segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Trabalho intensivo nas manufaturas irá migrar da China

Entrevista da 2ª Michael Spence
Nobel de economia americano afirma que fenômeno já aconteceu
anteriormente com países como
o Japão e a Coreia do Sul
Para o economista americano Michael Spence, ganhador do Nobel em 2001, o discurso de que a China rouba empregos dos outros países não faz sentido. Para ele, a atração de mão de obra barata não é boa estratégia econômica.
Spence ainda afirma que o país asiático está prestes a deixar de ser a fábrica barata do mundo. Segundo ele, a tendência é que outros emergentes, em fases anteriores de desenvolvimento, assumam esse papel, conforme já aconteceu com outros centros manufatureiros nas décadas passadas.
O especialista também argumenta que os países emergentes estão mais ricos e mais conectados uns com os outros e que tendem a se desassociar da crise na Europa.
Ele diz que o Brasil pode sustentar seu crescimento econômico, mas deve ficar atento à diversificação da economia.
Veja trechos da entrevista que Spence concedeu à Folha, por e-mail.

Folha - A crise econômica de 2008 se espalhou rapidamente em todo o mundo e terminou de forma relativamente rápida em países como o Brasil. O sr. acha que a crise atual será mais longa?
Michael Spence - A crise tinha uma história de alavancagem excessiva, desequilíbrios e problemas estruturais. A crise atual é em parte uma extensão das mesmas questões. Se a Europa avançar, será menos grave. Haverá apenas um período longo e difícil de ajustamento estrutural para restaurar padrões sustentáveis de crescimento e emprego. Mas outro cenário é uma grande recessão na Europa causada por uma incapacidade de lidar com as questões da zona do euro. Nesse segundo cenário, a crise será dura e de longo prazo.

Qual é o caminho para evitar esse cenário mais duro?
Não existe maneira de certamente eliminar os riscos do cenário pessimista. Se a Grécia eventualmente sair, criará riscos de contágio. Mas o fator principal para controlar o risco é conduzir reformas bem-sucedidas na Itália e na Espanha. E ter a Alemanha e o Banco Central Europeu de volta para estabilizar bancos e dívidas dos governos, com o FMI (o que significa o resto do mundo) apoiando. As reformas institucionais para a disciplina fiscal também têm que prosperar. Se todas essas coisas funcionarem, o risco permanece em nível controlável. Mas devo dizer que haverá retração econômica por um ano ou dois, mesmo no cenário mais positivo.

O senhor vê a possibilidade de diminuição no número de países que compõem a zona do euro?
Definitivamente sim. Os líderes estão tentando evitar esse desfecho, mas eu não acho que seja sábio. Nem é bom para Grécia e provavelmente tampouco para Portugal. Uma zona do euro menor e mais homogênea poderia ser um bom resultado. Ela poderia se expandir depois. Mas realmente eles têm que elaborar um mecanismo de ajuste para quando os países deixam de ser competitivos e têm problemas de produtividade. Ninguém tem uma boa resposta para essas questões ainda.

O senhor acha que os países emergentes vão repetir o desempenho que tiveram na crise passada, quando mantiveram a demanda por commodities e garantiram algum crescimento global?
Há desaceleração nas economias emergentes, mas é relativamente leve até agora. Deve haver uma espécie de repetição do desempenho pós-2008, desde que a Europa avance.

Os fatores que garantiram o crescimento de países como China, Índia e Brasil podem ser sustentados agora? E por quanto tempo?
Indefinidamente. São países saudáveis fiscalmente e geridos de forma eficaz do ponto de vista macroeconômico. Eles estão mais ricos, maiores e negociam muito uns com os outros. Estão parcialmente dissociados [da crise], embora não completamente. Ainda dependem de uma quantidade substancial de demanda agregada dos países avançados. O grau de dissociação irá aumentar gradualmente ao longo do tempo.

De que maneira o grau de dissociação aumentará? E caso a Europa não avance e o impasse político impeça a resolução dos problemas econômicos, quais seriam as principais formas de contágio para os emergentes?
Existem dois canais. Um é a economia real. Se a economia decresce, cai a demanda por importações, com consequências para os emergentes. O impacto varia entre os diferentes países porque eles sentem de modo diverso os movimentos de preço das commodities e a demanda por serviços (no caso da Índia). O segundo canal é o financeiro. Os mercados emergentes estão voláteis agora com a combinação de riscos domésticos e globais. Essa volatilidade tornará empresários e consumidores mais cautelosos, o que pode reduzir a demanda doméstica. Tendo dito isso, o nível de dissociação continua aumentando. Só não está completo.

Há rankings em que o Brasil aparece como a sexta maior economia do mundo. Como o senhor analisa a trajetória de crescimento do país?
A trajetória de crescimento do Brasil é excelente. A inclusão está aumentando e ajudando a sustentar o crescimento e a reduzir a desigualdade de renda. É um padrão sustentável. A gestão macroeconômica é muito boa. É preciso cuidado para não permitir que o aumento do preço das commodities, que beneficiou o Brasil, cause uma redução no padrão de diversificação da economia e reduza as oportunidades de emprego. Um fundo soberano bem administrado seria uma boa ideia, eu acho.

No discurso do Estado da União [em que anualmente o presidente americano presta contas ao Congresso], Barack Obama pediu a empresários para trazerem de volta os empregos que haviam deslocado para a China. Esse tipo de apelo é eficaz?
Não faz sentido trazer empregos de baixo valor agregado da China ou de outros países em desenvolvimento. O que podemos fazer é competir em empregos de maior valor agregado -mas não nos empregos muito tops, em que vamos bem de qualquer forma. Os modelos deveriam ser mais a Alemanha, o Japão e a Coreia do Sul.

A base para atrair empresas para a China tem sido a mão de obra barata. Essa situação persistirá?
Isso está prestes a mudar, tal como aconteceu na Coreia do Sul e no Japão no passado. A China irá se mover para rendimentos mais elevados e o trabalho intensivo nas manufaturas irá migrar para emergentes em fases anteriores de desenvolvimento.

A migração já começou? Para onde?
Começou, por exemplo, para o Vietnã, Bangladesh e para a Índia em alguma medida. Isso não é novo. A Coreia costumava fabricar sapatos e vestuário nos anos 1980 e 1990 e isso migrou para Vietnã, China, Indonésia etc. Hong Kong costumava fabricar vestuário e houve mudança para Cingapura e outros países.
Raio-X Michael Spence

IDADE
68
FORMAÇÃO
Bacharelado em artes em Princeton, mestrado em artes em Oxford e doutorado em economia em Harvard
CARGO
Professor emérito na Universidade Stanford, pesquisador da Instituição Hoover e do Council on Foreign Relations
PRÊMIOS
Ganhou o Nobel em economia em 2001 por análises do comportamento do mercado com informações assimétricas, entre outras distinções
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Reportagem por VERENA FORNETTI DE NOVA YORK
Fonte: Folha on line, 27/02/2012
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Reuniões virtuais

Susana de Salazar Casanova*

As reuniões com recurso às tecnologias de informação estão cada vez mais presentes na nossa vida profissional. Embora estes modelos – teleconferência ou videoconferência – não sejam perfeitos, apresentam algumas vantagens sendo a primeira delas a de se poupar tempo, deslocações e recursos financeiros. Além disso, permitem, em contraponto com a comunicação escrita (por exemplo, e-mail), a possibilidade de ouvir e até de ver o interlocutor.
Nas reuniões virtuais aplicam-se as regras dos encontros presenciais: enviar a convocatória, elaborar a agenda, confirmar a presença, testar o equipamento e, obviamente, estar-se, no dia, à hora marcada disponível para reunir. A agenda é determinante para o sucesso do encontro: permite não esquecer nenhum tema, ajuda a alcançar os objectivos propostos e facilita a tarefa de garantir o cumprimento dos assuntos.
Tal como nas reuniões presenciais, os participantes devem ser convocados com um objectivo e, nas virtuais, aconselha-se a participação de um número reduzido de pessoas (em geral menos do que presencialmente). A gestão de perguntas e respostas deve ser assegurada apenas por uma pessoa de cada parte.
No que respeita ao espaço, em ambos os casos, é fundamental que exista silêncio na sala e que o tom de voz de quem fala seja claro.
Estes pormenores tornam-se essenciais quando a reunião é feita numa língua estrangeira. Imagine-se uma comunicação com ruídos de comboios ou aviões por trás – estão estabelecidas as bases para que surjam erros de percepção e complicações na discussão.
Recordo que é essencial falar devagar para dar tempo, a quem interrompe, de receber a mensagem e para conseguirmos ver qual é o resultado das nossas intervenções nos outros.
O gestor que calendariza é quem deve presidir à reunião, tal qual faria se o encontro fosse ao presencial. Na abertura, após os cumprimentos ao homólogo, deve apresentar quem está a assistir.
É fundamental estar-se consciente que podem ocorrer ligeiros atrasos nas comunicações ou sejam muito lentas, sendo útil esperar uns instantes antes de falar, após a intervenção anterior. É neste ponto que surge uma das desvantagens – o facto de os participantes nem sempre terem a possibilidade de se ver, através do ecrã, não sendo por isso perceptíveis estas demoras ou a expressão facial.
A falta de sincronização temporal (denominada “lag”) é, por vezes, extremamente desconcertante numa reunião.
Com o objectivo de evitar qualquer tipo de interferências anote o que deve abster-se de fazer: enviar SMS, atender o telemóvel ainda que aos sussurros, não ter o telemóvel em modo silêncio, ter os “Tablet PC” ou os PC com som. Deve ainda evitar entrar e sair do espaço.
É bastante desconfortável o ruído de fundo para quem ouve, impede a concentração e é deselegante pois não se sabe exactamente quem está na sala, nem o que está a fazer.
Numa videoconferência, quem lidera deve posicionar-se de frente para a câmara. Por isso, recomenda-se que não se desleixe com a aparência, nem com a imagem da sala. Faça testes prévios com o objectivo de perceber o que se vê quando tem a sua câmara ligada.
Procure dar ênfase às suas mensagens com gestos. Pode ser aconselhável manter um certo movimento físico (acenar com a cabeça, ou pura e simplesmente mexer as mãos) para mostrar entendimento ou que a ligação não foi abaixo. Não há nada mais desconcertante do que se perceber que ninguém ouviu os últimos minutos porque a ligação foi abaixo e nós não reparámos!
Uma vez que não está presencialmente a conversar com a pessoa, esse impacto comunicacional tão importante, é perdido. Ao contrário de um telefonema, na videoconferência tudo o que se faz é visto, por isso é preciso estar-se atento a movimentos bruscos, trocas de papéis, segredar com um colega, olhares laterais... A imagem que se vê do outro lado está focada no rosto.
Dentro do possível, deve evitar interromper o outro participante uma vez que isto dificulta a percepção da comunicação. Esta pode ser a tarefa mais complexa até se agilizar o processo e é algo que num encontro presencial pode não causar incómodos. Mas on-line pode ser uma barreira à comunicação.
É preciso considerar que existe uma diferença de tempo entre o momento em se que profere uma frase e a altura em que esta chega ao destino e isso leva a que a interrupção não tenha lugar no momento em que a fizémos.
A maior parte dos insólitos acontecem quando se pensa que a ligação foi abaixo ou se procede ao encerramento. É imprescindível certificar-se de que todos desligaram e que o responsável confirme que a ligação está efectivamente desligada, antes de iniciar a conversa sobre os resultados da reunião, ou emitir opiniões sobre o parceiro.
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* Especialista em protocolo
Fonte:http://www.sabado.pt/26/02/2012
Linguagem: Português de Portugal
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Cuerpos de Dolor

Mais que representar o sagrado, é «dar corpo ao sagrado». O corpo, o lugar do amor e da dor, da alegria e da tristeza, o lugar onde mais somos o que somos, e que desse lugar tão humano possamos aceder ao sagrado. Pelo corpo como via de acesso ao sagrado, o belo como sedução daquilo que nos ultrapassa e ultrapassa o que se inscreve no próprio corpo.
Representativas de um período central da formação dos povos ibéricos – no qual a religião era elemento indentitário crucial – as esculturas da mostra Cuerpos de Dolor, da coleção do Museo Nacional de Escultura (Valhadolid, Espanha), sugerem-nos os caráter exuberante, quase, teatral, do Barroco ibérico e da profundidade com que a dimensão espiritual impregnava a arte e as representações do mundo, então.
"O corpo, o lugar do amor e da dor,
 da alegria e da tristeza,
o lugar onde mais somos
o que somos..."

Mais que essa referida teatralidade, é o drama humano que, pelo corpo e inscrito no corpo, vai ao encontro do que nos transcende, e que, pelo belo, procuramos entendimento.
Cuerpos de Dolor, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, até 25 de março.
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Reportagem por João Amaro Correia
Linguagem: português de Portugal.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Felicidade suprema

Menalton Braff*
Erigir o consumo de bens materiais (principalmente) como o bem supremo de
 um ser humano é tirar-lhe toda a humanidade.
Foto: Clayton de Souza/AE
Às vezes vale a pena pensar sobre a vida. Não sobre o que temos ou não consumido, tampouco a respeito do que fizemos ou deixamos de fazer. São aspectos factuais que, mais do que ajudar em uma reflexão mais profunda, tornam-se barreiras ao pensamento abstrato, aquele em que vamos encontrar as verdadeiras significações. Chegamos quase à Ideia de Platão, mas aí já o terreno é extremamente perigoso e podemos nos enredar.
Tentar entender o que é a felicidade talvez seja um dos caminhos para se chegar ao sentido da vida. É um assunto para o qual não há dona de álbum de pensamentos que não tenha uma resposta pronta: A felicidade não existe. Existem momentos felizes. Essa é uma verdade chocantemente inócua, pois não chega a pensar o que seja a felicidade como também não esclarece o que são tais momentos felizes.
Pois bem, o assunto me ocorre ao me lembrar de que vivemos em uma sociedade excessivamente consumista, sociedade em que a maioria considera-se feliz se pode comprar. Assim é o capitalismo: entranha-se em nossa consciência essa aparência de verdade fazendo parecer que os interesses de alguns sejam verdades inquestionáveis. O que é bom para mim tem de ser bom para todos. Isso tem o nome de ideologia, palavra tão surrada quão pouco entendida. E haja propaganda para que a máquina continue girando. Não sou contra o consumo, declaro desde já, mas contra o consumismo. Erigir o consumo de bens materiais (principalmente) como o bem supremo de um ser humano é tirar-lhe toda a humanidade.
Para Diógenes, filósofo contemporâneo de Aristóteles, a felicidade, a verdadeira realização de uma vida, consistia em alcançar o autodomínio e a liberdade espiritual. E Diógenes viveu o que pensou. Para tanto, vivia em um barril, desprezava a opinião do mundo e os bens materiais.
Conta-se que Diógenes saía à rua em pleno sol com uma lanterna na mão. Indagado sobre o que fazia, costumava responder que estava à procura de um homem, mas de um homem de verdade.
Mas eis que aparece Schopenhauer, aquele mesmo, o inimigo do Hegel, e desenvolve seu sistema filosófico quase todo sob a convicção de que o ser humano só pode ser infeliz. É o filósofo do pessimismo. Às vezes sinto-me tentado a pensar que o Schopenhauer, lá do século XIX, já vislumbrava nossa época, a sociedade do consumismo desenfreado. Ele afirmava que o desejo é a regência do mundo. E que desejamos aquilo que não temos. Portanto, somos infelizes. E se o desejo é satisfeito com a obtenção de seu objeto, novos objetos surgem em seu caminho. Esta insaciabilidade do ser humano é que o vai manter preso à infelicidade.
Bem, e a que chegamos? Enquanto alguém que circule melhor do que eu pela filosofia, que mal tangencio como curioso, vou continuar pensando que a vida não tem sentido, apenas existência. E isso, um pouco à maneira do Alberto Caeiro, para quem pensar é estar doente.
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* Escritor.
Imagem da Interner

As controvérsias do futuro

Antonio dias Leite, 93 anos de vida e, grande parte deles, de preocupação com o País, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, investigou a distância que separa o país emergente de um país rico. Para isso escreveu Brasil, País Rico – O que ainda falta (Campus), no qual abandona os rigores da Academia – gráficos, tabelas, quadros – em favor da simplicidade. Ele elenca, com clareza e didática, as principais controvérsias “em torno do futuro do País”. Da simplicidade nasceu um texto limpo, acessível e esclarecedor, ao alcance do público e não só dos seus pares.
Dias Leite foi em busca das contradições armadas pelos obstáculos de sociedades emergentes. De certa forma, uma antiga e saborosa máxima, a do cobertor curto, explica melhor: se o cobertor do pobre for puxado para cobrir a cabeça descobrirá inevitavelmente o pé.
“Um exercício aritmético”, ele mostra no livro, “indica que seriam necessários 35 anos em uma trajetória de crescimento de 3% anuais.” Com o crescimento maior, o tempo seria menor. Eis os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: O que é um país rico?
Dias Leite: O título remete à convicção de que o Brasil está numa posição de relevo no mundo. Fundido isso com o fato de ele ser rico. Mas a riqueza tem de ser expressa pelas condições de vida da população. Um país pode ser capaz de realizar grande produção de bens e serviços e não ser rico. É o caso em que nós estamos. Crescemos no total do que produzimos, mas não nos tornamos um país rico no sentido de que a população está num nível de bem-estar social.

CC: Quais seriam os maiores obstáculos para chegar lá?
DL: Eu me concentrei muito nas contradições entre os objetivos perseguidos e, menos, nos obstáculos. O que interessa a um objetivo é um obstáculo para alcançar outro. O problema é, portanto, o de conciliar. Nesse contexto, o obstáculo principal é o nosso atraso na educação. Infelizmente a recuperação no domínio da educação é a de mais longo tempo de maturação que conhecemos. Esse primeiro obstáculo impõe limitação à velocidade com que se pode crescer.

CC: E além dessa contradição no objetivo educação?
DL: Às vezes alcançar um objetivo significa abandonar outro. Temos um problema político-institucional. O Brasil nunca conseguiu chegar a uma estrutura de Estado aceitável. Ao contrário, a situação se deteriorou nos últimos anos. Então, a possibilidade de definição de uma estratégia nacional focada em vencer os obstáculos que se apresentam de várias naturezas encontra uma dificuldade na sua própria formulação. Recentemente, com a proliferação de ministérios, essa tarefa se tornou mais difícil dada a dispersão que se deu na estrutura administrativa.

CC: Tudo isso não se enrosca na falta de um projeto nacional?
DL: Há duas coisas a distinguir. Uma é a não definição desse projeto. Já houve tempo em que tivemos a definição de projetos nacionais.

CC: Quando?
DL: O projeto de desenvolvimentismo de JK dava uma diretriz ao País. Ultimamente, há muitas críticas aos projetos que foram feitos. É possível criticar as opções feitas. Elas, no entanto, davam uma diretriz ao País.

CC: Getúlio Vargas teve um projeto?
DL: Vargas deu um passo na administração pública do Brasil, a contar da proclamação à revolução de 1930. Um passo de 40 anos. Ele fez uma reforma administrativa. Depois dele os militares fizeram uma e, posteriormente, Fernando Henrique fez outra. Todas diferentes entre si. A partir daí não houve andamento. Estamos falando de iniciativas que não configuram uma estratégia nacional. Há uma estrutura inapta para promover um desenvolvimento estratégico. É preciso mencionar também o exagero ao poder construtivo de regras pormenorizadas para as atividades individuais e coletivas, sem atribuir equivalente importância à sua efetividade.

CC: Na prática esse excesso produz o quê?
DL: A complexidade da regulamentação resultante induz inclusive à fuga dos pequenos empreendedores para operações informais e até ilegais. Além de prejudicar o processo de crescimento econômico do País, a informalidade cria condições para a generalização da corrupção, que vai se tornando endêmica.

CC: Há diferença entre um país rico e um país rico e poderoso?
DL: Existe. Rico e poderoso é um passo adiante.

CC: Esse passo à frente se daria com o domínio da energia nuclear?
DL: Seria interessante pensarmos na posição do Irã…

CC: Não seria importante para um país se tornar poderoso?
DL: Não vejo interesse na sociedade brasileira por esta natureza de poder.

CC: Em que medida a crise mundial pode dificultar a ascensão do Brasil à condição de país rico?
DL: Acho que a dificuldade principal está na decisão de tomar, simultaneamente, medidas de longo prazo que interessam ao desenvolvimento completo do País e as de curto prazo para fazer frente aos reflexos do que acontece no mundo. Aí está de novo uma contradição entre o curto e o longo prazo. Um grande defeito dos escritos econômicos é o de ignorar a variável tempo.

CC: Essa seria mais uma contradição?
DL: Ninguém sabe exatamente o que é “curto” e o que é “longo”. Para o mundo financeiro o curto prazo é uma semana, o longo prazo é um mês.

CC: Essa crise projetou mais a importância do papel do Estado nos países emergentes. Como o senhor avalia isso?
DL: A presença do Estado no Brasil sempre foi muito forte. Houve momentos em que ele ficou dentro de limites razoáveis, mas, em outros momentos, se envolveu em coisas desnecessárias.

CC: Nessa crise não teria faltado, nos países ricos, a “mão” do Estado?
DL: A crise decorre de uma evolução no sentido de dar agilidade a mecanismos de movimentação de fundos para o investimento e para outros fins. Essa agilidade, conjugada a uma redução de regulamentos e regras, avançou a uma imprudência impressionante, como se verifica hoje. Não se pode conceber que tenha sido feita a loucura como a questão das hipotecas, nos Estados Unidos.

CC: A situação não sugere que certos casos exigem freios e outros, algemas?
DL: Isso mesmo. É impressionante que as discussões mundiais sobre o assunto da economia real continuem em plano secundário. A preocupação resume-se em como sustentar o sistema financeiro existente. Esse caminho desconhece que dois terços da humanidade precisam de crescimento. Há o esquecimento de que esses dois terços estão passando fome. De certa forma, essa é a visão do FMI.

CC: O Brasil não entrou nesse caminho?
DL: Sua pergunta remete às contradições. No Brasil, o interesse está voltado para a eliminação da miséria e a distribuição de renda. Esse é o objetivo prioritário. Há, porém, uma nítida contradição entre esse objetivo e o objetivo de sua pergunta sobre a proteção à nossa soberania. As Forças Armadas estão à míngua.

CC: É uma boa opção, não?
DL: É um mérito. Surgiu, felizmente, um político comprometido com a eliminação da miséria e a redução da desigualdade. Esse caminho, no entanto, estabelece contradições em países emergentes.

CC: É possível pensar que essa crise econômica de agora prenuncia o fim do capitalismo financeiro ou, pelo menos, restrições?
DL: Tenho muitas diferenças com o mundo financeiro. Tenho horror dele. O impressionante, nessas discussões mundiais, é que o assunto da economia real continua em plano secundário.

CC: A preocupação tem sido a de sustentar esse sistema financeiro?
DL: Sim. É só isso. Um desses economistas, ex-chefe do FMI, discute a questão do crescimento como se dois terços da humanidade não precisassem de crescimento. Essa história de esquecer o crescimento não leva em conta que dois terços da humanidade passam fome. Imagine que um homem desses foi economista-chefe do FMI. É preciso fazer o dever da “nossa casa”, mas é fundamental considerar que existem outras casas.
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Reportagem por Mauricio Dias
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/as-controversias-do-futuro/ 26/02/2012

Como enfrentar a sexta extinção em massa?

Leonardo Boff*

Referimo-nos anteriormente ao fato de o ser humano, nos últimos tempos, ter inaugurado uma nova era geológica – o antropoceno – era em que ele comparece como a grande ameaça à biosfera e o eventual exterminador de sua própria civilização. Há muito que biólogos e cosmólogos estão advertindo a humanidade de que o nível de nossa agressiva intervenção nos processos naturais está acelerando enormemente a sexta extinção em massa de espécies de seres vivos. Ela já está em curso há alguns milhares de anos. Estas extinções, misteriosamente, pertencem ao processo cosmogênico da Terra. Nos últimos 540 milhões de anos ela conheceu cinco grandes extinções em massa, praticamente uma em cada cem milhões de anos, exterminando grande parte da vida no mar e na terra. A última ocorreu há 65 milhões de anos quando foram dizimados os dinossauros entre outros.
Até agora todas as extinções eram ocasionadas pelas forças do próprio universo e da Terra a exemplo da queda de meteoros rasantes ou de convulsões climáticas. A sexta está sendo acelerada pelo próprio ser humano. Sem a presença dele, uma espécie desaparecia a cada cinco anos. Agora, por causa de nossa agressividade industrialista e consumista, multiplicamos a extinção em cem mil vezes, diz-nos o cosmólogo Brian Swimme em entrevista recente no Enlighten Next Magazin, n.19. Os dados são estarrecedores: Paul Ehrlich, professor de ecologia em Standford calcula em 250.000 espécies exterminadas por ano, enquanto Edward O. Wilson de Harvard dá números mais baixos, entre 27.000 e 100.000 espécies por ano (R. Barbault, Ecologia geral 2011, p.318).
O ecólogo E. Goldsmith da Universidade da Georgia afirma que a humanidade ao tornar o mundo cada vez mais empobrecido, degradado e menos capaz de sustentar a vida, tem revertido em três milhões de anos o processo da evolução. O pior é que não nos damos conta desta prática devastadora nem estamos preparados para avaliar o que significa uma extinção em massa. Ela significa simplesmente a destruição das bases ecológicas da vida na Terra e a eventual interrupção de nosso ensaio civilizatório e quiçá até de nossa própria espécie. Thomas Berry, o pai da ecologia americana, escreveu:”Nossas tradições éticas sabem lidar com o suicídio, o homicídio e mesmo com o genocídio mas não sabem lidar com o biocídio e o geocídio”(Our Way into the Future, 1990 p.104).
Podemos desacelerar a sexta extinção em massa já que somos seus principais causadores? Podemos e devemos. Um bom sinal é que estamos despertando a consciência de nossas origens há 13,7 bilhões de anos e de nossa responsabilidade pelo futuro da vida. É o universo que suscita tudo isso em nós porque está a nosso favor e não contra nós. Mas ele pede a nossa cooperação já que somos os maiores causadores de tantos danos. Agora é a hora de despertar enquanto há tempo.
O primeiro que importa fazer é renovar o pacto natural entre Terra e Humanidade. A Terra nos dá tudo o que precisamos. No pacto, a nossa retribuição deve ser o cuidado e o respeito pelos limites da Terra. Mas, ingratos, lhe devolvemos com chutes, facadas, bombas e práticas ecocidas e biocidas.
O segundo é reforçar a reciprocidade ou a mutualidade: buscar aquela relação pela qual entramos em sintonia com os dinamismos dos ecossistemas, usando-os racionalmente, devolvendo-lhes a vitalidade e garantindo-lhes sustentabilidade. Para isso necessitamos nos reinventar como espécie que se preocupa com as demais espécies e aprende a conviver com toda a comunidade de vida. Devemos ser mais cooperativos que competitivos, ter mais cuidado que vontade de submeter e reconhecer e respeitar o valor intrínseco de cada ser.
O terceiro é viver a compaixão não só entre os humanos mas para com todos os seres, compaixão como forma de amor e cuidado. A partir de agora eles dependem de nós se vão continuar a viver ou se serão condenados a desaparecer. Precisamos deixar para trás o paradigma de dominação que reforça a extinção em massa e viver aquele do cuidado e do respeito que preserva e prolonga a vida.
No meio do antropoceno, urge inaugurar a era ecozóica que coloca o ecológico no centro de nosas atenções. Só assim há esperança de salvar nossa civilização e de permitir a continuidade de nosso planeta vivo.
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Leonardo Boff é autor com Mark Hathaway de O Tao da Libertação: explorando a ecologia da transformação, Vozes 2011.
Imagem da Internet

O poder da força de vontade

Especialistas garantem que, tal como um músculo, essa característica
deve ser exercitada diariamente
DISCIPLINA
Ilma se esforça para treinar três vezes por
semana, apesar de trabalhar em uma academia
Ilma Dias, 36 anos, é gerente de marketing em uma academia no Rio de Janeiro. E, acredite, até ela precisa ter muita força de vontade para malhar. Não porque não goste dos treinamentos ou os considere desnecessários. É que exercitar o corpo regularmente, comer de forma saudável, entregar trabalhos no prazo, manter a casa limpa e cumprir metas são atitudes que vão contra duas das maiores tentações do ser humano: o prazer e a preguiça. Para lutar contra essas tendências, é preciso fazer uma verdadeira ginástica mental. É o que prega o livro “Willpower: Rediscovering Our Greatest Strength” (Força de vontade: redescobrindo a nossa maior força, em tradução livre), lançado recentemente nos Estados Unidos e já um dos mais vendidos da lista do “The New York Times”. Segundo os autores da obra, o psicólogo da Universidade da Flórida Roy F. Baumeister e o jornalista John Tierney, o treino diário da nossa “maior força”, como chamam, é o melhor antídoto para a preguiça e a busca incessante de satisfação. E, quanto maior a força de vontade, maiores as chances de ter uma vida saudável. “É a chave do sucesso e da felicidade”, argumenta Baumeister. Parece exagero, mas não é. Nos estudos citados pelos autores, vários deles mostram que as pessoas com menos força de vontade são aquelas mais suscetíveis a problemas como alcoolismo, obesidade e vício em drogas.
Difícil, no entanto, é ter esse controle em uma sociedade cada vez mais hedonista. “A vida não permite satisfação o tempo todo, mas mesmo assim queremos nos manter nesse estado”, explica o psicanalista e professor Rubens Aguiar Maciel, especialista em saúde e bem-estar. “E toda hora vai ter alguém te empurrando para a festa, para o bar, para a sobremesa mais gordurosa, o que torna ainda mais complicado fazer esse exercício mental.” O psicanalista aconselha a trocar o conceito de felicidade, que remete aos prazeres momentâneos, pela ideia de bem-estar. O lado negativo da força de vontade acontece quando há um exagero e o bem-estar vira um tormento. Pessoas com pouca flexibilidade podem transformar autocontrole e disciplina em neurose e obsessão, como os que malham compulsivamente, os que cortam radicalmente doces e bebidas e os que só economizam dinheiro.
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Reportagem por Débora Rubin
Fonte: http://www.istoe.com.br/

A geladeira e o livro

MARTHA MEDEIROS*


Fazia dois dias que minha geladeira havia entrado em pane. Não deixou de resfriar, mas as luzes do painel piscavam o dia inteiro, como se fosse uma bomba a ponto de explodir, e o alarme disparava de tempo em tempo, mesmo a porta estando bem fechada. Sou otimista, achei que tudo se resolveria num passe de mágica, mas o coelho não saiu da cartola e acabei tendo que chamar um técnico, que agendou a visita para a manhã seguinte, às 9h30. Quando eram 9h25, as luzes do painel, antes esquizofrênicas, apagaram. O alarme já não disparava desde a noite anterior. Eu não queria mágica?
A primeira coisa que disse ao técnico: “Acredite, há dois dias que esta geladeira está tendo chilique, só parou quando o senhor começou a subir pelo elevador”. Ele me deu um olhar compreensivo, fez um check up no aparelho e descobriu um pequeno defeito. Alívio. Morri com R$ 300, mas a geladeira ganhou uma sobrevida. E minha neura, também.
Ninguém gosta de passar por exagerado. Ao sairmos do cinema, somos capazes de listar um sem-número de elogios ao filme que assistimos, mas basta alguém se empolgar com a nossa descrição e resolver assisti-lo por nossa causa que a responsabilidade começa a pesar: “Olha, eu gostei, mas talvez não seja seu tipo de história. Vá sem expectativas. É meio longo. Tem uma partezinha devagar, mas, sei lá, acho que vale a pena”.
Um amigo me recomendou um livro sensacional. Segundo ele, a melhor coisa que leu no último ano. Bom, então quero ler também. No dia seguinte, ele largou o livro na portaria do meu prédio, e quando liguei pra agradecer, ouvi: “Talvez tu não goste tanto assim. Comprei pra ti uma edição diferente da minha, o tradutor não sei se é tão bom. Tu não é obrigada a gostar, tá?”
Os episódios da geladeira e do livro, cada um a seu modo, demonstram o quanto ficamos inseguros ao virarmos referência. No caso da geladeira, a única prova que eu tinha de que ela estava amarelando eram as luzes piscantes. Quando elas pararam de piscar, passou a valer apenas a minha palavra. Que solidão.

No fim das contas, tudo o que queremos
é ser amados

Quando meu amigo incentivou a leitura do livro, estava expondo sua erudição, já que o autor era um filósofo. Mas no momento em que demonstrei interesse em ler também, ele passou a duvidar do próprio entusiasmo. E se o livro não fosse tão bom no meu parecer? De repente, não era mais o livro que estaria em julgamento, e sim ele. Solidão, também.
Outra: uma amiga resolveu ir a Machu Picchu depois que comentei coisas incríveis sobre a viagem que fiz para lá recentemente. Ai, ai, ai. E se ela passar mal com a altitude? E se achar a comida muito apimentada? E se voltar pensando que me empolgo por qualquer ruína de cartão-postal? Já era: terá perdido a chance de ir para outro lugar mais encantador a seus olhos. Por que fui emprestar os meus?No fim das contas, tudo o que queremos é ser amados. Por aqueles a quem recomendamos um livro, por quem resolveu viajar incentivado por nós, e, sim, pelo técnico que confirmou que nossa geladeira estava mesmo estragada, contra qualquer evidência. Falando na geladeira, passa bem. As luzes nunca mais piscaram nem o alarme disparou. A não ser o meu: “não se leve tão a sério, não se leve tão a sério, não se leve tão a sério”.
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* Escritora. Cronista da ZH
Fonte: ZH on line, 26/02/2012

As férias de cada um

J.J. CAMARGO
Se as pessoas são tão diferentes, como uniformizar comportamentos? Talvez o significado das férias seja um dos parâmetros mais ricos para documentar essa diversidade. É certo que a qualidade de vida antes das férias é que determina a intensidade do gozo durante as férias. Os que odeiam o que fazem, aqueles que têm raiva de segunda feira até nas férias. Esses curtem qualquer feriado, em qualquer lugar, com qualquer companhia, porque todo pretexto para mantê-los longe do trabalho massacrante é uma comemoração.
No outro extremo, estão os viciados em trabalho, para os quais toda a pausa é uma perda de tempo. Os invejosos também tentam descansar, e claro que não conseguem, mas de qualquer maneira mudam o foco: durante o ano inteiro, sofrem com o que os outros fazem e, nas férias, se atormentam com o que os outros têm.
O que levamos para passear é a imagem do que fomos durante o ano inteiro. E não existe photoshop capaz de retocá-la. O comportamento das pessoas em férias delata o jeito que elas viveram antes de chegar lá. Aos que amam o que fazem, bem-vindos às férias verdadeiras, que começam agora. Aos outros, um consolo – este ano tem muitos feriadões – e uma notícia ruim: o Natal e o Ano-Novo de 2016 serão fins de semana quaisquer.
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Fonte: ZH on line, 26/02/2012
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Consciência cósmica

Marcelo Gleiser*

Quanto mais percebemos a complexificação
da matéria, mais entendemos que
somos criaturas raras
Desde 1998, o agente literário, empresário e intelectual americano John Brockman vem compilando opiniões de alguns dos cientistas mais conceituados do mundo, publicadas em livros. Cada ano tem um tema diferente. Em 2010 foi discutido "Como a internet está mudando nosso modo de pensar". Neste ano, a pergunta foi "Qual o conceito ou a ideia científica que pode nos aprimorar?" As 151 respostas, vindas de especialistas como Freeman Dyson, Daniel Kahneman e Steven Pinker, acabam de ser publicadas nos EUA em "This Will Make You Smarter"("Isto vai deixar você mais esperto"), livro que já avança na lista dos mais vendidos do país.
Brockman acredita que os cientistas (naturais e sociais) são os que ponderam as questões mais essenciais do nosso tempo. E não falamos apenas de aquecimento global ou do destino do Universo. Questões de natureza pessoal, ou mesmo corporativas, fazem parte da discussão: como viver melhor, o que é moralidade, como lidar com ideias contrárias às suas, como crescer trabalhando em grupos etc.
Inspirado no famoso ensaio "As Duas Culturas e a Revolução Científica", de 1959, do físico e escritor inglês Charles Percy Snow, Brockman propõe uma "Terceira Cultura", em que cientistas-humanistas são os principais criadores de cultura e de revoluções culturais.
Segundo ele, a fertilização plural de ideias vindas de áreas diferentes levará não só a soluções para os principais problemas que afligem a humanidade, da energia à fome, como também definirá nosso futuro.
Neste ano, dentre as muitas ideias provocadoras e instigantes, um tema fala mais alto do que os outros. Mesmo que tenhamos muito o que celebrar com relação aos nossos avanços científicos e intelectuais, temos razões de sobra para permanecermos humildes, especialmente ao confrontarmos a vastidão do que não sabemos sobre o Universo e sobre nós mesmos.
Como escreveu o neurocientista David Eagleman, da Faculdade Baylor de Medicina: "Considere as inúmeras decisões políticas, as asserções dogmáticas e as declarações factuais que ouvimos todos os dias e imagine se todas tivessem um mínimo de humildade intelectual".
Na minha contribuição, abordo um tema que explorei em meu livro "Criação Imperfeita" (Ed. Record, 2010): como o progresso na astrobiologia e na cosmologia estão nos fazendo repensar a lição central do copernicanismo, a de que, quanto mais aprendemos sobre o Universo, menos importantes ficamos.
Ao contrário, quanto mais percebemos que a complexificação gradual da matéria ao longo da história cósmica -das partículas elementares à matéria viva- é produto de imperfeições, acidentes e assimetrias sem qualquer grande plano por trás dela, mais entendemos que somos um fenômeno único no Cosmos, criaturas raras, capazes de se questionar sobre o futuro.
Mesmo que outra inteligência exista em algum canto da galáxia, as distâncias interestelares agem como uma barreira que, ao menos pelas próximas gerações, é intransponível. A conscientização de nossa solidão cósmica e da raridade de nossa casa planetária nos leva (ou deveria levar) a uma nova relação com a vida. Está na hora de começarmos a celebrar nossa existência.
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* MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: goo.gl/93dHI
Fonte: Folha on line, 26/02/2012
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Os juízes

Rubem Alves*
Os juízes,doutores vindos da cidade grande, faziam questão de demonstrar que não eram do lugar, que estavam ali apenas de passagem, à espera de promoção. Eram posudos, ganjentos, diziam frases latinas em seus discursos, "fero fers tuli latum ferre", quem com ferro fere com ferro será ferido, o latim estava errado, mas como ninguém sabia, não fazia diferença. Os homens do lugar ficavam murchos diante do juiz, gaguejavam e chegavam mesmo a perder a fala.

Açougue eram lugares de horrores. Minha mulher, grávida pela primeira vez, desmaiou ao entrar num deles. As moscas, as carcaças de porcos e vacas penduradas em ganchos, o sangue pingando, os fígados sobre o balcão - um espetáculo surrealista. Juízo semelhante sobre os açougues emitiu a Adélia Prado. "O açougueiro e sua faca me expulsam, porque eu não tenho santidade, eu não sou digna de pôr os pés no lugar mais deprimente do mundo. Quando eu quero ficar humilde eu visito açougues, entro de um em um..." (Adélia Prado, Solte os Cachorros, pág.9). De fato açougue é lugar de penitência. Se ainda se encontram açougues assim por esse Brasil, imaginem como era antigamente. Para escapar do incômodo havia uma alternativa: comprar carne do vendedor ambulante, quase sempre negro, pés descalços, calça arregaçada, equilibrando tabuleiro de madeira na cabeça, cheio de pedaços de carne, cobertos com folhas de bananeira, seguindo por uma nuvem de moscas e cachorros, o que era normal. Empregado de açougueiro, ele apregoava a sua mercadoria: "Lombo de porco! Costela! Toicinho! Pernil! Fígado! Bucho!" As donas de casa saiam à rua, ele tirava o tabuleiro da cabeça e elas escolhiam. Mas havia aqueles que preferiam ir aos açougues, minúsculos cômodos sem janelas com uma porta de grades à frente, sempre cheios de moscas.

Aconteceu que um juiz novo chegou à cidade cheio de boas intenções e se dispôs a se misturar com o povo. Saiu a caminhar tirando respeitosamente o chapéu para todos que encontrava. Foi assim indo até chegar ao Açougue Nossa Senhora da Misericórdia, propriedade do Tibúrcio que acabara de matar um porco. A gritaria do porco, ouvida na cidade inteira, dispensava propaganda. Gritaria de porco - carne do porco no açougue do Tibúrcio. E lá estavam as duas metades, pendentes do teto, penduradas em ganchos. O juiz, para puxar conversa, afirmou com a autoridade da sua voz: "Então o senhor abate suínos!" Tibúrcio perdeu a fala. Ficou gelado. Não sabia o que era "abate" e nem "suíno". Com certeza o "meretríssimo" o pegara em alguma infração da lei. O jeito era negar o crime. Gaguejou. "Não senhor, não senhor... Eu só mato porcos..."

Um outro caso de desencontro entre os homens do lugar e os juízes efêmeros se deu quando um roceiro que viera à cidade para comprar querosene, sal, rapadura e fumo de rolo se sentiu premiado por uma urgência fisiológica inadiável. Sem alternativas, fez o que normalmente fazia na roça. Valendo-se de um muro de adobes caído entrou num terreno baldio onde o mato crescera, abaixou as calças, agachou-se e pôs-se a obrar. Vinha por aquela mesma rua um juiz com chapéu panamá e guarda-chuva enrolado que fazia às vezes de bengala, costume generalizado naquela época, que, vendo o homem fazendo o que fazia, horrorizou-se com tal falta de respeito, posto que era provável que por ali viessem a passar excelentíssimas senhoras. "O senhor não sabe que é contra a lei defecar em público?" - esbravejou o juiz. Sem saber o que era "defecar" o roceiro entendeu a mensagem, e sem sair da sua posição deu uma lição Filosofia do Direito ao juiz presunçoso: "Seu Dotô, há necessidades que são mais fortes do que a lei..."

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Apelo a uma alma amante de livros (que não conheço...): "Distraído, deixei um livro de Fernando Pessoa (Bernardo Soares) em alguma casa: O Livro do Desassossego. Inútil que me comprem um novo. Eu tenho um novinho... O que eu quero são anotações que fiz no livro que esqueci. Se ele estiver na sua casa, por favor..."
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* Teólogo. Escritor. Educador.
Fonte: Correio Popular on line 26/02/2012
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sábado, 25 de fevereiro de 2012

“Curar um mundo ferido”. Apelo à “reconciliação” com Deus e com a natureza

O documento termina com uma ampla
enumeração de recomendações e
possibilidades em nível institucional,
comunitário e pessoal para viver uma
Vida Religiosa coerente com a nova situação
de crise ecológica mundial.

A Companhia de Jesus publicou recentemente um Relatório especial sobre a ecologia com o título Curar um mundo ferido (http://www.ihu.unisinos.br/images/stories/cadernos/ihu/037cadernosihu.pdf). É um trabalho dirigido aos membros da Companhia de Jesus que, no entanto, abre horizontes para toda a Vida Religiosa, e que foi apresentado nesta sexta-feira.
O núcleo central do documento é constituído pela reflexão sobre o contexto de crise ecológica mundial no qual se desenrola a nossa vida comunitária e apostólica, as contribuições que uma nova visão ecológica da vida pode oferecer à nossa espiritualidade, e, por fim, algumas recomendações e sugestões.
É particularmente importante a reflexão sobre a espiritualidade, aprofundando nas raízes teológicas da nossa vida cristã em relação com a terra como sonho de Deus e o sentido de uma vida que é sempre “relação”: com o Deus criador e com as demais criaturas, especialmente os homens e mulheres, sobretudo os mais empobrecidos sobre quem recai mais duramente o peso da crise ecológica(http://www.ihu.unisinos.br/noticias/506812-depois-do-contrato-social-um-contrato-com-o-ambiente-artigo-de-enzo-bianchi). Daí que uma necessária “reconciliação” com Deus e com a natureza esteja intimamente unida à justiça “restaurativa” que afeta diretamente o nosso modo de viver.
O documento termina com uma ampla enumeração de recomendações e possibilidades em nível institucional, comunitário e pessoal para viver a Vida Religiosa coerente com a nova situação de crise ecológica mundial que sofremos e diante da qual a Vida Religiosa não pode permanecer indiferente, unindo seus esforços às milhares de organizações e pessoas do mundo inteiro.
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A reportagem está publicada no sítio Religión Digital, 23-02-2012.
A tradução é do Cepat.
Fonte: IHU on line, 25/02/2012
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Comer consciente evita exageros

Tente fazer: coloque uma garfada de comida na boca. Não importa qual comida, mas tem que ser algo de que você goste - digamos que seja aquela primeira porção de três raviólis quentes, cheirosos e perfeitamente cozidos.
Agora vem a parte difícil. Ponha o garfo sobre a mesa. Isso pode ser muito mais desafiador do que você imagina, porque essa primeira garfada foi muito boa e uma outra imediatamente chama. Você está com fome.
O experimento de alimentação de hoje, no entanto, consiste em desenvolver a atenção a esse reflexo impulsivo de se jogar na comida como o Come-Come da Vila Sésamo. Resista. Deixe o garfo sobre a mesa. Mastigue lentamente. Pare de falar. Sintonize-se na textura da massa, no sabor do queijo, na cor brilhante do molho no prato, no aroma do vapor que sobe.
Continue assim por toda uma refeição, e você experimentará os reveladores prazeres e frustrações de uma prática conhecida como comer consciente.
O conceito tem raízes nos ensinamentos budistas. Assim como há formas de meditação que envolvem sentar-se, respirar, ficar em pé e caminhar, muitos mestres budistas encorajam seus discípulos a meditar com a comida, expandindo a consciência através da atenção à sensação e ao propósito de cada bocado. Num exercício comum, um estudante recebe três uvas, ou uma tangerina, para passar cerca de dez ou vinte minutos olhando-as, meditando, segurando e pacientemente mastigando.
Mais tarde, no entanto, tais experimentos da boca e da mente começaram a se infiltrar na arena secular, da Faculdade de Saúde Pública de Harvard às instalações do Google na Califórnia. Aos olhos de alguns especialistas, o que parece o ato mais simples de todos - comer lentamente e genuinamente saborear cada mordida - poderia ser o remédio para uma nação acelerada, movida a comida gordurosa, na qual uma lista infinita de novas dietas nunca parece desacelerar a explosão da obesidade.
Comer consciente não é uma dieta, nem é desistir de tudo. Trata-se de vivenciar a comida de maneira mais intensa - especialmente o prazer que ela dá. Você pode comer um cheeseburguer conscientemente, se quiser. Pode assim aproveitá-lo muito mais, ou decidir, a meio caminho, que o seu corpo já está satisfeito, ou que, na verdade, ele precisa de um pouco de salada.
"Esta é uma antidieta", diz o doutor Jan Chozen Bays, pediatra e professor de meditação no Oregon e autor de "Mindful Eating: A Guide to Rediscovering a Healthy and Joyful Relationship with Food" ("Comer consciente: Um guia para a redescoberta de uma relação saudável e feliz com a comida"). "Creio que o problema fundamental é que ficamos inconscientes enquanto comemos."
Os últimos anos trouxeram consigo uma enxurrada de livros, blogs e vídeos sobre o comer hiperconsciente. Uma nutricionista de Harvard, a Dra. Lilian Cheung, dedicou-se a estudar seus benefícios e hoje encoraja apaixonadamente as corporações e os serviços de saúde a tentar essa alternativa.
No Laboratório de Alimentos e Marcas da Universidade Cornell, Brian Wansink, autor de "Mindless Eating: Why We Eat More Than We Think" ("Comer inconsciente: Por que comemos mais do que pensamos"), conduziu conjuntos de experimentos sobre os fatores psicológicos que desencadeiam o nosso consumo sem limites. Uma hora de almoço consciente tornou-se recentemente parte da agenda do Google, e gurus de autoajuda como Oprah Winfrey e Kathy Freston tornaram-se defensoras da prática.
Tendo deixado para trás as comilanças do fim de ano, vale a pena ponderar se o comer consciente não é algo de que a população mais ampla deveria estar, bem, mais consciente. Será que uma disciplina desenvolvida por monges e monjas budistas poderia nos ajudar a nos tornar mais saudáveis, a aliviar o estresse e a nos livrarmos de muitas das neuroses que hoje associamos à comida?
Cheung está convencida de que sim. Ela recentemente se reuniu a membros de sua equipe no Serviço de Saúde Harvard Pilgrim e lhes pediu que passassem um tempo razoável com uma amêndoa coberta de chocolate.
"O ritmo da vida está ficando cada vez mais rápido, portanto na verdade não temos a mesma atenção e a mesma habilidade de nos observar", diz Cheung, que, com o monge budista vietnamita Thich Nhat Hanh, coescreveu "Savor: Mindful Eating, Mindful Life" ("Saborear: Comer consciente, viver consciente"). "É por isso que o comer consciente está se tornando mais importante. Precisamos retornar a nós mesmos e nos perguntar: 'Meu corpo precisa disto? Por que estou comendo isto? Ou só estou comendo por estar triste e estressado?'."
O tema já chegou até mesmo aos círculos culinários que tendem a se focar mais nos excessos rabelaisianos que nas restrições monásticas. Em janeiro, o doutor Michael Finkelstein, um médico holístico que supervisiona o centro holístico SunRaven, em Bedford, no estado norte-americano de Nova York, fez uma palestra sobre jardinagem e comer consciente na sede da Fundação James Beard na cidade de Nova York, organização de foodies mais amiga dos banquetes que das dietas.
"Penso que a questão não é quais alimentos comer", diz ele numa entrevista. "A maior parte das pessoas sabe mais ou menos quais os alimentos saudáveis, mas não os come. Para mim, comer consciente é aquilo que você tem na cabeça enquanto come". Bays recomenda práticas que podem soar como a volta aos ritmos simples de uma vila, talvez um tanto idealizados. Se é impossível comer conscientemente todos os dias, considere planejar uma refeição especial por semana. Desligue a televisão, sente-se à mesa com seus entes queridos.
"Que tal se, nos primeiros cinco minutos da refeição, apenas comermos em silêncio e realmente aproveitarmos a comida?", diz ela. "Isso se faz passo a passo."
Mesmo ela fica às vezes ocupada demais para contemplar um grão-de-bico. Assim, há dias em que Bays toma três goles de chá conscientemente, "e daí, bem, preciso fazer meu trabalho", explica. "Qualquer pessoa pode fazer isso. Em qualquer lugar."
Mesmo traçar um burrito no carro oferece uma oportunidade para um insight. "Comer consciente inclui também o comer inconsciente", diz ela. "Estou consciente de estar comendo e dirigindo."
Poucos lugares nos Estados Unidos são tão freneticamente ativos quanto a sede do Google em Mountain View, na Califórnia, mas quando Thich Nhat Hanh esteve ali para um dia de consciência em setembro, centenas de empregados compareceram.
Parte do evento era dedicada a comer pensativamente e em silêncio, e a prática foi tão bem recebida que um almoço vegano de uma hora é agora um compromisso mensal nas instalações do Google.
"O interessante é que muitos dos participantes são os engenheiros, isso nos agradou muito", diz Olivia Wu, diretora executiva da empresa. "Acho que aquieta a mente. Creio que realmente as pessoas se sentem restauradas, para depois voltarem ao ritmo enlouquecido de onde vieram."
Afinal, não é tão frequente que os técnicos hiperprodutivos consigam parar para sentir o cheiro do pesto. "Alguém dirá: 'Comi tão menos'", diz Wu. "E outra pessoa vai dizer: 'Sabe, eu nunca tinha percebido o quanto a rúcula é ardida'."
E esse pode ser o ingrediente a ajudar o comer consciente a ganhar impulso na cultura mais geral: o sabor.
"É trágico que tantas pessoas tenham caído numa relação de guerra com a comida", diz Bays. "Comer devia ser uma atividade prazerosa."
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The New York Times News Service/Syndicate
Fonte: http://nytsyn.br.msn.com/

Lassalistas: as comunidades internacionais e a esperança nos jovens

Você pode chamar o Ir. Álvaro Rodríguez Echeverría (foto) de "o superintendente dos superintendentes". Líder mundial dos Irmãos das Escolas Cristãs De La Salle, Rodríguez é responsável por uma congregação religiosa que supervisiona mais de 1.000 estabelecimentos de ensino em 82 países, onde cerca de um milhão de estudantes são educados.
Somando-se às suas responsabilidades, Rodríguez, natural da Costa Rica, também supervisiona e cuida doa 6.000 irmãos e 100.000 colegas leigos dos institutos.
Em entrevista ao NCR, durante uma visita abrangente de duas semanas às comunidades e ministérios da congregação no leste dos Estados Unidos e no Canadá, em novembro, Rodríguez concentrou-se na integração única da sua ordem entre vocações religiosas e leigas e naquilo que a dedicação dos irmãos à educação diz a respeito da importância do professor globalmente.

Eis a entrevista.

Há muitos leigos trabalhando nos institutos lassalistas em todo o mundo. Pode nos falar sobre a relação entre os irmãos lassalistas e os leigos? Como eles trabalham juntos?
Para nós, hoje, a associação com os leigos e com o mundo como um todo não é uma ideia nova. Tivemos essa associação no início da nossa congregação. Na verdade, o nosso primeiro voto é o voto de associação ao serviço aos pobres. A associação para nós não é uma forma prática ou programática de fazer as coisas, mas sim mística.
No início, a associação era dos irmãos, entre os irmãos. Hoje, pensamos que essa associação é entre irmão e leigos e outros que vivem essa missão juntos no serviço aos jovens.
Todos são chamados à santidade, não só os religiosos ou um pequeno grupo na Igreja. Todos nós recebemos esse chamado à santidade, e essa é uma nova razão para continuar os carismas das congregações religiosas. No passado, pensávamos que esses carismas eram apenas para os religiosos, mas agora grande parte das congregações reconhece que o carisma é um dom de Deus para a Igreja e que pode ser vivido de formas diferentes. Para nós, lassalistas, uma maneira de vivê-lo é como um irmão, mas há outras formas também.
Por exemplo, eu acho que estamos vivendo uma mudança nas nossas escolas. Antes, elas eram conhecidas como as "escolas dos irmãos". Agora, elas são "as escolas lassalistas" – onde irmãos, leigos, outros religiosos e padres trabalham juntos. Somos todos responsáveis por essa missão.
Eu acho que quase todos os papéis de um irmão podem ser desempenhados por leigos. Aqui na sua região, vocês têm leigos atuando como presidentes, diretores, ministros dos câmpus e em todos os outros papéis que antes eram detidos só pelos irmãos.
Mas também é importante lembrar que o irmão não pode ser substituído. Assim como os leigos. Acho que temos vocações complementares. Precisamos uns dos outros em nossa missão.
Além disso, acho que, em nosso caso, temos outra realidade. Nos Estados Unidos e no Canadá, muitas pessoas são cristãs. Mas também estamos presentes em outras sociedades, especialmente na Ásia e no Oriente Médio, onde a maioria dos nossos parceiros, estudantes e professores praticam outras religiões.
Eu acho que essa é outra dimensão da nossa missão, pela qual temos que falar de associação com eles também – quer se trate de budistas na Tailândia ou de muçulmanos no Paquistão – e construir um mundo onde todas as pessoas possam viver com dignidade e respeito.
Penso que o fato de que sejamos chamados irmãos é de grande ajuda para viver a associação com os leigos. Eu acho que, por nos chamarmos irmãos, somos um sinal da igualdade batismal. Depois do Concílio Vaticano II, ficou muito claro que o sinal sacramental mais importante é essa igualdade batismal. Depois disso, há diferenças – de missão, de vocação –, mas, no início, todos nós vivemos essa igualdade batismal.
Eu acho que a vocação dos irmãos nem sempre é valorizada na Igreja, mas penso que é uma vocação extraordinária para apontar para essa dimensão da nossa vida. Por isso, eu acho que o nosso processo de associação pode ser uma inspiração para outras congregações. Ao mesmo tempo, acho que precisamos viver a associação não apenas com os leigos com os quais trabalhamos, mas também com outras congregações.

"A nossa maior esperança, acho,
não está em nós mesmos. Somos todos pecadores
e fracos, mas a nossa esperança está em Deus,
porque Deus continua desejando a salvação
de todas as pessoas, que essencialmente
era a ideia do nosso fundador."
Nos Estados Unidos, muitos lassalistas lecionam em áreas de baixa renda ou trabalham em meio a condições muito difíceis. O que o senhor acha que a sua dedicação diz para a sociedade sobre o papel do professor?
Penso que essa é uma pergunta muito importante hoje. Eu tenho um grande apreço pelo trabalho dos irmãos e dos leigos aqui.
No caso de muitos irmãos, eu vejo que, apesar da sua idade, eles continuam trabalhando. Às vezes, no seu tempo livre ou mesmo depois da sua idade de aposentadoria, eles continuam trabalhando. É um testemunho maravilhoso do zelo pelos jovens e da contínua resposta às novas necessidades, às novas pobrezas que estamos vivendo hoje.
Eu tenho muito orgulho dessa atitude dos irmãos e de leigos lassalistas daqui. Em muitos países, as pessoas não têm um grande apreço pelos professores. Isso se opõe à realidade. Eu acho que o professor continua sendo uma das profissões mais importantes da sociedade atual.
Sempre me lembro das palavras do Beato Papa João XXIII, quando disse uma vez em uma audiência papal que, para ele, existem três profissões muito importantes: médico, padre e professor. Ele disse que o médico era importante porque tem uma relação muito forte com o corpo, e o sacerdote, com as almas. Mas o professor desenvolvia a pessoa inteira. Alma, corpo, mãos, coração, cabeça – toda a pessoa é importante para o professor.
Eu acho que é uma vocação maravilhosa, e eu valorizo a capacidade dos nossos irmãos lassalistas e de outros de responder às necessidades dos jovens hoje, com criatividade e zelo.
O nosso fundador, São João Batista de La Salle, dizia que devemos estar abertos a dar até mesmo as nossas vidas ao serviço aos jovens, e talvez o melhor exemplo que eu tenho disso é a história do irmão norte-americano James Miller, que foi assassinado na Guatemala em 1982. Ele era muito jovem quando foi morto, tinha 37 anos. Mas ele viveu toda a sua vida muito perto dos jovens.
Eu lembro que, no dia seguinte que Miller foi morto, contaram-me de um casal norte-americano que tinha providenciado uma bolsa de estudos para um aluno da nossa escola em Huehuetenango, na Guatemala. Um dos irmãos da escola me disse que o estudante não estava indo bem. O irmão disse que os professores queriam expulsar o aluno.
"Eu vou tomar conta desse jovem", disse-me o irmão. "Vou falar todas as noites com ele. Por favor, encontre uma forma de continuar a bolsa".
Isso foi muito comovente, um testemunho de um dos nossos irmãos que deu a sua vida ao serviço dos jovens.

Quais as tendências que o senhor percebe em termos vocacionais no Sul global, na África e na América Latina? Que benefícios e dificuldades vocês estão encontrando?
Eu sinto que é uma prioridade pensar no plural quando falamos de vocações lassalistas. Não é uma vocação para ser irmão, mas sim uma vocação para ser lassalista. É importante trabalhar duro para incentivar vocações para homens que se tornam irmãos, mas, ao mesmo tempo, temos que estar conscientes de que existem outras vocações lassalistas.
Acho que estamos vivendo uma realidade diferente de 50 anos atrás. Quando eu entrei nos irmãos lassalistas, eu era um dos primeiros irmãos da América Central. Todos os outros irmãos eram da Espanha, dos Estados Unidos ou de outros países. Agora, a maioria dos irmãos são da América Central, e eu acho que na África estamos vivendo uma situação semelhante.
Temos agora um número menor de missionários, e a maioria dos irmãos são irmãos locais. Eu acho que somos agora um instituto internacional. Não sei se, no futuro, teremos irmãos da África, da Ásia e da América Latina trabalhando nos Estados Unidos, mas sinto que precisamos pensar agora em termos de comunidades internacionais.
Penso que uma forma muito possível de começar a formar uma comunidade internacional é pensar em irmãos dos EUA e da América Latina trabalhando juntos pelos imigrantes nos EUA e no Canadá. Precisamos trabalhar mais nesse nível internacional.

A partir da participação dos irmãos e dos leigos na missão lassalista na África ou na América Latina, que benefícios em termos de ponto de vista, conhecimento ou experiência o senhor acha que eles trazem para a ordem?
Bem, na África, é mais difícil. Na África, a principal preocupação agora são os irmãos jovens. Em muitos setores da África, não temos nenhum irmão mais velho ou de meia-idade. Todos os irmãos são muito jovens, e a formação inicial nesse momento é muito importante.
Por outro lado, a situação econômica para os professores leigos é muito difícil, porque muitos deles precisam ter dois ou três empregos diferentes a fim de viver. Torna-se mais difícil pedir que um professor se concentre unicamente em um compromisso lassalista com apenas um centro ou em uma escola, mas estamos trabalhando nisso.
Por exemplo, temos um grupo maravilhoso de voluntários no Camarões. São ex-alunos da nossa escola técnica vocacional em Douala, que criaram uma escola técnica em um pequeno vilarejo. Alguns deles vivem juntos em comunidade. Outros os apoiam, e é uma realidade maravilhosa dos leigos da África engajados com a missão lassalista.

Pensando de forma mais ampla, qual o quadro geral dos seus medos e esperanças com relação à sua ordem?
No nosso último capítulo geral, nós, irmãos, fomos convidados a manter os olhos abertos e a unir os corações. Eu acho que esse é o chamada central a todos os lassalistas.
Penso que o mais importante não é o número ou o prestígio das nossas escolas. O mais importante é responder às necessidades dos jovens. Acho que devemos viver isso juntos, irmãos e outros, sentir que somos responsáveis pela missão lassalista.
Para mim, esse é o meu primeiro desafio. O segundo está centrado nos irmãos. É viver com autenticidade a nossa vocação de irmãos e a continuar sendo um sinal de esperança para os jovens e para os parceiros. Acho que o mais importante para os nossos irmãos hoje é ser homens de esperança, porque os jovens precisam de esperança hoje.
A situação do nosso mundo não é fácil, e todos os lassalistas precisam ser pessoas de esperança. A nossa maior esperança, acho, não está em nós mesmos. Somos todos pecadores e fracos, mas a nossa esperança está em Deus, porque Deus continua desejando a salvação de todas as pessoas, que essencialmente era a ideia do nosso fundador.
A nossa congregação nasceu para ser um instrumento para a salvação dos jovens. E Deus continua desejando a salvação de todas as pessoas, e é importante que sejamos instrumentos dessa salvação, como lassalistas.
Para mim, a experiência que me dá grande esperança é a qualidade das relações que estamos vivendo em nossas escolas em todo o mundo. Acho que somos chamados a ser testemunhas da possibilidade de viver como irmãos e irmãs. Uma dimensão muito importante da nossa missão é o testemunho de fraternidade e da irmandade.
Finalmente, tenho uma grande esperança nos jovens. Eles são muito abertos e têm uma grande preocupação de servir aos outros. Eu tenho uma imagem maravilhosa dos jovens lassalistas norte-americanos. Penso que os jovens continuam sendo muito generosos e acho que nós precisamos acreditar neles.
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A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio National Catholic Reporter, 17-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto
Fonte: IHU on line, 25/02/2012