domingo, 29 de janeiro de 2012

Rubem Alves - Trechos de leituras dominicais

Rubem Alves*

Imagem da Internet: Montes de Feno - tela de Monet
"As telas de Monet entraram no meu pensamento provocadas por uma estranha advertência que encontrei num texto de Kierkegaard. Trata-se de uma exigência que ele faz àqueles que escrevem. Ele diz: “A pessoa que fala sobre a vida humana, que muda com o decorrer dos anos, dever ter o cuidado de declarar a sua própria idade aos seus ouvintes.”
Não conheço nenhum outro filósofo que tenha jamais feito declaração parecida. Quem diz coisa semelhante parece estar enganando o próprio ideal do saber filosófico, que é a busca da verdade. A verdade independe das oscilações do ser do filósofo. Ela possui uma objetividade que a salva desse espelho líquido inquieto que é a subjetividade do pensador. A idade do matemático nada tem a ver com a verdade do seu teorema. Essa coisa que oscila com o tempo poderia ser, talvez, poesia, mas não filosofia. E seria precisamente isso que uma vaca diria a Monet, se a ela fosse dado o dom da fala. “Um monte de feno pela manhã é o mesmo monte de feno ao entardecer. A minha fome o comprova. E para a minha fome a luz não existe...” Boa ontologia escreveriam as vacas, se elas pensassem...
Imagine então que, talvez, Kierkegaard estivesse mais próximo de Monet que dos filósofos. Ele sabia que o Ser é sensível à luz. Há de fato, um Ser pornográfico, o Ser conhecível, que se desnuda sem pudor sob a luz do sol a pino, e a ele Descartes e seus seguidores têm dedicado as suas mais rigorosas investigações. Mas há um outro Ser que foge do excesso de luz. É o ser amoroso. O amor precisa da luz das velas. O ser erótico prefere despir-se com pouca luz. “Parece que existem em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante”, disse Bachelard em A chama de uma vela (p.14), livro que é uma realização prática do conselho de Kierkegaard. Bachelard confessa a sua idade. Um jovem não poderia ter escrito aquele livro. É diante da página branca colocada sobre a mesa na justa distância da minha lâmpada que, realmente, estou à minha mesa de existência. Tudo em volta de mim é repouso, é tranquilidade; meu ser só, meu ser que procura o ser... Mas será que ainda há tempo para mim...?
Esta pergunta, “Será que ainda há tempo...?” é a pergunta de um homem que percebe que a vela está chegando ao fim. Os filósofos pensam sob a luz de lâmpadas fluorescentes. Os poetas pensam sob a luz de velas.

"É muito difícil viver numa universidade e
 continuar a cultivar os próprios pensamento.
É muito mais seguro ficar moendo
os pensamentos dos outros."
-Nietzsche-

Faço a mesma pergunta: “Será que ainda há tempo?”. Mudei. Mudaram-se os meus olhos. Passei a ver o mundo de forma diferente, banhado por uma luz crepuscular. As ideias que aparecem aos crepúsculo não são as mesmas que tivemos pela manhã. Esse livro deveria ser lido sob a luz das velas. Este livro é sobre a educação, vista sob a luz crepuscular.
Não sei se foi a velhice que abriu os meus olhos ou se ela, a velhice, simplesmente me deu coragem para dizer o que eu sempre vira e não dissera, por medo.
Vivi muito tempo no mundo acadêmico. O mundo acadêmico é um lugar perigoso. Dá medo. Nietzsche muito cedo se sentiu incapaz de respirar o seu ar. Sobre o perigo de se viver na universidade ele fez uso de metáforas sinistras: “Eles se assentam frios na sombra fria: em tudo eles desejam ser apenas espectadores. Como aqueles que ficam nas ruas observando os passantes, eles esperam para observar os pensamentos que os outros pensam. [...] Eles se vigiam uns aos outros com atenção e desconfiança. Férteis em espertezas mesquinhas, eles ficam tocaiados esperando os que andam com pés trôpegos: como aranhas eles esperam” (Assim falou Zaratustra FN II(II), p.655).
Durante muitos anos, não tive coragem para dizer o que eu sabia. Por medo. As inquisições não são monopólios das igrejas e não se fazem só com lenha e fogo. É muito difícil viver numa universidade e continuar a cultivar os próprios pensamento. É muito mais seguro ficar moendo os pensamentos dos outros. Na universidade é mais seguro falar sobre aquilo que outros falam Nietzsche percebia isso acontecendo nas universidade alemãs: “Os eruditos que hoje em dia fazem pouco mais que comer livros [...] acabam por perder totalmente a capacidade de pensar por si mesmos. [...] Os eruditos gastam todas as suas energias dizendo Sim e Não, na crítica daquilo que outros pensam – eles mesmos não pensam mais.” (FN III (II) p. 540, Assim falou Zaratustra).
Esse hábito, me parece, é uma decorrência da falta de coragem para pensar os próprios pensamentos. Somos dominados pelo fetichismo do livro. O que o livro diz tem de ser melhor que aquilo que penso. Schopenhauer advertiu os leitores de que, “quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos o seu processo mental. [...] Daí se segue que aquele que lê muito ou quase o dia inteiro, e que nos intervalos se entretém com passatempos triviais, perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria. Esse é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos”. (Arthur Schopenhauer, Über Lesen und Bücher – Sobre livros e leituras, p.17).
O método de justificar o que se diz por referência ao que outra pessoa escreveu em outro livro é característico da literatura teológica da Idade Média: o que o autor diz é verdade porque a mesma coisa foi escrita por outra autoridade, no passado. Em outras palavras: o que eu digo está comprovado porque outro já disse.
É preciso coragem para dizer o que se pensa. “Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para dizer aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. ( FN III (II), p.943, O crepúsculo dos ídolos). Albert Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe sobre a hora em que a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. (Albert Camus. Primeiros cadernos, p.438). A coragem chega ao entardecer. A coragem chega na velhice. A velhice é a hora em que se ganha coragem para se dizer o que se soube sempre. É a hora da sabedoria. Hegel sabia disso e observou que “a coruja de Minerva só abre suas asas quando cai o crepúsculo”. Mas a essa linda metáfora poética ele acrescenta uma nota pessimista: “Quando a filosofia pinta o seu cinza sobre o cinza, é porque uma forma de vida ficou velha. Por meio do cinza sobre a cinza da filosofia a vida não pode ser rejuvenescida, mas apenas compreendida. (A filosofia do direito, p. 7. O “cinza sobre o cinza” é uma referência ao Fausto, de Goethe, onde está dito que “cinzenta é toda a teoria”.)
Hegel acreditava em metamorfoses. Mas, fascinado pela ideia da história, ele só as via acontecendo em épocas históricas. O tempo da vida individual era muito insignificante para fazer diferença. Mas eu acredito nas metamorfoses no tempo da vida dos indivíduos. Metamorfoses e ressurreições. É por isso que escrevo.
Na velhice, o medo se vai porque não se tem mais nada a perder. A proximidade da morte nos dá um atributo dos deuses: nada de mais terrível nos pode ser feito.
Essa é a razão para a crença de que as palavras dos que vão morrer são sempre palavras verdadeiras. As últimas palavras dos moribundos devem ser as palavras da verdade! Camus fala de um homem que, ao se preparar para dizer as suas últimas palavras, descobriu que as tinha esquecido. Como não desejo que isto aconteça comigo, trato de dizê-las agora, enquanto me lembro delas. A proximidade da morte tem efeito sapiencial: ela nos abre os olhos para perceber o essencial. Há uma lucidez que só acontece quando a vela se apaga. “Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer”, disse Fernando Pessoa (Obras poéticas, p.363)."
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Exceto do livro: Alves, Rubem: Variações sobre o prazer: Santo Agostinho, Nietsche, Marx e Babette. SP, Editora Planeta do Brasil, 2011, pp. 46/50.
Imagem da Internet.

O tempo, este juiz!

Luno Volpato*

Io sono il tempo e tu non potrai fermarmi.
Non ci provare neanche, è solo tempo sprecato,
e a me non piace che mi si sprechi.
Ci hanno provato in tanti a rallentarmi,
alcuni volevano addirittura ingannarmi,
ma io ho riso loro in faccia.
Mi facevano davvero sbellicare...
E adesso tu mi dici che è tutta colpa mia,
che sono spietato, che sono il tuo peggior nemico.
 A queste tue accuse non posso che risponderti
con una risata più forte, perché
tu capisca che non sono io il tuo problema.
Non sono il problema di nessuno.
Io sono solo il tempo.
(Acréscimo do Blog:Eu sou o tempo)
No mundo tridimensional em que vivemos, o tempo é medida fundamental e serve de parâmetro para os atos e acontecimentos de nossa vida. Equivocadamente, o tempo não passa, nós é que passamos, e ao passar deixamos as marcas e o estilo que imprimimos a nossa trajetória. Quer queiramos ou não, ninguém escapa às garras do tempo.
O tempo simplesmente é. Não interfere, mas nos vigia de perto, acompanha nossos passos, espreita nossas iniciativas, aplaude nossas conquistas, reprova nossos equívocos e lamenta nossa inconsciência. Paciente, espera que descubramos os segredos e as entrelinhas da vida, nos vaivens das ondas, nas auroras e crepúsculos, nos fracassos e conquistas, na grandeza e mesquinhez de nossos atos. É nosso aliado e escancara um leque de possibilidades para nossa autorrealização.
Diz-se que o tempo, antigamente, passava mais lentamente. Ledo engano! Nós é que mudamos nossos hábitos, nossa agenda... A loucura dos tempos modernos não nos permite fazer tudo em 24 horas e culpamos o tempo. O tempo é parceiro dos que o valorizam.
Se o tempo é implacável, aproveitemo-lo de melhor maneira. Se você resolver fazer uma faculdade, faça-a. Daqui a cinco anos o tempo terá passado e você, adquirido novas credenciais para sua vida. Quando não, será uma pessoa mais bem informada, consciente do que está acontecendo a sua volta e pertencente ao significativo círculo de pessoas com nível superior. Caso contrário, os cinco anos passarão inevitavelmente e você exclamará: "Ah! Eu poderia ter feito!" Isto no campo material.
No plano existencial também há mil caminhos. A vida, via de regra, oferece chances em abundância. Busque um caminho, preencha seu espaço, invista em suas potencialidades e realização pessoal, teste seus limites, valorize seu esforço, priorize sua vontade. Dê chance à sua imaginação e capacidade de superação. Encontre-se consigo mesmo, sem dúvida, a grande descoberta da vida. Valorize seu impulso interior. A consciência não tergiversa, não se equivoca e não se deixa influenciar. É voz pura e sinal luminoso para anseios e promessas.
Ainda outro dia fiz essas considerações para uma aluna no final do Ensino Médio. Ela teimava em desistir de estudar e ponderei que valeria a pena continuar e priorizar seu destino, mas caberia a ela a decisão. E o tempo correu. Acabo de receber o convite de sua formatura. É uma nova profissional na área da psicologia. Exemplos não faltam. O tempo espera, o acaso espera, mas a decisão é exclusivamente sua. E intransferível!
Podemos recomeçar sempre, e isto é um quadro estimulante para aqueles que, numa quadra da vida, frustrarem as próprias expectativas. Mas nem sempre o recomeço se reveste dos mesmos pressupostos, ou seja, o fato de você recomeçar aos 20 anos, ou aos 50 anos, implica análises diversas, pois a rigor, os horizontes se ampliam para os primeiros e se reduzem para os últimos. No entanto, como o futuro é incerto poderá ser generoso para os de 50 e limitar-se para os de 20. Na dúvida, recomece! O tempo pode conspirar a seu favor e resgatar as chances perdidas.
Sendo o tempo inexorável, alie-se a ele, tenha-o como parceiro e desta combinação advirão grandes conquistas. Mas não permita que a indiferença faça pouso em sua alma e arrefeça seus ideais. Pense alto e mesmo em face de uma queda tenho os olhos voltados para horizontes coloridos e cortinas de luz. Viva como se cada momento fosse o último, mas imagine-se um imortal, porque é isto que você é, membro da imortalidade. Somente da matéria não restará pedra sobre pedra! Mas a chispa divina que está em tudo que foi criado, esta sobrevivência aos ventos e tempestades, às tribulações e vicissitudes.
Associe-se ao tempo, tome-o pelas mãos e construa uma identidade que o torne senhor de seu destino. Não perca a chance de escrever sua própria estória com páginas de exaltação à vida, privilégio raro para que possamos realizar, construir caminhos memoráveis e jornadas inesquecíveis.
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*Escritor. Poeta. Membro da Academia Campinense de Letras e mestre em Língua Portuguesa.
Fonte: Correio Popular on line, 29/01/2012
Imagem da Internet

sábado, 28 de janeiro de 2012

Quem dá nome às coisas?

Tudo que existe no mundo tem um nome. Mas quem são as pessoas que têm a missão de nominá-los? O poeta e filólogo Fernando Beltrán é um dos pioneiros desta profissão, imprescindível e ao mesmo tempo desconhecida
Na foto acima, o conselheiro diretor-geral de Amena,
Belarmino García (esquerda), e
o diretor de comunicação, Manuel Bueno (direita).
Amena se transformou em uma marca
conhecida em nível mundial

Laura Serrano-Conde
Da EFE

Todas as coisas têm seu nome. Desde o dia em que nasce o ser humano se esforça para dar nome aos objetos que quer, porque o nome é a referência.
Mas quem é a pessoa encarregada de escolher os nomes dos objetos? O poeta e filólogo Fernando Beltrán (Astúrias, 1956) é um nominador profissional, um ofício imprescindível e apaixonante, mas pouco conhecido das pessoas.
Seu trabalho é "dar nome às coisas". Ele não é publicitário, não é vendedor, nem escolhe a marca de um produto. Ele escolhe uma palavra para nomear algo que até o momento era inominável e o transforma em realidade.
Ele é um nominador, um ofício necessário e apaixonante, e graças ao qual é possível chamar pelo nome hoje a bebida Naranyá, o supermercado Opencor, o zoo Faunia e a cadeia hoteleira Be Live.
"A maioria das pessoas não sabe o que é um nominador. Nós colocamos nomes nas coisas, porque o nome é algo fundamental. Eu sempre digo que uma imagem vale mais do que mil palavras, mas nunca mais do que uma palavra", revela à Agência Efe Beltrán, que acaba de publicar seu livro "El nombre de las cosas", no qual explica em que consiste esta peculiar forma de ganhar a vida.

Fotografia do autor, Fernando Beltrán, cedida pelo Editorial Conecta
Um poeta que perseguiu seu sonho

Fernando Beltrán soube desde criança que seu destino era ser poeta. Ele sempre foi "um romântico empedernido", e quando completou 18 anos, contra a vontade de seus pais, saiu de casa para construir seu futuro literário.
Ninguém me entendia, mas eu era apaixonado pela poesia. Meu pai era um grande advogado e queria que eu estudasse Direito como ele, mas não segui essa carreira", confessa.
Beltrán se transformou em um poeta e como todo bom poeta, viveu sempre de outra profissão. Foi administrador, livreiro, jornalista, roteirista de cinema e publicitário.
"Experimentei muitas profissões que sabia eram circunstanciais, que quando me viesse a inspiração para escrever ia deixá-las, mas era preciso viver. Quando comecei a trabalhar na agência de publicidade, percebi que as empresas gastavam milhões em anúncios e na imagem do produto, mas o nome era considerado algo secundário", lembra.
E foi assim que em 1989 ele decidiu montar sua própria empresa, "El nombre de las cosas", e inventar um novo ofício.
"Não sou publicitário, não faço desenho gráfico, eu crio nomes. Também não invento marcas, confusão que as pessoas frequentemente fazem. O que eu faço é escolher um nome que depois, com o tipo de letra e a cor, pode chegar a ser uma marca", indica.
"O nome sempre está dentro do nomeado. Eu só tiro o pó e descubro", conta.

Amena, a galinha dos ovos de ouro

Seu começo não foi fácil. Ele trabalhava sozinho e sobrevivia a duras penas com o pouco dinheiro que entrava. Até o dia em que recebeu a oportunidade.
Tudo mudou quando uma conhecida companhia telefônica espanhola, que procurava uma marca para uma nova linha de celulares, contratou uma empresa e esta, por sua vez, terceirizou a criação do nome para ele. Após muitas horas de trabalho e várias folhas gastas, nasceu Amena (agora a Orange), o nome que o catapultou ao ponto mais alto.
"Foi uma explosão. Escolhi porque era uma palavra diferente, agradável, quente e feminina. Cobrei uma miséria por esse trabalho, nem digo quanto porque me dá vergonha, mas isso abriu as portas para novos clientes e desde então não pararam de chover novos contratos", afirma.
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Fonte: http://noticias.br.msn.com/

Pensamento da noite

A premissa do humanismo moderno: sobre o qual John Corrol escreveu:


“ Ele tentou substituir Deus pelo homem, colocar o homem no centro do Universo... Sua ambição era encontrar uma ordem humana sobre a Terra, na qual prevalecessem a liberdade e a felicidade, sem apoio transcendentais ou sobrenaturais – uma ordem inteiramente humana... Mas, para o individuo se tornasse o ponto focal do Universo, ele deveria ter um lugar para se apoiar que não se movesse sob seus pés. O humanismo precisava construir uma rocha. Tinha de criar do nada algo tão forte quanto a fé do Novo Testamento, capaz de mover montanhas”.
(John Carrol, Humanismi: The wreck of western culture, Londres, Fontana Press, 1983, p.2)
citado no livro: Bauman, Zygmunt. Ensaios sobre o conceito de cultura. Zahar, RJ, 2012, p. 14.

Boaventura vê capitalismo e suas sete ameças

Antonio Martins*

Sociólogo afirma, em Porto Alegre,
que só é possível enfrentar crise ambiental
atacando também desigualdade e
declínio da democracia
“Por cinco séculos, a Europa procurou ensinar ao mundo sua forma de enfrentar as crises e vencê-las. Fez isso com ideias e guerras, com missionários e genocídios. Mas se esqueceu que detinha apenas uma parte do conhecimento. Fechada em si mesma, não pode mais aprender. Por isso, está à beira de um abismo, do qual dificilmente escapará.
No meio da manhã desta quarta-feira (25/4), o sociólogo português Boaventura Sousa Santos está abrindo uma conferência para cerca de trezentas pessoas, que participam do Fórum Social Temático (FST), em Porto Alegre (sul do Brasil) e municípios de sua região metropolitana. O FST é um desdobramento, em pequena escala, dos Fóruns Sociais Mundiais (FSMs), lançados na mesma capital em 2001. Debate um assunto específico (“Crise capitalista, justiça social e ambiental”). Reúne cerca de 10 mil pessoas. Mas mantém, como todas as edições do FSM, a mesma aposta num futuro de democracia radical, relações sociais baseadas na garantia dos direitos humanos e fim das hierarquias internacionais que dividem o planeta entre “centro” e “periferia”.
Outra cidade brasileira, o Rio de Janeiro, sediará, em junho, a conferência Rio+20, da ONU. Por isso, a crise ambiental é um tema-chave em Porto Alegre. Boaventura discorda da abordagem que se dá tradicionalmente a ela. “Um primeiro problema primeiro é a disputa pela definição da natureza da crise”, diz ele. “Vê-la como mera mudança climática é muito reducionista. A crise é econômica, financeira, energética, ambiental, civilizacional”. O sociólogo chega, então, ao primeiro ponto central de sua análise. “Como disse Marx, as microirracionalidades do capitalismo conduziam à marcroirracionalidade da vida”.
Nos próximos 50 minutos, a fala densa de Boaventura tentará destrinchar as “sete ameaças” em que se desdobra esta marcoirracionalidade. Na plateia, dezenas de pessoas registram seus argumentos em cadernos, fotografam a sociólogo com câmeras ou celulares ou simplesmente acompanham a exposição de suas ideias.
Das ameaças elencadas por este professor das universidades de Coimbra (Portugal) e Madison (Estados Unidos), quatro estão diretamente relacionadas à crise da democracia; as outras três, à desigualdade e, em particular, ao poder que as grandes corporações alcançaram para contornar os poderes tradicionais e se apropriar da riqueza coletiva por meio de mecanismos sobre os quais as sociedades não conseguem ainda incidir.
A primeira ameaça é, para Boaventura, a desorganização do Estado. “O capitalismo, em sua forma atual, já não precisa da democracia”, diz ele. Por isso, dois países da Europa (Itália e Grécia), além do Banco Central Europeu, são governados por “vice-reis”, antigos executivos do banco de investimentos Goldman Sachs. E os Estados, que durante séculos basearam seu poder na arrecadação de impostos, agora eliminam tributos e se orgulham de manter suas funções apoiando-se nos mercados financeiros.
“Mas as dívidas que eles fazem precisam ser pagas um dia, e os cidadãos estão sendo chamados a contribuir pesadamente para este pagamento”, pensa o sociólogo. O pior, no caso europeu, é um desenvolvimento particular da “síndrome de Estocolmo”, fenômeno que leva as vítimas de um sequestro a se identificarem com seus algozes. “Para vocês, na América Latina, o que estamos vivendo é um déjà vu. Para sair da crise, América Latina, Ásia e África, aprenderam a desobedecer. A Europa não quer fazê-lo porque sempre se viu como parte dos que comandam…”.
Em paralelo à desorganização do Estado, caminha a desconstrução da democracia, segunda identificada por Boaventura. “O regime democrático costumava ser mais que o direito elementar de depositar um voto numa urna. Significava ter acesso a saúde, educação, bem-estar. Esta parte da democracia foi sequestrada pelo neoliberalismo. E já nem precisam de ditaduras, porque a própria democracia tornou-se uma ditadura, neste aspectos. Está emergindo um totalitarismo gradual, diferente do fascismo. Os direitos mais elementares são cortados. As sociedades conservam-se formalmente democráticas, mas socialmente fascistas”.
Os dois outros riscos relacionados com o sistema político são criminalização da dissidência e a recolonização da diferença. Para abordá-los, Boaventura refere-se a um caso conhecido dos que o escutam. A cerca de mil quilômetros de Porto Alegre, o Brasil viveu, neste domingo (22/1), um ataque brutal do Estado a um direito social. Dois mil soldados da Polícia Militar desalojaram, em nome do direito à propriedade, 6 mil pessoas que haviam ocupado e transformado em bairro, o Pinheirinho – uma área abandonada, pertencente a um grande especulador nos mercados financeiros.
“O que ocorreu no Pinheirinho”, diz o sociólogo, “é uma pequena mostra do que se passa num continente onde os mapuches chilenos são aprisionados por resistirem ao desmatamento e às mineradoras, onde os indígenas são mortos no Peru quando querem defender suas terras das transnacionais que cobiçam o subsolo”. Ele prossegue: “Além de criminalizar os dissidentes, o sistema que reenquadrar os diferentes. Ao contrário do que podíamos pensar, racismo está de volta e com força. Não há sinal de que sexismo tenha terminado, nem de que as diferenças sexuais sejam respeitadas”. Estas manifestações são resquícios da dominação colonial, que agora derivou em preconceito”.
Para Boaventura, este reaprisionamento do Estado e ataque à democracia está relacionado com três movimentos do capital para apropriar-se da riqueza produzida coletivamente. O primeiro é a devastação acelerada da natureza, tema da Rio+20. “Ela é real é importantíssima, mas não existe sozinha. Nos últimos vinte anos, grandes transnacionais – principalmente as que atuam com transgênicos, agronegócio, medicamentos, conquistaram poder inédito. Nos Estados Unidos, por exemplo, elas são capazes de manter três lobistas para cada membro do Congresso”.
Boaventura não crê no chamado “capitalismo verde”. Ele apoia esforços como o de buscar fontes limpas de energia, mas pensa que serão vãos, caso as sociedades não evoluam para novas formas de produção e consumo. “E aqui – diz – as metrópoles terão um papel fundamental, porque é onde viverá, em breve, a maioria dos habitantes do planeta. O consumo responsável precisa ir além de guardar convenientemente o lixo. Ele precisa identificar os componentes dos produtos onde há sangue – meu celular, por exemplo, produzido com componentes extraídos dos territórios de antigas comunidades africanas. E pode empregar a força coletiva das metrópoles para distinguir o que não merece ser consumido ou produzido”.
A segunda ameaça relacionada a ataque a direitos sociais é a desvalorização do trabalho, ou empobrecimento generalizado dos povos. “Falamos do precariado (os trabalhadores que não têm direitos sociais) e do ciberiado (os que são obrigados a se manter todo o tempo ligados à internet, para produzir). O problema é que esta confusão entre tempo de trabalho e tempo livre s está produzindo dividendos para o capital. Trabalha-se no escritório, no ônibus, em casa. Os tempos livres, quando existem, estão todos colonizados pelo consumo. Passa-se o tempo em shopping centers – e depois, trabalhando novamente, para pagar as contas do consumismo…
“Em paralelo, há um regresso às formas de exploração que foram, no passado, caracterizadas como ‘acumulação primitiva’ de capital. Expulsam trabalhadores de suas terras. Eliminam-se direitos, como salários, subsídios, pensões. Isso é um terrorismo de Estado, promovido pelos Estados em tempos chamados de… ‘democráticos’!”.
A sétima ameaça é, para Boaventura, a comercialização do conhecimento. “Tenta-se fazer o que não se conseguiu até agora, que é destruir pensamento crítico. As Universidades – inclusive parte das que são públicas – valorizam o conhecimento segundo seu valor de mercado. Não se considera mais a curiosidade científica. Nos Estados Unidos, em certos departamentos de Biologia, há professores que só se promovem se ao seu lado houver uma empresa financiadora. Eu pergunto: qual o valor das humanidades, da poesia ou da literatura, neste sistema?”
Boaventura vê novos desafios para os movimentos que se articulam em torno do Fórum Social Mundial, nesta nova fase. “Estou em Porto Alegre para relançar, num conjunto de seminários, a Universidade Popular dos Movimentos Sociais. As oficinas que começamos a realizar mostram claramente que movimentos precisam se articular-se como nunca fizeram antes. Mulheres com operários, lésbicas com os que constroem a economia solidária, camponeses e pequenos empreendedores, muitas outras combinações. Se as ameaças estão bem articuladas, os movimentos também precisam preparar-se para isso.
Segundo o sociólogo português, três desafios podem inspirar estas articulações: os de democratizar, descolonizar, desmercantilizar.
“Democratizar exige radicalidade”, diz ele. E explica: “Defino socialismo como sinônimo democracia sem fim, em todos os espaços. Não apenas nas instituições – mas no trabalho, em casa, na cama, Os partidos têm de entender que não têm o monopólio de representação política. Nem os movimentos, aliás, o têm. Estamos caminhando para um tempo de presenças. Presenças coletivas na rua, ocupando espaços que o capital reivindica, não ligadas necessariamente a um movimento instituído.
“Já no esforço por desmercantilizar a vida, as cidades têm papel enorme. É preciso retirar da esfera do comércio mercantil dimensões como as a cultura, a mobilidade urbana, as vivências, a sociabilidade. Os resultados são imediatos. Por exemplo: a cultura, que está sendo banalizada, ressurge imediatamente como espaço de resistência, quando tratada como um direito e uma inspiração humana”.
Ao abordar a descolonização, Boaventura – que apoia os governos de Dilma Rousseff na presidência do Brasil e do governador Tarso Genro, no estado do Rio Grande do Sul, lança-lhes algumas alfinetadas. “O Brasil, que tem criado tantos bons paradigmas, não pode estar ao lado do neoliberalismo, nem orgulhar-se do ‘novo’ Código Florestal, ou de abreviar os processos de licenciamento ambiental para apressar algumas grandes obras”.
O sociólogo confessa, ao final: “Sou um otimista trágico. Acredito nas mudanças do mundo, mas sei que elas custarão enorme esforço, mobilização, às vezes dores”. Ele faz previsões para os anos 2010: “sta década vai exigir líderes mais esclarecidos, mais imaginativos; e movimentos sociais mais aguerridos. A luta contra fascismo social faz-se nas instituições, mas também na defesa, nas ruas, de uma democracia sem fim.
A fala de Boaventura ocorreu no âmbito de uma das principais atividades do FST: um seminário organizado em Canoas, pela rede que organizada o Fórum de Autoridades Locais de Cidades de Periferia (FALP). Criada em 2006, no I FALP, realizado em Nanterre (periferia de Paris), esta articulação promoveu um segundo encontro em 2010, em Getafe (periferia de Madri). Prepara um III FALP em Canoas, em junho de 2013.. Será o primeiro no hemisfério Sul. Espera-se que reúna mais de mil autoridades, de 200 metrópoles do planeta. O seminário inaugurado dia 25 é preparatório para a atividade do próximo ano.
A conferência do sociólogo foi antecedida por exposições de autoridades gaúchas e brasileiras. O presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Adão Villaverde, destacou a importância de adotar, a partir das cidades de periferia, dinâmicas de democracia participativa. “Está em nosso poder criar estruturas de partilhamento. Não significa deixar de tomar decisões, de ser positivos. Mas temos várias experiências de participação real e podemos multiplicá-las”, frisou.
O prefeito de Nanterre, Patrick Jarry, saudou a disposição de Canoas, de sediar o III FALP Sustentáveis”. Sobre a valorização das periferias de metrópoles, destacou: “Não queremos ser os invisíveis de um planeta que está se tornando majoritariamente urbano. O olhar da periferia, seus desejos e escolhas não podem ser submetidos. Para que outro mundo seja possível, nossos territórios de periferia jogarão um papel essencial”.
Muito aplaudido por um público formado principalmente por habitantes de Canoas, o prefeito da cidade, Jairo Jorge, citou o escritor italiano Italo Calvino, para quem “não importam numa cidade suas 7 ou 77 maravilhas. Mas as respostas que dá a suas perguntas”. Frisou que “há novas perguntas, para novos problemas. As mudanças climáticas, por exemplo, não derrubam apenas as pedras das cidades. Elas tragam vidas, que estão na maioria das vezes na periferia das regiões metropolitanas”. Concluiu afirmando que “é preciso debater uma agenda que apresente voz da periferia. Ela significa propor um novo conceito: o metrópoles solidárias, democráticas, sustentáveis – e livres de preconceitos.
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Reportagem  Por Antonio Martins
Fonte: http://www.outraspalavras.net/2012/01/28

“Modelo do Fórum já é o caminho para a construção da alternativa”

Sérgio Haddad

Membro do Grupo de Reflexão e
Apoio ao Processo do Fórum Social Mundial e participante desde a primeira edição do evento,
o educador Sérgio Haddad avalia
que depois de 12 anos é possível assegurar
que o método está correto, mas admite
que em certo grau, o encontro tem dificuldades
de dar respostas. "A metodologia do Fórum
 já é um caminho para a construção dessa alternativa.
Como fazer disso uma síntese é o grande desfaio
que nós temos"afirma em entrevista à Carta Maior.
Quando o Fórum Social Mundial se realizou pela primeira vez, em Porto Alegre no ano de 2001, o lema “Um outro mundo é possível” parecia bem mais distante da realidade do que na edição de 2012. Ao menos para brasileiros, esse período foi marcado por inúmeras conquistas associadas às bandeiras tradicionais do evento, especialmente em relação a distribuição de riqueza.
Luiz Inácio Lula da Silva deixou de ser o ídolo daquelas milhares de pessoas que estiveram nos dois primeiros anos para virar herói e presidente de milhões de brasileiros – e chegou a ser vaiado pelos seus seguidores no Fórum Social Mundial por não seguir as políticas imaginadas por seus apoiadores de esquerda, além de participar mais de uma vez no Fórum Econômico de Davos, cuja crítica à postura arrogante e à defesa do neoliberalismo foi o que fez nascer o encontro de Porto Alegre.
O país deixou de ser devedor do Fundo Monetário Internacional (FMI) para ele mesmo emprestar dinheiro à instituição e pela primeira vez em um censo, a maior parte da população se autodeclara negra.
No mundo, a crise econômica vivida em países europeus, cuja origem foi o mercado financeiro dos Estados Unidos, leva multidões às ruas para perguntar porque o 1% mais rico ainda detém mais poder que os 99% restantes (mensagem do Ocupe Wall Street), porque não há espaço para novas ideias na política (questionamento de Os Indignados) ou ainda por que não é possível ampliar o alcance da democracia mesmo em países onde o culto à personalidade e à liderança religiosa é cultural (Primavera Árabe).
Por isso, na 12ª edição do Fórum Social Mundial (que este ano leva o codinome Temático, por ser preparatório para a Rio+20) é curioso que os participantes do Fórum Econômico Mundial discutam justamente o tema que se notabilizou por ser o cerne de todo o debate: Davos elegeu como tema de sua edição em 2012 a falência do neoliberalismo, propondo uma discussão sobre “A grande transformação: criando novos modelos”. O Fórum Social, por sua vez, não trocou as pautas tradicionais, mas agregou e tornou central um assunto que em anos anteriores não recebia a atenção merecida: o meio ambiente.
Não há dúvidas de que o receituário neoliberal, apesar de estar “sob judice”, ainda exerce forte influência – basta verificar as medidas de ajuste adotadas na Europa para conter a crise econômica. Congelamento de aposentadorias, milhões de empregos cortados, legislação trabalhista flexibilizada, aumento de impostos e benefícios cada vez menores levam parte da população às ruas. Por outro lado, na América Latina, ou mais particularmente no Brasil, o enfrentamento à crise desde 2008 tem sido marcado por medidas de estímulo à produção e ao consumo, com a valorização do salário mínimo, corte de tributos para determinados setores, ampliação do apoio à atividade industrial.
Mas como seguir criticando o neoliberalismo quando até seus antigos defensores o colocam como um modelo ultrapassado? E mais: como transformar o debate de ideias em ações efetivas que possam partir do indivíduo e da sociedade civil organizada, sem necessariamente depender de governos? Esse foi o tema da conversa com um dos idealizadores do Fórum Social Mundial e atual membro do Grupo de Reflexão e Apoio ao Processo do evento, Sérgio Haddad.
A discussão foi suscitada pelas falas dos participantes da mesa de abertura do Fórum Mundial da Educação, no dia 24 de janeiro, na Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Os comentários oscilavam entre o absolutamente genérico – 'sem reforma agrária não é possível educação de qualidade', ou o 'socialismo vive e está em construção' – ao mais objetivo tal qual a dificuldade de ensinar aos alunos o valor do trabalho quando todos pensam apenas em consumir. Nenhuma das perguntas foi respondida objetivamente pelos participantes da mesa. “Não me proponho a responder questões tão amplas e diferentes entre si. E também não me arrisco a identificar um caminho a ser seguido porque todos aqueles que se disseram iluminados e preparados para esta tarefa fracassaram”, provocou Haddad, que aprofundou essa reflexão na entrevista reproduzida a seguir.

"Então a própria metodologia do Fórum
já é um caminho para a construção dessa alternativa,
 porque ela engloba desde as camadas mais inferiores
 de sua atividade a diversidade. Agora,
como fazer disso uma síntese,
 ou ainda perguntar-se se é necessário
fazer disso síntese, esse é o grande
desfaio que nós temos."

Há uma ansiedade dos participantes para que o Fórum Social Mundial traga respostas objetivas. Como lidar com isso depois de 12 edições?
No início o FSM tinha muito uma característica de denúncia porque era uma contraposição a Davos. Nesse sentido se manteve nos primeiros anos com uma situação de mostrar os limites do modelo de desenvolvimento, do neoliberalismo. A questão ambiental não era tão presente. Mas sobre as respostas que as pessoas querem, nas atividades autogestionárias o que a gente vê é um crescimento de apresentação de experiências. O que não temos é condições de identificar isso, mas são basicamente grupos que vem fazendo atividades na perspectiva da economia solidária, da construção de organizações populares ou movimentos sociais, de formas de energia alternativas. Não é fácil construir uma alternativa porque todas as tentativas anteriores de construção de alternativas eram centralizadas, tinham um sujeito de mudança – em um momento foi a classe operária, o povo oprimido, depois a juventude, Tudo isso foi por água abaixo porque nenhuma solução vai sair de um grupo social, mas vai sair de uma diversidade. Agora como construir alternativas a partir da diversidade é talvez a grande dificuldade que temos.

A fórmula do FSM se mantém inalterada?
O modelo do Fórum está muito presente em movimentos como Indignados e Ocuppy Wall Street: é horizontal, não tem cacique, não tem hierarquia, todo mundo ocupa espaço. Então a própria metodologia do Fórum já é um caminho para a construção dessa alternativa, porque ela engloba desde as camadas mais inferiores de sua atividade a diversidade. Agora, como fazer disso uma síntese, ou ainda perguntar-se se é necessário fazer disso síntese, esse é o grande desfaio que nós temos. Acreditamos no método. Eu, particularmente, acredito que que as hipóteses vão nascer dessa diversidade: do olhar indígena sobre a questão dos bens comuns, do bem viver, as hipóteses de você pensar o mundo do não trabalho, as questões que estão sendo debatidas sobre decrescimento ou de construção de modelos de produção que sejam de outra natureza, com baixa produção de carbono.

O consumo chegou no seu limite?
Precisamos diminuir essa tensão de fazer fila porque o novo iPhone está sendo lançado! É como se o cara não pudesse comprar o aparelho dois dias depois! Isso está chegando no limite. E finalmente acho que o limite também está sendo dado pela própria realidade – as pessoas não conseguem andar porque tem carro, estão se envenenando respirando o ar, etc. Em algum momento, ou o cara foge dessa realidade, ou ele vai ter que enfrentá-la.

Questões práticas são importantes na discussão?
Temos que ter essa preocupação na agenda. Esse é o papel que a gente faz: tentar trazer as novas questões e balançar isso com a denúncia porque só a análise da conjuntura é algo que você começa a se sentir impotente, deprimido, com saberes, alternativas, experiências.

"O mais difícil que eu vejo é o tema econômico,
 porque a somatória da economia popular,
das trocas comunitárias, isso não resulta
em um novo modelo de organização da sociedade
para a questão econômica."

O que deve ser feito para que a Rio+20 não se transforme em uma grande festa, sem acordos concretos e de fôlego?
Eu acho que a Cúpula dos Povos vai ter de tudo, igual ao Fórum Social Mundial. Desde gente que não quer dialogar com o Estado, com o poder público, até gente que está afim de interferir no documento (a carta de compromissos) que já está sendo trabalhando. Não tem como não fazer diferente. Vai ter de tudo, como foi na Eco92. Talvez a maior dificuldade é como que no meio dessa confusão alguém é capaz de viabilizar a sua proposta e trazer uma contribuição que possa ser disseminada entre todas as pessoas.

Mas há alguma estratégia para pressionar por acordos?
O que estamos tratando de construir é talvez uma unidade em alguns pontos.

Quais?
Ah, se eu soubesse! Já há algumas coisas que foram ditas. A ideia de defender algumas coisas como bens coletivos, por exemplo. Há um forte movimento contra a energia nuclear, e isso pode render uma campanha grande, o modelo energético. Mas essas coisas precisam ser consensuadas, porque os grupos tem posições muito centradas. O mais difícil que eu vejo é o tema econômico, porque a somatória da economia popular, das trocas comunitárias, isso não resulta em um novo modelo de organização da sociedade para a questão econômica. E ao mesmo tempo a máquina vai andando, as pessoas vão produzindo. Imagina a China entrando no mercado de consumo, crescendo 8% ao ano, e querendo (manter) o mesmo padrão norte-americano.

E onde entra a educação nesse debate?
O Fórum Mundial de Educação na verdade quer colocar em relevo essa questão. Para isso – eu não sou organizador do FME – ele tem debater os temas que estão colocados na conjuntura. Porque o educador normalmente, pelas contingencias de vida, está muito voltado à sua atividade cotidiana, a sala de aula. Tem muito poucas possibilidades de fazer debates mais amplos. E ele tem um papel fundamental, porque quando se fala em mudança de mentalidade, isso significa mudança de valores, de concepção de mundo. Claro que o professor não tem todo esse poder, há a família, a comunicação de massa, mas a sala de aula é importante como espaço de reflexão porque as crianças ficam muito tempo na escola. Então como tratar isso sob uma perspectiva de uma dinâmica nova, sob novos valores, valorizando a criança como centralidade no processo educativo, construindo a sua relação com o tema ambiental, com respeito a natureza, ao semelhante.

O Fórum teria então um papel de atuar na formação do professor?
Não tenho dúvida de que o Fórum cumpriria esse papel através do debate de ideias. No limite, talvez não discutir o modelo de escola, mas os valores que um novo modelo poderia conter. Isso é mais fácil, ao menos na educação formal. O nosso papel é disseminar isso.
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Reportagem por Naira Hofmeister
Fonte:  http://www.cartamaior.com.br/, 27/01/2012

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A revolta da burguesia assalariada

Slavoj Zižek*
 
Embora os protestos sociais em curso nos países ocidentais desenvolvidos pareçam indicar o renascimento de um movimento emancipatório radical, uma análise mais detalhada nos compele a elaborar uma série de distinções precisas que, de alguma forma, embaçam essa clara imagem. Três coisas caracterizam o capitalismo de hoje: a tendência de longo prazo de transformação do lucro em renda (em suas duas principais formas: a renda do “conhecimento comum” privatizado e a renda pelos recursos naturais); o papel estrutural mais forte do desemprego (a própria chance de ser “explorado” em um emprego duradouro é percebida como um privilégio); e a ascensão de uma nova classe que Jean-Claude Milner chama de “burguesia assalariada” [Veja Jean-Claude Milner, Clartes de tout, Paris, Verdier, 2011].
Para explicar a relação entre estas características, comecemos com Bill Gates: como ele se tornou o homem mais rico do mundo? Sua riqueza não tem nada a ver com o custo de produção daquilo que a Microsoft vende (pode-se até mesmo argumentar que a Microsoft paga a seus trabalhadores intelectuais um salário relativamente alto), isto é, a riqueza de Gates não é o resultado de seu sucesso em produzir bons softwares por preços mais baixos do que seus concorrentes ou por uma “maior exploração” de seus trabalhadores intelectuais contratados. Se este fosse o caso, a Microsoft teria ido a falência há muito tempo: as pessoas teriam optado massivamente por programas como Linux que são de graça e, de acordo com especialistas, de melhor qualidade que os programas da Microsoft. Por que, então, existem milhões de pessoas que ainda compram Microsoft? Porque a Microsoft se impôs como um padrão quase universal, “quase” monopolizando o setor, uma espécie de personificação direta daquilo que Marx chamou de General Intellect (Intelecto Coletivo), o conhecimento coletivo em todas as suas dimensões, da ciência ao prático know how. Gates se tornou o homem mais rico em algumas décadas através da apropriação da renda pela permissão de que milhões participem na forma do “intelecto coletivo” que ele privatizou e controla.
Deve-se transformar criticamente o aparato conceitual de Marx: por causa de sua negligência em relação à dimensão social do “intelecto coletivo”, Marx não vislumbrou a possibilidade de privatização do próprio “intelecto coletivo”. É isto que está no coração da luta contemporânea pela propriedade intelectual: a exploração tem cada vez mais a forma de renda, ou, como diz Carlo Vercellone, o capitalismo pós-industrial é caracterizado pelo “tornar-se renda do lucro” [Veja Capitalismo cognitivo, editado por Carlo Vercellone, Roma, manifestolibri, 2006]. Em outras palavras, quando, por conta do papel crucial do “intelecto coletivo” (conhecimento e cooperação social) na criação de riqueza, as formas de riqueza se tornam cada vez mais desproporcionais em relação ao tempo de trabalho diretamente empregado na produção, o resultado não é, como Marx parecia esperar, a autodissolução do capitalismo, mas a transformação gradual do lucro gerado pela exploração da força de trabalho em renda apropriada pela privatização do “intelecto coletivo”.    
O mesmo acontece com os recursos naturais: sua exploração é uma das maiores fontes de renda hoje, acompanhada da luta permanente pra saber quem ficará com esta renda – os povos do Terceiro Mundo ou as corporações ocidentais (a suprema ironia é que, para explicar a diferença entre força de trabalho – que, em seu uso, produz mais-valia sobre seu próprio valor – e outras mercadorias – que somente consomem seu próprio valor em seu uso e, portanto, não envolvem exploração -, Marx menciona como exemplo de uma mercadoria ordinária o petróleo, a própria mercadoria que hoje é a fonte de extraordinários “lucros”…). Aqui também não faz sentido vincular as altas e baixas do preço do petróleo com altos e baixos custos de produção ou preços do trabalho explorado – custos de produção são negligenciáveis, o preço que pagamos pelo petróleo é a renda que pagamos para os proprietários deste recurso por conta de sua escassez e oferta limitada.
A consequência deste crescimento na produtividade alavancado pelo impacto exponencialmente crescente do conhecimento coletivo é a transformação do papel do desemprego: embora o “desemprego seja estruturalmente inseparável da dinâmica de acumulação e expansão que constitui a própria natureza do capitalismo enquanto tal” [Fredric Jameson, em Representing Capital, Londres, Verso Books, 2011, p. 149], o desemprego adquiriu atualmente um papel qualitativamente diferente. Naquilo que, possivelmente, é o ponto extremo da “unidade dos opostos” na esfera da economia, é o próprio sucesso do capitalismo (crescimento produtivo etc.) que produz desemprego (produz mais e mais trabalhadores inúteis) – o que deveria ser uma benção (menos trabalho duro necessário) se torna uma sina. O mercado global é, assim, em relação a sua dinâmica imanente, “um espaço no qual todos já foram, um dia, trabalhadores produtivos, e no qual o trabalho, em todos os lugares, foi aos poucos retirando-se do sistema” [Fredric Jameson, em Valences of the Dialetic, Londres, Verso Books, 2009, p. 580-1]. Isso é, no atual processo de globalização capitalista, a categoria dos desempregados adquire uma nova qualidade além da clássica noção de “exército industrial de reserva”: devemos considerar em relação a categoria do desemprego “aquelas enormes populações, que ao redor do mundo foram ‘expulsas da história’, que foram deliberadamente excluídas dos projetos modernizadores do capitalismo de primeiro mundo e apagadas como casos terminais sem esperança” [Jameson, em Representing Capital, p. 149]: os assim chamados estados falidos (Congo, Somália), vítimas da fome ou de desastres ecológicos, presos a “rancores étnicos” pseudo-arcaicos, objetos da filantropia e das ONGs, ou (frequentemente os mesmos personagens) da “guerra contra o terror”. A categoria dos desempregados deve assim ser expandida para agregar uma população de largo alcance, dos temporariamente desempregados, passando pelos não mais empregáveis, até pessoas vivendo nas favelas e outras formas de guetos (todos aqueles desconsiderados pelo próprio Marx como “lúmpem-proletariado”) e, finalmente, áreas inteiras, populações ou estados excluídos do processo capitalista global, como os espaços em branco nos mapas antigos.
Mas esta nova forma de capitalismo não traz também uma nova perspectiva de emancipação? Nisto reside a tese de Hardt e Negri em Multidão: guerra e democracia na Era do Império [Rio de Janeiro: Record, 2005] onde eles pretendem radicalizar Marx, para quem o capitalismo corporativo altamente organizado já era uma forma de “socialismo dentro do capitalismo” (uma espécie de socialização do capitalismo, com os proprietários tornando-se cada vez mais supérfluos), de maneira que seria necessário apenas cortar a cabeça do proprietário nominal e nós teríamos socialismo. Para Hardt e Negri, entretanto, a limitação de Marx foi estar historicamente limitado ao trabalho industrial mecanicamente industrializado e hierarquicamente organizado, razão pela qual a sua visão de “intelecto coletivo” seria como uma agência central de planejamento; somente hoje, com a elevação do trabalho imaterial ao padrão hegemônico, a transformação revolucionária se torna “objetivamente possível”. Esse trabalho imaterial se desdobra entre dois pólos: trabalho (simbólico) intelectual (produção de ideias, códigos, textos, programas, figuras etc. por escritores, programadores…) e trabalho afetivo (aqueles que lidam com afecções corpóreas, de médicos a babás e aeromoças). O trabalho imaterial é hoje hegemônico no sentido preciso em que Marx proclamou que, no capitalismo do século XIX, a produção industrial em larga escala era hegemônica, como a cor específica dando o tom da totalidade – não quantitativamente, mas cumprido um papel chave, emblematicamente estrutural. Assim, o que surge é um inédito vasto domínio dos “comuns”: conhecimento compartilhado, formas de cooperação e comunicação etc. que não podem mais ser contidos na forma da propriedade privada – por quê? Na produção imaterial, os produtos já não são objetos materiais, mas novas relações sociais (interpessoais) – em suma, a produção imaterial já é diretamente biopolítica, produção de vida social.
A ironia é que Hardt e Negri se referem aqui ao próprio processo que os ideólogos do capitalismo “pós-moderno” celebram como a passagem da produção material para a simbólica, da lógica centralista-hierárquica para a lógica da autopóiese e da auto-organização, cooperação multi-centralizada etc. Negri é aqui efetivamente fiel a Marx: o que ele tenta provar é que Marx estava certo, que a ascensão do intelecto coletivo é, em longo prazo, incompatível com o capitalismo. Os ideólogos do capitalismo pós-moderno estão afirmando exatamente o oposto: é a teoria marxista (e sua prática) que permanecem dentro dos limites de uma lógica hierárquica e sob controle centralizado do Estado, e assim não conseguem lidar com os efeitos sociais da nova revolução informacional. Existem boas razões empíricas para esta afirmação: de novo, a suprema ironia da história é que a desintegração do Comunismo é o exemplo mais convincente da validade da tradicional dialética marxista entre forças produtivas e relações de produção com a qual o marxismo contou na sua tentativa de superar o capitalismo. O que arruinou efetivamente os regimes Comunistas foi sua inabilidade em acomodar-se à nova lógica social sustentada pela “revolução informacional”: eles tentaram dirigir esta revolução com um novo projeto de planejamento estatal centralizado de larga escala. O paradoxo, assim, é que aquilo que Negri celebra como chance única de superação do capitalismo, é exatamente o que os ideólogos da “revolução informacional” celebram como ascensão de um novo capitalismo “sem fricção”.
A análise de Hardt e Negri possui três pontos fracos que, em sua combinação, explicam como o capitalismo pode sobreviver ao que deveria ser (em termos marxistas clássicos) uma nova organização da produção que o tornaria obsoleto. Ela subestima a extensão do sucesso do capitalismo contemporâneo (pelo menos em curto prazo) de privatizar o “conhecimento comum”, assim como a extensão com que, mais do que a burguesia, são os próprios trabalhadores que se tornam “supérfluos” (número cada vez maior deles torna-se não somente desempregado, mas estruturalmente inempregável). Além disso, mesmo que seja verdade, em princípio, que a burguesia está progressivamente se tornando desfuncional, deve-se qualificar esta afirmação –  desfuncional para quem? Para o próprio capitalismo. Isto quer dizer que, se o velho capitalismo envolvia idealmente um empreendedor que investia dinheiro (seu ou emprestado) em produção organizada e dirigida por ele próprio, recolhendo o lucro, hoje está surgindo um novo tipo ideal: não mais o empreendedor que possui sua própria empresa, mas o gerente especialista (ou um conselho administrativo presidido por um CEO) de uma empresa de propriedade dos bancos (também dirigidos por gerentes que não possuem os bancos) ou investidores dispersos. Neste novo tipo ideal de capitalismo sem burguesia, a velha burguesia desfuncional é refuncionalizada como gerentes assalariados – a nova burguesia recebe cotas, e mesmo se ela possui uma parte na empresa, eles recebem as ações como parte da remuneração pelo trabalho (“bônus por sua gerência bem sucedida”).
Esta nova burguesia ainda se apropria da mais-valia, mas da forma mistificada daquilo que Milner chama de “mais-salário”: em geral, a eles é pago mais do que o salário mínimo do proletário (este ponto de referência imaginário – frequentemente mítico – cujo único verdadeiro exemplo na economia global de hoje é o salário de um trabalhador numa sweat-shop na China ou na Indonésia), e é esta diferença em relação aos proletários comuns, esta distinção, que determina seu status. A burguesia no sentido clássico, assim, tende a desaparecer. Os capitalistas reaparecem como um subconjunto dos trabalhadores assalariados – gerentes qualificados para ganhar mais por sua competência (razão pela qual a “avaliação” pseudo-científica que legitima os especialistas a ganharem mais é crucial hoje em dia). A categoria dos trabalhadores que recebem mais-salário não está, obviamente, limitada aos gerentes: ela se estende a todos os tipos de especialistas, administradores, funcionários públicos, médicos, advogados, jornalistas, intelectuais, artistas… O excesso que eles recebem tem duas formas: mais dinheiro (para gerentes etc.), mas também menos trabalho, isto é, mais tempo livre (para alguns intelectuais, mas também para setores da administração estatal).
O procedimento de avaliação que qualifica alguns trabalhadores para receberem mais-salário é, claramente, um mecanismo arbitrário de poder e ideologia sem nenhuma ligação séria com a competência real – ou, como diz Milner, a necessidade de mais-salário não é econômica, mas política: para manter uma “classe média” com o propósito de estabilidade social. A arbitrariedade da hierarquia social não é um erro, mas todo o seu propósito, de forma que a arbitrariedade da avaliação cumpre um papel homólogo à arbitrariedade do sucesso de mercado. Isto é, a violência ameaça explodir não quando existe muita contingência no espaço social, mas quando se tenta eliminar esta contingência. É neste nível que se deve buscar pelo que se pode chamar de, em termos um tanto vagos, a função social da hierarquia. Jean-Pierre Dupuy [em La marque du sacre, Paris, Carnets Nord, 2008] concebe a hierarquia como um dos quatro procedimentos (“dispositivos simbólicos”) cuja função é fazer com que a relação de superioridade não seja humilhante para os subordinados: a hierarquia (a ordem externamente imposta de papéis sociais em clara contraposição ao valor imanente dos indivíduos – eu, portanto, experimento meu menor status social como totalmente independente do meu valor intrínseco); a desmistificação (o procedimento crítico-ideológico que demonstra que as relações de superioridade/inferioridade não estão fundamentadas na meritocracia, mas são resultado de lutas objetivamente ideológicas e sociais: meu status social depende de processos sociais objetivos, não de méritos – como diz Dupuy sarcasticamente, a desmistificação social “cumpre o mesmo papel, em nossas sociedades igualitárias, competitivas e meritocráticas do que a hierarquia nas sociedades tradicionais” [p. 208] – isto nos permite evitar a conclusão dolorosa de que “a superioridade do outro é o resultado de seus méritos e conquistas”; a contingência (o mesmo mecanismo, porém sem a sua forma crítico-social: nossa posição em escala social depende de uma loteria natural e social – sortudos são aqueles que nascem com melhores disposições e em famílias ricas); a complexidade (superioridade ou inferioridade dependem de um processo social complexo independente das intenções ou méritos dos indivíduos – digamos, a mão invisível do mercado pode causar o meu fracasso ou o sucesso do meu vizinho, mesmo que eu tenha trabalhado muito mais e seja muito mais inteligente). Ao contrário do que parece, todos estes mecanismos não contestam ou sequer ameaçam a hierarquia, mas a tornam palatável, uma vez que “o que desencadeia o turbilhão da inveja é a ideia de que o outro merece a sua sorte e não a ideia oposta, a única que pode ser abertamente expressa” [p.211]. Dupuy extrai desta premissa a conclusão (óbvia, para ele) de que é um grande erro pensar que uma sociedade que seja justa e que se perceba como justa será assim livre de todo o ressentimento – ao contrário, é precisamente em tal sociedade que aqueles que ocupam posições inferiores encontraram uma válvula de escape para seu orgulho ferido em violentas explosões de ressentimento.
Aí reside um dos maiores impasses da China hoje: o objetivo ideal das reformas de Deng Xiaoping era introduzir um capitalismo sem burguesia (como classe dominante); agora, entretanto, os líderes chineses estão descobrindo dolorosamente que o capitalismo sem hierarquia estável (conduzida pela burguesia como nova classe) gera permanente instabilidade – portanto, que caminho tomará a China? Mais genericamente, esta é possivelmente a razão pela qual (ex-)comunistas reaparecem como os mais eficientes gestores do capitalismo: sua histórica inimizade com a burguesia enquanto classe se encaixa perfeitamente na tendência do capitalismo contemporâneo em direção a um capitalismo gerencial sem burguesia – em ambos os casos, como Stalin disse a muito tempo, “os quadros decidem tudo” (está surgindo também uma diferença interessante entre a China de hoje e a Rússia: na Rússia os quadros universitários eram ridiculamente mal pagos, eles de fato se confundiam com os proletários, enquanto na China eles são bem remunerados com um “mais-salário” como meio de garantir sua docilidade).                       
Além disso, esta noção de “mais-salário” também nos permite lançar novas luzes sobre os atuais protestos “anti-capitalistas”. Em tempos de crise, o candidato óbvio para “apertar os cintos” são os níveis mais baixos da burguesia assalariada: uma vez que o seu mais-salário não cumpre nenhum papel econômico imanente, a única coisa que permite diferenciá-los do proletariado são seus protestos políticos. Embora estes protestos sejam nominalmente dirigidos pela lógica brutal do mercado, eles efetivamente protestam contra a gradual corrosão de sua posição econômica (politicamente) privilegiada. Lembremos da fantasia ideológica favorita de Ayn Rand (de seu Atlas Shrugged), a de “criativos” capitalistas em greve – esta fantasia não encontra sua realização perversa nas greves de hoje, que em sua maioria são greves da privilegiada “burguesia assalariada” motivada pelo medo de perder seu privilégio (o excedente sobre o salário mínimo)? Não são protestos proletários, mas protestos contra a ameaça de ser reduzido à condição proletária. Isto quer dizer: quem ousa se manifestar hoje, quando ter um emprego permanente já se tornou um privilégio? Não os trabalhadores mal pagos (no que sobrou) da indústria têxtil etc. mas o estrato de trabalhadores privilegiados com empregos garantidos (muitos da administração estatal, como a polícia e os fiscais da lei, professores, trabalhadores do transporte público etc.). Isto também vale para a nova onda de protestos estudantis: sua maior motivação é o medo de que a educação superior não mais lhes garanta um mais-salário na vida futura.
Está claro, obviamente, que o enorme renascimento dos protestos no último ano, da Primavera Árabe ao Leste Europeu, do Occupy Wall Street à China, da Espanha à Grécia, não devem definitivamente ser desconsiderados como uma revolta da burguesia assalariada – eles guardam potenciais muito mais radicais, de forma que devemos nos engajar numa análise concreta caso a caso. Os protestos estudantis contra a reforma universitária em curso no Reino Unido são claramente opostos às barricadas do Reino Unido em agosto de 2011, este carnaval consumista de destruição, a verdadeira explosão dos excluídos. Em relação aos levantes do Egito, pode-se argumentar que, no começo, houve um momento de revolta da burguesia assalariada (jovens bem educados protestando contra a falta de perspectiva), mas isto foi parte de um amplo protesto contra um regime opressivo. Entretanto, até que ponto o protesto conseguiu mobilizar trabalhadores e camponeses pobres? Não seria a vitória eleitoral dos islâmicos também uma indicação da base social estreita do protesto secular original? A Grécia é um caso especial: nas últimas décadas surgiu uma nova “burguesia assalariada” (especialmente na administração estatal superdimensionada) graças à ajuda financeira e empréstimos da União Europeia, e muitos dos protestos atuais, mais uma vez, reagem à ameaça de perda destes privilégios.
Além disso, esta proletarização da baixa “burguesia assalariada” vem acompanhada do excesso oposto: as remunerações irracionalmente altas dos grandes executivos e banqueiros (remunerações economicamente irracionais, uma vez que, como demonstraram as investigações nos Estados Unidos, elas tendem a ser inversamente proporcionais ao sucesso da empresa). É verdade, parte do preço pago por essa super remuneração é o fato dos executivos ficarem totalmente disponíveis 24 horas por dia, vivendo assim num estado de emergência permanente. Mais do que submeter estas tendências a uma crítica moralista, deveríamos interpretá-las como a indicação de como o próprio sistema capitalista não é mais capaz de encontrar um nível interno de estabilidade autorregulada e de como esta circulação ameaça sair do controle.       
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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, confira:
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* Slavoj Žižek  nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009) e os mais recentes Em defesa das causas perdidas e Primeiro como tragédia, depois como farsa(ambos de 2011). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.
Fonte:  Blog da Boitempo

Marcelo Zuffo - Entrevista

Ele fez a jornada das calculadoras eletrônicas ao universo da realidade virtual e das tecnologias interativas, com seus incalculáveis usos. “Pai” da primeira caverna digital da América Latina, o engenheiro eletrônico Marcelo Zuffo é professor titular da Escola Politécnica da USP, pesquisador do LSI – Laboratório de Sistemas Integráveis há 28 anos e coordenador científico do recém-criado Citi – Centro Interdisciplinar em Tecnologias Interativas. Na entrevista concedida à revista Inovação em Pauta, editada pela FINEP, ele fala sobre TV Digital, banda larga, tendências, oportunidades dos grandes eventos esportivos e os desafios da construção de pontes entre o conhecimento e o mercado. Para o paulistano, ainda ousamos pouco e temos constrastes inaceitáveis. “A sétima economia do mundo não pode estar na 164ª posição no ranking mundial de velocidade da banda larga”.

Veja alguns destaques da entrevista e leia a matéria na íntegra, no original em pdf, aqui:

Inovação em Pauta – Em termos de novas tecnologias voltadas para interatividade, para onde apontam as tendências?
Marcelo Zuffo - Continuamos seguindo a direção do Steve Jobs, com sistemas ubíquos e intuitivos. Energia também é um ponto importante. Na hora em que o ser humano consome mais transistores do que grãos de arroz, isso demanda muita energia e começa a cair a ficha de que não dá para conceber a eletrônica do mesmo jeito. Um dos focos de atuação são os sistemas ultra low power. A eletrônica na ponta, que está nas mãos das pessoas, está começando a causar impacto na cadeia energética. Pense no stand-by dos aparelhos, no carregador do smartphone. Temos 250 milhões de celulares no Brasil, então são 250 milhões de carregadores. Se cada um consome 10 watts, são 2,5 gigawatts. Isso só para celular, e ainda temos laptops e desktops. Energia é uma tendência e seria a próxima onda do Steve Jobs, que viria com celulares ultrafinos com bateria que não acaba, fazendo harvesting, ou seja, absorveria energia do ambiente. Já estamos discutindo em reuniões painéis fotovoltaicos que tiram energia da própria lâmpada, sem precisar de sol. Um celular assim poderia ser autocarregável.

IP - Há pesquisadores se articulando para pedir mais investimentos em projetos ligados à “internet das coisas”, também conhecida como comunicação ubíqua. Um dos suportes seria a evolução do uso do RFID, tecnologia que pode identificar à distância o objeto conectado, mas a infraestrutura nacional de telecom ainda deixa muito a desejar. Na sua opinião, vale a pena investirmos mais nesta área ou ela ainda está longe da nossa realidade?
MZ- Esse é um dos grandes desafios estabelecidos pela Sociedade Brasileira de Computação. É uma tendência que vem sendo observada há mais de 10 anos. É uma área importante de pesquisa e é fundamental que receba dinheiro, mas cai nas questões estruturais, como a falta de uma indústria forte no setor alavancadora de um segmento regional– não temos uma Microsoft, Apple, Samsung, LG ou Panasonic, por exemplo. As multinacionais, mesmo aqui, se são japonesas, é um japonês que toma a decisão. Faltam empresas com tomada de decisão regional. Isso faz toda a diferença.

IP- Alguma outra tendência forte?
MZ - Acessibilidade. A população está envelhecendo e a pirâmide social brasileira está se invertendo. A inteligência dos celulares está crescendo tanto que eles vão te ajudar a escutar mais alto, ver mais longe, se localizar. Uma área das tecnologias interativas são as tecnologias hápticas, que dizem respeito ao tato e a aplicações sensíveis ao toque. Por exemplo, uma cadeira de rodas no futuro poderia ser trocada por um terno com microrrobôs que te façam se movimentar. As aplicações de técnicas interativas no setor de Saúde são promissoras, até então a gente só as via no setor de entretenimento.

IP- E o 3D?
MZ - Existem estatísticas que apontam que, a partir de 2013, todas as TVs serão 3D Ready. O consenso da comunidade científica quanto ao grande desafio é eliminar os óculos. Aqui no LSI da USP estamos fazendo muitas pesquisas nesta direção – uma TV 3D não invasiva. Essa tecnologia de 3D que há na TV hoje nós dominamos desde 1997, quando conseguimos da FINEP o apoio para fazer a caverna digital (sistema de realidade virtual de alta resolução, a da USP foi a primeira da América Latina). Aqui na USP temos usado o 3D para tudo: turismo - como voos virtuais sobre as cidades da Copa, medicina – para cirurgia e reabilitação - e simulação em indústrias.

IP- Tecnicamente estamos alinhados com os líderes deste mercado?
MZ-Temos todos os elementos da cadeia no Brasil, como empresas que produzem óculos, por exemplo. Há oito ou 10 empresas aqui na atividade de 3D. O que não temos é o domínio sobre a tecnologia de display. No novo centro que a USP montou, estamos preocupados com isso e tentamos identificar oportunidades de inovação. Também falta capacitação. Há pouquíssima gente aqui que saiba produzir vídeos em 3D. Montamos uma unidade de HD 3D na USP e o pessoal não dá conta de tantos cursos, palestras e treinamentos que oferecemos, montamos até um canal no YouTube. Falta know-how e competência. A ideia da USP de criar o Citi – Centro Interdisciplinar de Tecnologias Interativas - justamente para tentarmos trabalhar a capacitação e a divulgação.

IP – Os grandes eventos esportivos que acontecerão aqui vão influenciar o mercado de TICs?
MZ -Os grandes jogos são molas propulsoras de atividades econômicas neste setor. Há 30 anos novidades tecnológicas são apresentadas nos grandes jogos. Na década de 1980 foi a TV high definition, nos jogos de Los Angeles; telefonia móvel nos jogos da década de 1990; ultra high definition 3D na Copa passada; telefonia de quarta geração na Inglaterra em 2012. O que faremos no Brasil? Vamos mostrar tecnologia dos outros? Havia discussões em torno do 4K (ultra high definition), mas a Inglaterra já anunciou que a BBC vai fazer toda a gravação da Copa de 2012 assim, então morreu para nós. Vamos fazer 8K, 16K, TV sem tela? Existe aí um problema porque, como as tecnologias interativas estão intrinsecamente incorporadas à atividade econômica, o fluxo de capital para investimento em novos mercados neste setor é muito forte e a competitividade é muito grande.

IP - O computador pessoal está perdendo espaço para o smartphone? A TV vai agregar as funções do computador?
MZ - O smartphone já é o computador pessoal hoje. A TV será o computador familiar. Nossa visão é de que ela será o centro de entretenimento e serviços da casa – para informação, saúde e governo eletrônico, por exemplo. O Brasil deu uma grande contribuição nesta área, mudando o jogo na questão do padrão da TV Digital. A criação do nosso padrão foi a primeira fase da revolução da TV Digital no Brasil. Fez tanto sucesso que foi adotado por 13 países da América Latina. A segunda fase da revolução da TV Digital será a conectividade.

IP – E o que falta para isso acontecer?
MZ - Ano passado o Brasil comercializou cerca de 12 milhões de TVS. Somos um dos maiores mercados do mundo. Nosso gargalo, nesse setor, é de conteúdo. Temos três problemas estruturais: não temos uma empresa âncora no setor eletroeletrônico que possa rivalizar com outras empresas do mundo, estamos defasados em termos de marco regulatório e não temos uma cultura de interatividade no segmento de radiodifusão, o que é uma questão de atitude e de modelo de negócio. Estamos num apagão em termos de conteúdo interativo. As emissoras todas vão jurar de pé junto que estão fazendo conteúdo interativo, mas elas fazem uma ou duas aplicações por mês. Um smartphone vem com duas mil aplicações e se você compra uma TV conectada, ela vem com 300 aplicações interativas. O setor de telecomunicações brasileiro de repente foi totalmente privatizado sem uma racionalidade no que chamamos de inovação. Ele não é ousado. Não investe nem em inovações, nem em infraestrutura. A visão das operadoras de telecom é essencialmente financeira.

IP – Esses serviços ainda são muito caros aqui.
MZ - Há um nó na telefonia aqui, dividido em três eixos: um dos maiores impostos do mundo, uma das maiores margens de lucro praticadas no mundo e, com isso, investimento baixo em infraestrutura - a nossa é de quarto mundo. Houve um desmonte orgânico e estruturado da indústria local de telecomunicação.

IP – Como está nossa TV Digital hoje?
MZ -Em TV Digital aberta nós demos o recado para o mundo, fizemos bonito. Que país de terceiro mundo conseguiu emplacar um padrão em mais de 10 países? Quando eu falava que isso ia acontecer, porque a tecnologia era boa, era chamado de imperialista, mas aconteceu. A próxima fase vai ser uma composição com outros países. O Japão já é um deles. É uma besteira ter padrões regionais de TV Digital. A única saída para a TV Digital aberta é o Brasil dar mais um passo neste esforço, e não se esquecer do conectado, porque os chamados dispositivos smart – smartphone, smart TV - são uma tendência sem volta. Ter internet no celular e na TV é parte do movimento da internet das coisas. O problema é que lideramos em TV Digital, mas estamos na 164ª posição em banda larga. (Ranking mundial divulgado pela Pando Networks. A média mundial de velocidade, de 508 kbps, é cinco vezes maior que a média nacional.) Isso deveria ser uma prioridade estratégica número um.

IP - Windows, Amazon, Google, Apple e Facebook mudaram o modo de consumir, pensar, organizar a vida e interagir socialmente. Todas essas revoluções estão fortemente ligadas à figura de seus criadores. Dependemos de novos gênios para continuar nessa trilha?
MZ- Dependemos de novos gênios, mas há milhares de pessoas neste segmento de atividade econômica e, para fomentar ideias inovadoras, é preciso ter ações estruturantes de políticas públicas. Isso envolve o desenvolvimento de talentos desde a juventude – em todos os casos que conhecemos as vocações para esta área são despertadas cedo -, indução e desoneração fiscal. A cidade de Toronto, no Canadá, por exemplo, tem um segmento de indústria criativa muito forte voltado para cinema e software de efeitos especiais. Ela exime os empreendedores de custos trabalhistas. É um caso de políticas públicas de duas décadas.

IP - O talento da computação não é necessariamente um talento da administração. E no Brasil, especificamente, é muito difícil tanto abrir, como fechar uma empresa.
MZ -Na indústria de software ou de criação há iniciativas tímidas e houve um esforço de desoneração de impostos para fins de exportação, mas o Brasil às vezes é lento em relação a outros países na agressividade desta desoneração e criação de políticas públicas. Há países na própria América Latina muito mais ágeis que nós, como México e Chile. Eles têm sido polos de atração deste tipo de talento no cenário latinoamericano. Têm mais acesso a capital e a investidores e mais facilidades até no processo de imigração. Na história do Facebook há um brasileiro, na concorrente da Pixar há um brasileiro por trás do filme de animação “Rio”. O equívoco que o Brasil sempre cometeu é de que os gênios vão surgir da classe média alta. Steve Jobs, por exemplo, é o ícone do sonho americano, porque era filho de imigrante, foi adotado, mas não foi massacrado pela estrutura social do país.

IP- No ramo das tecnologias interativas o que dá dinheiro hoje? Desenvolver equipamentos, tecnologias ou conteúdo, o que é mais promissor no Brasil?
MZ-Um nicho altamente empregador e gerador de renda é o de conteúdo. Na radiodifusão temos uma concentração muito grande. Talvez isso mude com a legislação que está vindo aí, como a PL 116 (projeto de lei que estabelece novas regras de oferta de TV por assinatura no Brasil e estabelece uma política de fomento do audiovisual nacional). Na área de miniapps para conectados já há empresas brasileiras exportando muito bem, inclusive transnacionais, com escritórios na Europa. Outro nicho é a área de animação. O Brasil tem talento e casos de sucesso em várias áreas, não tem é escala. Talvez falte uma ordenação econômica, aquisições, compras e fusões. A indústria criativa precisa de mais atenção e de ser vista como um setor lucrativo, mas que precisa ser organizado e incentivado. Fala-se de desoneração de bens de capital para a indústria tradicional, mas vai ver se você consegue comprar uma placa de vídeo ou uma ilha de edição que não tem similar nacional desonerada?
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Leia a íntegra da entrevista na edição 12 da revista Inovação em Pauta, editada pelo Departamento de Comunicação da FINEP