quinta-feira, 26 de agosto de 2021

A desesperança de Cabul e o “ennui” do Ocidente

Pedro Norton*

Haroon Sabawoon/Anadolu Agency via Getty Images
 
É angustiante assistir, em direto, ao colapso daquilo a que, no Ocidente liberal, 
convencionámos chamar Civilização

As aterradoras imagens do colapso de Cabul não podem deixar de perturbar qualquer alma com um mínimo de sensibilidade. É sempre arrepiante assistir ao desabar de qualquer regime, mesmo no caso dos mais hediondos. Guardo, por exemplo, memórias muito vivas da queda estrondosa de Ceausescu, transmitida praticamente em direto da Roménia de 1989 e que haveria de culminar no julgamento sumário do ditador e da sua mulher, Elena. Assim como não esqueço as imagens fortíssimas da captura e execução de Saddam Hussein no Iraque ou de Khadafi nos escombros da Líbia. Mas se, nestes casos, o choque com a violência dos acontecimentos aparecia aos nossos olhos como o preço a pagar por libertações de longos invernos tirânicos, em Cabul não há qualquer atenuante para o terror que testemunhamos. E é de terror que efetivamente se trata. É terror que efetivamente lemos na desesperança sem fundo das multidões em Cabul.

Ao observar o desespero afegão, vêm-me aliás à cabeça profecias sinistras, de outras eras e de outros lugares.  Apetece parafrasear Marx. “Há um espectro que assombra o Afeganistão.” O espectro da intolerância, do fanatismo, do medievalismo, do radicalismo, que se abate sobre a sociedade afegã. É sempre arrepiante, repito, assistir ao desabar de um regime. Mas é profundamente angustiante assistir, em direto, ao colapso daquilo a que, no Ocidente liberal, convencionámos chamar Civilização. A privação das liberdades mais básicas e fundamentais, imprescindíveis para a plena realização do “eu”, constitui uma violência difícil de imaginar, mesmo para quem nunca as conheceu. Mas é, convenhamos, particularmente sádico assistir, impávido, à imposição de uma reversão dessas mesmas liberdades a quem as experimentou, ainda que de forma efémera.

Independentemente de saber quem carrega a maior responsabilidade, independentemente de saber se existiriam alternativas realistas à disposição dos decisores políticos (e eu sou dos que duvidam que existissem), independentemente de todas as considerações geoestratégicas, uma coisa parece certa: para os afegãos que puderam experimentar a liberdade, esta experiência-limite de retrocesso e reversão permanecerá como a herança mais tangível de 20 anos de intervenção dos aliados ocidentais no país.

Sentado no conforto de um sofá em Lisboa, é impossível não parar um instante que seja para fazer um paralelo entre esta desesperança sem nome e as várias “crises” que nos ocupam os dias. O Ocidente que se espanta com a voragem dos acontecimentos no Afeganistão é o mesmo que, até há poucos dias, se entretinha, nas redes sociais, na procura incessante, doentia e obsessiva de causas efémeras e de vítimas tantas vezes imaginárias. O Ocidente que se choca com este inexorável avanço das trevas, o Ocidente que por agora debita palavras e promessas ocas de solidariedade é o mesmo que, num espaço de poucas semanas, voltará a esquecer Cabul para regressar ao seu fútil “ennui”, desencantar outros tantos “je suis” e voltar a acender fogueiras de indignação e cancelamento com palavras proibidas, ofensas espúrias e outras cruzadas de trazer por casa.

Cada um tem os dramas que pode. Em Cabul, não é preciso inventá-los

*Jornalista. CEO

Fonte:  https://visao.sapo.pt/opiniao/2021-08-26-a-desesperanca-de-cabul-e-o-ennui-do-ocidente/

Os relacionamentos mudaram mesmo durante a pandemia? O que dizem os estudos sobre o tema

Getty Images
 
Uma série de estudos, publicados na Revista de Relacionamentos Sociais e Pessoais analisa as mudanças de comportamento nos relacionamentos movidas pelo contexto pandémico da Covid-19. E se há algumas conclusões mais ou menos óbvias, outras são inesperadas

A maioria das relações humanas baseia-se em fatores como tempo, afeto e união, que, quando compatíveis e interligadas, podem provocar uma ligação entre duas pessoas. Contudo, durante a pandemia, muitos relacionamentos foram testados, uma vez que um dos elementos chave – tempo – foi, nuns casos, diminuído e, em outros, aumentado.

Poderá a comunicação digital substituir o contacto humano? Como lidaram os casais com situações stressantes pelas quais nunca tinham passado?

Na Revista de Relacionamentos Sociais e Pessoais estão publicadas várias investigações direcionadas, segundo Pamela Lannutti, diretora do Centro de Estudos da Sexualidade Humana da Universidade de Widener, nos EUA, e editora da revista, para a “ciência das relações”, alguns resultados foram expectáveis: nas relações que envolveram profissionais de saúde, o apoio próximo do parceiro neste período foi muito preciso, enquanto que a questão a distância nas relações entre jovens universitários acabou por afastá-los. No entanto, outros resultados mostraram-se já mais surpreendentes e inesperados.

Os papéis do homem e da mulher em casa ficaram ainda mais distintos, ao invés de igualitários

Um dos estudos, publicado em março, por investigadores neozelandeses, revelou que a medida de confinamento imposta em todo o mundo, que obrigou as pessoas a trabalhar de casa e ao encerramento das escolas, fez com que as mulheres assumissem muito mais responsabilidades em casa do que os homens e, embora estes se apercebessem, não se incomodavam. Esta situação de desequilíbrio levou à insatisfação da mulher na relação. “Nota-se definitivamente uma mudança em relação aos papéis tradicionais de género, de formas que talvez não existissem antes da Covid-19”, o que, de acordo com Lanutti, “abalou a sociedade de forma inesperada e muito rápida”.

Os solteiros não se acomodaram e continuaram à procura de um parceiro

Embora fosse esperado que as pessoas solteiras baixassem o nível de exigência nesta altura mais difícil para encontrar um parceiro, principalmente em relação à aparência física, num inquérito multinacional, publicado em maio, a cerca de 700 pessoas solteiras – maioritariamente mulheres – descobriu-se que esse elemento ainda era importante.

Os encontros presenciais continuaram a existir para as pessoas que não gostam de videochamadas

Um estudo universitário realizado no Utah, EUA, e publicado em janeiro, descobriu que aqueles que tinham dificuldades de adaptação às formas de comunicação digital por vídeo – Zoom, Bluejeans, Microsoft Teams, entre outros – tinham mais probabilidades de violar as medidas de distanciamento social. “A necessidade de conexão física sobrepõe-se ao que está a acontecer naquele momento, o que é um pensamento assustador”, referiu Bevan, acrescentado que a necessidade deste tipo de ligação é “realmente difícil” de ser anulada.

Os casais que evitaram discutir estavam mais infelizes do que os que exprimiam o que os incomodava

Num estudo, publicado em março, que envolveu casais homossexuais, constatou-se que um quinto dos participantes estava a viver em conjunto apenas devido à pandemia, provocando casos de ansiedade e depressão, uma vez que não exprimiam o que os incomodava. “Recomendamos que casais do mesmo sexo discutam ativamente a sua mudança nas decisões em vez de se apressarem a coabitar sem considerações adequadas”, sugeriram os investigadores.

As personagens fictícias e as celebridades tornaram-se amigos

Os investigadores concluíram num estudo, em maio, que as “relações parassociais” – com pessoas que não conhecem, mas com quem se forma apego – aumentaram. As pessoas seguiam celebridades através de redes sociais ou plataformas de streaming, a partir de casa, e, embora a relação com os amigos continuasse estável, estavam menos vezes juntos, devido às medidas de distanciamento social, aproximando-os de pessoas famosas, ou mesmo personagens fictícias.

Hábitos de construção de resiliência pareciam ajudar os casais a continuar

Neste período de contexto pandémico, os casais enfrentam situações de stress conjugal, que influencia o estado emocional e provoca incertezas quanto à relação. Um estudo publicado em abril, que analisou como é que a Teoria da Resiliência da Comunicação – defende que a capacidade de “se recuperar ou se reintegrar após experiências de vida difíceis”, não é possuída pelo indivíduo, mas pelo discurso, interação e processos – pode melhorar a incerteza relacional, constatando que a concentração em cinco hábitos pode fazer com que a relação resista mais facilmente a momentos difíceis: tentar manter uma certa normalidade, manter e usar redes de comunicação, ter âncoras de identidade, construir lógicas alternativas (como alguém que use, por exemplo, o humor para lidar com um diagnóstico de cancro) e privilegiar a ação produtiva em vez dos sentimentos negativos. No inquérito, realizado a 561 pessoas casadas, conclui-se que os casais que utilizaram essas estratégias estavam a dar-se melhor com os seus parceiros durante a pandemia. O humor também foi um elemento que ajudou os casais a lidar com o confinamento, embora nem sempre tenha melhorado a comunicação.

Fonte: https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2021-08-23-os-relacionamentos-mudaram-mesmo-durante-a-pandemia-o-que-dizem-os-estudos-sobre-o-tema/?utm_campaign=news_AnteCOVID_5_08_21&utm_source=e-goi&utm_medium=email

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Olhares baços no horizonte baço

Índia

“O sorriso apagado e a dor de sentir que a vida lhe roubou o direito ao amor.” Foto: Captura de ecrã do vídeo

 

É nas terras de horizonte baço
que os direitos são mais negligenciados,
pensava eu ao caminhar por ruas tranquilamente infernais
numa tentativa de compreender o que via e sentia.

Meninos descalços, sem nome
São meninos de olhos vazios e mão estendida
E eu, que sou também mãe, filha, irmã, sobrinha, tia, neta, amiga, amante… amada
Porque me daria a vida sobras de afeto se a eles nada disso pode dar?

E eu, ser egoísta e mimado, que morreria se, por um só dia, os papéis se invertessem.
E eu, que não mais pude parar de me interrogar

O menino descalço, sem nome, doente de amargura
que, de punho fechado e dentes cerrados,
me atinge o ventre furioso.
Que fazes tu aqui de visita ao nosso inferno – pensaria eu –
se nem uma moeda nos trazes, odiosa visitante
que testemunhas a nossa humilhação?

E o meu coração que suplica perdão sem que se ouça.
Tanto lhes faz, a agonia permanece.

E outro menino descalço, sem nome, que geme
com lágrimas já secas e decorarem-lhe as faces imundas.
E eu, que nada mais sei do que ser um comum humano, com nome e sobrenome,
podre, egoísta, indiferente, sensível, acomodada.

E outro menino descalço, sem nome,
e mais lágrimas e mais desespero e mais súplicas e mais puxões
E eu, que não lhes dou moedas, não aqueço da indignação que magoa,
quase desisto, mas rendo-me de uma vez e deixo de temer o toque.

E eu, que lhe passo a mão pela cabeça, que lhe roubo um sorriso
que lhe peço um tempo para partilhar o momento
E ele, que permanece sorrindo
E ele, que tenta
E ele, que desiste
E eu, que tiro do bolso um papel e lápis de cor
E ele, que se senta a meu lado e desenha sem parar,
torce os lábios de concentração e esforço
Reflete, aprecia o seu próprio desenho e mostra-mo esperando aprovação
Eu aplaudo e, finalmente, ele se orgulha
talvez pela primeira vez na sua breve vida.
Volta ao desenho para me provar a destreza.
Eis que a ponta do vermelho, pelos vistos a sua cor favorita, se esgota
E eu procuro outra cor entre os lápis espalhados
E eu, que lhe explico como usar um afia para resgatar a ponte vermelha
E ele, que novamente sorri.
Admirado, experimenta e consegue
E sorri de novo.

Não lhe dei nenhuma moeda senão o melhor de mim
que ainda é tão pouco.
É pela vida fora que vou descobrindo o quão pobre e fraca sou
cobarde, negligente, egoísta.
Não trago comigo senão a eternidade daquele momento
o desenho esforçado daquele menino descalço
de olhos tão baços quanto o horizonte da sua terra

E ele, que não levou senão um par de lápis de cor
colocado cuidadosamente no bolso mais seguro das rotas vestes.
O sorriso apagado e a dor de sentir que a vida lhe roubou
o direito ao amor para dar de sobra aos meninos de outras terras
só porque lá o horizonte é mais azul.

“Não lhe dei nenhuma moeda senão o melhor de mim que ainda é tão pouco.” Foto: Captura de ecrã do vídeo.

(Vídeo e declamação do texto. Ver)

*Ana Sofia Brito é performer e artista de rua por opção, embora também mantenha a arte de palco; frequentou o Chapitô e estudou teatro físico na Moveo, em Barcelona.

Fonte: https://setemargens.com/olhares-bacos-no-horizonte-baco/?utm_term=Seca+atinge+12+milh%3Fues+de+pessoas+na+S%3F%3Fria+e+no+Iraque&utm_campaign=Sete+Margens&utm_source=e-goi&utm_medium=email

terça-feira, 24 de agosto de 2021

‘Quem legitimou o Taleban no poder foram os próprios EUA’

 

Membros de comitiva do Taleban gesticulam diante de microfones durante entrevista à imprensa em Moscou 

Foto: Tatyana Makeyeva/Reuters – 09.07.2021Membros de comitiva do Taleban durante entrevista coletiva em Moscou, em 9 de julho de 2021

Amina Khan, diretora do Centro de Estudos Estratégicos de Islamabad, fala ao ‘Nexo’ sobre os caminhos para resolver o impasse político e a guerra no Afeganistão

A diretora para Afeganistão, Oriente Médio e África do Centro de Estudos Estratégicos de Islamabad, no Paquistão, Amina Khan, acredita que, apesar da justificada desconfiança, “é preciso dar uma chance ao Taleban porque não há alternativa”.

Em entrevista ao Nexo, por telefone, na quinta-feira, Khan, que há 17 anos estuda o Afeganistão, diz que foram os próprios americanos que trouxeram o Taleban para a mesa de negociações, em 2019, em Doha, durante a administração de Donald Trump. Com isso, os EUA deram ao grupo insurgente as credenciais políticas que eles reivindicam definitivamente para si desde que entraram em Cabul, em 15 de agosto, proclamando o restabelecimento do governo que exerceram antes, de 1996 até a invasão americana de 2001.

Khan diz duvidar, no entanto, da capacidade do grupo de estabelecer um governo unitário e sólido em todo o país neste momento. Será preciso, diz ela, construir acordos abrangentes com outros atores, sob o escrutínio de outros países da região, que devem exercer pressão fundamental pelo respeito aos direitos humanos – o que, por si só, já marca a diferença de circunstâncias em relação aos cinco anos em que o Taleban esteve no poder anteriormente (1996-2001).

O presidente americano, Joe Biden, disse que havia 300 mil militares afegãos bem treinados e completamente equipados pelos EUA. Por que eles não foram capazes de resistir à invasão do Taleban? Eles lutaram ou nem tentaram?

Amina Khan Primeiro, não acho que tenha havido uma invasão do Taleban. Foi mais uma tomada do poder político, que, aliás, havia sido antecipada. A velocidade com que ocorreu é que não era prevista. Mas o evento em si, sim. Todo mundo sabia que o Taleban voltaria de uma maneira ou de outra.

É injusto e desonesto dizer que as forças afegãs poderiam fazer frente ao Taleban. É verdade que as forças afegãs eram numerosas, mas a formação desse Exército foi algo cheio de percalços. Eles não receberam toda formação e treinamento que uma Força precisa ter para exercer suas funções, especialmente quando, do outro lado, está um grupo como o Taleban. Além disso, o número de deserções foi alto. Muitos reclamavam de atrasos no pagamento dos soldos. Portanto, não havia esse senso de lealdade em relação ao Estado.

Mapa mostra a localização do Afeganistão, a leste da encruzilhada da Ásia com o Oriente Médio

Nenhum governo, incluindo o de Ashraf Ghani [presidente afegão, que fugiu de Cabul para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, em 15 de agosto, assim que o Taleban entrou na capital] foi capaz de conquistar os corações e mentes dos afegãos, o que, claro, inclui os membros das próprias Forças Armadas. É por tudo isso que a maior parte das forças afegãs sequer colocaram alguma resistência ao avanço do Taleban.

Acho injusto que a comunidade internacional se refira agora às forças afegãs como incapazes, citando o número alto de militares que compunham essas fileiras. Nós sabemos que quantidade não é necessariamente sinônimo de qualidade, especialmente quando se trata de fazer frente às estratégias militares de guerrilha presentes nessa situação.

No pico da presença militar dos EUA e da Otan [Aliança do Tratado do Atlântico Norte] no Afeganistão, tínhamos algo como 140 mil militares estrangeiros, e eles tampouco foram capazes de derrotar o Taleban. Então, como esperar que uma nova Força Armada criada recentemente pudesse derrotar um grupo como esse? No fundo, eu acho que ainda há muitas questões não respondidas no ar, assim como há falhas e responsabilidades a serem apuradas de todos os lados.

Quando Biden fez seu primeiro discurso, em Washington, após a queda de Cabul nas mãos do Taleban, ele sugeriu que os políticos afegãos eram corruptos e os militares, covardes. Qual o impacto de uma declaração assim, num momento como esse?

Amina Khan É uma declaração insincera. Quando Biden assumiu, ele tinha vasto conhecimento e experiência sobre a região. Não se esperava realmente que ele fosse rever todo o processo, é verdade, mas ninguém esperava tampouco que ele fosse se mover na direção de uma retirada tão apressada e tão irresponsável, como acabou ocorrendo.

É muito conveniente para os americanos colocar toda a culpa nas forças afegãs agora. Sem dúvida, os militares afegãos não corresponderam, porque eu acho que havia entre eles um sentimento de abandono. Eles estavam testemunhando os americanos se retirarem dessa maneira tão atabalhoada, e, ao mesmo tempo, viam até o presidente afegão abandonando o país e suas próprias Forças Armadas.

'É injusto que se coloque toda a culpa nas forças afegãs. Os americanos eram os principais protagonistas do acordo. Foram eles que assinaram os papéis. Eles legitimaram o Taleban'

Em todo caso, seria importante que os americanos assumissem suas próprias responsabilidades. No dia em que os EUA assinaram o acordo com o Taleban [29 de fevereiro de 2020], esse foi o dia em que o Taleban foi legitimado. Perceba que os EUA começaram a colocar em prática o que estava previsto no acordo de Doha, sem que o Taleban sequer tivesse começado a fazer sua própria parte. Tudo isso deu ainda mais robustez ao grupo. Tudo isso fez a retirada americana parecer uma vitória do Taleban. Os americanos foram irresponsáveis ao não cobrar do Taleban que o grupo cumprisse integralmente sua parte no acordo de Doha, que consistia num cessar-fogo total e num engajamento imediato em negociações que transcorressem pela via política. A única coisa que o Taleban fez foi parar de atacar as forças americanas, e isso pareceu ter sido considerado suficiente para que os americanos decidissem seguir adiante [com a retirada].

Então, é claro que eu acho injusto que se coloque toda a culpa nas forças afegãs. Os americanos eram os principais protagonistas do acordo. Foram eles que assinaram os papéis. Eles legitimaram o Taleban. Eles têm uma responsabilidade, e essa responsabilidade agora é de assegurar que haja alguma forma de arranjo inclusivo, antes que eles lavem as mãos completamente em relação ao Afeganistão.

Se o Taleban assumir o controle de fato, de novo, terá nas mãos as tropas e todo arsenal militar que foram deixados para trás pelos EUA. Quais podem ser as consequências? O grupo pode representar uma ameaça para além das fronteiras afegãs?

Amina Khan A situação ainda é, neste momento, muito fluida. Considero difícil que o Taleban consiga exercer o controle pleno sobre todo o país – não acho que todas as regiões aceitem isso, assim como a comunidade internacional. Eu acho que eles mesmos chegarão à conclusão de que precisam entrar em algum tipo de acordo de divisão do poder, que envolva outros atores no Afeganistão. Muitos diálogos nesse sentido já estão acontecendo.

Acho que já há um entendimento de que o Taleban não é capaz de estabelecer um sólido governo unitário por si mesmo. Vai ter de ser algo inclusivo.

Foto: Stringer/Reuters – 17.08.2021
Dois combatentes do Taleban, armados, olham para a câmera no momento da foto, nas ruas de Cabul
Combatentes do Taleban montam guarda diante do edifício do Ministério do Interior, em Cabul

Agora, sim, como resultado da rendição das forças nacionais afegãs, muitas armas e munições caíram nas mãos do Taleban, mas o grupo já tinha acesso a todas as armas das quais precisava. Não acho que isso vá tornar a insurgência deles ou a causa deles mais forte. Além do mais, o Taleban não pode simplesmente tomar conta de tudo. Para o bem ou para o mal, há agora instituições que foram erigidas ao longo dos últimos 20 anos [período em que os EUA estiveram no país], e o Taleban não pode simplesmente tomar conta de tudo.

'Se eles não fizerem esses acordos, não conseguirão obter o apoio e o reconhecimento do qual eles precisam tanto – não apenas de parte da comunidade internacional, mas também de países da região'

Acho que teremos pela frente um processo de transição, que terá de ser em alguma medida inclusivo. Tenho certeza disso. Se eles não fizerem esses acordos, não conseguirão obter o apoio e o reconhecimento do qual eles precisam tanto – não apenas de parte da comunidade internacional, mas também de países da região. Por causa disso, da necessidade de obter esse reconhecimento, o Taleban não vai apostar tudo numa tomada militar do poder, como tem sido muitas vezes alardeado internacionalmente.

Se você olhar para a situação no Afeganistão, ela é relativamente estável. Olhe para o fato de que não houve uma tomada sanguinolenta do poder. Há um temor dentro do Afeganistão? Sim, mas o pânico mesmo foi mais em Cabul, e eu acho que isso foi ligeiramente exagerado, porque houve aí o pânico do pessoal internacional, além da reação de parte dos moradores de Cabul também. Foi um pouco exagerado.

É um processo de transição e estamos todos esperançosos de que vá haver algum tipo de marco político, assim como houve em Doha, nos próximos dias.

A sra. acredita que esse é um novo Taleban, menos violento que aquele que governou o país de 1996 a 2001?

Amina Khan É certo que existe muita desconfiança e muita suspeita quando falamos do Taleban, e é claro que a gente só acredita vendo. Eles estão dizendo que mudaram, que estão mais abertos aos direitos das mulheres e falam até mesmo num governo inclusivo, numa nova Constituição nacionalista. Todas essas declarações são importantes porque, lembre-se, o grupo nunca tinha falado antes sobre um Afeganistão inclusivo ou sequer num nacionalismo afegão. Eles nunca tinham falado em dar direitos a minorias.

Mais do que isso: lembre-se que todo esse processo de negociação [que vem desde 2019, na administração Trump, com os acordo de Doha] foi iniciado pelo próprio Taleban. Eles escreveram cartas abertas aos americanos e ao presidente Trump. Então, com certeza, há uma mudança aparente. Penso que temos de ser otimistas precavidos, pois uma coisa é falar e outra é fazer. Mas eu acho que o Taleban foi forçado a mudar.

Foto: Patrick de Noirmont/Reuters – 03.10.1996
Dois combatentes do Taleban com lançadores de foguetes às costas, fardados, em ofensiva no Vale do Panjsher
Combatentes do Taleban a caminho do Vale do Panjsher, na ofensiva que culminou com a tomada do poder, em 1996

Eles sabem que o mundo mudou e eles não podem voltar ao poder da mesma maneira que fizeram duas décadas atrás, pois se isolariam do mundo e sua política nunca contaria. É preciso ter em conta também o fato de que houve uma mudança geracional. As pessoas que assumiram o poder em 1996 não estão mais na mesma posição. Além disso, os jovens viram as coisas com outros olhos, alguns de seus filhos passaram a frequentar instituições de ensino, então há no ar um senso de que o grupo deve evoluir. Mas, de novo: temos de esperar e ver.

Ainda assim, acho que é preciso dar uma chance ao Taleban. O fato de que eles estejam exibindo alguns sinais de mudança é algo positivo e acho que outro fato a ser percebido é o de que o grupo está fazendo isso por que sabe que, se fizer qualquer coisa errada, não vai conseguir o reconhecimento e a legitimidade, sem contar o apoio do qual eles desesperadamente precisam – nem tanto da comunidade internacional, mas dos demais países da região, particularmente os que importam: Paquistão, Rússia, China e Irã. Se eles não tiverem reconhecimento e apoio da região, não conseguirão ser relevantes, para dizer o mínimo.

Qual o papel que China, Rússia e Turquia têm desempenhado nesse novo arranjo. E o que esse papel que eles começam a desempenhar representa para o Taleban e para os EUA?

Amina Khan Essa é a primeira vez que a região está presenciando uma coincidência incomum para a qual eu gostaria de chamar a atenção. Se você olhar para a história da região e do país em si, verá que, ali, esses atores sempre tiveram interesses divergentes. O Paquistão estava numa página, apoiava o Taleban, enquanto o Irã estava em outra, apoiando seus próprios aliados no norte [onde, na província de Badakhsan, grupos locais resistiam ao governo do Taleban]. Os chineses estavam alheios e, quanto aos russos, bem, nós sabemos o que eles fizeram [em referência à guerra entre a URSS e o Afeganistão, de 1979 a 1989].

Foto: Xinhua/via Reuters – 28.07.2021
Negociador do Taleban perfilado com o ministro das Relações Exteriores da China diante de mural representando montanhas
Abdul Ghani Baradar, um dos líderes do Taleban, é recebido pelo ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, em Tianjin, em 28 de julho de 2021

Agora eu acho que os países da região perceberam que não podem mais depender da comunidade internacional para intervir. É hora de eles assumirem as responsabilidades na região, é preciso focar mais numa abordagem consolidada para o Afeganistão. E acho que temos visto isso acontecer.

Em relação aos últimos eventos, todos parecem estar na mesma página, inclusive a Turquia, que não é um país do entorno imediato. Todos buscam paz e estabilidade, o reconhecimento do Taleban como um ator principal, a necessidade de um acordo político inclusivo, o combate ao movimento ilegal de armas e de drogas e, por fim, a segurança de todos contra a ação de grupos extremistas internacionais que estão operando na região. Acho que essa é uma visão consolidada.

O Paquistão está tão envolvido nas conversas com o Taleban quanto estava com o governo anterior. Recentemente, o Paquistão recebeu tanto uma delegação do Taleban quanto uma delegação da Aliança do Norte [bastião de resistência histórica ao Taleban]. Os russos fizeram algo semelhante, recebendo não apenas representantes do Taleban, como membros de outras facções políticas afegãs também. É interessante ver o Irã, que era inimigo do Taleban e agora vem se engajando no diálogo.

Foto: Reuters – 19.08.2021
Ex-presidente do Afeganistão Hamid Karzai perfilado com comitiva do Taleban após tomada de poder pelo grupo
Ex-presidente do Afeganistão Hamid Karzai [de colete preto abotoado] recebe delegação do Taleban quatro dias depois da tomada de Cabul

Um país que mudou sua política completamente em relação ao Afeganistão é a China, que nós muitas vezes chamamos de “o gigante adormecido” da região. Eles se mantiveram relativamente afastados dos assuntos políticos do Afeganistão, mas parece que nos últimos, especialmente depois de 2014, Pequim vem se engajando de maneira crescente no diálogo com muitas facções e particularmente com o Taleban, cuja delegação foi recebida na China. Então eu acho que há um reconhecimento regional ao Taleban e um relativo consenso sobre o quê fazer no momento atual.

Esses países todos carregam passivos por relações pregressas com o Afeganistão, com exceção da China, que pode trabalhar em consensos regionais, graças à boa relação que criou com o Taleban e com outras fações, e também pelo fato de não carregar um passivo como os demais países. A China pode ser um interlocutor de muita credibilidade nesse novo momento e pode monitorar os acordos que vierem a ser feitos.

Os EUA, por sua vez, dizem que agora o Afeganistão é um assunto de importância regional. Não é. É um assunto global. É injusto que os EUA queiram retirar toda responsabilidade de cima de seus ombros agora, delegando isso aos países da região. Eles têm de dividir as responsabilidades com os países da região. Esperamos que isso aconteça e que não demore demais para acontecer.

Qual a situação em terreno agora no Afeganistão, em relação aos direitos humanos. Há relatórios das Nações Unidas que falam em crimes contra a humanidade e crimes de guerra.

Amina Khan Permita-me ser bem clara aqui: ninguém está absolvendo o Taleban de todas as atrocidades que eles cometeram até aqui. Está tudo documentado e acho que todos estão bem informados da maneira como o grupo violou os direitos humanos, incluindo os direitos das mulheres. Nós sabemos bem disso. E eles têm que ser criticados por isso.

A questão é que o Afeganistão está imerso num tipo de guerra perpétua. Crimes de guerra e crimes contra a humanidade foram cometidos não apenas pelo Taleban, mas também pelos senhores da guerra, assim como por forças do próprio governo. Não podemos tampouco absorver as tropas internacionais, que também cometeram inúmeros crimes de guerra no Afeganistão nas últimas duas décadas.

O que ocorre é que nós temos de nos mover para além desse jogo de jogar a culpa. Há inúmeros assuntos que precisam ser abordados no Afeganistão e há muita culpa e muita responsabilidade para dividir entre todos os envolvidos. É importante agora que as promessas que o grupo fez sejam cumpridas. E isso só vai acontecer quando houver algum tipo de mecanismo de monitoramento em vigor. Nesse sentido, há um papel que as Nações Unidas podem desempenhar, com apoio dos países da região.

Em Cabul, a situação é caótica porque há muitas pessoas que querem sair do Afeganistão. Há uma sensação de pânico. Hamid Karzai [que foi presidente do Afeganistão de 2001 a 2014 e está envolvido num processo de negociação com o grupo] pediu que as pessoas não entrem em pânico e sejam pacientes neste período de transição.

O Taleban sabe que a comunidade internacional está atenta a cada passo do grupo. Não acho que eles tenham interesse em dar passos em falso agora, o que incluiria qualquer desrespeito aos direitos humanos. As mulheres, em Cabul, estão retomando suas rotinas, o que inclui ir à escola, levar os filhos, ir ao médico. A vida está voltando ao normal aos poucos, mas vai levar tempo. É um país que vem de 20 anos em guerra.

É claro que nós temos de ver cada pronunciamento do grupo com desconfiança, mas é preciso dar uma chance ao Taleban porque não há alternativa. Nós vimos, nos últimos 20 anos, os americanos chegarem e tirarem o Taleban do poder. São os mesmos americanos que agora [em 2019] assinaram um acordo com o grupo, abrindo caminho para a volta deles à arena política.

Fonte: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2021/08/22/%E2%80%98Quem-legitimou-o-Taleban-no-poder-foram-os-pr%C3%B3prios-EUA%E2%80%99

Por que os bolsonaristas fiéis não abandonam o capitão

Caio Barbosa*

 Não chame bolsonaristas de gado, diz Hamilton Carvalho | Poder360

Três pilares sustentam o apoio mais convicto: o militarismo, o antipetismo e o conservadorismo moral. Já a corrupção não é uma pauta decisiva

A pesquisa Datafolha realizada nos dias 7 e 8 de julho demonstra que Bolsonaro atingiu o seu nível mais alto de reprovação: 51%. Apesar do avanço da Comissão Parlamentar de Inquérito em revelar o descaso do governo federal ao lidar com a pandemia, a sua avaliação positiva se manteve estável em 24%, embora seja também o índice mais baixo registrado pelo instituto. Considerando a quantidade de infortúnios, como o dólar acima de R$ 5,00 reais, inflação alta, desemprego em alta, e as mais de 500 mil mortes por covid-19, chega a ser surpreendente que Bolsonaro ainda mantenha índices de apoio acima de 20%.

O instituto ainda revela em quais setores da população Bolsonaro retém mais apoio. O presidente é mais bem avaliado, com respostas de ótimo/bom, entre homens (28%), entre os que se declaram como brancos (31%), entre os mais velhos (32% entre aqueles com mais de 60 anos), entre os mais ricos (34% entre quem recebe de 5 a 10 salários mínimos, e 32% entre quem recebe acima de 10 salários mínimos), entre moradores das regiões Sul (30%) e Centro-Oeste/Norte (34%), entre evangélicos (34%) e entre empresários (49%).

Ainda de acordo com o Datafolha, 15% do eleitorado declara “confiar sempre” em Bolsonaro, grupo que podemos chamar de “núcleo duro” de apoio ao governo – e um dos focos da minha pesquisa de doutorado, na qual realizei entrevistas semiestruturadas com bolsonaristas mais convictos ao longo dos anos de 2019 e 2020. Não significa que essas pessoas pensam que as coisas estão boas no país – não estão, elas reconhecem. No entanto, o culpado é sempre o outro: é o legado do PT, que quebrou o país; é a mídia, que desinforma; são o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, que não deixam o presidente governar; é a pandemia, que interrompeu a retomada da economia promovida por Paulo Guedes; ou é todo mundo que simplesmente torce contra. Como dizem muitos bolsonaristas entrevistados: “o governo é bom (e, por vezes, até mesmo regular); só não é ótimo porque não o deixam governar”.

Se o fim da era Bolsonaro é inevitável, de uma forma ou de outra, a sua ascensão marcou o fracasso da Nova República em afastar definitivamente os fantasmas do autoritarismo e do militarismo da política brasileira

Esse eleitorado fiel surge de um reencontro da direita com si mesma. Diferentemente da “direita envergonhada” do final dos anos 1980 – reflexo do fim do regime militar – a direita que chegou a 2018 retomou o orgulho de ser de direita – entendida pelos seus adeptos como ser liberal na economia e conservador nos costumes. Sentindo-se alijado anteriormente da disputa política – polarizada entre PT e PSDB desde 1994 –, esse eleitorado encontrou em Bolsonaro o seu legítimo representante, como não encontrava há muito tempo.

Em minha pesquisa etnográfica realizada em São Paulo, frequentando manifestações bolsonaristas em 2019, o perfil mais comum dos manifestantes confirmava as pesquisas quantitativas: homem, branco, mais velho e de renda média familiar de cinco salários mínimos ou mais. Posteriormente, realizando as entrevistas com apoiadores do presidente, pudemos entender melhor o que motivou esses eleitores a depositar suas fichas no ex-capitão do Exército.

Encontramos, no geral, três pilares que sustentam a motivação dos bolsonaristas. O primeiro pilar é o militarismo, pois enxergam a ascensão de Bolsonaro como uma espécie de retorno dos militares, seja pela sua relação com o Exército, seja pela participação dos mesmos no governo. Isso significa também que eles possuem uma visão positiva do regime militar de 1964-1985, tempo no qual, de acordo com eles, havia “ordem”, “patriotismo”, “respeito”. O segundo é o antipetismo, cujo discurso oscila desde um argumento moralista pela luta contra a corrupção, passando pela crítica à política econômica e social dos governos petistas por ser demasiado assistencialista, até a completa aversão à qualquer ideia, figura ou grupo que venha do que se entende por esquerda (o que inclui setores como a mídia, intelectuais, artistas, etc), em uma reedição do histórico anticomunismo, agora repaginado pelo medo de “Venezuelização” do Brasil. Por fim, o terceiro pilar é o conservadorismo moral, que se manifesta como uma reação ao avanço das lutas feministas, do movimento negro – em particular, em oposição a cotas para afrodescendentes – e, especialmente, do movimento LGBTQIA+, justificada aqui na “defesa da família”, o que tem apelo principalmente entre os eleitores mais religiosos, em particular os evangélicos.

Considerando essas questões, não é surpresa que os bolsonaristas se mantenham satisfeitos: recorde de militares no governo; retórica antipetista afiada, colocando-se como o último bastião na defesa contra o retorno de Lula ao poder; e discurso sempre conservador, religioso, começando pelo bordão: “Deus acima de todos”. Alguém pode se perguntar sobre as notícias de corrupção no governo; porém, a verdade é que a corrupção – apesar de ser a base do argumento moral contra o PT – não é realmente uma pauta central para os bolsonaristas mais convictos. Notícias de corrupção envolvendo o governo ou os filhos do presidente são rapidamente minimizadas com argumentos como “um pouco de corrupção sempre vai ter” ou “eu votei no pai, não nos filhos”.

Apesar da popularidade em queda, Bolsonaro dificilmente cairá a índices de um dígito como Dilma Rousseff e Michel Temer obtiveram. Se ele conseguir superar este ano e recuperar parte de seu apoio para em torno de um terço do eleitorado, isso significa que seguirá competitivo para a eleição de 2022. Por outro lado, caso sofra impeachment, se torne inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral ou simplesmente seja derrotado em 2022, é de se esperar que ele e seus apoiadores tentem algo similar – ou pior – ao que Trump tentou com a invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro deste ano.

Se o fim da era Bolsonaro é inevitável, de uma forma ou de outra, a sua ascensão marcou o fracasso da Nova República em afastar definitivamente os fantasmas do autoritarismo e do militarismo da política brasileira. Isso se deve em parte aos efeitos da anistia que evitou a punição de militares por seus crimes durante o regime ditatorial, o que deu passe livre a Bolsonaro – e tantos outros – para louvar publicamente os horrores daquele período. Os bolsonaristas convictos seguirão acreditando que o governo Bolsonaro tem tudo para dar certo, mesmo que não dê, pois querem acreditar nisso. Sem abandonar o barco, seguirão apoiando o seu capitão, pelo menos até o apagar das luzes. A pergunta que fica é como lidaremos quando este momento chegar: aprenderemos a lição e passaremos a história a limpo desta vez, ou jogaremos panos quentes enquanto aguardamos – novamente – o futuro repetir o passado?

*Caio Barbosa é doutorando em ciência política pela Universidade de São Paulo e pesquisador visitante no Department of Government da Harvard University. Atualmente, pesquisa o bolsonarismo e o ressurgimento do populismo de direita no Brasil.

Fonte:  https://pp.nexojornal.com.br/opiniao/2021/Por-que-os-bolsonaristas-fi%C3%A9is-n%C3%A3o-abandonam-o-capit%C3%A3o?utm_medium=Email&utm_campaign=NLDurmaComEssa&utm_source=nexoassinantes - Imagem da Internet

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Somos todas afegãs

MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER*

Mulheres afegãs vivem e são enterradas como anônimas

Os Estados Unidos surpreendeu o mundo e também seus aliados ao assegurar a saída do Afeganistão de suas tropas, diplomatas e cidadãos. Outros países estrangeiros procederam da mesma forma. E os afegãos, aterrorizados com a chegada do novo governo, despertaram a compaixão mundial ao buscar desesperadamente os aeroportos e outras caminhos para deixar o Afeganistão.

Embora os dirigentes do Talibã tenham declarado que os direitos humanos serão respeitados, reina a apreensão em quase todas as esferas, dentro e fora do país de que tal não aconteça.

Há um segmento da população que nesse momento se encontra especialmente presente no coração de todos: as mulheres e meninas afegãs, que com a chegada do regime de força, veem-se ameaçadas de perder liberdade e direitos duramente conquistados nos últimos anos.

Em universidades afegãs, professoras e alunas se despedem por ter certeza de não poder manter as atividades acadêmicas. O Talibã segue à risca uma interpretação da lei islâmica, segundo a qual as mulheres não devem frequentar lugares públicos, como escolas e universidades; não podem sequer sair à rua se não forem acompanhadas por uma pessoa do sexo masculino; devem cobrir inteiramente o corpo e o rosto, usando burca, além de véu.

A ética do Talibã, que não é a do Islã como um todo nem sequer a da maioria, proíbe que o corpo da mulher seja visto por outro homem que não o marido. Isso confina as mulheres ao espaço doméstico e exila-as de possibilidades de crescimento pessoal, como estudos, trabalho, mobilidade nos transportes, viagens etc. Vestes que não sejam a burca são terminantemente proibidas, invisibilizando assim corpos e rostos das mulheres. Para as meninas, vigora a mesma lei. Não podem sequer escolher seu futuro, que será decidido pelo pai ou, na falta deste, por algum parente do sexo masculino.

Diante do que pode acontecer com as afegãs, algumas mulheres ilustres manifestaram sua preocupação e desacordo. A chanceler alemã Angela Merkel, ao se inteirar da volta do Talibã a Cabul, qualificou a situação de “amarga, dramática e terrível”. Hillary Clinton, secretária de estado dos EUA durante o governo Obama, e o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau manifestaram também preocupação.

Nas ruas de Cabul reina o silêncio. Os cartazes onde aparecem mulheres com rosto descoberto, maquiagem e cabelos à mostra são cobertos com tinta. Algumas ativistas de direitos de mulheres e crianças no Afeganistão estão dispostas a conversar com o governo talibã, para mostrar a riqueza de recursos humanos que são as mulheres afegãs e tentar negociar a manutenção de direitos e liberdades conquistadas. No entanto, há insegurança e apreensão no ar. A vulnerabilidade das mulheres é como um fantasma que hoje paira sobre a cabeça de cada menina ou mulher afegã.

Em 2009, aos 11 anos, Malala Yousafzai, ativista paquistanesa, assistiu à chegada do Talibã no Paquistão, onde vivia, e escreveu em um blog, sob pseudônimo, que se despedia para sempre de sua escola e amigas, certa de que não poderia mais voltar a estudar. A jovem se tornou conhecida no mundo inteiro por sua defesa da educação feminina no Paquistão.

Em 2013, a caminho da escola, Malala foi baleada na cabeça e teve o olho esquerdo perfurado pelas armas talibãs, que assim procuravam impedir a repercussão de suas denúncias. O governo britânico mandou um avião buscá-la no Paquistão e a menina recuperou-se após várias cirurgias. Aos 17 anos, Malala emocionou o mundo ao receber o Nobel da Paz, sendo a mais jovem da história a quem foi outorgado este prêmio.

Apaixonada pelos estudos e pela vida acadêmica, frequentou a universidade de Oxford, na Inglaterra, de grande prestígio, onde se formou em filosofia, política e economia, em 2020. Diante da tomada de Cabul pelo Talibã, a ativista usou as redes sociais para pedir ajuda das potências globais, sobretudo para mulheres, minorias e defensores dos direitos humanos.

Impressiona a igualmente trágica trajetória de opressão da mulher pelo mundo por parte das estruturas patriarcais e pela força da violência. Susan Sontag, conhecida pensadora estadunidense, escreveu sobre o fato de a violência e a guerra serem um jogo masculino do qual as mulheres participam pouco ou nada. Acrescentamos que a exclusão das mulheres de atividades que poderiam trazer-lhes desenvolvimento pessoal e social também o é. Assim como o desrespeito e a apropriação indébita e violenta dos corpos das mulheres, que sistematicamente têm sido velados, cobertos, invisibilizados, ao mesmo tempo em que suas vozes são silenciadas. A resistência feminina é muitas vezes punida com a violência e a morte. O crescimento do feminicídio em tantos países, entre eles o Brasil, é uma prova cabal.

Que neste momento tão difícil e delicado que vive o Afeganistão, suas mulheres não percam o que construíram ao longo de suas vidas; que suas meninas e jovens não sejam impedidas de sonhar e desejar um futuro e possam a ele ter acesso por meio da educação, do trabalho e da vida pública. Que os corpos e espíritos femininos possam ser e viver livres, como livres foram pensados pelo Criador. Enquanto isso não estiver assegurado, as mulheres do mundo inteiro devem repetir: “Somos todas afegãs”.

*Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Teologia Latino-Americana: raízes e ramos, entre outros livros.

Fonte: https://www.jb.com.br/pais/opiniao/artigos/2021/08/1032358-somos-todas-afegas.html

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Certa arte

Por Paulo Nogueira Batista Jr.*

Flores raras. Foto: Divulgação

Vi há alguns anos, quando ainda morava em Xangai, o filme “Flores raras”, dirigido por Bruno Barreto, com Glória Pires. Como foi bom ver um grande filme brasileiro estando tão distante do nosso querido país! O filme é a estória do atribulado romance entre a paisagista e urbanista, Lotta Macedo Soares, uma das responsáveis pelo planejamento do Aterro e Parque do Flamengo, e a poeta americana Elizabeth Bishop.

Conversando recentemente com minha mãe, lembrei do filme e do poema que enquadra o filme, um poema lindo, lindo, da Elizabeth, chamado “One art” (“Certa arte”). E resolvi reler o poema e rever o filme.

Dessa vez, gostei ainda mais do que da primeira. Bruno Barreto mostra várias coisas bonitas – o maravilhoso Rio de Janeiro dos anos 1950, por exemplo –, mas a mais bonita é a maneira como ele abre o filme com esse poema, ainda incompleto e embrionário, e termina com ele, acabado e comovente. Fica subentendido que Elizabeth só pôde concluir o poema, que trata da arte de perder, depois de ter vivenciado e sofrido a perda – a perda catastrófica da pessoa amada.

O poema é este:

One Art

The art of losing isn’t hard to master;

so many things seem filled with the intent

to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster

of lost door keys, the hour badly spent.

The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:

places, and names, and where it was you meant

to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or

next-to-last, of three loved houses went.

The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,

some realms I owned, two rivers, a continent.

I miss them, but it wasn’t a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture

I love) I shan’t have lied. It’s evident

the art of losing’s not too hard to master

though it may look like (Write it!) like disaster.

O meu gentil leitor não tem obrigação nenhuma de saber inglês. Assim, traduzo, sacrificando, porém, a rima:

Certa arte

A arte de perder não é difícil de aprender;

tantas coisas parecem repletas da intenção

de serem perdidas que sua perda não é nenhum desastre.

Perca algo todo dia. Aceite a afobação

de chaves perdidas, a hora mal-empregada.

A arte de perder não é difícil de aprender.

Pratique então perder mais fundo, perder mais rápido:

lugares, e nomes, e para onde você queria viajar.

A arte de perder não é difícil de aprender.

Perdi o relógio de pulso da minha mãe. E olhe só! a minha última,

ou penúltima, de três casas queridas, se foi.

A arte de perder não é difícil de aprender.

Perdi duas cidades, lindas. E, mais ainda,

reinados que tinha, dois rios, um continente.

Sinto falta deles, mas não foi um desastre.

— Mesmo perder você (a voz alegre, um gesto

que amo) não terei mentido. É evidente

a arte de perder não é tão difícil de aprender

embora pareça (Escreva!) um desastre.

Poesia é, por definição, aquilo que resiste, heroica e obstinadamente, à tradução. Perder a rima, a musicalidade da rima, é uma perda irreparável, eu sei. Há quem questione se vale a pena traduzir assim. Encontrei na internet algumas traduções do poema, que procuram recriar as rimas em português, mas são desastrosas. Melhor nem ter tentado recriá-las. Creio que consegui preservar, pelo menos, o ritmo e o sentido.

O poema de Bishop é uma pequena obra-prima, não é mesmo? A força das palavras! A sua capacidade de evocar o sofrimento, de estilizá-lo e torná-lo, assim, um pouco mais suportável! A linguagem é simples, como uma conversa. Mas vai num crescendo, e vamos percebendo, aos poucos, que a arte de perder, ao contrário do que se proclama insistentemente, em refrão repetido a cada verso, não é nada fácil de aprender.

As perdas no início são pequenas, triviais, “chaves”, “a hora mal-empregada”. Em seguida, “lugares”, “nomes”, e “para onde se queria viajar”. Mas aí vem a referência à mãe, e às casas queridas, que aumentam a intensidade emocional. Depois aumenta a amplitude: a perda é de cidades inteiras, reinados, continentes – para culminar na perda da pessoa amada.

Repare, leitor, que no último verso, a inserção quase imperceptível da palavra “tão” no meio do refrão – “a arte de perder não é difícil de aprender” se torna “não é tão difícil de aprender” – prepara o momento final, de impacto, que revela toda a insinceridade – ainda que mantendo, já sem convicção, a negação insincera – “embora pareça (Escreva!) um desastre”.

Neste momento em que a cultura nacional está sob ataque cerrado e violento, em todas as frentes, presto com esta crônica minha pequena homenagem ao cineasta brasileiro Bruno Barreto, que soube enquadrar e recriar, com excepcional sensibilidade, o lindo poema de Elizabeth Bishop. Essa é, afinal, uma das grandes contribuições, entre tantas, que o cinema pode dar – abrir portas, de par em par, para as outras artes, a poesia, a literatura, a pintura, a música – torná-las conhecidas e amadas por quem talvez nem chegasse a encontrá-las um dia.

Richard Wagner falava, no século 19, da sua ópera dramática como Gesamtkunstwerk, como a “arte total”, que reuniria todas as artes. Mas o século 20 mostraria que é o cinema, mais do que qualquer outra, a verdadeira arte total.

 *O autor é titular da cátedra Celso Furtado do Colégio de Altos Estudos da UFRJ. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017 e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, começou a circular em março de 2021.

Fonte:  http://desacato.info/certa-arte-por-paulo-nogueira-batista-jr/

Quão seguro é se fartar de pão?

 Rubens Onofre Nodari* e Sonia Corina Hess*

7 erros comuns ao fazer pão | Como fazer Pão

Novas técnicas agrícolas e genéticas têm ameaçado a sadia qualidade do trigo

“Debulhar o trigo. Recolher cada bago do trigo. Forjar no trigo o milagre do pão. E se fartar de pão.” A importância do trigo para a alimentação humana vem sendo reconhecida há milênios, de diferentes maneiras, como na poesia e melodia por Chico Buarque de Holanda e Milton Nascimento. Foi um dos cereais mais importantes como alimento de muitas civilizações ao longo da história. Nos últimos anos, 9% da área agricultável do mundo têm sido cultivadas para produzir trigo.

Presentemente, avanços científicos e tecnológicos têm ameaçado a sadia qualidade do trigo. No Brasil, o pão nosso de cada dia pode nos dar hoje resíduos de até 108 diferentes ingredientes ativos de agrotóxicos, com o agravante de que 39 deles (36,1%) já são proibidos em outros países.

Os herbicidas à base de glifosato são os agrotóxicos mais utilizados em nível mundial e também no Brasil. Em 2015, a substância foi considerada potencialmente cancerígena pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc). Os produtos à base de glifosato têm sido associados a vários tipos de doenças em humanos, como diabetes, obesidade, depressão e infertilidade, entre outras.

No Brasil, esses tipos de herbicidas estão autorizados para uso no cultivo do trigo, exceto para a dessecação. Mas há muitas denúncias de que tem sido comum a prática da dessecação com tais agrotóxicos em trigo, o que resulta na presença de seus resíduos nos grãos.

A doença celíaca, ou intolerância ao glúten, é um problema que vem crescendo tanto no Brasil quanto no mundo. O glúten se forma em produtos derivados do trigo e outros cereais de inverno e é considerado a causa da doença celíaca. As características da doença celíaca, assim como os efeitos do glifosato, estão associadas a desequilíbrios nas bactérias intestinais; deterioração de enzimas envolvidas com a desintoxicação de toxinas ambientais; deficiências de ferro, cobalto, molibdênio, metionina; risco de linfoma não Hodgkin; e problemas reprodutivos, entre outros.

A mais recente ameaça é o trigo transgênico. Desenvolvida na Argentina, uma variedade de trigo transgênica, que tolera mais estresses hídricos de seca, é também resistente a herbicidas à base de glufosinato de amônio. Esses herbicidas, autorizados para uso na dessecação de trigo no Brasil, já foram proibidos em alguns países. Tal variedade transgênica de trigo está em análise na CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), que poderá decidir pela autorização do consumo e do cultivo no Brasil.

Se a sadia qualidade do trigo e, consequentemente, de seus produtos derivados não for recuperada por meio da produção e consumo do cereal sem resíduos de agrotóxicos causadores de doenças e sem a transgenia, o encanto cantado por Chico Buarque e Milton Nascimento, mesmo que fique no imaginário, fará com que muitas pessoas já não se “fartem de pão” devido às consequências dos perversos resíduos nele contido.

*Doutor em agronomia, é professor titular da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) 
*Doutora em química, é professora titular da UFSCDoutora em química, é professora titular da UFSC
 
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2021/08/quao-seguro-e-se-fartar-de-pao.shtml 
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Adulto em sofrimento terminal deveria, sim, ter o direito de morrer

Luiz Felipe Pondé*

Pelo direito de morrer com dignidade

Negar às pessoas nos usos de suas faculdades mentais essa possibilidade é um abuso em nome de um bem que já não existe

Eu acho que uma pessoa adulta nos usos das suas faculdades mentais e numa situação de sofrimento terminal deveria, sim, ter o direito de morrer. Negar às pessoas essa possibilidade é um abuso em nome de um bem que já não existe, a saber, a vida como horizonte.

Sei que o tema é delicado. Alguns podem interpretá-lo como uma defesa do suicídio como direito. Aqueles que assim o fizerem, que o façam. Não podemos nos defender de toda forma de interpretação, coisa que nos dias atuais muita gente parece se esquecer. Pensar publicamente não é uma atividade feita para agradar —inclusive aos patrocinadores, que, aliás, desejo que se danem no seu poder de limitar o uso da palavra pública.

Aborto é outro tema espinhoso. Já tive muitas opiniões sobre ele. Hoje as tenho em muito menor quantidade e qualidade.

Sei que existem pessoas que não comem carne nem usam proteína animal de qualquer tipo, mas que são a favor do aborto. Para muitos haveria uma contradição nessa atitude. Ou hipocrisia. Eu suspeito que, no caso de não comer carne, a pessoa acredita que isso será saudável para ela.

Já no caso do aborto, está em jogo a liberdade de ela transar e, se algo no processo der errado, por assim dizer, poder resolver o problema com o menor sofrimento físico possível, apesar de essa solução nunca ser de forma fácil do ponto de vista moral.

Óbvio que existe a dimensão da saúde pública. Óbvio também que em uma etapa lógica anterior, se pressupõe a ideia de que o feto não é um ser humano ainda. Penso que, em meio a um mundo em que a desumanização corre solta, a dificuldade em desumanizar o feto parece uma afetação de virgens no bordel.

Mas voltando ao que me interessa hoje, o tema da escolha pela morte assistida e legítima me parece significativo. Antes de tudo porque a população envelhece a olhos nus, e muita gente faria uso de uma saída de cena com classe se lhes fosse dada essa opção. Aliás, o filme “A Despedida”, de 2019, com Susan Sarandon e Kate Winslet, é excelente sobre o tema.

Alguns poderão considerar essa afirmação um absurdo moral. Alguém escolher essa opção não implica que você seja obrigado a escolhê-la. Talvez, um dia, vivendo uma situação semelhante, você venha a entender a opção do outro.

Óbvio que há sofrimento. Mas é justamente em nome dele que se deve dar às pessoas o direito de morrer quando elas querem e quando a vida já não aparece como um horizonte fisiológico viável. Obrigar a uma pessoa no uso da sua inteligência a existir num corpo que já não mais é seu me parece uma violência moral muito maior.

Se há hipocrisia no vegetariano a favor do aborto —o que não me parece totalmente evidente—, aqui há com certeza. Se quero manter a pessoa viva porque eu a amo, mesmo que ela sinta que o melhor é repousar na pedra, o meu amor, sim, é de alguma forma impróprio.

A ideia de que a vida pertence a Deus me parece irrelevante. Se não acredito em Deus, entendo que a vida pertence apenas a mim, mas se sou terminal, ela já pertence à pedra.

Mas, mesmo que eu seja um crente, posso sê-lo de forma ousada e desafiar a afirmação religiosa institucional de que só Deus pode tirar a vida.

Posso escolher encará-lo, inclusive para perguntá-lo, afinal de contas, por que sou obrigado a ficar em agonia se poderia já descansar.

Detalhes jurídicos são o menor aqui. Em termos de lei, tudo pode, uma vez decidido que pode. Quanto ao fato de que médicos só podem salvar vidas, também é algo que se pode ajustar. E nem me falem sobre a possibilidade de uma descoberta milagrosa de cura: a ciência, nesse caso, está a favor de quem se sabe terminal. Não existem milagres na ciência.

O centro do problema é a possibilidade de se decidir que basta. Esse passo não significa o aniquilamento
da agonia moral. Significa a escolha de uma certa agonia moral em detrimento de outra, sendo a diferença capital a que quem quer sair de cena —que é quem deve decidir a qualidade da agonia moral que pretende enfrentar.

À medida que a humanidade envelhece, há que nos prepararmos para um mundo em que pessoas desistam dele.

*Escritor e ensaísta, autor de "Notas sobre a Esperança e o Desespero" e "Política no Cotidiano". É doutor em filosofia pela USP. 
 
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2021/08/adulto-em-sofrimento-terminal-deveria-sim-ter-o-direito-de-morrer.shtml?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=newscolunista

Uma disciplina chamada mentira

Milton Hatoum*

Bolsonaro
 A leitura de bons livros de ciências humanas e literatura teria enriquecido 
a formação dos oficiais diplomados na década de 1970, agora donos do poder 
 Foto: Adriano Machado/Reuters

A leitura de bons livros de ciências humanas e literatura teria enriquecido a formação dos oficiais diplomados na década de 1970, agora donos do poder

O presidente do Brasil e vários de seus ministros-generais estudaram na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ). A Aman forma profissionais em estratégias de guerra, defesa territorial, teoria e práticas militares, etc. Essa formação inclui também disciplinas de ciências humanas e exatas.

Numa boa reportagem de Júlia Dias Carneiro, publicada pela BBC Brasil em 2 de janeiro de 2019, o coronel João Augusto Vargas Ávila, chefe da divisão de ensino da Aman, declarou que a graduação nessa Academia “soma 8.200 horas de aula, superando cursos como Medicina, Direito e Engenharias”. Em seguida, ressaltou: “Nossos alunos são disponíveis 24 horas por dia e o modelo pedagógico é muito diferente de uma universidade civil. Temos um sistema de avaliação continuada envolvendo a parte cognitiva, psicomotora e afetiva. É o que chamamos de avaliação atitudinal”.

Apesar da alta carga horária, muitos brasileiros se perguntam o que o presidente teria aprendido nas disciplinas de filosofia, psicologia, sociologia, história, língua portuguesa e matemática. São perguntas pertinentes, pois um estudante de 13 anos de idade sabe calcular operações numéricas simples, como (-4) + 5 = 1. No cálculo do presidente, o resultado é 9. Foi assim que ele previu um crescimento anual de 9% do PIB. 

Quanto à sua formação em ciências humanas, não se sabe que livros leu, se é que leu algum, exceto o de seu ídolo, um dos torturadores mais atrozes da ditadura. Mas há outras lacunas graves na formação intelectual e moral de Jair Messias Bolsonaro. Sabe-se que nas academias e colégios militares, a mentira e a indisciplina são consideradas desvios graves, sujeitos à punição. Em abril de 1988, o Conselho de Justificação Militar julgou e condenou por desvios gravíssimos o então capitão Bolsonaro. Meses depois, ele foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar. Mas nas duras acusações do CJM constam “conduta irregular”, “práticas de atos que afetam a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe”, “desvio grave de personalidade e uma deformação profissional”, “falta de coragem moral para sair do Exército” e “ter mentido ao longo de todo o processo”. O jornalista Luiz Maklouf Carvalho analisa minuciosamente esse processo no livro O Cadete e o Capitão (ed. Todavia). 

Tudo indica que a “avaliação atitudinal” do cadete Jair Messias não foi feita com um mínimo de rigor e seriedade. A “parte cognitiva” dele é lamentável; a psicomotora – expressa por escárnios e surtos agressivos constantes – é desastrosa; e a afetiva, nula. Basta mencionar uma de suas deploráveis declarações sobre as vítimas da pandemia: “A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”. 

Sim, a morte é o destino de todos. Mas, em situações ou períodos catastróficos, cabe ao presidente da República prestar solidariedade e expressar compaixão pelos doentes graves e pelas pessoas que perderam familiares e amigos. Nada disso foi feito. Faltou a ele o mínimo de ética ou de consciência moral perante a nação. Uma atitude ética significa, entre outras coisas, assumir um compromisso com a responsabilidade. Dito de outra forma: a irresponsabilidade tem uma relação direta com a falta de ética na política, na vida, nas relações sociais. Fazer uma escolha é um exercício de liberdade; e a liberdade, exercida com responsabilidade, dá dignidade a uma pessoa. 

O presidente tem feito uma escolha que nada tem a ver com liberdade e dignidade. Prova disso são as reiteradas ameaças à realização das eleições de 2022. Não se sabe se ele está blefando, mas ameaçar a democracia já é um exemplo de gravíssima irresponsabilidade.

Algo de errado ocorreu na formação humanista do presidente e de seus ministros-generais. Eles parecem avessos à democracia e às necessidades reais e urgentes dos setores mais fragilizados da nossa sociedade. Talvez desconheçam a biografia do marechal Cândido Rondon, que se relacionou de um modo compreensivo e solidário com os povos originários, e não com o desprezo e a crueldade com que são tratados pelo presidente e pelos atuais dirigentes da Funai. 

A leitura de bons livros de ciências humanas e literatura teria enriquecido a formação dos oficiais diplomados na década de 1970, agora donos do poder. Será que os atuais diretores das divisões de ensino de academias e escolas militares estão interessados numa mínima formação humanista e democrática dos cadetes? 

É uma pergunta legítima para a grande maioria da sociedade civil, que preza a democracia e o Estado de Direito, e rechaça as mentiras superlativas e as ameaças de golpe do presidente e de seus generais. Aliás, essas mentiras, ameaças e pantomimas estão rebaixando o País a uma republiqueta qualquer, e das mais inexpressivas.

*É ESCRITOR E ARQUITETO, AUTOR DE ‘DOIS IRMÃOS’ E ‘CINZAS DO NORTE’

Fonte: https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,uma-disciplina-chamada-mentira,70003815856

Numa época de informação e desinformação, será possível confiar?

 Francisco Borba Ribeiro Neto*

Antoine Mekary

O diálogo com o outro, com aquele que pensa diferente, é um caminho inevitável para quem quer realmente encontrar a verdade

Como vimos no artigo anterior, que partia da polêmica sobre as urnas eletrônicas, frequentemente convivemos com dúvida sobre as informações e os meios de comunicação atuais. Mas o comportamento desinformado é, forçosamente, irracional e desordenado. Sempre que temos dúvidas sobre o que está realmente acontecendo, o certo e o errado, nos tornamos mais inseguros, manipuláveis, amedrontados e ressentidos. A confiança cega, por outro lado, é uma falsa alternativa. Pode nos dar segurança, mas nos torna ainda mais facilmente manipuláveis.

No mundo das ideias humanas, quanto mais conhecimento, mais incerteza. Os bons cientistas sempre souberam disso. A certeza que nasce da fé é uma convicção firme que não pode ser confundida com a relatividade inerente às nossas afirmações. Por outro lado, uma dúvida infundada não é sinal de sabedoria, apenas de insegurança.

Não tenhais medo!

Bento XVI,  no discurso que deveria proferir na Universidade Estatal de Roma La Sapienza, escreveu que o conhecimento nos torna tristes. Saber dos sofrimentos humanos, dos desrespeitos à dignidade de tantos e dos malfeitos dos poderosos – continuamente apresentados e comentados em nossas mídias e redes sociais – nos causa tristeza, ressentimento, desconfiança, medo e raiva.

Contudo, segundo o Papa, o otimismo pode nascer a partir do conhecimento da verdade e do bem, que pode superar a tristeza, o ressentimento e a raiva. Também no conhecimento das coisas do mundo, a fé, a esperança e a caridade andam juntas. Para ter confiança no conhecimento, precisamos ter a esperança bem fundamentada de que a verdade sempre se manifestará, e estarmos imbuídos de um desejo de bem que justifica os nossos esforços. Para nós cristãos, Jesus é o centro da fé, a razão da esperança, o motivo da caridade.

“Não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o Seu poder! […] Hoje em dia muito frequentemente o homem não sabe o que traz no interior de si mesmo, no profundo do seu ânimo e do seu coração, muito frequentemente se encontra incerto acerca do sentido da sua vida sobre esta terra. E sucede que é invadido pela dúvida que se transmuta em desespero. Permiti, pois […] permiti a Cristo falar ao homem” (São João Paulo II, Homilia de início de pontificado).

Se a experiência cristã não nos traz uma serenidade que é inconformista e ativa, mas livre do medo, do ressentimento e da raiva, é sinal de que não estamos ouvindo a Cristo, mas sim a nossas próprias ideias, ou às ideias de algum guru disfarçado de mestre cristão. O cristianismo não dá resposta a todos os problemas da sociedade – e nem se propõe a tal, pois isso eliminaria a liberdade e o valor do esforço humano – mas nos dá a serenidade, a segurança e o amor para procurarmos as melhores respostas.

Amar mais a verdade

Luigi Giussani, autor que cito frequentemente, em O senso religioso (Jundiai: Paco Editorial, 2017), mostra que o conhecimento não é apenas uma questão de informações e raciocínios, mas implica também um envolvimento moral, que mobiliza toda a pessoa, em sua busca pela verdade. Sintetizava essas ideias com a expressão “amar mais a verdade do que as próprias ideias”. 

Para amar mais a verdade do que as próprias ideias, precisamos de um grande desapego – algo que, olhando friamente, pode parecer impossível. Só os muito amados e os grandes amantes são capazes de tal desprendimento. Por isso, para os cristãos, como dizia São João Paulo II, no trecho acima, é preciso entregar-se a Cristo para encontrar a verdade, que tranquiliza o coração e supera a dúvida. Também por isso, aqueles que vivem querendo mostrar raivosamente os erros dos outros, não estão com a verdade, que se manifesta no amor de Cristo por nós e de nós para com nossos irmãos.

Veemência não é segurança

É comum seguirmos pessoas que falam com muita erudição e veemência, pois acreditamos que são convincentes porque estão mais próximas da verdade. Grande engano! A erudição demonstra muitas informações, mas não obrigatoriamente sabedoria para guiar os demais. A veemência está mais ligada à necessidade de convencer o outro do que à própria convicção. Nos debates é comum as pessoas mais inseguras, com menos argumentos racionais, serem as mais veementes. Querem, a todo custo, se autoconvencer que estão certas e evitar o constrangimento de reconhecer que estão erradas. 

Esses comportamentos geraram a crença de que a falta de convicção seria necessária para uma postura de diálogo. Quem não tivesse convicções firmes estaria aberto a ouvir as razões do outro. Na prática, o que acontece é o contrário. A falta de convicções gera o relativismo, a suposição de que ninguém tem a verdade. Ora, se ninguém tem a verdade, cada um pode ficar com as próprias opiniões, sem precisar interagir com quem pensa diferente. Onde parece haver um clima de harmonia e conciliação, existe na verdade indiferença e individualismo.

Para que haja uma busca frutífera pela verdade, temos que ter convicções firmes sobre o fundamental, mas estarmos dispostos a mudar sempre que novos argumentos demonstrem nossos erros. Quando temos essa postura, não queremos nos impor aos outros, nem temos medo de que os outros se imponham a nós ou àqueles que amamos.

O caminho para a verdade passa pelo diálogo

O diálogo com o outro, com aquele que pensa diferente, é um caminho inevitável para quem quer realmente encontrar a verdade. A recusa a aceitar que o outro possa estar dizendo a verdade é nosso maior obstáculo para chegarmos à verdade. A realidade é sempre muito complexa, cheia de detalhes e aspectos diversos. Só Deus consegue abarcá-la inteiramente. Cada um de nós consegue captar algumas facetas da realidade e procura, a partir daí, compreender o todo.

Como partimos de facetas diferentes, mesmo sendo honestos conosco mesmo e seguindo raciocínios lógicos, podemos chegar a conclusões diversas. Isso não quer dizer, como supõem o relativismo, que qualquer conclusão é igualmente válida. Algumas são, inevitavelmente, mais amplas e bem fundamentadas do que outras, ou seja, são mais verdadeiras, mais próximas da realidade tal qual ela é. Isso não quer dizer que as conclusões erradas não tenham aspectos justos e que devem ser valorizados.

Por exemplo, pessoas de esquerda costumam considerar a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) do teto de gastos, que impede o aumento dos gastos públicos por vários anos, um absurdo. Se tentarem compreender as razões do lado contrário, reconhecerão que a proposta nasceu num contexto de crise financeira do Estado, em que não se conseguia encontrar uma solução política para o problema e que, de fato, o governo brasileiro frequentemente gasta mal o dinheiro público, não aplicando nem no bem dos cidadãos, nem na infraestrutura econômica. Por outro lado, as pessoas de direita consideram essa PEC essencial e inegociável. Se tentarem entender as razões da esquerda, verão que um Estado que gasta de forma conscienciosa, aplicando bem os recursos e planejando o pagamento de suas dívidas, não precisa desse tipo de amarra legal. Antagonistas de cada um dos lados não precisam convencer-se que o outro está certo, mas se entenderem suas razões, provavelmente poderão chegar a soluções melhores do que aquelas a que chegariam sozinhos. 

Quando procuramos entender o outro, nossa visão da realidade sempre se amplia e as posições contrárias deixam de nos parecer ameaçadoras, pois conseguimos aderir ao que têm de verdadeiro e apontar com serenidade aquilo que têm de errado. Além disso, nos tornamos mais amigos uns dos outros e os dois lados ganham mais liberdade para reconhecerem seus erros e acertos.

* Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP e responsável pelo Ciclo de Estudos Políticas Públicas à luz da Doutrina Social da Igreja

Fonte: https://pt.aleteia.org/2021/08/22/numa-epoca-de-informacao-e-desinformacao-sera-possivel-confiar/?utm_campaign=NL_pt&utm_content=NL_pt&utm_medium=mail&utm_source=daily_newsletter