Luis Fernando Verissimo completa 80 anos no fim de setembro.
Autor tem pleno domínio da intuição cômica
ao coletar material dos detritos do falar cotidiano
e das picuinhas dos
comportamentos
Luis Fernando Verissimo não é apenas o cronista mais
popular do Brasil. É também o campeão dos textos apócrifos na internet e
uma das maiores vítimas das atribuições indevidas neste milagroso
universo da multiplicação dos pães que é a web. Parece trivial, mas isto
já diz muito a respeito da sua extensa e variada produção, a qual,
apesar de ganhar a perenidade do livro, nasceu colada à destinação
imediata e efêmera da crônica e ao envelhecimento precoce das pautas
cotidianas. Verissimo ultrapassa o transitório não apenas porque suas
crônicas se transformam em livros, mas porque estabeleceu desde o início
um pacto humorístico com o leitor. Mais do que qualquer outro, o
público que se torna parte do pacto humorístico é aquele que percorre o
noticiário sério do jornal ou da revista e torna-se capaz de entender as
alusões, ironias e paródias de Verissimo e de seu humor fortemente
conectado com os eventos noticiados e, por isso, compreensível apenas
naquelas situações.
Há décadas, esgotamos a paciência em estabelecer um pacto no
cenário político nacional, mas parece, afinal, que o único pacto que
funciona nessas plagas é o humorístico: é preciso alguém que diga para o
leitor o que ele pressente, quer dizer, mas não consegue se expressar.
No limite, o leitor apropria-se indevidamente do nome do humorista para
postar aquilo que o faz rir. Verissimo tem o pleno domínio desta
intuição cômica, coletando-a dos detritos do falar cotidiano, das
picuinhas dos comportamentos de homens e mulheres, da confusão de vozes
sociais no País. Confusão de vozes que ele soube tão bem multiplicar em
seus inúmeros personagens: a Velhinha de Taubaté, a última no País a
acreditar nos governos; o Analista de Bagé, que mistura freudismo com
cafajestismo, e até mesmo as cobrinhas (nem sempre) anônimas desenhadas
nas tiras: Queromeu, o corrupião corrupto, as lesmas Flexa e Shirley ou
Durex, o adesista. Qual escritor sério descreveria um padre
completamente surdo que obriga os fiéis a confissões gritadas na igreja
diante da escandalizada plateia de beatas? Ou então, um brasileiro comum
que recebe, por e-mail, uma proposta do diabo para trocar sua alma por
um único desejo – e, após hesitar entre uma gostosona e a vitória do
Internacional no campeonato, acaba pedindo a transformação do Brasil num
país escandinavo?
Quem se atreveria a pintar um Gregor Samsa tupiniquim, que desperta
transformado em Kafka e consegue cavar uma pensão da Previdência Social
por abalo psíquico? Entre tantos exemplos, de achados cômicos e
citações literárias em modo rebaixadíssimo, a listagem seria infinita.
Mesmo quando escreve livros tidos como sérios, como Os Espiões ou Borges e os Orangotangos Eternos,
Verissimo não resiste à tentação de interpolar efeitos cômicos,
invertendo todos os cânones da ficção policial. Dele, quase que se
poderia dizer o que Umberto Eco escreveu sobre Achille Campanile: “é um
escritor apesar de ser humorista”. Quase. Porque, parodiando Eco,
arriscaríamos dizer que, apenas quando não faz rir, é que Verissimo não é
um grande escritor.
Atribuir indevidamente aforismos ou piadas a Verissimo na web é
sintomático porque faz parte do mesmo pacto humorístico. O leitor
diverte-se porque sente uma íntima afinidade – é quase como se ele mesmo
contasse aquilo, ou pelo menos pensasse, mas não quisesse revelar
publicamente. Afinal, ele não precisa, pois tem o humorista para
expressar o que ele quer, mas não pode. E não pode não apenas porque não
está no centro do picadeiro, lugar natural da galhofa nacional, mas
porque fora dela predomina o ordinário da vida. “Neste país, o sujeito
que faz rir é um benfeitor. E, se não temos um vampiro – estejam certos
–, é a piada que torna inviável qualquer Drácula brasileiro”, escreveu
Nelson Rodrigues. O paradoxo do pacto continua agindo porque é justo um
escritor de humor que consegue algum distanciamento crítico, que salva o
leitor da sua impotência em mudar aquele estado de coisas ou incita a
sua capacidade de indignar-se na direção – não da escuridão ou do
silêncio ressentido da nossa ética emocional –, mas daquele sorriso
divertido que é o riso da libertação. Afinal, a função do humor, do
melhor humor – já o disse Saul Steinberg – “é desnudar o homem para em
seguida perdoá-lo”.
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*ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DA USP, AUTOR DO LIVRO RAÍZES DO RISO E COORDENADOR DO BLOG HTTPS://HUMORHISTORIA.WORDPRESS.COM/
Leia algumas da pérolas tiradas do novo livro do escritor, que completa 80 anos em setembro
Luis Fernando Verissimo,
O Estado de S. Paulo
24 Setembro 2016
Abismo
"Se o mundo está correndo para o abismo, chegue para o lado e deixe ele passar."
Americanos
"É bom ser americano. Você ganha em dólar, não tem nenhuma
dificuldade para dizer o “th” em inglês e, o melhor de tudo, nunca
precisa crescer. "
B
"É a primeira letra de Bach, Beethoven, Brahms, Béla Bartók,
Brecht, Beckett, Borges e Bergman, mas também de Bigorrilho, o que
destrói qualquer tese."
Baleia
"A baleia é um mamífero que preferiu continuar no mar. Quer dizer, é uma sentimental."
Bebês
"Ao nascer, ninguém tem a cara de ninguém. Aliás, os dois ou três
dias depois do nascimento são os únicos dias da vida em que a nossa
cara é só nossa. "
Bundas
"Onde estão as bundas do carnaval, quando não é carnaval? Não parece razoável pensar que elas migram, como os pássaros."
Casamento
"O casamento foi a maneira que a humanidade encontrou de propagar a espécie sem causar falatório na vizinhança."
Classes
"O Brasil é formado por uma classe dominante e uma classe ludibriada."
Coletivo
"Sempre que ouço falar em “inconsciente coletivo” penso num ônibus desgovernado."
Luis Fernando Verissimo completa 80 anos no fim de setembro
Verissimo tem o dom de criar frases sem que nada falte ou sobre, o que faz com que até o pouco pareça muito
Penso em Luis Fernando Verissimo como alguém que leva às
últimas a recomendação de José Carlos Oliveira: “Palavra é sangue. Não
se derrama”.
A frase do falecido cronista capixaba vem a propósito do
escritor, mas também do desenhista de traço despojado, e mais, do
próprio Verissimo, artista capaz, como poucos, de ir ao ponto com um
mínimo de meios. Para quem espera jorros verbais, entrevistá-lo é
experiência angustiante – mas posso atestar: o que ele diz, de tão
desossado, já é texto pronto, sem carência de lipoaspiração vocabular.
Verissimo por certo faria este texto usando menos palavras para
dizer mais e melhor. Aí está uma de suas marcas mais poderosas,
explicação para a força de uma obra que, embora feita no sufoco dos
prazos jornalísticos, tantas vezes é capaz de atravessar o tempo sem
rugas nem sépia. A musa, disse ele, é o deadline do jornal. E o capricho
tanto vale para uma historinha bem-humorada como para o comentário
grave.
Faça a prova: tente cortar, no que o Verissimo escreve ou
desenha, uma só vírgula, um só traço que esteja sobrando. Ou, ao
contrário, acrescentar o que lhe pareça faltante. Parada torta. A menor
coisa, ali, está em condições de justificar presença, provando ser
indispensável. Quanto à substância, até o pouco rende muito. Nosso maior
cronista, no ramo há quase meio século, é como um cozinheiro que,
dispondo apenas de água e sal, faz uma bela bacalhoada.
Que ninguém se deixe enganar pela aparente facilidade do texto do
Verissimo. Trata-se de um mestre naquilo que o poeta Hélio Pellegrino
chamou de “a difícil arte de escrever fácil”. E, claro, não chegou a
tanto sem antes dominar as virtualidades da língua. Só assim pode um
autor tomar liberdades para a criação literária.
“A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda”, escreveu Verissimo em O Gigolô das Palavras.
Mas certamente não é coisa para amadores. “Um escritor que passasse a
respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão
ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel”,
compara ele. “Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou
com a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria sua patroa! Com
que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com
elas em público, alvo da impiedosa atenção de lexicógrafos,
etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção.”
A intimidade com as palavras, por outro lado, é que permite a
Verissimo – essa “fábrica de fazer humor”, no dizer do cartunista
Jaguar, mas também reflexão – aventurar-se, por exemplo, com enorme
graça, na deliciosa brincadeira de esvaziá-las do sentido original,
substituindo-o por algum mais adequado. Como quem procurasse uma ostra
melhor para determinada concha. “Falácia”, por exemplo, a seu ver leva
mais jeito de flor: um canteiro de falácias.
Proponho a você entrar na brincadeira e batalhar na garimpagem de
significado mais exato para o superlativo “veríssimo”. Que tal um
substantivo que dê a ideia de craque da palavra?
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Texto de Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo 24 Setembro 2016
A gente nasce sem querer, numa família não escolhida (ou cada alma
escolhe a sua?), com uma bagagem de genes que nem Deus sabe direito no
que vão dar – lançados no grande mundo, ainda por cima tendo de
desempenhar direito nosso papel.
Que papel? O que a família
exige? O que a sociedade espera? O papel que cobramos de nós mesmos
enquanto corremos entre acertos e trapalhadas, dor e graça, tateando num
nevoeiro de confusões, emoções, razões e desesperos – ou contentamento?
Atores sem preparo, sem roteiro, sem papel e sem alguém que nos sopre
nossas falas, nesse palco desmesurado e instável. Se for difícil demais,
nos matamos de tristeza, de tédio, de medo, de solidão e vazio, ou por
vingança por algo demais cruel. É quando não conseguimos desempenhar
papel nenhum: escolheremos então o nada, se é que a morte é nada.
Mas
em geral gostamos da vida, não nos matamos, até nos sentimos bem. Não
que eu ache que somos farsantes ou falsos. Apenas fomos aqui plantados,
em geral desejados, quase sempre amados, algumas vezes desamados, mal
criados e erradamente educados. A gente comparece do jeito que dá, desde
quando começa a ter consciência – acho que isso também ninguém ainda
determinou (o Google não me deu muita certeza): quando começa a
consciência de existir, e das coisas ao redor?
Minhas memórias se
iniciam aos dois anos e pouco, deitada no assoalho claro da casa,
espiando embaixo de um móvel grande e escuro, admirando bolinhas de
poeira que dançavam segundo minha respiração: para mim, eram seres
vivos. Ou sentada no assoalho da casa da avó que costurava, eu espiando
alfinetes cintilantes entre as frestas das tábuas. Tudo era mágico
naquele tempo, e eu não precisava ser nenhum personagem.
Mas a
vida se impõe, com chamados, deveres, conselhos, promessas, agrados,
punições, por mais brandas que fossem: havia uma ordem em tudo. E a
gente tinha de se adaptar, para que os castigos (não ganhar sorvete, não
poder brincar com as amigas) não fossem mais numerosos do que as
alegrias. Na verdade, os castigos eram poucos, quase bobos, mas eu me
assustava: alguma coisa chamada “des-ordem” existia, eu me enredava com
ela. Todo mundo devia ser calmo, acomodado, pressuroso, obediente, não
lembro mais todas as qualidades que nos faziam boas meninas e bons
meninos naquele tempo quase remoto.
E as perdas: amados e amigos
se vão, jovens ou já velhos, a gente soltando pedaços. Ou os afetos
simplesmente empalideceram. Mas há os que chegam: maravilhosamente
chegam filhos, netos, novos amigos, velhos amigos permanecem, os livros,
os filmes, os quadros, as músicas, a montanha, o mar, as horas de
encantamento, as viagens – e voltar para casa, doce “zona de conforto”.
Acolhimento, segurança dentro do possível neste mundo em que o crime
compensa, o cinismo floresce, a autoridade fracassa, a confusão impera, a
mediocridade se impõe. Seja como for, vamos desempenhando ou
reinventando nossos papéis, ou não os cumprindo e levando rasteira. Não é
ruim, não é bom: é a vida.
Belos, cálidos dias de primavera. O
país, quem sabe, começando a se mover para se recompor. Aquela
criaturinha chamada esperança canta no peitoril da minha janela. Quem
sabe, quem sabe?
"As guerras religiosas? Apenas uma das ofertas do mercado." Encontramos em Assis, antes do seu discurso, Zygmunt Bauman,
o mais importante estudioso da sociedade pós-moderna, que contou em
páginas memoráveis a angústia do homem contemporâneo. E ele nos fala
sobre o desafio do diálogo.
A reportagem é de Stefania Falasca, publicada no jornal Avvenire, 20-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
Professor, a sua intuição sobre a pós-modernidade líquida
continua oferecendo um olhar lúcido sobre o tempo presente. Mas, nessa
liquidez, registra-se uma explosão de nacionalismos, identitarismos
religiosos. Como podem ser explicados?
Comecemos pelo
problema da guerra. O nosso mundo contemporâneo não vive uma guerra
orgânica, mas fragmentada. Guerras de interesse, por dinheiro, por
recursos, para governar as nações. Eu não a chamo de guerra religiosa.
Existem outros que querem que seja uma guerra religiosa. Eu não pertenço
àqueles que querem levar a acreditar que seja uma guerra entre
religiões. É preciso estar atento para não seguir a mentalidade
corrente. Especialmente a mentalidade introduzida pelo cientista
político de plantão, pela mídia, por aqueles que querem obter consenso,
dizendo aquilo que eles queriam ouvir. Você sabe muito bem que, em um
mundo permeado pelo medo, este penetra a sociedade. O medo tem as suas
raízes na ansiedade das pessoas, e, embora tenhamos situações de grande
bem-estar, vivemos em um grande medo, o medo de perder posições. As
pessoas têm medo de ter medo, mesmo sem se darem uma explicação do
motivo. E esse medo tão móvel, inexpressivo, que não explica a sua
origem, é um ótimo capital para todos aqueles que querem utilizá-lo por
motivos políticos ou comerciais. Assim, falar de guerras e de guerras
religiosas é apenas uma das ofertas do mercado.
Ao pânico
das guerras religiosas, soma-se o das migrações. Ainda há alguns anos,
Umberto Eco dizia que, para aqueles que queriam capitalizar sobre o medo
das pessoas, o problema da emigração tinha chegado como um presente do
céu...
Sim, é verdade. Guerras religiosas e imigração
são nomes diferentes dados hoje para explorar esse medo vago e incerto,
mal expressado e mal compreendido. No entanto, estamos aqui cometendo um
erro existencial, confundindo dois fenômenos diferentes: um é o
fenômeno das migrações, e o outro é o fenômeno da imigração, como
observou Umberto Eco. Não são um fenômeno, são dois
fenômenos diferentes. A imigração é a companheira da história moderna. O
Estado moderno, a formação do Estado é também uma história de
imigração. O capital precisa do trabalho, o trabalho precisa do capital.
As migrações, ao contrário, são algo diferente, são um processo natural
que não pode ser controlado, que segue o seu próprio caminho.
Como o senhor acha que podemos encontrar um equilíbrio para esses fenômenos?
A
solução oferecida pelos governos é a de estreitar cada vez mais a corda
das possibilidades de imigração. Mas a nossa sociedade já é
irreversivelmente cosmopolita, multicultural e multirreligiosa. O
sociólogo Ulrich Beck diz que vivemos em uma condição
cosmopolita de interdependência e de troca em nível planetário, mas
sequer começamos a desenvolver a consciência disso. E gerimos esse
momento com os instrumentos dos nossos antepassados... É uma armadilha,
um desafio a ser enfrentado. Nós não podemos voltar atrás e escapar de
viver juntos.
Como nos integrarmos sem aumentar a hostilidade, sem separar os povos?
É
a pergunta fundamental da nossa época. Também não podemos negar que
estamos em um estado de guerra, e, provavelmente, essa guerra também
será longa. Mas o nosso futuro não é construído por aqueles que se
apresentam como "homens fortes", que oferecem e sugerem aparentes
soluções instantâneas, como construir muros, por exemplo, desembainhando
a arma milagrosa que resolve todos os problemas, enquanto o problema
permanece. A única personalidade contemporânea que leva adiante essas
questões com realismo e que as faz chegar a cada pessoa é o Papa Francisco.
No seu discurso à Europa, ele fala de diálogo para reconstruir a
tessitura da sociedade, da justa distribuição dos frutos da terra e do
trabalho que não representam mera caridade, mas uma obrigação moral.
Passar da economia líquida para uma posição que permita o acesso à terra
com o trabalho. De uma cultura que privilegie o diálogo como parte da
educação. Mas, atenção, ele repete: diálogo-educação.
Por
que, na sua opinião, o papa está convencido de que essa é a palavra que
não devemos nos cansar de repetir? Afinal, o que é o diálogo?
Ensinar
a aprender. O oposto das conversas comuns que dividem as pessoas: umas
certas, outras erradas. Entrar em diálogo significa superar o limiar do
espelho, ensinar a aprender a se enriquecer com a diversidade do outro.
Ao contrário dos seminários acadêmicos, dos debates públicos ou das
discussões partidárias, no diálogo não há perdedores, mas apenas
vencedores. Trata-se de uma revolução cultural em relação ao mundo em
que se envelhece e se morre antes de crescer. É a verdadeira revolução
cultural em relação àquilo que estamos acostumados a fazer e é o que
permite repensar a nossa época. A aquisição dessa cultura não permite
receitas ou escapatórias fáceis, ela exige e passa pela educação que
requer investimentos de longo prazo. Nós devemos nos concentrar nos
objetivos de longo prazo. E esse é o pensamento do Papa Francisco.
O diálogo não é um café instantâneo, não dá efeitos imediatos, porque é
a paciência, a perseverança, a profundidade. Ao caminho que ele indica,
eu acrescentaria uma única palavra: assim seja, amém.
Nuno Costa Santos entrevistou Arturo Pérez-Reverte. O autor
espanhol esteve em Portugal para apresentar "Homens Bons", um romance
que quer "salvar a parte salvável do ser humano".
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Arturo Pérez-Reverte é o autor espanhol mais lido no mundo mas não
é isso que faz com que tenha opiniões consensuais. Numa altura em que é
editado em Portugal o romance Homens Bons (ASA), sobre o
idealismo iluminista, o escritor falou com o Observador sobre o livro
mas também sobre o seu pessimismo sobre a natureza humana e a batalha
que tem com o politicamente correcto.
“Homens Bons”, de Arturo Pérez-Reverte (Asa)
Assistiu a várias tragédias do mundo enquanto repórter de guerra. Ainda se assume como pessimista?
A vida que tive não me ajuda a ser optimista. Em todo o caso, este
romance que agora publico em Portugal é optimista. Vi coisas muito
desagradáveis na guerra e fiquei muito mal impressionado com o ser
humano. Já tirei a maiúscula a muitas palavras, como deus, pátria e
bandeira. Mas desta vez edito um romance de esperança, que visa,
digamos, salvar a parte salvável do ser humano. A amizade, a lealdade, a
cultura. A cultura como salvação possível. Este é um livro sobre as
palavras que ficaram com maiúsculas.
Um homem que assistiu a tantas guerras tem necessidade de nomear a bondade?
No trabalho não vi o lado melhor do ser humano e por isso faço uma
compensação escrevendo romances. Estes são uma espécie de analgésico
para mim. Não atacam a causa da dor mas ajudam a suportar a dor. Guardo
muitas imagens e recordações que não são cómodas e agradáveis. Escrever
ajuda a serenar-me e a ir buscar a parte boa.
Qual a melhor história de bondade que viveu na guerra?
Vivi histórias atrozes mas também histórias muito nobres e dignas. Vi
muita gente que se sacrificava por outros. Um velho, em Sarajevo, que
saía todos os dias com uma mochila às costas para ir buscar comida para
os netos e para os vizinhos. Na guerra vi muita gente má e muita gente
boa.
Pois, na guerra o ser humano revela-se nos seus extremos.
O ser humano é um filho da puta por natureza. Nasce filho da puta,
guerreiro e predador. A sociedade educa-o e assim suaviza essa natureza.
Quando há uma catástrofe, uma crise ou uma guerra rompe-se a casca de
civilização e o homem volta a ser um animal e um filho da puta. Mas, ao
mesmo tempo, aparece o homem bom. E vemos também que o mesmo homem pode
ser filho da puta e bom ao mesmo tempo. Vi homens que mataram e
torturaram a ter gestos muito bonitos.
"Vi muita gente que se sacrificava por outros.
Um velho,
em Sarajevo, que saía todos
os dias com uma mochila às costas para
ir
buscar comida para os netos
e para os vizinhos."
Sendo este livro sobre o Iluminismo, vê-o como um livro de civilização numa altura em que está a ser desmantelada?
Sim e isso é particularmente importante agora. Este é um livro que trata
do século XVIII mas que também fala ao mundo de hoje. Os valores não
mudam, são os mesmos. A lealdade, a dignidade, a amizade e a cultura
como salvação continuam a ser necessárias. O mundo é um caos de internet
e de informações dispersas, onde não há possibilidade de separar o útil
do inútil e onde o bem e o mal estão misturados. A internet é uma
ferramenta muito potente mas não hierarquiza a informação. O receptor de
informação não distingue o útil do inútil. Só há cultura se houver
preparação. A cultura ajuda a seleccionar e sem cultura estamos
perdidos. O meu romance pretende ser uma homenagem aos livros como
mecanismo de salvação.
As novas gerações, com poucas referências culturais e históricas, podem encontrar algumas nesse livro?
Este não é um livro didático. Tem o objectivo de prestar homenagem a uns
homens que tentaram mudar o mundo através dos livros, o que aconteceu
no século XVIII.
Mas o Iluminismo também acabou por dar origem a cabeças cortadas, ou seja, a barbárie.
Esse ponto é interessante e importante. O Iluminismo abriu a porta à Luz
mas os homens sequestraram o Iluminismo, convertendo-o em matanças e
guilhotinas. Com frequência, as boas causas, as boas ideias e as boas
razões são contaminadas pela infame e perversa condição humana. A
Revolução Russa, por exemplo, era originalmente um acto necessário e bom
mas foi sequestrada por Estaline e acabou numa ditadura. Todas as boas
causas terminam mal por causa dos homens. Em Portugal, o 25 de Abril,
que começou por ser uma ideia boa, acabou sequestrado pelo dinheiro.
Isso não lhe retira o valor. Os Capitães de Abril continuam a ser os
Capitães de Abril, homens que acreditavam na possibilidade de um mundo.
"Os livros são ou solução ou consolo.
Quando o
mundo exterior não te agrada,
quando é tudo ruído mediático ou confusão,
a biblioteca ajuda a fazer-te compreender
porque é que a realidade é
como é."
Este é um romance, como é habitual nas suas ficções, de
personagens, a começar pelas principais: o bibliotecário don Hermógenes
Molina e o almirante don Pedro Zárate, ambos membros da Real Academia
Espanhola. Continua a perseguir o objectivo de ter boas personagens para
contar uma história?
Posso dizer que este é um livro de ideias e de personagens. E, claro, há
acção, aventura, viagem, peripécias. Eu queria demonstrar que duas
personagens muito diferentes, opostas mesmo — o científico e rigoroso e o
humanista, católico e humano — podem, a propósito dos livros, ser
irmãos. Esta é uma história de amizade. Uma história de livros e de
amizade. Era esse o meu objectivo.
Dom Quixote e Sancho Pança são sempre uma referência nesse aspecto.
Sim, a dimensão de diálogo é central. Se os homens falassem mais, o
mundo seria melhor. Há que falar. Os homens não falam. Em geral os
homens esperam que os outros acabem de falar para dizer aquilo que têm
na cabeça. Quando falamos com uma pessoa com sabedoria e a escutamos o
mundo torna-se melhor.
“Homens Bons” parte muito da sua dimensão de escritor que pesquisa.
É verdade. Mas depois há a parte de ficção, que é fundamental. A certo
momento achei que era importante introduzir a figura do narrador. Que
sou eu, embora com uma dimensão ficcional importante. Neste romance as
personagens reais dizem frases que nunca disseram. Há aqui a exploração
de uma falsa realidade, por assim dizer.
"Há dias vi uma série de turistas a tirar
fotografias na
Brasileira, junto à estátua
de Fernando Pessoa. Pensei: não sabem
quem é
Pessoa mas é muito importante
para eles tirar a foto. Alguém que ame
verdadeiramente o poeta não se pode
aproximar por causa dessa multidão
que o desconhece."
Interessam-no as fronteiras perdidas entre a realidade e a ficção.
Todos os meus livros passam por aí. Invento títulos de obras, misturo
personagens reais com as que não o são. Esse tipo de jogo narrativo
diverte-me muito. Falsifico a realidade na hora de escrever.
É possível encontrar hoje novas formas literárias de contar uma história?
O que é possível é adaptar a literatura. Os grandes temas estão nos
clássicos – em Sófocles, Eurípedes e Aristófanes, por exemplo. A
traição, o crime, o matrimónio, a vingança. O escritor, ao longo dos
séculos, tem ido buscar os temas eternos, actualizando-os. “O Primo
Basílio”, de Eça de Queirós, é uma tragédia de Sófocles situada no
século XIX português. Não há nada que descobrir de essencial. Apenas
existem formas novas de contar os velhos temas de sempre.
Encontra no mundo de hoje alguns homens bons no sentido em que os trata no seu livro?
Hoje em dia não há nenhum homem verdadeiramente bom. Estamos todos
demasiado contaminados. O mundo actual é demasiado global e a miséria e a
vileza também são globais. Não poria a mão no fogo por ninguém.
"Estamos a criar gerações sem memória
e sem cultura. Com planos
de estudos iguais,
em que não se premeia a excelência
mas sim a
mediocridade. Quando se é brilhante
é preciso ocultar isso para
não se
ofender quem não o é."
Mantém-se muito crítico do humanismo cristão? Não lhe reconhece virtudes?
Eu não sou anti-religioso. Mas tenho muitas reservas em relação ao papel
histórico da Igreja Católica. Países como Portugal, Espanha e Itália
ficaram presos em calabouços obscuros durante muitos séculos por causa
da Igreja Católica. Impediu-nos de ler livros, de foder, de rir, de
viajar. E isso traumatizou-nos historicamente. Em Portugal e Espanha,
muito mesmo. E o nosso atraso cultural e intelectual deve-se ao peso que
a Igreja Católica teve em nós. Respeito quem é católico. Não posso é
perdoar o papel histórico e político da Igreja.
O que acha do Papa Francisco?
É-me indiferente. Porque a vontade politicamente correcta não é prática.
Tanto me causa desconfiança um malvado como quem quer agradar a todos.
Quem quer agradar a todos não é fiável.
Uma das suas
batalhas é contra o que se convencionou chamar “politicamente correcto”.
Como é que, no seu entender, este se manifesta?
Quero escrever com liberdade o que quero e o que me parece, não me
deixando guiar por condicionamentos. A língua é sábia – a portuguesa e a
espanhola são-no. Línguas nobres, antigas, latinas. São línguas de uma
eficácia perfeita. Não aceito que me digam que não posso utilizar a
língua porque posso ofender. No outro dia escrevi que o presidente Rajoy
é um “estúpido autista” e os pais dos autistas vieram reclamar. Quando
se escreve não se pode estar sempre a pensar que se pode ofender o
pequeno colectivo. É preciso assumir que as línguas são flexíveis e que a
questão não está nas palavras mas nas interpretações que se fazem
delas. Tenho assumido esta posição no plano público.
Acha que vai ganhar essa batalha?
Não. É uma batalha perdida mas vou lutar até ao fim. Temos sempre medo e
estamos a criminalizar o que é natural. Acho que é terrível e não tem
solução.
"No outro dia escrevi que o presidente Rajoy
é um
“estúpido autista” e os pais dos autistas
vieram reclamar. Quando se
escreve não
se pode estar sempre a pensar que
se pode ofender o
pequeno colectivo."
Que batalhas é que, no seu entender, se vai ganhar então?
Sou um pessimista, como disse. Acho mesmo que a única solução é a
cultura, a biblioteca. Os livros são ou solução ou consolo. Quando o
mundo exterior não te agrada, quando é tudo ruído mediático ou confusão,
a biblioteca ajuda a fazer-te compreender porque é que a realidade é
como é. Estamos a criar gerações sem memória e sem cultura. Com planos
de estudos iguais, em que não se premeia a excelência mas sim a
mediocridade. Quando se é brilhante é preciso ocultar isso para não se
ofender quem não o é. Os homens não são todos iguais. Há homens cultos e
inteligentes, há homens de elites que abrem caminhos novos. Portugal
era um país de elite. Abriu caminhos para outros. Como é que se pode
dizer que um português do século XV é igual a um pirata anglo-saxónico
do mesmo período? Fazem falta homens justos, cultos e educados , não
canalhas.
Como é que têm corrido estes dias em Portugal?
Têm sido bons. Vir a Portugal não é vir ao estrangeiro. Estou em casa.
Reconheço as gentes pelos costumes, pela forma de estar, pela
fisionomia. É como quando um português vai a Espanha. Agora, é certo,
Lisboa está muito mais turística.
O que pensa disso?
Acontece o mesmo em Espanha. Por um lado é bom porque traz dinheiro para
a economia. Mas por outro é negativo. O Portugal que eu amo, elegante,
sereno, senhorial, tradicional, das gentes humildes, está mais apagado.
Lembro-me de vir cá e encontrar as gentes do Alentejo, pobres mas com
uma dignidade e uma educação raras. Há dias vi uma série de turistas a
tirar fotografias na Brasileira, junto à estátua de Fernando Pessoa.
Pensei: não sabem quem é Pessoa mas é muito importante para eles tirar a
foto. Alguém que ame verdadeiramente o poeta não se pode aproximar por
causa dessa multidão que o desconhece.
Hoje ainda há lugar para homens bons?
Sim. Escrevi este livro para demonstrá-lo.
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Nuno Costa Santos,
41 anos, escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis
Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre
outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças
de teatro.
Mais presentes naquele dia, as lágrimas e o luto fazem parte da vida de
Nogueira da mesma forma que o riso, conta. E entender isso foi um
aprendizado obtido nos 25 anos desde que idealizou os Doutores da
Alegria.
A organização fundada por ele, que já trabalhava como palhaço em centros
de saúde nos EUA, atua em hospitais de São Paulo, Rio e Recife.
Na entrevista a seguir, Nogueira lembra histórias marcantes do contato
com pacientes e fala sobre o que se pode levar da experiência no
hospital para a vida fora dele.
*
Folha - Como foi entrar pela primeira vez vestido de palhaço em um hospital no Brasil? Wellington Nogueira - Em 1990, eu trabalhava nos Estados Unidos e
vim para o Brasil visitar o meu pai na UTI do Incor. Ele pediu para eu
fazer algo com as crianças de lá e combinei com uma enfermeira de ir na
manhã seguinte.
À tarde, meu pai entrou em coma. Varamos a noite e, às 8h, liguei para a
enfermeira e disse que não estava com cabeça. Ela falou: "Falei para as
crianças que vem um palhaço, você não vai me dar esse cano agora". Fui e
foi muito legal. Quando terminei, meu pai tinha saído do coma. Depois,
ele saiu do hospital –e eu tinha vindo para acompanhar sua morte. Estava
com um sentimento de gratidão. No ano seguinte, voltei para o Brasil e
comecei o trabalho.
Se tivesse que escolher algum momento ou paciente muito marcante, qual seria?
São muitos, mas o caso do Mateus [adolescente internado há 12 anos no Conjunto Hospitalar do Mandaqui,
na zona norte], é exemplar. Tudo começa quando alguém do hospital
comenta com uma dupla de palhaças, a Val e a Juliana, que o Mateus e a
companheira de UTI dele queriam ver a Lua pela primeira vez. Elas se
disponibilizaram e fizeram um lual.
Depois, à medida que o Mateus passou para a adolescência, elas sugeriram
pintura, levaram livros. Ele pintou todos os palhaços –todos passaram
pelo Mateus [os profissionais se revezam]. Fazer parte da vida de um
paciente por 12 anos faz a gente se perguntar todo dia: como vou me
renovar, o que vou trazer hoje?
É uma relação duradoura. E como é, por outro lado, lidar tão frequentemente com a perda?
No começo, tínhamos um processo chamado higiene emocional. Uma vez por
mês nos reuníamos para conversar. Não me esqueço do caso do Ariel, que
tinha 5 ou 6 anos. Todo mundo tinha trabalhado com ele, porque ele
estava internado havia muito tempo. Um dia, ele morreu. E, na reunião,
todos lembraram de algum momento com o Ariel, que era muito danado,
esperto, adorava pegar a gente no pulo. Cada história acabava numa
gargalhada, porque era alguma coisa que ele tinha aprontado para a
gente. E me dei conta de como esse ritual de viver a experiência e
compartilhar era fortalecedor. Depois, a gente viu que, em alguns casos,
esse processo não dava conta. E aí os artistas começaram a fazer
canções, cenas e textos para elaborar as experiências.
Hoje você está triste. Se tivesse que visitar um hospital, o que faria?
Não iria cancelar. Ofereceria o dia para ele [Domingos Montagner],
porque tem uma coisa de palhaço: o show tem que continuar, porque a vida
continua. Mas é claro que, se fosse alguém muito próximo, talvez eu
precisasse parar. Quando a minha mãe morreu, eu vivi uma tristeza de
verdade e fiquei sete meses como se estivesse nadando numa piscina de
gelatina. Meu 100% era mais lento, chorava, não me furtei. Foi
importante. Hoje, todo mundo fala de alegria, felicidade, prozac. É
claro que uma depressão é algo a ser tratado, mas a gente precisa sentir
como o luto nos afeta. Para celebrar a alegria, é preciso se colocar a
serviço também da tristeza. Quanto mais conheço um, melhor fico no
outro.
O desafio da alegria na adversidade não se restringe ao hospital. Como levar para fora?
Lembro de um senhor que, no final da interação, falou: "Se eu sair
daqui, vou viver a vida de outra forma". Pensei: Por que não posso fazer
essa escolha na plenitude da minha saúde? O hospital é uma tremenda
oportunidade de ver as coisas em perspectiva. Vi quanta energia e tempo
eu desperdiçava em coisa que não valia a pena. O hospital é uma grande
oportunidade de mirar um espelho para você. A gente hoje vive uma era de
cultura muito barulhenta, por isso está se fazendo tanta meditação. A
gente vive numa grande anestesia, e isso parece muito bom: as pessoas
estão correndo para um futuro que não aconteceu e atrás do prejuízo de
um passado que já foi. Mas estar o tempo todo em pleno movimento é
alienante. Para ter o seu poder de volta para suas mãos, você tem que
parar, respirar, ficar inteiro no momento. O que levou a gente à
insustentabilidade foi buscar tudo fora. Isso não sacia.
Como é pensar assim para um palhaço, que é quem faz o espetáculo?
O hospital foi me mostrando. Uma vez, em Nova York, passei por um
adolescente que estava tomando quimioterapia. Ele me olhou com expressão
de enfado, mas achei que conseguiria alegrá-lo. Fiz uma cena que
costumava ter 100% de retorno de gargalhada. Ele me olhou e disse: "Sabe
o que é mais triste? Você não é nem engraçado".
Fiquei com tanta vergonha, tão humilhado pela minha arrogância, que
olhei para baixo para chorar. Foi quando vi minha roupa de palhaço, e
comecei a chorar e falar como um palhaço: "Mais uma trapalhada, mais um
emprego que eu vou perder porque eu só faço bobagem..." O menino achou
engraçado. A palhaça –que era minha supervisora– entrou no jogo e,
quanto mais me massacravam, mais ele ia gostando. Me deixou voltar. Saí
com a sensação de que tinha sido atropelado, minha supervisora falou: "O
que você acha que é ter câncer aos 14 anos? Ele queria saber se você
queria mesmo entrar na vida dele, porque, para isso, você precisa saber
como ele está se sentindo." Esse moleque foi uma tremenda de uma porrada
maravilhosa.
Wellington Nogueira
Profissão Coordenador da ONG Doutores da Alegria, ator e palhaço
Formação Ensino médio no Colégio Bandeirantes. Ator pela American
Musical and Dramatic Academy e palhaço pelo Big Apple Circus Clown Care
Unit, ambos de NY
Curiosidades Foi professor de inglês e atuou nos musicais "Família Adams" (2012/2013) e "Jesus Cristo Superstar" (2014)
À força de ler e ouvir os que criticam nossos tempos, acabamos nos
convencendo de que somos hedonistas –aliás, vergonhosamente hedonistas.
Zygmunt Bauman, por exemplo, convenceu a muitos de seus leitores de que,
por causa do hedonismo, nossa liberdade seria feita de escolhas
risíveis e fúteis.
Tipo, você não gosta do programa? É só zapear. Você cansou de encontrar o
mesmo parceiro na cama a cada noite? Basta se separar. O romance que
você está lendo fica chato pela página 20? Deixe de ler e, se tiver
folheado o volume com cuidado, ainda vai dar para trocá-lo na livraria.
Nossa busca pelo prazer imediato nos impediria de saborear as coisas com
calma e ponderação. Será? E quais são as coisas que deveríamos saborear
com calma –programa chato, livro chato e casamento chato? É isso que
estamos perdendo por causa de nossa busca "desenfreada" pelo prazer?
O extraordinário não é que a gente possa zapear porque acha chato, mas é
que esse ato tão sensato (zapear contra o tédio) nos envergonhe e que a
gente se sinta culpado por isso. As escolhas feitas pelo prazer, que
deveriam ser facilmente justificáveis, são propriamente malvistas –pelo
homem da rua, por nós mesmos, pela administração da coisa pública, pelas
religiões (nem se fala), pela medicina que gere nossas vidas etc.
Alguns exemplos, ao acaso, da resistência ao prazer e do menosprezo que ele encontra:
1) Existe um antiviral que, tomado a cada dia, torna quase impossível a
contaminação pelo vírus da Aids. É um remédio indigesto, com possíveis
efeitos colaterais, mas é um bênção para quem só encontra prazer numa
sexualidade promíscua. Se for o seu caso, tente explicar isso ao
generalista médio, na hora de pedir a receita"¦
2) Existe há anos um teste de HIV pela saliva, com resultados em 20
minutos. O teste detecta os anticorpos, o que significa que não detecta
as infecções que aconteceram nas últimas semanas. Mesmo assim, ele
oferece uma extraordinária diminuição das chances de contaminação para
as pessoas cujas fantasias sexuais são incompatíveis com o sexo
"protegido". Ou seja, para quem a camisinha é incompatível com o prazer,
é possível encontrar alguém, testar-se, esperar 20 minutos e logo
transar com uma certa liberdade. Mas"¦ o teste, embora aprovado pela
Anvisa, não é vendido em farmácia.
3) Engraçado, aliás, que, desde os anos 1980, a campanha de prevenção da
Aids nunca tenha conseguido levar em conta as exigências do prazer,
mesmo quando elas poderiam ser parcialmente satisfeitas.
Por exemplo, ao longo dos anos 1980 (e mesmo 1990), nenhuma campanha
admitia que o sexo oral contaminava infinitamente menos do que o sexo
anal; queria-se proibir ou emborrachar tudo, sempre. Conclusão: as
políticas sanitaristas fracassaram por pedir frustrações impraticáveis.
São apenas pequenos exemplos do fato de que o prazer, para nós, nunca é
respeitável. Se no prédio da frente tem uma festa que impede você de
dormir, entendo seu ódio; nessa situação, eu já pensei em invocar as
sete pragas do Egito contra os festeiros.
Agora, o ódio sempre é maior quando se trata de uma festa. Se o mesmo
barulho fosse devido a um luto repentino com desespero e choros
coletivos, aí você aguentaria firme. Você acha lógico? Talvez seja, mas
só numa perspectiva em que a dor do outro merece nosso respeito, mas seu
prazer, não. Em suma, o prazer como razão de nossas ações é
envergonhado e culpado, porque ele nos parece mesquinho. E o prazer do
outro é tão desprezível quanto o meu.
Não pretendo ter convencido você. Mas me daria por satisfeito se, no
futuro, ao ler ou ouvir que seríamos "hedonistas", você se der o tempo
de duvidar. Afinal, como podemos ser hedonistas, se nossa cultura,
sistematicamente, despreza o prazer como causa possível de nossas
escolhas?
Uma velha piada conta que um papa insistia para que a irmã que se
ocupasse dele tivesse um seio avantajado. Os cardeais mais próximos
tentavam satisfazer esse pedido, o que não era fácil. Até que um dia um
deles perguntou a Sua Santidade: "Mas por quê?". E o papa respondeu
"Perché mi piace" (porque eu gosto).
Bem contada, juro que a piada ainda é engraçada. Mas o que nos faz rir
nela, qual é o escândalo? O escândalo não é o papa querer uma irmã com
seios grandes. O escândalo é o papa trazer como argumento o simples
prazer do que ele gosta.
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* Italiano, é psicanalista, doutor em
psicologia clínica e escritor. Reflete sobre cultura, modernidade e as
aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Escreve
às quintas.
Foto: Mariza Dias Costa/Editoria de Arte/Folhapress
Em estudo enciclopédico e atual, historiador
britânico explora os limites e o significado dos direitos de livre
expressão na era da internet
Eduardo Wolf
O que há em comum entre um pregador radical muçulmano
incentivando os jovens a aderirem ao Estado Islâmico nas ruas de
Londres, uma mulher sendo forçada a remover seu “burkini” (roupa de
banho para muçulmanas) em uma praia na França e jovens brasileiros
detidos em São Paulo sob a acusação de que depredariam a cidade em um
ato político? Vejamos: no primeiro caso, temos uma pregação religiosa
radical incitando à violência física sob a forma de atos terroristas; no
segundo, uma ação policial estatal regulando uma prática privada na
esfera dos costumes; no terceiro, um conflito político em que
manifestantes são detidos previamente por supostamente terem confessado à
polícia que sua ação política, na verdade, resultaria em quebra-quebra e
arruaça pela cidade.
Londres, Marselha, São Paulo; terrorismo religioso, conflito de
costumes e violência política – pode parecer que não há nada
interligando todos esses casos (verídicos), mas eles estão, sim, muito
conectados. Em todos eles, um princípio fundamental de nossa identidade
como sociedade liberal, democrática e moderna está em questão. Trata-se
do princípio da liberdade de expressão, garantido formalmente pelo Bill
of Rights inglês de 1689, parteiro e companheiro da jovem república
americana de 1776 e tema de controvérsias várias em todas as partes do
mundo. Tanto é assim que o assunto mobilizou o professor de Oxford e
pesquisador Timothy Garton Ash.
Desde 2011, Ash está à frente do projeto freespeechdebate.com,
com base na universidade inglesa, mas com alcance global. O projeto
reúne análises, documentos e relatos sobre a liberdade de expressão em
um portal completo e multilíngue (está disponível em 13 idiomas). Após
anos de pesquisa, incluindo uma experiência com o orwelliano Estado
chinês e seu aparato de censura e repressão, Garton Ash publicou em maio
o livro Free Speech: Ten Principles for a Connected World
(“Liberdade de Expressão: Dez Princípios para um Mundo Conectado”, Yale
University Press, ainda sem tradução brasileira), um alentado volume em
que seu autor apresenta uma vigorosa defesa de um liberalismo
esclarecido, humanista e cosmopolita para o qual a liberdade de
expressão é tão fundamental quanto qualquer outra das garantias
individuais mais básicas que as democracias modernas lograram estender a
seus cidadãos.
Uma conquista desde sempre frágil e cuja sobrevivência, em tempos
de comunicação instantânea global, é sempre precária. Vejam-se os
exemplos acima apresentados. Anjen Choudary, o radical pregador
religioso, aliciou jovens ingleses durante décadas para as fileiras do
extremismo muçulmano, culminando em apoio ao terrorismo do Estado
Islâmico. Seu direito à liberdade de expressão foi violado ao ser
sentenciado essa semana a mais de cinco anos de prisão, seguido de
vigilância estrita? Ou terá Choudary apenas abusado dos valores
democráticos da sociedade britânica para pregar o ódio armado com
efetivas consequências inaceitáveis para uma sociedade civilizada? Os
princípios seculares franceses devem ser impostos sobre a parcela da
população muçulmana, regulando até mesmo como as pessoas se vestem na
praia, ou será isso flagrante abuso de autoridade – ainda que em nome de
princípios ditos progressistas? A alegação policial de que um grupo de
jovens, dirigindo-se a uma manifestação contra o governo brasileiro
recém-empossado, confessou que iria depredar a cidade é razão para a
detenção prévia dessas pessoas? Ou será esse um caso de violação da
liberdade de expressão política dos indivíduos?
Foto: PAULO ERMANTINO | PAGOS
Ash discute em detalhe e com farta documentação casos limites,
semelhantes a esses. Não são radicalmente diferentes de outros tantos
episódios que têm chegado a nós com preocupante frequência: cartunistas
dinamarqueses publicam um desenho do profeta Maomé, ao que se segue uma
radical onda de violência muçulmana em protesto a tal “agressão” – eis
uma versão simplificada dos sensíveis conflitos do Ocidente laico com o
mundo islâmico há anos; regimes autoritários bloqueiam o acesso à
internet, impedem a reunião de pessoas em torno de causas comuns e sua
livre manifestação, seja nas ruas, seja por escrito – eis a realidade
chinesa; indivíduos decidem exercer seu poder de veto à palavra alheia:
“você não tem o direito de expressar essas ideias, pois elas nos
ofendem” – eis a realidade de muitas universidades americanas e inglesas
de ponta.
Como é possível, no entanto, que justamente em um momento em que a
humanidade vive a expansão da ferramenta mais propícia à livre difusão
do conhecimento e das convicções individuais, a internet, problemas como
a censura explícita de ideias ou a violência contra os que exercem seu
direito de expressão sejam tão evidentes?
Precisamente porque agora vivemos mais conectados do que nunca,
velhas formas de preconceito que poderiam ficar restritas a práticas
regionais ingressam na corrente do debate público internacional. Da
mesma forma, conflitos que jamais teriam emergido em um mundo de
“cortinas de ferro” fazem parte da dieta diária de informação que
consumimos em nossos computadores, tablets e celulares. Em 1989, quando o
Aiatolá Khomeini decretou uma fatwa contra o escritor Salman Rushdie
por causa da publicação de seu livro Versos Satânicos,
o editor americano de Rushdie podia perguntar: “o que é uma fatwa?”.
Hoje, quando as transmissões das decapitações realizadas pelo Estado
Islâmico são transmitidas no YouTube e milhões de pessoas podem vê-las
instantaneamente, não há inocência possível quanto ao tema – todas as
vozes devem ter esse direito de se fazer ouvir na arena pública?
Em parte, a elegante e complexa resposta de Garton Ash consiste
em reconhecer que nunca conseguiremos dirimir todas as nossas disputas
ideológicas, nacionais, partidárias ou religiosas, o que não quer dizer
que não devamos buscar um modo de convivência civilizada, “concordando
que discordamos”. É a voz iluminista liberal de Garton Ash, herdeiro de
grandes pensadores como Erasmo de Roterdã e Isaiah Berlin. É por isso
que o autor deste formidável livro não tem dúvidas: nosso compromisso
com as liberdades individuais – e a liberdade de expressão merece todo
esse destaque entre elas – deve estar acima de qualquer ameaça, por mais
perigosa que possa parecer, especialmente nesses tempos de conexão
total e instantânea dos indivíduos e das sociedades. Governos ou
corporações, militantes acadêmicos ou fanáticos religiosos – ninguém
deve se arrogar o direito de nos calar. Mas falemos com civilidade, é
claro.
No dia seguinte à canonização de Madre
Teresa de Calcutá, morreu Phyllis Schlafly, expoente do conservadorismo
americano; apesar de católica e carola, não
leva chance de ser
beatificada
Em menos de 24 horas, o mundo ganhou uma santa e perdeu uma
bruxa. A santa, como sói acontecer com os santos, já havia morrido
quando o Vaticano a canonizou, no domingo passado. Nasceu Anjeze Gouxhi
Bojaxhiu, viveu e ganhou fama como Madre Teresa de Calcutá, e tornou-se,
como esperado, a primeira Santa Teresa do milênio. Phyllis Schlafly, a
bruxa, morreu no dia seguinte, aos 92 anos, cinco anos mais idosa que a
madre ao deixar esta vida, em 1997. Apesar de católica e beata, Schlafy
não leva a menor chance de ser canonizada.
Pouco conhecida no Brasil, a “primeira-dama do movimento
conservador americano”, penhor e flecha do retorno dos republicanos à
Casa Branca com Ronald Reagan, na década de 1980, foi uma figura
fascinante. O populismo de direita nunca teve missionária com tamanha
estâmina e comparável presença em todos os meios de difusão. Os
liberais, os progressistas, os democratas e, especialmente, as
feministas, a execravam. Rica, alinhada, sempre adornada por um colar de
pérolas, era a própria imagem da americana quatrocentona,
aristocrática, demasiado fidalga para voar numa vassoura. Se
necessitasse de um caldeirão para fazer mandingas, provavelmente
encomendaria o seu à fábrica de panelas Le Creuset.
Seus admiradores repudiavam tais maledicências. Donald Trump,
cuja candidatura ela endossou seis meses atrás com o mesmo entusiasmo
dedicado à fracassada campanha do reaça Barry Goldwater em 1964,
chamou-a de “paladina das mulheres”, o que na certa horrorizou Hillary
Clinton e milhões de americanas, vítimas diretas e indiretas das pias e
misóginas diatribes da elegante senhora. Schlafly liderou ferozes
cruzadas contra o aborto, a igualdade de direitos entre homens e
mulheres, a homossexualidade (apesar de um de seus filho ser gay), o
casamento entre pessoas do mesmo sexo e a entrega da presidência do país
a uma mulher.
Outros, uma vez mais contrariando o milenar aforismo de que dos
mortos só dizemos coisas boas (Shakespeare discordava: “Aos homens
sobrevive o mal que fizeram”), malharam madame sem dó nem piedade nas
redes sociais. A rainha da Branca de Neve teria levado menos bordoadas
no Twitter e no Facebook. “Ela deve estar feliz porque foi enfim
reunir-se a Satã”, tripudiou um internauta.
A mais dinâmica e influente ativista de direita da América desde
que as “Filhas da América” aposentaram os machados com os quais
arrebentavam barris durante a Lei Seca, Schlafly foi uma William F.
Buckley Jr. de tailleur. Montou do nada uma coalizão nacional que, antes
mesmo de ganhar nome (“Eagle Forum”) e alvará, já convertera uma massa
considerável de “velhinhas de tênis”, sua mais fiel base de apoio.
Com frases do tipo “assédio sexual não é problema para moças
virtuosas”, “aula de educação sexual equivale a um bazar para coletar
doações para abortos”, “a bomba atômica foi um presente de Deus à
América”, deixou no chinelo suas contemporâneas e, de certo modo,
herdeiras Anita Bryant, Suzanne Venker, Ann Coulter e Michele Bachmann.
Nas pegadas de Ayn Rand, o ogro mais graduado do conservadorismo
americano, e Midge Decter, decana da intelectualidade republicana (ainda
viva, rondando os 90), Schlafly adestrou sua belicosidade na trincheira
anticomunista, nos anos 1950. Fez o jogo do senador Joe McCarthy, mas
jamais lhe deu apoio em público, concentrando sua energia no combate ao
feminismo e suas conquistas. Até com tortas de maçã tentou seduzir
congressistas a votarem contra a emenda pela igualdade de direitos. Ao
final de um debate, em Nova York, levou uma (não cozida por ela, claro)
na cara.
Foto: REPRODUCAO
Embora fosse tão ou mais conservadora do que Schlafly, uma
humilde mas inflexível pregadora contra o divórcio, o controle de
natalidade e o aborto (a seu ver, a maior ameaça à paz mundial), Madre
Teresa enfrentou menos reparos à imaculabilidade do seu trabalho do que
talvez merecesse. Sua imagem de missionária caridosa e humanitária ficou
um bocado arranhada depois que o escritor e jornalista britânico
Christopher Hitchens (1949-2011) a denunciou como mentirosa, amiga de
ditadores, hipócrita (combatia o divórcio, mas defendeu publicamente o
de sua amiga Lady Di), e por lavagem de dinheiro.
O cientista político nova-iorquino Michael Parenti, o antropólogo
inglês Robin Fox, o médico indiano Aroup Chatterjee e o Conselho
Mundial Hindu também questionaram a hagiolatria que em torno dela a
mídia internacional – e até Woody Allen, através da personagem de Mia
Farrow em Simplesmente Alice – ajudaram a
consolidar. Criticaram a baixa qualidade dos serviços assistenciais e
hospitalares patrocinados por ela, acusaram-na de empregar sua
organização religiosa (Missionárias da Caridade) para, prioritariamente,
converter pobres à beira da morte ao catolicismo.
Nem a jornalista inglesa Anne Sebba, autora do respeitoso relato biográfico Madre Teresa: A Imagem e os Fatos
(traduzido em 1998 pela Vozes, esgotado), a poupou de algumas
estocadas. Revelou, por exemplo, que a madre não usava analgésicos
eficazes e, ao utilizar remédios contra tuberculose sem monitoramento
dos pacientes, muito contribuiu para agravar a doença e torná-la
epidêmica.
Hitchens foi o primeiro a jogar lama no burel da madre. Num artigo para o semanário The Nation,
publicado em 1994, chamou-a de “demônio de Calcutá”, praticante de “um
culto baseado na morte, no sofrimento e na submissão”, na “indulgência
para os ricos e sacrifício e resignação para os pobres”. Dessa
embaraçosa invectiva sairia, três anos depois, o livro maldosamente
intitulado The Missionary Position (“A posição
de missionário”), cuja conotação sexual não impediu que o autor fosse
convidado pelo Vaticano para apresentar provas contra a beatificação de
Madre Teresa.
O que mais incomodava Hitchens era o desembaraço com que ela se
relacionava com déspotas e bilionários da pior espécie. Condecorada no
Haiti pelo sanguinário Duvalier, dele tornou-se amiga e propagandista.
Depois de lavar US$1,25 milhão que o banqueiro Charles Keating roubara a
milhares de modestos poupadores, tentou abrandar sua pena, alegando ser
ele “amigo dos pobres”. Quando o promotor sugeriu que a madre primeiro
devolvesse a grana doada por Keating, ela se fechou em copas.
Se Hitchens atendeu ao convite do Vaticano, suas críticas não
foram suficientes para sustar a beatificação de Madre Teresa e sua
posterior canonização. Desde o último dia 4, ela é santa. Já Phyllis
Schlafly não precisou morrer para virar bruxa.