segunda-feira, 31 de outubro de 2022

A chama da utopia

 Por

 

 Darcy Ribeiro, em sua casa no Rio de Janeiro, em registro de 1995
Luciana Whitaker / Folhapress

Celebração do centenário de Darcy Ribeiro evidencia a contribuição do antropólogo para a sociologia e a educação


Em uma de suas últimas entrevistas, o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) relatou que fugiu do hospital onde se submetia a tratamento contra um câncer para terminar o livro que considerava o coroamento de sua obra: O povo brasileiro (Companhia das Letras), publicado em 1995. Na mesma entrevista, reconhecia ser um homem de “muitas peles”: foi etnólogo indigenista, antropólogo, educador, gestor público, político militante e romancista. Mas dizia ter fracassado em sua missão de tornar o Brasil aquilo tanto que “poderia ser”.

No centenário de seu nascimento, que vem sendo lembrado em todo o país, seu legado tem sido celebrado. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) declarou 2022 “Ano comemorativo Darcy Ribeiro” e programou vários eventos. Em março, o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP) realizou um seminário sobre sua influência na educação brasileira. A Universidade de Brasília (UnB), da qual o antropólogo foi um dos fundadores, vinculou as comemorações de seus 60 anos ao centenário de seu primeiro reitor. No campo editorial, o livro autobiográfico Testemunho, lançado originalmente em 1990, está sendo republicado pela editora Record, com prefácio do jornalista Eric Nepomuceno. A editora Elefante, por sua vez, lança Os futuros de Darcy Ribeiro, organizado pelo sociólogo argentino Andrés Kozel, da Universidad Nacional de San Martín (Unsam), e pelo cientista político Fabricio Pereira da Silva, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

No auditório Dois Candangos, Darcy participa da inauguração da UnB, em abril de 1962Arquivo Central da Universidade de Brasília

“Darcy Ribeiro é uma figura fascinante e um dos autores latino-americanos que projetaram mais futuros. Em alguns dos textos, ele parece comentar em voz alta as alternativas, utópicas e distópicas, para o Brasil e a América Latina”, observa Pereira da Silva. “Este é um momento excelente para reexaminar suas ideias, suas utopias e projetos.”

Nascido em Montes Claros (MG), Darcy graduou-se em ciências sociais na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1946, sob orientação do etnólogo alemão Herbert Baldus (1899-1970). Baldus indicou-o para trabalhar com o marechal Cândido Rondon (1865-1958) no Serviço de Proteção ao Índio (SPI), onde ficou de 1947 a 1955. Nesse intervalo, dedicou-se à etnografia de povos indígenas, entre eles os Kadiwéu, os Kaingang e os Bororo. Com os irmãos Cláudio (1916-1998) e Orlando Villas-Bôas (1914-2002), participou da criação do Parque Indígena do Xingu, em 1952. A partir dessa experiência, publicou seus primeiros livros, como Línguas e culturas indígenas no Brasil e Arte plumária dos índios Kaapor, ambos de 1957.

O antropólogo antes da mesa redonda “Educação: Território livre ou ocupado?”, na SBPC, em São Paulo (1988)Niels Andreas / Folhapress

“Foi na atuação de campo, como profissional do SPI, que ele desenvolveu seus conceitos sobre a questão indígena e o povo brasileiro. As bases teóricas de sua obra foram em grande parte constituídas nesse período”, afirma a historiadora Carolina Arouca Gomes de Brito, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Em relatório apresentado à Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Educação e a Cultura (Unesco), em 1952, Darcy criticou a ideia de que ocorria uma pacífica assimilação dos indígenas à população brasileira, mostrando que a formação do Brasil passava pelo extermínio dos povos originários.

Sua carreira de educador teve início na Escola Brasileira de Administração Pública, da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro, onde durante dois anos ensinou etnologia brasileira. Na mesma época, participou da fundação do Museu do Índio, em 1953, e, dois anos mais tarde, da criação do primeiro curso de pós-graduação em antropologia cultural no Brasil. Ao deixar o SPI, lecionou na Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nesse período, desenvolveu trabalhos com o pedagogo Anísio Teixeira (1900-1971), uma das principais referências em educação no Brasil e defensor do ensino básico integral (ver Pesquisa FAPESP n° 303). Sua influência perduraria por toda a trajetória de Darcy Ribeiro e se concretizaria no projeto dos Centros Integrados de Educação Pública (Ciep), escolas de tempo integral criadas no Rio de Janeiro nos anos 1980. Na época, o governador era Leonel Brizola (1922-2004) e Darcy seu vice.

No exílio, Darcy dedicou-se ao ambicioso projeto de uma “antropologia das civilizações”

A aproximação entre Darcy e Brizola se deu na década de 1960, quando o antropólogo mineiro ingressou na política nacional. Foi ministro da Educação no período parlamentarista do governo João Goulart (1919-1976). Na volta ao presidencialismo, chefiou o Gabinete Civil da Presidência da República. Após o golpe de Estado, em 1964, teve seus direitos políticos cassados. Durante a ditadura militar (1964-1985), o antropólogo viveu 12 anos fora do Brasil. Foi um período determinante para a consolidação de seu pensamento, segundo o próprio Darcy, que se referiu ao exílio como o momento em que se descobriu latino-americano. Nos países pelos quais passou – Uruguai, Venezuela, Chile, Peru, Costa Rica e México –, participou de projetos de criação e reforma de universidades, além de lecionar em diversas instituições.

No Uruguai, Darcy foi apresentado à obra do sociólogo e historiador Manoel Bomfim (1868-1932). O autor de A América Latina: Males de origem (Garnier, 1905) se tornou uma de suas principais referências, por se contrapor às teorias sociais e raciais de seu tempo ao afirmar que a causa dos problemas do Brasil não era a diversidade étnica, mas a própria lógica da colonização. “Bomfim escrevia na época do eugenismo, mas já rebatia os argumentos baseados na inferiorização de raças”, aponta a socióloga Adélia Miglievich-Ribeiro, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). “Também enfatizava que o caminho para superar qualquer atraso estava na capacidade de nos emanciparmos do colonialismo e nos afirmarmos como nação soberana. Propunha, assim, um projeto amplo de educação nacional.”

No território do atual Mato Grosso do Sul, o antropólogo com pintura kadiwéu, em 1947Fundação Darcy Ribeiro

No exílio, Darcy se dedicou ao ambicioso projeto intelectual de uma “antropologia das civilizações”. Em 1968, publicou O processo civilizatório (Civilização Brasileira). Em 1970, As Américas e a civilização (Civilização Brasileira) e Os índios e a civilização (Vozes). Ainda como parte do mesmo impulso teórico, lançou Os brasileiros: Teoria do Brasil (Vozes, 1972) e O dilema da América Latina (Paz e Terra, 1978). Em As Américas e a civilização, o antropólogo propõe uma classificação das populações do continente de acordo com a relação que tiveram com a colonização. Grupos humanos que puderam simplesmente reproduzir seu modo de vida europeu do outro lado do Atlântico, como no norte dos Estados Unidos, no Canadá e em partes da Argentina, são denominados “povos transplantados”. Os descendentes dos impérios pré-colombianos, que se encontram sobretudo no México e no Peru, são “povos testemunhos”.

Há, por fim, os “povos novos”, em países como Cuba, Venezuela, Colômbia e Brasil. Esses são formados por um processo de transmutação das antigas identidades. Essa ideia reaparecerá em O povo brasileiro na forma da “ninguendade”, conceito que descreve a formação da população brasileira a partir do encontro violento entre europeus e os povos originários. Esses últimos procuravam transformar os recém-chegados em parentes ao promover casamentos entre colonizadores e mulheres indígenas – o chamado “cunhadismo”. Os filhos dessas relações, no entanto, renegavam a cultura das mães e aspiravam à dos pais, que não estava acessível para eles, segundo o antropólogo. A mesma violência ocorreria mais tarde entre os africanos trazidos à força, impedidos de dar seguimento às suas linhagens na nova terra.

“O povo brasileiro conta uma história de sofrimento terrível: colonialismo, dizimação dos negros e indígenas, violência contra a mulher, tomada de terra, destruição de patrimônios culturais”, diz Miglievich-Ribeiro. “Darcy tinha a chama da utopia e acreditava que dessa ninguendade nasceria algo novo. Mas isso não acontece naturalmente. Na sua visão, só pela luta política podemos superar a condição de subalternidade.”

Em 1949, entre os Urubu-Kaapor, no MaranhãoFundação Darcy Ribeiro

A crítica ao colonialismo, a análise dos povos latino-americanos e a valorização do ponto de vista indígena fazem da obra de Darcy Ribeiro uma fonte de inspiração para pesquisadores do campo de estudos pós-coloniais e decoloniais, de acordo com Pereira da Silva, que cita como exemplos o semiólogo argentino Walter Mignolo e a teórica cultural norte-americana Gloria Anzaldúa (1942-2004). “São releituras e apropriações, porque quando ele publicou esses termos não eram usados. A tendência ao evolucionismo e ao eurocentrismo de seus primeiros anos deu lugar, no exílio, a uma visão mais diversificada, em que a América Latina aparece como um polo civilizacional”, afirma.

Pereira da Silva também identifica a influência de Darcy Ribeiro nas concepções da América Latina que enfatizam o caráter plurinacional do continente e o direito dos povos originários à autodeterminação. Em seus trabalhos de juventude, o antropólogo afirmava que o avanço da colonização e a mestiçagem condenariam os indígenas ao desaparecimento. Na década de 1970, entretanto, começou a identificar a emergência de movimentos de resistência e afirmação da identidade dos indígenas em vários países, inclusive no Brasil.

“Ele vê que os povos indígenas desenvolvem identidades nacionais. Não vão desaparecer. Então passa a pensar em termos de países com várias nacionalidades, como federações. Isso antecipa a discussão da plurinacionalidade que se desenvolverá na Bolívia e no Equador, desembocando em processos constitucionais como o que ocorre hoje no Chile”, diz.

Em 15 de março de 1995, quando recebeu o título de doutor honoris causa da instituição, o campus da UnB passou a se chamar Darcy RibeiroArquivo Central da Universidade de Brasília

Para Miglievich-Ribeiro, embora Darcy adotasse modos de pensar que o diferenciavam das principais correntes do pós-colonialismo, como a pretensão de explicar fenômenos universais, o núcleo de seu projeto é semelhante ao de outros precursores dessa vertente, como os martinicanos Frantz Fanon (1925-1961) e Aimé Césaire (1913-2008). “Todos tentaram criar uma narrativa baseada nos que viveram a experiência da exploração colonial”, resume. “O que os une é a compreensão de que os povos latino-americanos foram plasmados pelo colonialismo. São estudiosos que não aceitam o universalismo europeu como explicação do mundo.” Em 1976, Darcy Ribeiro retornou ao Brasil e abriu uma nova vertente em sua obra: a de romancista. Publicou Maíra (Brasiliense), romance fortemente ancorado em sua experiência como etnólogo. Seguiram-se O mulo (Nova Fronteira, 1981), Utopia selvagem (Nova Fronteira, 1982) e Migo (Guanabara, 1988).

Apesar de ter sido reitor, fundador e reformador de universidades, Darcy viveu a maior parte de sua carreira fora de instituições universitárias brasileiras. Porém jamais deixou de refletir sobre seu projeto para o ensino superior. Publicou livros como A universidade necessária (Paz e Terra, 1969) e La universidad latinoamericana (Biblioteca, 1971), em que expunha seu projeto baseado em interdisciplinaridade, investimento em pesquisa científica avançada, compromisso social e participação do corpo discente na tomada de decisões.

Brito, da Fiocruz, descreve o projeto da UnB como “centro multidisciplinar de formação acadêmica, preceito hoje ainda considerado de vanguarda no cenário das universidades brasileiras”. De acordo com Pereira da Silva, o projeto de Darcy para as universidades não vingou. Ainda assim, instituições como a Universidade Federal do ABC (UFABC) e a Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila), em Foz do Iguaçu (PR), incorporaram parte de suas ideias. “Essas instituições se inspiraram no projeto da UnB, abortado pelo golpe de 1964”, diz. Entre as inovações estão o ciclo básico no início da graduação e o formato de institutos interdisciplinares, em vez de departamentos dedicados a uma disciplina clássica.

Como vice-governador do Rio, entre 1983 e 1987, além dos Ciep projetou a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), sediada em Campos dos Goytacazes, que seria fundada em 1991. Nesse mesmo ano, foi eleito senador pelo PDT, cargo que ocupou até sua morte. Darcy Ribeiro foi casado com a antropóloga Berta Gleizer Ribeiro (1924-1997) entre 1948 e 1975 e com a designer Claudia Zarvos de 1978 a 1990.

  Edição 320 out. 2022

Artigos científicos
BRITO, C. A. G. de. Integração não significa assimilação. O estudo de Darcy Ribeiro para a Unesco na década de 1950. Acervo. v. 34, n. 2. 2021.
MARTINAZZO, C. J. et al. A atualidade do diagnóstico e da crítica de Darcy Ribeiro (1922-1997) à educação brasileira. Cadernos de História da Educação. v. 19, n. 2. 2020.
MIGLIEVICH-RIBEIRO, A. e ROMERA JR., E. Revista Interinstitucional Artes de Educar. v. 3, n. 2. 2017.
MÜLLER, H. D. C. M. A universidade necessária: Desenvolvimento nacional e produção científica. Rebela. v. 10, n. 1. 2020.
OLIVEIRA, J. P. Proteger os índios e descolonizar a pesquisa: Darcy Ribeiro como antropólogo. Revista Mundaú. n. 8. 2020.

Livro
KOZEL, A. e PEREIRA DA SILVA, F. (orgs.). Os futuros de Darcy Ribeiro. São Paulo: Elefante, 2022.

Fonte:  https://revistapesquisa.fapesp.br/a-chama-da-utopia/?utm_source=newsletter&utm_medium=email

Não existe solução para a sensação de incerteza e desorientação moderna

 Luiz Felipe Pondé*

A ilustração figurativa de Ricardo Cammarota foi executada em técnica manual com lápis grafite sobre papel texturizado e colorizada no Photoshop em tons de roxo e preto sobre fundo branco. A imagem, horizontal, da esquerda para a direita, mostra um ventilador antigo e, a sua frente, entre sinais de vento, a figura de um pequeno homem, flutuando de costas e se transformando em uma revoada de pássaros que se dispersam em vôo se sobrepondo a imagem estilizada de um perfil “esfumaçado” de um ser humano que está com uma das mãos apoiada por detrás de um vidro.
Ilustração de Ricardo Cammarota para coluna de Luiz Felipe Pondé - Ricardo Cammarota

A pluralidade de valores aniquilou a ilusão de que haja, como se diz em filosofia moral, 'o bem' buscado de forma unívoca

As eleições de 2022 nunca vão acabar. O Brasil viverá em agonia política de forma permanente, inclusive com a religião entrando na luta pelo espaço político, como a Europa viveu séculos atrás. Religião e ódio sempre foram parceiros na história. Mesmo que esse ódio seja um ódio bem-intencionado.

As eleições, cada vez mais, serão como gladiadores numa arena se matando, enquanto o povo berra à sua volta.

Não vou falar de política hoje. Quero chamar a atenção para uma ideia de um filósofo húngaro-americano, John Kekes, no seu livro "Wisdom" (sabedoria), sem tradução no Brasil. Para pensar a política hoje, e tudo mais, faz-se necessário que reconheçamos as condições que a modernidade nos impõe. Quais são essas condições da modernidade?

A modernidade, cantada em prosa e em verso, é um período histórico —grosso modo, os últimos 300 anos— marcado por uma utopia da vida racional e científica, da gestão política e social dos problemas do mundo, da tentativa de superação das clivagens religiosas dentro do corpo social, da aceleração do tempo nas relações cotidianas devido ao capitalismo e à Revolução Industrial, do domínio da agenda econômica sobre as outras realidades da vida, da crença de que somos indivíduos fazendo escolhas, da saturação da informação nos meios de comunicação —conhecido como "mídias".

Existem também rupturas estéticas que impactam uma elite de ilustrados. Essas rupturas estéticas só aumentam em impacto quando passam à moda, ao design industrial e ao consumo.

Falar de condições da modernidade é apontar como ela condiciona nossa vida. Nossa vida moderna se dá dentro de parâmetros —ou condições— como os descritos acima. Ninguém escapa desses parâmetros. Você pode se dar melhor ou pior dentro do jogo determinado por essas regras, parâmetros ou condições.

Mas há outras. A modernidade gerou uma enorme incerteza na vida. Gerou também uma enorme pluralidade de valores —não gosto muito dessa expressão "valores", que é quase tão vazia quanto "energia", mas vá lá. A pluralidade de valores morais significa que existem tantos valores positivos e negativos quanto os atores sociais quiserem.

Quase um bazar de valores. Valor hoje é coisa de branding e marketing, logo, de consumo. A modernidade também gerou uma utopia de que a vida iria progredir de forma plena —o que não aconteceu, afora os avanços tecnocientíficos e de gestão que geraram contradições éticas e políticas enormes. A tal "ambivalência" de Zygmunt Bauman (1925-2017).

A pluralidade de valores aniquilou por completo a ilusão de que exista, como se diz em filosofia moral, "o bem" a ser buscado de forma unívoca. "Ética", ainda que tenha se transformado num hit de vendas no mundo corporativo, está quase lá, em vacuidade, junto com "energia" e "valores".

Dizer ética hoje é quase dizer nada. Ou é dizer "compliance", que significa evitar passivos trabalhistas de conduta dos colaboradores que atrapalham, por consequência, os negócios e o branding das empresas —e blábláblá.


A pluralidade de valores associada à incerteza —ninguém sabe para onde vai a política, o mercado, a educação, a ciência, as mídias, todos atravessados por essa tal pluralidade— gera um mal-estar específico que nos condiciona de modo disruptivo —isto é, a utopia moderna não se realizou. Esse condicionamento é ansiogênico, o que é bom negócio para o mercado da saúde mental. Gera contencioso, o que é bom
para os advogados e os juízes.

Não existe solução para sensação de incerteza moderna. Quem disser o contrário mente. A revista Foreign Affairs, na sua edição de setembro e outubro, trata da "era da incerteza" em geopolítica.

Suspeito de que a modernidade seja um surto psicótico do Homo sapiens que sempre foi monstruosamente contido pelo meio à sua volta e que agora atingiu um nível de potência ativa nunca visto antes. Somos um trem desgovernado em aceleração crescente, se deslocando em direção ao nada, como me disse certa feita o filósofo alemão Peter Sloterdijk, em sua casa, enquanto fumávamos charutos.

* Escritor e ensaísta, autor de "Notas sobre a Esperança e o Desespero" e "Política no Cotidiano". É doutor em filosofia pela USP.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2022/10/nao-existe-solucao-para-a-sensacao-de-incerteza-e-desorientacao-moderna.shtml

domingo, 30 de outubro de 2022

Cem anos depois da Marcha sobre Roma, fascismo continua influenciando populistas

 Fabio Gentile*

Fascistas da Toscana marcham em direção a Roma em out. de 1922 Ann Ronan Picture Library/Photo12 via AFP

Construção de 'inimigos da nação' e uso de meios de comunicação de massas aproximam Bolsonaro de experiências fascistas


[RESUMO] Evento que mudou o rumo da história no século 20, a Marcha sobre Roma levou Mussolini ao poder cem anos atrás e inaugurou a era fascista de ditaduras autoritárias que desembocaria na Segunda Guerra. Embora hoje a conjuntura seja diversa, elementos do fascismo clássico permanecem em populistas e autoritários mundo afora, a exemplo de Bolsonaro no Brasil, como o uso da comunicação para atiçar vastas camadas populares contra as instituições e os discursos moralistas que forjam os "inimigos da nação".

Há cem anos, ocorria na Itália a Marcha sobre Roma, considerada o marco zero da "revolução fascista". Refletir sobre esse evento histórico é fundamental, pois ele não apenas alterou a história do século 20 como ainda impacta os nossos dias.

O projeto fascista se apresentou ao mundo como uma via alternativa para resolver um conjunto de questões da sociedade de massa, sobretudo as sociais, diante das dificuldades do Estado liberal de lidar com o conflito entre capital e trabalho produzido pela industrialização. Tentava, ao mesmo tempo, frear os avanços dos partidos socialistas e comunistas.

Benito Mussolini (dir.) recebe Adolf Hitler em Veneza em 1934 - Ann Ronan Picture Library/Photo12 via AFP

Nesse cenário turbulento, o fascismo deu uma resposta bem a seu jeito: os camisas-negras, que formavam a milícia violenta do grupo, ocuparam pontos estratégicos de Roma em 28 de outubro de 1922. Diante da possibilidade de um golpe de Estado, o rei Vitor Emanuel 3º nomeou Benito Mussolini primeiro-ministro do novo governo, o primeiro da era fascista.

Não há dúvida de que o fascismo foi filho da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), da qual herdou a violência brutal e o culto da busca pela "bela morte" por muitos dos jovens combatentes massacrados nas trincheiras.

Após a guerra, grupos de veteranos levantavam a bandeira do nacionalismo nas praças das grandes cidades italianas. Era uma geração frustrada, porque a Itália, mesmo tendo ganhado a guerra, não recebeu os territórios divididos no Pacto de Londres e no armistício com a Áustria-Hungria ("a vitória mutilada").

Nas raízes do fascismo, confluem ainda grupos milicianos paramilitares ("squadristi") compostos também por ex-combatentes da Grande Guerra.

Os fascistas tiveram um desempenho feroz no combate aos socialistas, um dos fatores que levaram o rei Vitor Emanuel 3º, as elites liberal-conservadoras, os setores industriais, os grandes latifundiários e a Igreja Católica a olhá-los com interesse ou mesmo financiá-los. Acreditavam que, uma vez controlados os conflitos sociais por meio da força, o fascismo sumiria ou voltaria aos limites de um conservadorismo um pouco mais moderado. Como hoje sabemos, estavam errados.

O fascismo pretende mobilizar as massas absorvendo-as no Estado totalitário. É uma novidade que só pode ser explicada se o colocarmos no cerne da modernidade do século 20.

Quando o rei Vitor Emanuel 3º esteve diante da escolha de assinar o decreto de estado de sítio, mobilizando o Exército contra o avanço das milícias fascistas que marchavam sobre Roma, ou convidar Mussolini para compor um novo governo, ele perguntou ao então primeiro-ministro, Luigi Facta, se os militares eram fiéis à monarquia.

Facta respondeu que sim, mas que era melhor não arriscar, porque a conjuntura político-social do país era muito delicada. Não indicar Mussolini para o cargo de chefe do governo poderia ter deixado a Itália à beira de uma guerra civil. O movimento socialista era forte e, no ano anterior (1921), havia criado o Partido Comunista Italiano.

A Marcha sobre Roma se tornou rapidamente objeto de atenção em nível global. Logo em seguida, a ditadura fascista se vendia ao mundo, ainda em crise pela Primeira Guerra, como uma terceira via, alternativa ao Estado liberal e ao Estado comunista criado pela Revolução Russa.

O fascismo, assim, tornou-se o modelo para todas as ditaduras entre as duas guerras mundiais e para as ditaduras militares da Guerra Fria: não apenas o nazismo, mas também o franquismo espanhol, o salazarismo português, o peronismo argentino, a Era Vargas e o regime militar no Brasil.

Diante desse quadro e em meio ao centenário da Marcha sobre Roma, é inevitável perguntar se há condições para uma volta do fascismo. Acredito que não, pensando na forma clássica do entreguerras. Contudo, é preciso destacar os elementos de continuidade e ruptura do fascismo histórico e dos líderes e movimentos neofascistas, autoritários e populistas, da conjuntura atual.

O que aproxima líderes populistas como Jair Bolsonaro, Matteo Salvini e Giorgia Meloni (Itália), Marine Le Pen (França), Viktor Orbán (Hungria) e Donald Trump (EUA) ao fascismo é, sem dúvida, o uso dos meios de comunicação de massa para mobilizar seu eleitorado, alimentar racismo e homofobia e propagar a ideia de "inimigos da nação", dos quais eles seriam os legítimos adversários e os únicos detentores dos valores nacionais.

Os casos da extrema direita que ganhou as eleições na Itália no mês passado e o de Bolsonaro no Brasil são bem expressivos dessa tendência.

Existem, porém, diferenças essenciais. No regime fascista clássico, havia um projeto estatal robusto, a tentativa de criar um Estado totalitário ou autoritário para resolver a questão social. Já os movimentos de extrema direita de hoje se colocam na onda neoliberal de desmonte do Estado, das políticas públicas e dos direitos sociais conquistados pela classe trabalhadora ao longo de décadas de lutas.

Outra diferença é que, agora, populistas e autoritários competem regularmente nas eleições, sem recorrerem ao uso de ameaças ou violência física, mas tão logo chegam ao poder começam a esvaziar a democracia por dentro, atacando a Constituição.

Pode acontecer na Itália da primeira-ministra Giorgia Meloni e de Ignazio La Russa, presidente do Senado e ex-militante neofascista; já ocorre no Brasil com o governo Bolsonaro.

A democracia tem anticorpos para derrotar o vírus autoritário e populista? Acreditamos que sim, até porque, uma vez no poder, a extrema direita se depara com barreiras institucionais e as complexidades de uma sociedade múltipla. No pós-Guerra Fria, não teve resultados significativos.

Por outro lado, o fascismo continua a ter um charme sedutor, já que a democracia liberal está em crise, o Estado está desmontado e partidos e sindicados não conseguem representar a demanda social. As massas querem mais segurança em detrimento da liberdade. Para elas, a liberdade não é o valor prioritário.

O fascismo clássico percebeu isso na hora de organizar seus seguidores. Hoje, para nosso receio, líderes populistas e autoritários aprenderam a lição e utilizam o discurso de proteção de forma muito eficaz.

* Professor de ciências sociais da UFC (Universidade Federal do Ceará). Vai publicar o livro "Ecos do Fascismo no Brasil de Getúlio Vargas (1930-1954)" em 2023 

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2022/10/cem-anos-depois-da-marcha-sobre-roma-fascismo-continua-influenciando-populistas.shtml

Animais são bichos?

Roberto DaMatta*

'Assim, o Tom e o Jerry, bem como os “bichos” do nosso jogo do bicho, têm gostos, jeitos e truques - todos esses traços que nos tornam humanos.'  

'Assim, o Tom e o Jerry, bem como os “bichos” do nosso jogo do bicho,
 têm gostos, jeitos e truques - todos esses traços que nos tornam humanos.' Foto: Warner Bros

 

Se os animais estão presos numa suposta impassividade, bichos são ativos e podem nos tornar menos pobres


Um leitor questionou o título de minha última crônica. Animais, escreve, não são bichos. O menino Toninho falava com bichos, pois animais são parte da dicotomia irrevogável entre natureza e cultura (o dado e o construído).

Os animais são seres da natureza; mas, nos contos de fada, nos mitos e o Toninho - o menino que aprendeu gatês, cachorrês e aranhês -, a cultura ousadamente envolve a natureza. E os animais, assim humanizados, viram “bichos”.

O bicho é um animal na superfície, mas, na realidade dos mitos e das fábulas, ele é um personagem. Por quê? Basta ouvir o menino: os animais se comunicam, mas os bichos ensinam, metem medo ou despertam compaixão e respeito.

Em 1999, Elena Soárez e eu escrevemos o livro Águias, Burros e Borboletas: um Estudo Antropológico do Jogo do Bicho - no qual essa distinção era básica para o entendimento do jogo mais popular do Brasil, o do bicho.

De fato, se os animais estão presos numa suposta semipassividade, os bichos são ativos e, como revela o jogo do bicho, podem nos tornar menos pobres. Nele, os bichos mandam mensagem por meio de sonhos, acasos, por meio de um sistema de palpites.

Animais por nós simbolicamente canibalizados surgem - como diz o antropólogo Marshall Sahlins - como “metapessoas”, ocupando espaços encantados, tal como os personagens criados por Walt Disney, os quais dramatizam vidas e mundos paralelos...

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Um animal que surge num sonho falando conosco está oferecendo uma chance, de nele “acertar”, como diz a linguagem de caçada do jogo do bicho. Como bichos, eles têm “pontos de vista” e subjetividade, conforme aprendi com Eduardo Viveiros de Castro e seus alunos.

Assim, o Tom e o Jerry, bem como os “bichos” do nosso jogo do bicho, têm gostos, jeitos e truques - todos esses traços que nos tornam humanos.

Quando um animal vira bicho, eles ganham agenciamento - viram sujeitos. Tal é o caso dos 25 bichos do jogo do bicho que nos ajudam a renovar o sonho de viver num mundo menos miserável.

Para tanto, é preciso aprender a “ver” animais como nós, o bicho-humano.

Agora, caro leitor, se você não concorda, chame o seu chefe ou candidato de animal ou de bicho...

* Antropólogo social, escritor e autor de 'Fila e Democracia'.

 26/10/2022 | 03h00

Fonte: https://www.estadao.com.br/cultura/animais-sao-bichos/