Katya Braghini
O valor dado à “inovação” da tecnologia no
ensino não é neutro. Há interesses comerciais, culto à renovação eterna,
capitalização de dados pessoais – e nenhum debate sobre isso. No
bolsonarismo, piora: digitalização favorece manipulação política
Publicado 24/05/2021 às 19:35 - Atualizado 24/05/2021 às 19:37
O ambiente está propício para processos de privatização do ensino
público pelos mais variados caminhos: rendimentos, aplicação em bolsa,
privatização do patrimônio público, venda de materiais, necessidades com
tecnologias de ensino etc. Com o agravamento da pandemia, as
necessidades de comunicação entre a escola, os alunos e a família nos
levaram a um caminho, que sem muita reflexão, pareceu mais do que
inevitável: a abertura irrestrita às tecnologias de informação e
comunicação (TICs), como caminho mais viável para este fim.
Vistas
como “inovações educacionais”, as TICs foram ganhando terreno
na educação brasileira, muitas vezes apresentadas como a encarnação
definitiva da modernidade educativa revestida de futurismo. O fato é
que o caráter de “inovação” surge em nossas vidas como uma
neutralidade inquestionável que, por isso mesmo, é absolutamente
problemático e passível de questionamentos de diferentes níveis:
1) É processo histórico, e portanto, passa por escrutínios de
ordem política, social, temporal: quais são os sujeitos, grupos e
instituições que balizam a ideia a dita novidade? Quais são os
simbolismos que balizam esse fetiche por tudo que é “novo”? De
onde eles surgem? Para quais interesses e fins? Por que o atual foco
das tais inovações recai de maneira irrestrita nas tecnologias de
informação? Não temos mais nenhuma outra opção de inovação
educacional que não seja esta? Quais outros discursos estão sendo
apagados?
Sobre
a tentativa de apagamento de inovações educacionais que não sejam
somente as tecnológicas, mas outras, abertas, coletivas, comuns,
falaremos em outra oportunidade.
Se as “inovações” acontecem no processo histórico elas podem ser
pensadas como a gerência de interesses e práticas de grupos
determinados, que podem ou não gerar um objeto material, uma coisa.
Muitas vezes essas inovações surgem na forma e reformas educacionais,
com fins de reformas sociais. Muitas vezes são instrumentos intelectuais
que nos fazem enxergar situações ainda não percebidas. Há inúmeras
inovações pedagógicas, tidas por inovações frugais, que surgem dentro
das escolas, feitas por professores e alunos, e eles nem sequer sabem
que estão inovando. Porque algo, para ser “novo” tem que ser percebido,
compreendido, reconhecido como tal. Todo invento é um projeto político e
possui estratégia de produção, difusão, circulação e reconhecimento.
Algo que é novo, precisa ser reconhecido desta forma. O que significa
dizer que somente é apresentado como “inovador”, algo que é
“inevitável”, pelo esforço discursivo de grupos muito interessados no
sucesso de sua novidade. A história das inovações é a história das
relações sociais em disputa pela criatividade. Alguns têm o poder de
capitalizá-la, julgando fazer “o bem”: ter as melhores soluções, os mais
sofisticados cases de sucesso, em nome da “melhoria da educação
brasileira”. Outros, parecem se revestir da áurea de retrógrados, quando
criticam esse tipo de posição que joga sistematicamente ao passado
práticas, ações, gestos, criações, sentimentos, que também já foram
inovadores e que, agora, não servem mais para nada. Chega a ser
ingenuidade coletiva desconsiderar a história como um celeiro de ideias e
soluções. E chega a ser escravizador que somos levados à perseguição
daquilo que é sempre “novo”, mas que sofre de obsolescência programada, e
portanto, efêmero.
A questão principal é que há uma espécie de espírito acrítico que vê a
solução dos problemas da educação nesses produtos tecnológicos: cadeias
de streaming, plataformas com diferentes atividades, sites
educacionais, aplicativos com variados conteúdos, ferramentas com
dinâmicas de aula, aulas remotas, gravadas, circulação transnacional de
conteúdo etc.
Não se trata aqui de criar fobia frente às tecnologias. Escrever em
um papel com uma caneta é uma tecnologia. Não é disso que falo. Trata-se
de problematizar diferentes aspectos desse movimento social, político,
educacional que vê apenas positividade nas ditas ferramentas
tecnológicas e absorve um discurso como se estivesse bebendo água. Não
reconhece os grandes interesses de capital envoltos nessas transações;
não percebe as transações mais ilícitas que lícitas dos governos,
mediadores, entre os interesses privados e os públicos; não compreende
que tecnologias de difusão de conhecimentos podem repassar qualquer tipo
de conhecimento, não apenas aqueles reconhecidos socialmente; não há
discussão sobre os requisitos internacionais de proteção à saúde dos
estudantes que passam horas em frente a essas máquinas, por estudo e
lazer; não se tem claro as regulamentações sobre a transferência de
dados de crianças e adolescentes que transitam por essas plataformas e
são moedas de troca etc… A lista de problematizações é mais longa.
Perceber o posicionamento dos governos frente a tais necessidades
urgentes com a tecnologia está dentro de um amplo processo de
privatização do ensino público, já entendido pela Organização Mundial do
Comércio (OMC) como campo aberto para ações de capitalização. Há sim
processos inovadores que visam a segmentação do entendimento de
“público” em pequenas instâncias de mercantilização: o aluno necessita
de aparelhos para ter a aula do futuro, os professor é tutor,
secretariado, para enfatizar a necessidade da compra de tais objetos, a
escola vira posto de cartelização de diferentes marcas e produtos, o
estado agencia os trâmites e se desvincula dos processos de bem-estar
social sob sua responsabilidade, ampliados ainda mais pelos vínculos de
escolas com vouchers e escolas charters, sectárias e segregacionistas desde o seu nascedouro nos EUA, retumbante fracasso no Chile.
Ainda
que haja essa inevitabilidade com os processos tecnocientífico que
são incorporados pela educação escolar, pois já faz tempo que a
escola é o ambiente perfeito para a amplificação do mercado de
inovações, na forma de produtos. Mas, como ficamos se esse conjunto
de coisas também é usado para agremiar frentes fascistas, para a
criação de um mundo paralelo, repleto de mentiras, ambiente
amplificador de atividades suspeitas de aliciamento? E ainda assim
ela aparecesse como uma “inovação educacional”?
A IPTV anuncia em seu site ser um grupo que desde 2000 presta
soluções de tecnologia principalmente voltados à educação, sendo líder
no mercado com TV interativa, videoconferência multiponto por IP. Em
junho do ano passado, The Intercept fez um artigo chamado “Escola com partido” falando sobre essa empresa e a sua relação com Jair Bolsonaro.1
Primeiro o artigo anuncia que há 7,1 milhões de alunos e professores de
São Paulo, Paraná, Amazonas e Pará usando-a para aulas remotas. Depois,
diz a sede da empresa fica numa sobreloja sem identificação, sem placa,
local modesto, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Um tipo de
suspeição de endereço muito característica na vida política do clã
Bolsonaro. Diz que a tal empresa é ligada a políticos da base
bolsonarista e que um deles é acusado de participar de uma rede de
prostituição de menores de idade. A empresa se diz financiada por várias
empresas privadas que usam os seus serviços, porque fornece aplicativos
(APPs) “de graça” para os governos. Mas ela se recusa a apontar quais
são as tais empresas, sem indicar a proveniência do capital.
Ainda
assim, os governos desses estados mantêm relações com a plataforma
para atender as suas respectivas redes de ensino. Os alunos precisam
fazer cadastro, e ao acessar o aplicativo, autorizam a captação de
seus dados pessoais. Os professores e estudantes ao concordarem com
as políticas de privacidade transferem dados das secretarias de
educação, um histórico do aluno, nome, série, curso etc. Eles têm
acesso ao microfone do celular, às mensagens de grupos de bate-papo
etc. Com toda essa cessão de dados, fica mais claro compreender os
motivos dos aplicativos serem cedidos “de graça” às secretarias
de educação dos estados, tão ávidas em ter aulas remotas durante
o período da pandemia e tão distraídas em relação à venda de
informação de estudantes e do funcionalismo sob sua
responsabilidade.
O
fato é que antes desse período de pandemia e da urgência pelas
aulas remotas, o único produto razoavelmente bem sucedido do grupo
IPTV era o aplicativo de streaming
de vídeo Mano. Este aplicativo hospeda a TV Jair Bolsonaro, usada
durante a sua campanha. Sabemos que Bolsonaro, capitaneado pelos
filhos, faz uso massivo das redes de relacionamento para os seus
comunicados ao público. Ter um canal de TV por IP é uma forma de
estar em contato com os seus seguidores, sem necessariamente ter o
cerco das políticas de atendimentos das grandes plataformas como o
Facebook e o Twitter.
Além
disso, o contato ativo com os seus seguidores, por uma rede
particular, deixa o caminho livre à difusão de todo o complexo de
mentiras, teorias da conspiração, intrigas, acusações infundadas,
idiotices e incompetências por um canal de agremiação de
simpatizantes. Está ali estabelecido um território repleto de
extremismo social, político, armado. É um canal de fidelização,
onde usuários interagem por meio de comentários, com textos, enviam
fotos, mandam emojis.
A
empresa se mantém no limbo, pois diz que não tem relações diretas
com a família Bolsonaro e que o aplicativo Mano está aberto a
qualquer figura, conhecida ou não, que deseje ter o seu canal
particular. Mas, o fato é que os contratos foram feitos às
pressas, os dados de professores e alunos tem valor neste mercado,
jovens e adolescentes estão coligados a mesma plataforma que agencia
essa fábrica de mentiras, para dizer o mínimo.
Voltando à questão das inovações educacionais de fundo tecnológicos:
1) Elas estão dentro das disputas pelo currículo e apelam à renovação
eterna em um ambiente que é perenemente revigorado por novos alunos.
Isto é, um campo aberto para consumo de tecnologias começando pelo
berçário; 2) Tecnologias educacionais não são necessariamente “boas”,
porque são imediatamente “novas”; 3) Tecnologias capitalizadas na forma
de “modernidades educacionais” pelo agenciamento privado da condição
pública, já é uma coisa horrível, quanto pior, no momento que milhões de
alunos, estão próximos à tal fidelização do capitão, por discursos
fascistas, segregadores e mentirosos. Estão ali, unidos, nesta
plataforma que serve à escola pública “de graça”.
Fingindo
ser mais ingênuos do que somos, descansamos de nossos semelhantes,
já dizia um filósofo.
1
Vale a pensa ler a matéria publicada em Intercept para compreender
mais claramente toda a rede de relacionamento que faz de IP.TV em
canal com relacionamentos com diferentes políticos em diversos
estados e a condição de associação entre a empresa e Jair
Bolsonaro.
Fonte:https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/as-armadilhas-da-educacao-via-plataformas/