sábado, 1 de julho de 2023

Futuro é preocupante e não vamos ter como competir com IA, diz vencedor do Nobel de economia

 Por Álvaro Campos, Valor — São Paulo

O professor emérito de psicologia e relações públicas em Princeton e vencedor do prêmio Nobel de economia Daniel Kahneman  — Foto: Reprodução/TED Talks

 O professor emérito de psicologia e relações públicas em Princeton e vencedor do prêmio Nobel de economia Daniel Kahneman — Foto: Reprodução/TED Talks

Daniel Kahneman, professor emérito de psicologia e relações públicas em Princeton e vencedor do prêmio Nobel de economia, fez uma previsão sombria sobre o futuro da inteligência artificial (IA). “O futuro é preocupante e não vamos ter como competir com IA”, comentou em painel de encerramento do Febraban Tech.

Kahneman é especialista em economia comportamental e estuda, há décadas, o comportamento humano. Ele criou dois conceitos, que levam à conclusão de que o ser humano não deve confiar em sua intuição. O primeiro deles é o viés cognitivo, ou seja, padrões mentais sistemáticos que ocorrem em situações particulares e se desviam do julgamento racional. O segundo é o ruído, quando ocorre um uma falha, uma variabilidade de julgamentos que deveriam ser idênticos.

“Nós tendemos a ter muita confiança nas nossas intuições, e muitos especialistas, líderes, CEOs, governantes, tomam suas decisões com base na intuição. Mas a IA e mesmo outras tecnologias mais simples são superiores ao raciocínio humano”, comentou.

Ele apontou que as máquinas superam o ser humano no xadrez e em breve darão diagnósticos muito melhor que os médicos. O mesmo deve acontecer também com os carros autônomos. “Nós aprendemos apenas com nossas próprias experiências, enquanto a IA pode aprender com os registros de milhares, milhões de automóveis”.

Kahneman aponta que a intuição humana só é válida se houver três fatores: regularidade de dados, ou seja, um padrão que se repete ao longo do tempo; muita experiência da pessoa no assunto; e feedbacks rápidos, para poder se comparar o que aconteceu com o que se previa. Na maioria dos casos, no entanto, isso não ocorre.

O professor estudou a atuação de seguradoras ao subscreve riscos e as decisões de juízes criminais nos EUA e encontrou uma variância muitíssimo maior do que se supunha. “Quando existem regras bem definidas, não há ruídos. O que torna a opinião humana tão imprecisa é justamente ter tanto ruído.”

Questionado sobre o que prevê para o desenvolvimento da IA, o prêmio Nobel disse que nem ele — e nem os maiores especialistas (que confiam em suas intuições) — tem a menor noção.

    “Eu não tenho a menor ideia se humanos e IA vão cooperar no futuro. É tão complicado e está acontecendo com tamanha rapidez, que é impossível prever. Só sabemos que     algo vai acontecer, e muito rapidamente.”

Kahneman também desenvolveu o conceito de auditoria de viés, que seria uma forma de tentar tirar imprecisões e melhorar o julgamento do ser humano. Ainda assim, é pessimista. “A resposta é ter uma padronização, criar processos. Isso é como lavar as mãos, eu não sei exatamente quais germes estão lá, mas o sabão mata. A padronização elimina vieses. Mas há anos eu sou muito pessimista sobre a possibilidade dos indivíduos melhorarem seu modo de pensar.”

Segundo ele, ainda, se individualmente as pessoas não conseguem melhorar sua capacidade de pensar, as organizações sim.

    “As organizações pensam lentamente, tem procedimentos. Se elas desenvolvem procedimentos, superam tendências, vieses, reduzem ruídos, e isso é a única coisa que podem fazer. Nos preocupamos muito sobre o amanhã, mas não vamos ter como competir com a IA.”

Fonte: https://valor.globo.com/financas/noticia/2023/06/29/futuro-e-preocupante-e-nao-vamos-ter-como-competir-com-ia-diz-vencedor-do-nobel-de-economia.ghtml?li_source=LI&li_medium=news-page-widget

Cultura de rico, cultura de pobre.

 Por Jaime Pinsky*

cultura ricos e pobres

… Imaginar que, na formação do povo brasileiro, os ricos entraram com cultura sofisticada e os pobres com bobagens bregas pode ser tentador para novos ricos, mas não encontra suporte na realidade…

Cultura

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO SITE DO AUTOR, www.jaimepinsky.com.br – JULHO – 2023

Ao contrário do que muita gente pensa, a cultura não é monopólio dos mais ricos, nem dos mais poderosos. Não estou falando de cultura vista como qualquer produto material ou imaterial de uma sociedade, mas cultura no sentido mais restrito, manifestada, principalmente, pelas artes como música, literatura e pintura. Como dizia um esperto empresário e apresentador de TV, nesse sentido mais restrito não se deve confundir cultura com entretenimento. Aquilo que você vê na TV, relaxado em sua poltrona predileta, não é cultura, não é uma manifestação superior e refinada do gênero humano, mas um produto comercial. Mesmo assim (ou por isso mesmo), insisto em que a cultura não olha para o tamanho de contas bancárias.

Afirmação populista? Não. Fatos contemporâneos e o testemunho imparcial da história estão do meu lado: não há uma relação direta, determinista, entre dinheiro e refinamento cultural. E um excelente exemplo é o que aconteceu em Roma.

Sim, na poderosa Roma dos exércitos imbatíveis, a Roma que conquistou o sul da Europa e o norte da África, dando-se ao luxo de utilizar o Mar Mediterrâneo como se fosse um lago dentro de sua propriedade. Pois essa mesma Roma, que submeteu gregos e bretões, que construiu estradas e aquedutos, arenas e edifícios magníficos, essa mesma Roma tinha em suas bibliotecas públicas e particulares a maioria de livros em língua grega, não em latim. Não na língua dos vencedores, mas na dos escravizados. A cultura mais refinada, as peças de teatro e os textos filosóficos, até mesmo os livros infantis, durante muito tempo eram escritos em grego por gregos, escravos ou libertos. A orgulhosa Roma teve um rompante de humildade ao reconhecer que o saber mais profundo, a filosofia e a literatura não podiam existir no Império sem a cultura desenvolvida por séculos na Grécia ou em regiões helenizadas. E, não só, mas principalmente nos primeiros séculos de Império, o saber era coisa dos subalternos, não dos dominantes. De pobres, não de ricos.

…Tentar estabelecer relação entre sensibilidade artística e poder financeiro é bobagem. O dinheiro pode facilitar o acesso a bens culturais, da mesma forma que facilita o acesso a produtos luxuosos em geral. Mas dinheiro não cria talentos nem desenvolve sensibilidades…

Imaginar que, na formação do povo brasileiro, os ricos entraram com cultura sofisticada e os pobres com bobagens bregas pode ser tentador para novos ricos, mas não encontra suporte na realidade. Fico pensando se aquele jogador de futebol brasileiro que prometia ser um dos grandes, do tamanho de Messi ou Pelé, aquele que ganha mais para entrar em campo por uma equipe francesa do que um trabalhador brasileiro recebe durante sua vida inteira (é só fazer as contas), fico pensando se ele aproveita seu dinheiro para se cercar de professores capazes como Leandro Karnal ou Pondé. Se gente como esses mestres é chamada para discutir Filosofia e História; se a música de fundo é Bach ou Beethoven, ou mesmo Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim… Sabemos que isso não acontece, seus milhões – e os de muitos milionários – não o encaminham a usufruir do patrimônio cultural da humanidade. Enquanto isso, o maestro Isaac Karabtchevsky montou uma boa orquestra sinfônica com meninos e garotas da Favela de Heliópolis, em São Paulo, com poucos recursos, mas suficientes para colocar em ação o talento de uns e a generosidade de outros.

Tentar estabelecer relação entre sensibilidade artística e poder financeiro é bobagem. O dinheiro pode facilitar o acesso a bens culturais, da mesma forma que facilita o acesso a produtos luxuosos em geral. Mas dinheiro não cria talentos nem desenvolve sensibilidades. E o fato é que, nas sociedades atuais, famílias ricas preocupam-se mais em ter filhos com talento para administrar bens do que para executar, ou mesmo ouvir e apreciar, um concerto de piano de Rachmaninoff. Bolsas de grife emocionam, com frequência, os consumidores endinheirados muito mais do que a leitura de um bom livro. E, sinceramente, meu amigo ricaço que equivocadamente está me lendo, você é mais chegado a um carrão do que a uma exposição de pintores do impressionismo francês. E, até como cinéfilo, você prefere rever um besteirol no canal de assinatura de sua TV do que filmes de importantes diretores como Truffaut, Woody Allen, Bergman ou Fellini.

A questão é que gente pobre não tem acesso a bens culturais porque não tem dinheiro para fazê-lo. Não quer dizer que, se tivessem como ter acesso, todos os pobres se interessariam pela cultura, mas isso, como vimos, também não ocorre com os ricos. Em suma, é papel do Estado oferecer bens culturais importantes a toda a população e não privá-la alegando que pobre não tem bom gosto e rico não precisa de estímulo. Como em qualquer outra área, aparecerão pessoas talentosas, para seu próprio bem e para o bem do Brasil. Ricos ou pobres.

*JAIME PINSKY: Historiador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto. Autor de vários livros sobre preconceito, cidadania e escravidão. Organizador e coautor do livro “Novos Combates da História“.

jaimepinsky@gmail.com

www.jaimepinsky.com.br

Fonte:  https://www.chumbogordo.com.br/430838-cultura-de-rico-cultura-de-pobre-por-jaime-pinsky/?utm_source=mailpoet&utm_medium=email&utm_campaign=CHUMBO+GORDO+-+Newsletter

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Lula, a democracia relativa e a luta de classes.

Por Jair de Souza*


Estão causando furor entre os representantes da mídia corporativa (proprietários e serviçais) as recentes declarações sobre a democracia feitas por Lula durante uma entrevista dada à Rádio Guaíba, de Porto Alegre.

Ao se referir à Venezuela e dizer que a democracia é uma questão relativa, Lula transgrediu os limites que os controladores dos meios de comunicação capitalistas traçaram com o objetivo de isolar o regime venezuelano e impedir sua sobrevivência. Com isso, estão colocando em prática um plano semelhante ao que já vêm aplicando contra Cuba há mais de 70 anos.

Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer que, do ponto de vista de quem defende os postulados do grande capital sediado nos centros imperialistas do planeta, assim como para os que lhes são associados nos países periféricos, o significado que as forças chavistas vem atribuindo à democracia na Venezuela realmente representa um mau exemplo e, por isso, deveria ser extirpado o mais rapidamente possível.

Aqui no Brasil, os comunicadores a serviço dos órgãos alinhados aos interesses das classes dominantes estão furiosos por Lula não ter se referido expressamente ao governo venezuelano como antidemocrático. Citam como exemplo patente de arbitrariedade, entre outras coisas, o fato de a líder procapitalismo da Venezuela, Maria Corina Machado, ter sido declarada inelegível. Esta é a alegação mais recente que essa gente está levantando para reforçar suas desqualificações contra o regime venezuelano.

No entanto, depois de ter apoiado todo o processo lavajatista que redundou na chegada do bolsonarismo ao comando do Estado, essa mesma mídia acabou por dar-se conta de que, sob o comando de Bolsonaro, os objetivos estratégicos das classes que representa corriam sérios riscos. Embora as diretrizes econômicas de viés neoliberal adotadas pelo ministro Paulo Guedes estivessem sempre em total sintonia com as aspirações dos setores hegemônicos dessas classes dominantes cuja vozeria é expressada por nossa mídia corporativa, a inabilidade política, a incapacidade cognitiva e a notória imprudência do ex-capitão representavam um fator de instabilidade que representava uma ameaça para a continuidade do processo de apropriação em seu benefício exclusivo da riqueza produzida pelo trabalho coletivo de nosso povo.

Por isso, a decretação da inelegibilidade de Bolsonaro foi compreendida e aceita por quase todos os órgãos procapitalistas. Até este momento, não se observou nenhuma condenação séria ao julgamento que determinou a proibição de o ex-presidente miliciano voltar a participar em pleitos eleitorais pelos próximos oito anos por causa de sua conduta indevida durante a reunião em que convocou embaixadores estrangeiros para criticar nosso sistema eleitoral. Porém, se fôssemos comparar as razões aludidas para a condenação de Bolsonaro com as que se aplicaram no caso de Maria Corina Machado na Venezuela, chegaríamos à inevitável conclusão de que, lá, os crimes cometidos foram ainda mais graves e as justificativas para a aplicação da inelegibilidade foram muito bem fundamentadas.

Maria Corina Machado estava umbilicalmente vinculada ao governo fantoche de Juan Guaidó, aquele que os Estados Unidos e os demais países imperialistas criaram para tentar derrotar o presidente que o povo venezuelano tinha escolhido nas urnas. Mas, esse fato não seria nada em vista dos outros crimes que foram perpetrados por aqueles que o implementaram. Basta lembrar que quase todos os recursos do Estado venezuelano que estavam depositados em bancos da Inglaterra foram confiscados (roubados) e transferidos para o controle da quadrilha de Juan Guaidó e Maria Corina Machado. Além disso, a grande empresa distribuidora de derivados de petróleo que a Venezuela mantinha nos Estados Unidos (CITGO) para possibilitar a distribuição de seus produtos nos Estados Unidos foi confiscada e entregue à gang controlada por Juan Guaidó e Maria Corina Machado.

Em consequência do roubo de recursos vitais para o funcionamento do aparelho de Estado na Venezuela durante o período da pandemia de COVID-19, todo o povo venezuelano padeceu com mais intensidade os graves efeitos que essa nova enfermidade acarretou. Enquanto as maiorias humildes sofriam os rigores causados pelo Coronavírus, Juan Guaidó, Maria Corina Machado e seus associados dilapidavam os recursos públicos para a arquitetação de seu plano de comandar a nação a despeito de não terem sido os escolhidos para esse fim.

Se Maria Corina Machado tivesse se envolvido em projeto semelhante nos Estados Unidos, na Inglaterra, ou em qualquer dos outros países do bloco imperialista, ela muito provavelmente não teria sido declarada inelegível. Ela simplesmente teria sido condenada à morte por alta traição à pátria. Vamos recordar o que está acontecendo com Julian Assange tão somente por ele ter revelado ao mundo as provas dos crimes de guerra praticados pelas forças invasoras dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão.

Porém, as linhas editoriais de nossos meios de comunicação controlados pelo grande capital nunca puseram os Estados Unidos em suas manchetes como sendo um país evidentemente antidemocrático. E por que não? Exatamente por aquilo a que Lula fez referência na já mencionada entrevista: a democracia é sempre uma questão relativa. Não existe a tal democracia absoluta, aquela democracia que serve igualmente para todo mundo, para todos os setores da sociedade. A democracia é, sempre foi e sempre será, dependente da correlação de forças existente em cada país onde esteja sendo praticada ou escamoteada.

Em um artigo que publiquei em agosto de 2022 (https://desacato.info/as-ruas-do-centro-de-sao-paulo-e-o-significado-da-democracia-por-jair-de-souza), procurei mostrar como havia visões e percepções muito diferenciadas entre aqueles que estavam empenhados na luta para a derrota do governo bolsonarista que por então infernizava nosso país. Todos nós enfatizávamos nosso desejo de defender a democracia e a necessidade de derrotar o bolsonarismo. Mas, conforme tentei deixar evidente naquele texto, nem todos nutríamos o mesmo entendimento do que seria essa democracia pela qual dizíamos estar batalhando.

Havia grupos de pessoas cuja oposição à gestão bolsonarista se devia a que o comportamento desordenado e intempestivo de seu comandante afetava negativamente a previsibilidade que o mercado requer para que seus negócios possam ser viabilizados com perspectivas de futuro. Em outras palavras, um bom número de empresários estava descontente com o bolsonarismo porque com ele seus negócios não contavam com as garantias necessárias para assegurar boa lucratividade aos investimentos que fossem feitos. Sim, para esses empresários a principal importância da democracia é criar condições para que eles possam investir sem correr risco nenhum. Parece contraditório o que acabei de dizer? Sim, mas é exatamente isto o que quis expressar.

Por outro lado, estávamos os ue consideramos que o principal papel da democracia é dotar as maiorias trabalhadoras com um instrumental que potencialize suas forças na luta por maiores conquistas sociais. Em outras palavras, éramos e somos os que vemos validade na democracia desde que ela sirva para ajudar-nos a eliminar as desigualdades e possibilite que um maior nível de justiça social seja alcançado.

Para os que assim pensamos, a democracia não é uma formalidade. Não existe igualdade de direitos entre um bilionário e um mendigo, por mais que se diga que todos são iguais perante a lei. Não existe justiça e meritocracia quando os filhos de pobres precisam disputar espaços com os oriundos de famílias acaudaladas. Como um jovem que teve de começar a trabalhar quando ainda era criança vai poder disputar uma vaga para algum cargo administrativo de prestígio com aqueles que sempre receberam tudo o necessário para sua devida preparação? Para que as leis possam ser justas e terem aplicabilidade geral é preciso que haja igualdade de condições entre os que vão estar submetidos aos dispositivos legais.

É claro que as classes dominantes e todos aqueles que defendem suas posições não gostam da visão de democracia que acabei de expor. Para nós, para que haja democracia de verdade, essa democracia precisa amparar aqueles que partiram de condições precarizadas. Nenhum regime pode ser democrático num sentido que reflita os interesses das maiorias se não levar em consideração que os mais fragilizados precisam ser amparados para que possam ser tratados em pé de igualdade com os detentores de privilégios advindos de sua situação econômica.

É por isso que as classes dominantes e seus bajuladores só podem aceitar a democracia desde que ela não afete sua realidade concreta, essa realidade que lhes garante que continuarão a usufruir das riquezas que as maiorias produzem. Não foi à toa que toda essa gente se sentiu ultrajada com a concepção de relatividade que Lula aplicou à democracia.

A democracia nunca eliminou a luta de classes, inclusive na hora de sua própria interpretação.

*Jair de Souza é economista formado pela UFRJ; mestre em linguística também pela UFRJ.

Fonte:  https://desacato.info/lula-a-democracia-relativa-e-a-luta-de-classes-por-jair-de-souza/

Procura-se

 Por FRANCISCO FERNANDES LADEIRA*

Imagem: Alessandro Oliverio

Com inelegibilidade, direita busca substituto para Jair Bolsonaro

Nessa sexta-feira, 30 de junho, saiu a tão aguardada decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE): por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, Jair Bolsonaro está inelegível por oito anos. Ainda cabe recurso – ao próprio TSE ou ao Supremo Tribunal Federal (STF) –, mas, com o “mito” impossibilitado de disputar eleições, surge uma grande oportunidade para a direita brasileira construir um nome forte para a eleição presidencial de 2026, sem precisar recorrer ao apoio envergonhado ao ex-capitão do Exército.

O jornal Folha de S. Paulo saúda como uma chance de ouro. “O sucesso dependeria, contudo, de estruturar uma agenda mínima de propostas, que demarque diferenças com a esquerda na esfera econômica e deixe em segundo plano a agenda de costumes. A ideia é promover uma espécie de antipetismo qualificado, para evitar o risco de esvaziar o discurso”, apontou o jornal da família Frias.

Dito de outro modo, a direita procura viabilizar um nome que possa derrotar o PT em 2026, mas que não protagonize os mesmos vexames, alucinações e bravatas bolsonaristas e, ao mesmo tempo, coloque em prática a nefasta agenda neoliberal (o que significa arrancar o couro do trabalhador e entregar o Estado brasileiro ao grande capital). Resumindo: trocar a “direita radical e bárbara” por uma “direita limpinha e civilizada”.

No ano passado, tentaram essa manobra, com a fracassada “Terceira Via”. Mas, com Jair Bolsonaro fora do páreo, as coisas tomam outro rumo. Não que seja fácil. A direita tradicional nunca foi popular no Brasil. Em muitas ocasiões, teve que improvisar nomes do baixo clero político para vencer eleições, como Jânio Quadros, Fernando Collor e o próprio Jair Bolsonaro. Por outro lado, Lula ainda é bastante popular; poderá tranquilamente ser reeleito ou eleger seu sucessor.

Mesmo antes de sair a sentença da inelegibilidade de Jair Bolsonaro, na imprensa conservadora, tanto nos grandes quanto nos pequenos veículos, já se especulava sobre quem seria o substituto do “mito” como líder da direita brasileira.

Pelo menos cinco governadores são cotados para o posto – Eduardo Leite, Ratinho Júnior, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas –, sendo o mandatário paulista, por enquanto, o favorito para substituir Jair Bolsonaro.

Conforme os articulistas dos principais noticiários do país, Tarcísio de Freitas tem um perfil “técnico” e “pragmático” (eufemismo para agentes públicos que executam com eficiência políticas favoráveis ao mercado e contrárias aos interesses da população, como privatizações e cortes de investimentos públicos em saúde e educação).

Para a anteriormente citada Folha de S. Paulo, Tarcísio de Freitas, assim como o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, são personagens que dialogam com o bolsonarismo e, concomitantemente, têm uma atuação menos atrelada a confrontos.

Assim, segundo o jornal paulista, eles poderiam capitanear a direita que ascendeu com Bolsonaro, mas enfatizando o liberalismo econômico e acenando à parcela conservadora da população, por meio de valores compartilhados, como família e religião.

Por sua vez, Ratinho Júnior, governador paranaense, é apontado pelo Estado de S. Paulo como um político “moderado”, do “centro” e do “anti-extremismo”, que “pode ter o seu conhecimento nacional impulsionado pela fama de seu pai, o apresentador de televisão Carlos Massa, o Ratinho”.

Já Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, por ser homossexual, pode levantar a bandeira do identitarismo, o que, inclusive, tende a angariar o apoio de setores da esquerda menos politizados. No entanto, pesa contra Eduardo Leite a rejeição do eleitorado mais conservador.

Por fim, em artigo publicado no Jornal Opção, o jornalista Euler de França Belém defendeu o nome de Ronaldo Caiado para substituir Jair Bolsonaro como principal político da direita brasileira. Para ele, o governador goiano é liberal, assume-se como de direita, mas não tem nada a ver com o reacionarismo messiânico do pior bolsonarismo. Trata-se de uma direita “moderada”, “civilizada” e “racionalista”.

Evidentemente, não vou fazer como Rui Costa Pimenta, do PCO, e lamentar a inelegibilidade de Jair Bolsonaro. E daí? Não posso fazer nada; não sou juiz eleitoral. Mas é fato que, para a direita, é uma grande notícia a saída do ex-presidente do cenário político por oito anos. Vão se livrar de um estorvo: o “efeito colateral do golpe de 2016”. Como bem sintetizou Lula: plantaram Aécio Neves e colheram Jair Bolsonaro. Enfim, poderão jogar a má colheita fora.

O que antes era a “Terceira Via”, agora passará a ser a principal força de oposição ao PT, seja com Romeu Zema, Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior, Eduardo Leite ou qualquer outro nome “impulsionado” pela imprensa hegemônica. Será alguém vendido como “moderado”, “pragmático”, “conciliador”, “técnico”, “equilibrado”, “civilizado” e “não adepto à polarização”.

Diante dessa realidade, cabe a nós da esquerda ficarmos atentos, denunciarmos e não cairmos nessas armadilhas políticas.

*Francisco Fernandes Ladeira é doutorando em geografia pela Universidade estadual de Campinas (Unicamp). Autor, entre outros livros, de A ideologia dos noticiários internacionais (ed. CRV).

Fonte:  https://aterraeredonda.com.br/procura-se/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2023-07-01

Dogmas monetários renitentes

 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.*


Imagem: Magali Guimarães

Autonomia do Banco Central e metas para a inflação

Volto à questão do Banco Central, paciente leitor ou leitora. Conto com a sua paciência, característica talvez tipicamente brasileiro. Volto ao Banco Central porque o problema que ele representa se vê seriamente agravado pela teimosia do seu presidente, que insiste em manter os juros na lua e demora a sinalizar o início da sua redução, já tardia, ridiculamente tardia, uma vez que os diversos indicadores relevantes a justificam cada vez mais claramente. Mas não quero falar hoje da conjuntura da política monetária brasileira, e sim do pano de fundo, isto é, de questões estratégicas que, embora nem sempre explicitadas, permeiam o debate sobre moeda e juros, não só no Brasil, como em outros países.

Refiro-me a duas questões interligadas: a autonomia do Banco Central e o regime de metas de inflação. São políticas ainda reverenciadas, pelo menos no Brasil, mas muito discutíveis, para dizer o mínimo. Viraram dogmas desde o início dos anos 1990 em grande parte do mundo ocidental, e acabaram sendo importadas pelo Brasil: o regime de metas em 1999 e a autonomia legal da autoridade monetária em 2021. A nossa adesão a esses dogmas, principalmente ao segundo, foi tardia. E talvez por isso a ortodoxia de galinheiro que prevalece no debate econômico nacional se aferra a eles, mesmo que o seu declínio se faça sentir nos países desenvolvidos onde tiveram origem.

Na verdade, parêntese, no Brasil de hoje não há debate econômico. O que existe não é propriamente “debate”, mas a divulgação unilateral de um só ponto de vista. E não é propriamente “econômico”, uma vez que as teses e opiniões apresentadas são versões vulgares do que se conhece como economia, seja pura, seja aplicada.

Origem dos dogmas monetários atuais

Em muitos países esses dois dogmas, depois de reinarem quase incontestes na década final do século XX e na primeira década do século atual, sobrevivem atualmente pro forma, tendo sido essencialmente abandonados na prática. Os bancos centrais “autônomos” estão cada vez mais integrados à política econômica do Estado. A propalada autonomia, que nunca foi plena, existe hoje mais nos textos legais e nos livros-texto do que na realidade. O regime de metas, adotado como “âncora” para a política monetária em muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento, foi sendo flexibilizado e, em diversos casos, arquivado sem alarde.

Mesmo assim, vale a pena recapitular brevemente a origem desses dois dogmas monetários. Isso ajudará a entender a sua aplicação nas últimas três décadas, assim como suas dificuldades de sobrevivência em anos mais recentes. Vou tentar ser claro e exercer o espírito de síntese.

Se pudesse resumir em poucas frases a tendência histórica de longo prazo da instituição moeda, diria que ela se caracteriza por uma demorada e tumultuada trajetória na direção de algo fundamental – o reconhecimento de que a moeda deve ser uma moeda estatal fiduciária pura. Desancorada, portanto. Uma moeda sem lastro emitida por um Estado nacional, como quase sempre acontece, ou em alguns poucos casos por Estados nacionais associados, como na Europa do euro. Os emissores, por delegação estatal, são sempre bancos centrais públicos, nacionais ou regionais. A aceitação da moeda é uma convenção garantida pela confiança (fidúcia) no Estado em última instância responsável pela sua emissão.

Essa tendência de longo prazo foi se impondo em face de muita resistência, motivada por hábitos e preconceitos. Prevaleceu por muito tempo a relutância em aceitar que a moeda não tivesse um “valor intrínseco”, a exemplo do que ocorre com as moedas metálicas, baseadas em metais preciosos, notadamente ouro e prata. No entanto, a inviabilidade do padrão-ouro, mesmo modificado e modernizado, ficou escancarada com a Grande Depressão dos anos 1930, quando se confirmou que o ouro não passava mesmo de uma “relíquia bárbara”, na famosa expressão de Keynes.

Resquícios importantes do padrão ouro ainda sobreviveram no sistema de taxas cambiais fixas ajustáveis estabelecido em Bretton Woods, imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial, sistema que tinha como aspecto central a livre conversão do dólar em ouro a uma taxa fixa. Com a moratória decretada pelo governo dos EUA em 1971, suspendendo-se unilateralmente a conversibilidade do dólar em ouro, ingressamos finalmente num regime de moeda fiduciária pura, como destacou, entre outros, Milton Friedman.

A demora em chegar nesse ponto se deve não apenas a um apego selvagem à relíquia ouro, mas a algo mais renitente: a desconfiança dos agentes econômicos e de uma parte importante dos economistas em relação ao papel econômico do Estado e, portanto, a resistência a aceitar uma moeda desancorada, inconversível, apoiada exclusivamente na confiança nesse Estado. Começou então um longo período, ainda inconcluso, em que se procurou garantir por meio de regras ou âncoras que a moeda estatal fosse realmente digna de confiança. Na impossibilidade de basear o sistema monetário e de pagamentos em emissão primária de moedas privadas, restou a opção de impor disciplina ao Estado emissor.

A aspiração se mostraria muito mais difícil de realizar do que talvez se pudesse inicialmente imaginar. Regras simples se mostrariam impraticáveis, diante da complexidade da realidade econômica. Regras complexas, difíceis de especificar e pouco transparentes, se mostrariam ineficazes em gerar a confiança almejada.

O fracasso das âncoras monetárias e cambiais

Que caminhos foram seguidos para tentar disciplinar o Estado emissor. Uma tentativa, propugnada pelo mesmo Friedman, foi a de estabelecer uma “âncora monetária”, isto é, uma regra ou regras que especificassem quantitativamente limites à expansão da moeda primária ou algum outro agregado monetário. A relação entre emissão e inflação se mostraria, contudo, incerta e instável, tornando a experiência com ancoragem monetária ineficaz. Depois de anos de controvérsias teóricas e empíricas, o próprio Friedman e seus seguidores, os assim chamados monetaristas, acabariam sendo forçados a bater em retirada e abandonar essa abordagem.

Outra tentativa foi recorrer à ancoragem cambial, isto é, obrigar o Banco Central a defender taxas fixas ou alguma regra preestabelecida de variação da taxa de câmbio. Um amplo espectro de regras cambiais, desde o currency board até bandas cambiais amplas, foi submetido a testes em vários países. O sistema de taxas fixas em estabelecido logo após a Segunda Guerra, em Bretton Woods, durou algumas décadas, mas viveu dificuldades crescentes nos anos 1960 até sucumbir em 1971, como mencionei. A ancoragem cambial teria consequências ainda mais desastrosas em muitos países em desenvolvimento, inclusive aqui na América do Sul, nas décadas de 1970, 1980 e 1990.

Nos anos 1990, México, Argentina e o Brasil do Plano Real, por exemplo, experimentaram graves crises econômicas ao tentar essa abordagem. O problema, em poucas palavras, é que a defesa de uma determinada taxa ou regra de câmbio nominal se mostrava extremamente custosa em situações marcadas por ampla liberdade de movimentação dos capitais. Como é praticamente impraticável abandonar por completo e para sempre a autonomia nacional na gestão da política monetária, a ancoragem cambial acabava desembocando em grandes crises de balanço de pagamentos, com pesadas consequências para os países que foram levados a seguir esse caminho.

As novas âncoras: autonomia do Banco Central e metas para a inflação

O que fazer? A despeito insucesso das âncoras monetária e cambial, continuava inconcebível para o pensamento econômico dominante aceitar uma moeda estatal fiduciária pura, sem amarras e garantias. Continuou a busca por maneiras de limitar a liberdade do Estado e dar, assim, confiabilidade à moeda por ele emitida. Foi aí que se chegou, principalmente desde os anos 1990, à combinação de duas “âncoras institucionais” que se cristalizariam em verdadeiros dogmas e sobreviveram até os dias de hoje, ainda que enfraquecidas: a autonomia do Banco Central e o regime de metas para a inflação.

O que significavam essas duas ideais complementares? E por que também se revelariam problemáticas como âncoras? O que elas têm em comum e as torna complementares, como indiquei anteriormente, é que ambas constituem amarras ou limitações ao poder do Estado. A autonomia legal do Banco Central remove a subordinação da autoridade monetária ao poder político, conferindo ao presidente e demais diretores mandatos longos e não coincidentes com o do Presidente da República.

O objetivo declarado é “despolitizar” a política monetária, que passaria a ser guiada exclusivamente por critérios técnicos. O horizonte curto dos políticos seria substituído pelo horizonte longo de uma burocracia autônoma e especializada. O Banco Central ficaria livre, em especial, do chamado ciclo político, que tende a se traduzir em políticas expansivas em anos eleitorais, em detrimento da estabilidade econômica e monetária.

O regime de metas para a inflação, por sua vez, impõe uma limitação adicional ao Banco Central, a quem se confere a liberdade para buscar, pelo manejo da taxa de juro e de outras variáveis, sem interferência do governo, metas numéricas para a taxa de inflação, determinadas em geral pelo governo (pelo Conselho Monetário Nacional, no caso brasileiro). Estabelecidas as metas, o governo sai de cena. O Banco Central conduz por sua conta a política monetária, ficando obrigado a focar suas ações em um objetivo primordial: a estabilidade do poder de compra da moeda nacional.

O regime de metas pode ser mais ou menos flexível, dependendo de como ele é especificado. As metas são ambiciosas, requerem grande esforço de contenção? São pontuais ou há intervalos de confiança? São curtos os prazos fixados para alcançar as metas? A variável de referência é a inflação cheia ou medidas de inflação ajustadas para excluir determinados componentes voláteis do índice geral de preços? Em certos aspectos, o regime brasileiro foi definido de forma relativamente flexível quando comparado ao de outros países, o que não impediu sucessivos descumprimentos das metas nos últimos anos.

Descrédito das novas âncoras

Procurei resumir acima, sem caricaturar, os argumentos ortodoxos. Há uma certa plausibilidade nesses argumentos, um certo apelo ao bom-senso. Mas a realidade desapontou repetidamente as expectativas dos que os defendiam.

Quanto ao Banco Central, logo ficaria claro que a política monetária não pode ser conduzida independentemente do resto da política econômica, em particular da política fiscal, como haviam avisado, aliás, os economistas de orientação keynesiana. Se o Banco Central, apoiado na sua autonomia legal, quiser atuar em faixa própria, sem coordenar seus passos com o Ministério das Finanças e outras áreas do governo, certa confusão é inevitável e nada de positivo resultará. A realidade prática da política econômica, as interconexões entre os seus componentes, recomenda que a autoridade monetária atue em combinação com o governo, trocando informações, discutindo objetivos, antecipando movimentos.

Em suma, o Banco Central é, sempre e em toda parte, um braço do aparato estatal. Um Banco Central que pretenda ser independente de facto, e não apenas de jure, torna-se um estorvo para a condução da política econômica. Isso raramente acontece – o caso brasileiro de 2023 é um exemplo entre poucos.

A ideia do Banco Central autônomo se tornou especialmente problemática nos tempos de intensa polarização política em tantos países, inclusive o Brasil. Nesse ambiente, a não coincidência entre os mandatos do Presidente da República e o do presidente do Banco Central pode tornar o comando da autoridade monetária um corpo estranho dentro de um novo governo, como vem ocorrendo no Brasil depois da posse do Presidente Lula.

Roberto Campos Neto tenta justificar tecnicamente suas decisões, em especial os juros excepcionalmente elevados, mas suas justificativas não são sólidas e vem sendo rejeitadas pelo governo e por um número crescente de políticos, economistas, empresários e até mesmo por pessoas ligadas ao mercado financeiro. Quase uma unanimidade negativa. Com o passar dos meses, a posição “técnica” arguida pelo Banco Central parece cada vez mais insustentável. No campo oficial, muitos têm a sensação, correta ou não, de que o presidente do Banco Central é um bolsonarista infiltrado, que sabota deliberadamente os planos econômicos governamentais.

Esse problema novo, o da polarização política, se sobrepõe a um problema antigo, de natureza estrutural, que economistas como eu cansaram de apontar: instituir a autonomia legal do Banco Central em relação ao poder político reforça a sua captura por interesses financeiros privados. Desaparece ou diminui o contraponto da influência do governo e ganha força a influência do capital financeiro, assegurada pela famosa porta giratória.

Os integrantes da diretoria do Banco Central provêm, em grande parte, do sistema financeiro e para lá retornam. A passagem pelo comando do Banco Central é uma forma de lustrar o currículo e conquistar posições mais vantajosas no mercado financeiro – desde que, claro, o executivo dance rigorosamente conforme a música durante a sua passagem pelo Banco Central. Uma forma sutil de corrupção. O Banco Central, por essas e outras vias, se torna chasse guardée do capital financeiro.

O segundo dogma, o regime de metas para a inflação, também foi revelando fissuras importantes. Mesmo quando definido de forma relativamente flexível, o regime se mostra, com frequência, difícil de manejar. Metas que pareciam razoáveis no momento da sua definição revelam-se depois draconianas, exigindo taxas de juro elevadas, com impacto sobre o nível de atividade, a taxa de câmbio e as finanças públicas.

O problema aqui é o que sempre aparece na aplicação de regras, seja fiscais, seja cambiais, seja monetárias: a capacidade de previsão dos economistas é sofrível. “O esperado nunca acontece; é o inesperado sempre”, dizia Keynes. Fatos novos, choques de diferentes tipos submetem qualquer esquema de regras a tensões difíceis de administrar. A grande crise financeira internacional de 2008-2010, a pandemia da Covid-19, a guerra na Ucrânia desde 2022 tensionaram os regimes de metas de inflação.

O pesado impacto dessa sucessão de choques financeiros, políticos e de oferta, levaram ao desgaste generalizado da confiança na utilidade desse regime, mesmo nas suas versões mais flexíveis. Os defensores escassearam, os críticos se tornaram mais aguerridos. Muitos bancos centrais abandonaram discretamente o modelo monetário. As metas foram flexibilizadas de tal maneira que o regime ficou virtualmente indistinguível da discricionaridade pura, isto é, muito próximo do modelo de moeda fiduciária pura, desancorada, sem lastro.

Aqui no Brasil esses dogmas monetários encontram, entretanto, um derradeiro refúgio. Como dizia Millôr Fernandes, quando as ideologias envelhecem, elas vêm morar no Brasil. Mortas e enterradas no resto do mundo, ganham aqui uma sobrevida final.

*Paulo Nogueira Batista Jr. é titular da cátedra Celso Furtado do Colégio de Altos Estudos da UFRJ. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS. Autor, entre outros livros, de O Brasil não cabe no quintal de ninguém (LeYa).

Fonte:  https://aterraeredonda.com.br/dogmas-monetarios-renitentes/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2023-07-01

Sobre a guerra

 Por JOSÉ LUÍS FIORI*


O argumento fundamental esgrimido pelo governo russo em defesa de sua invasão militar da Ucrânia, vem sendo apresentado de forma muito clara, desde pelo menos 2007

The desequilibrium in the international system is due to increasing disjuncture between the existing governance of the system and the redistribution of power in the system [and] throughout history the primary means of resolving the disequilibrium between the structure of the international system and the redistribution of power has been war, more particularly what we shall call a “hegemonic war” (Gilpin, R. War & Change in World Politics).

A questão dos “critérios” e das “narrativas”

Quem formulou pela primeira vez a tese de que existiriam guerras que seriam “justas” ou “legítimas”, e outras que seriam “injustas” ou “ilegítimas”, foi Cícero, o jurista e cônsul romano, que viveu entre os anos 106 e 43 a.C. E foi ele também que definiu como primeiro “critério” de distinção, que seriam “justas” todas as guerras que fossem travadas em “legítima defesa”.[i]

Mas desde os tempos de Cícero, até hoje, foi sempre muito difícil de distinguir e arbitrar quem de fato tem razão quando se está tratando de um conflito concreto e específico entre estados ou impérios que alegam a seu favor, o mesmo direito à “autodefesa”. Muitos séculos depois do fim do Império Romano, no início da modernidade europeia, em pleno Século XVII, Hugo Grotius (1583-1645) e Tomas Hobbes (1588-1679) diagnosticaram este mesmo problema no funcionamento do “sistema interestatal” que estava nascendo na Europa naquele momento.

O jurista e teólogo holandês, Hugo Grotius, foi o primeiro perceber que no novo sistema de poder, no caso de acusações, conflitos ou guerras, sempre existiriam “múltiplas inocências”, e não haveria como decidir de que lado estaria a razão. O motivo que levou o filosofo inglês, Thomas Hobbes, seu contemporâneo, a concluir que neste novo sistema de poder territorial, os Estados seriam eternos rivais preparando-se permanentemente para a guerra,[ii] porque não existia dentro do sistema um “poder superior” que pudesse arbitrar de “forma objetiva” o “bem” e o “mal”, o “justo” e o “injusto”, numa disputa entre os estados nacionais que estavam nascendo.[iii]

Depois disso, durante mais de quatrocentos anos, a discussão dos filósofos e juristas continuou girando em torno destes dois problemas congênitos do sistema interestatal: o direito dos estados à sua “legítima defesa” em caso de agressão ou ameaça ao seu território, e a dificuldade de estabelecer um critério consensual e universal acima de qualquer suspeita de parcialidade.

Hoje, depois de 500 anos de guerras sucessivas, uma coisa parece definitivamente certa: todos os “critérios” conhecidos e utilizados até hoje para julgar as guerras sempre estiveram comprometidos com os valores, os objetivos e as narrativas das partes envolvidas no conflito, e em particular com os valores e a narrativa dos vitoriosos, depois de findas as guerras. Exatamente como está acontecendo no caso desta nova guerra europeia, e que hoje já é uma guerra global, ou “hegemônica”, a Guerra da Ucrânia.

As estratégias e as “narrativas”

O argumento fundamental esgrimido pelo governo russo em defesa de sua invasão militar da Ucrânia, vem sendo apresentado, defendido e reiterado, de forma muito clara, desde pelo menos 2007,[iv] em vários fóruns internacionais: sua exigência de que a OTAN suspenda sua expansão na direção do leste europeu, e, em particular, que se abstenha de incorporar à sua estrutura os territórios da Georgia e da Ucrânia. E que além disto a OTAN interrompa seu processo de militarização dos antigos países do Pacto de Varsóvia e dos novos países que foram separados do território russo depois de 1991 e que já foram incorporados pela OTAN.

A alegação russa contra o expansionismo “ocidental” encontra apoio numa longa história de invasões de sua fronteira ocidental: pelos poloneses no início do século XVII; pelos suecos, no início do século XVIII; pelos franceses, no início do século XIX; pelos ingleses, franceses e norte-americanos, no início do século XX, logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial; e finalmente, pelos alemães, entre 1941 e 1944. Uma ameaça que se repetiu depois do fim da Guerra Fria, e depois da decomposição da União Soviética, quando os russos perderam uma parte do seu território e logo em seguida assistiram ao avanço das tropas da OTAN, apesar da promessa do Secretário de Estado Americano, James Baker, feita ao primeiro-ministro russo Mikhail Gorbachev em 1996, de que isto não aconteceria.

Este foi o principal recado do presidente russo, Vladimir Putin, no seu discurso pronunciado na Conferência de Segurança de Munich, em 2007, onde disse, com todas as letras, que se tratava de “linha vermelha’ para a Rússia a OTAN tentar incorporar a Geórgia e a Ucrânia. Mas as “potências ocidentais” ignoraram solenemente a reivindicação russa e foi por isto que a Rússia interveio no território da Geórgia, em 2008, para impedir sua inclusão na OTAN. Depois disto, em 2014 os EUA e os europeus tiveram uma participação direta no golpe de Estado que derrubou o governo democrático da Ucrânia, que era apoiado pela Rússia.

Como resposta, a Rússia incorporou o território da Crimeia em 2015, no mesmo ano em que a Alemanha, a França e a Ucrânia assinaram, junto com a Rússia, os Acordos de Minsk, que foram depois sacramentados pelas Nações Unidas, mas não foram respeitados pela Alemanha e a França, nem foram acatados pela Ucrânia. Finalmente, em dezembro de 2021, a Rússia apresentou aos Estados Unidos, à OTAN, e aos governos europeus, uma proposta formal de negociação sobre a Ucrânia, e de renegociação do “equilíbrio estratégico” imposto pelos EUA, depois do fim da Guerra Fria. Esta proposta foi rechaçada, e foi neste momento que as tropas russas invadiram o território da Ucrânia, com o argumento de “legítima defesa” do seu território, ameaçado pelo avanço da militarização e nuclearização das suas fronteiras, e pela incorporação eminente da Ucrânia à OTAN.

Do outro lado desta guerra, como ficou desde cedo muito claro, formou-se uma coalisão de países liderada pelos Estados Unidos. E aqui o mais importante a ser considerado é que depois da Guerra Fria, e durante toda a última década do século passado, os Estados Unidos exerceram um poder militar global absolutamente sem precedente na história da humanidade. Foi durante este período, logo depois da queda do Muro de Berlim, que o presidente George Bush criou um grupo de trabalho liderado pelo seu Secretário de Estado, Dick Cheney, e por vários outros membros do Departamento de Estado como Paul Wolfowitz e Donald Rumsfeld, entre outros. Daí nasceu o projeto republicano do “nono século americano”, propondo que os Estados Unidos impedissem preventivamente o aparecimento de qualquer potência, em qualquer região do mundo, que pudesse ameaçar a supremacia mundial dos Estados Unidos durante todo o Século XXI. E foi esta estratégia republicana que esteve por trás da declaração da “guerra global ao terrorismo” como resposta aos atentados do 11 de setembro de 2001.

Por outro lado, ainda na década de 1990, os dois governos democratas de Bill Clinton apostaram na globalização econômica e nas “intervenções humanitárias” em defesa da democracia e dos “direitos humanos”. Foram 48 “intervenções” durante toda a década, as mais importantes, na Bósnia em 1995 e no Kosovo em 1999. Mas ainda nos anos 1990, o geopolítico democrata Zbieniew Brzezinski – que havia sido Conselheiro de Segurança do governo Jimmy Carter, – publicou um livro (The Grand Chessboard: American Primacy, 1997) que se tornaria numa espécie de “bíblia” da política externa democrata dos governos de Barak Obama, entre 2009 e 2016, e agora do governo de Joe Biden.

Zbieniew Brzezinski foi o grande mestre de Madeleine Albraight (Secretária de Estado de Barack Obama), que por sua vez foi a mentora intelectual de Anthony Blinken, Jack Sullivan, Victoria Nuland, entre outros, que trabalharam juntos durante o governo de Barack Obama, e estiveram todos pessoalmente envolvidos com o golpe de estado da Praça Maidan, na Ucrânia, em 2014, e com o envolvimento militar e a escalada bélica dos Estados Unidos e da OTAN, desde os primeiros dias da Guerra da Ucrânia.

O maproad da politica externa democrata traçado por Zbieniew Brzenszinski ressuscitou a estratégia concebida por George Kennan, em 1945, de contenção da Rússia como objetivo central da política externa norte-americana. E defendeu a expansão da OTAN para o Leste da Europa, colocando como um objetivo central e explícito a ocupação militar e a incorporação da Ucrânia à OTAN, que ele propunha que ocorresse até no máximo até 2015. Foi nesta época que os democratas incluíram, dentro desta mesma estratégia expansionista, a defesa de intervenções visando mudar governos e regimes desfavoráveis aos Estados Unidos, e as “revoluções coloridas” que se sucederam depois da “primavera árabe” de 2010, começando no mesmo ano de 2013, no Brasil e também na Ucrânia.

Como se pode ver, os republicanos e os democratas formularam, depois do fim da Guerra Fria, diagnósticos um pouco diferentes, mas com objetivos idênticos: manter a primazia mundial dos Estados Unidos durante o século XXI. A grande diferença entre os dois esteve na importância atribuída pelos democratas à Ucrânia, que Zbieniew Brzezinski considerava que fosse o pivô geopolítico decisivo para a contenção militar da Rússia. Como se pode ver, portanto, a intervenção militar americana na Ucrânia já estava no mapa estratégico da política externa dos Estados Unidos desde a última década do século passado, como uma peça chave para a preservação da “primazia global” dos Estados Unidos.

Em síntese, quando se olha para a Guerra da Ucrânia do ponto de vista dos critérios e interesses estratégicos das duas grandes potências envolvidas neste conflito, se entende melhor porque a Rússia não pode nem tem como recuar, porque o que está em jogo para ela é a sobrevivência do seu território, da sua identidade e da unidade nacional; e do outro lado, os norte-americanos estão bloqueando qualquer inciativa de paz até aqui, porque o que está em jogo para eles é o futuro da sua supremacia junto com todos os privilégios associados ao poder global que conquistaram depois de sua vitória na Guerra do Golfo, em 1991.

Por isto, finalmente, o que parecia no início tratar-se apenas de uma guerra localizada e assimétrica, transformou-se rapidamente na guerra mais intensa travada desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Exatamente, porque deixou de ser uma guerra local, para se transformar numa “guerra hegemônica”, ou seja, numa disputa sobre quem terá o “direito” de definir os critérios e as regras de arbitragem dentro do Sistema mundial durante o Século XXI.[v]

*José Luís Fiori é professor Emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de O mito de Babel e a disputa do poder global (Vozes).

Notas


[i] Fiori, J.L. “Dialética da Guerra e da Paz”, in Fiori, J. L. (Org.), Sobre a Guerra, Editora Vozes, Petrópolis, 2018, p: 80

[ii] “Sempre existiram reis ou autoridades soberanas que, para defender sua independência, viveram em eterna rivalidade, como os gladiadores mantendo suas armas apontadas sem se perderem de vista, ou seja, seus fortes e guarnições em estado de vigia, seus canhões preparados guardando as fronteiras de seus reinos e ainda espionando territórios vizinhos” (HOBBES, 1983, p. 96).

[iii] “A natureza da justiça consiste no cumprimento dos pactos válidos, e essa validade começa com o estabelecimento de um poder civil que obrigue os homens a cumpri-los” (HOBBES, 1983, p. 107).

[iv] Ocasião em que o presidente russo, Vladimir Putin, formulou pela primeira vez, de forma clara e sintética, a posição da Rússia com relação à expansão da OTAN, e ao equilíbrio de poder europeu, na reunião anual Conferência de Segurança de Munich, realizada em 2007.

[v] Artigo escrito por ocasião do lançamento do novo livro do INEEP: Fiori, J.L, (Org), “A Guerra, a Energia e o Novo Mapa do Poder Mundial, Editora Vozes/Ineep, Petrópolis, 2023.

Fonte:  https://aterraeredonda.com.br/sobre-a-guerra/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2023-07-01

A torre, a Amazônia e o aquecimento global

 por Valentina Bressan*

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Do alto da torre ATTO, a 150 km de Manaus, cientistas monitoram dados meteorológicos da floresta. Foto: Sebastian Brill.

 
No meio da floresta, uma torre de 325 metros de altura busca entender a relação da mata com a atmosfera e ajuda cientistas a calcular os impactos das mudanças climáticas – inclusive, para um eventual futuro sem a própria Amazônia
 

A árvore mais alta de todo o território latino-americano vive no Brasil. Com quase 90 metros, o angelim-vermelho resiste no norte do Pará há pelo menos 400 anos. Apesar de ser uma unidade de conservação, a área na Floresta Estadual do Paru onde a maior árvore está fincada foi uma das mais desmatadas da Amazônia no final de 2022. A espécie é uma das riquezas ambientais ameaçadas pela destruição da floresta que abriga 10% da biodiversidade do planeta e representa uma peça-chave para entender a dimensão dos impactos da crise climática global.

Acima da copa das árvores, até mesmo do angelim-vermelho, ao norte de Manaus, uma torre de aço vigia a mata. Mais jovem do que a árvore, a estrutura inaugurada em 2015 foi chamada de Amazon Tall Tower Observatory (Observatório da Torre Alta da Amazônia), mais conhecida como torre ATTO em função da sigla. Instalada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, no centro da floresta, a torre de 325 metros é o laboratório de cientistas que monitoram e analisam as trocas entre a vegetação e a atmosfera. 

O projeto, iniciado em 2008, tomou forma a partir de uma parceria entre os governos brasileiro e alemão, inspirado em uma torre de nome parecido – a Zotto – instalada na Sibéria em 2006. No Brasil, a primeira torre para medir a interação entre floresta e atmosfera na Amazônia foi erguida nos anos 1980, mas tinha apenas 45 metros de altura. Com isso, os resultados eram influenciados pelo ambiente da copa das árvores. Desde então, pesquisadores traçaram objetivos mais altos. Hoje, o ATTO é gerido pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), junto de universidades e outras instituições brasileiras e do Instituto Max Planck, da Alemanha. 

Os dados meteorológicos, químicos e biológicos angariados a partir da torre ajudam a entender a fundo processos de trocas de gases de efeito estufa – como o metano e o dióxido de carbono –, e a influência dos aerossóis sobre a temperatura e a formação de nuvens. Em uma área preservada da floresta longe da poluição das cidades, o ATTO permite o contato com um ar quase inalterado pelas ações humanas. “Na época chuvosa, a atmosfera tem um padrão quase pré-industrial”, explica o meteorologista Luiz Machado, professor na Universidade de São Paulo e pesquisador na torre. 

O estudo de um ambiente preservado possibilita fazer comparações com lugares mais devastados, e pode ajudar cientistas a pensar como reconstruir esses ecossistemas. “A grande contribuição do ATTO é conhecer os processos de troca entre floresta e atmosfera para que esse conhecimento seja colocado em modelos meteorológicos, que possam fazer previsões de forma adequada e realista”, destaca Machado. E os resultados não ficam restritos ao clima brasileiro.

A partir de experimentos feitos na torre, cientistas já sabiam que parte significativa dos aerossóis – partículas minúsculas que ficam em suspensão no ar – da Amazônia eram provenientes do deserto do Saara. Neste ano, foi possível quantificar a dimensão desse fluxo intercontinental: durante o período seco, a fumaça africana é responsável por trazer até 60% de um tipo de aerossol originário de queimadas para a floresta, e até 90% na época chuvosa. A “poeira” africana não afeta apenas a qualidade do ar, mas também a formação de chuvas, que depende da quantidade de aerossóis disponíveis na atmosfera. Pesquisas explicam que o trânsito de partículas carrega nutrientes importantes, como o fósforo, que influencia a capacidade da mata absorver o dióxido de carbono – processo fundamental frente ao aumento de emissões de gases de efeito estufa. 

“Cada molécula de ar que você está respirando agora já foi respirada por um elefante na África, por uma pessoa na China ou na Groenlândia e assim por diante. A atmosfera é uma entidade global, como os oceanos”, resume Paulo Artaxo, chefe do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, o IPCC. Com o aquecimento, esses padrões atmosféricos podem ser alterados. “Os transportes de longa distância são fundamentais para a floresta ter nutrientes, como o fósforo. Se você muda a circulação, pode estar acabando com uma fonte de alimentação da floresta””, exemplifica Machado, citando os achados recentes em que cientistas demonstraram a importância do fósforo para a Amazônia.

Os avanços científicos engrossam o corpo de evidências de que, ao se tratar de meio ambiente, ações locais têm impactos globais. Em janeiro, na revista Nature Climate Change, um artigo demonstrou, a partir de simulações computadorizadas, uma correlação climática entre a Amazônia e regiões como o Planalto do Tibete e a camada de gelo da Antártida Ocidental. Essas áreas são chamadas de elementos de ruptura: o desequilíbrio em um destes locais pode ter  impactos a milhares de quilômetros de distância, motivadas pelos trânsitos oceânicos e atmosféricos. O desmatamento na Amazônia, por exemplo, pode estar ligado ao derretimento da camada de gelo – outrora considerado “perene” – no Tibete.

Não é preciso ir longe para ter noção da grandeza do papel da Amazônia frente à crise climática. É a floresta a grande responsável por irrigar as demais áreas do Brasil, a partir dos chamados “rios voadores”. No ciclo hidrológico da Amazônia, a umidade do oceano é transportada para a floresta, que recicla a água e emite o vapor que levará a chuva para o sul e sudeste do Brasil. O desmatamento faz com que menos vapor se conserve nesse movimento – como resultado, menos chuva chega ao resto do país. 

Alguns autores se referem ao comportamento que levou a esse cenário como “agrossuicídio”: em um país cuja economia depende do agronegócio, desmatar a floresta amazônica com esse fim é um tiro no pé. E não é algo que sentiremos só daqui a décadas. A estiagem no Rio Grande do Sul, enchentes e deslizamentos como os que ocorreram recentemente no Rio de Janeiro e em Pernambuco, períodos de calor elevado são apenas alguns dos eventos extremos que devem se multiplicar e intensificar se não forem tomadas ações urgentes. Ao destruir a floresta, importantes serviços que a Amazônia presta ao clima já vêm sendo prejudicados.

Em 2021, uma equipe com presença de cientistas brasileiros publicou achados alarmantes na revista Nature: em determinadas áreas mais desmatadas e queimadas – que incluem o Pará, lar do angelim-vermelho –, a floresta amazônica já emitia mais CO2 do que absorvia. A própria Amazônia conta com uma gigantesca reserva de carbono, e é natural que a floresta emita esse gás, mas em condições normais ela deveria remover da atmosfera mais do que produz. Mas com a diminuição de sua capacidade de fotossíntese, a mata se torna incapaz de capturar CO2 como costumava. “Se você desmatar a floresta, esse estoque de carbono vai para a atmosfera, correspondendo a cerca de 10 anos de toda a queima de combustíveis fósseis”, explica Artaxo. Nesse ritmo, a seca se intensifica, os padrões de chuva se alteram e o clima se desequilibra de forma geral. 

Ainda não se sabe quanto tempo temos antes que as mudanças na Amazônia sejam irreversíveis, mas o ponto de inflexão já vem sendo forçado. “Há pesquisadores que colocam que essa transição da floresta amazônica já está acontecendo. Outros estimam que se a taxa de desmatamento chegar em torno de 30% da área original ou se o aumento da temperatura global do planeta atingir 3 graus, isso pode levar a floresta a um colapso”, alerta Artaxo.

O cenário não é promissor, mas uma coisa é certa: não há mitigação da crise climática sem a Amazônia. O último relatório do IPCC alertou que, de 1970 para cá, a temperatura global subiu mais rápido do que em qualquer outro período dos últimos 2 mil anos. Em 2019, as concentrações de CO2 já eram mais altas do que em qualquer outra época dos últimos 2 milhões de anos.

Sem um reforço nas políticas mundiais contra o aquecimento global, estima-se que o aquecimento atinja 3,2 ºC no final do século. Um cenário em que, se as pesquisas estiverem certas, a Amazônia como conhecemos hoje já teria deixado de existir há muito tempo. 


*Valentina Bressan é repórter da Fronteira, estúdio especializado em reportagens. Tem textos publicados no Matinal, ((o))eco, e nas revistas Claudia, Veja Saúde e Crescer.

Fonte:  https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/edicao-mensal/reportagem-edicao-mensal/a-torre-a-amazonia-e-o-aquecimento-global/?utm_source=Assinantes&utm_campaign=aebb9c15af-EMAIL_CAMPAIGN_2023_06_23_05_06_COPY_01&utm_medium=email&utm_term=0_-8f111ae278-%5BLIST_EMAIL_ID%5D&mc_cid=aebb9c15af&mc_eid=02eb3e5cec

“O inferno de Dante em laudas burocráticas”: advogados, juízes e procuradores pedem justiça mais breve: no tempo e no número de palavras

Rui Gustavo*

“O inferno de Dante em laudas burocráticas”: advogados, juízes e procuradores pedem justiça mais breve: no tempo e no número de palavras

Uma carta aberta assinada por magistrados como Euclides Dâmaso, Maria José Morgado ou Santos Cabral - entre muitos outros, incluindo os advogados Sá Fernandes, Rogério Alves e Saragoça da Matta - apela a menos palavras e mais simplicidade tanto nas acusações como nas contestações das defesas ou nos acórdãos dos juízes,

Os mais de 30 signatários “rogam” às escolas e aos Conselhos Superiores que intervenham e acreditam que só assim se pode alcançar a paz na justiça.

A carta na íntegra:

"CONTRA A PROLIXIDADE NA JUSTIÇA PENAL

Um dos deveres a cumprir pela Justiça num Estado civilizado é garantir que as decisões definitivas dos casos sejam proferidas pelas suas autoridades em prazo razoável e mediante processo equitativo. É isso mesmo que se acha estatuído no nosso texto constitucional.

A razão do temor de delonga excessiva, no que à jurisdição criminal se refere, radica na própria natureza e fins das penas, que se diluem com o passar do tempo, e com os interesses das vítimas e dos suspeitos. Importa impedir que, perante a demora, as primeiras se sintam desamparadas e lancem mão de expedientes de vindicta privada e os segundos ardam indefinidamente no purgatório da fogueira mediática sem fundamento estabelecido.

A demora excessiva, por vezes ao ponto de descaracterizar todo o sentido do processo e da decisão, radica em boa medida na dificuldade em compatibilizar o cumprimento rigoroso dos formalismos processuais com a prolixidade excessiva das peças produzidas pelos vários operadores judiciários. Nas três últimas décadas, sem que o legislador o tivesse autorizado, pois as regras vigentes não diferem das que as precederam há quase um século, passaram a ser proferidas acusações de dimensão extraordinária, a que se seguiram contestações e outros expedientes de defesa de idêntico jaez e decisões judiciais de consequente enormidade.

A comparação de qualquer dessas peças processuais com as que eram anteriormente correntes faz ressaltar abissais diferenças de dimensão: para o que se continha em dez páginas passaram a utilizar-se cem. Nas acusações misturam-se os factos caracterizadores da infração, exigidos por lei, com a narrativa das diligências de recolha da respectiva prova, transcrevendo-se muitas vezes os relatórios policiais sem preocupações de depuramento. Nas peças de defesa imperam atitudes de excesso acautelatório, motivadas por subliminar desconfiança, que levam a repetições constantes e a conclusões caricaturais, tal a ausência de síntese. As decisões judiciais, já inquinadas à partida por esses pressupostos, são o inferno de Dante em laudas burocráticas: os relatórios alongam-se, as citações abundam e o essencial perde-se no meio de toda essa palha.

Em prol de uma justiça mais célere e atempada, é tempo de refrear esta tendência para o excesso. Até porque não há, sem uma intrusão excessiva e quiçá indesejável de instrumentos de inteligência artificial no campo das decisões judiciárias, capacidade humana para absorver devidamente, em prazo razoável, o conteúdo de quatro ou cinco mil páginas de texto denso e minucioso e daí extrair conclusões que terão feorosas.

Os signatários desta declaração, preocupados com o potencial erosivo do arrastar de processos de grande sensibilidade social na imagem da Justiça e do Estado de direito, convocam os Juízes, Procuradores, Advogados e Solicitadores a refletirem sobre a questão e a porem cobro a essa cultura de excesso, de desperdício de energias e de tempo, voltando a dar às petições, requerimentos, motivações e decisões que apresentem o rigor de forma e a concisão que antes eram seu apanágio. Até porque é esta a prática dominante em foros internacionais de indiscutível prestígio. E sobretudo porque, concorrendo com outros vícios, como o predomínio da forma sobre a substância e um positivismo extremado, a prolixidade e a falta de rigor expositivo e de síntese são ingrediente decisivo de fermentação dos megaprocessos em que naufraga qualquer intenção de Justiça atempada.

Simultaneamente rogam às Escolas de Direito, ao Centro de Estudos Judiciários, aos Conselhos Superiores das Magistraturas, à Ordem dos Advogados e à Ordem dos Solicitadores e Agentes de Execução que ativamente contribuam, com todos os meios ao seu dispor, para o alcance deste importante objetivo."

Alfredo Castanheira Neves , Ana Pais ,António Francisco Martins, António Lima Cluny, António Pereira Madeira, Armindo Santos Monteiro, Eduardo Maia Costa, Euclides Dâmaso Simões, Fernando Fróis, Filipe Preces Ferreira, Francisco Espinhaço, Gabriel Catarino, João Conde Correia, João de Castro Baptista, João Manuel Sousa Fonte , João Correia, Joaquim Vicente de Matos, Jorge Quinta Leitão, José António Henriques dos Santos Cabral, José Conde Rodrigues, José Luís Trindade, Leopoldo Camarinha , Manuel Rascão Marques, Maria do Carmo Silva Dias, Maria José Morgado, Mário Tavares Mendes, Norberto Ferreira Martins, Orlando Maçarico, Paulo Saragoça da Matta, Raul Eduardo Raposo Borges, Ricardo Sá Fernandes, Rita Castanheira Neves, Rogério Alves, Rui Pires de Almeida , Victor Matos Franco

* Jornalista

Fonte: https://expresso.pt/sociedade/2023-06-25-O-inferno-de-Dante-em-laudas-burocraticas-advogados-juizes-e-procuradores-pedem-justica-mais-breve-no-tempo-e-no-numero-de-palavras-7d1f4a4d