segunda-feira, 30 de maio de 2022

Esqueça a geração Z: a geração que está emergindo é a da paralisia

 Ronaldo Lemos*

Luo Huazhong, who popularized the idea of adopting a more relaxed approach to life, taking a break in Jiande, China, June 18, 2021. Young people in China have set off a nascent counterculture movement that involves lying down and doing as little as possible. (Qilai Shen/The New York Times)
Luo Huazhong, que popularizou a ideia de um modo de vida mais relaxado, 
deitado no chão em Jiande, na China - Qilai Shen - 18.jun.21/The New York Times - NYT

Enquanto China vê crescimento da geração Tang Ping , termo que significa 'ficar deitado', Brasil lida com geração Nem-Nem

Há algo de errado. O mundo tornou-se um lugar inóspito para jovens. Quem tem entre 15 e 35 não está em situação invejável, tanto do ponto de vista econômico como social.

Falta de emprego, ausência de perspectivas de mobilidade social e um vazio existencial crescente caractarizam um novo tipo de juventude. Esqueça termos marqueteiros como "millennials" ou "geração Z" que querem apenas vender algo ou dourar a pílula. A geração que está emergindo é na verdade a geração paralisia.

O fenômeno é visível em várias partes. Por exemplo, a China está enfrentando o crescimento da geração chamada Tang Ping (躺平). O termo significa "ficar deitado" e se refere a um contingente de jovens cujo mote principal da vida é não fazer nada. A ideia é recusar-se a trabalhar ou a estudar e simplesmente deixar o tempo passar.

Um dos problemas é que essa postura tem sido adotada por jovens de 18 a 30 anos. Esse é justamente o momento em que a pessoa constrói relacionamentos e cria bases profissionais que podem servir de apoio para toda a vida.

O fenômeno agravou-se recentemente com o surgimento da geração Bai Lan (摆烂). O termo significa "deixar apodrecer". E indica exatamente isso, não só não fazer nada, mas também um desejo de que a condição de vida se degringole e saia dos trilhos.

O fenômeno não é específico da China. O Brasil tem lidado há anos com o problema da geração Nem-Nem, que nem estuda nem trabalha. No Brasil o número de integrantes dessa geração é o dobro dos países desenvolvidos, de acordo com dados da OCDE. Em 2020 havia cerca de 36% de pessoas na faixa entre 18 e 24 anos sem emprego e sem qualquer atividade educacional. Na média da OCDE esse percentual é de 15%.

Esse fenômeno leva a alienação, solidão, desagregação social e perda de sentido. Boa parte desse tempo livre pode ser ocupado por mídias sociais, considerando que essa geração não tem trabalho, emprego ou escola, mas tem sua capacidade de atenção intacta, podendo ser capturada por conteúdos digitais.

Uma pesquisa feita nos Estados Unidos com pessoas entre 23 e 38 anos revelou que 22% dos entrevistados afirmaram ter "zero amigos"; 27% afirmaram não ter nenhum amigo próximo e 30% afirmaram viver com um sentimento permanente de solidão.

Outra expressão também originária da China descreve uma outra dimensão desse fenômeno: "geração morango". Um contingente de jovens que busca se destacar ou ganhar a vida projetando sua imagem pessoal. Mas tal como um morango, podem ser bons de ver mas são fáceis de serem esmagados. Não possuem controle real nenhum.

Esse é o paradoxo. Em um momento de hiperconexão por meio de redes sociais, as pessoas estão mais do que nunca desconectadas. Quem interage com o feed de uma rede social na verdade interage com fantasmas. Nada daquilo diz respeito diretamente a você. É uma forma de comunicação que serve mais para iludir e desagregar do que criar laços humanos que sejam reais e duradouros.

Já era Geração X

Já é Millenials e Geração Z

Já vem Geração Alpha

*Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro. 

Fonte:https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2022/05/esqueca-a-geracao-z-a-geracao-que-esta-emergindo-e-a-da-paralisia.shtml  29.mai.2022


Uma revolução na Igreja Católica

 Edson Luiz Sampel*

O papa Francisco assina um autógrafo no braço de um homem durante audiência 
no Vaticano - Remo Casilli - 16.mar.22/Reuters

Nova constituição permitirá a qualquer fiel atuar em postos chave da cúria


A nova constituição da cúria romana, "Pregai o evangelho" ("Preadicate evangelium"), em vigor a partir do próximo dia 5 de junho, ensejará mudanças radicais na administração da Igreja Católica. Com efeito, o papa Francisco inculca um princípio que toca no próprio exercício do poder. Lê-se no número 5 dos Princípios e Critérios para o Atendimento da Cúria Romana: "Cada instituição curial cumpre a sua missão em virtude do poder recebido do pontífice romano em cujo nome age com poder vicário [como representante] (...). Por esta razão, qualquer fiel pode presidir a um dicastério [departamentos do governo da Igreja Católica] ou a um organismo (...)".

Quando se diz "qualquer fiel", evidentemente incluem-se os leigos (os católicos comuns). Sobre esse ponto da novíssima constituição, o renomado canonista padre Gianfranco Guirlanda, na coletiva de imprensa que apresentou a "Pregai o evangelho", explicou que a norma confirma a tese de que o poder de governo da Igreja não advém do sacramento da ordem (conferido aos padres e bispos), mas da missão canônica (espécie de mandato), outorgada pelo papa a qualquer pessoa, homem ou mulher, clérigo ou leigo. Nesse diapasão, nada obsta que um dicastério importante, como por exemplo a Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício), seja confiado à gestão de um leigo ou uma leiga com larga competência teológica.

Uma das primeiras consequências da constituição "Pregai o evangelho" implicará o combate contra o carreirismo na Igreja Católica. Deveras, o papa Francisco tem insistentemente fustigado dois males que vulneram a barca de Pedro: o clericalismo e o carreirismo. Pensando nas consequências positivas, com o ajutório dos leigos, os padres se desonerarão de misteres atípicos para se dedicarem ao que se convencionou chamar de "cura de almas", ou seja, as funções típicas do ministério: celebração de missas, ministração dos sacramentos, condução de paróquias, pregações, exéquias etc. É exatamente deste tipo de serviço sagrado que os leigos (95% dos membros da igreja) necessitam, principalmente em face da exiguidade de vocações sacerdotais.

A constituição "Pregai o evangelho", que se compagina de chofre com o projeto do papa Francisco da "igreja sinodal", longe de alterar apenas o dia a dia da cúria romana, refletirá em todas as dioceses, no mundo inteiro, encorajando posturas já previstas pelo direito canônico e obrigando os bispos a determinadas mudanças. Quem sabe, dentro em breve, não haverá no Brasil um leigo a presidir algum tribunal eclesiástico (vigário judicial)!

O papa Francisco não quer destruir a igreja. Muito pelo contrário! Quer o santo padre, isto sim, delir práticas necrosadas, restaurando a saúde da igreja, dando voz e vez aos leigos, os quais, em virtude do sacramento do batismo, integram a igreja tanto quanto os padres.

*Advogado, é presidente da Comissão Especial de Direito Canônico da OAB-SP e professor do Instituto Superior de Direito Canônico de Londrina (PR)  

Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2022/05/uma-revolucao-na-igreja-catolica.shtml

Delírios do politicamente correto

 Lygia Maria*

Obsessão por palavras está criando 
uma sociedade paranoica

"Praga". Esse é o termo que a pesquisadora Camille Paglia usa para se referir ao politicamente correto. A busca constante por preconceitos nos mais ínfimos detalhes do cotidiano, segundo ela, se assemelha a um transtorno mental, uma alucinação coletiva. O que aconteceu no programa "Em Pauta", do canal Globo News, é prova disso.

Uma jornalista foi repreendida porque falou a palavra "denegrir". Segundo o apresentador que passou o pito, "não se usa mais essa palavra". Pelo visto, há por aí uma polícia etimológica. Fato é que a jornalista pediu perdão e, provavelmente, nenhum outro jornalista da emissora se atreverá a cometer tal pecado novamente. Se a moda pega, capaz de a censura atingir outros veículos —o que faz com que esse problema não seja algo banal.

A justificativa é que o termo "denegrir" associa algo ruim à raça negra, já que o sentido figurado é "manchar a imagem de alguém". Vinda do latim "denigrare", o sentido literal é "tornar escuro". Nada a ver com raça. Mesmo se tivesse origem racista, o uso contemporâneo do termo não tem. Ninguém pensa em raça quando usa "denegrir". O sentido é sempre "difamar", "falar mal de alguém".

Logo, ver racismo nessa palavra é uma alucinação. Um delírio de intelectuais que buscam criar um paraíso igualitário a partir do mundo das ideias desconsiderando o mundo real.

Estamos criando uma sociedade neurótica e, no limite, paranoica. Estimulando sensibilidade excessiva através da ignorância em vez de mobilizar potencialidades através do conhecimento. Um perigo, principalmente para os mais jovens, e esse é o lado mais perverso da obsessão pelas palavras. Além disso, fornece-se munição gratuita para reacionários que usam esses delírios para desmerecer toda a luta antirracista, feminista etc. Até quando vamos fingir que faz sentido proibir palavras em um país no qual chacinas em comunidades pobres fazem parte do cotidiano? Até quando vamos bater palma para alucinações enquanto somos estapeados pela realidade?

* Mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. 29.mai.2022 

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/lygia-maria/2022/05/delirios-do-politicamente-correto.shtml


Depois de 'Top Gun', pensei em sequestrar um avião só para continuar a festa

 João Pereira Coutinho*

cena de filme
 
 
Hoje, Tom Cruise parece meu filho, embora a tentação
fosse dizer que ele parece meu neto 

Algo se passa com Tom Cruise. Quando o conheci, no primeiro "Top Gun", ele parecia um irmão mais velho.

Hoje, parece meu filho, embora a tentação fosse dizer meu neto. Será que o verdadeiro Tom Cruise vai envelhecendo no retrato, como o personagem de Oscar Wilde, enquanto o Tom público mantém a aparência dos verdes anos? Talvez.

A hipótese é ainda mais perturbante quando falamos do novo "Top Gun: Maverick". É excelente. É horrível. Alguém foi ao ano de 1986 e trouxe o passado para 2022, inclusive os acordes de guitarra elétrica. (Infelizmente, Kelly McGillis não veio junto.)

Alguns pormenores, admito, são produto da nossa circunstância: a ameaça, agora, não são MiGs soviéticos, mas apenas porque o filme foi rodado antes da invasão da Ucrânia. Os roteiristas e produtores optaram por programas nucleares subterrâneos e clandestinos, em óbvia referência ao Irã.

Mas a nostalgia é tão intensa que os méritos do filme, às vezes, são submergidos pela sensação de irrealidade que ele desperta, como se fosse um objeto de um outro planeta.

Não é caso único: se existe fenômeno que tem crescido nos últimos anos é a quantidade de filmes ou séries que nos levam de volta para as décadas de 1980 e 1990.

Tempos atrás, o Wall Street Journal explicava que esse revivalismo pode vir de duas formas. A primeira, visível em qualquer plataforma de streaming, é o sucesso de séries como "Friends" ou "Sabrina, Caçadora de Vampiros", que continuam conquistando velhas e novas plateias.

A esses dois exemplos podemos acrescentar obras-primas como "Frasier" ou "Seinfeld", e casos terminais como "Alf" ou "Barrados no Baile".

Mas o passado também pode surgir com remakes que não lembram ao Diabo. Antes de assistir a "Top Gun", um dos trailers que passou na tela da sala prometia um novo "Jurassic Park - Parque dos Dinossauros" para breve, com todos os atores que estrelaram o primeiro.

É a metáfora perfeita para a febre nostálgica: ir à pré-história buscar o DNA de um dinossauro e recriá-lo no presente. Como explicar essa febre?

Sem surpresas, os especialistas falam na tentação escapista: o mundo de hoje não se recomenda —pandemia, guerra, polarização política. Um portal para o passado sempre consola as almas assustadas.

Concordo, até certo ponto. No passado, as ameaças também existiam. Só que eram reconhecíveis e previsíveis, até mensuráveis: na Guerra Fria, a destruição nuclear poderia ser mútua e assegurada, mas era, ao mesmo tempo, antecipada e impensável.

O 11 de Setembro destroçou essa previsibilidade: as ameaças vinham agora de uma caverna medieval, algures no Oriente Médio, e não do interior do Kremlin.

A crise financeira de 2008 aprofundou o quadro: por razões insondáveis ao cidadão comum, empregos e poupanças de uma vida desapareciam da noite para o dia —e a ruína, como nas tragédias gregas, descia inexoravelmente sobre os mortais.

A pandemia só piorou essa sensação de vulnerabilidade: nada assusta mais os homens modernos do que a "tirania da contingência", ou seja, a evidência dolorosa de que não controlam tudo. Muito menos um bicho microscópico que, em dois anos e meio, terá matado tanto como os nazistas nos campos de extermínio.

Para fechar o cortejo, a guerra na Ucrânia. Não pela guerra em si; mas pela banalização da ameaça nuclear, como se o uso da bomba, mil vezes admitido por Putin e seus capangas, fosse agora um
passeio no parque.

Perante essas brutalidades, como resistir ao charme dos anos heroicos? Como resistir a um universo em que o destino está nas nossas mãos e a vitória sobre as forças do mal é uma questão de tempo?

Eu não resisti: naquele sábado, enquanto amaldiçoava o rosto de Tom Cruise, soltei a minha "masculinidade tóxica" e ela lá foi, abanando a cauda, a centenas de quilômetros por hora. Bebi, praguejei, disparei, destruí.

No final do filme, tão exausto como os personagens da história, ainda pensei em rumar até o aeroporto de
Lisboa, só para sequestrar um avião e continuar a festa. Mas a idade não perdoa.

No dia seguinte, nas primeiras horas da manhã, o indomável capitão Little Couto acordou derreado, gemendo, com dores no corpo e a cabeça mais pesada do que um caça F-35.

Era Covid.

*
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa. 
 
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2022/05/depois-de-top-gun-pensei-em-sequestrar-um-aviao-so-para-continuar-a-festa.shtml

Homeschooling

Janice Theodoro da Silva*

Projeto de “homeschooling” no Brasil coloca um muro entre a família e o  mundo social – Jornal da USP

As ondas de doenças infecciosas no Brasil, iniciadas em 2018, continuam contaminando, em média, 25% da população. A primeira onda, em 2018, foi a dos alienados. A segunda onda chegou com a nave dos insanos. Morreu muita gente. A terceira reuniu os dementes, contaminados pelo vírus do ódio e da destruição do Estado e, a última, a do homeschooling, envolveu o desassossego de muitas famílias brasileiras.

Homeschooling é tema sobre o qual grande parte dos especialistas está de acordo entre si. A ideia não é boa, em princípio em razão de isolar a criança do convívio social. Mas é importante ressaltar: escola é uma coisa, família é outra. Separar para aproximar o caminho a ser percorrido.

Vários educadores renomados e com experiência na área educacional analisaram o tema e justificaram a inadequação do homeschooling à realidade brasileira citando, inclusive, problemas ligados à alimentação e à violência familiar. É sugestivo acrescentar, à discussão pedagógica, uma abordagem política.

Qual a origem deste hábito, homeschooling? Onde encontramos seus fundamentos? No exclusivismo da percepção dos membros de uma só família? No receio da diferença entre os humanos? Na impossibilidade de uma vida em uma comunidade política presidida pela liberdade de expressão e discussão?

Dentre os motivos destaco alguns deles. O primeiro se refere à forma de tratar “verdades”. Palavra com protagonismo em tempos de fake news. A suposição, por parte de algumas famílias, da existência de uma só verdade justifica os pais desejarem manter os filhos distantes de questionamentos envolvendo as suas convicções. A sensação de conhecer “a verdade única” e o fato de existir muita violência fora de casa justificam o esforço dos pais de proteger e isolar os filhos do perigo.

O segundo problema diz respeito à formação dos professores. As transformações ocorridas no mundo contemporâneo e a necessidade de preparar os jovens para os desafios de gênero, novas tecnologias e emprego (entre outros) exigem do professor e da escola um enorme preparo emocional, científico e cultural. Infelizmente grande parte dos professores brasileiros não recebeu formação adequada para os imensos desafios da atualidade e sobre eles recai a exigência de construir o difícil equilíbrio entre os estudantes, as famílias, a escola, a tecnologia e o mundo conectado nas redes.

O terceiro desafio diz respeito à incapacidade do Estado, por falta de recursos e qualificação da mão de obra, de montar estruturas para a conciliação entre família, escola e sociedade. O desafio é imenso, se, de fato, a intenção for conciliar. Por um lado, a família quer respeito aos seus pressupostos educacionais e, por outro, a escola tem que conciliar as diferenças entre as famílias, os professores e o sistema educacional.

É fácil? Não.

A importância da conciliação é enorme. Trata-se de um ensaio geral dos conflitos que permeiam a sociedade brasileira e o mundo. O primeiro ensaio da vida em sociedade é marcado pelo conflito e conciliação experimentados na escola. O tema (conflito e negociação) permeia não só os vínculos escolares, como se constitui em pauta de todas as relações em nível pessoal, nacional e internacional. A importância da escola no exercício desta prática é imensa. Inaugura o caminho em direção a uma vida civilizada. Cabe à escola o papel de introduzir os estudantes e suas famílias no trato com as fronteiras dos diferentes territórios familiares (atualmente muito distintos) montando as bases da sociedade civil.

A negociação é uma arte própria da política. A negociação se ensina e se aprende, da mesma forma com que ensinamos e aprendemos física. A arte da retórica, da definição de hipótese, da argumentação e comprovação, a montagem do contraditório e a solução dos impasses são fruto de um extenso aprendizado. Nascemos com mais habilidade para brigar do que para conciliar. Em caso de dúvida, observem as crianças.

No Brasil, os brasileiros conheceram, ao longo de sua história, o pensamento único, o autoritarismo e seus heróis. Pobres e ricos foram preparados, cotidianamente, para mandar e obedecer, apenas. A frase: “Você sabe quem está falando?” tem origem em solo brasileiro.

A escola e a simples alfabetização foram, por anos, deixadas de lado. É justo cobrar das escolas com tão poucos recursos e professores mal pagos, criar as condições para resolver os imensos conflitos propostos pela modernidade?

É o que está acontecendo.

O problema ficou grande demais e os pais das crianças sem condições de enfrentar os desafios do contraditório postos no mundo atual resolveram: “Pelo amor de Deus fiquem em casa, não quero mais problemas no meu dia a dia”.

A proposta de homeschooling é um grito de desespero das sociedades democráticas, educadas democraticamente apenas na sua cúpula, mas autoritárias nas suas extensas bases. Fala-se muito em contraditório. Mas enfrentar o contraditório numa reunião de pais, em escolas de periferia, com professores nem sempre habilitados para este enfrentamento, não é fácil.

A dúvida, precioso ingrediente da razão, aliada da dedução, da experiência e da comprovação, é ingrediente sofisticado na vida escolar. É fruto do conhecimento, das práticas científicas e da razão. Precisa ser ensinada e praticada cotidianamente.

É fácil fazer a pergunta certa diante de um problema? É fácil defender a razão?

Não. Precisa de aprendizado em filosofia.

A narrativa desenvolvida no ambiente familiar é voltada para as emoções, afetos cotidianos, tradições e hábitos próprios à cada família. Já na escola as práticas retóricas visam ao debate, a elaboração de argumentos, o respeito ao contraditório e o uso da razão. Crianças na escola participam de uma microexperiência do viver em sociedade, na pólis. Elas descobrem, brincando, que os vizinhos, mesmo aqueles de hábitos diferentes, não são inimigos. A escola, por meio dos professores, patrocina, administra e protege o respeito à diferença criando as condições para um convívio sadio, sem exclusões.

O professor pode explicar, por exemplo, a sofisticação que envolve comer com pauzinhos sem levar à mesa instrumentos cortantes; é costume no Oriente, onde a faca, por educação, não deve ser levada à mesa. Ou, ainda, o hábito, delicado, de levar o seu próprio guardanapo ao ir comer na casa de amigos. Conhecer e viver amigavelmente tanto com os vizinhos, defensores da floresta, como com os parceiros comerciais sejam eles chineses ou indianos (entre outros), é tarefa importante na montagem de um mundo civilizado e globalizado.

As descobertas proporcionadas pelo convívio na escola são muitas. Vão além de ensinar a ler, escrever e contar. A escola nos ensina a viver em sociedade, reconhecer o justo para além da família, compreender proporções, avaliar, se existe ou não, a equidade e a isonomia no país em que se vive.

A raiz da democracia é a amizade. Ela é a artesã do tecido social. O tear é a escola capaz de fazer a trama entre a família, os amigos e a escola, compatibilizando velhos e novos hábitos. Só com o auxílio do diálogo entre os amigos estudantes, a família e a escola, é possível diminuir a tensão dos problemas fronteiriços.

Os desafios do mundo contemporâneo são imensos e exigem a formação de um novo profissional capaz de conciliar as partes em conflito. Isolar os estudantes em casa, proibir amizades entre adolescentes é colocar lenha na fogueira. A família fechada tende à exclusão, do amigo, do emprego, da participação política. Não raro silencia ou desqualifica o Outro, o diferente, o forasteiro, o estrangeiro com feições e hábitos distintos. A família tende a preservar a autoridade do patriarca, garantir o seu poder, a sua riqueza e, muitas vezes, sem perceber, estimula o medo à diferença.

Viver envolve risco?

Sim?

É possível viver isolado?

Difícil.

Precisamos da sociedade para sobreviver, expandir os afetos, fazer amigos, arranjar emprego, praticar esportes, nos divertir e rir. Se precisamos da vida em sociedade, é melhor saber lidar com ela. Reconhecer os lugares amigáveis, os perigosos e, especialmente, ter consciência do projeto de vida possível de levar à frente.

A escola representa a pólis, a vida na cidade, lugar do ajuste, difícil, entre as partes. A variedade de professores em uma escola, de conhecimento e de sensibilidades variadas permite ao estudante encontrar distintos modelos de identidade. E, entre inúmeras variáveis, por meio da prática do seu livre-arbítrio, escolher os amigos e qual será o desenho, possível, para o seu projeto de vida.

Ser livre é perigoso?

Sim.

Vale a pena caminhar?

Do meu ponto de vista, sim.

Trata-se de um exercício, longo, de fineza de espírito.

* Professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

Foto da Internet

Fonte: https://jornal.usp.br/?p=521214