quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Reinhart Koselleck

 Por THAMARA DE OLIVEIRA RODRIGUES*

 
Imagem: Emelindo Nardin

Trecho da Apresentação do livro recém-editado “Uma latente filosofia do tempo”

Reinhart Koselleck dedicou-se ao longo de sua vida profissional à análise da configuração do tempo que deu forma à modernidade. O historiador alemão identificou que em meados do século XVIII e, sobretudo, durante o século XIX, abriu-se uma fissura que se adensava rapidamente entre o passado e o futuro no mundo ocidental. Os eventos que emergiam no interior dessa conjuntura não podiam ser situados e explicados no repertório da linguagem já sedimentada. Os acontecimentos se distinguiam fundamentalmente dos anteriores, recolocavam determinados entes e se tornavam novos.

A modernidade desvelava-se como uma temporalidade na qual as experiências e as expectativas se transformavam mais rapidamente do que até então havia sido possível imaginar. Desse processo emergiu o fenômeno que compreendemos por “história”. Essa tese atravessa o trabalho do autor. Ela, contudo, mais do que uma caracterização da modernidade, abriga uma latente filosofia do tempo.

A originalidade das reflexões de Koselleck lhe conferem destaque entre os historiadores mais importantes do século XX. Seu trabalho sobre a emergência do caráter histórico do mundo, ao lado de As palavras e as coisas, de Michel Foucault, por exemplo, ganha contornos imprescindíveis. A menção a Foucault nesta introdução sobre Koselleck tem o objetivo de sublinhar a importância de seus diagnósticos sobre a modernidade e a convergência de algumas compreensões. A análise da historicização profunda que invadiu o íntimo das coisas, conferindo a elas um caráter histórico em virtude do qual tudo estaria submetido à transformação, fez com que certa linguagem perdesse seu espaço privilegiado na manutenção da organicidade do mundo.

A verdade desvinculou-se disso que seriam as coisas, ao menos de forma mais natural ou imediata. Ela abrigou-se na passagem do tempo e caberia ao homem percorrê-la. Essa busca se tornou exaustiva e dela emergiram diversas formas de organização social e novas ambições que disputavam espaço. Os caminhos pareciam infinitos em função da multiplicidade dos pontos de vista. A esse processo, Foucault nomeou “crise da representação” e Koselleck chamou “crise das perspectivas” ou “temporalização das perspectivas”.

Essas aberturas, contudo, competiam a partir de uma herança judaico-cristã que se secularizou: a crença de que a passagem do tempo era determinada por princípios previamente dados e desembocaria em realidades perfeitas. Trata-se do progresso como sistematização temporal. Essa lógica, que por muito tempo se confundiu com a própria noção de história, se enraizou na maior parte dos modos de organização do homem moderno. Desse gesto eclodiu o próprio desgaste da modernidade: as expectativas em um progresso universal levaram ao obscurecimento das diferenças e aos totalitarismos do século XX.

A Arqueologia de Foucault e a Historik de Koselleck buscaram identificar e descrever, a partir de suas especificidades, os elementos fundamentais que permitiram o aparecimento de ideias, teorias, políticas e toda e qualquer organização da vida social que surgiu com o homem moderno. Nesses diagnósticos também está presente um movimento crítico no que diz respeito a essas heranças, especialmente àquelas enraizadas na construção do conhecimento ou naquilo que se convencionou chamar de cientificidade.

A potência de seus diagnósticos reside no fato de terem destacado a descoberta mais fundamental da modernidade: as coisas estariam submetidas ao tempo, suscetíveis à transformação. Mas, simultaneamente, apresentaram os limites de tal descoberta: a crença em uma forma de ciência e de organização política redentora e universal pautada pelo progresso. Eles trabalharam para desmistificar o caráter linear e, consequentemente, autoritário dessa reação à mudança temporal que hoje parece (ou deveria) soar óbvio.

Nesse sentido, os autores se dedicaram a certo rompimento com a episteme tradicional, produzindo trabalhos atentos à multiplicidade de significados acumulados também no espaço. Eles contestaram a crença nos supostos sentidos próprios à realidade projetados no/através do tempo. Nesse empenho crítico baseiam-se as “heterotopias” de Foucault e os “estratos do tempo” de Koselleck. Ambos desvelaram o caráter datado ou histórico de uma antropologia filosófica que reduziu o homem e a história a uma racionalidade cartesiana e processual.

Foucault registrou em As palavras e as coisas o caráter passageiro do homem moderno – ele “se desvaneceria, como, na orla do mar, um rosto de areia”; uma “invenção recente”, cujo fim estaria próximo. Koselleck ressaltou algo semelhante. O tipo homem moderno, que se organizou socialmente pela crença na razão e no progresso, se tornou possível em um tempo-espaço particular: “a assimetria entre experiência e expectativa, era um produto específico daquela época[modernidade] de brusca transformação em que essa assimetria foi interpretada como progresso”.

Apesar de ressaltarem o caráter efêmero da própria modernidade, nem Foucault, nem Koselleck se perguntaram objetivamente ou desenvolveram estudos específicos sobre a temporalidade que se seguiu à crise do historicismo e que tomou forma a partir dos colapsos autoritários e belicosos do século XX. Em Koselleck, esse esforço é curiosamente mais ambíguo. Ele sublinhou o caráter datado do progresso, contudo, quando perguntado sobre qual seria a forma do tempo que se seguiu ou se seguiria à modernidade, ele pareceu não compreender a pergunta ou se esquivava dela.

O curioso é que todo seu trabalho alerta para essa transformação, oferecendo categorias para analisá-la. Suas reflexões abordam de forma singular o tempo como uma dimensão da existência. Nelas, destaca-se a compreensão de Edmund Husserl sobre o tempo como a estrutura básica da consciência humana articulada por meio das noções de retenção e proteção sem as quais não seria possível apreender nenhuma experiência. Também dialoga com as concepções de finitude e de historicidade próprias à noção de Dasein em Martin Heidegger.

Mas sua reflexão filosófica sobre a temporalidade, aqui adjetivada como latente, é, por vezes, negligenciada quando se compara à ênfase dada à recepção de Koselleck em sua relação com a história dos conceitos, com a história do iluminismo e com a defesa de protocolos científicos específicos para a disciplina História. Por essa razão, buscamos destacar Reinhart Koselleck não apenas como um dos mais importantes historiadores e teóricos da história do século XX, mas também como um filósofo do tempo, cujas abordagens são centrais aos desafios mais amplos enfrentados pelas Humanidades e pelo mundo contemporâneo.

Heidelberg e a desnazificação

Koselleck entrou para a Universidade de Heidelberg no verão de 1947. Era um momento de reestruturação da vida acadêmica na Alemanha devido aos processos de desnazificação coordenados pelas ocupações americana, soviética, britânica e francesa iniciadas após a rendição alemã em 1945, as quais buscavam banir, por exemplo, das universidades os apoiadores do nacional-socialismo. Heidelberg foi fechada pela ocupação americana em abril de 1945 em razão de parte significativa de seus professores terem tido algum envolvimento com o nacional-socialismo.

Após a desnazificação, ela foi reaberta em janeiro de 1946 e se tornou uma das mais importantes universidades nos debates do pós-guerra. Nesse contexto, Heidelberg reuniu intelectuais de perfis diversos e que foram decisivos na constituição dos interesses intelectuais e profissionais de Koselleck, como Johannes Kühn, considerado um dos fundadores da história dos conceitos, Karl Löwith e Hans-Georg Gadamer. Carl Schmitt e Heidegger, embora banidos oficialmente da docência, também tiveram grande impacto em sua formação. Após cursar os seminários de Alfred Weber, Koselleck se aproximou de Schmitt, e este veio a se tornar uma espécie de mentor informal. Quanto à Heidegger, a sua principal obra, Ser e tempo, era tida em Heidelberg como uma espécie de “livro de iniciação” profundamente estudado nos seminários e grupos de fenomenologia de Gadamer e Franz-Josef Brecht, aos quais Heidegger chegou a comparecer.

A atmosfera do pós-guerra provocou a constituição de uma geração de “intelectuais céticos” formada por jovens que cresceram em meio à guerra, como Koselleck, e que procuravam explicar em suas pesquisas a ascensão do nazismo. Embora cética, não se trata de uma geração com um perfil homogêneo. Como revelam os estudos de Niklas Olsen, Koselleck estaria mais próximo dos liberais conservadores que repercutiriam certo pessimismo. Esse conservadorismo liberal não se aproximava da defesa de posturas antidemocráticas, mas era crítico aos projetos políticos associados à “utopia” – aqueles que acreditavam em algum tipo de redenção do passado recente alemão.

Essa atmosfera também repercute uma crise entre duas gerações – os jovens entre 15 e 30 anos de idade, que responsabilizavam seus irmãos mais velhos e seus pais pelo que ocorrera no país entre 1933 e 1945, e os mais velhos, que argumentavam que os mais jovens deveriam ter protegido o país da experiência nazista. Essa discussão remete à ausência de um sentimento de responsabilidade, o qual a geração seguinte tomaria para si.

Crítica e crise: a arrogância das filosofias da história

A tese de doutorado de Koselleck defendida na Universidade de Heidelberg buscou investigar, inicialmente, a origem da utopia moderna através das críticas de Kant. O projeto, porém, ampliou-se para uma análise do nascimento do pensamento iluminista em geral, associando-o ao que seriam as precondições próprias à constituição do nacional-socialismo e do totalitarismo moderno. Crítica e crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês procurou defender que as experiências autoritárias do século XX não diziam respeito a um fenômeno isolado, mas que teriam se desdobrado das filosofias da história modernas. Elas, juntamente com a ascensão da burguesia, teriam inaugurado uma percepção de mundo que negava o absolutismo por meio de uma perspectiva utópica (direcionamento para o futuro de forma abstrata, idealista e moralizante) que obscureceu a crise que a própria crítica iluminista havia aberto.

Koselleck submeteu a sua tese à avaliação em outubro de 1953. Sem muitas expectativas em torno de uma carreira na Alemanha naquele momento, foi para a Inglaterra, onde trabalhou em uma cadeira de leitor na Universidade de Bristol. No ano seguinte, Crítica e crise foi defendida. Por razões financeiras, a primeira publicação apareceu apenas em 1959, e por uma pequena editora. O trabalho, contudo, está entre os livros mais importantes da segunda metade do século XX, tendo sido traduzido para diversos idiomas.

Destaca-se, entre as contribuições mais significativas da tese, a identificação de uma racionalidade política específica como reação à emergência de uma nova temporalidade. O primeiro capítulo – “A estrutura política do absolutismo como pressuposto do Iluminismo” – descreveu, junto à leitura de Hobbes, o processo de nascimento do Estado absolutista e a consolidação da doutrina da “Razão de Estado” como respostas às guerras civis religiosas que se desdobraram da Reforma e da Contrarreforma.

Nesse processo, ocorreu a “exclusão” da moral das repercussões políticas, tendo em vista que os vassalos transferiram a atividade e a responsabilidade política para o soberano, que necessitava do acúmulo de poder para controlar as guerras civis e garantir a existência do Estado e a segurança dos súditos. Trata-se do início do processo de secularização, no qual o Estado passou a assumir o poder central de organização da vida social, colocando “em segundo plano” o papel da religião.

Os indivíduos, isentos da responsabilidade política, foram reduzidos ao espaço privado, onde surgiu uma moralidade particular que operava em um sistema de segredo, já que o Estado não poderia ser publicamente criticado. Ela permitiu que cada um se tornasse “juiz” autorizado a processar e avaliar moralmente o que seria bom ou mau. Nascia o “reino da crítica” sob o qual se estruturava o mundo iluminista. O tema foi explorado a partir de John Locke no segundo capítulo – “A compreensão que os iluministas tinham de si mesmos e a resposta à sua situação dentro do Estado absolutista”.

Na medida em que o Estado alcançou o controle das guerras civis, o motivo de sua origem e de sua centralidade enquanto força básica à organização da vida político-social começou a perder o seu valor. O “reino da crítica”, outrora ocultado no plano privado, potencializou-se em busca da quebra da hierarquia entre os súditos e o soberano. O poder real passou a ser considerado abusivo – não deveria haver mais súditos ou reis, mas cidadãos.

A separação entre moral e política, realizada antes pelo próprio Estado, se voltou contra ele e a crítica questionou os elementos estruturantes de sua “razão” como a corrupção, a violência, o poder e os estamentos. Após a emergência do “reino da crítica”, o Estado já não poderia existir como havia se constituído até então, a despeito e livre de críticas.

Contudo, do mesmo modo que o Estado absolutista submeteu tudo à sua razão, o “reino da crítica” teria percorrido um caminho similar, isto é, autoritário. O terceiro capítulo – “Crise e filosofia da história” – tematizou como a burguesia, por meio das filosofias da história, adquiriu uma consciência de si original: se via como educadora e representante de uma nova sociedade que negava o Estado e a política construída até então. Ela prometia o fim da violência e da dominação em nome da liberdade e da igualização.

A burguesia, ao negar as instâncias sob a qual a vida era organizada, deixava a história em aberto. Surgiam outros caminhos possíveis para a humanidade a serem disputados: a construção de um Estado liberal, a construção de um Estado socialista, a construção de um mundo sem Estado… Várias possibilidades apareciam e pleiteavam espaço através das filosofias da história – o mundo perdia um sentido geral básico capaz de organizar a vida social, o Estado absolutista.

A abertura para novas possibilidades distantes do absolutismo não era em si o problema. A burguesia assegurada pelas filosofias da história produziu um mundo voltado para a esfera pública, mas os desafios que surgiam eram encobertos por expectativas utópicas no sentido que explicitamos anteriormente. Projetava-se um futuro sem hierarquias. O “reino da crítica”, contudo, adiava para o futuro essa conquista, postergando as responsabilidades políticas dos indivíduos. A crítica burguesa, após a negação da ordem estamental, constituiu uma sociedade que cogitava um modo de vida a partir do qual a violência e o poder eram em si um mal. Quando o absolutismo fosse erradicado, acreditava-se que os reis, o poder e a violência desapareceriam instantaneamente.

Entretanto, a construção dessa sociedade em termos práticos deu-se a partir de mecanismos de regulação da ordem previamente existentes que eram em sua natureza autoritários: a queima de livros, a criminalização dos inimigos, a censura… O caráter violento do absolutismo permaneceu presentificado nas filosofias da história e na sociedade burguesa obscurecido por elas em nome de uma expectativa utópica no que diz respeito ao fim da brutalidade. Nesse aspecto, a análise de Koselleck buscava evidenciar os limites próprios à noção de “espaço público”. Esse espaço performático e agnóstico no qual parte das diferenças seriam expressas e disputadas não se realizou senão nas expectativas dos iluministas.

Koselleck atribuía a patogênese do mundo burguês às utopias modernas que em nome da razão, de um juízo moral universal a ser alcançado pela posteridade, abrigou o germe dos autoritarismos do século XX.

A história na modernidade: em si e para si

Crítica e crise abrigou uma preocupação perseguida por Koselleck durante sua vida intelectual: a transformação sofrida na experiência e na compreensão da h(H)istória a partir de meados do século XVIII. Anteriormente, a história dizia respeito às vivências acumuladas (e mesmo regionais) e que iam sendo narradas à medida que podiam ser utilizadas na vida prática como um âmbito seguro por meio do qual determinados homens poderiam se orientar. Sintetizada no topos ciceroniano – Historia Magistra Vitae – a História (Historie) era um espaço destinado a ensinar a prudência por meio de um repertório de exemplos que se acreditava possível repetir.

Essa dimensão majoritariamente prática da História, entretanto, enfraqueceu-se com o aparecimento de eventos inéditos como a Revolução Francesa. A História enquanto fonte de exemplaridade cedia espaço à história enquanto um percurso autônomo e necessário. Em alemão, a mudança pode ser mais claramente identificada na substituição do termo Historie por Geschichte(a história como acontecimento e autonarração). Trata-se de um fenômeno no qual o antigo espaço da ação e do sofrimento humano capaz de orientar os homens é reorganizado por metanarrativas e pelas expectativas de novos destinos atrelados à história.

Koselleck, retornando criticamente a Hegel, denominou esse fenômeno como a emergência da “história em si e para si”. Há duas consequências complementares que se desdobram desse fenômeno. A primeira é que a história moderna passou a operar como um “singular coletivo”. A crença de que ela atuaria em função de sentidos previamente dados submeteu as experiências particulares ao seguinte ultimato: todo e qualquer acontecimento integraria um télos que cooptava e neutralizava a diferença em nome de uma expectativa universal. A segunda consequência é que a “história em si e para si” teria absorvido também a história enquanto narrativa e fonte de informação para a vida prática (Historie). Isto resultou em uma fusão da experiência e da interpretação na qual os acontecimentos tornavam-se dependentes da elaboração de um sentido dado historicamente.

A experiência moderna da história edificava-se, desse modo, com base em uma ambivalência: ela era compreendida como um sujeito autônomo que poderia atuar livremente sobre os homens determinando os seus destinos e, ao mesmo tempo, um objeto cuja atividade de interpretação, a descoberta desse destino, caberia ao homem por meio das filosofias da história e, posteriormente, dos historicismos. Os exercícios de narrativização e historicização próprios à elaboração crítica da história compuseram a base do que veio a se sistematizar como a disciplina História e do que se convencionou chamar de “ciências humanas” em geral.

O conhecimento, especialmente o histórico e o filosófico, dedicava-se, então, a uma sistematização de interpretações teleológicas que tornavam os eventos uma necessidade, obscurecendo sua pluralidade e contingência. Essa composição legou às humanidades paradigmas epistemológicos vulneráveis a estruturas metafísicas, que atribuíam a responsabilidade pelos desarranjos sociais à providência. Esses paradigmas e suas heranças constituem aquilo que o trabalho de Koselleck procurou combater.

Koselleck aluno de Löwith

As críticas de Koselleck às filosofias da história sofreram influência decisiva do trabalho de Karl Löwith, tendo sido este o segundo avaliador de Crítica e crise. Löwith foi aluno de Husserl em Freiburg, onde também conheceu Heidegger e, posteriormente, tornou-se seu aluno na Universidade de Marburg. Em 1934, no começo de sua carreira acadêmica, foi forçado a abandonar a Alemanha em razão das políticas antissemitas. Nesse período, viveu e lecionou na Itália, no Japão e nos Estados Unidos até retornar à Alemanha em 1952, contando com a ajuda de Gadamer, quando assumiu uma cadeira de Filosofia em Heidelberg.

O sentido da história, um dos principais livros de Löwith, teve grande impacto na formação de Koselleck e é fácil identificá-lo no que tange, especialmente, à preocupação de ambos com o nascimento das filosofias da história modernas como resultado da secularização da escatologia judaico-cristã. Koselleck relatou que o tempo em que trabalhou na tradução dos últimos três capítulos do livro para o alemão foi um dos mais intensos aprendizados de sua vida, levando-o a investigar a secularização junto à emergência de uma configuração temporal inédita. O aluno de Löwith insistiu que a secularização era apenas um dos aspectos de um processo de temporalização.

Löwith argumentou que as filosofias da história remetiam à interpretação sistemática da história como um fenômeno universal. Um princípio – o progresso – reuniria os acontecimentos e os conduziria à realização da perfeição e da salvação humanas. Essa crença adiava o enfrentamento das frustrações mediante a expectativa da perfeição como destino. Trata-se do mundo moderno apresentado como resultado da secularização dos princípios teológicos (herança judaico-cristã) aplicados aos acontecimentos históricos (herança grega).

A presença da herança judaico-cristã na concepção da história moderna vetou a experimentação da frustração em função do permanente adiamento da escatologia (tema em relação ao qual Koselleck deu continuidade em Crítica e crise). Em um contexto intelectual que buscava explicações para a emergência dos totalitarismos e a negação das interpretações progressistas, Löwith apresentou uma noção de história como uma estrutura marcada pela ausência de solução do sofrimento e da dor: a história como “experiência de invariável fracasso”. Há nessa compreensão uma nostalgia pela ideia do cosmos mais próxima ao mundo antigo.

Os gregos seriam mais moderados em suas especulações sobre o destino humano, não ambicionaram identificar um ultimato da história e teriam se relacionado melhor com os ritmos e oscilações temporais. Koselleck, sem repercutir a nostalgia de seu professor, continuava seu gesto crítico em relação ao entusiasmo utópico moderno. Mas insistia em uma diferenciação: o processo de secularização, embora central à modernidade, desdobrava-se de um fenômeno mais radical – a crise de certa temporalidade que tomou forma por meio de uma “aceleração temporal”.

*Thamara de Oliveira Rodrigues é professora de história na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG).

Referência


Reinhart Koselleck: Uma latente filosofia do tempo. Organização: Hans Ulrich Gumbrecht e Thamara de Oliveira Rodrigues. Tradução: Luiz Costa Lima. São Paulo, Unesp, 2021, 164 págs.

Fonte: https://aterraeredonda.com.br/reinhart-koselleck/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=reinhart-koselleck&utm_term=2022-01-27

Auschwitz: o que pensa a mente de um nazista

Rômulo de Andrade Moreira[1]

 

Auschwitz, no sul da Polônia, considerado um dos principais símbolos do genocídio dos judeus, e onde mais de 1,1 milhão de pessoas foram exterminadas pelo regime nazista.

Hoje, 27 de janeiro, faz 77 anos que os soviéticos libertaram todos os prisioneiros que se encontravam no campo de concentração de Auschwitz, no sul da Polônia, considerado um dos principais símbolos do genocídio dos judeus, e onde mais de 1,1 milhão de pessoas foram exterminadas pelo regime nazista.

De todos, aproximadamente apenas 7 mil prisioneiros sobreviveram, ainda que em deploráveis condições físicas e psicológicas; entre estes, estavam cerca de 500 crianças, todos extremamente magros e exaustos, a ponto de poucos conseguirem ficar de pé. A grande maioria dos executados foram judeus vindos, principalmente, da Hungria, Polônia, Itália, Bélgica, França, Holanda, Grécia, Croácia, Rússia, Áustria e Alemanha.

Chegavam no campo de concentração em trens abarrotados de prisioneiros, em condições absolutamente desumanas, sem ventilação, banheiro ou comida. Ao descerem, já eram separados entre os que podiam trabalhar e quem deveria ser morto imediatamente.

Já no campo de concentração, sem comida suficiente e sem as mínimas condições de higiene, eram submetidos aos meios mais cruéis de tortura, inclusive experimentos pseudocientíficos, e a trabalhos forçados; quem não estava em condições físicas para o trabalho, era encaminhado diretamente para as câmaras de gás Zyklon-B.

Em 2005, a ONU instituiu a data como Dia Internacional em Homenagem às Vítimas do Holocausto.

Pois bem.

Walter Charles Langer foi um psicólogo americano contratado pelo Escritório de Serviços Estratégicos, a OSS, órgão de inteligência dos Estados Unidos (antecessor da CIA). Os americanos queriam que fosse feito um estudo psicológico de Adolf Hitler, enquanto o líder alemão ainda estava no poder.

A partir de conversas com várias pessoas fora da Alemanha que haviam convivido com Hitler em diversas fases de sua vida, Langer traçou um quadro mental do líder nazista que se tornou um clássico da abordagem psicológica de alguém que não está deitado em um divã.

(Freud já o houvera feito quando, em 1910, publicou o texto “Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci”[2] e, um ano depois, em 1911, escreveu e publicou “Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia”,[3] quando analisou, neste segundo caso, desde uma autobiografia, o Magistrado alemão Daniel Paul Schreber, ex-Presidente da Corte de Apelação da Saxônia).

O trabalho do psicólogo americano resultou em um livro publicado no Brasil com o título “A mente de Hitler – O relatório secreto que investigou a psique do líder da Alemanha nazista.”[4]

Logo no início, o autor afirma que, a partir das entrevistas que fez com antigos colaboradores e assistentes do nazista, “Hitler acreditava mesmo em sua própria grandeza.” Assim, por exemplo, em certa oportunidade ele disse a um interlocutor: “Você se dá conta de que está na presença do maior alemão de todos os tempos?” Para um outro, afirmou: “Mas não preciso de seu endosso para me convencer de minha grandeza histórica.” Depois, em outra ocasião, declarou: “Não posso estar errado. O que faço e digo é histórico.

Segundo uma testemunha ouvida pelo psicólogo americano, “Hitler achava que ninguém, na história alemã, estava tão preparado quanto ele para levar os alemães à posição de supremacia que todos os políticos alemães achavam que o povo merecia, mas foram incapazes de alcançarMas, acima de tudo, acreditava em seu sucesso. Acreditava nele incondicionalmente.

Hitler desprezava os intelectuais, razão pela qual não atribuía “sua infalibilidade ou onisciência a qualquer esforço intelectual de sua parte.” A propósito, esbravejava coisas como: “Pessoas excessivamente instruídas, cheias de conhecimento e intelecto, mas vazias de quaisquer instintos sólidosEsses canalhas (intelectuais) insolentes, que sempre sabem mais do que os outros… O intelecto se tornou autocrático e virou uma doença da vida.

A impressão que tinha Langer é que Hitler “acreditava que havia sido enviado para a Alemanha pela Divina Providência e que tinha uma missão específica a cumprir.” Assim, dizia ele: “Cumpro as ordens que a Divina Providência me atribuiu. A Divina Providência quis que eu persistisse no objetivo de cumprir a missão germânica.”

 Langer, então, conclui que “essa firme convicção de que ele tem uma missão e que está sob orientação e proteção da Divina Providência é a responsável, em grande parte, pelo efeito contagioso que ele tem tido sobre os alemães.” Às vezes ele se descrevia como São João Batista, “cuja missão era abrir caminho para aquele que chegaria e levaria a nação ao poder e à glória.”

Assim, “com o passar do tempo, ficou cada vez mais claro que Hitler se via como o Messias e que estava destinado a conduzir a Alemanha à glória. Suas referências à Bíblia se tornaram mais frequentes, e o movimento nazista começou a assumir uma atmosfera religiosa.” (qualquer semelhança com os dias atuais, certamente terá sido uma triste coincidência).

O desatino chegava a tal ponto que ele, não raras vezes, comparou-se com o filho de Deus. Certa feita, chegando a Berlim, e observando o movimento na Kurfürstendamm[5], afirmou que “o luxo, a perversão, a iniquidade, a exposição indecente e o materialismo judaico me repugnaram profundamente, a ponto de eu quase ficar transtornado. Quase imaginei ser Jesus Cristo quando Ele chegou ao Templo de seu Pai e o encontrou tomado pelos cambistas.”

Ele havia sido “enviado para instituir no mundo um novo sistema de valores baseado em brutalidade e violência.” Era descrito como um sujeito “amorfo, quase sem rosto, um homem cujo semblante é uma caricatura, um homem cuja estrutura parece cartilaginosa, sem ossos. Ele é insignificante e volúvel, inadequado e inseguro, de aparência engraçada e complexado.”

Adolf Hitler “sempre conseguia dizer o que a maioria do público já estava pensando em segredo, mas não era capaz de verbalizar.” Ele parecia “ser tão sincero no que dizia, que a maioria de seus ouvintes estava pronta para acreditar em quase tudo de positivo dito a respeito dele porque queria acreditar.” Ele seria “o ápice da honra e da pureza alemãs; o ressuscitador da família e do lar alemães.

Portanto, “de fato, era um terreno fértil para se construir um mito ou uma lenda.” Aliás, o autor via “com clareza que Hitler, desde o início, planejou se tornar uma figura mitológica” e “não demorou muito para que o povo alemão estivesse preparado para dar o pequeno passo de enxergar Hitler não como um homem, mas como um Messias da Alemanha.

Hitler, como a sua propaganda o fazia, apregoava-se como “o paradigma de todas as virtudes”, razão pela qual “ganha o respeito e a admiração de todos os seus colaboradores.” Ele era “capaz de analisar problemas complexos de uma maneira um tanto simplista” o que lhe valeu “a admiração de seus colaboradores próximos desde o início de sua carreira política.” Ele, por exemplo, sabia “a quantidade de tiros que uma metralhadora dispara por minuto, seja uma leve, média ou pesada.”

Langer observou que Hitler conseguiu descobrir e aplicar com êxito diversos fatores da psicologia de grupo, por exemplo:

1) Conquistar o apoio da juventude;

2) Sentir, identificar e expressar, em linguagem apaixonada, as necessidades e os sentimentos mais profundos do alemão comum;

3) Capacidade de apelar às inclinações mais primitivas do homem para despertar os instintos mais baixos e, mesmo assim, mascará-los com nobreza, justificando todas as ações como meios para alcançar um objetivo ideal;

4) Aptidão de recorrer às tradições do povo, evocando as emoções inconscientes mais profundas do público;

5) Compreensão de que a ação política entusiasmada não ocorre se as emoções não estiverem profundamente envolvidas;

6) Um aguçado reconhecimento do valor dos slogans, das palavras da moda, das frases dramáticas e dos epigramas felizes em penetrar nos níveis mais profundos da psique;

7) Reconhecimento do importante papel desempenhado pelas pequenas coisas que afetam a vida diária do homem comum na construção e manutenção do moral do povo;

8) Reconhecimento pleno do fato de que a maioria esmagadora das pessoas quer ser liderada e está pronta e disposta a se submeter caso o líder consiga ganhar seu respeito e sua confiança;

9) Capacidade de convencer os outros a repudiarem suas consciências individuais e permitirem que ele assuma esse papel;

10) Uso pleno do terror e capacidade de mobilização dos medos do povo, os quais ele interpretou com precisão quase excepcional.

Hitler tinha uma “intuição política milagrosa, desprovida de todo senso moral.” Ele conseguia a lealdade do povo, a tal ponto que “parecia tirar-lhes o discernimento”, de uma tal maneira que, “mesmo diante de provas de que ele nem sempre é o que finge ser”, o povo continuava a acreditar nele.

Interessante observar que o líder nazista não sabia como trabalhar regularmente: “de fato, ele é incapaz de trabalhar. Ele nunca foi um ardoroso trabalhador.” Ainda que se tratasse de um assunto importante trazido pelos seus assistentes, “ele se recusa a levá-los a sério, a menos que seja um projeto do seu interesse. É raro permanecer numa reunião de gabinete, porque elas o entendiam.” Tampouco ele “raciocina de forma lógica e consistente”, pois “seus processos mentais funcionam ao contrário. Em vez de estudar o problema, como alguém cerebral faria, ele o evita e se ocupa com outras coisas, até que os processos inconscientes lhe forneçam uma solução. Seus processos de pensamento vão do emocional ao factual, em vez de começarem com os fatos, como alguém cerebral normalmente faz. Nesse aspecto, sua orientação é de um artista, e não a de um político.

Quando Hitler “era confrontado por fatos contraditórios, ficava em apuros”, pois ele “quer as coisas do seu jeito e fica louco quando encontra oposição firme e embasada. Quando é feita uma pergunta inesperada, Hitler fica completamente confuso.

Era comum “ele dar broncas, gritar e gaguejar e, em algumas ocasiões, espuma de saliva se acumula nos cantos de sua boca. Fúria e insultos tornaram-se as armas favoritas de seu arsenal.” Ele não tinha “verdadeira intimidade com nenhum de seus colaboradores.” Ele se utilizava frequentemente de um “truque”: “quando a situação se torna embaraçosa, ele se esconde.”

Quando era preciso se encontrar com jornalistas, “ele fica nervoso e tende a perder a compostura”, ficando sempre na defensiva “quando se trata de entrevistas” e “apavorado quando é chamado para falar com intelectuais ou qualquer grupo no qual perceba oposição ou a possibilidade de críticas.” Na verdade, ele não conseguia “manter uma conversa ou discussão normal com as pessoas.”

Segundo um dos entrevistados por Langer, Hitler “sempre foi um impostor”, nada obstante não parecer “ter consciência de quão desonesto é.” Era conhecida a sua capacidade de “dizer algo um dia e, alguns dias depois, dizer o oposto, completamente alheio à sua afirmação anterior.” Aliás, “a maioria dos nazistas, inspirada em Hitler, literalmente se esquece de qualquer coisa que eles não querem lembrar.”

Langer observou que no início da carreira de Hitler ele era visto como um sujeito apenas divertido, razão pela qual “muitas pessoas se recusaram a levá-lo a sério, alegando que provavelmente ele não iria durar. Quando uma ação após a outra teve um sucesso incrível e seu tamanho se tornou mais evidente, o divertimento se transformou em incredulidade.”

Uma das conclusões mais importantes a que chegou o autor, a meu ver, foi a constatação de que Hitler era “a expressão de um estado de espírito existente em milhões de pessoas, não só na Alemanha, mas, em menor grau, em todos os países civilizados”, motivo pelo qual o seu desaparecimento não seria necessariamente a cura. O que se precisa é “corrigir os fatores subjacentes que produziram o fenômeno importuno.” Necessário, portanto, que sejam descobertos “os fluxos psicológicos que alimentam esse estado de espírito destrutivo, para que possamos desviá-los para canais que permitirão que nossa forma de civilização continue evoluindo.”

Eis, ainda que muito resumidamente – pois o livro contém muito mais informações – um retrato da mente de um líder nazista. Quanta semelhança com algumas figuras dos dias de hoje. A impressão que se tem é que se não tivesse sido revelada, desde o começo, a identidade da personagem analisada no livro e, ao final, fosse perguntado ao leitor ou à leitora de quem se tratava, a resposta seria imediata!


[1] Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia e professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador – UNIFACS.

[2] Este texto encontra-se no Volume 9 das Obras Completas de Sigmund Freud, editadas e publicadas pela Companhia das Letras, páginas 113 a 219.

[3] Este estudo está no Volume 10 das mesmas Obras Completas, páginas 13 a 107.

[4] Publicado pela Editora Casa da Palavra/Leya, em 2018.

[5] Nome de uma das principais avenidas comerciais de Berlim.

Fonte: http://desacato.info/os-77-anos-da-libertacao-de-auschwitz-o-que-pensa-a-mente-de-um-nazista-por-romulo-moreira/ 

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Discutir com idiotas

 Leandro Karnal*

ctv-yco-alienista  

Imagem do quadrinho "O Alienista", por Fábio Moon e Gabriel Sá Foto: Reprodução

A característica básica da falta de inteligência é ser cego sobre suas próprias capacidades

O advogado Tiago Pavinatto lançou, pela Edições 70, o livro Estética da Estupidez: A Arte da Guerra Contra o Senso Comum. O livro é muito interessante e serve para refletir o momento curioso em que nos encontramos. O autor mistura bom humor, ironia ácida, referências eruditas e lança catapultas sobre a Jerusalém de Brasília e seus Messias. 

Comecei refletindo na epígrafe do livro: “Debater com um idiota é perder de maneiras distintas e combinadas. Perde-se tempo. Perde-se a paciência. E se perde o debate propriamente, porque ele só entenderá argumentos idiotas – e, nesse quesito, o imbatível é ele, não você”. (Reinaldo Azevedo). 

A primeira reação ao ler o pensamento é sorrir. Ela já contém uma vaidade: se você gostou, há uma chance de não se considerar um idiota. Quem achou bom, naturalmente, imagina-se portador de cidadania plena na ilha da sabedoria e da razão e olha para os limitados com certa xenofobia. O pensamento de Azevedo termina com frase que, diria meu pai, usa de “contundência”. O termo comum para a conclusão, hoje, é “lacradora”. Sim, o adversário é imbatível porque é... idiota. Há certo consolo retórico e psicológico na conclusão. 

Despontam questionamentos válidos: a) como saberei, de fato, que não sou um imbecil? A característica básica da falta de inteligência é ser cego sobre suas próprias capacidades; b) se não posso debater com idiotas e não tenho certeza sobre minha pontuação no campo da genialidade, com mais certeza terei dúvidas sobre quem é sábio ao meu redor e, por consequência, digno de debate; c) se eu perco o debate com idiota porque ele é melhor no manejo do argumento ilógico, com um sábio eu perderei porque ele é hábil no uso da razão; logo, perderei sempre?

Eu já dei este conselho em palestra, citando minha avó: “Não toque tambor para maluco dançar”. Li O Alienista de Machado algumas vezes e me dou o direito ao relativismo no campo da sanidade mental. Analisando algumas passagens da minha vida pretérita, eu teria bons motivos para ocupar ampla suíte na Casa Verde do dr. Bacamarte. Itaguaí poderia conter o universo todo. 

Sim, fui louco eventual. Continuarei sendo um idiota? Claro, querida leitora e estimado leitor, já ficou claro aqui que temos idiotas insanos e idiotas perfeitamente equilibrados daquele tipo que, em época menos cuidadosa com palavras, chamaríamos de “pessoa normal”. Como é patológico nos dias atuais identificar alguém como normal, digamos que a maioria das ações e pensamentos de alguns idiotas caracteriza um comportamento médio tido por aceitável pela sociedade. 

Duas questões afloram: sou um idiota? Devo discutir com idiotas? Sendo a democracia inconciliável com a censura, estaríamos condenados (como pensou Umberto Eco) à fala onipresente do “idiota da aldeia”? A figura descrita por Eco tem base literária: anda, maltrapilho, incomodando pessoas com frases e gestos, todavia todos o tomam por inofensivo. Aliás, o “idiota da aldeia” tem profunda função social: serve para classificar todo o resto da comunidade como inteligente. É fundamental existir, no grupo, o tipo limitado: a sombra da escassez cerebral dele ilumina a inteligência dos outros. 

Nos tempos que despertam desejo daquele meteoro devastador como redenção possível, existe a categoria que Pierre Bourdieu chamou de “meio-cientistas”, chave conceitual analisada por Pavinatto na página 175. Fazem eco a algum tema tratado por pesquisadores, misturam a outros, somam certo senso comum com linguagem elaborada e, le voilà, surge um post devastador contra vacinas... O meio-cientista reúne o pior de dois mundos e causa danos aos idiotas da aldeia e aos sábios. 

Que futuro terá nossa sociedade se conseguirmos classificar com quem se pode e com quem não se pode debater? Teremos uma Berlim reconstruída com um muro ao meio? Uma nova Guerra Fria?

Eu tenho alguns princípios para tentar conversa séria. O primeiro é concordância sobre ética e lei. Não discuto com racistas ou defensores da violência contra a mulher, por exemplo. É uma derivação do paradoxo de Karl Popper: não tolerar intolerantes: “A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância”, segundo o austro-britânico. 

Há mais condições propícias: a pessoa ouve e fala. A condição de um diálogo é a alternância entre ouvir e falar. Mais uma: existe uma vontade de análise sem fígado, adjetivos, fulanização ou violência verbal. Por fim, os dois lados reconhecem que não são donos absolutos da verdade e o outro tem direito à existência, mesmo que com argumentos contrários. 

Na minha concepção, nunca saberemos se somos idiotas ou inteligentes. Porém, o debate com alguns princípios prévios aperfeiçoa meu raciocínio oferecendo o contraditório. Também aumenta minha visão e, eventualmente, muda minha ideia ou a do meu debatedor. Não existem as condições dadas? Melhor ficar de um lado de Berlim que lhe agrade lamentando o limite das pessoas do outro lado do muro. Enquanto isso, leia o livro de Pavinatto e seja feliz. No ano de 2022, os muros serão erguidos a alturas inimagináveis. Esperança média de bons debates...

* Historiador, escritor e professor

Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,discutir-com-idiotas,70003958110

O livro que não foi entregue

 Leo Aversa*

. Foto: Leo Aversa 
Foto: Leo Aversa 
 
 Queria ser um grande escritor e ter a sabedoria e o talento para escolher as palavras certas, as que tragam algum conforto e sentido para o que aconteceu

No início de outubro passado, Cidinha comprou dois livros iguais para os filhos, Victor e Conrado. Queria dar de presente algo sobre pais e filhos, os dois já têm os seus. Um carinho de mãe.

Não deu.

Conrado, que morava em outra cidade, faleceu no fim de outubro, num acidente. Cidinha não teve tempo de entregar o presente. Ainda tem o livro na cabeceira, esperando a hora certa de ler.

Ela me escreveu na semana passada. Sou o autor do livro que queria dar de presente. A mensagem pedia algumas palavras, um texto, uma crônica, algo que fale sobre o livro que não foi entregue.

É uma mãe que perdeu um filho, não é necessário dizer mais.

Queria ser um grande escritor e ter a sabedoria e o talento para escolher as palavras certas, as que tragam algum conforto para ela e sentido para o que aconteceu. Sei que é preciso grandeza para falar do que é importante, mas também sei que sou das coisas pequenas, do cotidiano, dos instantes que passam voando, como as páginas do jornal. Não sei se sou a pessoa certa, mas fiquei muito comovido com a mensagem, com a situação.

Mesmo sem as palavras exatas, sem o talento preciso, aqui estou.

Minha cara Cidinha, deixe para trás o que não foi entregue, o que não foi dito, o que não deu. Guarde o muito que vocês viveram. Não os grandes acontecimentos: aquela viagem de férias única, as festas de aniversário, as datas especiais. Esses ficam nos álbuns de fotos das estantes, nos vídeos do grupo da família, nos retratos enquadrados na sala de estar.

Eles já têm o seu lugar.

Que você guarde, com cuidado e com amor, o dia em que ele ralou o joelho no futebol e você ficou soprando o Merthiolate pra não doer. “Vai passar, vai passar”, você ensinou com carinho. Lembre aquela vez que você foi buscá-lo na saída da escola e ele voltou, de mãos dadas contigo, contando como tinha sido fantástica a brincadeira no recreio, dizendo que aquele tinha sido o melhor dia da vida dele. Guarde o sorriso que você deu. Não esqueça da sua felicidade quando ele trouxe um boletim só com notas altas, depois daquela bronca que você deu quando as notas ficaram vermelhas. Recorde quando vocês brigaram porque ele não queria arrumar o quarto, a vez que ele disse ia embora de casa. Lembre da cara dele na porta, ameaçando ir, mas só esperando o seu abraço para ficar.

Guarde na memória o momento em que você percebeu que ele já era um homem e que estava chegando o dia de ele ir embora de verdade, o tempo de ter sua própria casa. Foi quando você ficou triste e feliz ao mesmo tempo — aquela sensação que só os pais sabem como é — pensando como seria o futuro dele longe de casa, de você.

Não esqueça o dia em que ele avisou que ia ser pai. Aquele, você ficou pensando na vida que tinha passado, na vida que estava a caminho. Lembre dos sorrisos, das lágrimas. Lembre das coisas pequenas e cotidianas de vocês.

Cidinha, o livro que não foi entregue fala das pequenas recordações, que são minhas, são suas, são de todos nós, pais. São essas memórias do dia a dia que vão te acompanhar — pela mão — o resto da vida. São elas que vão soprar a sua dor, dizendo, com carinho, “vai passar, vai passar”.

* Jornalista. Escritor.

Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/o-livro-que-nao-foi-entregue-25365998 - 25/01/2022

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Desejo de pintar, dançar e cantar é parte evoluída da mente humana, aponta estudo

 
 Fotomontagem de Jornal da USP com imagens de Freepik e Pixabay

Qual é a estrutura psicológica da motivação artística humana? Pesquisa da área de Psicologia Evolucionista analisa respostas de vestibulandos sobre o tema e mostra que somos animais evolutivamente artísticos

Por

Das pinturas rupestres aos espetáculos na Broadway, o fazer artístico acompanha a humanidade. Mas por que compartilhamos do desejo de pintar, dançar e cantar? Com o objetivo de explorar a estrutura psicológica da motivação artística humana, o pesquisador Marco Antonio Correa Varella, do Instituto de Psicologia (IP) da USP, testou a hipótese de que o engajamento humano com as artes é resultado da evolução da espécie. Para isso, analisou respostas de vestibulandos para ingresso em cursos artísticos. A pesquisa mostrou que as motivações artísticas têm aspectos como especificidade, autorreforçamento e estabilidade — indicativos de uma característica evolutiva da nossa espécie —, ou seja, somos animais natural e evolutivamente artísticos. “O estudo vai ajudar a nos fazer levar as atividades artísticas a sério, como parte integral da natureza humana”, afirma o pesquisador. 

O artigo com os detalhes do estudo foi publicado na Frontiers in Psychology, em 21 de dezembro de 2021, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) por meio de bolsa de pós-doutorado no Departamento de Psicologia Experimental do IP da USP. 

O material faz parte de um número especial de 2021 que celebra os 150 anos do livro publicado em 1871 A descendência do Homem e a Seleção em relação ao sexo, de autoria de Charles Darwin (1809-1882), no qual o naturalista inglês — um dos cientistas a reunir evidências das raízes evolutivas da musicalidade humana — ressalta a universalidade da mente, referindo-se aos prazeres que várias populações sentem dançando, engajando-se em música, atuando, pintando, se tatuando e se autodecorando. 

A motivação para usar capacidades artísticas — aquelas voltadas às habilidades na produção e apreciação das artes — é alvo de estudos há muitas décadas. Contrariando as ideias evolutivas de Darwin, o psicólogo Steven Pinker, pesquisador da Universidade de Harvard, Estados Unidos, diz que se trata de uma característica recente, gerada pela busca por status e prestígio social. Varella explica que, desse ponto de vista não evolutivo, a motivação para as artes seria extrínseca, isto é, quando se realiza uma atividade para obter reforços externos, como trabalhar para ganhar salário e se divertir com compras. Para essa motivação ser evoluída, dentre outras características como universalidade e antiguidade, ela deve ser intrínseca (autorreforçamento), aquilo que se faz pelo próprio prazer em fazer, além de específica e relativamente estável ao longo da trajetória humana.

Para analisar as motivações, Marco Varella pesquisou o questionário socioeconômico do vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizado pela Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), que pergunta aos vestibulandos sobre o motivo de escolha do curso de Artes (música, dança, artes cênicas, artes visuais e estudos literários). O artigo contém dois estudos: um com 403.832 pessoas (48,8% mulheres) e o segundo com 1.703.916 participantes (51% mulheres), de 1987 até 2020, intervalo amplo para avaliar a estabilidade temporal da tendência. “As perguntas tinham alternativas mais intrínsecas, como ‘gosto pessoal’, ‘aptidão pessoal’, ‘satisfação pessoal’, e alternativas mais extrínsecas, como ‘influência da mídia, do professor, da família’, ‘salário’, ‘contribuição social’ e ‘prestígio social’. Agreguei num fator motivação intrínseca e outro de motivação extrínseca o conjunto de respostas correspondente”, afirma o pesquisador.

Os dados (de até 35 cidades de até seis Estados diferentes do Brasil) foram comparados com alguns cursos de não humanas, como Odontologia, e com cursos de humanas não artísticos, como Pedagogia, para saber se há um padrão geral motivacional para todos os cursos ou se há especificidade artística.

De acordo com o pesquisador, no geral de todos os cursos, os inscritos reportaram de duas a seis vezes mais fatores intrínsecos do que extrínsecos; já no conjunto de cursos artísticos os vestibulandos reportaram de 10 a 28 vezes mais fatores intrínsecos do que extrínsecos, o que sugere um perfil mais intrínseco e específico daqueles prestando Artes. Os fatores intrínsecos se mantiveram constantes ao longo dos anos nos dois estudos para todos os grupos, mas no grupo dos cursos artísticos ficaram mais constantes ainda.  

“Os resultados dos dois estudos convergiram, não corroboraram a hipótese de Pinker e corroboraram a hipótese evolutiva, de que exista um sistema motivacional evoluído, que é intrínseco, específico e estável temporalmente, voltado para nos encorajar a usar nossas capacidades artísticas para nos engajarmos em atividades esteticamente orientadas”, completa.

Foto: Freepik

Dizer que somos animais natural e evolutivamente artísticos significa, para o pesquisador, dizer que, assim como com a linguagem ou a brincadeira, é bem possível que tenhamos uma propensão evoluída para desenvolver, ao longo de nossa primeira infância, um sistema motivacional que nos leva a gostar de arte por si só, a nos interessar por ela e querer repetir atividades — bem como de desenvolver capacidades específicas que nos permitem perceber, aprender, acompanhar, nos engajar, produzir, imitar e criar atividades e produtos esteticamente trabalhados. “Seríamos naturalmente equipados para fácil e intuitivamente processar informações artísticas”, completa. 

Mas isso não quer dizer que nascemos grandes artistas. De acordo com Marco, atividades mais modernas como andar de bicicleta, dirigir carro, ler, digitar ao computador ou resolver equações de segundo grau são muito mais difíceis de se aprender do que atividades mais ancestrais como, andar, cantar, falar e brincar, mas todas são, em certo grau, aprendidas. “Esta facilidade precoce para lidar com essas atividades mais ancestrais indica uma preparação cognitiva preexistente para aprender e gostar de se aprimorar em tais atividades”, afirma.

Quais as vantagens evolutivas da propensão artística universal?

De acordo com o pesquisador, a literatura científica indica que a artisticidade poderia ter melhorado o desenvolvimento da cognição em geral, a coordenação motora e a criatividade, através de brincadeiras ou simulação de situações possíveis —  o que pode ser uma vantagem, em termos de sobrevivência. A utilização de símbolos e ornamentações em mensagens pode também ser adaptativa, promovendo cooperação e coesão social, pelos rituais em grupo, o que também é uma vantagem para sobreviver. Além disso, os fazeres artísticos podem ter aumentado as oportunidades de acasalamento e desejabilidade de indivíduos, forma de manter e competir por parceiros, com efeito positivo direto na reprodução da espécie. Esta última linha de pesquisa com foco na seleção sexual foi iniciada por Darwin há 151 anos. 

“A contribuição deste estudo se alinha ainda com a universalidade da atividade artística, com a antiguidade paleolítica das pinturas e gravuras rupestres, com a precocidade do interesse a engajamento artístico nas crianças, com a herdabilidade da variação individual nas capacidades artísticas, com a convergência adaptativa de comportamentos esteticamente orientados em outras espécies, entre outras fontes de evidência, apontando para o status evoluído da nossa artisticalidade”, afirma o autor do estudo.

O autor ressalta que não sugere que a tendência artística seja fixa, imutável, geneticamente determinada, puramente instintiva ou que não exista espaço para o aprendizado, fatores extrínsecos ou para a cultura. Ele está propondo que a facilidade de aprendizado artístico, o gosto e interesse genuíno para atividades esteticamente orientadas e a desenvoltura e fluência cultural que exibimos para as variadas modalidades artísticas indicam – junto com sua universalidade, antiguidade, precocidade, herdabilidade e convergência adaptativa – a existência de uma maquinaria psicológica evoluída, uma cognição específica e ancestral voltada para o domínio artístico. 

Fonte: https://jornal.usp.br/ciencias/desejo-de-pintar-dancar-e-cantar-e-parte-evoluida-da-mente-humana-aponta-estudo/