sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Um chapéu de palha nas eleições de Porto Alegre

 Por JORGE BARCELLOS*

Imagem: Markus Winkler


É insuficiente nas eleições a esquerda desconstruir só discurso de seu opositor: é preciso levar a batalha também para o campo simbólico

Esqueça o Boitatá, o Negrinho do Pastoreio, a Salamanca do Jarau. Um novo mito gaúcho surgiu nas eleições de Porto Alegre de 2024 o candidato de direita que disputa as eleições municipais se dizendo “o homem do chapéu de palha”. O nome, que caberia em qualquer livro de Stephen King, serve para o candidato Sebastião Melo (MDB) reforçar símbolos de simplicidade e proximidade com o eleitor.

Eu me surpreendo que a esquerda não denuncie esta estratégia. Eu a faço com a crença de que é insuficiente nas eleições a esquerda desconstruir só discurso de seu opositor: é preciso levar a batalha também para o campo simbólico. É que, nos últimos tempos, parafraseando a famosa expressão de Alain Finkielkraut, a esquerda se tornou moderna, enquanto que a direita, pós-moderna.

A esquerda busca convencer com a razão, com seus programas, exatamente como é o certo de fazer política; a direita quer convencer com a emoção, com piadas, com memes, o jeito errado como vem fazendo. O “homem do chapéu de palha” já apareceu no horário político da capital com o famoso óculos pixel de memes rindo de si mesmo, mas é o chapéu de palha, para mim, o símbolo mais representativo que precisa ser desconstruído. Por quê?

O mundo é feito de símbolos. Eles entram nas consciências, mexem com o imaginário, afetam o mundo. Na política, símbolos reforçam projetos, criam a base de narrativas, ficam na mente e conquistam votos. Entendo que a força do chapéu de palha na imagem de Sebastião Melo vem de dois pressupostos. O primeiro porque é um símbolo que quer agregar ao candidato os valores de ingenuidade quando não o é. O governo do homem do chapéu de palha não é ingênuo.

Há acusações de corrupção em seu governo; há críticas a sua gestão de proteção das enchentes; há críticas a privatização da Carris que realizou que levou ao desemprego de dezenas de cobradores. Para a esquerda, sua candidatura é um problema: nenhuma crítica cola no “homem do chapéu de palha”, diz a jornalista Rosane Oliveira. Graças ao sucesso de sua propaganda, o PT amarga a redução dos votos em Maria do Rosário de 31% para 27% enquanto que “o homem do chapéu de palha” passa de 36% para 41% dos votos entre 27/8 e 17/09 segundo a última pesquisa Quaest.

É preciso que se diga que “o homem do chapéu de palha” é uma notável associação simbólica com o personagem célebre Jeca Tatu. Em tempos em que os conteúdos programáticos importam menos que as imagens de campanha, que as carreiras políticas e conquistas menos do que memes divulgados na mídia, é importante buscar explicações para o sucesso desta imagem em sua propaganda. Em No tempo do Jeca Tatu: representação das populações rurais no imaginário urbano do século XX (1914-1980)” (disponível em https://abre.ai/k8qZ ), Fabio Sgroi e Ana Paula Koury fazem uma análise importante do personagem Jeca Tatu que inspira minhas reflexões aqui.

O segundo pressuposto da força do símbolo usado por Sebastião Melo está no fato de que a imagem do Jeca Tatu permeou o imaginário da cultura brasileira urbana do século XX. Mas é preciso ir além da imagem do chapéu de palha simplesmente, que encarna simplicidade, para ver do que realmente se trata: o Jeca Tatu era a personificação da precariedade e do atraso do país.

Nesse sentido, o “homem do chapéu de palha” é o nosso Jeca Tatu, ele quer atualizar o personagem, ressignificando-o. Agora ele serve para encarnar a modernidade simples, o administrador que é próximo da população. Sai o caipira pobre e preguiçoso e entra o gestor simples e humilde. O chapéu de palha tem o poder de criar, nesse sentido, uma identidade. Tanto Jeca Tatu como o nosso “homem do chapéu de palha” trocaram sua origem: Jeca Tatu, a roça pela cidade; Sebastião Melo, nosso “homem do chapéu de palha”, a cidade do interior pela capital.

O personagem original foi uma criação de Monteiro Lobato (1882-1948) em 1914 “como personagem de um artigo publicado em jornal, o caipira pobre e preguiçoso” (Sgroi & Koury, 2019). O personagem atual é uma criação do marketing político. Interessante que, diferente da época de Jeca Tatu, quando acalorados debates sobre sua figura surgiram na imprensa, hoje a esquerda não vislumbra no “homem do chapéu de palha” um conteúdo simbólico importante para criticar.

Na época se vislumbrava no Jeca Tatu um dos motivos do atraso econômico do país e ele veio depois veio a se transformar em símbolo midiático com sua entrada no cinema pelas mãos de Amácio Mazzaropi (1912-1981) “Na tela grande, o personagem firmou-se de vez no imaginário urbano, encarnado por um intérprete que compreendia muito bem o repertório das camadas populares. O caipira sobreviveu na telona, com muito sucesso de bilheteria, até o início da década de 1980. Desde então, foi desaparecendo, consubstanciado no repertório da cultura urbana contemporânea,” afirmam os autores.

Até que, rufem os tambores, o “homem do chapéu de palha” ressuscita como personagem político aproveitando-se da memória dos camponeses convertidos na cidade em trabalhadores proletarizados ou relegados ao subemprego. Não foram os mais humildes ou aqueles que tiveram a experiência de assistir os filmes de Mazzaropi, também os que votaram nele e prometeram votar agora mais uma vez, mesmo tendo sido vítimas de suas políticas ou ausência delas, como visto políticas na enchente?

Na ficção, o Jeca Tatu era uma crítica à cultura do homem simples, depois encarnou o ideal progressista da luta conservadora e até transformou-se em símbolo do problema agrário, tão importante para o Partido Comunista. O “homem do chapéu de palha” assaltou o imaginário de esquerda, colou sua figura política em um personagem de Mazzaropi, mas a verdade é que, ao contrário daqueles, não se trata de um novo personagem crítico da ordem socioeconômica, mas um de seus principais defensores. Se Jeca Tatu encarna a passagem da cultura rural para a urbana, o “homem do chapéu de palha” que ser a passagem da cultura neoliberal para a ultraneoliberal

Jeca Tatu vive no país da trapeira como o” homem do chapéu de palha” vive no país do êxtase neoliberal. Sgroi & Koury afirmam que a expressão “trapeira” faz parte do vocabulário caipira com o sentido de “grande desordem”. Esta, talvez, é uma boa palavra para caracterizar a gestão atual de Sebastião Melo: desordem no campo das políticas de proteção da enchente com a falta de manutenção das casas de bombas, desordem no campo das políticas de desenvolvimento urbano com flexibilização do Plano Diretor para facilitar a expansão imobiliária predadora e desordem no campo da recomposição dos salários dos servidores com a negativa de ajustes obrigatórios por lei.

Com o “homem do chapéu de palha”, mas não apenas ele, é preciso ser justo, já que se iniciou esta desordem no governo de Nelson Marchezan (2017-2021), esta é uma palavra importante para assinalar o processo de desagregação do campo da proteção ambiental que faz parte de “virar a capital de cabeça para baixo”, o que acontece desde o início dos governos neoliberais locais. Até então, as gestões de esquerda (1989-2005) estavam associadas ao freio da expansão predatória da construção civil, com a implantação de marco regulatório do Plano Diretor; preservação dos direitos dos servidores públicos, com recomposição salarial e preservação do meio natural, com ampla atuação da SMAM, com a manutenção do sistema de proteção, com a manutenção do DEP.

Com os governos neoliberais que iniciam com José Fogaça(PMDB) e chegam ao governo do “homem do chapéu de palha” – com um breve interregno pedetista – chegamos a flexibilização do Plano Diretor para ampliação da expansão imobiliária, precarização do município com redução dos concursos públicos, recuo de direitos dos servidores e de recomposição salarial e o fim do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), o que agudizou a enchente na capital. A cidade se transformou no principal laboratório de políticas de predação neoliberal, com o “homem do chapéu de palha” como um de seus atores.

Foi no meio dessa trapeira em que Porto Alegre se transformou que apareceu o novo Jeca tatu, o “homem do chapéu de palha”. O Jeca Tatu originou-se do convívio do escritor Monteiro Lobato com caboclos quando foi administrador de terras no Vale do Paraíba. Para Lobato, eram trabalhadores que não dispensavam cuidados para a terra, provocavam queimadas e empobreciam o solo até que se tornasse estéril. Os capitalistas beneficiados pelas políticas do “homem do chapéu de palha” fazem o mesmo em Porto Alegre: querem lotear a Fazenda Arado, uma notável planície de inundação e sitio arqueológico; transformam o ambiente urbano pela expansão de grandes prédios que tornam a vida e a cultura da cidade algo estéril.

Para Monteiro Lobato, o caboclo é um dos principais impedimentos do desenvolvimento do Brasil; para mim, o projeto neoliberal defendido pelo “homem do chapéu de palha” é o principal impedimento do desenvolvimento de uma cidade com habitabilidade e cultura: aqui, criar condições de expansão imobiliária é a forma de extinguir a cidade pela predação. O “homem do chapéu de palha” é esse ser parasita que, como na visão de Monteiro Lobato do Caboclo, vive de criar condições predatórias para o capital imobiliário, é um nômade sem apreço pela cultura local, que vive na penumbra de uma zona fronteiriça entre a aparência de um bom gestor que oculta seu papel destruidor do patrimônio da cidade.

O Jeca Tatu se vangloria de seu cachorro, seu pilão, seu chapéu e seo isqueiro; o “homem do chapéu de palha” se vangloria da simplicidade, da aproximação popular. Ambos recuam para não se adaptar, seja ao moderno, seja a tradição do lugar.

Monteiro Lobato queria que fossem colocados em práticas modelos mais modernos de administração; eu queria que fosse dado um passo a trás, que recuássemos na implementação de políticas neoliberais para um Estado de proteção social. Precisamos de desenvolvimento econômico sim, mas não que seja feito à custa da cultura local, do seu patrimônio, das condições de habitabilidade e da precarização dos serviços públicos, exatamente a linha adotada pelo “homem do chapéu de palha”, já que as consequências são exatamente as mesmas: esgotamento do uso do solo e a decadência do lugar, seja do Vale do Paraíba, seja de Porto Alegre.

Jeca Tatu é produto de um erro literário como o “homem do chapéu de palha” é de um erro político. O personagem nasceu em um texto que Lobato enviou para a seção de Queixas e Reclamações do Jornal O Estado de S. Paulo, mas que os editores publicaram como um artigo pela qualidade da escrita. O nosso “homem do chapéu de palha” nasceu como um erro político da cidade, que pensa estar votando em alguém que ama a cidade quando não ama. Que amor é esse que se faz às custas da destruição do ser amado? Ambos buscam a continuidade: Monteiro Lobato começou a escrever para o jornal, enquanto o nosso “homem do chapéu de palha” quer reeleger-se.

Todos tentam a seu modo a continuidade. O Jeca Tatu é bonito no romance e feio na realidade, dizem os autores “Quando comparece às feiras, todo mundo logo adivinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher. Nada mais. Seu grande cuidado é espremer todas as consequências da lei do menor esforço – e nisto vai longe”. dizem Sgroi & Koury. Não é a perfeita descrição do nosso “homem do chapéu de palha?” Não é a exploração do mundo natural que vemos na Fazenda Arado? Não é seu esforço em espremer o Plano Diretor, de tirar dele tudo o que impede nele a construção de grandes arranha-céus na cidade?

Ele é portador da lei do menor esforço, não para si, mas para os empresários que representa. Como diz os autores “o caboclo é o sombrio urupê de pau podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas. Só ele não fala, não canta, não ri, não ama. Só ele, no meio de tanta vida, não vive… (Sgroi & Kouri, apud Lobato, 2009)”.

O “homem do chapéu de palha” diz que vive a cidade, mas não vive. Se visse, lhe importaria a sombra do prédio que quer autorizar a construção junto a catedral metropolitana de Porto Alegre. Devo ser para o “homem do chapéu de palha” como os críticos de Urupês, livro de Lobato onde o personagem aparece, pois sou também esse “literato da cidade”, termo para se referir aos intelectuais que criticavam sua obra. Eu também o crítico, mas não por estar no conforto de minha casa, mas por necessidade de mostrar o personagem real por trás da ficção eleitoral.

É preciso, como diz o filósofo Jacques Derrida(1930-2004) desconstruir o idealismo da figura que o “homem do chapéu de palha” encarna, é para isso é preciso ler sua imagem como um texto e seguir o caminho do filósofo da desconstrução, pois desconstruir não é destruir seu personagem, mas arrancá-lo de sua lógica, mostrar a disposição de seus elementos textuais.

Dizem os autores que as “réplicas que surgiram na imprensa após a publicação de Urupês foram tão furiosas quanto as palavras de Monteiro Lobato”. Até nisso nosso “homem do chapéu de palha” tem sorte. A campanha de sua opositora Maria do Rosário (PT) ainda é morna e o único político de esquerda crítico a altura, o deputado Leonel Radhe (PT), tem vídeos ótimos que não estão no horário político. Ele é o único que fez a desconstrução do personagem, investindo na associação de imagens da catástrofe da administração com o “homem do chapéu de palha”. Aqui, não é símbolo de simplicidade, mas de ineficiência.

É, aqui, uma resposta de esquerda “pós-moderna”, porque aceita e combate no campo dos símbolos a ideia de boa política. O sociólogo Jean Baudrillard (1929-2007) já havia dito em sua obra A Sombra das maiorias silenciosas (Brasiliense) que a massa não quer o racional, mas o irracional. Nosso homem do chapéu de palha sabe disso e abusa e usa dos recursos de memes, inclusive consigo próprio.

Ao longo do tempo, o Jeca Tatu de Lobato sofre duas transformações segundo os autores. A primeira é a que vem depois que o autor lê o livro Saneamento básico no Brasil, de Belisário Penna e Arthur Neiva, publicado pelo Instituto Osvaldo Cruz em 1918, quando entende que o interior do país havia sido abandonado. Lobato acreditava que o caboclo era inferior e apático por sua condição racial, e substitui a ideia de superioridade de certas raças que o autor defendia por uma ideia de que o homem da roça era fruto do subdesenvolvimento “Ao verificar que o homem é produto do seu meio – e não o contrário – Monteiro Lobato “pede perdão ao Jeca, dizendo tê-lo ignorado doente””, dizem Sgroi e Koury.

Monteiro Lobato começa a publicar sobre a exploração do homem da roça por causa da concentração de renda e cria em 1924 Jeca Tatuzinho, conto infantil em que o personagem transformado em criança narra sua superação, da doença e miséria aos cuidados com saúde, prosperidade e trabalho árduo. Ele serve de propaganda para uma edição do Almanaque do Biotônico Fontoura distribuído gratuitamente em farmácias de todo o Brasil (Sgroi e Kouri, apud Duarte: 2009, p. 121). Os autores informam que a edição especial do Almanaque representou um dos maiores fenômenos de penetração pública de sua época e que sua tiragem bateu todos os recordes de qualquer publicação impressa daquele período. “A longevidade da revistinha também é digna de nota: em 1982 foram impressos 100 milhões de exemplares da edição” (idem, p. 129).

A mudança ocorre com o personagem preguiçoso e miserável quando ele recebe a visita de um médico, que o diagnostica com Amarelão “após ingerir um “elixir milagroso” – o Biotômico Fontoura e outras medicações do laboratório farmacêutico –, torna- se robusto, corado e saudável; passa a empunhar a enxada com vigor e transforma seu pedaço de terra decaído em um potente empreendimento agrícola, inclusive derrubando árvores para ampliar sua casa e socando a onça que antes tanto o amedrontava”, dizem Sgroi e Kouri.

É a descoberta pelo autor das reais condições de vida dos camponeses, desprezados pelo poder público e vítimas da alta concentração de renda nas mãos de proprietários de terras. Já na cidade do “homem do chapéu de palha”, a campanha de sua opositora Maria do Rosário (PT) já denunciou a mudança de personagem: se na eleição anterior creditava ao poder público estabelecido na Prefeitura a responsabilidade sobre as cheias, na atual propaganda lança sua crítica ao suposto abandono do governo federal – o que não é verdade, já que ele investiu no Estado 42,3 bilhões de reais para reconstrução das vítimas da enchente.

Se em Monteiro Lobato são proprietários de terra que são a origem dos males do caboclo, na terra do “homem do chapéu de palha” agora são os empreendedores e grandes empresários da construção civil. Não há em seu discurso nenhuma crítica ao capital, a exploração dos mais pobres, há apenas captura da imagem do caboclo através do uso do seu chapéu para benefício eleitoral. Pudera: a mudança no personagem de Lobato devia-se a uma aproximação do autor aos temas da reforma agrária defendida pelo Partido Comunista; o “homem do chapéu de palha” só tem interesse na reforma agrária que beneficia os empreendedores e que facilita a vida das corporações.

Nada das populações abandonadas a sua própria sorte nas pousadas contratadas pela Prefeitura e que incendeiam e matam seus ocupantes conforme noticiou o site Brasil de Fato (disponível em https://encurtador.com.br/OvTI6). Eles são como o Zé Brasil, nome de outro personagem da obra de Monteiro Lobato de um trabalhador rural. Lá como aqui, é sempre o abandono e absoluta miséria do trabalhador, seja rural ou urbano. Se os grandes proprietários de terra são a causa do abandono do Zé Brasil, os grandes empreiteiros são dos trabalhadores urbanos que o “homem do chapéu de palha” quer representar.

Zé Brasil é uma atualização de Jeca Tatu, mas “homem do chapéu de palha” não é atualização de nada, exceto da força das elites. Segundo os críticos da época, a passagem de um personagem ao outro foi uma evolução política; no nosso caso, há somente uma involução, como já mostramos na análise dos programas da eleição anterior do candidato em nosso livro “A incrível história do programa que encolheu” (disponível em https://encurtador.com.br/oXWeX).

A segunda transformação ocorre com o personagem Zeca Tatu é dado pela sua recriação por Amácio Mazarropi. Ele fez parte de um contexto de desenvolvimento capitalista como o “homem do chapéu de palha” faz parte de seu aprofundamento. O primeiro encarnou o personagem do Jeca Tatu nos primórdios da comunicação de massa no Brasil; o segundo encarna o personagem no período ultraneoliberal. O primeiro nasceu no programa humorístico de rádio Rancho Alegre de 1946 e que se tornou o primeiro programa humorístico da TV Tupi em 1950 e no segundo nasce na propaganda eleitoral de Porto Alegre nos anos 2024.

Tanto o personagem de Mazzaropi como o do “homem do chapéu de palha” buscavam ser a síntese das origens do povo. Mas enquanto o personagem de Mazzaropi nasce do teatro mambembe, o outro nasce das estratégias do marketing pós-moderno, quer dizer, o primeiro nasce numa forma de arte e o segundo numa forma de conquista das consciências.

O Jeca Tatu de Mazzaropi é justificado pela demanda das camadas populares; o do “homem do chapéu de palha!” pela demanda da classe política em se perpetuar no poder. Ambos são encenações, a primeira improvisada e regionalista e a segunda, calculada e política. Mas a transformação fundamental é no discurso de cidade que encarna: no primeiro, a cidade é a fonte do falso, do desonesto, do vicio; no segundo, é a fonte de riqueza, felicidade e progresso para todos – quando é apenas para alguns.

Tanto o Jeca Tatu de Mazzaropi quanto o “homem do chapéu de palha” de Sebastião Melo querem encarnar a imagem de um homem rural puro. Dizem os autores que “O Jeca mazzaropiano apareceu em 1959 no filme Jeca Tatu, produzido pela própria produtora do artista, a PAM filmes, e dirigido por Milton Amaral”; o nosso tem origem na propaganda política de 2024, exatos 65 anos depois. Se o Jeca de Mazzaropi era um confronto do homem do campo com a cidade, o jeca do “homem do chapéu de palha” é a sua aceitação resignada.

Ambos são inspirados na observação das pessoas, mas fazem apropriações do caipira de formas distintas. Ao final, o primeiro quer convencer as classes dominantes sobre a sua responsabilidade na situação do atraso no campo enquanto o segundo quer convencer as classes dominadas do interesse das dominantes na melhoria de sua condição. O que se faz aqui é em ambas é apenas mais uma forma da sedução, o desvio de finalidade do símbolo, mas se na primeira está a serviço da luta de classes, o da segunda está a serviço da dominação de classe.

As versões de Monteiro Lobato e de Mazzaropi do Jeca Tatu têm diferenças sim, mas na de Mazzaropi o personagem deixa de ser um parasita da nação, doente ou consciente como o de Lobato, mas um camponês conservador crítico da lógica industrial e nisso se distancia de seu similar político contemporâneo, que a defende.

A conclusão é que o “homem do chapéu de palha” não passa de um caipira estilizado, diferente do caipira real ou da herança mazzaropiana. Ele usa o símbolo do chapéu e a fala rústica para provocar identificação imediata com as pessoas mais pobres. Não há nada no “homem do chapéu de palha” que sinaliza para o Jeca do passado, além do chapéu. Este é, no entanto, um símbolo forte porque evoca uma sensibilidade. Qual? A do uso do tempo.

Lá, o tempo é do lavrador; aqui é o do ritmo frenético do empresário; lá, era o tempo que passa, aqui é o da busca por resultados. O Jeca do passado é mais rico que o do presente porque tem outro significado, o de valorizar o tempo passa entre o dia e a noite, as chuvas e as estações, diferente do tempo cronometrado da cidade. É que agora, não se trata de perder tempo, mas de comprar e vender tempo. E comprar e vender, disso o “homem do chapéu de palha” entende.

*Jorge Barcellos, historiador, é doutor em Educação pela UFRGS. Autor, entre outros livros, de Neoliberais não merecem lágrimas: como a política neoliberal ampliou a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul (Clube dos Autores).

Fonte:  https://aterraeredonda.com.br/um-chapeu-de-palha-nas-eleicoes-de-porto-alegre/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2024-09-26

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Pesquisadores elaboram manifesto contra retorno do horário de verão

Por Victória Ribeiro

Ritmos biológicos humanos estão profundamente conectados ao ciclo natural de luz e escuridão, afirmam especialistas

 Ritmos biológicos humanos estão profundamente conectados ao ciclo natural de luz e escuridão, afirmam especialistas Foto: Laima Gri/Adobe Stock

Adaptação a um novo “horário social” pode causar confusão nos ritmos biológicos e favorecer problemas de saúde, apontam especialistas


Em meio às discussões sobre o possível retorno do horário de verão no Brasil, 26 cientistas da área de cronobiologia — ciência responsável por estudar os ritmos e os fenômenos biológicos — assinaram um manifesto contra a medida.

Historicamente, a mudança nos relógios foi justificada como uma forma de economizar energia, buscando alinhar as atividades do dia a dia às horas de luz natural. No entanto, os pesquisadores sugerem que os malefícios à saúde podem superar os benefícios econômicos esperados.

Conforme explicação dos estudiosos da cronobiologia, os ritmos biológicos humanos estão profundamente conectados ao ciclo natural de luz e escuridão, regulando de forma automática funções essenciais como sono, apetite e até mesmo o humor.

A introdução do horário de verão, porém, tornaria essa sincronização confusa, forçando o organismo a se reajustar a um novo “horário social”. Para muitos, essa adaptação pode ser desafiadora e resultar em problemas de saúde.

“Esse processo de adaptação nem sempre é fácil. Enquanto algumas pessoas conseguem se ajustar, outras permanecem fora de sintonia, o que pode gerar sérios problemas de saúde”, diz trecho do documento assinado por pesquisadores de diferentes instituições, incluindo Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade de São Paulo (USP).

Entre os efeitos negativos do horário de verão, os cientistas listam distúrbios do sono, aumento de eventos cardiovasculares adversos, transtornos mentais e cognitivos, e crescimento no número de acidentes de trânsito nos primeiros dias após a mudança.

No manifesto, os estudiosos mencionam um estudo realizado em 2017 pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que abordou a forma como lidamos com a transição de horário.

Fonte:  https://www.estadao.com.br/saude/pesquisadores-elaboram-manifesto-contra-retorno-do-horario-de-verao-entenda/

Bifo: Ensaio sobre o Tecnofascismo

 por


Relações sociais criadas nas últimas décadas remetem aos campos nazistas. Agora, explorados estão tão submetidos, material e psiquicamente, que a solidariedade torna-se quase impossível. Este inferno tragará até as classes médias do Ocidente

“Caliban: Você me ensinou a língua
e meu benefício é que eu sei amaldiçoar.
“A peste vermelha leva você por me ensinar sua língua.”
Shakespeare: A Tempestade

Colonialismo histórico: extrativismo de recursos físicos

A história do colonialismo é uma história de depredação sistemática do território. O objeto da colonização são os locais físicos ricos em recursos de que o Ocidente colonialista necessitava para a sua acumulação. O outro objeto da colonização são as vidas de milhões de homens e mulheres explorados em condições de escravatura no território sujeito ao domínio colonial, ou deportados para o território da potência colonizadora.

Não é possível descrever a formação do sistema capitalista industrial na Europa sem ter em conta o fato de que este processo foi precedido e acompanhado pela subjugação violenta de territórios não europeus e pela exploração em condições de escravatura da força de trabalho subjugada em os países colonizados ou deportados para países dominantes. O modo de produção capitalista nunca poderia ter sido estabelecido sem extermínio, deportação e escravidão.

Não teria havido desenvolvimento capitalista na Inglaterra da era industrial se a Companhia das Índias Orientais não tivesse explorado os recursos e o trabalho dos povos do continente indiano e do Sul da Ásia, como relata William Dalrymple em The Anarchy, The relentless rise of the East India Company (2019).

Não teria havido desenvolvimento industrial em França sem a exploração violenta da África Ocidental e do Magreb, para não mencionar os outros territórios sujeitos ao colonialismo francês entre os séculos XIX e XX. Não teria havido desenvolvimento industrial do capitalismo estadunidense sem o genocídio dos povos nativos e sem a exploração escravista de dez milhões de africanos deportados entre os séculos XVII e XIX.

A Bélgica também construiu o seu desenvolvimento na colonização do território congolês, acompanhada por um genocídio de brutalidade inimaginável. Martin Meredith escreve a esse respeito:

“A fortuna do rei Leopoldo

veio da borracha bruta. Com a invenção dos pneus, para bicicletas e depois para automóveis, por volta de 1890, a procura pela borracha cresceu enormemente. Utilizando um sistema de trabalho escravo, as empresas que detinham concessões e partilhavam os seus lucros com Leopoldo saquearam das florestas equatoriais do Congo toda a borracha que puderam encontrar, impondo cotas de produção aos aldeões e fazendo reféns quando necessário. Aqueles que não cumpriram as suas cotas eram chicoteados, presos e até mutilados, cortando-lhes as mãos. Milhares de pessoas morreram resistindo ao regime da borracha de Leopoldo. Muitos mais tiveram que abandonar as suas aldeias…” (Martin Meredith: The State of Africa, Simon & Schuster, 2005, p. 96).

Muitos autores contemporâneos insistem nesta prioridade lógica e cronológica do colonialismo sobre o capitalismo.

“A era das conquistas militares precedeu em séculos o surgimento do capitalismo. Foram precisamente estas conquistas e os sistemas imperiais que delas derivaram que promoveram a ascensão imparável do capitalismo” (Amitav Gosh: La maldición de la nuez moscada, p. 129).

E segundo Cedric Robinson: “A relação entre o trabalho escravo, o tráfico de escravos e a formação das primeiras economias capitalistas é evidente” ( Marxismo Negro ).

Poucos, porém, observaram como as técnicas utilizadas pelos países liberais para subjugar os povos do Sul global são exatamente as mesmas utilizadas pelo nazismo de Hitler nas décadas de 1930 e 1940, com a única diferença de que Hitler usou técnicas de extermínio contra a população europeia, e contra os judeus que eram parte integrante da população europeia.

Um desses poucos é, surpreendentemente, o ex-secretário de Estado dos EUA Zbigniew Brzeziński que, num artigo de 2016 intitulado Rumo a um realinhamento global, teve a honestidade intelectual de escrever: “Massacres periódicos deram origem, nos últimos séculos, a extermínios comparáveis aos dos nazistas durante a Segunda Guerra Guerra Mundial”. O artigo de Brzezinski conclui com estas palavras: “Tão impressionante quanto a escala destas atrocidades é a rapidez com que o Ocidente as esquece.”

A memória histórica é muito seletiva quando se trata dos crimes da civilização branca. Em particular, a memória do extermínio das populações não europeias não recebe atençãe não faz parte da memória coletiva, enquanto um culto obrigatório é dedicado à Shoah em todos os países ocidentais.

A civilização branca considera Hitler como o Mal Absoluto, enquanto os britânicos Warren Hastings e Cecil Rhodes, o alemão Lothar von Trotha, exterminador do povo Herrero, ou o rei Leopoldo II da Bélgica são esquecidos, se não perdoados, pela memória branca.

Como o general Rodolfo Graziani, torturador da Líbia e da Etiópia, que foi gravemente ferido num ataque em Adis Abeba, mas infelizmente salvou a sua vida, e que depois da guerra foi perdoado pelo governo italiano para que pudesse tornar-se presidente honorário do Movimento Social Italiano, o partido dos assassinos que agora governa novamente em Roma.

Exterminaram populações inteiras para impor o domínio econômico da Grã-Bretanha, Bélgica, Alemanha ou França, para não mencionar a Itália. Porém, não são lembrados, pois só Hitler merece ser execrado para sempre, já que suas vítimas não tinham pele negra.

Quanto aos exterminadores dos povos das pradarias norte-americanas, são mesmo objeto de um culto heróico que Hollywood decidiu celebrar.

A colonização agiu de forma irreversível não só a nível material, mas também a nível social e psicológico. Contudo, o principal legado do colonialismo é a pobreza endêmica de áreas geográficas que foram saqueadas e devastadas a tal ponto que não conseguem escapar à sua condição de dependência. A devastação ecológica de muitas áreas africanas e asiáticas empurra hoje milhões de pessoas à procura refúgio através da emigração. Depois, encontram a nova face do racismo branco: a rejeição, ou uma nova escravatura, como ocorre na produção agrícola ou no setor da construção e logística em países europeus.

Dado que o processo de descolonização não conseguiu transformar a soberania política em autonomia econômica, cultural e militar, o colonialismo surge no novo século com novas técnicas e modalidades, essencialmente desterritorializadas, embora as formas territoriais do colonialismo não sejam anuladas pela soberania formal dos que desfrutam (por assim dizer) dos países do Sul global.

Com o termo hipercolonialismo refiro-me precisamente a estas novas técnicas, que não suprimem as antigas baseadas no extrativismo e no roubo (de petróleo ou de materiais essenciais para a indústria eletrônica, como o coltan [de onde se extrai o nióbio e o tântalo]), mas antes dão origem a uma nova forma de extrativismo que tem a rede digital como meio e como objeto tanto os recursos físicos da força de trabalho capturada digitalmente quanto os recursos mentais dos trabalhadores que permanecem no Sul global, mas produzem valor de forma desterritorializada, fragmentada e tecnicamente coordenada.

Hipercolonialismo: extrativismo de recursos mentais

Desde que o capitalismo global foi desterritorializado através das redes digitais e da financeirização, a relação entre o Norte e o Sul globais entrou numa fase de hipercolonização.

A extração de valor do Sul global ocorre em parte na esfera semiótica: captura digital de mão de obra muito barata, escravatura digital e criação de um circuito de trabalho escravo em setores como a logística e a agricultura. Estes são alguns dos modos de exploração hipercolonial integrados no circuito do Semiocapital.

A escravatura – que há muito consideramos um fenômeno pré-capitalista e que foi uma função indispensável da acumulação original de capital – reaparece hoje de forma generalizada e onipresente graças à penetração do comando digital e da coordenação desterritorializada. A linha de montagem do trabalho foi reestruturada de forma geograficamente deslocalizada: os trabalhadores que dirigem a rede global vivem em locais a milhares de quilómetros de distância, pelo que não conseguem lançar um processo de organização e autonomia.

A formação de plataformas digitais lançou sujeitos produtivos que não existiam antes da década de 1980: uma força de trabalho digital que não consegue se reconhecer como sujeito social devido à sua composição interna.

Este capitalismo de plataforma funciona em dois níveis: uma minoria da força de trabalho dedica-se à concepção e comercialização de produtos imateriais. Cobram salários elevados e se identificam com a empresa e com os valores liberais. Por outro lado, um grande número de trabalhadores geograficamente dispersos dedica-se a tarefas de manutenção, controle, etiquetagem, limpeza, etc. Trabalham online por salários baixíssimos e não possuem nenhum tipo de representação sindical ou política. No mínimo, não podem sequer ser considerados trabalhadores, porque estas formas de exploração não são de forma alguma reconhecidas e os seus escassos salários são pagos de forma invisível, através da rede celular. No entanto, as condições de trabalho são geralmente brutais, sem horários ou direitos de qualquer tipo.

O filme The Cleaners (2018), de Hans Block e Moritz Riesewick, narra as condições de exploração e esgotamento físico e psicológico a que está submetida esta massa de semitrabalhadores precários, recrutados online segundo o princípio da plataforma Mechanical Turk, criadas e gerida pela Amazon.

Entre os anos 1990 e a primeira década do novo século, formou-se esta nova força de trabalho digital, operando em condições que tornam quase impossíveis a autonomia e a solidariedade.

Houve tentativas isoladas de trabalhadores digitais de se organizarem em sindicatos ou de contestarem as decisões das suas empresas. Penso, por exemplo, na revolta de oito mil trabalhadores do Google contra a subordinação ao sistema militar.

Estas primeiras demonstrações de solidariedade ocorreram, no entanto, onde a força de trabalho digital está reunida em grande número e recebe salários elevados. Mas, em geral, o trabalho em rede parece não regulamentado, porque é precário, descentralizado e porque, em grande medida, ocorre em condições de escravidão.

No livro Os afogados e os sobreviventes, Primo Levi escreve que quando foi internado no campo de extermínio “ele esperava pelo menos a solidariedade entre os companheiros de sofrimento”, mas depois teve que reconhecer que os internados eram “mil mônadas seladas, entre as que há uma luta desesperada, oculta e contínua.” Esta é a “zona cinzenta” onde a rede de relações humanas não se reduz a vítimas e perseguidores, porque o inimigo estava por perto, mas também por dentro.

Em condições de extrema violência e terror permanente, cada indivíduo se vê forçado a pensar constantemente na sua própria sobrevivência e é incapaz de criar laços de solidariedade com outras pessoas exploradas. Tal como nos campos de extermínio, como nas plantações de algodão dos estados escravistas da Terra da Liberdade, também no circuito escravista imaterial e material que a globalização digital contribuiu para criar, as condições de solidariedade parecem estar banidas.

É o que eu chamaria de Hipercolonialismo, função dependente do Semiocapitalismo: extração violenta de recursos mentais e de tempo de atenção em condições de desterritorialização.

Hipercolonialismo e migração. O genocídio que vem

Mas o Hipercolonialismo não é apenas a extração do tempo mental, mas também o controle violento dos fluxos migratórios resultantes da circulação ilimitada de fluxos de informação.

Dado que o Semiocapitalismo criou as condições para a circulação global da informação, em territórios distantes das metrópoles, pode-se receber toda a informação necessária para se sentir parte do ciclo de consumo e do próprio ciclo de produção.

Primeiro se recebe a publicidade, depois um acúmulo ingente de imagens e palavras que buscam convencer todo ser humano da superioridade da civilização branca, da extraordinária experiência que representa a liberdade de consumo e da facilidade com que todo ser humano pode acessar o universo de bens e oportunidades.

Claro que tudo isto é falso, mas bilhões de jovens que não têm acesso ao paraíso publicitário aspiram a colher os seus frutos. Ao mesmo tempo, as condições de vida nos territórios do Sul global tornaram-se cada vez mais intoleráveis, porque estão efetivamente piorando com as mudanças climáticas, mas também porque enfrentam inevitavelmente as oportunidades ilusórias que o ciclo imaginário projeta na mente colectiva.

Assim, por necessidade e desejo, uma massa crescente de pessoas, especialmente jovens, desloca-se fisicamente em direção ao Ocidente, que reage a este cerco com medo, agressão e racismo. Por um lado, a infomáquina envia mensagens sedutoras e chama ao centro, de onde emanam fluxos de atração. Por outro lado, porém, aqueles que acreditam nisso e se aproximam da fonte da ilusão acabam em um processo massacrante.

A população do Norte global, cada vez mais idosa, pouco prolífica, economicamente em declínio e culturalmente deprimida, vê as massas migrantes como um perigo. Temem que os pobres da terra levem a sua miséria às metrópoles ricas. Eles são apresentados como a causa dos infortúnios sofridos pela minoria privilegiada: uma classe de políticos especializados em semear o ódio racial ilude os velhos brancos, fazendo-os acreditar que se alguém pudesse acabar com aquela perturbadora massa de jovens que pressionam as portas da fortaleza, se alguém pudesse eliminá-los, destruí-los, aniquilá-los, então os bons tempos voltariam, os Estados Unidos seriam grande novamente e a moribunda pátria branca recuperaria a sua juventude.

Na última década, a linha que divide o Norte do Sul, a linha que vai da fronteira entre o México e o Texas até ao Mar Mediterrâneo e às florestas da Europa Central e Oriental, se converteu numa zona onde uma guerra infame é travada: o coração turvo da guerra civil mundial. Uma guerra contra pessoas desarmadas, exauridas pela fome e pelo cansaço, atacadas por policiais armados, cães farejadores, fascistas sádicos e, sobretudo, pelas forças da natureza.

Apesar dos cintilantes anúncios de mercadorias que encorajam os idiotas consumistas, e apesar da propaganda dos porcos neoliberais, a lógica do Semiocapital funciona apenas de uma maneira: o Norte global infiltra-se no Sul através dos incontáveis tentáculos da rede: uma ferramenta para capturar fragmentos de trabalho desterritorializado.

Mas a penetração física do Sul, que pressiona para aceder a territórios onde o clima ainda é tolerável, onde há água, onde a guerra ainda não chegou com toda a sua força destrutiva, é repelida pela força e pelo genocídio. Uma parte significativa, senão majoritária, da população branca decidiu entrincheirar-se na fortaleza e utilizar todos os meios para repelir a onda migratória. Os colonialistas de ontem – aqueles que nos séculos passados atravessaram os mares para invadir os territórios-presas – clamam agora contra a invasão, porque milhões de pessoas estão pressionando as fronteiras da fortaleza.

Esta é a principal frente de guerra que se desenvolve desde o início do século e que se expande, assumindo por toda parte os contornos do extermínio. Não é a única frente de guerra: outra frente da caótica guerra mundial é a interbranca, que confronta a democracia liberal imperialista com a soberania autoritária fascista.

A desintegração do Ocidente, e em particular da União Europeia, como resultado da guerra interbranca, corre paralelamente à guerra genocida na fronteira: dois processos distintos entrelaçados no cenário da década de 1920.

Como sair vivo? Esta é a pergunta que todos os desertores se fazem.

Precisamos nos organizar para desertarmos juntos.

Fonte:  https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/bifo-ensaio-sobre-tecnofascismo/

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

O piroceno pode ameaçar a espécie humana

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 O que é o Piroceno? Ciência alerta sobre a nova Era do Fogo e seus riscos

Especialmente a partir de 2023/24 a Terra foi tomada de grandes ondas de calor. Provocaram mega incêndios em muitas partes do mundo.Em 2024 as mais devastadores ocorreram no Brasil, na parte da Amazônia, no Pantanal, no Cerrado em vários municípios do Sudeste. A fumaça tornou o ar em São Paulo e em Brasília quase irrespirável. A fumaça se espalhou por quase todo o sul do país.

Os cientistas tem chamado esta difusão de fogo por quase todo o planeta de a era do fogo, o piroceno (piros em grego é fogo).Desde tempos imemoriais os seres humanos assumiram o controle direto desta força da natureza. Aprenderam a dominar o fogo. Agora é o fogo que nos domina. Muitas são as causas, como o el Niño,o acúmulo de CO2, metano e dióxido nitroso na atmosfera, as grandes estiagens, as gramíneas altamente inflamáveis, material orgânico no e sub o solo. Só em 2023 foram emitidos na atmosfera 37,5 bilhões de toneladas de CO2 que permanece por lá, cerca de cem anos.

Desde a era pré-industrial (1850-1900) são lançadas na atmosfera bilhões de toneladas de gases de efeito estufa, atingindo ao todo mais de dois trilhões de toneladas acumuladas.

O fogo possui longa história. Pensando na biografia da Terra de há 4,5 bilhões de anos, sabe-se que por 800 milhões de anos a Terra permaneceu como uma incomensurável bolha de fogo, derretida como uma sopa grossa borbulhando de calor. Era um imenso mar de lava em fusão e extremamente quente. Vapores e gases  formavam nuvens imensas. Estas  por milhões de anos provocavam chuvas torrenciais sem parar, o que ajudou a Terra se resfriar juntamente com os imensos meteoros de gelo que por séculos torpedearam o planeta. Eles aumentaram consideravelmente o volume de água a ponto de a Terra ser constituída por 70% deste elemento.

A lava endureceu e fez surgir o primeiro solo com todo tipo de  montanhas. O fogo original foi aninhar-se no coração da Terra em forma fluida que se mostra pelas erupções vulcânicas e pelos tremores de terra. Mas continuou como uma energia fundamental na superfície.

O atual aquecimento global que ultrapassou o projetado 1,5 graus Celsius para 2030, se antecipou, chegando em alguns lugares a 2 e até 3 graus Celsius. A causa deste aquecimento constitui a forma como nos últimos  séculos o processo produtivista-industrialista tratou a Terra. Era considerada sem nenhum propósito, mero baú de recursos à disposição dos seres humanos. Podemos dizer que se moveu uma verdadeira guerra contra a Terra arrancando dela tudo o que se podia.

Ocorre que a partir dos anos 1970 com as pesquisas das ciências da Terra e da vida, Lovelock e Margulis aventaram a hipótese de ser a Terra um super Ente vivo que articula sistemicamente todos os elementos essenciais à vida de tal forma que sempre se mantém viva e produz inumeráveis formas de vida: a biodiversidade. Denominaram-na Gaia,um dos nomes gregos para a Terra vida,  hoje vastamente acolhida pela comunidade científica.

Pesquisas sobre o estado da Terra a partir de 1968 (Clube de Roma) considerando o impacto da atividade humana sobre o meio ambiente e do tipo de desenvolvimento que se havia imposto por quase todo o planeta, concluíram que a Terra estava doente. Impunham-se limites ao crescimento tido como ilimitado sem haver a consciência dos limites do planeta, incapaz de suportar um crescimento ilimitado. Mostra-o a Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot), revelada anualmente pela ONU.

Entretanto, o sistema produtivista seja na ordem capitalista seja na antiga socialista estava e ainda está de tal maneira azeitado que não se permite parar. As consequências se fizeram sentir  cedo mas especialmente a partir dos anos de 1970 até os dias atuais: emissão incontrolada de gases de efeito estufa,degradação dos ecossistemas, erosão da biodiversidade, desertificação crescente, desmatamento de grandes florestas, contaminação dos solos e da água com agentes tóxicos.

Esse guerra movida pelo processo produtivo (produzir, consumir, descartar) contra Gaia representa uma batalha perdida. O sistema-vida, dada a degradação geral,  o aumento de CO2 e metano na atmosfera, o aquecimento tido por irreversível com seus eventos extremos, a perversa desigualdade social despertaram a consciência em muitos:  ou mudamos nosso estilo de vida e nossa relação para com a natureza ou podemos não sermos mais queridos pela Mãe Terra.

Geralmente, quando num ecossistema, uma espécies se desenvolve de forma desregulada a ponto de ameaçar as demais, a própria Terra se organiza de tal forma que o limita ou o elimina. Destarte as demais espécies podem subsistir e continuar a co-evoluir no processo global da geogênese. Talvez seja esta a atual situação da espécie humana, na era do antropoceno, apesar de  a grande maioria ser ainda inconsciente e negacionista.

A expressão criada por cientistas, o  antropoceno,designaria o ser humano qual meteoro rasante é o que mais ameaça a biosfera. Ao invés de assumir-se como seu cuidador, fez-se seu anjo exterminador. O piroceno  seria a forma mais perigosa e destrutiva do antropoceno. O aquecimento global crescente, favorecendo a difusão incontrolada do fogo e as megaqueimadas pode tornar o planeta inabitável. A escassez aguda de água potável, a frustração da produção de alimentos, o clima super-aquecido levaria lentamente a espécie humana à sua extinção. Como tudo o que começa na evolução, se desenvolve, chega ao seu clímax e desaparece. Assim é com as galáxias, as estrelas e os seres vivos. Por que seria diferente com a espécie humana? Irrompemos na Terra quando 99,98% estava já constituído. A Terra não precisou de nossa presença para gestar sua imensa biodiversidade. Sem nós, a vida dos quatrilhões de quatrilhões micro-organismos que trabalham no sub-solo da Terra, levariam avante o projeto da vida. A Terra continuaria a girar ao redor do sol,  sob sua luz benfazeja, mas sem nós.

Aqueles que ousam dar o salto da fé, diriam que apenas a etapa terrestre do ser humano foi irresponsavelmente concluída. Uma nova iniciaria num outro nível. Depois do tempo vem a eternidade.Nela continuaria a viver numa forma que para nós continua inefável. Mas a vida se perpetuaria.

*Leonardo Boff escreveu entre outros o livro Cuidar da Terra:pistas para protelar o fim do mundo, Vozes 2024; Vida para além da morte, Vozes muitas edições 2023.

Fonte:  https://leonardoboff.org/2024/09/25/o-piroceno-pode-ameacar-a-especie-humana/ Imagem da Internet

Yuval Noah Harari: “Existe um potencial totalitário na inteligência artificial nunca antes visto”

 A entrevista é de Carlos del Castillo, publicada por El Diario, 21-09-2024. A tradução é do Cepat.

25 Setembro 2024

 https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2024/09/25_09_ia_pexels.png

Yuval Noah Harari publica novo livro. O pensador israelense, consolidado como um dos mais influentes do século XXI graças ao sucesso de seus ensaios Sapiens e Homo Deus, continua desenvolvendo em Nexus. Uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial (Companhia das Letras, 2024) sua tese sobre como a construção de mitos, religiões e ficções coletivas têm sido elementos-chave nas nossas estruturas sociais. A ela alia aquele que considera o último grande avanço da humanidade nesse sentido, a inteligência artificial. A sua mensagem é pessimista: se não agirmos agora, existe um risco real de que os sistemas de aprendizagem automática tragam uma nova era de trevas.

“Temos que compreender que existe um potencial totalitário na IA como nunca vimos antes na história”, disse Harari em recente encontro com jornalistas no qual elDiario.es esteve presente. A inteligência artificial e a sua integração em dispositivos, tanto pessoais como domésticos, urbanos ou veículos, poderão levar ao desenvolvimento de uma capacidade de vigilância sem precedentes, alerta o historiador.

“A diferença entre regimes autoritários e totalitários é que os primeiros controlam a esfera política, o exército ou os orçamentos, mas deixam as pessoas abandonadas à sua sorte na maior parte do tempo. O tirano não pode saber o que cada um de nós faz e pensa a cada minuto do dia. Mas é exatamente isso que os regimes totalitários tentam fazer. Regimes como os de Stalin na União Soviética ou de Hitler na Alemanha não queriam apenas controlar o exército e os orçamentos. Eles queriam controlar todos os aspectos da vida das pessoas. O que você ouve, o que você vê, o que você diz, quem você conhece, que livros você lê, tudo”, diz.

E prossegue em seu raciocínio: “Mas mesmo Hitler e Stalin tiveram dificuldades, havia limites ao controle que podiam exercer. Eles não podiam seguir todo mundo o tempo todo. Stalin não tinha 200 milhões de agentes da KGB para seguir todas as pessoas e, se tivesse, o que faria um agente da KGB? Preparar um relatório sobre você? A sede da KGB em Moscou teria sido inundada com 200 milhões de relatórios em papel. Mesmo que um agente da KGB visse você fazer algo e relatasse isso, haveria uma grande chance de que o relatório apenas acumulasse poeira. Ninguém jamais o leria porque não teria analistas suficientes. Portanto, mesmo na União Soviética havia uma certa medida de privacidade”, explica Harari.

“Agora a inteligência artificial poderia tornar possível a criação de regimes de vigilância total que aniquilariam a privacidade. Num país com IA, não são necessários agentes humanos para seguir todas as pessoas”, alerta.

O pensador lembra que esta situação não está tão distante da realidade. “O meu próprio país, Israel, está construindo um regime de vigilância total nos territórios palestinos ocupados, com câmeras, drones e software seguindo todas as pessoas o tempo todo”, continua: “Também não são necessários analistas humanos para analisar toda a informação. Isso a IA faz. Ela pode processar imensas quantidades de dados, vídeos, imagens, texto ou áudio, analisá-los e reconhecer padrões.” Israel também utiliza a IA para converter toda essa informação em alvos militares e assassiná-los, reconheceram fontes da inteligência israelense.

Discursos como o de Harari não vêm apenas da academia. Poucas horas depois da coletiva de imprensa do historiador israelense, foi a vez de Larry Ellison, o fundador da Oracle, se expressar em termos semelhantes. Embora de uma perspectiva totalmente oposta. “A polícia se comportará da melhor forma possível, porque estaremos constantemente monitorando e registrando tudo o que acontecer. Os cidadãos se comportarão da melhor forma possível, porque estaremos constantemente registrando e reportando tudo o que acontece. É inquestionável”, assegurava. Ellison é dono da quinta maior fortuna do mundo, segundo a Forbes, e é o principal apoiador de Donald Trump no Vale do Silício. A Oracle é uma das maiores empresas de tecnologia e boa parte de seus negócios baseia-se no gerenciamento de data centers, computação em nuvem e inteligência artificial.

Mais sábios do que na Idade da Pedra?

A ideia da qual Harari parte em Nexus é que o acúmulo de informações não tornou os seres humanos mais sábios. Acumular informação é uma forma de acumular poder, reconhece, mas “poder não é sabedoria”. Como prova, o acadêmico aponta a crise climática e o colapso ecológico com que a humanidade flerta. Também a criação de novas tecnologias como a IA, “que têm o potencial de escapar ao nosso controle e nos escravizar ou mesmo aniquilar”.

“Ninguém contesta que hoje nós, humanos, temos muito mais informação e muito mais poder do que na Idade da Pedra, mas não é verdade que compreendemos melhor a nós mesmos e o nosso papel no universo”, propõe.

Esse poder, continua Harari, “nunca é o resultado da iniciativa individual”, mas “sempre surge da cooperação entre um grande número de pessoas”. Essa colaboração se estabelece em redes, que o homem utilizou para construir uma civilização capaz de explorar o espaço ou reduzir a mortalidade infantil para menos de 97%. Mas também para “liberar poderes que não podemos controlar”. “O principal argumento deste livro é que a humanidade ganha enorme poder ao construir grandes redes de cooperação, mas a forma como essas redes são construídas predispõe-na a fazer um uso imprudente do poder”, resume.

Ao longo da obra, Harari analisa exemplos de como a ideia de que “a informação é essencialmente uma coisa boa e quanto mais informação pudermos reunir, melhor” é essencialmente “ingênua”. Ele cita exemplos como um editorial do The New Englander, jornal estadunidense do século XIX, que em 1858 celebrava a invenção do telégrafo: “É impossível que continuem a existir antigos preconceitos e hostilidades, agora que este instrumento foi criado para que todas as nações da Terra troquem ideias”.

Dois séculos depois, a tecnologia de comunicação telegráfica parece um brinquedo, se comparada à internet. Mas o racismo, o machismo ou o belicismo seguem existindo. Envenenamos voluntariamente o planeta que habitamos. Construímos bombas e vírus cada vez mais potentes que podem aniquilar a humanidade, enumera o historiador: “Não faltam aos nossos líderes informações sobre estes perigos, mas, em vez de colaborarem na busca de soluções, aproximam-se cada vez mais da guerra global”.

Harari compara o panorama atual das notícias à junk food (comida lixo). Ele aponta as redes sociais e as fazendas de conteúdo como as responsáveis por tornar viciante a maior parte da informação que as pessoas consomem hoje, mas vazia de conhecimento. Aponta as empresas que as operam por fornecerem um produto que prejudica a mente, assim como a junk food prejudica o corpo. “As pessoas têm o direito de ser estúpidas, têm até o direito de inventar mentiras”, defende. “O principal problema agora com as redes sociais, as notícias falsas e as teorias da conspiração não são as decisões dos usuários humanos, que são protegidas pela liberdade de expressão. São as decisões dos algoritmos corporativos”.

Harari denuncia que o único objetivo das plataformas é capturar a atenção dos usuários, e não fornecer informações úteis. “À medida que as pessoas passam mais tempo no YouTube, no Twitter, no TikTok, as empresas vendem mais anúncios e recolhem mais dados, que podem depois vender a terceiros. Este é o modelo de negócios deles. É assim que ganham dinheiro, por isso têm um grande interesse em capturar a atenção das pessoas e fazê-las ficar mais tempo”, lembra: “Na busca desse objetivo, os algoritmos das empresas descobriram que a maneira mais fácil de capturar a atenção humana e reter mais pessoas na plataforma por mais tempo é pressionar o botão do ódio, ou o botão do medo, ou o botão da raiva na mente, e espalhar deliberadamente notícias falsas e teorias da conspiração que aumentam o ódio, o medo e a raiva”.

“IA não é uma ferramenta, é um agente independente”

Na tese do historiador, o nazismo ou o stalinismo foram redes de colaboração que deram errado. “Eram redes muito poderosas, apoiadas por ideias excepcionalmente equivocadas”, diz em Nexus. O mesmo pensa em relação às redes sociais. A inteligência artificial, baseada na informação, mas não na sabedoria, poderia acabar sendo outro exemplo, embora seja “um tipo de rede totalmente novo”. Harari afirma que um grande número de pessoas acredita que a sua chegada será positiva porque implica um grande avanço tecnológico, esquecendo que o telégrafo também o era na época e depois da sua invenção ocorreram duas guerras mundiais.

Além da potencial perda de privacidade, o historiador cita dois problemas que podem derivar diretamente do surgimento da IA. Um deles é o geopolítico, “sobrecarregando os conflitos humanos” ao adicionar uma corrida global para controlar esta tecnologia. O segundo é o da caixa preta: “Poderíamos ver-nos envoltos por uma rede de algoritmos incompreensíveis cuja função seria gerir as nossas vidas, remodelar as nossas políticas e as nossas culturas; e inclusive redesenhar nosso corpo e nossa mente”.

“A IA não é uma ferramenta, é um agente independente”, afirma: “É a primeira tecnologia da história que pode tomar decisões e gerar novas ideias por si só (…). As facas e as bombas não decidem por si mesmas quem matar. Pelo contrário, a IA pode processar informações por conta própria e, portanto, substituir os humanos na tomada de decisões”.

Para falar dos perigos desta nova tecnologia, o pensador cita ações como a carta assinada por empresários da IA como Sam Altman ou Elon Musk que alertava que uma IA descontrolada poderia ser tão destrutiva quanto uma “bomba nuclear”. Esta carta foi chamada de “catastrófica” por outros especialistas, que não descartaram o fato de a “moratória” ao desenvolvimento proposta por Altman ou Musk ter na verdade a intenção de torpedear a concorrência.

Harari também comenta uma pesquisa da qual participaram 2.778 pesquisadores, na qual “mais de um terço estimou em pelo menos 10% a probabilidade de que a IA avançada levará a resultados tão ruins quanto a extinção humana”. A mesma pesquisa indica que mais de 60% dos entrevistados dificilmente viam qualquer chance de isso acontecer. Até a ONU apontou que um dos maiores problemas quando se trata de regular esta tecnologia é a “dificuldade em decifrar a publicidade da realidade”.

Com mais de 45 milhões de cópias vendidas dos dois livros, Sapiens e Homo Deus têm sido grandes best-sellers. No entanto, são obras que receberam críticas do meio acadêmico. Estas salientam que Harari simplifica muito questões complexas sobre assuntos nos quais não é especialista, como biologia, antropologia ou tecnologia. Atualmente, são muitos os pesquisadores especializados em IA que lembram que “os avanços atuais não nos aproximam de ter uma inteligência artificial semelhante à humana” e que o progresso tecnológico não tem de ser uma linha reta. Embora as inteligências artificiais generativas tenham percorrido um longo caminho nos últimos anos, o consenso científico neste momento é que não serão a base tecnológica de uma IA consciente ou humanóide. “Podem passar 100 anos e o padrão ainda ser essas enormes inteligências artificiais simuladas que em geral não são realmente capazes de compreender nada, como o ChatGPT”, explicou um cientista da computação em entrevista ao elDiario.es.

Embora Harari não fale de uma única IA todo-poderosa, mas da criação de uma rede de inúmeros algoritmos que seriam impossíveis de controlar, um inverno da inteligência artificial (como o que esta tecnologia já passou na segunda metade do século XX, com pouquíssimos avanços) poderia descafeinar boa parte dos alertas que o historiador emite em Nexus. O historiador foi questionado sobre esta questão no seu encontro com jornalistas espanhóis e latino-americanos.

“O que estamos vendo é que os desenvolvimentos mais recentes da IA são essa capacidade de criar histórias, que não existia antes. Se voltarmos alguns anos e olharmos para as redes sociais, as IAs já controlavam a conversa, decidindo o que atraía a atenção, o que era notícia no Facebook ou o que recebia mais tráfego no Twitter. Mas a IA não conseguia criar conteúdo. Não conseguia escrever bons textos. Não conseguia criar música ou imagens. Agora, a nova geração de IA é capaz de fazer isso. E eu sei que muitas pessoas falam que sim, que escrevem textos, mas não são muito bons. Escrevem música, mas não é muito boa. Criam vídeos e imagens, mas têm muitos erros, como pessoas que têm seis dedos em uma mão. Mas entendam que estes são apenas os primeiros passos da revolução da IA. A revolução da IA tem basicamente dez anos. Ainda está dando os primeiros passos de bebê. Ainda não vimos nada. Se pensarmos no desenvolvimento, a evolução da IA é análoga à evolução biológica. Portanto, os atuais sistemas de inteligência artificial são apenas amebas. São muito, muito simples. Demorou bilhões de anos para que as amebas evoluíssem para dinossauros, mamíferos e humanos, porque a evolução orgânica é lenta. Demora bilhões de anos. A evolução digital da IA é milhões de vezes mais rápida. O ChatGPT, a ameba da IA, não levará um bilhão de anos para evoluir até se tornar o dinossauro da IA”, respondeu.

Uma dieta informativa e instituições poderosas

Nexus dedica mais espaço para traçar o contexto histórico de como a humanidade criou redes de cooperação problemáticas ao longo da história e descrever como as atuais estão nos afetando do que para propor soluções. No entanto, o historiador propõe duas formas de corrigir o rumo. Uma é individual, e sugere que cada pessoa estabeleça uma dieta informativa, de forma semelhante a como se estabelece uma dieta nutricional: sendo seletivos com o que consumimos.

A outra estratégia é fortalecer o discurso civil e democrático, especialmente num momento em que este se encontra ameaçado. Harari ressalta que não é possível frear uma tendência tecnológica, mas destaca a importância de instituições como tribunais, universidades e mídia. “A democracia construiu mecanismos para se proteger. Um sistema de freios e contrapesos. Não se trata apenas de eleições. As eleições são um controle muito importante, mas sem o resto dos controles é fácil fraudá-las, como acontece na Venezuela. Você precisa de tribunais independentes e de meios de comunicação independentes que possam expor os erros e potencialmente as mentiras do governo e que este não possa impedi-lo”.

No seu encontro com jornalistas espanhóis e latino-americanos, Harari quis destacar a importância da imprensa nessa equação. “O papel dos meios de comunicação social é essencial”, enfatizou: “A democracia é uma conversa. É isto que a democracia é. Ditadura é ditar. Uma pessoa dita tudo. Democracia é quando as pessoas se levantam, falam e tentam chegar a uma decisão comum. Agora, até o surgimento da imprensa moderna, a democracia, pelo menos a democracia em grande escala, era simplesmente impossível. Não temos nenhum exemplo de democracia em grande escala no mundo antigo. Os únicos exemplos que conhecemos são cidades-estado de pequeno porte, como a antiga Atenas, ou mesmo tribos menores. Porque para conversar, as pessoas precisam falar. Agora, numa cidade pequena, todos podiam se reunir na praça principal e conversar. Mas num reino grande, era tecnicamente impossível manter uma conversa entre milhões de pessoas”.

Portanto, prossegue Harari, “a democracia era simplesmente impossível. E não conhecemos nenhuma democracia em grande escala no mundo pré-moderno. Uma conversa em larga escala só se tornou possível com o surgimento da tecnologia da informação moderna, e a primeira tecnologia da informação moderna e crucial foi o jornal. Nossos jornais começaram a surgir nos séculos XVII e XVIII em lugares como a Holanda e a Inglaterra, onde também se vê a ascensão das primeiras democracias em grande escala da história. Depois tivemos mais tecnologias da informação como o telégrafo, o rádio e a televisão. Esta é a base da democracia em grande escala, porque, mais uma vez, sem estas tecnologias não há conversa. E sem conversa não há democracia”.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/643994-yuval-noah-harari-existe-um-potencial-totalitario-na-inteligencia-artificial-nunca-antes-visto?utm_campaign=newsletter_ihu__25-09-2024&utm_medium=email&utm_source=RD+Station

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Como a economia influencia na decisão do voto

 Por Maria Lucia Fattorelli 

Como a economia influencia na decisão do voto 

 Arte: EC- foto de Nelson Jr -TS/ J Comp - Feepik

Como a economia influencia na decisão do voto 

A influência da economia na decisão do voto tem sido muito relevante em eleições para presidentes da República e governadores, devido à identificação direta da população com a responsabilidade das medidas adotadas por dirigentes políticos e seus respectivos partidos ou posições políticas, conforme pesquisa feita em 2022, a qual revelou que mais da metade dos eleitores consultados responderam que a economia “influencia muito”.

Em eleições municipais, o desempenho da economia – especialmente no que atinge mais diretamente a população em geral, como a situação do desemprego, nível de renda, condições oferecidas em serviços públicos de saúde, educação, segurança, moradia etc. – também pode influenciar as eleições municipais, tendo em vista que grande parte da população faz automaticamente a relação entre o desempenho de presidentes da República e os candidatos municipais que estes apoiam, ainda mais em período de grande polarização política e influência das redes sociais, como o que vivemos nos últimos tempos.

Assim, o bom desempenho econômico de governos federais pode favorecer positivamente candidatos por ele apoiados, da mesma forma que o mau desempenho das variáveis econômicas mais evidentes para a população pode desfavorecer aliados políticos do governante federal.

No entanto, tal influência não é uniforme, podendo variar de acordo com as classes sociais, regiões e cidades, pois cada uma pode ter determinado perfil ideológico dominante. Para avaliar essa situação nos dias atuais, especialmente em um cenário novo, de forte influência das redes sociais sobre a opinião pública e polarização política, é necessário analisar dados recentes sobre a avaliação do atual governo federal, a fim de verificar possíveis evidências de impacto na decisão do voto em cada cidade.

Para tanto, é inevitável se recorrer a resultados divulgados por institutos de pesquisa privados como a Quaest e Ipec (antigo Ibope), que realizam pesquisas de intenção de voto e de avaliação do governo. Em recente levantamento, a Quaest destaca que tal avaliação é bastante heterogênea nas capitais.

Em um recente levantamento com dados de pesquisas de intenção de voto para prefeitos de 23 capitais, realizadas no final de agosto/2024, a Quaest identificou grande variabilidade: desde 21% de aprovação do governo Lula (contra 51% de reprovação) em Boa Vista (RR), até uma aprovação de 41% (contra 29% de reprovação) em Recife (PE).

Uma clara tendência identificada no referido levantamento foi a maior propensão à avaliação ruim do atual governo nas cidades onde o candidato Bolsonaro foi mais votado em 2022, ou seja, há um forte componente regional, conforme observa o cientista político Carlos Ranulfo, da Universidade Federal de Minas Gerais, reforçando a influência federal nas eleições municipais:

“Ainda temos uma sombra de 2022. A avaliação do governo está informada pelo fato de que o eleitorado ainda segue o comportamento da eleição passada. Quem votou em Bolsonaro em via de regra avalia a gestão como ruim ou péssima, sem nem pensar.”

É importante ressaltar que, mesmo nas 4 cidades onde atualmente o governo Lula é melhor avaliado (Recife, Teresina, Fortaleza e Salvador), em três delas (Teresina, Fortaleza e Salvador) o candidato apoiado pelo atual Presidente da República ainda não está liderando as pesquisas de intenção de voto locais, o que pode, evidentemente, se modificar ao longo da campanha, especialmente em Fortaleza e Teresina, onde a diferença entre os candidatos é pequena.

É fato que diversos fatores influenciam a decisão do voto nas eleições municipais, especialmente em momento de polarização política e influência de redes sociais, porém, a performance econômica nacional pode exercer papel relevante, tanto no pleito de 2024, como também de 2026.

Pesquisa Ipec de avaliação do governo, feita nos dias 5 a 9 de setembro de 2024, mostrou que tem crescido o percentual de pessoas que acham que situação da economia no Brasil teve piora nos últimos seis meses. Enquanto na pesquisa de setembro/23 tal percentual era de 29%, um ano depois subiu para 37%, enquanto o percentual de pessoas que consideram que houve melhora caiu de 42% para 33%.

Dentre os fatores que podem explicar a queda na avaliação da performance da economia, está, por exemplo, a forte restrição em investimentos públicos, que poderiam elevar as condições de vida da população. Essas restrições decorrem das regras impostas pelo “Novo Arcabouço Fiscal” proposto pelo atual governo e aprovado pelo Congresso Nacional: Lei complementar 200/2023, que manteve o teto de gastos para investimentos sociais, despesas primárias e com a estrutura do Estado, permitindo um crescimento real máximo desse conjunto de gastos em apenas 2,5% ao ano, além de impor o cumprimento de metas de superávit primário. Por outro lado, essa lei não estabelece limite ou controle algum para os juros e demais mecanismos da dívida pública federal. A falta de atendimento a justas reivindicações de servidores públicos que acumulam perdas salariais há anos também pode influenciar a conjuntura.

Para o ano de 2024, a Lei Orçamentária Anual (LOA 2024) prevê R$ 2,5 trilhões para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública federal, que no Brasil tem funcionado como um sistema que se retroalimenta, beneficiando principalmente os super ricos, e sem contrapartida alguma em investimentos necessários à população e ao desenvolvimento socioeconômico do país.

A mesma LOA 2024 prevê apenas R$ 180 bilhões – a previsão atualizada (“Dotação”) é de R$ 184 bilhões – para o Fundo de Participação de Municípios, ou seja, os 5.570 municípios brasileiros receberão um repasse federal 14 vezes menor que o valor previsto com a dívida pública federal.

Esses dados não têm sido devidamente explorados, e sequer há conhecimento do impacto de mecanismos financeiros que alimentam o Sistema da Dívida sobre o orçamento público.

Ao compararmos, por exemplo, o gasto total do Tesouro Nacional com a entrega de títulos da dívida pública e o pagamento de seus juros ao Banco Central (que são utilizados para remunerar diariamente a sobra de caixa dos bancos nas “Operações Compromissadas” e “Depósitos Voluntários remunerados”) e o valor de todas das Transferências Correntes e de Capital feitas pelo Tesouro Nacional aos Municípios (para garantir direitos sociais), fica evidenciada a excessiva transferência direta de recursos públicos para o sistema financeiro, enquanto a população que vive nos municípios é lesada em seus direitos fundamentais.

Comparativo entre (C) o gasto do Tesouro Nacional com a entrega de títulos da dívida pública e o pagamento de seus juros ao Banco Central e (D) o valor de todas as Transferências Correntes e de Capital da União aos 5.570 Municípios Brasileiros – 2013 a 2023 (R$ Bilhões)

Como a economia influencia na decisão do voto

Fontes: Colunas A: https://sisweb.tesouro.gov.br/apex/f?p=2691:2:0:
Coluna B: https://www.bcb.gov.br/acessoinformacao/balanceteslai – Receitas com juros / em moeda local /títulos
Coluna D – 2013 a 2019 – BRASIL/ME, 2020. Painel do Orçamento Federal <https://www1.siop.planejamento.gov.br/QvAJAXZfc/opendoc.htm?document=IAS/Execucao_Orcamentaria.qvw&host=QVS@pqlk04&anonymous=true&sheet=SH06>. Todas as despesas das Modalidades de Aplicação nº 40, 41 e 45.

Fonte: Auditoria Cidadã da Dívida

Assim, caso enfrentado somente esse mecanismo de remuneração diária da sobra de caixa dos bancos, o desempenho econômico e social da esfera federal e municipal poderiam ser positivamente afetados, com reflexos evidentes nos resultados eleitorais, pois um volume bem maior de recursos poderia estar sendo destinados para urgentes investimentos em saúde, educação, ações em defesa e proteção do meio ambiente, transporte público, saneamento, habitação, e várias outras áreas sociais de grande impacto na opinião pública.

A existência de metas de superávit primário e teto de crescimento dos investimentos sociais, como prevê o Arcabouço Fiscal, faz com que os recursos provenientes de diversas fontes, como tributos, lucros das estatais, recebimento de dívidas dos estados e a própria emissão de títulos da dívida sejam destinados ao pagamento da própria dívida, e não para investimentos sociais, como ocorre em países desenvolvidos, que praticam déficit, e não superávit fiscal. Tais países praticam taxas de juros reais bastante inferiores às nossas, e possuem prazos de endividamento mais longos, possibilitando que o endividamento sirva para tais investimentos, que geram retorno social e econômico.

Aliás, a política de juros brasileira também deveria ser completamente modificada, pois afeta diretamente a vida de todo o eleitorado. No Brasil, o Banco Central tem mantido taxas básicas de juros elevadíssimas, sem justificativa técnica ou científica que se sustente, travando a economia, impedindo a geração de empregos, e prejudicando a população de várias formas, tanto devido ao ônus dos juros que pagamos como devido ao atraso socioeconômico.

Para contribuir com esse debate, a Auditoria Cidadã da Dívida elaborou Carta Aberta a qual foi enviada a todos os partidos políticos, como manda a legislação eleitoral, para divulgação a seus respectivos candidatos(as), para que respondam às 6 (seis) questões sobre a auditoria da dívida, a securitização de créditos e o arcabouço fiscal.

É preciso exigir o conhecimento e o compromisso de candidatos(as) com a pauta econômica, pois essa afeta profundamente a vida de todas as pessoas e o desenvolvimento socioeconômico de país, por isso eleitores devem questionar a posição de candidatos(as) acerca da necessidade de alterar a atual política de juros, eliminar o “arcabouço fiscal”, realizar a tributação efetiva dos super ricos e a auditoria da dívida pública, dentre outras, para que os abundantes recursos existentes no país se destinem ao atendimento às necessidades da população.

Maria Lucia Fattorelli é coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, membro da Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), organismo da CNBB; e coordenadora do Observatório de Finanças e Economia de Francisco e Clara da CBJP. Escreve mensalmente para o Extra Classe.

Fonte:  https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2024/09/como-a-economia-influencia-na-decisao-do-voto/utm_source=news+23%2F09&utm_medium=news+23%2F09&utm_campaign=news+23%2F09&utm_id=news+23%2F09&utm_term=economia+elei%C3%A7%C3%B5es&utm_content=economia+elei%C3%A7%C3%B5es