segunda-feira, 20 de abril de 2020

Giorgio Agamben - UMA PERGUNTA

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" A medida da abdicação aos próprios princípios éticos e políticos é, de fato, muito simples: trata-se de se perguntar qual é o limite além do qual não estamos dispostos a renunciar", 

escreve Giorgio Agamben, filósofo italiano, em artigo publicado por Quodlibet, 13-04-2020. A tradução é de Luan Sevignani e Victor Gonçalves.

Segundo ele, "a soleira que separa a humanidade da barbárie foi ultrapassada".

O filósofo italiano refere-se explicitamente aos juristas e à Igreja.

Quanto a esta última, afirma: "A Igreja, que, fazendo-se de serva da ciência, que já se tornou a verdadeira religião do nosso tempo, renegou radicalmente os seus princípios mais essenciais. A Igreja, sob um Papa que se chama Francisco, esqueceu que Francisco abraçava os leprosos. Esqueceu que uma das obras da misericórdia é a de visitar os enfermos. Esqueceu que os mártires ensinam que é necessário estar disposto a sacrificar a vida em vez da fé, e que renunciar ao próximo significa renunciar à fé".

Eis o artigo.

A peste marcou, para a cidade, o início da corrupção... Ninguém estava mais disposto a perseverar naquilo que antes julgava ser o bem, porque acreditava que poderia, talvez, morrer antes de alcançá-lo. - Tucídides, A Guerra do Peloponeso, II, 53. [tradução da citação do Agamben]*

Gostaria de compartilhar, com quem quiser, uma pergunta sobre a qual, há mais de um mês, não cesso de refletir. Como foi possível que um país inteiro tenha entrado em colapso ético e político diante de uma doença? As palavras que usei para formular essa pergunta foram, uma por uma, atentamente pensadas. A medida da abdicação aos próprios princípios éticos e políticos é, de fato, muito simples: trata-se de se perguntar qual é o limite além do qual não estamos dispostos a renunciar. Acredito que o leitor que se dará ao trabalho de considerar os seguintes pontos, poderá apenas concordar que – sem se dar conta ou fingindo não se dar conta – a soleira que separa a humanidade da barbárie foi ultrapassada.

1) O primeiro ponto, talvez o mais grave, concerne aos corpos das pessoas mortas. Como pudemos aceitar, unicamente em nome de um risco que não era possível medir, que as pessoas a nós caras e os seres humanos no geral não somente morressem sozinhos, mas que – algo que nunca havia acontecido antes na história, de Antígona a hoje – seus cadáveres fossem queimados sem um funeral?

2) Em seguida, aceitamos sem muitos problemas, apenas em nome de um risco que não era possível medir, limitar nossa liberdade de movimento num grau que nunca havia acontecido antes na história do país, nem mesmo durante as duas guerras mundiais (o toque de recolher durante a guerra estava limitado a certas horas). Consequentemente, unicamente em nome de um risco que não era possível medir, aceitamos suspender, na prática, nossas relações de amizade e de amor, pois o nosso próximo tinha se tornado uma possível fonte de contágio.

3) Isso pôde acontecer – e aqui tocamos a raiz do fenômeno – porque dividimos a unidade da nossa experiência vital, que é sempre inseparavelmente, ao mesmo tempo, corporal e espiritual, numa entidade puramente biológica, por um lado, e numa vida afetiva e cultural, por outro. Ivan Ilitch mostrou, e David Cayley mencionou isso recentemente aqui, as responsabilidades da medicina moderna nessa divisão, a qual é tida como óbvia, mas que é, na verdade, a maior das abstrações. Sei muito bem que tal abstração fora realizada pela ciência moderna, por meio dos dispositivos de reanimação, que podem manter um corpo num estado de pura vida vegetativa.

Mas se essa condição se estende para além dos confins espaciais e temporais que lhe são próprias, como estamos tentando fazer hoje, e se torna uma espécie de princípio de comportamento social, caímos em contradições para as quais não há escapatória. Sei que alguém se apressará em responder que se trata de uma condição limitada no tempo, e que, passada tal condição, tudo voltará a ser como antes. É verdadeiramente singular que seja possível repetir isso, caso não se trate de má-fé, uma vez que as mesmas autoridades que decretaram a emergência não cessam de nos lembrar que, quando a emergência tiver sido superada, teremos que continuar observando as mesmas diretrizes, e que o “distanciamento social”, como foi chamado com um eufemismo significativo, será o novo princípio organizacional da sociedade. E, em todo caso, o que nós aceitamos sofrer, de boa ou má-fé, não poderá ser apagado.

Não posso, a esta altura, uma vez que acusei as responsabilidades de todos nós, não mencionar as responsabilidades, ainda mais graves, daqueles que teriam a tarefa de zelar pela dignidade do homem. Antes de mais nada, a Igreja, que, fazendo-se de serva da ciência, que já se tornou a verdadeira religião do nosso tempo, renegou radicalmente os seus princípios mais essenciais. A Igreja, sob um Papa que se chama Francisco, esqueceu que Francisco abraçava os leprosos. Esqueceu que uma das obras da misericórdia é a de visitar os enfermos. Esqueceu que os mártires ensinam que é necessário estar disposto a sacrificar a vida em vez da fé, e que renunciar ao próximo significa renunciar à fé.

Outra categoria que falhou para com seus próprios deveres é a dos juristas. Estamos, há muito tempo, habituados ao uso insensato dos decretos de urgência, através dos quais, na prática, o poder executivo substituiu o legislativo, abolindo o princípio da separação dos poderes que define a democracia. Mas neste caso, todos os limites foram superados, e se tem a impressão que as palavras do primeiro ministro e do chefe da proteção civil tenham, como se dizia para as do Führer, imediatamente valor de lei. E não está claro como, esgotado o limite de validade temporal dos decretos de urgência, as limitações da liberdade poderão ser mantidos, como se anuncia. Com quais dispositivos jurídicos? Com um estado de exceção permanente? É dever dos juristas verificar que as regras da constituição sejam respeitadas, mas os juristas calam. Quare silete iuristae in munere vestro? [Por que estão em silêncio, juristas, diante do que lhes diz concerne?].

Sei que sempre haverá alguém que responderá que o grave sacrifício fora feito em nome dos princípios morais. A estes, gostaria de lembrar que Eichmann, aparentemente de boa-fé, não cansava de repetir que havia feito o que havia feito segundo a própria consciência, para obedecer ao que acreditava serem os preceitos da moral kantiana. Uma norma que afirma que é necessário renunciar ao bem para salvar o bem é tão falsa e contraditória quanto aquela que, para proteger a liberdade, impõe a renúncia à liberdade.

Nota:
* “A peste introduziu na cidade pela primeira vez a anarquia total [...] Ninguém queria lutar pelo que antes considerava honroso, pois todos duvidavam de que viveriam o bastante para obtê-lo”. [trad. de Mário da Gama Kury, 2001, p.118]
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sexta-feira, 17 de abril de 2020

Viviane Mosé: ‘O maior desafio do isolamento é aprender a parar’


 
Para Viviane Mosé, o isolamento obriga que olhemos para nós mesmos


Camilo Rocha10 de abr de 2020(
 
Em entrevista ao ‘Nexo’, psicanalista e filósofa fala sobre isolamento social: solidão para uns, hiperconvívio familiar para outros e os impactos na sociabilidade após a pandemia

As palavras isolamento, confinamento e distanciamento social viraram parte do nosso repertório diário. Junto com os aniversários por vídeo-chamada, as reuniões virtuais e os chats por celular sem motivo aparente. Quem pode, fica em casa. E mesmo quem não pode, tende a achar que essa é a melhor estratégia.

Segundo o Datafolha, três em cada quatro brasileiros adultos que possuem celular apoiam o recolhimento doméstico como medida para frear a disseminação do coronavírus.

Essa situação tem levado a espaços públicos esvaziados e lares cheios, com novas (e nem sempre harmoniosas) dinâmicas de convívio e organização. Há, também, um contingente considerável de pessoas atravessando o período de isolamento social sozinhas em casa.

A nova realidade, que não tem prazo certo para terminar, testa as emoções, a saúde mental, a empatia e a resiliência de todos. É também uma jornada para um próximo estágio que ninguém sabe bem dizer como será.

O Nexo conversou com a filósofa, poeta e psicanalista Viviane Mosé sobre alguns dos aspectos da existência em meio à pandemia e ao isolamento. Mosé é autora de diversos livros, entre eles “A espécie que sabe: do Homo Sapiens à crise da razão” (Editora Vozes, 2019) e “Nietzsche hoje: Sobre os desafios da vida contemporânea” (Editora Vozes, 2018).

Tem acompanhado relatos sobre a quarentena? Que tipo de relato tem chamado a sua atenção?

VIVIANE MOSÉ Eu não tenho acompanhado os relatos do isolamento, e raramente acesso as redes sociais. Tudo isso me pegou de um modo muito intenso, precisei resgatar o que me era mais íntimo, mas não tem sido fácil. Em meus livros falo sobre a exaustão da civilização, sobre uma queda que necessariamente se daria dado que “o processo civilizatório é uma contra natureza”, como diz Nietzsche. Em algum momento, ficaria clara nossa submissão e nossa perda nessa disputa insana. Mas o modo como tudo está se dando é de qualquer modo surpreendente. Desaba o nosso mundo ilusório, nossa bolha feita de fama e consumo, mundo forjado para nos fazer esquecer da vida, esta experiência inédita e imprevisível. Quem somos como humanidade e o que buscamos ser? E em que sociedade queremos viver? Foi neste lugar que me coloquei nestes dias de solidão. O que realmente importa no fim das contas?

O isolamento ainda não tem prazo para terminar. Isso nos desorganiza internamente?

VIVIANE MOSÉ Vida é igual a fluxo, mudança, transformação eterna. A falta de mudança é sinônimo de morte. A instabilidade é condição da vida, este fio que levamos adiante até que tudo acabe. Mas por medo de encarar a vida de frente, para não ver, não saber, não sentir, em suma, para não sofrer, criamos a bolha da civilização, feita de pontos fixos, de certezas, de verdades que mais servem para criar castas e relações de dominação e controle de uns poucos. Somos feitos de rotinas, tarefas, compromissos diários, as cidades nasceram em torno de uma praça onde tinha sempre um relógio e uma igreja. Esquecemos a vida e nos isolamos na bolha da civilização que agora desaba. Mas a vida continua. E, ao mesmo tempo, tudo nasce. Vivemos um choque grave. Daqui sairemos pessoas mais maduras, mais fortes, afinal estamos sendo obrigados a nos ver, ao invés de nos relacionarmos com aquilo que acreditamos ou sonhamos ser. Sim, precisamos de alguma rotina no isolamento para não enlouquecer, mas o que mais precisamos agora é aprender a não agir, a não se impor. É preciso incorporar algum grau de silêncio na alma. Temos que aprender a parar, este é o maior desafio. E, quem, sabe aprender a lidar com a instabilidade, com a mudança, como fazem aqueles que se arriscam, que ousam.

Existe muita gente que está se vendo em uma solidão forçada. Como lidar com isso mantendo a sanidade?

VIVIANE MOSÉ A solidão é condição da dignidade humana. Quem não sabe estar só se prostitui em relações mal arranjadas, forjadas, tóxicas. Ser uma boa companhia para si mesmo é o mínimo que uma pessoa precisa se quiser se relacionar com alguém de modo saudável. Sim, a solidão é dura, mas necessária e muito vigorosa. Foi sempre abraçada a ela, a minha mais profunda solidão, que encontrei a força necessária para seguir adiante. Foi o que fiz nestes últimos dias tão difíceis. Agora me sinto revigorada, pronta para dar minha contribuição, meu ânimo, minha força àqueles que precisam. A vida vale a pena. E o que esta doença põe à prova é o vínculo que temos com a vida, o quanto sua raiz está forte e seu tronco e galho e folhas estão firmes, cheios de vontade de viver. Isto que acabei de falar pode ser traduzido como saúde. O vírus desta nossa saúde, o quanto de vida somos capazes de fazer transformar do corpo. É hora de se apegar à vida, nosso maior valor. Afirme a solidão, pergunte o que ela tem a lhe dizer. Ouça, se transforme. Sairemos mais fortes de tudo isso.

Para outros, o convívio familiar foi intensificado. Como isso se reflete na individualidade?

VIVIANE MOSÉ Além da dureza de encarar a nós mesmos, nossos fantasmas, medos, ilusões, este isolamento forçado está nos impondo o convívio de modo quase violento com a família. Vivíamos, mesmo com as pessoas mais íntimas, cada um em sua bolha, cada um acreditando que é o que imagina ser, e aplicando o mesmo raciocínio aos outros. Em outras palavras, nos relacionamos com a imagem que temos de nós mesmos e das pessoas e não com elas. Vez ou outra, a casa caía, surgia um conflito, o que já ajudava a arranjar as coisas. Mas em famílias onde reinava uma paz formal, onde os conflitos eram sufocados, este confronto familiar tem sido desastroso, porque as pessoas não têm intimidade umas com as outras, então passam a se estranhar. É preciso viver este conflito, falar sobre ele, tentar encontrar pontos de equilíbrio no meio das diferenças. Evitar o confronto aberto, as acusações, tendo em mente que todos de algum modo erramos. Precisamos nos diminuir um pouco para que todos possam se expressar. Precisamos aprender a ceder. Teremos famílias com isso, e não aglomerado de pessoas em um mesmo espaço, como estava se tornando hábito.

A quarentena terá impactos na nossa sociabilidade?

VIVIANE MOSÉ Não vejo problemas em desenvolvermos nossas habilidades de modo virtual, esse isolamento nos fará sofisticar estas relações. Ter aulas, brincar de bonecas, conversar, entre muitas outras coisas, podem ser feitas virtualmente. Esta é uma potência humana, que lhe permite o intelecto, por isso temos memória, linguagem, pensamento, consciência. Nossa experiência em rede é muito recente, e precisa ser aprimorada, sofisticada. Vivemos uma guerra que acontece por meio da informação, e é também pela possibilidade de compartilhar horizontalmente esta informação que estamos construindo novas possibilidades de vida e ação. Ao mesmo tempo, o isolamento nos dará uma sede enorme pela presença, pelo convívio, pelo corpo. Passaremos a valorizar cada vez mais um abraço, um aperto de mão. A vida ganhará mais espaço ao invés do acúmulo, do consumo.
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