segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Sementes da desconfiança

Dicionário se debruça sobre a variedade de negacionismos que confundem a opinião pública no Brasil e no mundo

Patricia Baik

“Negacionismo mata”, alertava a nota divulgada em março do ano passado pelo Pacto pela Vida e pelo Brasil, grupo composto por seis entidades da sociedade civil, entre elas a Academia Brasileira de Ciências (ABC). O documento cobrava a adoção urgente de medidas para conter a pandemia de Covid-19 por parte do governo federal, que, entre outras coisas, havia atacado recomendações de isolamento e distanciamento social da Organização Mundial da Saúde (OMS) e minimizado as consequências da contaminação pelo vírus Sars-CoV-2, que já causou a morte de quase 700 mil pessoas no país. Na época, a ABC também se posicionou “contra o uso e a promoção, inclusive por associações de médicos, de tratamentos sem comprovação científica, assim como em oposição a iniciativas antivacina no país”, escreve a pesquisadora Dominichi Miranda de Sá, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no verbete sobre a academia que abre o recém-lançado Dicionário dos negacionismos no Brasil (Cepe Editora).

Com ênfase no Brasil, mas sem deixar de olhar o contexto mundial, a obra reúne 112 verbetes que tratam sobretudo da variedade de negacionismos, do climático ao estatístico, e de assuntos que gravitam em torno do tema, caso das teorias da conspiração. “De maneira geral, os negacionismos podem ser entendidos como processos coletivos que buscam de forma organizada desqualificar a ciência com interesses que podem ser políticos, econômicos e morais, por exemplo. É uma tática que nada tem de inocente”, diz o sociólogo José Luiz Ratton, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que em parceria com o também sociólogo José Szwako, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), organizou o livro. “Nos últimos 15 anos esses negacionismos foram transportados das margens para o centro do discurso público, o que pode ser explicado por muitos fatores, entre eles o maior acesso à internet. Atualmente, além da ciência, o papel do Estado e a democracia também estão na mira desse ataque.”

A historiadora Simone Petraglia Kropf, do Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde da Fiocruz, concorda. “Há certas dúvidas por parte do público leigo que são legítimas, não só porque os conhecimentos mudam, como também porque a ciência não deve ser imune a críticas. Mas o negacionismo é um fenômeno de outra esfera: ele quer erodir a confiança da opinião pública na própria autoridade da ciência e de suas instituições, confrontando consensos já estabelecidos sobre certos assuntos por meio de mentiras e distorções dos fatos”, observa a autora do verbete sobre negacionismo científico.

A ideia do dicionário nasceu a partir de debates realizados por Ratton e Szwako em encontros da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) e da Sociedade Brasileira de Sociologia, nos dois últimos anos. Parte dos 104 autores que assinam os verbetes participou desses eventos. “A maioria dos especialistas é vinculada a instituições de ensino, nacionais e estrangeiras, em áreas como direito, jornalismo, antropologia e saúde. Os negacionismos são processos complexos e multifatoriais, que têm impacto em diferentes campos do conhecimento, aderem a várias agendas e articulam temas díspares”, justifica Szwako. Entre eles destacam-se o negacionismo antigênero, caracterizado pela oposição às discussões sobre gênero e os ativismos ligados à temática, como feminismos e movimentos LGBTQIA+, e o globalismo, termo apropriado por ideólogos de extrema-direita para referir-se a um suposto projeto de poder da esquerda, que teria, entre seus atores, instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU). O objetivo seria destruir valores cristãos e implantar o socialismo no Ocidente.

O termo negacionismo foi reconhecido no ano passado pela Academia Brasileira de Letras, com sua incorporação ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Apesar da evidência adquirida durante a pandemia, o termo não é novo. “Ele vem do francês négationisme e surgiu após a Segunda Guerra Mundial [1939-1945] para caracterizar o discurso dos que negavam o extermínio de judeus e outros grupos durante o Holocausto, a despeito dos consensos e evidências aceitos pela maior parte dos historiadores”, relata Kropf.

O termo negacionismo foi incorporado ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa

Segundo o historiador Marcos Napolitano, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), a noção de negacionismo histórico está intrinsecamente ligada à ação de grupos organizados, sobretudo de extrema-direita e antissemitas, nos Estados Unidos e na Europa. “Até os anos 2000 eles se estruturavam em redes restritas, de pouco alcance, e veiculavam suas ideias principalmente por meio de livros e artigos. Com a emergência das redes sociais, a mensagem foi amplificada”, diz o autor do verbete sobre negacionismo histórico no dicionário (ver Pesquisa FAPESP n° 316).58

O negacionismo histórico não se atém à temática do Holocausto e abrange outros episódios. No caso do Brasil, inclui a ditadura militar (1964-1985). “Quase sempre o negacionismo histórico e o revisionismo ideológico são ações que visam apagar ou recontar o evento de origem para diminuir as responsabilidades dos perpetradores e evitar a reparação das vítimas. Trata-se de uma prática adotada inclusive por governos, como é o caso do genocídio armênio, ocorrido no início do século XX e até hoje não reconhecido pela Turquia”, explica Napolitano.

De acordo com o pesquisador, negacionismo histórico e revisionismo ideológico não são sinônimos de revisão historiográfica, que busca renovar o olhar sobre o passado a partir de pesquisas e evidências científicas. “A revisão historiográfica é bem-vinda e necessária ao trabalho do historiador por ser fruto do avanço do conhecimento, da mudança de perspectivas, de novas perguntas surgidas na sociedade e do aparecimento de novas fontes primárias”, indica. “O negacionismo e o revisionismo ideológico, ao contrário, procuram criar ruído com ideias estapafúrdias e impedir o debate, essencial não apenas para a ciência, mas também para a sociedade.”

Estratégias reaproveitadas
No livro Merchants of doubt: How a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming (Mercadores da dúvida: Como um punhado de cientistas ocultou a verdade sobre temas que vão do consumo de tabaco ao aquecimento global), os historiadores norte-americanos Erik Conway, do Instituto Tecnológico da Califórnia, e Naomi Oreskes, da Universidade Harvard, mostram as artimanhas utilizadas pela indústria do tabaco a partir da década de 1950 para contestar a conexão, cientificamente comprovada, entre tabagismo e doenças como o câncer. Lançada em 2010, nos Estados Unidos, pela editora Bloomsbury Publishing, a obra permanece inédita no Brasil.

Patricia Baik

“No centro dessa estratégia, é possível discernir ao menos três traços relevantes”, escrevem Szwako e o cientista político Luiz A. Campos, do Iesp-Uerj, no verbete dedicado a Oreskes. O primeiro deles é a cooptação de cientistas que, mesmo não sendo especialistas em câncer, emprestavam seus títulos acadêmicos a iniciativas que semeavam dúvidas quanto às pesquisas consolidadas na área. “Uma segunda marca é a reunião desses ‘especialistas’ em organizações da sociedade civil dedicadas à contestação das teorias mais aceitas e à difusão de interpretações alternativas, os chamados think tanks.” Por fim, o terceiro ponto seria a manipulação da mídia e a produção de falsas controvérsias em espaços midiáticos. “Jornalistas precisam ter cuidado na hora de escolher as fontes. Não é incomum que jornais, revistas e, mais recentemente, sites tragam à cena pública nomes antes irrelevantes ou então controversos para os debates especializados. A prática de ouvir os dois lados é essencial ao jornalismo, mas em alguns casos ela pode confrontar posições que, na verdade, não são passíveis de equivalência”, diz Szwako.

Essas estratégias foram encampadas a partir do final da década de 1980, sobretudo pela indústria petrolífera, para disseminar o negacionismo climático, de acordo com o cientista político Carlos Milani, do Iesp-Uerj e coordenador do Observatório Interdisciplinar das Mudanças Climáticas (Oimc), da mesma instituição. “Desde sua criação, em 1988, o IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] produziu amplo consenso em torno da alta probabilidade de a raiz das mudanças climáticas estar na ação humana. Um dos vilões seria a liberação de CO2, principal gás responsável pelo aumento do efeito estufa provocado, entre outros fatores, pela queima de combustível fóssil. Isso acendeu uma luz vermelha para os produtores de petróleo”, diz o especialista, autor do verbete sobre a questão.

Segundo Milani, se em países como Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, o negacionismo climático está imbricado com a economia da combustão, no Brasil essa genealogia começa nos anos 2000 e se atrela principalmente ao agronegócio. “Uma parcela da indústria não quer renunciar a uma parte de seus lucros e adota práticas negacionistas. Por outro lado, o cidadão comum, que resiste em mudar seus hábitos, encontra no discurso negacionista um refúgio”, observa.

Combater os negacionismos não é tarefa fácil, especialmente em tempos de realidade virtual, reconhecem os especialistas. “Uma opção é o Poder Judiciário determinar que plataformas como o YouTube cortem a receita de canais que propagam desinformação e discurso de ódio, mas é difícil fazer esse controle em redes como WhatsApp e Telegram”, constata Szwako. Para Kropf, da Fiocruz, instituições científicas precisam fortalecer seus laços com a sociedade, promovendo inclusão e diversidade em seus quadros. “Quando as pessoas percebem os benefícios concretos que a ciência traz para suas vidas, elas confiam na ciência e não embarcam em discursos negacionistas”, conclui.

Fonte:  https://revistapesquisa.fapesp.br/sementes-da-desconfianca/?utm_source=newsletter&utm_medium=email

“As pessoas felizes são três vezes mais produtivas. Sai mais barato contratar uma pessoa feliz do que ter três pessoas tristes

Reportagem por Marta Marques Silva

 

Marcos Borga

Já lhe chamaram o “economista do talento”. Juan Carlos Cubeiro fala dos temas que impactam hoje as políticas de recursos humanos das empresas

“Estes são os meus princípios. Se não gostam, tenho outros”. A frase é do comediante norte-americano Groucho Marx e serve de introdução ao impacto que a entrada das novas gerações no mercado de trabalho está a ter um pouco por todo o mundo na forma como as empresas gerem hoje as suas políticas de recursos humanos. “Pois bem, os jovens não têm outros. Para eles, as questões da conciliação entre o trabalho e a vida pessoal é algo absolutamente irrenunciável”.

Juan Carlos Cubeiro é HeadCoach da ManpowerGroup Talent Solutions e membro do Conselho Consultivo Fundação Human Age Institute. Em conversa com o Diretor da EXAME, Tiago Freire, o já apelidado “economista do talento” partilhou a sua visão dos temas que têm hoje impacto direto na gestão dos recursos humanos das empresas, na 22ª edição do Fórum Futuro do Trabalho, uma parceria da EXAME com o ManpowerGroup Portugal, onde foram ainda conhecidas as empresas distinguidas com o selo das Melhores Empresas Para Trabalhar 2022.

O conceito de felicidade organizacional não é novo, mas tem ganho protagonismo num momento de profunda redefinição da relação entre trabalhadores e empresas. Mais do que um capricho dos nos tempos, Juan Carlos Cubeiro destaca o impacto financeiro do novo foco centrado no colaborador: “As pessoas felizes são três vezes mais produtivas. Podes contratar uma pessoa feliz ou três tristes. Três tristes são mais caras”.

Sobre a flexibilidade do trabalho, destaca que “tem menos a ver com o ‘onde’ e mais com ‘quando’”, a possibilidade de um trabalhador adaptar os horários de trabalho às suas rotinas e necessidades familiares e sociais.

Indispensável ao sucesso de uma empresa é mesmo a capacidade de atrair e reter o talento, diz. Principalmente num momento de confluência de crises – económica, ambiental, sanitária, social e de polarização. “É uma crise muito complexa, onde o elemento-chave é o talento. Temos de tomar o talento muito a sério. Só as empresas bem lideradas e capazes de atrair, reter e desenvolver talento vão progredir”.

Uma definição que não tem género, nem idade. Alerta para a necessidade de somar “inclusão” à “diversidade”, destacando que “há empresas que podem ter 50% de mulheres mas não têm mulheres no comité de gestão. Diversidade é se vais a uma festa, inclusão é se danças na festa”. E adianta: “Ao mesmo nível da discriminação das mulheres, está a discriminação dos seniores. Há uma convicção de que as pessoas com mais idade não podem aprender. Sabemos que se pode aprender em qualquer idade. Por exemplo, Nadal e Djokovic têm outras valências que Alcaraz e Ruud”. Por isso, diz, upskilling e reskilling são fundamentais no caminho para o sucesso das empresas.   

Fonte: https://visao.sapo.pt/exame/melhores-empresas-para-trabalhar/2022-10-27-as-pessoas-felizes-sao-tres-vezes-mais-produtivas-sai-mais-barato-contratar-uma-pessoa-feliz-do-que-ter-tres-pessoas-tristes/?utm_source=Vis%C3%A3o&utm_medium=Gaveta_Multimarca&utm_campaign=Gavetas_Artigos_22

As aglomerações nos quartéis desafiam o jornalismo.

Por Moisés Mendes*

Os mais importantes fatos jornalísticos depois da eleição, com o aparente fim dos bloqueios de estradas, são as aglomerações de gente de verde e amarelo diante de quartéis e QGs do Exército.

Mas os fatos, disseminados pelo país, são ignorados pela grande imprensa. E só a grande imprensa poderia tentar cobri-los, já que essa é uma tarefa improvável para veículos progressistas.

Por que os grandes jornais, inclusive os gaúchos, não vão até as aglomerações para ouvir as pessoas que estão ali afrontando a Constituição e a democracia?

Sem essa cobertura, os jornais abrem mão de uma obrigação da imprensa. Precisamos saber quem são e o que pensam os que se aglomeram.

É simplório achar que uma cobertura daria voz a golpistas e que por isso não deve ser feita.

Se fosse assim, o jornalismo ficaria em casa, porque a ilegalidade é a marca de fatos presentes no dia a dia dos repórteres no mundo todo.

Jornalistas não lidam só com gente de bom senso ou com personagens de gestos altruístas e humanistas. Não mesmo.

Mas é razoável pensar que também a grande imprensa não cubra as aglomerações por medo das reações.

Os próprios jornais sabem que as aglomerações são resultado da postura histórica da grande imprensa, principalmente desde 2016. O jornalismo golpista ajudou a fomentar as ações desse pessoal.

A não-cobertura das aglomerações representa o fracasso do jornalismo das corporações e uma rendição das empresas à imposição do golpismo.

A impossibilidade da cobertura, que pode ser alegada pelos jornais, é a prova de que os ajuntamentos são ameaçadores e põem em risco o cotidiano da democracia, mesmo sem golpe

*Jornalista em Porto Alegre. Escreve também para os jornais Extra Classe, DCM e Brasil 247. É autor do livro de crônicas Todos querem ser Mujica (Editora Diadorim). Foi colunista e editor especial de Zero Hora.

Fonte: https://desacato.info/as-aglomeracoes-nos-quarteis-desafiam-o-jornalismo-por-moises-mendes/#more-297201 

domingo, 6 de novembro de 2022

Jung Mo Sung: “A lógica que gerou avanço evangélico é a mesma que leva a seu caráter autoritário”.

https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2022/11/05_11_bolsonaro_frente_parlamentar_evangelica_flickr.png

A pressão escancarada de pastores bolsonaristas para que seus fiéis votassem no candidato de extrema direita, derrotado nas urnas em 30 de outubro, pode levar a uma debandada de crentes incomodados com o jogo político pesado no interior da “casa de Deus”? Para além dessa questão recente no país, há algo na doutrina cristã que explica episódios como o apoio ao racismo nos Estados Unidos, ao apartheid na África do Sul ou à ditadura militar brasileira? Qual o peso e a influência dos líderes desse campo religioso que não compactuam com tal processo?

Para Jung Mo Sung, autor de A idolatria do dinheiro e os direitos humanos (2018) e Desejo, mercado e religião (2000), entre outros, é preciso compreender que a aliança do cristianismo atual com setores neoliberais e autoritários decorre de um processo iniciado na década de 1950, quando a cultura de consumo entra nas igrejas com uma nova doutrina, a Teologia da Prosperidade – pela qual as bênçãos divinas se manifestam publicamente por meio de ostentação de mercadorias-símbolos.

“Para esse grupo, o principal agente de transformação da situação econômica é Deus e a principal ação da Igreja nessa caminhada não é lutar contra as injustiças do capitalismo, como é para a Teologia da Libertação, mas contra os inimigos de Deus”, diz Sung, que é professor do programa de pós-graduação em ciências da religião da Universidade Metodista de São Paulo. Os “comunistas”, por exemplo, são inimigos de Deus não porque são ateus, mas porque querem “dar” dinheiro aos pobres, que são pecadores. “Ao dar dinheiro aos pobres e dizer que todos seres humanos têm direitos sociais, esses ‘comunistas’ estão contra o modo – meritocrático – como Deus distribui as ‘bênçãos’”.

Naturalizado brasileiro, Sung nasceu em Seul, Coreia do Sul, em 1957 e radicou-se no Brasil em 1966. É membro do comitê científico do grupo de trabalho Class, Religion and Theology da American Academy of Religion.

A entrevista é de Ricardo Whiteman Muniz, publicada por ComCiência, 03-11-2022.

Eis a entrevista.

Diante das pressões políticas e eleitorais no interior de igrejas evangélicas a favor do candidato de extrema direita, derrotado nas urnas em 30 de outubro após casos documentados de compra explícita de votos, uso e abuso da máquina pública e intimidação por parte de patrões e pastores, pode haver a partir de agora uma debandada das igrejas? A vertente evangélica do neofascismo traz embutido um “tiro no pé”, algo como “as coisas foram longe demais”?

Penso que a lógica e a teologia que gerou o grande crescimento das igrejas evangélicas e pentecostais é a mesma que está levando a esse seu caráter autoritário – prefiro esse termo do que neofascismo. E o crescimento de um grupo aumenta também seus problemas e diferenças internas. Nesse sentido, o processo que você está chamando de “debandada” é previsível. O tempo vai dizer.

O crescimento do pentecostalismo não pode ser entendido sem o uso dos rádios e das TVs , que têm um custo altíssimo e também o potencial de gerar superávits ou lucros. Só se pode manter esse sistema Igreja-TVs/rádios com a aumento de números de membros que contribuem financeiramente e a promessa e o “pagamento da benção econômica”, que fortalece uma “espiritualidade de consumo” e a acumulação de riqueza dos bispos proprietários das igrejas.

É importante deixar claro que o bispo proprietário da Igreja e do “canal das bênçãos” é e deve ser autoritário, pois ele ou ela representa o Deus-Poderoso na vida dos crentes. A aliança com Bolsonaro pode acabar na medida em que ele perde o poder que atrai os bispos e pastores. Mas o sistema já existia antes de Bolsonaro e vai existir depois. Esse tempo de Bolsonaro é o ápice, por enquanto, de um sistema que tem uma certa coerência, mesmo que ética (ou teologicamente) equivocada.

É um sistema que, se entra, é muito difícil sair, pois é uma lógica sacralizada. Biblicamente eu poderia dizer que é um sistema econômico-religioso idolátrico. Mas para eles, divino.

Há algo no DNA da doutrina que intrinsecamente desemboca no autoritarismo, no fascismo, no racismo, na misoginia e no apoio a regimes de exceção, como ocorreu no Brasil com o apoio aberto das igrejas protestantes – salvo raras exceções – ao golpe de 64 e agora a Bolsonaro, chamado em muitas igrejas de “homem de Deus”?

Sua pergunta é muito importante mas difícil porque coloca em discussão um tema “metafísico”, não no sentido de que se trataria de algo que está além do mundo físico ou real, nem no sentido de discutir o “ser” em si – por exemplo, o ser do cristianismo –, mas sim sobre as condições de possibilidade de conhecimento e de funcionamento de um determinado sistema de pensamento.

Qualquer sistema social ou grupo social tem que resolver os problemas da produção e da reprodução da vida. Estar vivo é uma condição necessária para qualquer coisa e para isso precisa tomar decisões frente aos desafios e problemas que o seu meio ambiente natural-social coloca. Diante dos desafios, é preciso decidir qual ou quais caminhos a tomar. Normalmente é uma discussão técnica, no sentido moderno de definir qual é a melhor forma de usar os meios escassos para atingir os objetivos. É o tema da eficiência do uso dos meios escassos. Mas, o que não costumamos analisar e discernir é sobre o fim último ou os valores fundamentais que norteiam as opções concretas que levam os agentes ou atores sociais a fazerem ou não determinadas ações.

Nas décadas de 1950 a 70, o mundo estava claramente dividido entre o sistema capitalista e o comunista. No lado capitalista, não se discutia se o sistema de mercado capitalista era melhor ou pior do que o comunismo. Era claro ou óbvio que o mercado capitalista era o melhor ou o único modo de organizar a economia e a vida social para… Para quê? Não sabíamos bem qual era esse objetivo “final” do caminho. Isso porque a utopia do capitalismo era o horizonte que dava e dá ainda o sentido das ações, das opções concretas no interior do caminho. Assim como no lado comunista, a utopia dava o horizonte de sentido para os planos econômicos e o controle do Estado sobre a vida social, isto é, seus objetivos específicos.

Sem a utopia não temos como ver e analisar se estamos melhorando ou piorando o que queremos fazer ou onde chegar. A noção de aperfeiçoamento pressupõe a ideia do perfeito. A noção do “mercado perfeito” ou do “Mercado (perfeitamente) Livre” é o que permite aos economistas neoliberais decidir suas escolhas políticas e econômicas e criticar outras propostas. Assim funcionava nos países do bloco comunista, com a noção de “Planejamento Estatal Perfeito”.

Esse processo de (a) imaginar uma realidade utópica, (b) analisar a partir dos conceitos transcendentais (por exemplo, Mercado Livre, Planejamento Perfeito, o Reino de Deus…) quais são os problemas, as suas causas e as soluções (c) estabelecer os objetivos específicos e o seu caminho é a condição de possibilidade de pensar e de atuar para nos mantermos vivos. É disso que eu estou tratando como as “questões metafísicas”.

O mundo moderno, diferentemente do antigo ou pré-moderno, crê que seres humanos são capazes de atingir a perfeição ou o infinito. Acredita que a constante evolução tecnológica nos levará a alcançar a realização dos desejos infinitos, por exemplo, a riqueza ilimitada ou a vida além da morte corporal. É a ilusão de que com passos finitos poderemos chegar ao infinito, que Hegel criticou com a noção de “má infinitude”. Essa ilusão de que encontramos uma instituição humana capaz de nos levar ao “Paraíso” e que, portanto, se precisar devemos oferecer todos os sacrifícios necessários para chegar lá. A realização do desejo infinito requer e justifica todos os sacrifícios humanos. Essa lógica sacrificial aparece no discurso econômico capitalista dos custos/sacrifícios necessários” (dos pobres e trabalhadores, normalmente) para o crescimento econômico; no comunismo e também nas religiões, incluindo o cristianismo.

O que quero chamar atenção é que esse discurso sacrificial é resultado da ilusão de que é possível construir um sistema social ou instituição que nos levaria ao Paraíso, seja na terra ou na vida pós-morte. Encontramos, por exemplo, no cristianismo medieval a doutrina de que a salvação é possível por meio de oferecer sacrifícios demandados pela Igreja em nome de Deus. Assim, a Igreja é vista como o caminho para chegar à vida eterna ou o chamado Reino de Deus. Com isso, identifica a Igreja com o Reino de Deus e a sacraliza.

No mundo moderno capitalista, com o seu mito do Progresso, e nos dias de hoje, vivemos na ilusão de que o Mercado Livre realizará o desejo ilimitado aos que “merecem”. Em outras palavras, todos os sistemas sociais ou culturais que são capazes de se reproduzir têm dentro de si essa ilusão de realizar o desejo “impossível” por meio de uma instituição que, para isso, exige sacrifícios.

Na questão específica do cristianismo atual e a sua aliança com setores neoliberais e autoritários, é preciso agregar algumas outras questões. A cultura de consumo, que surge nos países ricos do capitalismo na década de 1950, entra nas igrejas cristãs com uma nova teologia: Deus é favor do consumismo e as bênçãos divinas se manifestam publicamente por meio de ostentação de mercadorias-símbolos – a Teologia da Prosperidade. Há uma profunda inversão na compreensão cristã sobre o dinheiro e a ostentação do consumo. Agora pobre não é objeto de caridade ou cuidado, mas é visto como pecador, amaldiçoado por Deus.

Além disso, com o aumento da concorrência no mercado profissional, os cristãos de classes média e baixa, com pouca formação educacional e técnica, buscam em Deus, isto é, na igreja, o “poder” para entrar e se manter no mercado consumidor. Há nesse processo uma relação de troca: eles pedem a benção na forma de poder de consumo em troca de uma vida cristã ativa, militante. E qual seria essa militância religiosa tão poderosa que lhe garantiria essas bênçãos? Antes da cultura de consumo, ser cristão militante era lutar contra o mundo moderno. Mas, a partir da década de 1970 a luta e os inimigos mudam. No lado da Teologia da Libertação e as Cebs (Comunidades Eclesiais de Base), com a opção pelos pobres, a injustiça social do capitalismo passa a ser “o” inimigo a ser combatido e para essa luta abraça as ciências sociais modernas e a política. Por outro lado, há um outro setor do cristianismo que assume a ideia de que também os pobres têm o direito de uma vida melhor, mais próspera, valorizando o consumismo. Mas são pró capitalismo.

Para esse grupo, o principal agente de transformação da situação econômica é Deus e a principal ação da Igreja nessa caminhada não é lutar contra as injustiças do capitalismo, como é para a linha da Teologia da Libertação, mas lutar contra os inimigos de Deus. Na medida em que essas igrejas abraçam a cultura de consumo, que é moderna, a benção divina, manifestada e comprovada no aumento da capacidade de consumo, é conquistada pela sua guerra espiritual contra os novos inimigos de Deus: os comunistas e os “gays”.

Os “comunistas” são inimigos de Deus não porque são ateus, pois acusam também cristãos que creem em Deus de comunistas, mas porque eles querem “dar” dinheiro aos pobres que são pecadores. Ao dar dinheiro aos pobres e dizer que todos seres humanos têm direitos sociais, esses “comunistas” estão contra o modo como Deus distribui as “bênçãos”, isto é, o processo de distribuição de riqueza, a “meritocracia”, por meio do Mercado Livre. Estabelece-se aqui uma identificação entre a benção distribuída por Deus e a ideologia da meritocracia do mercado neoliberal.

E como essa guerra é espiritual, divina, é preciso, na mentalidade deles, o envio por parte de Deus de um ou “o” Messias. O Messias enviado é, por definição na cultura religiosa desse tipo, uma autoridade que deve se impor sobre as leis humanas. A perspectiva da democracia se opõe à noção de messianismo, seja na direita ou na esquerda.

A luta contra os comunistas não é algo tão cotidiano, pois é uma figura meio abstrata. Por isso, para se garantir como parte da comunidade ou da igreja que canaliza essas bênçãos de Deus, esses cristãos e cristãs precisam entrar na guerra espiritual contra aqueles e aquelas que ameaçam a família tradicional, patriarcal, que Deus teria criado: a comunidade LGBT+.

A figura mítica de Bolsonaro é a expressão de uma visão teológica que alia o neoliberalismo, o fascismo/autoritarismo, a cultura de consumo e uma religiosidade tradicional presente em muitas religiões do mundo.

O desejo de poder e influência de pastores por si explica o apoio massivo de evangélicos a Bolsonaro? Tudo se resume a isenção de impostos, concessões de TV e rádio?

As noções de poder e influência, que se expressariam concretamente em objetivos bem específicos como isenção de impostas e concessões, são importantes, mas penso que não dão conta dessa relação.

Para entendermos um pouco mais a relação entre Bolsonaro e os pastores, eu penso que é útil discutirmos a questão do ressentimento. Uma questão central do ressentimento é o sentimento de que eu/nós não sou/somos tratados como merecemos e nos sentimos mal com isso.

Essas lideranças são vistas e tratadas com respeito e admiração pelos membros das igrejas e se sentem escolhidas por Deus. O problema é que quando participam em eventos ou reuniões organizadas ou dirigidas por pessoas de formação ilustrada, isto é, com um discurso teológico e/ou político moderno ilustrado, são tratados como “menores”. Isto é, são vistas e tratadas como pessoas que ainda não assumiram a “maioridade”, que ainda não estudaram a teologia moderna com a exegese moderna e usam uma linguagem religiosa tradicional para falar da vida e dos desafios da igreja e da sociedade.

Ao serem tratadas assim, de forma não respeitosa, essas lideranças e membros comuns das igrejas se sentem mal e se defendem ou se distanciam. Pior ainda quando essas lideranças não são convidadas a participar em eventos públicos importantes em que gostariam de estar e de que se sentem com merecimento pela sua liderança. O ressentimento se acumula.

Bolsonaro é aquele líder político que dá lugar especial a essas lideranças religiosas anti-modernas e expulsa aquelas que não os respeitam. Penso portanto que a relação entre os pastores evangélicos e pentecostais com ele vai muito além da questão “material” dos impostos ou dos cargos, é uma questão de autoestima e ressentimento.

Qual é o real peso e influência de pastores dissidentes diante da onda neofascista no interior das igrejas evangélicas?

Com certeza os pronunciamentos de pastores, pastoras e lideranças pentecostais e evangélicas são muito importantes, tanto para a sociedade quanto para cristãos e igrejas menores. Mas, é muito difícil medir e pesar. Isso só vai ficar mais claro daqui um tempo.

Uma questão importante é: qual é a régua com a qual medimos esse processo? Eu penso que as categorias das ciências sociais e das ciências da religião modernas, as com que quase todos nós estudamos, não dão mais conta do mundo atual. Por exemplo, a relação entre a religião e a política, ou a relação entre Igreja e Estado, mudou profundamente e as categorias usadas a partir da noção de secularização [processo em que a religião em geral perde influência sobre as variadas esferas da vida social] não são suficientes ou não apropriadas. Pois, na verdade, fora da Europa o mundo não foi secularizado como os cientistas sociais pensavam. E a noção de sociedade pós-secular (Habermas) e a de “capitalismo como religião” (W. Benjamin, F. Hinkelammert) nos obrigam a repensar a relação entre a religião e a política.

O que podemos dizer agora é que esses pastores que, além da ação nas suas igrejas, atuam nas redes sociais têm um papel fundamental para que cristãos e cristãs possam resistir a essa onda autoritária e neoliberal.

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/623648-a-logica-que-gerou-avanco-evangelico-e-a-mesma-que-leva-a-seu-carater-autoritario-entrevista-com-jung-mo-sung 

sábado, 5 de novembro de 2022

Receita para a felicidade

Hélio Schwartsman*

 
 Homem se exercita às margens do rio Yamuna, em Agra (índia), com o Taj Mahal à distância - Pawan Sharma - 17.out.22/AFP

Entre alcançar objetivos ou aproveitar a jornada, filósofo prefere a segunda alternativa

Qual a receita para a felicidade? Alcançar seus objetivos ou aproveitar a jornada? Adam Adatto Sandel, autor de "Happiness in Action" (felicidade em ação), defende a segunda alternativa.

Adatto Sandel é um jovem filósofo, filho do professor estrelado de Harvard Michael Sandel. A influência do pai é visível não só na preferência pela ética da virtude aristotélica como ainda no que parece ser a vontade de restaurar uma espécie de comunitarismo, admirável, mas que também tem algo de retrógrado, quase religioso.

O ponto central de Adatto Sandel é que nossa sociedade, obcecada com a realização de metas e tomada de assalto por algoritmos que promovem esse produtivismo, perdeu de vista a ideia de que a felicidade, a boa vida, consiste em mergulhar em atividades que sejam intrinsecamente gratificantes, notadamente aquelas que derivam seu significado de três virtudes especiais: domínio de si mesmo, amizade e conexão com a natureza.

O autor ilustra suas ideias recorrendo a exemplos de personagens da literatura, filmes e séries, o que é sempre interessante para atrair o leitor menos familiarizado com as asperezas da filosofia. Ele também utiliza seu caso pessoal. Adatto Sandel é um sério praticante de flexões. Ele já deteve e disputa o recorde mundial do maior número de flexões por minuto.

Na superfície, perseguir um recorde poderia ser visto como exemplo acabado de produtivismo, mas o filósofo mostra como a rotina de exercícios que ele mantém para perseguir o título o põe em contato com as três virtudes, transformando uma tarefa meio boba em algo intrinsecamente gratificante, 

Descobri, com alguns meses de atraso, que morreu Valder R. Arruda, um bom amigo e um dos mais talentosos cientistas brasileiros. Valder é um dos responsáveis pelo que parece ser nada menos do que a cura da hemofilia B e por reabilitar as terapias gênicas, que enfrentaram turbulências.

* Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…". 

Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2022/11/receita-para-a-felicidade.shtml

De Leonardo a Chitãozinho, rixas políticas de família se refletem nos sertanejos

Gustavo Alonso*

 Cantor e ator João Guilherme com o pai Leonardo - Instagram/joaoguilherme

O que acontece no gênero retrata o que se passa no Brasil para além das bolhas da MPB

A apertada eleição de segundo turno entre Lula e Bolsonaro mostrou um país dividido. Mais do que se dividir em classes ou regiões, o Brasil rachou no interior das famílias. Com a música sertaneja não foi diferente.

Quando Bolsonaro recebeu os sertanejos Leonardo, Chitãozinho, Gusttavo Lima, Sula Miranda, Zezé Di Camargo e Fernando Zor no Palácio da Alvorada em 18 de outubro, esperava ter o apoio integral da música sertaneja à sua reeleição. No entanto, não foi isso o que aconteceu.

Chamou a atenção a óbvia ausência de Xororó e Luciano. E logo começaram a pipocar indícios de que até as duplas estavam divididas. Em setembro, numa entrevista a este jornal, Chitãozinho e Xororó disseram que não tomariam lado nas eleições.

Xororó havia se manifestado contrário a governos autoritários. "O voto está aí, com a democracia. Vamos continuar assim porque a gente sabe que do outro jeito não foi legal. Pegamos o finalzinho [da ditadura], a gente era criança ainda, mas eu me lembro muito bem que era bem mais difícil. A gente tem que se juntar. A democracia é isso", disse Xororó. Quem mudou de opinião foi Chitãozinho.

Um dos primeiros a se manifestar foi Júnior, filho de Xororó e sobrinho de Chitãozinho, que escreveu em suas redes sociais: "Estudos apontam: toda família tem um tiozão do zap. Sou contra o governo atual e escolho um caminho diferente do que vi nos últimos quatro anos". 

O filho de Leonardo, João Guilherme, também se manifestou: "Hoje estou triste. Sei bem a influência do meu pai, ele é gigante, querido por tantos… Mas joga no time errado e está cego. Ver alguém tão importante para mim declarar apoio dessa forma me enoja", escreveu João Guilherme.

Famílias rachadas politicamente são um fenômeno novo na música sertaneja. Não se viu tamanha divisão quando os sertanejos apoiaram Collor em 1989, quando estiveram ao lado de Lula em 2002 nem quando se engajaram na campanha de Aécio em 2014 ou de Bolsonaro em 2018.

O que acontece na música sertaneja retrata o que se passa praticamente em todas as famílias brasileiras. Poucos são os que podem soberbamente falar o que disse Francisco Gil, filho de Gilberto Gil, quando comentou a postagem de Júnior: "Felizmente não tenho [tio do zap na família]. É uma bênção ser cercado por pessoas que têm o mesmo pensamento". A família sertaneja dividida se parece mais com o Brasil do que a família unida da MPB, presa à bolha dos seus.

O racha familiar expressa o Brasil nas suas ambiguidades e paradoxos. É curioso que os filhos e sobrinhos que demonstraram descontentamento com os familiares tenham eles mesmos em algum momento da vida sofrido preconceito na carne.

Júnior narrou no documentário "Sandy e Júnior: A História", do Globoplay, que muitas vezes ao longo da carreira foi acusado de ser homossexual e como isso mexeu em sua personalidade. "Me chamavam de gay quando eu era mais moleque. Por causa daquela música ‘Vai Ter que Rebolar’. Eu era criança…"

Já João Guilherme, filho de 20 anos de Leonardo, também foi patrulhado sexualmente por ser adepto a roupas descoladas, às vezes muito justas, usar colar, brinco, anéis e pintar as unhas. Em entrevista à revista Quem ele disse: "Já falei que sou hétero. É que as pessoas cismam que não. Na real, as pessoas não estão acostumadas a ver pessoas desconstruídas, principalmente se divulgando assim".

Não foi somente a eleição que causou o racha familiar entre sertanejos. A pauta dos costumes vem dividindo gerações. Recentemente, o sertanejo Fernando Zor, da dupla Fernando e Sorocaba, publicou uma lista em 19 de outubro na qual descreveu 12 características do que para ele seria seu tipo de "mulher ideal", iniciando uma nova polêmica envolvendo o seu nome na web.

No rol estavam itens como não ser muito gorda nem muito magra, saber fazer arroz solto, não pôr a carreira em primeiro lugar, tomar banho com o box fechado, ter uma conexão com a roça, não ser vegana e não viver viajando com as amigas. Questionada, a filha de Fernando Zor, Kamily, também se manifestou: "Amo meu pai com todo o meu coração, mas ele é humano e falho, como todos nós".

É um equívoco tratar a música sertaneja como um bloco unívoco, como se todos fossem necessariamente bolsonaristas, reacionários ou direitistas ensandecidos. As exceções existem e não podem ser ignoradas, até para não jogarmos todos os sertanejos no colo do bolsonarismo, que não morrerá com a vitória de Lula. As brechas estão aí.

* Doutor em história, é autor de 'Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira' e 'Simonal: Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga'.

Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/gustavo-alonso/2022/11/de-leonardo-a-chitaozinho-rixas-politicas-de-familia-se-refletem-nos-sertanejos.shtml?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=newscolunista

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Respirar fundo

Por Boaventura de Sousa Santos*

FOTO: PABLO PORCIUNCULA/AFP

Penso que as sociedades, tanto quanto os indivíduos, necessitam de praticar a respiração profunda para poder prosperar. A sociedade brasileira e os democratas de todo o mundo solidarizados com ela têm nestes dias uma extrema necessidade de respirar fundo.

Entre as culturas orientais, a prática de respirar fundo é considerada a chave natural de uma vida saudável. As propriedades curativas são imensas: reduz as dores, elimina as toxinas, aumenta o fluxo sanguíneo e melhora a imunidade, baixa a ansiedade e o ritmo cardíaco, reduz as inflamações, aumenta o nível de energia, acalma o sistema nervoso e relaxa o corpo e a mente. Penso que as sociedades, tanto quanto os indivíduos, necessitam de praticar a respiração profunda para poder prosperar. A sociedade brasileira e os democratas de todo o mundo solidarizados com ela têm nestes dias uma extrema necessidade de respirar fundo. Nestes últimos anos foram tantos os agentes tóxicos e tão grande a falta de sangue fresco que a imunidade democrática da sociedade brasileira atingiu os seus níveis mais baixos desde o fim da ditadura militar. Era elevadíssimo o nível de toxicidade fascista, de sangue mal renovado, excessivamente ácido e incapaz de absorver as vitaminas da verdade, da razão e da convivência pacífica. No último mês em particular, a democracia brasileira dormiu mal, atormentada por maus pensamentos, com o sistema linfático afetado e incapaz de drenar os líquidos do bom senso, da confiança, da simpatia. Enfim, esteve à beira de um ataque de nervos tanto mais que os ambulatórios da saúde eleitoral, apesar de presentes e generosos no seu esforço de garantir a sobrevivência da democracia, estavam igualmente sob ataque e quase impossibilitados de respirar. De tudo isto se conclui que o corpo e a alma do Brasil precisam urgentemente de respirar fundo, a precondição para ganhar a energia exigida pelo novo ciclo democrático. Terão condições para respirar fundo pelo tempo necessário para recuperar o ânimo democrático? É difícil prever. Enumero algumas razões tanto para uma possível resposta negativa como para uma resposta positiva.

Quanto às primeiras, há que contar com as almofadas de toxicidade do tamanho de nuvens com que os fascistas brasileiros e internacionais vão tentar sufocar a respiração do Brasil democrático. A primeira almofada, a mais densa, é da contestação provável dos resultados eleitorais para disfarçar as imensas fraudes que os serviçais do governo Bolsonaro cometeram (orçamento secreto, compra de votos, supressão de votos, intimidação generalizada) e que, para surpresa deles, não deram os resultados previstos. Nitidamente subestimaram a vontade democrática dos brasileiros e brasileiras. A segunda almofada é a da toxicidade ambiental gerada pelo bolsonarismo secular, empresarial, midiático, religioso, popular. É uma fumaça fascizante, bem à superfície da vida social e relacional, uma mistura de fumaça de mentira e de neblina de ódio e de cegueira industrializada que impede o reconhecimento do outro e neutraliza a inclinação natural da solidariedade, da partilha e da compaixão. A fumaça fascizante concebe a sociedade como um campo de batalha dominado pela lógica binária do amigo/inimigo, a sobrevivência do “nós” assente na eliminação física do “eles”. A primeira almofada asfixia rapidamente, a segunda lentamente.  Há ainda uma terceira almofada tóxica, bastante mais difusa, mas nem por isso menos perigosa. Reside no efeito que a perda de visibilidade criada pelo smog fascizante, pode ter entre os mais afectados pela poluição antidemocrática, as classes populares e as classes médias. A mistura da fumaça e da neblina impedem ver com nitidez a gravidade das ameaças à respiração democrática. Favorecem uma vontade infundada de pensar que tudo voltou à normalidade e que o mais saudável é esquecer os malefícios recentes e acreditar que o ar está puro apenas porque o sol voltou. O outro lado do ódio inextirpável é o amor indiscriminadamente inocentizador. De um lado, o ressentimento, do outro, a falsa consciência, ambos poluindo insidiosamente a respiração democrática.

Também há uma boa razão para pensar que a respiração funda vai ser suficientemente longa e tranquila para desintoxicar a sociedade brasileira e permitir que ela absorva doses fortes de vitaminas democráticas que fortaleçam contra possíveis percalços futuros. A toxina Bolsonaro foi tão sufocante que, pela primeira vez depois do fim da ditadura militar, os democratas brasileiros “viram claramente visto”, como diria Luís de Camões, que a democracia nem é irreversível nem é suficientemente robusta para se defender institucionalmente dos antidemocratas. A democracia só sabe respirar fundo com os pulmões dos democratas mobilizados para a defender ativamente. A democracia só é um dado para quem a quer destruir. Os que a querem defender têm de o fazer como uma conquista sempre em curso. A recordação deste trauma não pode ser normalizada nem muito menos suprimida. Os psicólogos e psiquiatras da alma brasileira só a curarão  incitando-a a ir para as ruas, as praças, os terreiros, as fábricas, as comunidades, as igrejas, as praias dar testemunho de si. As camisetas da cor da esperança e da luta devem ir vestidas por dentro da pele e não por fora. É mais difícil, mas dura mais.


Na retomada da coluna Razão Quente, coluna mensal de Boaventura de Sousa Santos na TV Boitempo, o sociólogo analisa o cenário eleitoral brasileiro. Ainda faria sentido uma divisão entre esquerda e direita ou estaríamos diante de uma distinção entre política de vida e política de morte? Qual seria o papel da esquerda nesse momento? Boaventura destaca a necessidade de as forças de esquerda defenderem a democracia liberal e suas conquistas no Brasil, mas permanecerem sempre atentas aos seus limites.

*Boaventura de Sousa Santos nasceu em Coimbra, em 1940. É doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale (1973), além de professor catedrático jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e distinguished legal scholar da Universidade de Wisconsin-Madison. Foi também global legal scholar da Universidade de Warwick e professor visitante do Birkbeck College da Universidade de Londres. Pela Boitempo, publicou A cruel pedagogia do vírus (2021), O futuro começa agora: da pandemia à utopia (2021), Esquerdas do mundo, uni-vos! (2018), A difícil democracia: reinventar as esquerdas (2016) e Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social (2007).

Fonte:  https://blogdaboitempo.com.br/2022/11/04/respirar-fundo/