso assumir que as línguas são flexíveis e que a questão não está nas palavras mas nas interpretações que se fazem delas. Tenho assumido esta posição no plano público.

Acha que vai ganhar essa batalha?
Não. É uma batalha perdida mas vou lutar até ao fim. Temos sempre medo e estamos a criminalizar o que é natural. Acho que é terrível e não tem solução.

"No outro dia escrevi que o presidente Rajoy 
é um “estúpido autista” e os pais dos autistas 
vieram reclamar. Quando se escreve não 
se pode estar sempre a pensar que 
se pode ofender o pequeno colectivo." 
 
Que batalhas é que, no seu entender, se vai ganhar então?
Sou um pessimista, como disse. Acho mesmo que a única solução é a cultura, a biblioteca. Os livros são ou solução ou consolo. Quando o mundo exterior não te agrada, quando é tudo ruído mediático ou confusão, a biblioteca ajuda a fazer-te compreender porque é que a realidade é como é. Estamos a criar gerações sem memória e sem cultura. Com planos de estudos iguais, em que não se premeia a excelência mas sim a mediocridade. Quando se é brilhante é preciso ocultar isso para não se ofender quem não o é. Os homens não são todos iguais. Há homens cultos e inteligentes, há homens de elites que abrem caminhos novos. Portugal era um país de elite. Abriu caminhos para outros. Como é que se pode dizer que um português do século XV é igual a um pirata anglo-saxónico do mesmo período? Fazem falta homens justos, cultos e educados , não canalhas.

Como é que têm corrido estes dias em Portugal?
Têm sido bons. Vir a Portugal não é vir ao estrangeiro. Estou em casa. Reconheço as gentes pelos costumes, pela forma de estar, pela fisionomia. É como quando um português vai a Espanha. Agora, é certo, Lisboa está muito mais turística.

O que pensa disso?
Acontece o mesmo em Espanha. Por um lado é bom porque traz dinheiro para a economia. Mas por outro é negativo. O Portugal que eu amo, elegante, sereno, senhorial, tradicional, das gentes humildes, está mais apagado. Lembro-me de vir cá e encontrar as gentes do Alentejo, pobres mas com uma dignidade e uma educação raras. Há dias vi uma série de turistas a tirar fotografias na Brasileira, junto à estátua de Fernando Pessoa. Pensei: não sabem quem é Pessoa mas é muito importante para eles tirar a foto. Alguém que ame verdadeiramente o poeta não se pode aproximar por causa dessa multidão que o desconhece.

Hoje ainda há lugar para homens bons?
Sim. Escrevi este livro para demonstrá-lo.
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Nuno Costa Santos, 41 anos, escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.
Fonte:  http://observador.pt/especiais/entrevista-arturo-perez-reverte/

terça-feira, 20 de setembro de 2016

É preciso viver tristeza para ter alegria, diz palhaço que atua em hospitais


Fundador de uma organização que tem alegria no nome, Wellington Nogueira estava triste na última sexta (16), quando recebeu a Folha

No dia anterior, havia morrido o ator Domingos Montagner, palhaço por ofício assim como ele, que conhecia há mais de duas décadas. 

Mais presentes naquele dia, as lágrimas e o luto fazem parte da vida de Nogueira da mesma forma que o riso, conta. E entender isso foi um aprendizado obtido nos 25 anos desde que idealizou os Doutores da Alegria.

A organização fundada por ele, que já trabalhava como palhaço em centros de saúde nos EUA, atua em hospitais de São Paulo, Rio e Recife. 

Na entrevista a seguir, Nogueira lembra histórias marcantes do contato com pacientes e fala sobre o que se pode levar da experiência no hospital para a vida fora dele. 

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Folha - Como foi entrar pela primeira vez vestido de palhaço em um hospital no Brasil?
Wellington Nogueira - Em 1990, eu trabalhava nos Estados Unidos e vim para o Brasil visitar o meu pai na UTI do Incor. Ele pediu para eu fazer algo com as crianças de lá e combinei com uma enfermeira de ir na manhã seguinte.

À tarde, meu pai entrou em coma. Varamos a noite e, às 8h, liguei para a enfermeira e disse que não estava com cabeça. Ela falou: "Falei para as crianças que vem um palhaço, você não vai me dar esse cano agora". Fui e foi muito legal. Quando terminei, meu pai tinha saído do coma. Depois, ele saiu do hospital –e eu tinha vindo para acompanhar sua morte. Estava com um sentimento de gratidão. No ano seguinte, voltei para o Brasil e comecei o trabalho. 

Se tivesse que escolher algum momento ou paciente muito marcante, qual seria?
São muitos, mas o caso do Mateus [adolescente internado há 12 anos no Conjunto Hospitalar do Mandaqui, na zona norte], é exemplar. Tudo começa quando alguém do hospital comenta com uma dupla de palhaças, a Val e a Juliana, que o Mateus e a companheira de UTI dele queriam ver a Lua pela primeira vez. Elas se disponibilizaram e fizeram um lual.

Depois, à medida que o Mateus passou para a adolescência, elas sugeriram pintura, levaram livros. Ele pintou todos os palhaços –todos passaram pelo Mateus [os profissionais se revezam]. Fazer parte da vida de um paciente por 12 anos faz a gente se perguntar todo dia: como vou me renovar, o que vou trazer hoje?

É uma relação duradoura. E como é, por outro lado, lidar tão frequentemente com a perda?
No começo, tínhamos um processo chamado higiene emocional. Uma vez por mês nos reuníamos para conversar. Não me esqueço do caso do Ariel, que tinha 5 ou 6 anos. Todo mundo tinha trabalhado com ele, porque ele estava internado havia muito tempo. Um dia, ele morreu. E, na reunião, todos lembraram de algum momento com o Ariel, que era muito danado, esperto, adorava pegar a gente no pulo. Cada história acabava numa gargalhada, porque era alguma coisa que ele tinha aprontado para a gente. E me dei conta de como esse ritual de viver a experiência e compartilhar era fortalecedor. Depois, a gente viu que, em alguns casos, esse processo não dava conta. E aí os artistas começaram a fazer canções, cenas e textos para elaborar as experiências. 

Hoje você está triste. Se tivesse que visitar um hospital, o que faria?
Não iria cancelar. Ofereceria o dia para ele [Domingos Montagner], porque tem uma coisa de palhaço: o show tem que continuar, porque a vida continua. Mas é claro que, se fosse alguém muito próximo, talvez eu precisasse parar. Quando a minha mãe morreu, eu vivi uma tristeza de verdade e fiquei sete meses como se estivesse nadando numa piscina de gelatina. Meu 100% era mais lento, chorava, não me furtei. Foi importante. Hoje, todo mundo fala de alegria, felicidade, prozac. É claro que uma depressão é algo a ser tratado, mas a gente precisa sentir como o luto nos afeta. Para celebrar a alegria, é preciso se colocar a serviço também da tristeza. Quanto mais conheço um, melhor fico no outro. 

O desafio da alegria na adversidade não se restringe ao hospital. Como levar para fora?
Lembro de um senhor que, no final da interação, falou: "Se eu sair daqui, vou viver a vida de outra forma". Pensei: Por que não posso fazer essa escolha na plenitude da minha saúde? O hospital é uma tremenda oportunidade de ver as coisas em perspectiva. Vi quanta energia e tempo eu desperdiçava em coisa que não valia a pena. O hospital é uma grande oportunidade de mirar um espelho para você. A gente hoje vive uma era de cultura muito barulhenta, por isso está se fazendo tanta meditação. A gente vive numa grande anestesia, e isso parece muito bom: as pessoas estão correndo para um futuro que não aconteceu e atrás do prejuízo de um passado que já foi. Mas estar o tempo todo em pleno movimento é alienante. Para ter o seu poder de volta para suas mãos, você tem que parar, respirar, ficar inteiro no momento. O que levou a gente à insustentabilidade foi buscar tudo fora. Isso não sacia. 

Como é pensar assim para um palhaço, que é quem faz o espetáculo?
O hospital foi me mostrando. Uma vez, em Nova York, passei por um adolescente que estava tomando quimioterapia. Ele me olhou com expressão de enfado, mas achei que conseguiria alegrá-lo. Fiz uma cena que costumava ter 100% de retorno de gargalhada. Ele me olhou e disse: "Sabe o que é mais triste? Você não é nem engraçado".

Fiquei com tanta vergonha, tão humilhado pela minha arrogância, que olhei para baixo para chorar. Foi quando vi minha roupa de palhaço, e comecei a chorar e falar como um palhaço: "Mais uma trapalhada, mais um emprego que eu vou perder porque eu só faço bobagem..." O menino achou engraçado. A palhaça –que era minha supervisora– entrou no jogo e, quanto mais me massacravam, mais ele ia gostando. Me deixou voltar. Saí com a sensação de que tinha sido atropelado, minha supervisora falou: "O que você acha que é ter câncer aos 14 anos? Ele queria saber se você queria mesmo entrar na vida dele, porque, para isso, você precisa saber como ele está se sentindo." Esse moleque foi uma tremenda de uma porrada maravilhosa.

Wellington Nogueira

Profissão Coordenador da ONG Doutores da Alegria, ator e palhaço
Formação Ensino médio no Colégio Bandeirantes. Ator pela American Musical and Dramatic Academy e palhaço pelo Big Apple Circus Clown Care Unit, ambos de NY
Curiosidades Foi professor de inglês e atuou nos musicais "Família Adams" (2012/2013) e "Jesus Cristo Superstar" (2014) 
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Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/09/1814956-e-preciso-viver-tristeza-para-ter-alegria-diz-palhaco-que-atua-em-hospitais.shtml

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

As escolhas feitas pelo prazer são propriamente malvinistas

 Contardo calligaris*
Ilustração Contardo Calligaris de 15.set.2016

À força de ler e ouvir os que criticam nossos tempos, acabamos nos convencendo de que somos hedonistas –aliás, vergonhosamente hedonistas. Zygmunt Bauman, por exemplo, convenceu a muitos de seus leitores de que, por causa do hedonismo, nossa liberdade seria feita de escolhas risíveis e fúteis. 

Tipo, você não gosta do programa? É só zapear. Você cansou de encontrar o mesmo parceiro na cama a cada noite? Basta se separar. O romance que você está lendo fica chato pela página 20? Deixe de ler e, se tiver folheado o volume com cuidado, ainda vai dar para trocá-lo na livraria. 

Nossa busca pelo prazer imediato nos impediria de saborear as coisas com calma e ponderação. Será? E quais são as coisas que deveríamos saborear com calma –programa chato, livro chato e casamento chato? É isso que estamos perdendo por causa de nossa busca "desenfreada" pelo prazer?

O extraordinário não é que a gente possa zapear porque acha chato, mas é que esse ato tão sensato (zapear contra o tédio) nos envergonhe e que a gente se sinta culpado por isso. As escolhas feitas pelo prazer, que deveriam ser facilmente justificáveis, são propriamente malvistas –pelo homem da rua, por nós mesmos, pela administração da coisa pública, pelas religiões (nem se fala), pela medicina que gere nossas vidas etc. 

Alguns exemplos, ao acaso, da resistência ao prazer e do menosprezo que ele encontra: 

1) Existe um antiviral que, tomado a cada dia, torna quase impossível a contaminação pelo vírus da Aids. É um remédio indigesto, com possíveis efeitos colaterais, mas é um bênção para quem só encontra prazer numa sexualidade promíscua. Se for o seu caso, tente explicar isso ao generalista médio, na hora de pedir a receita"¦ 

2) Existe há anos um teste de HIV pela saliva, com resultados em 20 minutos. O teste detecta os anticorpos, o que significa que não detecta as infecções que aconteceram nas últimas semanas. Mesmo assim, ele oferece uma extraordinária diminuição das chances de contaminação para as pessoas cujas fantasias sexuais são incompatíveis com o sexo "protegido". Ou seja, para quem a camisinha é incompatível com o prazer, é possível encontrar alguém, testar-se, esperar 20 minutos e logo transar com uma certa liberdade. Mas"¦ o teste, embora aprovado pela Anvisa, não é vendido em farmácia. 

3) Engraçado, aliás, que, desde os anos 1980, a campanha de prevenção da Aids nunca tenha conseguido levar em conta as exigências do prazer, mesmo quando elas poderiam ser parcialmente satisfeitas. 

Por exemplo, ao longo dos anos 1980 (e mesmo 1990), nenhuma campanha admitia que o sexo oral contaminava infinitamente menos do que o sexo anal; queria-se proibir ou emborrachar tudo, sempre. Conclusão: as políticas sanitaristas fracassaram por pedir frustrações impraticáveis. 

São apenas pequenos exemplos do fato de que o prazer, para nós, nunca é respeitável. Se no prédio da frente tem uma festa que impede você de dormir, entendo seu ódio; nessa situação, eu já pensei em invocar as sete pragas do Egito contra os festeiros. 

Agora, o ódio sempre é maior quando se trata de uma festa. Se o mesmo barulho fosse devido a um luto repentino com desespero e choros coletivos, aí você aguentaria firme. Você acha lógico? Talvez seja, mas só numa perspectiva em que a dor do outro merece nosso respeito, mas seu prazer, não. Em suma, o prazer como razão de nossas ações é envergonhado e culpado, porque ele nos parece mesquinho. E o prazer do outro é tão desprezível quanto o meu. 

Não pretendo ter convencido você. Mas me daria por satisfeito se, no futuro, ao ler ou ouvir que seríamos "hedonistas", você se der o tempo de duvidar. Afinal, como podemos ser hedonistas, se nossa cultura, sistematicamente, despreza o prazer como causa possível de nossas escolhas? 

Uma velha piada conta que um papa insistia para que a irmã que se ocupasse dele tivesse um seio avantajado. Os cardeais mais próximos tentavam satisfazer esse pedido, o que não era fácil. Até que um dia um deles perguntou a Sua Santidade: "Mas por quê?". E o papa respondeu "Perché mi piace" (porque eu gosto). 

Bem contada, juro que a piada ainda é engraçada. Mas o que nos faz rir nela, qual é o escândalo? O escândalo não é o papa querer uma irmã com seios grandes. O escândalo é o papa trazer como argumento o simples prazer do que ele gosta. 
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* Italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Escreve às quintas.
Foto:  Mariza Dias Costa/Editoria de Arte/Folhapress
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2016/09/1813289-as-escolhas-feitas-pelo-prazer-sao-propriamente-malvinistas.shtml

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Liberdade conectada: quais os limites do direito de livre expressão?

 

Em estudo enciclopédico e atual, historiador britânico explora os limites e o significado dos direitos de livre expressão na era da internet

Eduardo Wolf

O que há em comum entre um pregador radical muçulmano incentivando os jovens a aderirem ao Estado Islâmico nas ruas de Londres, uma mulher sendo forçada a remover seu “burkini” (roupa de banho para muçulmanas) em uma praia na França e jovens brasileiros detidos em São Paulo sob a acusação de que depredariam a cidade em um ato político? Vejamos: no primeiro caso, temos uma pregação religiosa radical incitando à violência física sob a forma de atos terroristas; no segundo, uma ação policial estatal regulando uma prática privada na esfera dos costumes; no terceiro, um conflito político em que manifestantes são detidos previamente por supostamente terem confessado à polícia que sua ação política, na verdade, resultaria em quebra-quebra e arruaça pela cidade. 

Londres, Marselha, São Paulo; terrorismo religioso, conflito de costumes e violência política – pode parecer que não há nada interligando todos esses casos (verídicos), mas eles estão, sim, muito conectados. Em todos eles, um princípio fundamental de nossa identidade como sociedade liberal, democrática e moderna está em questão. Trata-se do princípio da liberdade de expressão, garantido formalmente pelo Bill of Rights inglês de 1689, parteiro e companheiro da jovem república americana de 1776 e tema de controvérsias várias em todas as partes do mundo. Tanto é assim que o assunto mobilizou o professor de Oxford e pesquisador Timothy Garton Ash. 

Desde 2011, Ash está à frente do projeto freespeechdebate.com, com base na universidade inglesa, mas com alcance global. O projeto reúne análises, documentos e relatos sobre a liberdade de expressão em um portal completo e multilíngue (está disponível em 13 idiomas). Após anos de pesquisa, incluindo uma experiência com o orwelliano Estado chinês e seu aparato de censura e repressão, Garton Ash publicou em maio o livro Free Speech: Ten Principles for a Connected World (“Liberdade de Expressão: Dez Princípios para um Mundo Conectado”, Yale University Press, ainda sem tradução brasileira), um alentado volume em que seu autor apresenta uma vigorosa defesa de um liberalismo esclarecido, humanista e cosmopolita para o qual a liberdade de expressão é tão fundamental quanto qualquer outra das garantias individuais mais básicas que as democracias modernas lograram estender a seus cidadãos. 

Uma conquista desde sempre frágil e cuja sobrevivência, em tempos de comunicação instantânea global, é sempre precária. Vejam-se os exemplos acima apresentados. Anjen Choudary, o radical pregador religioso, aliciou jovens ingleses durante décadas para as fileiras do extremismo muçulmano, culminando em apoio ao terrorismo do Estado Islâmico. Seu direito à liberdade de expressão foi violado ao ser sentenciado essa semana a mais de cinco anos de prisão, seguido de vigilância estrita? Ou terá Choudary apenas abusado dos valores democráticos da sociedade britânica para pregar o ódio armado com efetivas consequências inaceitáveis para uma sociedade civilizada? Os princípios seculares franceses devem ser impostos sobre a parcela da população muçulmana, regulando até mesmo como as pessoas se vestem na praia, ou será isso flagrante abuso de autoridade – ainda que em nome de princípios ditos progressistas? A alegação policial de que um grupo de jovens, dirigindo-se a uma manifestação contra o governo brasileiro recém-empossado, confessou que iria depredar a cidade é razão para a detenção prévia dessas pessoas? Ou será esse um caso de violação da liberdade de expressão política dos indivíduos?
Foto: PAULO ERMANTINO | PAGOS

Ash discute em detalhe e com farta documentação casos limites, semelhantes a esses. Não são radicalmente diferentes de outros tantos episódios que têm chegado a nós com preocupante frequência: cartunistas dinamarqueses publicam um desenho do profeta Maomé, ao que se segue uma radical onda de violência muçulmana em protesto a tal “agressão” – eis uma versão simplificada dos sensíveis conflitos do Ocidente laico com o mundo islâmico há anos; regimes autoritários bloqueiam o acesso à internet, impedem a reunião de pessoas em torno de causas comuns e sua livre manifestação, seja nas ruas, seja por escrito – eis a realidade chinesa; indivíduos decidem exercer seu poder de veto à palavra alheia: “você não tem o direito de expressar essas ideias, pois elas nos ofendem” – eis a realidade de muitas universidades americanas e inglesas de ponta. 

Como é possível, no entanto, que justamente em um momento em que a humanidade vive a expansão da ferramenta mais propícia à livre difusão do conhecimento e das convicções individuais, a internet, problemas como a censura explícita de ideias ou a violência contra os que exercem seu direito de expressão sejam tão evidentes? 

Precisamente porque agora vivemos mais conectados do que nunca, velhas formas de preconceito que poderiam ficar restritas a práticas regionais ingressam na corrente do debate público internacional. Da mesma forma, conflitos que jamais teriam emergido em um mundo de “cortinas de ferro” fazem parte da dieta diária de informação que consumimos em nossos computadores, tablets e celulares. Em 1989, quando o Aiatolá Khomeini decretou uma fatwa contra o escritor Salman Rushdie por causa da publicação de seu livro Versos Satânicos, o editor americano de Rushdie podia perguntar: “o que é uma fatwa?”. Hoje, quando as transmissões das decapitações realizadas pelo Estado Islâmico são transmitidas no YouTube e milhões de pessoas podem vê-las instantaneamente, não há inocência possível quanto ao tema – todas as vozes devem ter esse direito de se fazer ouvir na arena pública? 

Em parte, a elegante e complexa resposta de Garton Ash consiste em reconhecer que nunca conseguiremos dirimir todas as nossas disputas ideológicas, nacionais, partidárias ou religiosas, o que não quer dizer que não devamos buscar um modo de convivência civilizada, “concordando que discordamos”. É a voz iluminista liberal de Garton Ash, herdeiro de grandes pensadores como Erasmo de Roterdã e Isaiah Berlin. É por isso que o autor deste formidável livro não tem dúvidas: nosso compromisso com as liberdades individuais – e a liberdade de expressão merece todo esse destaque entre elas – deve estar acima de qualquer ameaça, por mais perigosa que possa parecer, especialmente nesses tempos de conexão total e instantânea dos indivíduos e das sociedades. Governos ou corporações, militantes acadêmicos ou fanáticos religiosos – ninguém deve se arrogar o direito de nos calar. Mas falemos com civilidade, é claro.
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Fonte:http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,liberdade-conectada-quais-os-limites-do-direito-de-livre-expressao,10000075159  - 10/09/2016

A santa e a bruxa: Madre Teresa e a 'primeira-dama do reacionarismo americano'

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No dia seguinte à canonização de Madre Teresa de Calcutá, morreu Phyllis Schlafly, expoente do conservadorismo americano; apesar de católica e carola, não 
leva chance de ser beatificada

Em menos de 24 horas, o mundo ganhou uma santa e perdeu uma bruxa. A santa, como sói acontecer com os santos, já havia morrido quando o Vaticano a canonizou, no domingo passado. Nasceu Anjeze Gouxhi Bojaxhiu, viveu e ganhou fama como Madre Teresa de Calcutá, e tornou-se, como esperado, a primeira Santa Teresa do milênio. Phyllis Schlafly, a bruxa, morreu no dia seguinte, aos 92 anos, cinco anos mais idosa que a madre ao deixar esta vida, em 1997. Apesar de católica e beata, Schlafy não leva a menor chance de ser canonizada. 

Pouco conhecida no Brasil, a “primeira-dama do movimento conservador americano”, penhor e flecha do retorno dos republicanos à Casa Branca com Ronald Reagan, na década de 1980, foi uma figura fascinante. O populismo de direita nunca teve missionária com tamanha estâmina e comparável presença em todos os meios de difusão. Os liberais, os progressistas, os democratas e, especialmente, as feministas, a execravam. Rica, alinhada, sempre adornada por um colar de pérolas, era a própria imagem da americana quatrocentona, aristocrática, demasiado fidalga para voar numa vassoura. Se necessitasse de um caldeirão para fazer mandingas, provavelmente encomendaria o seu à fábrica de panelas Le Creuset. 

Seus admiradores repudiavam tais maledicências. Donald Trump, cuja candidatura ela endossou seis meses atrás com o mesmo entusiasmo dedicado à fracassada campanha do reaça Barry Goldwater em 1964, chamou-a de “paladina das mulheres”, o que na certa horrorizou Hillary Clinton e milhões de americanas, vítimas diretas e indiretas das pias e misóginas diatribes da elegante senhora. Schlafly liderou ferozes cruzadas contra o aborto, a igualdade de direitos entre homens e mulheres, a homossexualidade (apesar de um de seus filho ser gay), o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a entrega da presidência do país a uma mulher. 

Outros, uma vez mais contrariando o milenar aforismo de que dos mortos só dizemos coisas boas (Shakespeare discordava: “Aos homens sobrevive o mal que fizeram”), malharam madame sem dó nem piedade nas redes sociais. A rainha da Branca de Neve teria levado menos bordoadas no Twitter e no Facebook. “Ela deve estar feliz porque foi enfim reunir-se a Satã”, tripudiou um internauta. 

A mais dinâmica e influente ativista de direita da América desde que as “Filhas da América” aposentaram os machados com os quais arrebentavam barris durante a Lei Seca, Schlafly foi uma William F. Buckley Jr. de tailleur. Montou do nada uma coalizão nacional que, antes mesmo de ganhar nome (“Eagle Forum”) e alvará, já convertera uma massa considerável de “velhinhas de tênis”, sua mais fiel base de apoio. 

Com frases do tipo “assédio sexual não é problema para moças virtuosas”, “aula de educação sexual equivale a um bazar para coletar doações para abortos”, “a bomba atômica foi um presente de Deus à América”, deixou no chinelo suas contemporâneas e, de certo modo, herdeiras Anita Bryant, Suzanne Venker, Ann Coulter e Michele Bachmann. 

Nas pegadas de Ayn Rand, o ogro mais graduado do conservadorismo americano, e Midge Decter, decana da intelectualidade republicana (ainda viva, rondando os 90), Schlafly adestrou sua belicosidade na trincheira anticomunista, nos anos 1950. Fez o jogo do senador Joe McCarthy, mas jamais lhe deu apoio em público, concentrando sua energia no combate ao feminismo e suas conquistas. Até com tortas de maçã tentou seduzir congressistas a votarem contra a emenda pela igualdade de direitos. Ao final de um debate, em Nova York, levou uma (não cozida por ela, claro) na cara.
Foto: REPRODUCAO
 

Embora fosse tão ou mais conservadora do que Schlafly, uma humilde mas inflexível pregadora contra o divórcio, o controle de natalidade e o aborto (a seu ver, a maior ameaça à paz mundial), Madre Teresa enfrentou menos reparos à imaculabilidade do seu trabalho do que talvez merecesse. Sua imagem de missionária caridosa e humanitária ficou um bocado arranhada depois que o escritor e jornalista britânico Christopher Hitchens (1949-2011) a denunciou como mentirosa, amiga de ditadores, hipócrita (combatia o divórcio, mas defendeu publicamente o de sua amiga Lady Di), e por lavagem de dinheiro. 

O cientista político nova-iorquino Michael Parenti, o antropólogo inglês Robin Fox, o médico indiano Aroup Chatterjee e o Conselho Mundial Hindu também questionaram a hagiolatria que em torno dela a mídia internacional – e até Woody Allen, através da personagem de Mia Farrow em Simplesmente Alice – ajudaram a consolidar. Criticaram a baixa qualidade dos serviços assistenciais e hospitalares patrocinados por ela, acusaram-na de empregar sua organização religiosa (Missionárias da Caridade) para, prioritariamente, converter pobres à beira da morte ao catolicismo. 

Nem a jornalista inglesa Anne Sebba, autora do respeitoso relato biográfico Madre Teresa: A Imagem e os Fatos (traduzido em 1998 pela Vozes, esgotado), a poupou de algumas estocadas. Revelou, por exemplo, que a madre não usava analgésicos eficazes e, ao utilizar remédios contra tuberculose sem monitoramento dos pacientes, muito contribuiu para agravar a doença e torná-la epidêmica. 

Hitchens foi o primeiro a jogar lama no burel da madre. Num artigo para o semanário The Nation, publicado em 1994, chamou-a de “demônio de Calcutá”, praticante de “um culto baseado na morte, no sofrimento e na submissão”, na “indulgência para os ricos e sacrifício e resignação para os pobres”. Dessa embaraçosa invectiva sairia, três anos depois, o livro maldosamente intitulado The Missionary Position (“A posição de missionário”), cuja conotação sexual não impediu que o autor fosse convidado pelo Vaticano para apresentar provas contra a beatificação de Madre Teresa. 

O que mais incomodava Hitchens era o desembaraço com que ela se relacionava com déspotas e bilionários da pior espécie. Condecorada no Haiti pelo sanguinário Duvalier, dele tornou-se amiga e propagandista. Depois de lavar US$1,25 milhão que o banqueiro Charles Keating roubara a milhares de modestos poupadores, tentou abrandar sua pena, alegando ser ele “amigo dos pobres”. Quando o promotor sugeriu que a madre primeiro devolvesse a grana doada por Keating, ela se fechou em copas. 

Se Hitchens atendeu ao convite do Vaticano, suas críticas não foram suficientes para sustar a beatificação de Madre Teresa e sua posterior canonização. Desde o último dia 4, ela é santa. Já Phyllis Schlafly não precisou morrer para virar bruxa.
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Texto de Sérgio Augusto,
O Estado de S.Paulo
10 Setembro 2016 
Fonte: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,a-santa-e-a-bruxa-madre-teresa-e-a-primeira-dama-do-reacionarismo-americano,10000075157
Imagem da Sta. Teresa de Calcutá da internet