quarta-feira, 26 de maio de 2021

Deus, FHC, Lula e o Brasil

                              Roberto DaMatta*

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Purgatório Foto: Reprodução

Um dos maiores problemas das almas brasileiras é Igualdade Cósmica: elas querem manter suas hierarquias materiais nacionais e isso torna difícil lidar com políticos, juízes, militares, empresários e policiais, bem como com os criminosos por eles mortos em algum confronto

Corre nas altas esferas celestes uma anedota instrutiva sobre as preocupações de Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e a opinião de Deus Todo-Poderoso. Aflito com a polaridade brasileira, preocupado com o número de almas que, por causa da pandemia, estão lotando o Céu e fazendo com que os Anjos do Purgatório façam jornadas duplas de atendimento, as Altas Esferas chegaram a pensar em ampliar o espaço de recepção do Purgatório devido a essa dramática emergência.

Soube disso por meio de um amigo médium. O astral, disse-lhe uma entidade espiritual adiantada e de muita luminosidade, está muito assoberbado, precisamente pela quantidade de almas que vêm recebendo. Nessa emergência, comentou que os ex-mortos brasileiros são difíceis. Dão trabalho, pois a maioria chega ao Purgatório demandando tratamento privilegiado. Já tivemos de intervir em discussões de caráter político – absolutamente proibidas no outro mundo –, quando controvertiam que morreram por sabotagem de vacinas... Os espíritos brasileiros (que são brasileiros de espírito), prosseguiu o médium, demoram a aprender que no Outro Mundo não há disputas de poder, pois o poder do Absoluto Poder é total. E não é fascista, porque é obra da Eternidade a qual se fez quando não havia tempo ou espaço.

Um dos maiores problemas das almas brasileiras é a Igualdade Cósmica. Elas querem manter suas hierarquias materiais nacionais e isso torna difícil lidar com políticos, juízes, militares, empresários e policiais, bem como com os criminosos por eles mortos em algum confronto.  O médium relatou que, em muitas preleções de adaptação, anjos superiores e poderosos dissolveram manifestações de queixosos que, mesmo no outro mundo, exigiam atendimento usando o “você sabe com quem está falando?”, que não é válido no astral. Aqui, disse a alma por meio do médium, não se pode negar a regra da fila segundo a qual quem primeiro chega, primeiro é atendido. Numa certa ocasião, tivemos que chamar o Arcanjo Gabriel e o seu irmão, Rafael, ambos com estatura suficiente e prontos a usar suas espadas de lâminas de fogo para obrigar as relutantes almas brasileiras a obedecerem a Fila Final que os levaria ao Infinito Glorioso do Nada.

As almas nativas do Brasil querem manter suas prerrogativas sociopolíticas e uma delas perguntou a um anjo se aqui havia um STF, ficando muito decepcionada ao descobrir que, no plano imaterial, a alma já se encontra no supremo e já passou pelo Umbral, presidido por São Pedro, em cujo gigantesco cinema-astral, ela vê o filme de sua vida e testemunha todos os seus pecados, devidamente conferidos pelo Anjo Cobrador no seu computador da velha maçã.  Um dia, essas almas recusaram o maná. Queriam pizza ou feijoada. Disseram que o maná celestial não tinha gosto. Houve um novo tumulto debelado pelos Anjos Exterminadores comandados por Luiz Buñuel.

Foi neste ambiente um tanto conturbado que Deus resolveu conceder a FHC e Lula um encontro. Coisa raríssima, mas concedida porque o almoço que fraternalmente os reuniu, os tornava dignos de uma graça especial.

– Vou conceder a cada um de vocês, ex-presidentes desse Brasil machucado com a pandemia que o Demo vos enviou sem a minha expressa permissão, uma grande graça. Perguntem o que mais os preocupa e Eu responderei.

(Ao ouvir a pergunta, Lula cochichou a FHC: “Deus é populista...”.)

“Quem vai perguntar primeiro?”, retumbou o Altíssimo, criando uns dois ou três buracos negros.

Fernando Henrique sorriu e, com sua voz melodiosa, falou:

– Deus, Você que é um Ente dos mais capazes e cultos que conheço, um Ser cosmopolita e civilizado, quando é que vamos liquidar a má-fé, a hipocrisia e a corrupção no Brasil? 

Deus respondeu:

– Meu filho, um dia isso vai acabar. Houve avanços, mas não foi na sua administração.

Voltando-se para Lula, Deus indagou: “E o que você, Luiz Inácio, pensa disso?”.

Lula foi veemente: 

– Bem, Deus Todo-Poderoso, nos meus governos não houve corrupção e muito menos má-fé e hipocrisia. A herança maldita era enorme. Toda essa narrativa foi inventada por gente que queria condenar a mim, o PT e a política.

Deus ouviu, recordou o conto de Machado de Assis A Igreja do Diabo, que motivou revolucionários debates no Céu e no Inferno, e, olhando para os dois, respondeu:

– Fiquem tranquilos. Continuem praticando a sagrada comensalidade que une aqui no Céu e elege nesse vosso mundo sofrido. Mas prestem atenção: a corrupção, a má-fé e a hipocrisia um dia vão acabar no vosso país, que será justo e democrático. Mas não será na minha administração!

*É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,deus-fhc-lula-e-o-brasil,70003726451

A fé e as obras

Leandro Karnal*

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Escrituras sagradas Foto: Reprodução

A epístola do apóstolo Tiago enfatiza no capítulo segundo: a fé sem obras é morta

Jesus salvou todos. Para acessar a assembleia dos eleitos, a fé é o ticket. Solo fide, apenas a fé, proclamaram muitos reformadores religiosos do século 16. Lutero buscou a base em Hebreus 10,38: o justo viverá pela fé (também na Epístola aos Romanos e em outros trechos).

Os católicos valorizam a fé. Porém, a salvação passa pelas obras boas que evidenciem sua crença. A epístola do apóstolo Tiago enfatiza no capítulo segundo: a fé sem obras é morta. Lutero desconfiava desse trecho (epístola de palha, ele dizia). Chegou a querer afastar a carta do cânone do Novo Testamento. Tiago está próximo de uma concepção religiosa judaica: a prática correta da vida e de ações éticas. O princípio se chama ortopraxia. A Bíblia apresenta muitas concepções ao longo dos séculos em que foi redigida, com disputas entre grupos e diversas elaborações teológicas. Para um historiador, isso é a riqueza do texto. 

Encerro a teologia aqui. Quero ir para outra direção. Uso o binômio fé e obras para falar de pessoas que se dividem no campo do amor entre quem proclama e quem faz. Explico-me. Fui criado em tradição católica por muitos anos. Além do substrato romano, ainda tenho a presença de um “espírito de imigrante” na minha família e na região da minha infância e juventude. O que seria? Muitas coisas, mas, principalmente, ênfase na ação. Gente pobre que saiu de um país para construir vida em outro, quase sempre, foca em questões muito concretas e diretas. A vida em meio aos desafios do imigrante é casa, comida, proteção contra violência, poupança, etc. O mundo apresenta desafios: frio, fome, dor e cabe ao ser humano enfrentá-los com defesas práticas. É a etapa inicial de todo Robinson Crusoé: não existe metafísica, apenas física prática. Com o tempo, o náufrago faz reflexões filosóficas e antropológicas, todavia só depois, bem depois...

Creio no amor. Acredito profundamente no sentido amplo do termo. Se me perguntam como evidencio o amor que tenho ou que recebo, sempre será por... obras. Seria coisa de descendente de católicos que emigraram? Teologia e pobreza reforçando atos reais? Acho que sim. Assim, acho linda a frase “eu te amo”. Tendo a buscar as boas obras, sem necessidade de declarações românticas. 

Você me ama? Avalio o tempo que passa comigo, a atenção que me dispensou, o cuidado (não o valor) do presente dado e a sensibilidade com o que necessito. Isso é amor. “Meu bem, eu daria minha vida por você.” Admiro a frase! Já ouvi, inclusive. Acredito em coisas mais prosaicas do que a hipótese de, um dia, se sacrificar por minha pessoa. Acredito na louça lavada, na noite passada em claro com alguma doença, no abraço no momento de dor, no velório compartilhado, na sopa trazida ao quarto e no chá no inverno.

Em quantos Natais vi choros de emoção dizendo que “família era tudo”. Pensava, com um toque de ironia: “Na hora de passar a noite no hospital com a matriarca, não parece ter sido tudo”. Volto a minha matriz: quero ver obras, não discursos, ações, não retórica. Claro, obras e a frase eu te amo são fundamentais. Se tiver de dispensar alguma, largue mão da frase e realize algo. “Eu te amo” sem cuidados é um “flatus vocis”, para fazer uma tradução simpática em jornal familiar, um som vazio. Sempre me soa como o homem que explora o trabalho feminino em casa o ano todo e, no dia da mulher, dá flores com um cartão. O gesto oscila entre o vazio e a hipocrisia. 

Todos sabemos que tanto católicos quanto evangélicos condenam a hipocrisia e a falta de caridade. Usei a metáfora para falar do caso da relação entre as pessoas, não das pessoas com suas crenças. Há muitas maneiras de ortopraxia e é possível ser hipócrita fazendo boas obras também. Eu desejei explicar o vazio de declarações de amor sem atos concretos. No meu universo, creio que não o mudarei, o ideal é a reunião da fala com a ação. Como disse, se precisamos dispensar um, dispense o que não altera o mundo: a frase. Mantenha o ato e seu poder transformador. 

A coisa mais comovente é ouvir “eu te amo” da boca da pessoa que coroa atos com a confirmação discursiva. Nesse caso, ouço, emocionado. O verbo amar traz à memória o tempo, a dedicação e tudo mais. A boca emitiu sons e eu trago a lembrança de que aquilo virou ação. É o momento lindo de fusão de significante e de significado, a plena realização romântica de duas vidas significativas que se encontraram no ato e na retórica. 

Gosta de lindos discursos? Lembro-me do equívoco do rei Lear, que favoreceu as filhas que falavam bem e deserdou a única que o amava, mas era incapaz de dizê-lo de forma bonita. Aprenda a valorizar Cordélia e sua entrega sincera. 

Com os recursos da tecnologia atual, eu posso fazer meu celular dizer e repetir a frase “eu te amo” o dia inteiro. Você se apaixonaria pelo aparelho? A vaidade de Lear o condenou a um fim trágico. A vaidade sempre se alegra com os elogios e as frases retumbantes. O amor é modesto e olha para as mãos que realizam. Quando essa frase for dita dentro da sua orelha, sussurrante, por alguém que consumiu muito tempo dedicado a você, parabéns! Você encontrou o amor. É preciso ter esperança e fé no amor... e nas boas obras. 

*O AUTOR É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,a-fe-e-as-obras,70003726461 26/05/2021

terça-feira, 25 de maio de 2021

¿Dios juega a los dados?

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Física cuántica y el misterio del universo

En una ocasión, Albert Einstein[1], dirigiéndose a los científicos que en ese momento se dedicaban a la «nueva física», les dijo: «el problema cuántico es tan extraordinariamente importante y difícil que debería captar la atención de todos»[2]. La «mecánica cuántica» es actualmente la teoría física más completa para describir la materia, la radiación y las interacciones recíprocas, especialmente cuando las teorías anteriores, las así llamadas «teorías clásicas»[3], resultan inadecuadas, es decir, en lo que se refiere a los fenómenos de longitud o energía atómica y subatómica. La frase de Einstein es válida para todos, porque, además de tener un gran impacto tecnológico – y consecuentemente social -, tiene implicancias muy importantes en la visión filosófica de la realidad.

Podemos agregar que Einstein – aunque tenía una gran admiración tanto por el formalismo matemático cuántico como por su capacidad de describir los experimentos – no era de ninguna manera un defensor de la llamada «ortodoxia» de la física cuántica. La interpretación ortodoxa, también denominada «interpretación de Copenhague», se inspira esencialmente en los trabajos desarrollados alrededor de 1927 por Niels Bohr[4] y Werner Heisenberg[5], enriquecidos por la contribución decisiva de Max Born[6]. En el resto del artículo intentaremos aclarar esta perspectiva.

Pero podemos comprender desde ya que la física no es en absoluto una disciplina lineal o aséptica, sino que está inextricablemente ligada, de manera amplia y compleja, a nuestra vida. «La vida supera a la ciencia», afirma John Polkinghorne[7]; y Heisenberg escribe que «la Naturaleza es anterior al hombre, pero el hombre es anterior a la ciencia de la naturaleza»[8]. Las concepciones religiosas, filosóficas y existenciales del físico entran en un «diálogo circular», tan enriquecedor como problemático, con su profesión científica. No es raro observar cómo los físicos, de acuerdo entre sí en el plano científico, exhiben contrastes explícitos en lo que atañe a las consecuencias filosóficas de una teoría determinada. La ciencia da forma a la vida y al pensamiento, pero no lo aprisiona.

Veremos cómo Einstein, y otros junto a él, se opusieron a la concepción de la mecánica cuántica de la escuela de Copenhague, y cómo, a pesar de ello, esta última llegó a constituirse en el pensamiento dominante entre los científicos. La mecánica cuántica, como ya señalamos, representa hoy la mejor y más exhaustiva descripción del mundo físico. Comprenderla seria y honestamente ofrece escenarios inesperados, fascinantes y abiertos a una realidad más vasta. En ella se puede vislumbrar un horizonte hacia el Misterio, incluso desde una óptica cristiana.

«Los muchachos de Copenhague»

Aparte de Born, que superaba los cuarenta años, Heisenberg, Jordan[9], Dirac[10] y Pauli[11] – es decir, los principales protagonistas del nacimiento de la teoría cuántica– eran todos veinteañeros. Con juvenil entusiasmo se vieron involucrados en el proyecto que habría cambiado el escenario de la física y, con este, el paradigma de nuestra visión del mundo. Este grupo de jóvenes, por medio de un refinado formalismo matemático[12] y de experimentos – reales o incluso concebidos solo mentalmente –, llegó a las siguientes conclusiones: 1) es imposible renunciar a lo que podríamos llamar el aspecto «probabilístico» de la teoría; 2) las cantidades «observables», es decir, obtenibles mediante procesos de medición, son las únicas que realmente existen para la ciencia.

El aspecto probabilístico

El aspecto probabilístico no refleja solamente la imperfección de nuestro conocimiento. Incluso si fuéramos «Dios»[13], no podríamos conocer con certeza el resultado de un fenómeno cuántico. Si este conocimiento absoluto y superior fuera posible, entonces nuestro modo de ver la realidad sería el modo conocido como «clásico».

Intentemos ahora aclarar el problema. En la física clásica se recurre a la probabilidad, aunque en realidad el proceso es determinístico. Es la imperfección de nuestro conocimiento y su inexactitud respecto de las condiciones iniciales de un sistema (el estado de partida), lo que impide que podamos formular pronósticos precisos, determinísticos. Si fuéramos Dios y si el mundo fuera gobernado por leyes clásicas, seríamos capaces de predecir con certeza absoluta el resultado de todos los fenómenos físicos del mundo. Conociendo por completo y precisamente el punto de partida de cada partícula del universo, estaríamos en condiciones de describir y predecir el recorrido que la enorme máquina cósmica – el gran «reloj de Dios» – está realizando y realizará.

En la mecánica cuántica, en cambio, es como si Dios mismo estuviera jugando a los dados y, cual jugador honesto, no conociera anticipadamente el resultado. Incluso conociendo de manera exacta todos los datos iniciales y las leyes de la naturaleza, sería de todos modos imposible predecir con exactitud el éxito de un experimento. Por lo tanto, los resultados de las mediciones son fundamentalmente no determinísticos, es decir, no predecibles de manera determinada[14]. El máximo de nuestro conocimiento, en la eventualidad de que efectuáramos la medición de una cantidad física del mundo cuántico, consistiría solamente en la probabilidad de obtener cierto valor[15].

Incluso sin entrar en el formalismo matemático, digamos de todas formas que el estado de un sistema cuántico está descrito por la llamada «función de onda», en la que coexisten – no realmente, sino en potencia – todas las magnitudes físicas – entre las que se cuentan, por ejemplo, la posición y la velocidad –, cada una con su respectiva probabilidad. Esto es todo lo que nos es dado conocer; la función de onda describe solo la probabilidad con la cual podremos obtener un resultado en el caso en que se efectuara la medición.

«¡Pero mira quién está aquí!»

El otro aspecto desconcertante de la mecánica cuántica es que preguntas del tipo: «¿Dónde se encontraba la partícula antes de que midiéramos su posición? ¿Qué recorrido ha realizado?» ya no tienen sentido. El físico Richard Feynman[16] formuló en 1948 un método matemático – muy técnico pero a la vez muy eficaz – que permite describir un fenómeno físico calculando la probabilidad de cada posible evolución del sistema, desde el punto inicial al punto final. En el procedimiento se deben incluir «todas» las trayectorias que el sistema puede recorrer[17], incluso aquellas que serían imposibles para la mecánica clásica, que prevé solo un recorrido determinado. En la mecánica cuántica no existe una sola trayectoria (una línea evolutiva única) atravesada por el sistema, sino infinitas, y la partícula puede pasar por todas ellas, incluso contemporáneamente.

Pero, ¿son reales estas infinitas trayectorias? John Wheeler[18] respondería: «[en el mundo físico] solo los fenómenos son reales […], y ningún fenómeno es un fenómeno mientras no sea un fenómeno observado»[19]. La física desarrollada por los «muchachos de Copenhague» estudia exclusivamente cantidades observables, es decir, que pueden obtenerse mediante mediciones. La medición «restringe» al fenómeno físico a asumir uno solo de los valores permitidos – el valor observado -, que se vuelve, de esta forma, el único que existe realmente. En términos técnicos, este proceso se define como «colapso de la función matemática». El conocimiento contenido en esta función de onda, que describe todos los valores posibles del sistema, es anulado completamente en el momento de la medición: esta hace colapsar la estructura matemática – y con ella el sistema – sobre el único valor que «realmente» observamos[20].

Podemos deducir, por lo tanto, que si bien la mecánica cuántica describe fenómenos que exceden nuestra experiencia cotidiana, no se trata de una mera especulación metafísica[21] ni menos de un modelo que arriesga introducir un cierto espiritualismo paranormal o parapsicológico. Al contrario, esta se concentra sobre lo que puede ser observado y verificado.

Podría ser complicado y un poco engañoso ofrecer en este contexto analogías extraídas de la física clásica, de la vida de todos los días. Podríamos comenzar con la conocida frase: «imaginemos que lanzamos un dado…», pero creemos que esto no funcionaría. El problema radica en el hecho de que el mundo cuántico describe una realidad tan alejada de nuestra vida cotidiana, que proponer analogías excesivamente simplificadas nos haría correr el riesgo de caer en paradojas, alimentando equívocos, en lugar de aclarar de manera simple conceptos complicados[22]. Heisenberg, en particular, percibió acertadamente este impasse como un problema lingüístico: el vocabulario conceptual humano nació como consecuencia de la evolución biológica y social, que emerge en un «ambiente» clásico, no cuántico. De esta forma, para describir la cotidianidad clásica, el hombre desarrolló un lenguaje apropiado, que sin embargo es totalmente inadecuado para representar fenómenos cuánticos, los que constituyen, en todo caso, la base de nuestro mundo. Por otra parte, a diferencia del lenguaje cotidiano – e incluso filosófico –, la matemática puede ofrecer un soporte ciertamente más modesto y limitado, pero mucho más sólido, para describir un mundo que para nosotros es tan extraño como el mundo subatómico[23].

¿Dios juega a los dados?

No podemos referir aquí los múltiples y extraordinarios éxitos experimentales que ha obtenido la mecánica cuántica. Recordemos, de todas formas, que esta teoría describe con extrema precisión prácticamente todo lo que hasta ahora hemos sido capaces de observar en el mundo físico: desde los simples fenómenos de reflexión de la luz a los más sutiles procesos que involucran las partículas elementales hasta el momento desconocidas. Nos podemos preguntar, entonces, qué tipo de realidad nos presenta el panorama cuántico.

Dirigiéndose a Bohr, Einstein escribía: «La teoría da buenos resultados, pero difícilmente se acerca al secreto del Anciano […]. Estoy totalmente convencido de que Él no está de ningún modo jugando a los dados»[24]. De acuerdo a Einstein, el mismo corazón de la nueva teoría batía de manera arrítmica e incierta, poniendo la causalidad exactamente al centro de las leyes de la naturaleza. Una posición desconcertante para una comunidad – la científica – que había construido una representación propia del mundo como la de un mecanismo preciso y perfectamente sincronizado, que no dejaba lugar a la incerteza o a la indeterminación.

Y fue precisamente en 1927 que Heisenberg enunció su «principio de indeterminación»[25], una «ley» – aclaremos – no experimental, sino fundamentalmente conceptual y que ha sido posteriormente confirmada por innumerables experimentos. Este principio establece los límites de la observación misma para lo que llamamos las «magnitudes físicas incompatibles»[26] de un sistema físico, como la medida de la posición y de la velocidad de una partícula, o de la energía y el tiempo de un proceso físico. Tales magnitudes no pueden ser determinadas con una precisión arbitraria: inevitablemente siempre existirá una incerteza, independiente de la bondad de nuestros instrumentos. Solo podemos conocer el mundo de manera indeterminada.

También hay que señalar que, antes del descubrimiento del mundo cuántico, la física había girado siempre alrededor del concepto de objetividad real de los objetos materiales. Incluso Einstein había adoptado posiciones bastante realistas, afirmando resueltamente que las teorías científicas son verdaderas representaciones de una realidad física objetiva, de «las cosas que están ahí». Todo procedía con normalidad, hasta que «los muchachos de Copenhague» sostuvieron que la ciencia había ganado finalmente terreno a la filosofía en la resolución de problemas relativos a la descripción de la realidad. ¿Pero cómo? Heisenberg señaló: «Debemos recordar que lo que observamos no es la naturaleza en sí misma, sino la naturaleza expuesta a nuestro método de interrogaciones». Y Bohr de manera más explícita afirmó: «No existe un mundo de cuantos. Solo existe una abstracta descripción física del cuanto. Es un error creer que el objeto de la física es descubrir qué es la naturaleza. La física se ocupa de aquello que se puede decir de la naturaleza»[27]. Y a la célebre frase de Einstein «Dios no juega a los dados», Bohr replicó: «No le digas a Dios lo qué puede o no puede hacer».

En 1954, dos años antes de su muerte, Einstein escribió una carta al físico estadounidense David Bohm[28]: «Si Dios creó el mundo, no podemos decir que se preocupó demasiado de facilitarnos su comprensión». La física había resuelto los problemas de la comprensión de la realidad, arrojándolos sin embargo en el misterio. El mundo cuántico es un mundo desconcertante y contradictorio, pero el mundo es un enigma que la Naturaleza ya resolvió[29]. El universo parece estar allí, tranquilo y sereno frente a nuestros arduos tanteos cognitivos.

Un conocimiento dirigido el horizonte

El problema de los fundamentos de la mecánica cuántica permanece todavía abierto y entusiasma a físicos y filósofos de la ciencia. Hay muchas publicaciones sobre el tema y varias posiciones que difieren, incluso considerablemente.

En un extremo tenemos el «realismo», defensor del hecho de que cada afirmación sobre el mundo físico tiene un valor objetivo y real. Las cosas están ahí; el problema, en último término, es nuestro, somos nosotros los que no logramos conocerlas de manera completa y exacta; pero los modelos que hemos construido a lo largo de los siglos nos instruyen realmente – de manera más o menos precisa – sobre el mundo tal como es. Lidera esta visión la mecánica clásica y también las concepciones filosóficas que consideran el conocimiento como una «correspondencia entre realidad e intelecto».

En el otro extremo, encontramos el «instrumentalismo» exasperado y a ratos anti-realista. De acuerdo a esta interpretación, las leyes de la física y nuestra descripción del mundo tienen un valor simplemente práctico, es decir, son meros instrumentos útiles para explicar y predecir fenómenos (o más precisamente, su probabilidad de concreción), pero que esencialmente no representan en absoluto la realidad, de la que no se puede decir nada (admitiendo que exista). Esta posición, muy en boga entre los físicos, fue en cierta medida sostenida incluso por la escuela de Copenhague[30].

Aquí, sin embargo, no pretendemos entrar en ese debate. La visión que proponemos es una que podríamos llamar de «conocimiento horizontal» de la mecánica cuántica y de la física en general. «Horizontal» en este caso hace referencia al horizonte, la línea de demarcación entre el cielo y la tierra. Haciendo un breve paréntesis literario, se trata del «seto» y el «horizonte» de Giacomo Leopardi[31].

En El infinito, es el seto lo que impide la visión de cierta parte del horizonte. Para la concepción clásica, este representa lo que somos capaces de ver y los límites de nuestro conocimiento, que es imperfecto en lo que concierne a los datos iniciales y las leyes de la naturaleza, y esta imperfección nos impide ver el horizonte. Este último está ahí, pero nosotros no podemos experimentarlo a causa del seto. La concepción cuántica, en cambio, es capaz de llegar al horizonte mismo, pero es un límite insalvable que encierra todo lo visible. Es un confín natural, inevitable e insuperable, que esconde lo que está más allá. Nuestro afán de conocimiento está encerrado al interior de tal horizonte[32], en tanto la descripción de los fenómenos físicos es exclusivamente probabilística, por la «relación de indeterminación» y por el hecho de que la realidad física cognitiva está constituida solo por elementos «observables» (y no por los «objetos» mismos): los fenómenos, en efecto, existen en la medida en que los podemos observar y entran en relación con el aparato de medición[33].

Estamos conscientes de que no decimos nada nuevo sobre los límites del conocimiento científico. Las disciplinas teológicas y filosóficas consideran el conocimiento científico tan útil como limitado e incompleto. Aquí, no obstante, queremos destacar dos cosas. La primera es que son los mismos científicos del siglo XXI quienes reconocen explícitamente los límites del saber humano. Los físicos de hoy divisan el horizonte e intuyen que este es necesario para la ciencia, así como el horizonte geográfico es indispensable para el Planeta. Este límite es concebido desde adentro – y la misma ciencia así los describe –, y no se impone desde afuera por autoridades de naturaleza política o religiosa, que en ocasiones no entienden las dinámicas de la investigación científica.

La segunda cuestión consiste en reconocer que el horizonte puede ciertamente moverse, ampliarse, extenderse – y como científicos estamos llamados a hacerlo –, pero la línea de demarcación de nuestro conocimiento es inevitable y constituye el fundamento de nuestro saber. Además, el límite supone la presencia de algo que está más allá del campo visual. Esto no coincide necesariamente con la aceptación de un Dios personal, pero sería bastante injustificado refugiarse obstinadamente en la idea de que más allá «del último horizonte que excluye la mirada» no existe nada.

Como dijimos anteriormente, «los fenómenos existen en la medida en que los podemos observar y entran en relación con el aparato de medición». Esta frase, atribuida a Bohr, es citada por Rovelli[34] en su libro Helgoland. Estamos de acuerdo con esta idea, tanto desde un punto de vista epistemológico (cognitivo) y ontológico (descriptivo de lo real)[35], como desde un punto de vista teológico. La imposibilidad de distinguir el fenómeno de la observación (experimental o matemática) y el hecho de que las propiedades de las partículas se manifiesten solo cuando entran en relación con otras entidades parecen eliminar la existencia de algo que sea objetivo, que sea autónomo e individual. En línea con Leibniz[36], las bases del mundo no están constituidas por mónadas independientes y aisladas, sino por relaciones: la realidad en sí misma es relacional.

La percepción teológica que entrevemos se aleja, sin embargo, de la de Rovelli, que ve la relación como una negación de la metafísica y una puerta abierta a concepciones cercanas a las del pensamiento oriental[37]. Se debe tener presente que el pensamiento teológico cristiano vislumbra en la Trinidad la actuación misma de la relación. La Trinidad es relación en sí misma, relación con el universo, y relación con todos los seres vivos, sensibles o no.

Esta concepción no debe verse en contraposición a la anterior. No lo es, pues «la física instruye, pero no obliga ni aprisiona», por lo que múltiples interpretaciones pueden convivir perfectamente. Además, el misterio de la encarnación nos invita a percibir la presencia del Espíritu en múltiples realidades, invitándonos a ampliar las imágenes de la verdad y a captar sus manifestaciones multiformes, incluso si ostentan posiciones que nos parecen distantes.

La mecánica cuántica abre a una concepción relacional y dinámica de la realidad. El conocimiento serio y atento de la física contemporánea nos invita, de esta forma, a un diálogo teológico todavía más rico y variado del que estamos acostumbrados.

* Jesuita romano y estudiante de teología en París. Licenciado en Física de partículas, en 2009 obtiene el doctorado en Alemania, al efectuar la medida más precisa jamás realizada: el momento magnético del muon. Trabaja en el CERN, y se dedica a la investigación de la materia oscura en UCLA, en Israel y en la Universidad de Edimburgo.

  1. Albert Einstein (Ulm, 14 de marzo de 1879 – Princeton, 18 de abril de 1955), probablemente el científico más conocido del siglo XX, fue un físico alemán, naturalizado suizo y estadounidense. En 1921 recibe el premio Nobel de Física «por su contribución a la física teórica, en particular por el descubrimiento de la ley del efecto fotoeléctrico».
  2. G. C. Ghirardi, Un’occhiata alle carte di Dio. Gli interrogativi che la scienza moderna pone all’uomo, Milano, il Saggiatore, 1997, XV.
  3. Entendemos por «mecánica clásica» la física que describe adecuadamente los fenómenos macroscópicos de todos los días, en particular la mecánica iniciada por Galileo y formalizada por Newton.
  4. Niels Henrik David Bohr (Copenhague, 7 de octubre de 1885 – Copenhague, 18 de noviembre de 1962), fue un físico danés y uno de los principales fundadores de la mecánica cuántica. Recibió el premio Nobel de Física en 1922.
  5. Werner Karl Heisenberg (Wurzburgo, 5 de diciembre de 1901 – Múnich, 1 de febrero de 1976) fue un físico alemán. En 1932 recibió el premio Nobel de Física por la creación de la mecánica cuántica. Su principio de indeterminación – a veces mal interpretado – es muy conocido. Volveremos a él en el curso de este artículo.
  6. Max Born (Breslavia, 11 de diciembre de 1882 – Gotinga, 5 de enero de 1970) fue un físico alemán, naturalizado británico, premio Nobel de Física en 1954 por la mecánica cuántica, particularmente por la interpretación probabilística de la función de onda.
  7. John C. Polkinghorne (Weston-super-Mare, 16 de octubre de 1930) es un filósofo, teólogo y físico británico, miembro de la Royal Society y pastor anglicano.
  8. W. K. Heisenberg, Physics and Philosophy, London, Penguin Books, 1958, 23.
  9. Pascual Jordan (Hannover, 18 de octubre de 1902 – Hamburgo, 31 de julio de 1980) fue un físico y matemático alemán.
  10. Paul Adrien Maurice Dirac (Bristol, 8 de agosto de 1902 – Tallahasse, 20 de octubre de 1984) fue un físico británico, premio Nobel de Física de 1933.
  11. Wolfgang Ernest Pauli (Viena, 25 de abril de 1900 – Zúrich, 15 de diciembre de 1958) fue un físico austriaco, premio Nobel de Física de 1945.
  12. Para ser precisos, debemos decir que los formalismos matemáticos son dos, desarrollados independientemente por Karl Heisenberg y Erwin Schrödinger (Viena, 12 de agosto de 1887 – Viena, 4 de enero de 1961; recibió el premio Nobel de Física en 1933, junto a Dirac). El primer formalismo, el de Heisenberg, es conocido como «mecánica matricial». El otro, el de Schrödinger, es la llamada «mecánica ondulatoria». Lo sorprendente es que, a pesar de la divergencia sobre todo filosófica de los creadores de ambos formalismos, uno y otro método resultan exactamente equivalentes en el estudio y predicción de los fenómenos físicos, y son utilizados indistintamente por los científicos de todo el mundo.
  13. El término «Dios» no tiene en este caso el sentido de un Dios personal, se trata más bien de un apelativo – tal vez algo provocativo – para indicar un ser omnisciente, que conoce a la perfección todas las leyes de la naturaleza.
  14. Esto es válido para las cantidades – llamadas también por los físicos «variables» – que denominamos «incompatibles», como, por ejemplo, la posición y la velocidad, o la energía y el tiempo.
  15. Cfr G. C. Ghirardi, Un’occhiata alle carte di Dio…, cit., 94.
  16. Richard Phillips Feynman (New York, 11 de mayo de 1918 – Los Ángeles, 15 de febrero de 1988) fue un físico y difusor científico estadounidense, premio Nobel de Física de 1965 por la elaboración de la electrodinámica cuántica.
  17. Cfr R. P. Feynman, QED. The strange theory of light and matter, Princeton, Princeton University Press, 1985 (en esp. Electrodinámica cuántica: la extraña teoría de la luz y la materia, td. Ana Gómez Antón, Madrid, Alianza, 2020).
  18. John Archibald Wheeler (Jacksonville, 9 de julio de 1911 – Hightstown, 13 de abril de 2008) fue un eminente físico teórico estadounidense.
  19. G. C. Ghirardi, Un’occhiata alle carte di Dio…, cit., 95.
  20. Cfr W. K. Heisenberg, Physics and Philosophy, cit.
  21. Aunque prestamos gran atención y tenemos un profundo respeto por el conocimiento metafísico, es importante notar que la mecánica cuántica es una teoría científica – muy bien respaldada experimentalmente – lo que es bien distinto de las múltiples y ricas escuelas de pensamiento metafísico que interpretan la realidad.
  22. Es bastante conocida la historia del gato de Schrödinger, que está, al mismo tiempo, vivo y muerto. Esta descripción analógica, que recurre tanto a un sistema macroscópico (el gato) como cuántico (la descomposición de un átomo, es decir, el cambio de estado de una partícula), ha provocado más asombro que claridad. Eso era probablemente lo que buscaba el autor, pero a nosotros nos permite entender que la búsqueda de analogías puede complicar la comprensión y volver el contexto todavía más enigmático y paradojal.
  23. Cfr W. K. Heisenberg, Physics and Philosophy, cit., 38.
  24. Con el término «Anciano» Eisntein se refiere aquí a Dios. Para él, no existe ciertamente un Dios teísta, personal, sino más bien una Entidad superior y omnisciente, que garantiza la regularidad de las leyes humanas.
  25. Es interesante destacar que Heisenberg, con su gran – y a ratos sospechosa – atención al lenguaje, no utiliza casi nunca la palabra «principio». Las expresiones que más usa son «relaciones de inexactitud», o «relaciones de incerteza» o «relaciones de indeterminación». Cfr D. Lindley, Incertidumbre. Einstein, Heisenberg, Bohr y la lucha por la esencia de la ciencia, Barcelona, Ariel, 2008.
  26. No entraremos en las sutilezas técnicas de la mecánica cuántica. Para dar una descripción simplificada, podemos recordar que en mecánica cuántica dos cantidades son incompatibles si el orden en que se estiman hace cambiar el resultado final, es decir [A, B] = A⋅B – B⋅A ≠ 0.
  27. C. Rovelli, Helgoland, Milano, Adelphi, 2020, 49.
  28. David Joseph Bohm (20 de diciembre de 1917 – 27 de octubre de 1992) fue un científico estadounidense, miembro de la Royal Society y creador de la llamada «mecánica bohmiana», que ofrece una visión alternativa a la tradicional mecánica cuántica. Bohm, con sus ideas no convencionales, contribuyó a la neuropsicología y a la filosofía de la mente.
  29. Cfr C. Rovelli, Helgoland, cit., 157.
  30. Cfr W. K. Heisenberg, Physics and Philosophy, cit.; G. C. Ghirardi, Un’occhiata alle carte di Dio…, cit.; G. Boniolo, Filosofia della fisica, Milano, Mondadori, 1997; C. Rovelli, Helgoland, cit.
  31. Hablamos de la poesía El Infinito de Leopardi, escrita en 1819. Estos son los primeros versos: “Siempre querido me fue este solitario cerro / y este seto que tanta parte / del último horizonte la mirada excluye”.
  32. Al principio desaconsejamos el uso de imágenes cotidianas para describir fenómenos y/o paradojas cuánticas; ahora sin embargo no buscamos ilustrar una “rareza” cuántica a través de una descripción clásica del mundo conocido, sino elaborar un discurso epistemológico, es decir, un discurso que se concentra en la naturaleza misma de lo que conocemos.
  33. C. Rovelli, Helgoland, cit., 141.
  34. Carlo Rovelli (Verona, 3 de mayo de 1956) es un físico, ensayista y académico, dedicado a la física teórica, que actualmente trabaja en el Centre de Physique Théorique de Luminy, en la Universidad de Aix-Marseille.
  35. Si bien en sus libros Rovelli a veces parece negar el hecho de que la física debe ser asociada a una ontología determinada.
  36. Gottfried Wilhem Leibniz (Leipzig, 1 de julio de 1646 – Hannover, 14 de noviembre de 1716) fue un fil ósofo, matemático, científico, lógico, teólogo, lingüista, diplomático, jurista, historiador y magistrado alemán. Leibniz introduce la «mónada» como «forma sustancial del ser»: se trata de algo así como «átomos» espirituales, eternos, no descomponibles, individuales, que siguen leyes propias y no interactúan; cada una de ellas refleja todo el universo en una armonía preestablecida.
  37. Cfr C. Rovelli, Helgoland, cit., 144.

 Fonte: https://www.laciviltacattolica.es/2021/05/19/dios-juega-a-los-dados/

As armadilhas da educação via plataformas

                                              

O valor dado à “inovação” da tecnologia no ensino não é neutro. Há interesses comerciais, culto à renovação eterna, capitalização de dados pessoais – e nenhum debate sobre isso. No bolsonarismo, piora: digitalização favorece manipulação política

O ambiente está propício para processos de privatização do ensino público pelos mais variados caminhos: rendimentos, aplicação em bolsa, privatização do patrimônio público, venda de materiais, necessidades com tecnologias de ensino etc. Com o agravamento da pandemia, as necessidades de comunicação entre a escola, os alunos e a família nos levaram a um caminho, que sem muita reflexão, pareceu mais do que inevitável: a abertura irrestrita às tecnologias de informação e comunicação (TICs), como caminho mais viável para este fim.

Vistas como “inovações educacionais”, as TICs foram ganhando terreno na educação brasileira, muitas vezes apresentadas como a encarnação definitiva da modernidade educativa revestida de futurismo. O fato é que o caráter de “inovação” surge em nossas vidas como uma neutralidade inquestionável que, por isso mesmo, é absolutamente problemático e passível de questionamentos de diferentes níveis: 1) É processo histórico, e portanto, passa por escrutínios de ordem política, social, temporal: quais são os sujeitos, grupos e instituições que balizam a ideia a dita novidade? Quais são os simbolismos que balizam esse fetiche por tudo que é “novo”? De onde eles surgem? Para quais interesses e fins? Por que o atual foco das tais inovações recai de maneira irrestrita nas tecnologias de informação? Não temos mais nenhuma outra opção de inovação educacional que não seja esta? Quais outros discursos estão sendo apagados?

Sobre a tentativa de apagamento de inovações educacionais que não sejam somente as tecnológicas, mas outras, abertas, coletivas, comuns, falaremos em outra oportunidade.

Se as “inovações” acontecem no processo histórico elas podem ser pensadas como a gerência de interesses e práticas de grupos determinados, que podem ou não gerar um objeto material, uma coisa. Muitas vezes essas inovações surgem na forma e reformas educacionais, com fins de reformas sociais. Muitas vezes são instrumentos intelectuais que nos fazem enxergar situações ainda não percebidas. Há inúmeras inovações pedagógicas, tidas por inovações frugais, que surgem dentro das escolas, feitas por professores e alunos, e eles nem sequer sabem que estão inovando. Porque algo, para ser “novo” tem que ser percebido, compreendido, reconhecido como tal. Todo invento é um projeto político e possui estratégia de produção, difusão, circulação e reconhecimento. Algo que é novo, precisa ser reconhecido desta forma. O que significa dizer que somente é apresentado como “inovador”, algo que é “inevitável”, pelo esforço discursivo de grupos muito interessados no sucesso de sua novidade. A história das inovações é a história das relações sociais em disputa pela criatividade. Alguns têm o poder de capitalizá-la, julgando fazer “o bem”: ter as melhores soluções, os mais sofisticados cases de sucesso, em nome da “melhoria da educação brasileira”. Outros, parecem se revestir da áurea de retrógrados, quando criticam esse tipo de posição que joga sistematicamente ao passado práticas, ações, gestos, criações, sentimentos, que também já foram inovadores e que, agora, não servem mais para nada. Chega a ser ingenuidade coletiva desconsiderar a história como um celeiro de ideias e soluções. E chega a ser escravizador que somos levados à perseguição daquilo que é sempre “novo”, mas que sofre de obsolescência programada, e portanto, efêmero.

A questão principal é que há uma espécie de espírito acrítico que vê a solução dos problemas da educação nesses produtos tecnológicos: cadeias de streaming, plataformas com diferentes atividades, sites educacionais, aplicativos com variados conteúdos, ferramentas com dinâmicas de aula, aulas remotas, gravadas, circulação transnacional de conteúdo etc.

Não se trata aqui de criar fobia frente às tecnologias. Escrever em um papel com uma caneta é uma tecnologia. Não é disso que falo. Trata-se de problematizar diferentes aspectos desse movimento social, político, educacional que vê apenas positividade nas ditas ferramentas tecnológicas e absorve um discurso como se estivesse bebendo água. Não reconhece os grandes interesses de capital envoltos nessas transações; não percebe as transações mais ilícitas que lícitas dos governos, mediadores, entre os interesses privados e os públicos; não compreende que tecnologias de difusão de conhecimentos podem repassar qualquer tipo de conhecimento, não apenas aqueles reconhecidos socialmente; não há discussão sobre os requisitos internacionais de proteção à saúde dos estudantes que passam horas em frente a essas máquinas, por estudo e lazer; não se tem claro as regulamentações sobre a transferência de dados de crianças e adolescentes que transitam por essas plataformas e são moedas de troca etc… A lista de problematizações é mais longa.

Perceber o posicionamento dos governos frente a tais necessidades urgentes com a tecnologia está dentro de um amplo processo de privatização do ensino público, já entendido pela Organização Mundial do Comércio (OMC) como campo aberto para ações de capitalização. Há sim processos inovadores que visam a segmentação do entendimento de “público” em pequenas instâncias de mercantilização: o aluno necessita de aparelhos para ter a aula do futuro, os professor é tutor, secretariado, para enfatizar a necessidade da compra de tais objetos, a escola vira posto de cartelização de diferentes marcas e produtos, o estado agencia os trâmites e se desvincula dos processos de bem-estar social sob sua responsabilidade, ampliados ainda mais pelos vínculos de escolas com vouchers e escolas charters, sectárias e segregacionistas desde o seu nascedouro nos EUA, retumbante fracasso no Chile.

Ainda que haja essa inevitabilidade com os processos tecnocientífico que são incorporados pela educação escolar, pois já faz tempo que a escola é o ambiente perfeito para a amplificação do mercado de inovações, na forma de produtos. Mas, como ficamos se esse conjunto de coisas também é usado para agremiar frentes fascistas, para a criação de um mundo paralelo, repleto de mentiras, ambiente amplificador de atividades suspeitas de aliciamento? E ainda assim ela aparecesse como uma “inovação educacional”?

A IPTV anuncia em seu site ser um grupo que desde 2000 presta soluções de tecnologia principalmente voltados à educação, sendo líder no mercado com TV interativa, videoconferência multiponto por IP. Em junho do ano passado, The Intercept fez um artigo chamado “Escola com partido” falando sobre essa empresa e a sua relação com Jair Bolsonaro.1 Primeiro o artigo anuncia que há 7,1 milhões de alunos e professores de São Paulo, Paraná, Amazonas e Pará usando-a para aulas remotas. Depois, diz a sede da empresa fica numa sobreloja sem identificação, sem placa, local modesto, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Um tipo de suspeição de endereço muito característica na vida política do clã Bolsonaro. Diz que a tal empresa é ligada a políticos da base bolsonarista e que um deles é acusado de participar de uma rede de prostituição de menores de idade. A empresa se diz financiada por várias empresas privadas que usam os seus serviços, porque fornece aplicativos (APPs) “de graça” para os governos. Mas ela se recusa a apontar quais são as tais empresas, sem indicar a proveniência do capital.

Ainda assim, os governos desses estados mantêm relações com a plataforma para atender as suas respectivas redes de ensino. Os alunos precisam fazer cadastro, e ao acessar o aplicativo, autorizam a captação de seus dados pessoais. Os professores e estudantes ao concordarem com as políticas de privacidade transferem dados das secretarias de educação, um histórico do aluno, nome, série, curso etc. Eles têm acesso ao microfone do celular, às mensagens de grupos de bate-papo etc. Com toda essa cessão de dados, fica mais claro compreender os motivos dos aplicativos serem cedidos “de graça” às secretarias de educação dos estados, tão ávidas em ter aulas remotas durante o período da pandemia e tão distraídas em relação à venda de informação de estudantes e do funcionalismo sob sua responsabilidade.

O fato é que antes desse período de pandemia e da urgência pelas aulas remotas, o único produto razoavelmente bem sucedido do grupo IPTV era o aplicativo de streaming de vídeo Mano. Este aplicativo hospeda a TV Jair Bolsonaro, usada durante a sua campanha. Sabemos que Bolsonaro, capitaneado pelos filhos, faz uso massivo das redes de relacionamento para os seus comunicados ao público. Ter um canal de TV por IP é uma forma de estar em contato com os seus seguidores, sem necessariamente ter o cerco das políticas de atendimentos das grandes plataformas como o Facebook e o Twitter.

Além disso, o contato ativo com os seus seguidores, por uma rede particular, deixa o caminho livre à difusão de todo o complexo de mentiras, teorias da conspiração, intrigas, acusações infundadas, idiotices e incompetências por um canal de agremiação de simpatizantes. Está ali estabelecido um território repleto de extremismo social, político, armado. É um canal de fidelização, onde usuários interagem por meio de comentários, com textos, enviam fotos, mandam emojis.

A empresa se mantém no limbo, pois diz que não tem relações diretas com a família Bolsonaro e que o aplicativo Mano está aberto a qualquer figura, conhecida ou não, que deseje ter o seu canal particular. Mas, o fato é que os contratos foram feitos às pressas, os dados de professores e alunos tem valor neste mercado, jovens e adolescentes estão coligados a mesma plataforma que agencia essa fábrica de mentiras, para dizer o mínimo.

Voltando à questão das inovações educacionais de fundo tecnológicos: 1) Elas estão dentro das disputas pelo currículo e apelam à renovação eterna em um ambiente que é perenemente revigorado por novos alunos. Isto é, um campo aberto para consumo de tecnologias começando pelo berçário; 2) Tecnologias educacionais não são necessariamente “boas”, porque são imediatamente “novas”; 3) Tecnologias capitalizadas na forma de “modernidades educacionais” pelo agenciamento privado da condição pública, já é uma coisa horrível, quanto pior, no momento que milhões de alunos, estão próximos à tal fidelização do capitão, por discursos fascistas, segregadores e mentirosos. Estão ali, unidos, nesta plataforma que serve à escola pública “de graça”.

Fingindo ser mais ingênuos do que somos, descansamos de nossos semelhantes, já dizia um filósofo.


1 Vale a pensa ler a matéria publicada em Intercept para compreender mais claramente toda a rede de relacionamento que faz de IP.TV em canal com relacionamentos com diferentes políticos em diversos estados e a condição de associação entre a empresa e Jair Bolsonaro.

Fonte:https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/as-armadilhas-da-educacao-via-plataformas/

segunda-feira, 24 de maio de 2021

BYUNG-CHUL HAN - O TEMPO DA FESTA

                                                                  Byung-Chul Han*


              Hoje em dia, as coisas ligadas ao tempo envelhecem muito mais rápido do que antes. Elas decaem rapidamente naquilo que é passado e fogem à atenção. O presente se reduz à ponta da atualidade. Assim, o mundo perde algo de sua duração. A causa do encolhimento do presente não é, como se assume equivocadamente, a aceleração. Antes o tempo, como uma avalanche, lança-se adiante, porque ele não tem mais parada. Aqueles pontos do presente entre os quais não existiria nenhuma força gravitacional e nenhuma tensão, pois são meramente aditivos, desencadeiam a ruptura do tempo, o que conduz ao aceleramento sem direção e sem sentido.

              Quem é depressivo não é capaz de uma conclusão. Sem conclusão, porém, tudo se dissipa. Não se forma nenhum autorretrato estável, o que seria, igualmente, uma forma de conclusão. Não por acaso, a indecisividade, a incapacidade para es-colha (Ent-Schluss) é sintomática a depressão. A depressão é característica de um tempo no qual se perdeu a capacidade de concluir (schliessen) e encerrar (abzuschliessen). Também o pensamento pressupõe a capacidade de concluir, de se deter, de se demorar. Nisso, ele se distingue do cálculo. Assim, em oposição ao cálculo, o pensamento não se deixa acelerar tanto quanto se queira. Pertence aos sintomas da Síndrome de Fadiga por informação (IFS), ou seja, o cansaço de informação, a incapacidade de pensar analiticamente. Ela é a incapacidade de concluir [schliessen] e inferir [schlussfolgern]. A massa de informação que se acelera sufoca, então, o pensamento. Também o pensamento carece de um silêncio. É preciso poder fechar os olhos.

              O sujeito do desempenho é incapaz de chegar a uma conclusão. Ele se despedaça sob a coação de sempre ter de produzir mais desempenho. Precisamente essa incapacidade de chegar a uma conclusão e de encerrar conduz ao Burnout. E, em um mundo no qual a conclusão e o encerramento dão lugar a um avanço sem fim e sem direção, não é possível morrer, pois também o morrer pressupõe a capacidade de encerrar a vida. Quem não consegue morrer no tempo certo tem de a-cabar (ver-enden) em uma hora inoportuna (Unzeit).

              O tempo da festa não é um tempo de relaxamento ou da recuperação. A festa é, ela mesma, uma forma de conclusão. Ela deixa que um tempo inteiramente outro comece. (...) O tempo da festa é diametralmente oposto ao tempo de trabalho.

              (...)

              A sociedade do cansaço atual faz o próprio tempo de refém. Ela o acorrenta ao trabalho e o transforma em tempo de trabalho. O tempo do trabalho é um tempo sem conclusão, sem início e sem fim. Ele não exala [nenhum aroma]. A pausa não marca, como pausa do trabalho, um outro tempo. Ela é apenas uma fase do tempo de trabalho. Hoje, não temos nenhum outro tempo senão o tempo do trabalho. O tempo do trabalho se totaliza como o tempo. Perdemos há muito tempo o tempo da festa. O fim do expediente como véspera do dia festivo nos é inteiramente estranho. Trazemos o tempo do trabalho não apenas nas férias, mas também no sono. Por isso dormimos tão inquietamente hoje. Também o relaxamento é apenas uma modificação do trabalho, na medida em que serve para a regeneração da força de trabalho. A recuperação não é o outro do trabalho, mas o seu produto. Também apenas a desaceleração ou lentidão não podem gerar um outro tempo. Ela é, igualmente, uma consequência do tempo de trabalho acelerado. Ela apenas desacelera o tempo de trabalho, em vez de transformá-lo em um outro tempo. (...) A desaceleração não elimina a crise temporal, sim a doença temporal atual. A desaceleração não surte nenhuma cura. Antes, ela é apenas um sintoma. Não se pode curar a doença com o sintoma. Hoje, é necessária uma revolução temporal, que gere um outro tempo, o tempo do outro, que não é um tempo do trabalho, uma revolução temporal que traga de volta para o tempo o seu aroma.

HAN, Byung-Chul . Favor fechar os olhos: em busca de outro tempo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2021, pg. 25 a 30.

* Filósofo nascido na Coreia e fixado na Alemanha. Professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim. 

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