sexta-feira, 26 de novembro de 2021

A desinformação e a necessidade de contar histórias

 Januária Cristina Alves*

 Entenda as diferenças entre rumor, desinformação e falsa informação - Olhar  Digital

A desinformação é uma questão que perpassa a necessidade de o ser humano contar histórias, selecionando aquelas que lhes interessam

Vou começar esse artigo recontando uma antiga história da tradição oral oriental, protagonizada pelo sábio Nasrudin (Naceradim ou Nasrudim Coja foi um sábio sufi que viveu no século 13, na Turquia. Sobre ele contam-se muitas histórias que trazem ensinamentos da sabedoria popular). Vamos a ela:

“Certa vez Nasrudin resolveu procurar novas técnicas de meditação. Selou seu jumento e iniciou uma peregrinação pelo mundo: foi à Índia, à China, à Mongólia, conversou com todos os grandes mestres, mas nada conseguiu.

Então, ouviu falar que havia um grande sábio no Nepal. Viajou até lá, mas, quando subia a montanha para encontrá-lo, seu jumento morreu de cansaço. Nasrudin enterrou-o ali mesmo e chorou de tristeza.

Alguém passou na hora e comentou: ‘Isso deve ser o túmulo de algum santo e você era seu discípulo. Na certa está lamentando a sua morte’.

‘Não, é apenas o túmulo de meu jumento, que morreu de cansaço’, disse Nasrudin.

‘Não acredito’, disse o recém-chegado. ‘Ninguém chora por um jumento morto. Isso deve ser um lugar santo, onde os milagres acontecem e você está tentando escondê-lo!’

Por mais que Nasrudin argumentasse, não adiantou. O homem foi até a aldeia vizinha, espalhou a história de um grande mestre que realizava curas em seu túmulo e logo os peregrinos começaram a chegar.

Aos poucos, a notícia da descoberta do ‘Sábio do Luto Misterioso’ se espalhou por todo o Nepal, e multidões correram para o lugar. Um homem rico foi ali, achou que tinha sido recompensado e mandou construir um imponente monumento onde Nasrudin enterrara seu ‘mestre’.

Em vista disso, Nasrudin desistiu de tentar contar às pessoas o que de fato havia ocorrido, e assim, resolveu deixar as coisas como estavam.

Mas aprendeu de uma vez por todas que, quando alguém quer acreditar numa mentira, ninguém lhe convencerá do contrário.”

Compreender o fenômeno da desinformação passa pelo entendimento da estrutura narrativa e sobretudo pela compreensão de como usamos a linguagem para nos comunicarmos

Penso que, antes mesmo de terminar de ler essa pequena história, você já deve estar pensando: “Hummm... essa história eu conheço! E ela não aconteceu no século 13”! Pois é, em pleno século 21 cá estamos nós às voltas com as histórias distorcidas, deformadas, “editadas”, “ajustadas”, as famigeradas fake news. Como já sabemos – e de novo acabamos de testemunhar – elas não são novidade. Muita gente, quando constata tal fato, logo desiste de combater essa praga, porque conclui que, se ela sempre existiu, logo, é inerente ao ser humano e, portanto, para transformar um fenômeno como esse, há que se reestruturar elementos profundos da nossa psique.

A mente humana está configurada para contar histórias. Organizamos o nosso pensamento por meio da estrutura narrativa de histórias com começo, meio e fim. É por meio delas que damos significado à nossa experiência. Portanto, quando falamos das tais “narrativas” que tomam conta das redes sociais e provocam toda sorte de discussões, polêmicas, discursos de ódio – e também troca de ideias e compartilhamento de experiências, é preciso dizer – estamos nos referindo àquelas que forjam as nossas memórias. E sem memória simplesmente não existimos. Por isso, contar histórias faz parte da nossa essência.

Uma das maiores referências relacionada às pesquisas sobre as evidências de que todas as histórias são ficcionais é o linguista e cientista cognitivo americano Mark Turner, que considera a literatura não apenas como uma arte, um saber ou ainda uma disciplina, mas como parte da mente humana, afirmando que a nossa mente é inerentemente literária. Turner estuda as narrativas a partir de uma perspectiva cognitivista mostrando que elas não estão presentes apenas em textos literários, mas fazem parte da cognição humana. É nessa perspectiva que sugiro pensarmos no fenômeno da desinformação, como uma questão que perpassa a necessidade de o ser humano contar histórias, selecionando aquelas que lhes interessam sob determinados aspectos (o auto-engano), mas também como um evento que tomou essa proporção impulsionado por outros elementos do universo digital. Acredito que decifrar a ocorrência da desinformação passa pelo entendimento da estrutura narrativa e sobretudo pela compreensão de como usamos a linguagem para nos comunicarmos, pois é por meio dela que nos expressamos.

Há um ditado popular italiano que diz: “Se non è vero, è ben trovato” (“Se não é verdade, é bem contado”), e de uma maneira bastante simples sintetiza os limites e idiossincrasias a que estamos submetidos todas as vezes em que construímos qualquer narrativa. Há um esforço sobre-humano quando se deseja retratar ou relatar uma realidade, pois mesmo as imagens - que por algum tempo acreditamos que eram o fiel retrato do real - também sofrem a influência e a determinação do olhar, direção e enquadramento de quem a produz. Nesse sentido, podemos afirmar que toda a narrativa é ficção, porque cada fato é relatado sob uma determinada ótica, interesse, a partir de determinadas memórias e referências. E aí a tal da objetividade vira um líquido fluído, que escorre por entre os diversos suportes narrativos que usamos.

O ser humano necessita contar histórias e por meio delas convencer (ou converter) o outro, e tal fato assumiu uma escala imensurável porque essas narrativas foram se multiplicando por meio dos algoritmos, formando uma teia complexa e infinita sobre a qual não temos mais controle. A desinformação faz parte de uma desordem criada pela confusão entre o mundo online e o offline nas redes, e a cada dia é mais difícil reconhecer uma narrativa construída a partir de reflexões e experiências sustentáveis para nela confiar.

A verdade é uma parte de um todo que não damos conta de abarcar, e com isso muitos filósofos concordam. Porém, mais do que nunca, precisamos discriminar os elementos que compõem essa desordem informacional. O entendimento de como funcionam as estruturas narrativas e o quanto elas são fundamentais para a nossa comunicação é um bom começo de conversa. Mas não é tudo (como há de ser com relação a qualquer questão intrincada como essa). No entanto, pode ser a partir dessa compreensão que nos sintamos motivados a continuar tentando entender o tema, nos perguntando, por exemplo, quem ganha com todo esse ecossistema adoecido. Para combater a desinformação é fundamental nos perguntarmos quem lucra com ela e o que pretende, pois, enquanto a história corre, a narrativa segue nos confundindo e distraindo, e as nossas estruturas mais fundamentais, como a democracia, estão sendo desconstruídas. Mas isso... é assunto para outra conversa!

Januária Cristina Alves é mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna), membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

Imagem da Internet

Mario Vargas Llosa é eleito membro da Academia Francesa

Mario Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa discursa no Palácio Carondelet, em Quito. O escritor hispano-peruano foi eleito membro da Academia Francesa. Foto: RODRIGO BUENDIA / AFP

O escritor hispano-peruano é o primeiro autor de língua estrangeira a ingressar na instituição histórica fundada em 1635; ele também é membro da Real Academia Espanhola desde 1994

Agências, AFP

PARIS, FRANÇA - A Academia Francesa anunciou nesta quinta-feira, 25,  a eleição do escritor hispano-peruano Mario Vargas Llosa como novo membro, o primeiro autor de língua estrangeira a ingressar na instituição histórica fundada em 1635. 

Aos 85 anos, sua entrada no templo das letras francesas é ainda mais excepcional, já que desde 2010, as regras são que os candidatos devem ter menos de 75 anos.

Na história da Academia Francesa houveram escritores bilíngues, como o argentino Héctor Bianciotti (1930-2012), que publicou parte de sua obra em espanhol. Mas Vargas Llosa é o primeiro a entrar sem ter escrito diretamente em francês.

Vargas Llosa foi eleito com 18 votos a favor. Ele assume a cadeira deixada vaga por Michel Serres, acadêmico falecido em 2019.

Vargas Llosa, o último sobrevivente do boom latino-americano

O hispano-peruano Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura em 2010, eleito nesta quinta-feira, 25,  membro da Academia Francesa, é o último representante da geração dourada da literatura latino-americana.

Escritor universal a partir da complexa realidade peruana, Vargas Llosa fez parte do chamado 'boom' latino-americano junto a outros grandes como o colombiano Gabriel García Márquez, o argentino Julio Cortázar e os mexicanos Carlos Fuentes e Juan Rulfo.

Admirado pela sua descrição das realidades sociais em obras-primas da literatura como A Cidade e os Cachorros ou A Festa do Bode, no plano político seus posicionamentos liberais provocaram hostilidade em um meio intelectual que geralmente tende à esquerda.

"Nós latino-americanos somos sonhadores por natureza e temos problemas para diferenciar o mundo real e a ficção. É por isso que temos ótimos músicos, poetas, pintores e escritores, e também governantes tão horríveis e medíocres", disse pouco antes de receber o Nobel em 2010.

Nascido na cidade de Arequipa, no sul do Peru, em 28 de março de 1936 em uma família de classe média, foi educado por sua mãe e seus avós maternos em Cochabamba (Bolívia) e depois no Peru. 

Após seus estudos na Academia Militar de Lima, obteve uma licenciatura em letras e, ainda muito jovem, deu seus primeiros passos no jornalismo.

Se instalou em 1959 em Paris, onde se casou com sua tia Julia Urquidi, 10 anos mais velha, e exerceu várias profissões: tradutor, professor de espanhol e jornalista da Agence France-Presse. 

Anos depois, separou-se de Urquidi e se casou com sua prima-irmã e sobrinha de sua ex-esposa, Patricia Llosa, com quem teve três filhos e cinquenta anos de relação.

Vargas Llosa se divorciou de Patricia após iniciar em 2015, com quase 80 anos, um romance com uma figura conhecida do mundo madrilenho, Isabel Preysler (ex-esposa do cantor Julio Iglesias).

Sua longa carreira literária decolou em 1959, quando publicou seu primeiro livro de relatos, Os Chefes, com o qual obteve o Prêmio Leopoldo Alas. Depois, ganhou notoriedade com a publicação de A Cidade e Os Cachorros, em 1963, seguida três anos depois por A Casa Verde. Seu prestígio se consolidou com Conversa no Catedral (1969).

Naquela época o autor peruano já afirmava que queria continuar escrevendo até o último dia de sua vida e cumpriu com sua palavra com a publicação de obras como O Herói discreto ou Tempos Ásperos, sobre a agitada história recente da Guatemala, que lhe rendeu o Prêmio Francisco Umbral de Novela.

Com suas obras traduzidas para 30 idiomas, Vargas Llosa foi prestigiado com os prêmios Cervantes, Príncipe de Astúrias das Letras, Biblioteca Breve, o da Crítica Espanhola, o Prêmio Nacional de Novela do Peru e o Rómulo Gallegos.

Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,mario-vargas-llosa-e-eleito-membro-da-academia-francesa,70003908496

Aberrações urbanas

    Por Moisés Mendes*

 
Foto: Twitter/Mídia Ninja

Recolheram a um depósito o touro dourado da Bolsa de São Paulo. O bicho estava em espaço público, como um monstro do mercado financeiro que invadiu sem licença uma calçada que é de todos.

Faz bem esse debate sobre lixos estéticos que nem todos querem ver. A conversa leva a um consenso que não acolhe mais velhas controvérsias: os espaços das cidades, como ruas, calçadas e praças, são de uso comum, com leis e normas consagradas.

Mas há uma questão sempre em aberto. E se o touro estivesse numa área visível, mas em espaço privado da Bolsa? Se colocassem o touro dentro de um terreno particular, mas à vista de todos, aí tudo bem?

É quase certo que sim, que o touro num terreno particular ficaria lá, ruminando, e ninguém se importaria com o bicho.

Mas não direito absoluto quanto ao uso do espaço privado. Há leis, normas e controles, mesmo que o objeto em debate seja algo decorativo, como é o caso do touro do subcapitalismo brasileiro.

São Paulo tem uma lei avançada, chamada de Cidade Limpa, em vigor desde 2007, quando o prefeito era Gilberto Kassab. Outras cidades, entre as quais Porto Alegre, copiaram algumas regras em relação ao controle da poluição visual.

Em nome de regramentos básicos, a lei determinou, entre outras coisas, que São Paulo não teria mais outdoors e aqueles pirulitos gigantes com propagandas.

Tiraram os painéis das ruas e a cidade respirou melhor. Mas mexeram em espaço privados? Sim, porque donos de prédios e terrenos não são controladores sem limites das suas propriedades e das relações dessas com as cidades.

A paisagem urbana não é constituída apenas de espaços coletivos públicos, mas do conjunto de coisas e bens públicos e privados. Códigos urbanos tratam dessas regras desde a invenção das cidades.

A paisagem provoca impactos visuais, estando os prédios, as árvores, as placas ou os touros dourados em espaços públicos ou privados. É básico, é elementar, é da natureza da convivência civilizada.

Vou relembrar uma história de 2012, que ilustra com um fato o que muita gente não entende. José Fogaça fazia campanha pela reeleição à prefeitura de Porto Alegre.

O prefeito caminhava pela Azenha, o bairro com uma loja ao lado da outra. A área estava se submetendo a novas regras para placas do comércio. Seria, pelo que lembro, um projeto piloto.

Uma comerciante reclamou que ninguém mais sabia onde ficava sua loja, porque as placas com os nomes tinham uma altura baixa e quase todas do mesmo tamanho. Fogaça respondeu algo como: por que sua loja deveria ser diferente?

Se ela era dona da loja e se a placa estava grudada na fachada, a moça poderia fazer o que bem entendesse? Ela achava que sim. Mas não, não poderia.

Essas restrições não poupam pequenos comerciantes, mas há concessões em cidades variadas, em todo o Brasil. Uma dessas concessões beneficiam, mesmo que alegadamente baseadas nas leis, as estátuas grotescas das Lojas da Havan.

Estão em espaço privado, podem estar em situação regular, mas o bom senso diz que não deveriam ser aceitas pacificamente, mesmo que fora do chamado ‘perímetro urbano’ ou em periferias.

Mas lá estão, por imposição econômica. Sob o argumento de que geram empregos e pagam muitos impostos, as lojas impõem às cidades as estátuas gigantescas. Qual é o sentido daquilo? A propaganda e a fixação de uma marca. Só.

O pretexto de que estão afastadas dos centros e de que enfeitam as cidades é mais esdrúxulo do que as próprias estátuas. Não enfeitam nada.

Não há vínculos com a história local, não há um valor sociocultural, não há nada além do interesse econômico. As réplicas não reproduzem, fora do lugar original, nenhum significado. São coisas fora do lugar.

Estão ali por concessão de prefeitos e vereadores e pelas acomodações das tais “forças vivas”, com raras exceções. É assim que funciona. Aceitação e resignação.

Isso significa que outros comerciantes podem erguer estátuas de figuras sem sentido algum, por capricho dos seus donos e porque os espaços são privados? Certamente não.

É improvável que uma cidade, de qualquer porte, aceite a disseminação de estátuas semelhantes por todos os bairros, como uma moda espalhada pelo véio da Havan. Haveria uma reação. Mas as estátuas verdes podem.

As estátuas de plástico da Havan são a expressão dos tempos bolsonaristas, como aberração estética e como agressão visual e cultural, até porque algumas não têm nem mesmo a altura proporcional da estátua verdadeira.

As estátuas verdes que desabam, como uma desabou com os ventos em Capão da Canoa, no Rio Grande do Sul, são reproduções grotescas poluidoras de ambientes urbanos que não precisam de enfeites desse tipo, mas de cuidado, acessibilidade, funcionalidade, limpeza e, se possível, alguma arte.

Réplicas como essas não serão nunca arte. Cidades que recebem as estátuas sem reação merecem que tais aberrações sejam impostas como a ostentação jeca de uma bizarrice.

*Moisés Mendes é jornalista. Escreve quinzenalmente para o Extra Classe.

Fonte: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2021/11/aberracoes-urbanas/

Contexto social e político atualiza obras de Chico Buarque

Por José Weis*

 
 Foto: Detalhe do clipe "Tua Cantiga", 2017/ Reprodução
 
Carregado de sentidos na atualidade, o álbum Construção completa 50 anos e coincide com o lançamento de Anos de Chumbo, primeiro livro de contos do autor 
 

Em seu livro de estreia em histórias curtas, Chico Buarque denuncia ao seu estilo – com sensível e indignada sutileza – as torturas e outros crimes da ditadura militar

Pela segunda vez consecutiva, o álbum Construção, de Chico Buarque, lançado há mais de 50 anos, é o primeiro da lista de leituras obrigatórias dos estudantes que irão prestar o vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) em 2022.

Além de revisitar a obra do artista mais representativo da resistência à ditadura militar, a prova da federal gaúcha também terá questões sobre os livros Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo; Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo; Deixa o quarto como está, de Amílcar Bettega; Bagagem, de Adélia Prado; São Bernardo, de Graciliano Ramos; As meninas, de Lygia Fagundes Telles; Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva; poemas selecionados, de Florbela Espanca; Papéis avulsos, de Machado de Assis; Úrsula, de Maria Firmina dos Reis; e Hamlet, de William Shakespeare.

Com o título “construção”, assim mesmo, em letras minúsculas, o disco que estampa na capa um Chico de bigode, que ainda nem tinha completado seus 27 anos de idade, foi uma surpresa para todos, da crítica ao público, incluindo aqueles que acreditavam que o músico fosse mais um moço bonito e bem comportado.

A obra continua chamando a atenção de professores de língua portuguesa pelo genial jogo com palavras proparoxítonas. Uma canção na contramão do “milagre brasileiro” alardeado pelos militares, parte da mídia e classe dominante da época, e que permanece carregada de sentidos na atualidade.

Em uma entrevista a Geraldo Leite, da Rádio Eldorado, em setembro de 1989, o próprio artista relata as condições em que o disco construção foi produzido: “existem músicas que se referem imediatamente à realidade que eu estava vivendo, à realidade política do país. Existe algo de abafado, pode ser chamada de protesto”.

Anos de chumbo

Foto: Reprodução

Em 1971, a ditadura militar (1964-1985) pegava pesado no país. O Ato Institucional Nº 5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, instituiu o terrorismo de estado.

Além de institucionalizar a tortura, assassinato, perseguições e violações de direitos humanos de quem o Estado identificasse como inimigo, a medida determinou o fechamento do Congresso Nacional e das assembleias legislativas dos estados, permitiu a cassação de mais 170 mantados parlamentares, instituiu a censura prévia da imprensa e produções artísticas, a intervenção nos estados e municípios. “Deus lhe pague”, diz a letras da canção-título após enumerar: “por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir…”.

Meio século depois, com o país destroçado sob um governo eleito que conspira, promove o negacionismo letal e flerta com o autoritarismo, Chico Buarque publicou, em setembro passado, Anos de Chumbo e Outros Contos (Companhia das Letras, 2021, 168 p.).

Construção e Anos de Chumbo convidam a uma reflexão sobre contexto político e social do país quando do lançamento do “álbum da maturidade” e a atual realidade brasileira que recebe o livro de estreia de Chico como contista. Qualquer semelhança entre o quadro de terror dos anos 1970 e os desmandos da era Bolsonaro não será mera coincidência.

Maturidade

Foto: Reprodução

Primeiro livro de narrativas breves do autor de Estorvo (1991), Benjamin (1995) Leite derramado (2009) e Essa gente (2019) – que em 2019 ganhou o Prêmio Camões pelo conjunto da obra – Anos de chumbo reúne oito histórias curtas, densas, escritas com o domínio de quem se aprimorou como escritor depois das novelas e romances publicados.

Desde o primeiro relato, Chico diz a que veio. Em “Meu Tio” é apresentado um tipo boçal, autoritário e sem o mínimo de empatia. Segue em “Passaporte”, com um típico anti-herói perdido num voo Rio-Paris. No conto em que envolve milícia e futebol, “Primos de Campos”, sobrou até uma alusão ao seu tricolor do coração, o Fluminense.

Em “Copacabana” o clima é onírico e uma surpresa fica para o final. Há no conto “Para Clarice Lispector, com candura”, uma forma sensível de homenagear a escritora. “Sítio” conta a história de um casal que busca se refugiar da pandemia de covid-19.

Fechando os relatos, “Anos de chumbo” é uma narrativa irônica com sabor de vingança: “eram uns bonecos do Exército brasileiro, chumbados num pedestal de madeira, um deles tocando corneta, outro batendo continência”. Chico Buarque denuncia ao seu estilo – com sensível e indignada sutileza – as torturas e outros crimes da ditadura militar.

Música e literatura

“O Chico escritor revisita o tempo da ditadura de diversas formas, mas por um viés menos imediato do que se pode ouvir nas canções dele”, ressalva o escritor Luís Augusto Fischer, autor de Duas formações, uma história: das ideias fora do lugar ao perspectivismo ameríndio (Arquipélago, 2021) e professor de Literatura da Ufrgs.

Para Fischer, particularmente na canção que nomina o disco há muitas camadas de sentido e de forma. “O arranjo por si só carrega uma dimensão de construção propriamente dita, como coisa humana, carregada de drama, mas com um fim caótico”, analisa.

Há muitas diferenças de contexto, pondera o professor. Mas “o que não muda é que temos fantasmas que, por não serem adequadamente confrontados, ficam atormentando por décadas a fio. É o caso daquele tempo do miolo da ditadura militar, os tais anos de chumbo, retratados pelo disco e revisitados neste novo livro”, constata.

*Colunista do Extra Classe / Publicado em 26 de novembro de 2021

Fonte:  https://www.extraclasse.org.br/cultura/2021/11/contexto-social-e-politico-atualiza-obras-de-chico-buarque/?

Sociedade hoje. Pós-cristão, pós-secular e pós-liberal

Ricardo Calleja Rovira*

Manifestação

Ricardo Calleja Rovira · 16 de novembro de 2021 – Foto: DAQUI

Os intelectuais e políticos cristãos se deparam com a opção de se retirar da vida institucional ou travar uma batalha cultural. Ambos, correndo o risco de reduzir o cristianismo a uma identidade ideológica manipulável.

Durante décadas, a maioria dos cristãos – e o magistério dos pastores – aderiram ao grande consenso social sobre a legitimidade das instituições existentes, embora pudessem apontar lacunas.

  • Nessa sociedade aberta, os cristãos iriam propor, não impor, suas idéias, assumindo as regras do jogo como uma mais.
  •  Confiantes na força da verdade e nos canais institucionais do sistema político, aspiravam a convencer com palavra e exemplo.
  • Esperavam, portanto, preservar os fundamentos da vida comum, que entendiam não ser uma questão de fé religiosa.

Eles enfrentaram ideologias secularizantes que erodiram esses alicerces:

  • a dignidade da pessoa e da família,
  • a definição do casamento,
  • a dimensão religiosa da pessoa,
  • o cuidado dos necessitados, etc.

Mas as condições sob as quais isso foi afirmado mudaram significativamente. 

Mesmo correndo o risco de ser drásticos, podemos dizer que

  • hoje não nos encontramos mais em um cenário de sociedades fundamentalmente cristãs
  • que enfrentam as tensões do processo de secularização por meio das regras do jogo do liberalismo político.

Estamos cada vez mais em sociedades pós-cristãs, pós-seculares e pós-liberais.

A sociedade de hoje

Pós-cristãos

porque novos princípios de justiça emergem que não são mais “virtudes cristãs enlouquecidas”, como disse Chesterton.

Refiro-me, por exemplo,

  • à negação da singularidade da espécie humana,
  • da dignidade do indivíduo,
  • da racionalidade como norma dos debates,
  • da presunção de inocência, etc.

Pós-secular

porque o resultado do progressivo desaparecimento do Cristianismo

  • não é uma sociedade menos religiosa em geral,
  • mas a substituição do Cristianismo por novas religiões civis. 

Refiro-me a fenômenos ideológicos ligados à política de identidade, ambientalismo radical, animalismo, etc. 

Não se trata de idéias alternativas dentro do espectro de opções livres em uma sociedade,

  • mas sobre a pretensão de mudar os princípios da vida comum em suas raízes.
  • Que se expressem também não de forma discursiva, mas principalmente identitária, afetiva e coletiva, e quase diríamos sacramentais. 

Uma nova religião – ou conjunto de religiões – que destrói os ídolos e estátuas da anterior e estabelece novos tabus.

Pós-liberal

porque desaparece

  • o consenso sobre as instituições comuns,
  • a aspiração a uma sociedade de indivíduos livres e iguais,
  • a importância de respeitar as regras institucionais do jogo com a sua alternância de poder e uma relativa neutralidade do espaço público,
  • e a coesão do classes médias prósperas.

Estamos testemunhando tentativas

  • de ocupação das instituições com desejo hegemônico,
  • e a fragmentação emotivista da opinião pública,
  • que reduz os lugares comuns para o encontro.

Surgem formas não liberais de democracia –plebiscitaria, caudillista, identitaria– e cresce a simpatia por regimes mais próximos do autoritarismo tecnocrático.

A atitude do cristão

Diante desses cenários, a síntese mencionada no início não vale mais como uma possibilidade realista de ação social e política, por mais que se arrependa ou sinta falta dela.

  • A assimilação acrítica de um contexto cada vez mais distante do Cristianismo  não parece uma opção válida ou atraente.
  • O compromisso meramente perito com as instituições – irrepreensível em si mesmo – não é suficiente para contribuir efetivamente para o reforço dos alicerces da vida política, permanentemente atacada.
  • Mesmo o liberalismo mais clássico e racional parece não ter atração eleitoral nem vontade de defender alguns valores substantivos fundamentais da perspectiva cristã.

Em ambientes intelectuais e políticos cristãos, surgem mais opções de identidade.

  • Alguns promovem uma “retirada” da vida política institucional, devido à sua força corruptora de caráter individual e debate público.
  • Outros, no entanto, assumem a posição conflituosa e se preparam para dar a batalha cultural a partir das instituições. 

Em ambos os casos,

  • com o risco de reduzir o cristianismo a uma identidade ideológica ou cultural manipulável e, em última instância, vazia. 
  • E com a perplexidade de ter que renunciar às regras mais ou menos civilizadas de comportamento da política democrática a que estávamos acostumados.

Porque a forma de estar presente no espaço público como minoria hostilizada já não é a cordialidade nem o simples exercício discreto dos próprios direitos e deveres.

Muitos cristãos pensam que devem fazer sua voz ser ouvida

  • mesmo que soe estridente,
  • mesmo que os enrede em seu ambiente social e gere conflito na esfera pública.

E sempre há a tentação de se tornar intolerante interiormente com aqueles que não lutam as batalhas como pensamos que deveriam. Ou simplesmente com aqueles que os lutam, se se pensa que o confronto deve ser evitado acima de tudo.

Como escreveu Nietzsche, quem luta contra um monstro deve ter cuidado para não se transformar em outro monstro.

Onde é o limite?

  •  Isso está promovendo a amizade social e o bem comum, como proposto pelo Papa Francisco, e toda a tradição clássica da política?
  • E, ao mesmo tempo, o confronto cívico não é uma forma de encontro mais sincera do que o diálogo dos surdos ou o silêncio dos cordeiros?

 

Ricardo CALLEJA | PhD | Universidad de Navarra, Pamplona | UNAV | Department of Business Ethics Ricardo Calleja Rovira

*Professor de Ética Empresarial e Negociação na IESE Business School. Doutor em Direito pela Universidade Complutense de Madrid.

Fontes: https://omnesmag.com/actualidad/la-sociedad-hoy-postcristiana-postsecular-y-postliberal/

 http://www.padrescasados.org/archives/104388/sociedade-hoje-pos-cristao-pos-secular-e-pos-liberal/?utm_source=feedburner&utm_medium=email

O colonialismo digital e o convite à impotência

 

Num mundo em que o controle e manipulação de dados serão cada vez mais decisivos, Brasil cede às ofertas da Big Data e compromete seu futuro tecnológico. Novo livro lança alerta e sugere, como alternativa, a soberania algorítmica

Um importante anúncio do Poder Judiciário paulista apareceu no noticiário especializado, em fevereiro de 2019. Indicava que os processos judiciais do estado de São Paulo, o mais populoso e mais rico do Brasil, seriam entregues à chamada nuvem da Microsoft. O objetivo seria hospedar na empresa estadunidense uma plataforma digital que agregaria serviços de inteligência artificial e permitiria o registro, o arquivamento e a tramitação de todos os processos do maior tribunal do país. A matéria de um relevante jornal econômico brasileiro destacava a importância dos aspectos positivos do armazenamento em nuvem. O presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo afirmou ao jornal: “será o primeiro [Tribunal] do país a tomar esse caminho – e um dos poucos no mundo”. (18)

Sites e especialistas destacavam a ação inovadora do Judiciário paulista e o valor do projeto da chamada Plataforma de Justiça Digital, que seria de 1,32 bilhão de reais,(19) com dispensa de licitação. (20) A comunicação social do tribunal divulgou, no dia 20 de fevereiro de 2019, que “ao final de cinco anos, o custo fixo anual do TJ com o sistema judicial terá redução de 40%, além de eliminar a necessidade de alto investimento na renovação de Data Center”.(21) A dimensão do contrato e suas implicações eram gigantescas, o que levou o presidente mundial da Microsoft, Satya Nadella, a vir ao Brasil dias antes da assinatura do contrato para se reunir com o presidente do tribunal paulista. Segundo a assessoria de comunicação do Judiciário, o executivo da corporação fundada por Bill Gates afirmou que “a tecnologia é o meio, não é atividade fim. O fim é o que se faz com a tecnologia. E o sonho do TJSP de transformar essa plataforma de serviços aos cidadãos é revolucionário”. Nadella se comprometeu a colocar as melhores cabeças da Microsoft para atuar no projeto do tribunal.

Nenhum veículo, colunista, parlamentar questionou a entrega dos dados dos processos civis, criminais, empresariais, de crianças e adolescentes, de contenciosos judiciais de milhões de pessoas e milhares de empresas para a nuvem de uma das maiores plataformas estadunidenses, com interesses econômicos, financeiros, comerciais e geopolíticos no Brasil. Essa era uma não-questão. Também não foi perguntado se esses recursos, caso fossem empregados em empresas e centros de pesquisa brasileiros, não gerariam ganhos importantes não somente para a sociedade, para o desenvolvimento de inteligência local, como também para o próprio tribunal.

Apesar da inexistência de questionamentos na opinião pública, o Conselho Nacional de Justiça (22) proibiu a execução do contrato com o argumento principal de que o acordo com a Microsoft iria na “contramão de privilegiar um sistema único para tramitação processual”,(23) uma vez que os tribunais brasileiros estariam buscando um desenvolvimento integrado para a digitalização e tramitação de processos. Curiosamente, o destaque não foi a proteção de dados sensíveis da população, nem mesmo a necessidade de avançar a inteligência nacional na área de inteligência artificial.

Este capítulo começou pelo relato desse caso inconcluso por ser exemplar na caracterização de uma série de não-questões para boa parte dos pesquisadores acadêmicos, formadores de opinião, influencers, lideranças políticas e movimentos sociais que envolvem a colonialidade ampliada pelas tecnologias. Aqui pretendo trazer a hipótese de que essas não-questões ou críticas ofuscadas escondem um epistemicídio, tal qual Sueli Carneiro, inspirada em Boaventura de Sousa Santos, tratou dos mecanismos constituídos para negar a existência do racismo no país e as reflexões e saberes dos negros. O epistemicídio não recai somente à racialidade, também integra o regime de verdade da colonialidade que está justaposto com práticas acríticas e normalizadas pelas infraestruturas de submissão que se baseiam na alienação técnica e são fundamentais para o ordenamento neoliberal em uma sociedade fortemente dataficada.

Quais seriam as questões importantes encobertas e ofuscadas, tornadas não-questões, pela colonialidade em um cenário de capitalismo informacional, organizado em uma economia de dados neoliberal? Primeiro, a dúvida sobre a crença de que as empresas e plataformas digitais são neutras e que não interferem em nosso cotidiano, exceto para nos servir. Segundo, a interrogação sobre a inexistência de consequências negativas locais e nacionais na utilização das estruturas tecnológicas das plataformas, uma vez que elas respeitariam os contratos. Terceiro, a avaliação de que as implicações sobre a coleta massiva de dados nos países centrais da plataformização tecnológica possuem os mesmos efeitos econômicos, políticos e socialmente moduladores que nos países periféricos. Quarto, a indagação sobre se seria possível apostar no avanço de uma inteligência computacional local, na soberania algorítmica e no conhecimento tecnológico como um bem comum livre.

Colonialidade e neoliberalismo

Para muitos pensadores críticos, o colonialismo histórico acabou, mas a colonialidade se mantém e pode ser empiricamente mapeada e constatada. O sociólogo peruano Anibal Quijano definiu a colonialidade como um dos principais elementos do padrão mundial de poder capitalista. A colonialidade foi construída sobre classificações raciais e étnicas das populações e está associada à expansão da modernidade e de sua racionalidade, a partir da Europa. Ela se mantém por meios materiais, por mentalidades e por relações de subordinação, sujeição e de inferiorização de modos de vida, de saberes e de conhecimentos. (24)

A colonialidade se apresenta como a imposição de modelos de pensamento, de agenciamentos, de comportamentos que negam ou desvalorizam epistemes, modos de aprender e conhecer das comunidades e das sociedades não ricas, também expulsa do que deve ser considerado normal à ideia de autonomia, de busca por caminhos diferentes, de toda tentativa daqueles que fogem aos interesses da economia e das suas principais corporações. Como aponta Paola Ricaurte, (25) em uma sociedade baseada em dados, a colonialidade de poder é realizada e amplificada também por meio de dados e das suas tecnologias de tratamento.

A partir dessa perspectiva, é possível notar que o avanço do ordenamento neoliberal ampliou e aprofundou a colonialidade. Sem dúvida, existem diversas definições de neoliberalismo que extrapolam sua dimensão tão somente econômica ou sua categorização como mera atualização do velho liberalismo. O neoliberalismo é uma conduta e um modo de pensar que coloca o mercado acima de todas as demais dimensões da vida. Mais do que isso, a doutrina neoliberal se empenha em definir as empresas como elemento crucial da existência e a concorrência como o objetivo maior de qualquer agregado humano.

Michel Foucault, ao analisar a constituição do neoliberalismo, com base nas vertentes alemã (ordoliberal) e estadunidense, em O nascimento da biopolítica, percebeu sua implicação na disciplina das condutas e em uma visão de mundo, indo além da reformatação dos governos para atuar em função das empresas. Laval e Dardot, inspirados em Foucault, detectaram que o neoliberalismo é a forma atual de nossa existência e que se impõe como o ordenamento do capitalismo contemporâneo. Alicerçados no marxismo, David Harvey, Gérard Duménil e Dominique Lévy consideraram a neoliberalização como a dinâmica geral do capital que opera em benefício das camadas mais altas de renda, resultante do compromisso entre as classes capitalistas e a camada superior da classe gerencial, sob a hegemonia financeira. Wendy Brown observou que o neoliberalismo coloca a legitimidade do Estado subordinada à capacidade de servir a racionalidade econômica, solapando o vínculo entre capitalismo e democracia, subordinando tudo, principalmente a lógica do Estado, às empresas e à sua rentabilidade. Pesquisadores de inspirações tanto marxista quanto foucaultiana identificam que o neoliberal desloca a empresa para o centro de gravidade da existência e faz do Estado seu maior serviçal. Nesse sentido, as relações contratuais entre capital e trabalho se tornam relações entre empresas de variados tamanhos, inclusive, empresas de um único funcionário, que é o seu próprio dono.

A dinâmica neoliberal reforça a colonialidade. Primeiro, a boa cartilha neoliberal manda que as empresas privadas assumam todas as atividades econômicas. Assim, cabe ao Estado assegurar que essas empresas assumam a criação, execução e manutenção do máximo de ações possíveis. Segundo, o ethos da concorrência manda apostar no menor preço com a melhor qualidade – esta nem sempre exigida. Terceiro, o desenvolvimento virá da escolha e do consumo dos melhores produtos e serviços, independentemente de outros valores ou princípios, como local de produção e benefícios sociais. Assim, para o neoliberal não seria sustentável a opção de criar e manter serviços executados pelo Estado, nem gastar recursos que deveriam ser investidos em empresas privadas, muito menos tentar soluções custosas de desenvolver localmente o que pode ser obtido globalmente. O neoliberalismo utiliza com anabolizantes a teoria das vantagens comparativas de David Ricardo.

Assim, países periféricos devem se empenhar em comprar os melhores produtos e serviços pelo menor preço. O uso é subentendido como o passaporte para o avanço econômico. A invenção, o domínio da técnica, deve se concentrar nas grandes empresas que possuem capital para essa atividade. Seria demasiadamente irracional e custoso criar outros produtos e soluções próprias, pois isso iria se confrontar com a ideia de obter o melhor pelo mais econômico. Quase todo documento de uso de tecnologia digital, da nomeada transformação digital dos Estados, enaltece a redução de custos. Essa lógica reforça a colonialidade, uma vez que a margem de manobra e as opções para encontrar outras saídas longe da compra de produtos e serviços das grandes corporações dos países ricos seriam muito pequenas ou inexistentes.

No cenário das tecnologias da informação e no capitalismo digital, Dan Schiller, já no fim do século XX, havia detectado que, embaladas pelo neoliberalismo, as infraestruturas do ciberespaço, os sistemas de telecomunicações, foram completamente orientadas para o mercado e o fortalecimento de corporações transnacionais. Schiller via, entre outras consequências, que a expansão da internet nos levaria ao aprofundamento do consumismo em escala transnacional e ao domínio até das estruturas e processos educacionais dos países pobres. O que ocorreu no início de 2020 com o Sistema de Seleção Unificada, SiSU, do Ministério da Educação (MEC), é um exemplo cabal do reforço mútuo da relação entre o neoliberalismo e a colonialidade, bem como das tendências apontadas por Schiller.

O SiSU é um sistema informatizado, criado em 2010, pelo qual as instituições públicas de ensino superior ofertam suas vagas conforme as notas obtidas pelas pessoas que participaram do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A direção do MEC decidiu entregar os dados do SiSU para serem processados na nuvem da Microsoft, chamada Azure. Ou seja, hospedou os dados do desempenho escolar de milhões de estudantes brasileiros para serem tratados na plataforma estadunidense.(26) O principal argumento foi o do alto custo em manter esses dados em um data center do próprio. Além disso, segundo a Rede Nacional de Pesquisa, a solução da Microsoft atendeu 1,8 milhão de estudantes, que realizaram 3,5 milhões de inscrições, com 210 mil usuários conectados ao mesmo tempo, perfazendo 7 mil inscrições por minuto e a média de 1,5 milhão de acessos diários. Outro importante argumento é de que, além de aumentar a segurança do processo, espera-se uma economia de aproximadamente 22 milhões de reais em cinco anos de projeto.

Dados dos estudantes que cursaram o ensino médio, como a renda familiar bruta mensal de cada um, os valores recebidos em diversos programas sociais, a nota no Enem, as médias populacionais relacionadas à cor declarada e a deficiências, entre outras informações sensíveis, foram entregues à plataforma Microsoft Azure. Não consta dos debates públicos ou entre gestores do governo a constatação de que a corporação estadunidense de tecnologia possui interesses econômicos no país e na própria área educacional brasileira, nem que, provavelmente, hospedou os dados em servidores localizados nos Estados Unidos, em sua denominada nuvem pública. O acesso e a manipulação desses dados não aparecem como problema. As notas das autoridades não destacam nem mesmo a importância das normas contratuais específicas de proteção de dados de adolescentes.

No contexto da governamentalidade neoliberal, a construção de uma solução infraestrutural para a hospedagem de dados e a implementação de frameworks de inteligência artificial do próprio MEC e das universidades brasileiras não é considerada razoável. A economia imediata, a entrega de atividades antes executadas pelo Estado a empresas privadas, a crença em contratos e em um padrão moral isento de interesses geoestratégicos e negociais conformam um regime de verdade da gestão pública neoliberal. Assim, os primados da boa conduta neoliberal inundam as cartilhas de boas práticas da gestão pública e reforçam a dependência das práticas econômicas das grandes plataformas, das big techs. Os princípios neoliberais reforçam a colonialidade, esse padrão de poder mundial que surgiu há mais de quinhentos anos.

A colonialidade trabalha preferencialmente o tempo imediato. As soluções sempre devem estar prontas, a dromoaptidão (27), a velocidade acelerada das soluções ofertadas pelas plataformas é enaltecida. As corporações sempre estão prontas a nos servir, serão mais rápidas do que construir um caminho de aprendizado e de fortalecimento das inteligências locais. No contexto da colonialidade, o colonizado, a inteligência coletiva local, nunca está pronto, apto, capacitado para enfrentar um problema sem recorrer a uma corporação da matriz. O neoliberalismo se aconchega na colonialidade.

Economia Digital e Mercado de Dados

A colonialidade é um padrão mundial assimétrico de poder e de subjetivação. O neoliberalismo é o atual ordenamento capitalista que envolve um estilo de governar e de ver o mundo como um arranjo de empresas que competem em função de um progresso infinito. O desenvolvimento do capitalismo ainda em transição para a supremacia neoliberal, no último quarto do século XX, viu surgir uma revolução tecnológica em que os produtos de maior valor agregado eram originados das tecnologias informacionais. Manuel Castells descreveu esse processo como a superação do mundo industrial e a constituição de uma era informacional, sem fazer uma relação de causa e efeito entre o sistema socioeconômico e a emergência das tecnologias da informação. (28) Nesta era informacional, o capitalismo promoveu a digitalização de toda a produção simbólica e ampliou as redes digitais que recobriram o planeta. O capitalismo informacional se digitalizou e na primeira década do século XXI assentou bases para o surgimento de um mercado de dados pessoais, que não nasceu de um devir das tecnologias digitais.

Anteriormente, o mercado de dados era relativamente pequeno, servindo principalmente ao capitalismo financeiro. Entretanto, com o sucesso de um modelo de negócios baseado na oferta em rede de interfaces e serviços gratuitos, a coleta e o tratamento de dados pessoais foram crescendo e gerando um fenômeno dominante na economia digital. Assim, o capitalismo neoliberal do século XXI tem na dataficação um segmento de destaque e de alta lucratividade. Esse capitalismo baseado em dados é chamado pela pesquisadora Shoshana Zuboff de capitalismo de vigilância. (29)

Enquanto o capitalismo digital indica um conjunto específico de tecnologias, o capitalismo de vigilância enfatiza um processo socioeconômico baseado na coleta generalizada de dados. Outra expressão – capitalismo de plataforma – destaca a instituição superior e típica da economia baseada em dados. Nick Srnicek define plataforma como uma estrutura digital que se coloca como intermediária da relação entre elementos de um mercado ou segmento de mercado.(30) A plataforma permite que a oferta encontre a demanda e vice-versa. Ela coleta dados de todos os agentes de um mercado e assim fica em posição estratégica. A Uber é um exemplo de plataforma. Seu negócio consiste na colocação de interfaces que permitam àquele que tem um veículo para o transporte individual urbano encontrar aquele que precisa realizar um deslocamento na cidade e está disposto a pagar por isso. Com a operação em curso, as plataformas que utilizam sistemas algorítmicos em sua gestão vão obtendo dados estratégicos de cada elemento do mercado.

O mercado de dados se tornou um dos principais mercados do capitalismo contemporâneo. É altamente lucrativo e tem gerado plataformas gigantescas que não param de coletar dados e colonizar o planeta, o que Couldry e Mejias qualificaram como a conversão dos fluxos da vida em dados.(31) No início de 2020, das cinco empresas que ultrapassaram o valor de 1 trilhão de dólares na Bolsa de Valores de Nova York,32 quatro eram empresas de tecnologia da informação (Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon) e apenas uma era de outro segmento, a petrolífera estatal saudita Aramco. Das quatro empresas de tecnologia, uma tem mais de 90% do seu faturamento originado em operações com dados pessoais, o grupo Alphabet, controlador do Google. Duas são plataformas, conforme definição de Nick Srnicek: Amazon e Alphabet. A Microsoft e a Apple estão se convertendo igualmente em plataformas gigantescas, tendo os dados como fonte importante de seus rendimentos.

Em 2019, os faturamentos das cinco grandes big techs – Google / Alphabet, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft – atingiram a estratosférica quantia de 899 bilhões de dólares. Um número que, comparado ao PIB de diversos países no mesmo período, demonstra o poder dessas empresas: 48,8% do PIB do Brasil (1,8 trilhão de dólares), 70% do PIB do México (1,2 trilhão de dólares), 64% do PIB da Espanha (1,3 trilhão de dólares), duas vezes o PIB da Argentina (445 bilhões de dólares).

Apenas os faturamentos do grupo Google/Alphabet e das empresas do Facebook perfizeram 232,5 bilhões de dólares em 2019. Essas duas corporações são plataformas que sustentam suas operações fundamentalmente no armazenamento, no tratamento e na análise de dados pessoais. A comparação dos faturamentos das empresas com o PIB dos países, naquele mesmo ano, reforça o sucesso do modelo dos negócios da dataficação. Ilustra a enorme força da combinação jamais vista da concentração de poder econômico, poder comunicacional e poder de análise. Google/Alphabet e Facebook faturaram um valor igual aproximadamente a 71% do PIB da Colômbia, a 82% do PIB do Chile, a 102% o PIB do Peru, a duas vezes o PIB do Equador, a quatro vezes o PIB do Uruguai e a 5,6 vezes o PIB da Bolívia.

Alienação técnica, redes de sujeição e ofuscamentos

A alienação técnica é uma condição que contribui muito com a colonialidade, em um cenário em que as tecnologias são cada vez mais elementos fundamentais da constituição do poder econômico, cultural e político. A alienação técnica alavanca a alienação do trabalho e se dissemina com a ideia de que as tecnologias são apenas meios, nada mais que instrumentos a nosso serviço. A alienação técnica, termo originariamente forjado pelo filósofo Gilbert Simondon,(33) aqui é definida como a ignorância ativa sobre como funcionam as redes de criação, desenvolvimento e uso de tecnologias, na fé da completa ausência de importância de se conhecer e dominar localmente os processos tecnológicos. A alienação tecnológica em uma sociedade dataficada é reforçada pelo dataísmo. Segundo Jose Van Dijck, o dataísmo é a crença na quantificação e no rastreamento de todos os tipos de comportamento humanos e sociabilidades pelas tecnologias das mídias online. (34)Também é a confiança extrema na imparcialidade e na neutralidade dos agentes que coletam, interpretam e compartilham os dados coletados.

A alienação técnica apoia a ofuscação promovida pelas redes de submissão, encontradas no processo de colonialidade. O primeiro desse obscurecimento aqui tratado é a crença de que as empresas e plataformas digitais seriam neutras e apenas existem para melhorar a nossa experiência. Bruno Latour (35) nos mostrou que o papel de intermediário quase sempre é o de mediador, ou seja, aquele que interfere nas interações e nas relações com seus valores e sentidos de urgência, entre outros elementos. Todavia, vamos a um ponto mais prosaico. A operação de um mero mecanismo de busca aloca o resultado em um ordenamento de links conforme critérios que envolvem decisões humanas, portanto, carregadas de valores, noções, saberes e decisões políticas de qual seria a melhor solução para uma escolha algorítmica ou o melhor modo de aprendizado com os dados que receberá. Os conteúdos distribuídos pelos algoritmos do Facebook seguem parâmetros definidos pelos seus formuladores e visam ampliar a monetização da plataforma. A Uber escolhe motoristas conforme seus critérios de pontuação que envolvem penalizações e incentivos aos que estão adequados ao perfil definido pelos gestores da empresa.

No período eleitoral de 2020, tanto o Facebook quanto o YouTube realizaram bloqueios de conteúdo ou proibiram impulsionamentos com óbvia conotação política e moral. Além disso, Edward Snowden, em 2013, mostrou com evidências incontestadas e assumidas pelo governo estadunidense que as empresas de tecnologia colaboraram com a espionagem global realizada pela National Security Agency, NSA, agência de inteligência das redes informacionais dos Estados Unidos.

A segunda grande ofuscação ocorre pela confiança e pela fé no cumprimento dos contratos pelo conjunto das plataformas, mesmo quando a decisão está fora da jurisdição nacional. Como se o Poder Judiciário de um país rico e poderoso não tivesse a tendência de proteger suas corporações. Como se os contratos de guarda de dados não fossem extremamente complexos. Além disso, as minúcias das declarações e das políticas de armazenamento e de tratamento de dados deixam, em geral, cláusulas que permitem uma série de ações não imaginadas e não previstas pelos clientes. Até porque tais clientes estão pouco preocupados com essas plataformas, pois estão submetidos à crença em sua completa neutralidade e ausência de usos não declarados. O caso da fraude dos algoritmos embarcados nos sistemas eletrônicos dos veículos da Volkswagen pode ilustrar bem que pessoas jurídicas praticam ações ilícitas tanto quanto as pessoas físicas. (36)

Outro caso que desencoraja a convicção cega na correção e na legalidade permanente das ações corporativas vem da plataforma Google, flagrada armazenando ilegalmente os endereços de redes Wi-Fi por meio de seus veículos do Google Street View. Primeiro negou, mas posteriormente a Google assumiu que, a partir de receptores ocultados em seus veículos, coletou os endereços das placas de rede dos roteadores (MAC addresses), o SSIDs de rede (o nome de ID de rede atribuído pelo usuário) e que interceptou e armazenou dados de transmissão de Wi-Fi, o que inclui senhas e conteúdos de e-mail. (37)

O terceiro elemento da ofuscação é a convicção de que a coleta massiva de dados das populações tem o mesmo efeito nos países ricos e centrais e nos pobres e periféricos. Não haveria diferença na extração de dados nos Estados Unidos, na França e no Brasil. Sem dúvida, o modelo implementado pelas plataformas é o de extração, processamento e análise de dados em todo o planeta. Todavia, os efeitos não são os mesmos. O fluxo transfronteiriço de dados não é do Norte para o Sul, mas da periferia para o centro. Os dados dos estudantes estadunidenses e franceses dificilmente seriam armazenados e tratados fora de seus países, dificilmente poderiam ser levados para um data center na Rússia, China ou Brasil, que não fosse de propriedade de suas empresas nacionais. Basta observar o argumento apresentado pelo governo inglês para, em um primeiro momento, proibir o uso de equipamentos 5G da Huawei em seu território. A empresa chinesa é acusada de praticar espionagem cibernética para o governo chinês, sendo uma ameaça à segurança nacional do Reino Unido. As razões para restrições e bloqueios tecnológicos podem ser outras, mas é perceptível que os países centrais resistem em perder seu poder tecnológico, mesmo para um gigante como a China.

As volumosas verbas de publicidade de um mercado como o brasileiro, que antes ficavam dentro do próprio país, com o crescimento do poder das plataformas na mediação das principais relações do cotidiano dos países periféricos, são transferidas aos grupos que controlam as tecnologias. As plataformas detêm os serviços digitais mais utilizados e, a partir deles, os serviços mais lucrativos. A perda de recursos econômicos se dá ao lado de uma maior sujeição cultural e demasiado bloqueio à criatividade local que não seja definida dentro da controlada arquitetura de informações e dentro dos limites do desenho dessas plataformas. O resultado econômico é a maior retirada de capital da balança de serviços e consequentemente maior dependência de superávits na balança comercial.

Além disso, as redes de submissão organizadas pelas consultorias, pelos lobistas das grandes corporações, serviços diplomáticos e organizações como o World Economic Forum visam disseminar uma cultura de subordinação aos produtos e serviços tecnológicos das plataformas, impedindo a formulação e implementação de políticas públicas que utilizem o potencial e a inteligência criativa local. Na economia de dados, isso se manifesta na impossibilidade de até mesmo tratar os dados das empresas e da sociedade nos próprios territórios e em instituições e empresas locais. A fusão do ordenamento neoliberal com as teias de colonialidade sustentam a posição de eterno dependente das tecnologias criadas na matriz. Para adquiri-las, deve buscar aplicar os produtos de tecnologias avançadas e utilizar os serviços de dados e de aprendizado de máquina das plataformas nos produtos de exportação que sustentarão uma entrada de divisas positiva. Essa é uma das razões pelas quais na Estratégia Brasileira de Transformação Digital, lançada em 2018, não se indicam como vantagens competitivas brasileiras para superar desafios e avançar na digitalização da economia nem as nossas universidades nem a nossa criatividade técnica, muito menos a pesquisa local sobre inteligência artificial, mas um “agronegócio desenvolvido” e “um mercado consumidor atraente”.(38) Exportam-se dados em estado bruto para se obterem informações e soluções algorítmicas das plataformas.

O quarto polo de ofuscamento está na convicção da impossibilidade de desenvolvimento de pesquisas e soluções a partir da aposta na inteligência computacional local, na soberania algorítmica e no conhecimento tecnológico como um bem comum livre. A noção de soberania algorítmica vem na esteira da noção de soberania relacionada ao design de software apresentada no livro de Benjamin Bratton chamado The stack: On software and sovereignty. (39) Soberania algorítmica é o nome da tese de doutorado de Denis Roio, defendida em 2018, (40) em que acompanha projetos que buscam aumentar o controle das comunidades e localidades sobre o desenvolvimento dos algoritmos. O pesquisador considera crucial compreender o que está inscrito em tais algoritmos, quais são as consequências de sua execução e quais agenciamentos operam. Essa prática de governança de um algoritmo pelas comunidades é fundamental em tempos de machine learning e de uma inteligência artificial baseada em dados. A ideia de soberania pode ser ampliada para a estrutura de dados e para o controle democrático de dados pela sociedade.

Os movimentos de software livre e as possibilidades de tecnologias abertas são brechas na estrutura do neoliberalismo e permitem a apropriação de tecnologias para a sua reconfiguração e para receberem as influências das culturas e cosmovisões locais. No caso brasileiro, as universidades estão paralisadas em virtude da colonialidade e da dominação epistemológica que bloqueiam ações avançadas de inventividade para além do mercado de dados e das perspectivas das plataformas.

Conclusão

Apesar de a expressão colonialismo de dados ser empregada como um modo geral de as big techs colonizarem as sociedades com dispositivos de coleta de dados, como uma fase comparável a um processo de apropriação inicial e transitório para a consolidação de uma outra fase do capitalismo, a observação da dinâmica do capital indica que o colonialismo de dados também, e principalmente, deve ser compreendido como um processo de empobrecimento dos países periféricos diante das gigantescas plataformas de dados. Os fluxos dos dados estão ocorrendo em sentido único. Dados como ativos de grande valor econômico e insumos vitais para os sistemas algorítmicos de aprendizado de máquina são gerados por dispositivos criados pelas plataformas que os extraem e concentram em seu poder. Isso gera maior capacidade de análise e, por conseguinte, maior conhecimento codificado nas mãos das plataformas, novos leviatãs.

É urgente iniciar um conjunto de pesquisas que tracem as redes de subordinação da colonialidade nesse cenário de uma economia neoliberal dataficada. É igualmente necessário descortinar e decodificar a colonialidade nas práticas discursivas e ideológicas, as que consolidam e reproduzem barreiras paralisantes para a apropriação dos dados e para a criação de novos usos e novas finalidades. Que as tecnologias sirvam às localidades e aos interesses da inteligência coletiva, que rompam com as assimetrias e com as desigualdades do capital.

Notas:

(18) Rosa, Arthur. “Processos do TJSP serão armazenados na nuvem”.Valor Econômico, 21 fev. 2019. Disponível em: https://www.valor.com. br/legislacao/6128767/processos-do-tj-sp-serao-armazenados-na-nuvem. Acesso em: 29 jul. 2021.

(19) “TJSP fecha contrato de R$ 1,3 bi com Microsoft para plataforma digital”. Computer World, 21 fev. 2019. Disponível em: https://compu- terworld.com.br/negocios/tjsp-fecha-contrato-de-r-13-bi-com-mi- crosoft-para-plataforma-digital/. Acesso em: 29 jul. 2021.

(20)“TJSP anuncia desenvolvimento da nova plataforma de Justiça Di- gital”. TS Inside, 20 fev. 2020. Disponível em: https://tiinside.com. br/20/02/2019/tjsp-anuncia-desenvolvimento-da-nova-plataforma-de-justica-digital/. Acesso em: 29 jul. 2021.

(21) “TJSP anuncia desenvolvimento da nova plataforma de justiça digi- tal”. Site do Tribunal de Justiça de São Paulo, 20 fev. 2019. Disponível em: https://www.tjsp.jus.br/Noticias/Noticia?codigoNoticia=55845. Acesso em: 21 fev. 2021.

(22) “Plenário ajusta liminar que regula contrato do TJSP com Micro- soft”. Site do Conselho Nacional de Justiça, 9 abr. 2019. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/plenario-ajusta-liminar-que-regula-con- trato-do-tjsp-com-microsoft/. Acesso em: 29 jul. 2021.

(23) Barbiéri, Luiz Felipe. “CNJ proíbe TJ-SP de executar contrato de R$ 1,32 bilhão com a Microsoft”. Site da Anajus, 26 jun. 2019. Disponível em: https://anajus.org.br/cnj-proibe-tj-sp-de-executar-contrato-de-r-132-bilhao-com-a-microsoft/. Acesso em: 29 jul. 2021.

(24) Quijano, Aníbal. “Colonialidad y modernidad / racionalidad”. Perú Indígena, v. 13, n. 29, p. 11-20, 1992. Ver também: Quijano, Aníbal. “Colonialidade do poder e classificação social”. In: Santos, Boaventura Sousa; Meneses, Maria Paula (Org.). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010. p. 84-130.

(25) Ricaurte, Paola. “Data epistemologies, the coloniality of power, and resistance”. Television & New Media, v. 20, n. 4, p. 350-365, 2019.

(26) Menezes, Dyelle; Pera, Guilherme. “Microsoft destaca Sisu em nuvem comocasedesucesso”. Portaldo Ministérioda Educação(MEC), 23 mar. 2020.Disponívelem:https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/microsoft-destaca-sisu-em-nuvem-como-case-de-sucesso. Acesso em: 29 jul. 2021.

(27) Trivinho, Eugênio. “Introdução à dromocracia cibercultural: contextualização sociodromológica da violência invisível da técnica e da civilização mediática avançada”. Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia, n. 28, p. 63-78, 2005.

(28) Castells, Manuel. A sociedade em rede. 21. ed. Rio de Janeiro: Paz s Terra, 2013. v. 1: A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura.

(29)Zuboff, Shoshana. The Age of Surveillance CapitalismThe Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. Whashington: PublicAffairs, 2019.

(30) Srnicek, Nick. Platform Capitalism. Nova Jersey: John Wiley s Sons, 2017.

(31) Couldry, Nick; Mejias, Ulises A. The Costs of Connection: How Data Is Colonizing Human Life and Appropriating It for Capitalism. Stan- ford: Stanford University Press, 2019.

(32) As 4 empresas de tecnologia que já valem mais de US$ 1 trilhão”. Portal G1, 15 fev. 2020. Disponível: https://g1.globo.com/economia/ tecnologia/noticia/2020/02/15/as-4-empresas-de-tecnologia-que-ja-valem-mais-de-us-1-trilhao.ghtml. Acesso em: 29 jul. 2021.

(33) Simondon, Gilbert. El modo de existencia de los objetos técnicos. Buenos Aires: Prometeo Libros Editorial, 2007.

(34) Van Dijck, Jose. “Datafication, dataism and dataveillance: Big Data between scientific paradigm and ideology”.Surveillance & Society, v. 12, n. 2, p. 197-208, 2014.

(35) Latour, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do Ator-Rede Salvador. Bauru: Edufba / Edusc, 2012.

(36) “Dieselgate: veja como escândalo da Volkswagen começou e as con- sequências”. Portal G1, 23 set. 2015. Disponível: http://g1.globo.com/ carros/noticia/2015/09/escandalo-da-volkswagen-veja-o-passo-pas- so-do-caso.html. Acesso em: 29 jul. 2021.

(37)“Investigations of Google Street View”. Epic.org Eletronic Privacy Information Center. Disponível em: https://epic.org/privacy/street- view/. Acesso em: 27 maio 2021.

(38) Brasil. Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Estratégia brasileira para a transformação digital. Brasília: MCTIC, 2018. Disponível em: https://antigo.mctic.gov.br/mctic/export/sites/ institucional/arquivos/estrategiadigital.pdf. Acesso em: 29 jul. 2021.

(39) Bratton, Benjamin H. The StackOn Software and Sovereignty. Massachusetts: MIT Press, 2016.

(40) Roio, Denis. Algorithmic sovereignty. (Tese de Doutorado em Filosofia), University of Plymouth, 2018. Disponível: http://hdl.handle. net/10026.1/11101.