Por Slavoj Žižek*
Com a invasão
russa da Ucrânia, estamos entrando em uma nova fase de guerra e da
política global. Além de um aumento do risco de catástrofe nuclear, já
estamos em uma tempestade perfeita de crises globais que se reforçam
mutuamente – a pandemia, as mudanças climáticas, a perda de
biodiversidade e a escassez de alimentos e água. A situação exibe uma
loucura básica: em um momento em que a própria sobrevivência da
humanidade é ameaçada por fatores ecológicos (assim como por outros),
quando abordar essas ameaças deveria ser priorizado sobre todo o resto,
nossa preocupação principal mudou repentinamente – novamente – para uma
nova crise política. Justamente quando a cooperação global é mais do que
nunca necessária, o “choque de civilizações” retorna com força total.
Por que isso
acontece? Como ocorre frequentemente, um pouco de Hegel pode ajudar a
percorrer o longo caminho necessário para responder a essa pergunta. Na Fenomenologia do espírito, Hegel
descreve a famosa dialética do mestre e do escravo, duas
“autoconsciências” que se encontram numa luta de vida ou morte. Se cada
um deles está disposto a arriscar a própria vida para vencer, e se ambos
persistem nesse objetivo, não há vencedor: um morre, mas o sobrevivente
não tem mais ninguém para reconhecer sua própria existência. A
implicação é que toda a história e a cultura repousam sobre um
compromisso fundamental: no confronto direto, um deles “desvia os
olhos”, sem vontade de ir até o fim, permanecendo como escravo.
Mas Hegel se
apressaria em notar que não pode haver um compromisso final ou duradouro
entre os Estados. As relações entre Estados-nação soberanos estão
permanentemente sob a sombra de uma guerra potencial, pois cada época de
paz não passa de um armistício temporário. Cada Estado disciplina e
educa os seus próprios membros, garantindo a paz cívica entre eles. Ora,
esse processo produz uma ética que, em última análise, exige atos de
heroísmo – uma prontidão para sacrificar a vida por seu país. As
relações selvagens e bárbaras entre os Estados servem, assim, como
fundamento da vida ética dentro dos próprios Estados.
A Coreia do
Norte representa o exemplo mais claro dessa lógica; há sinais de que a
China também está caminhando na mesma direção. De acordo com amigos na
China (que devem permanecer sem nome), autores que escrevem em jornais
militares agora reclamam que o exército chinês não teve uma guerra real
para testar sua capacidade de combate. Enquanto os Estados Unidos estão
testando permanentemente o seu exército tal como ocorreu no Iraque, a
China não o faz desde sua fracassada intervenção no Vietnã, em 1979.
Ao mesmo
tempo, a mídia oficial chinesa começou a sugerir mais abertamente,
frente à redução da perspectiva de integração pacífica de Taiwan à
China, que será necessária uma “libertação” militar da ilha rebelde.
Como preparação ideológica para uma ação, a máquina de propaganda
chinesa tem incentivado cada vez mais o patriotismo nacionalista e a
suspeita em relação a tudo o que é estrangeiro, com acusações frequentes
de que os EUA estão ansiosos para ir à guerra por Taiwan. No outono
passado, as autoridades chinesas aconselharam o público a estocar
suprimentos suficientes para sobreviver por dois meses “apenas por
precaução”. Foi um aviso estranho que muitos perceberam como um anúncio
de que uma guerra é iminente.
Essa tendência
vai diretamente contra a necessidade urgente de civilizar nossas
“civilizações”, estabelecendo um novo modo dos países se relacionarem
com os seus vizinhos. Precisamos de solidariedade e cooperação universal
entre todas as comunidades humanas, mas este objetivo tem se tornado
muito mais difícil de alcançar devido ao aumento da violência sectária,
religiosa e étnica, “heroica”. Vê-se, também, uma presteza para
sacrificar a si mesmo (e ao mundo), lutando por uma causa específica.
Em 2017, o filósofo francês Alain Badiou
observou que os contornos de uma futura guerra já eram discerníveis.
Ele previu que “[…] os Estados Unidos e seus parceiros ocidentais, mais o
Japão, de um lado, a China e a Rússia do outro, armas atômicas por toda
parte. Não podemos deixar de recordar aqui uma afirmação de Lenin: ‘ou a
revolução impedirá a guerra ou a guerra desencadeará a revolução’. É
assim que podemos definir a ambição máxima do trabalho político por vir:
pela primeira vez na história, a primeira hipótese – a revolução
impedirá a guerra – deve se realizar, mas não a segunda – uma guerra
desencadeará a revolução. Foi efetivamente a segunda hipótese que se
materializou na Rússia no contexto da Primeira Guerra Mundial, e na
China no contexto da segunda. Mas a que preço! E com que consequências a
longo prazo!”
Os limites da realpolitik
Civilizar
nossas “civilizações” exigirá uma mudança social radical – uma revolução
de verdade. Mas não podemos esperar que ela seja desencadeada por uma
nova guerra. O resultado muito mais provável de tal curso seria o fim da
civilização como a conhecemos, com os sobreviventes (se houver)
organizados em pequenos grupos autoritários. Não devemos ter ilusões: em
certo sentido básico, a Terceira Guerra Mundial já começou, embora por
enquanto ainda esteja sendo travada principalmente por meio de
intermediários.
Os apelos
abstratos à paz não são suficientes. “Paz” não é um termo que permite
traçar uma distinção política chave agora necessária. Os ocupantes
sempre desejam sinceramente a paz no território que ocupam. A Alemanha
nazista queria a paz na França ocupada, Israel quer a paz na Cisjordânia
ocupada e o presidente russo, Vladimir Putin, quer a paz na Ucrânia.
Como disse certa vez o filósofo Étienne Balibar,
“o pacifismo não é uma opção”. A única maneira de evitar outra Grande
Guerra é evitar o tipo de “paz” que exige constantes guerras locais para
sua manutenção.
Em quem
podemos confiar nessas condições? Devemos depositar nossa confiança em
artistas e pensadores ou mesmo em praticantes pragmáticos da realpolitik?
O problema com artistas e pensadores é que eles também podem lançar as
bases para a guerra. Lembre-se do verso bem apropriado de William Butler
Yeats: “Eu espalhei meus sonhos sob seus pés/Pise suavemente porque
você vai pisar em meus sonhos”. Devemos aplicar a lição contida nessas
linhas aos próprios poetas. Quando eles espalham seus sonhos sob nossos
pés, eles devem espalhá-los com cuidado, porque as pessoas reais os
lerão e agirão de acordo com eles. Lembre-se de que o mesmo Yeats
flertava continuamente com o fascismo, chegando ao ponto de expressar
sua aprovação às leis antissemitas de Nuremberg da Alemanha, em agosto
de 1938.
A reputação de
Platão sofre por causa de sua afirmação de que os poetas deveriam ser
expulsos da cidade. No entanto, este é um conselho bastante sensato, a
julgar pela experiência das últimas décadas, quando o pretexto para a
limpeza étnica foi preparado por poetas e “pensadores” como o ideólogo
de Putin, Aleksandr Dugin. Não há mais limpeza étnica sem poesia, pois
vivemos em uma era supostamente pós-ideológica. Como as grandes causas
seculares não têm mais força para mobilizar as pessoas para a violência
de massa, é necessário um motivo sagrado maior. Religião ou
pertencimento étnico cumprem esse papel perfeitamente (ateus patológicos
que cometem assassinato em massa por prazer são exceções raras).
Realpolitik,
pois, não se afigura como um guia melhor. Tornou-se um mero álibi para a
ideologia; eis que esta, muitas vezes, evoca alguma dimensão oculta por
trás do véu das aparências para obscurecer o crime que está sendo
cometido abertamente. Essa dupla mistificação é muitas vezes anunciada
por meio da descrição de uma situação de conflito como “complexa”. Um
fato óbvio – digamos, um caso de agressão militar brutal – é
relativizado evocando que há um “fundo muito mais complexo”. O ato de
agressão é apresentado realmente como um ato de defesa.
É isso
exatamente o que está acontecendo hoje. A Rússia obviamente atacou a
Ucrânia; em consequência, está obviamente mirando em civis, provocando
assim o deslocamento de milhões. E, no entanto, comentaristas e
especialistas estão procurando avidamente por “complexidade” por trás
disso.
Há
complexidade, é claro. Mas isso não muda o fato básico de que a Rússia
avançou sobre a Ucrânia. Nosso erro foi que não interpretamos as
ameaças de Putin literalmente, em nível suficiente; pensávamos que ele
estava apenas praticando um jogo de manipulação estratégica, movido por
intemperança. Lembre-se da famosa piada que Sigmund Freud contou uma
vez: “Dois judeus se encontraram em um vagão de trem em uma estação na
Galiza. ‘Para onde você está indo?’ – perguntou um deles. ‘Para
Cracóvia’ – respondeu o outro. ‘Que mentiroso você é!’ – interrompeu o
primeiro. “Se você diz que vai para Cracóvia, quer que eu acredite que
vai para Nuremberg. Mas eu sei que na verdade você vai para Cracóvia.
Então, por que você está mentindo para mim?”
Putin anunciou
uma intervenção militar; na ocasião, deveríamos tê-lo entendido
literalmente quando disse que o motivo era pacificar e “desnazificar” a
Ucrânia. Em vez disso, a censura feita por estrategistas desapontados,
mas “profundos”, equivaleu a proferir: “por que você me disse que vai
ocupar Lviv quando realmente quer ocupar Lviv?”
Essa dupla mistificação expõe o fim da realpolitik.
Via de regra, essa posição se opõe à ingenuidade de vincular a
diplomacia e a política externa a princípios morais ou políticos. No
entanto, na situação atual, é a realpolitik que é ingênua. É ingênuo supor que o outro lado, o inimigo, também está visando um acordo pragmático limitado.
Força e liberdade
Durante a
Guerra Fria, as regras de comportamento das superpotências foram
claramente delineadas pela doutrina da destruição assegurada mútua
(MAD, mutual assured destruction). Cada superpotência poderia
ter certeza de que, se decidisse lançar um ataque nuclear, o outro lado
responderia com força total destrutiva. Como resultado, nenhum lado
podia começar uma guerra com o outro lado.
Por outro
lado, quando o norte-coreano Kim Jong-un fala em desferir um golpe
devastador contra os EUA, não podemos deixar de imaginar como ele vê a
sua própria posição. Ele fala como se não soubesse que seu país seria
também destruído. É como se ele estivesse jogando um jogo totalmente
diferente chamado NUTS (Nuclear Utilization Target Selection), em que as capacidades nucleares do inimigo podem ser cirurgicamente destruídas antes que ele possa contra-atacar.
Nas últimas
décadas, os EUA oscilaram entre MAD e NUTS. Embora aja como se
continuasse a confiar na lógica MAD em suas relações com a Rússia e a
China, ocasionalmente sonham com uma estratégia NUTS, pelo menos em
relação ao Irã e à Coréia do Norte. Com o seu delírio sobre a
possibilidade de lançar um ataque nuclear tático, Putin segue o mesmo
raciocínio. O próprio fato de que duas estratégias diretamente
contraditórias estão sendo mobilizadas simultaneamente pela mesma
superpotência atesta o seu caráter fantasioso.
Infelizmente
para o resto de todos nós, a loucura encontra-se presente. As
superpotências estão cada vez mais testando umas às outras,
experimentando o uso de representantes enquanto tentam impor sua própria
versão de regras globais. Em 5 de março último, Putin chamou as sanções
impostas à Rússia de “equivalente a uma declaração de guerra”. Mas ele
afirmou repetidamente desde então que o intercâmbio econômico com o
Ocidente deveria ter continuidade, enfatizando que a Rússia está
mantendo os seus compromissos financeiros, que continua a fornecer
hidrocarbonetos para a Europa Ocidental.
Em outras
palavras, Vladimir Putin está tentando impor um novo modelo de relações
internacionais. Em vez de guerra fria, deve haver paz quente: um estado
de guerra híbrida permanente em que intervenções militares são
declaradas sob o pretexto de missões humanitárias e de manutenção da
paz.
Assim, em 15
de fevereiro, a Duma (o Parlamento russo) emitiu uma declaração
expressando “seu apoio inequívoco e consolidado às medidas humanitárias
adequadas destinadas a fornecer apoio aos moradores de certas áreas das
regiões de Donetsk e Lugansk da Ucrânia que manifestaram o desejo de
falar e escrever em russo. Eles querem que a liberdade religiosa seja
respeitada, dizendo que não apoiam as ações das autoridades ucranianas
que violam seus direitos e liberdades”.
Quantas vezes
no passado ouvimos argumentos semelhantes para intervenções lideradas
pelos EUA na América Latina ou no Oriente Médio e Norte da África?
Enquanto a Rússia bombardeia cidades, quando lança foguetes numa
maternidade na Ucrânia, o comércio internacional deve continuar. Fora da
Ucrânia, a vida normal deve continuar. É isso o que significa ter uma
paz global permanente sustentada por intermináveis intervenções de
manutenção da paz em partes isoladas do mundo.
Alguém pode
ser livre em tal situação? Seguindo Hegel, devemos fazer uma distinção
entre liberdade abstrata e concreta. A liberdade abstrata é a capacidade
de fazer o que se quer independentemente das regras e costumes sociais;
a liberdade concreta é a liberdade conferida e sustentada por regras e
costumes. Só posso andar livremente por uma rua movimentada quando posso
ter certeza razoável de que os outros na rua se comportarão de maneira
civilizada comigo – que os motoristas obedecerão às regras de trânsito e
que outros os pedestres não me roubarão.
Mas há
momentos de crise em que a liberdade abstrata deve intervir. Em dezembro
de 1944, Jean-Paul Sartre escreveu: “Nunca fomos tão livres quanto sob a
ocupação alemã. Tínhamos perdido todos os nossos direitos e, em
primeiro lugar, nosso direito de falar. Eles nos insultaram na cara. […]
E é por isso que a Resistência foi uma verdadeira democracia; para o
soldado, como para seu superior, o mesmo perigo espreitava, a mesma
solidão, a mesma responsabilidade, a mesma liberdade absoluta dentro da
disciplina”.
Sartre estava
descrevendo a liberdade abstrata, não a liberdade concreta. Esta última
foi estabelecida quando ocorreu a normalidade do pós-guerra. Na Ucrânia
de hoje, aqueles que estão lutando contra a invasão russa são livres e
estão lutando pela liberdade sem restrições. Mas isso levanta a questão
de quanto tempo a distinção pode durar. O que acontece se outros milhões
de pessoas decidirem que devem violar livremente as regras para
proteger sua liberdade? Não foi isso que levou uma multidão “trumpista” a
invadir o Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021?
Um jogo não tão bom
Ainda nos
falta uma palavra adequada para o mundo de hoje. De sua parte, a
filósofa Catherine Malabou acredita que estamos testemunhando o início
da “virada anarquista” do capitalismo: como descrever esse fenômeno da
descentralização das moedas, do fim dos monopólios dos Estados, a
obsolescência do papel mediador dos bancos, a descentralização das
trocas e das transações?”. Esses fenômenos podem parecer atraentes, mas
com o desaparecimento gradual do monopólio do Estado, os limites
impostos pelo Estado à exploração e dominação implacáveis também
desaparecerão. Embora o anarcocapitalismo vise a transparência, ele
também “autoriza simultaneamente o uso em larga escala, mas opaco, de
dados, a ‘dark web‘ e a fabricação de informações”.
Para evitar
essa queda no caos, observa Malabou, deve-se ver que as políticas seguem
cada vez mais um caminho de “’evolução fascista’; por ele vem também um
ambiente de segurança excessiva e um crescimento do poder militar. Tais
fenômenos não contradizem um impulso para o anarquismo. Pelo contrário,
eles indicam precisamente o desaparecimento do Estado protetor; uma vez
que é eliminada a sua função social, a obsolescência de sua força é
substituída pelo uso da violência. O ultranacionalismo sinaliza, assim, a
agonia da morte da autoridade nacional”.
Vista nesses
termos, a situação na Ucrânia não é a de um Estado-nação atacando outro
Estado-nação. Em vez disso, a Ucrânia está sendo atacada como se fosse
um país cuja identidade étnica é negada pelo agressor. A invasão se
justifica em termos de esferas de influência geopolítica (que muitas
vezes se estendem muito além das esferas étnicas, como no caso da
Síria). A Rússia se recusa a usar a palavra “guerra” para sua “operação
militar especial” não apenas para minimizar a brutalidade de sua
intervenção, mas acima de tudo para deixar claro que a guerra no antigo
sentido de um conflito armado entre Estados-nação não se aplica.
O Kremlin quer
que acreditemos que o exército russo está apenas garantindo a “paz” no
que considera ser sua esfera de influência geopolítica. De fato, também
já está intervindo por meio de representantes na Bósnia e no Kosovo. Em
17 de março, o embaixador russo na Bósnia, Igor Kalabukhov, explicou que
“se [a Bósnia] decidir ser membro de qualquer aliança [como a OTAN],
isso é assunto nosso. Haverá uma resposta nossa. O exemplo da Ucrânia
mostra o que se deve esperar. Caso haja alguma ameaça, responderemos”.
Além disso, o
ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, chegou a
sugerir que a única solução abrangente seria desmilitarizar toda a
Europa, com a Rússia e o seu exército mantendo a paz por meio de
intervenções humanitárias ocasionais. Ideias semelhantes a essa última
abundam na imprensa russa. Como explica o comentarista político Dmitry
Evstafiev em uma entrevista recente dada a uma publicação croata: “Nasce
uma nova Rússia que deixa saber claramente que ela não vê você, Europa,
como um parceiro. A Rússia tem três parceiros: EUA, China e Índia. Você
é para nós um troféu que será dividido entre nós e os americanos. Você
ainda não entendeu isso, embora estejamos chegando já bem perto dessa
realização”.
Dugin, o
filósofo da corte de Putin, fundamenta a posição do Kremlin por meio de
uma estranha versão do relativismo historicista. Em 2016, ele disse: “A
pós-modernidade mostra que toda suposta verdade é uma questão de crença.
Então acreditemos no que fazemos, acreditemos no que dizemos. E essa é a
única maneira de definir a verdade. Portanto, temos nossa verdade russa
especial que você precisa aceitar. […] Se os Estados Unidos deixam de
iniciar uma guerra, é preciso reconhecer que os Estados Unidos não são
mais aquele mestre único. E [com] a situação na Síria e na Ucrânia, a
Rússia está dizendo: ‘Não, você não é mais o chefe.’ Essa é a questão
sobre quem governa o mundo. Só a guerra pode decidir isso realmente”.
Isso levanta
uma questão óbvia: E quanto ao povo da Síria e da Ucrânia? Eles também
não podem escolher a sua verdade e as suas crenças? Ou serão eles apenas
um playground – ou um campo de batalha – dos grandes “chefes”? O
Kremlin diria que eles não contam na grande divisão de poder. Dentro das
quatro esferas de influência, existem apenas intervenções de manutenção
da paz. A guerra propriamente dita acontece apenas quando os quatro
grandes chefes não conseguem concordar com as fronteiras de suas esferas
– como no caso das reivindicações da China a Taiwan e ao Mar do Sul da
China.
Um novo não alinhamento
Mas se formos
mobilizados apenas pela ameaça de guerra, não pela ameaça ao nosso meio
ambiente, a liberdade que obteremos caso vençamos pode não valer a pena.
Estamos diante de uma escolha impossível: se fizermos compromissos para
manter a paz, estamos alimentando o expansionismo russo, que só uma
“desmilitarização” de toda a Europa irá satisfazer. Mas se endossamos o
confronto total, corremos o alto risco de precipitar uma nova guerra
mundial. A única solução real é mudar a lente através da qual percebemos
a situação.
Enquanto a
ordem liberal-capitalista global está obviamente se aproximando de uma
crise em vários níveis, a guerra na Ucrânia está sendo falsa e
perigosamente simplificada. Problemas globais como a mudança climática
não desempenham nenhum papel na narrativa banal de que há um confronto
entre países bárbaros e totalitários e o Ocidente livre e civilizado. E,
no entanto, as novas guerras e os conflitos entre grandes potências não
deixam também ser reações a esses problemas. Se a questão é a
sobrevivência em um planeta em apuros, deve-se garantir uma posição mais
forte do que aquela mantida pelos outros. Longe de ser o momento de
apenas esclarecer a verdade quando o antagonismo básico é exposto, a
crise atual é um momento de profunda decepção.
Embora devamos
apoiar firmemente a Ucrânia, devemos evitar o fascínio pela guerra que
claramente tomou conta da imaginação daqueles que estão pressionando por
um confronto aberto com a Rússia. Algo como um novo movimento não
alinhado é necessário, não no sentido de que os países devem ser neutros
na guerra em curso, mas no sentido de que devemos questionar toda a
noção de “choque de civilizações”.
De acordo com
Samuel Huntington, que cunhou o termo, o palco para um choque de
civilizações foi montado no final da Guerra Fria, quando a “cortina de
ferro” da ideologia ocidental foi substituída pela “cortina de veludo da
cultura”. À primeira vista, essa visão sombria pode parecer o oposto da
tese do fim da história avançada por Francis Fukuyama em resposta ao
colapso do comunismo na Europa. O que poderia ser totalmente diferente
da ideia pseudo-hegeliana de Fukuyama? Para ele, a melhor ordem social
possível que a humanidade poderia conceber tinha finalmente se revelado
como sendo a democracia liberal capitalista!
Podemos ver
agora que as duas visões são totalmente compatíveis: o “choque de
civilizações” é a política que vem no “fim da história”. Os conflitos
étnicos e religiosos são a forma de luta que se encaixa no capitalismo
global. Em uma era de “pós-política” – quando a política propriamente
dita é gradualmente substituída pela administração social especializada –
as únicas fontes legítimas de conflito remanescentes são culturais
(étnicas, religiosas). A ascensão da violência “irracional” decorre da
despolitização de nossas sociedades.
Dentro desse
horizonte limitado, é verdade que a única alternativa à guerra é uma
coexistência pacífica de civilizações (de diferentes “verdades”, como
disse Dugin, ou, para usar um termo mais popular hoje, de diferentes
“modos de vida”) . A implicação é que casamentos forçados, homofobia ou
estupro de mulheres que se atrevem a sair em público sozinhas são
toleráveis se acontecerem em outro país, desde que esse país esteja
totalmente integrado ao mercado global.
O novo não
alinhamento deve ampliar o horizonte reconhecendo que nossa luta deve
ser global – sem deixar de ficar contra a russofobia a todo custo.
Devemos oferecer nosso apoio àqueles que estão protestando contra a
invasão dentro da própria Rússia. Eles não são alguns círculos abstratos
de internacionalistas; eles são os verdadeiros patriotas russos – as
pessoas que realmente amam seu país e ficaram profundamente
envergonhadas dele desde 24 de fevereiro. Não há ditado mais moralmente
repulsivo e politicamente perigoso do que “meu país, certo ou errado”.
Infelizmente, a primeira vítima da guerra na Ucrânia foi a
universalidade.
Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2022/03/30/da-guerra-fria-a-paz-quente/